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Descrição,

narrativa,

dissertação

Paulo Costa Galvão

Este trabalho se relaciona às três habilidades básicas do ato de escrever, como abordadas tradicionalmente, a fim de dar aos estudantes pistas úteis para que consigam superar a si mesmos em excelência, no que tange à escrita: descrição, narração, e desenvolvimento de argumentos. Este não é um artigo para especialistas, mas para gente de nível universitário que pretende adquirir melhor controle sobre sua habilidade de comunicar via linguagem escrita.

A composição escrita é tarefa difícil para a maioria dos alunos, mesmo àqueles em nível universitário. A razão principal para isto talvez seja a falta de habilidade natural que a maior parte das pessoas apresenta em seus discursos escritos, o que torna o ato de escrever com clareza e concisão, com coerência, coesão, uma experiência difícil para quase todos os estudantes.

Porém, com base no pensamento de Raumsol, pseudônimo de González Pecotche, (ver os livros de Logosofia) estamos certos de que os estudantes carentes de habilidade poderão aprender como conquistá-la, e aqueles que ainda não a têm desenvolvida o suficiente poderão evoluir até alcançar uma boa condição.

INTRODUÇÃO

O assunto inicial a descrição é abordado em geral, ou seja, não nos importamos com tratar descrições individualizadas, tais como "descreva sua casa", mas colocamos técnicas para descrever gêneros, ou espécies num sentido amplo. Assim, em lugar de ensinar aos estudantes "como descrever suas casas", focamos na "melhor técnica para descrever sua casa". Se você conhecer as técnicas para desenvolver uma boa descrição generalizante, estará qualificado para também usá-las em casos individuais. Os outros dois pontos narrativa e dissertação não podem ser divididos desta maneira, embora os problemas sejam enfrentados da mesma forma em todos eles, tanto em composições pequenas como em dissertações ou teses, tanto para narrar eventos simples como para os complicados. A diferença reside na complexidade do assunto que se desenvolve, dependendo da natureza das idéias criadas.

Trabalhar com abstrações, tais como "amor" ou "responsabilidade", tem sido sempre ponto vulnerável na composição escrita. Sendo quase impossível descrever nomes abstratos, recorremos a uma visão multidisciplinar: a mente humana só pode descrever "amor" na medida que ele seja parte de uma narrativa, ou de um argumento. Assim, por exemplo, quando um

rapaz age desta ou daquela maneira com relação à sua própria mãe, isto significa que ele a ama. As mães dão o melhor de si mesmas para suas crianças, sem pedir nada

... ponto no limite entre descrever e definir objetos, partilhando ambas as áreas.

As definições, por outro lado, são idéias, ou seja, podem ser divididas em argumentos.

em retorno, e isto é o amor materno

Colocamos este

*

1. Como criar um pensamento

No livro "Logosofia Ciencia y Método", Raumsol afirma:

Na verdade, os três aspectos se mesclam, à medida que penetramos neles.

Apesar de filósofos e sábios, tanto da antiguidade como das idades

e contemporânea, haverem

moderna

Quanto à dissertação e à narrativa, assim como na descrição, veremos as faculdades da mente mais usadas para realizá-las, e como criar o pensamento que se concretizará em cada uma delas.

Antes de abordar cada aspecto da composição escrita em sua essência, é preciso explicar um conceito que Raumsol introduziu na cultura atual, destinado a mudar por completo, no futuro, toda a abordagem dos fatos humanos: o conceito da diferença entre pensar e pensamento. Trata-se de uma verdade simples, e chega a estarrecer que nenhum pensador ocidental ou oriental jamais tenha chegado a ela. É claro, por sua importância é impossível tratar aqui deste conceito com toda amplidão, pois seria necessário escrever tratados de psicologia para desenvolvê-lo. Por toda a obra de Raumsol, porém, há elementos mais que suficientes para o ser humano realizar, finalmente, a função para que foi criado, partindo sempre do despertar de sua consciência mediante este conhecimento lapidar.

identificá-los, selecioná-los, e utilizá-los com lucidez e acerto. Tais entidades psicológicas animadas se constituem em forças ativas de ordem construtiva a partir do instante em que ficam subordinadas às diretivas da inteligência, ou seja, que pelo processo de evolução consciente são submetidas a uma rigorosa fiscalização que permita dispor delas a serviço exclusivo da inteligência.

usado a faculdade de pensar, nenhum deles jamais atribuiu vida própria aos pensamentos, nem declarou que pudessem reproduzir-se e ter atividades dependentes ou independentes da vontade do homem.

... pensamentos são entidades psicológicas que se geram na mente humana, onde se desenvolvem e ainda alcançam vida própria. Ensina a conhecê-los,

afirma que os

Logosofia

A

)

(

Pelo ensinamento acima, observamos que a) uma coisa é pensar, outra os pensamentos e b) os pensamentos em geral são autônomos e têm vida própria. Para um leigo no estudo da cultura criada por Raumsol, isto é difícil de entender, mas ao darmos alguns exemplos simples, veremos se tratar de um conhecimento que nenhum pensador foi capaz de descobrir, apesar de ser tão óbvio.

Quando um estudante resolve problemas de matemática, está pensando; está usando sua razão, uma das faculdades da inteligência. Um cientista que coleta

Estes exemplos acima dizem respeito à utilização da mente, das faculdades da inteligência. Vejamos agora como funcionam os pensamentos em sua fase autônoma ou seja, pensamentos que têm vida própria e passam de uma mente a outra com extrema facilidade. Uma pessoa que caminha pela rua e de repente lhe aparece uma música que fica a repetir-se em sua cabeça não está pensando, mas tem um pensamento autônomo atuando em seu sistema mental. Um fumante que propõe a si mesmo parar de fumar e cria uma série de razões para isto, está pensando usando sua função de pensar; mas quando fica um tempo sem o cigarro, vem o impulso de fumar com uma série de argumentos que lhe dão apoio. Não é possível considerar que este fumante tenha dupla personalidade. É o pensamento reagindo para não perder seu domínio sobre a mente que controla. Assim também ocorre com o viciado em corridas de cavalos ou em baralho; com as pessoas que comem por compulsão, ou que vivem tensas o dia inteiro, com os nervos à flor da pele por qualquer problema ...

Os exemplos citados são bem simples. Os cientistas procuram, inutilmente, a causa destas reações nos neurônios, apenas porque não conhecem quase nada da psicologia humana. É impossível que o vício no baralho seja causado por condicionamento físico, uma vez que não se come baralho; nem é preciso deglutir cavalos de corrida para tornar-se viciado nas corridas do jóquei

dados, com toda paciência, a respeito de algum fato natural, para induzir uma teoria geral a partir do que coletou, está usando sua observação combinada com o raciocínio, além de contar também com a intuição. Um estudante de línguas estrangeiras que memoriza uma lista de cem ou duzentas palavras, está usando outra faculdade da inteligência, a memória.

Também existem os pensamentos que controlam a mente humana o dia inteiro, tais como a impaciência, a timidez, a indisciplina mental. Muitos estudantes têm um pensamento de incapacidade que lhes atrapalha o rendimento escolar ou acadêmico. Este pensamento é extremamente nocivo. Há pessoas cuja atuação na vida é diminuída ou até anulada pela timidez, apesar de terem grande capacidade. Alguns tentam superar a preguiça mas não o conseguem, porque o pensamento domina suas mentes quase por completo. A maioria dos estudantes tenta se concentrar no que lêem ou precisam aprender, mas perdem um tempo considerável, pois a indisciplina mental os leva a desviar a atenção para mil coisas diferentes ao mesmo tempo ...

Algum leitor pode estar se perguntando se os pensamentos seriam como animais extra-físicos, e a resposta é que eles são realmente entidades com vida própria, portanto, têm energia imaterial, e usam a inteligência do homem e da mulher para cumprir seus objetivos. Para comprová-lo, basta observar o comportamento de uma pessoa que chega sempre atrasada aos compromissos, ou o de outra que tem o mau hábito de atirar lixo na rua. São hábitos nocivos que se tornaram pensamentos dominantes, portanto, controlam as mentes das pessoas. Por exemplo: um sujeito que mora a 60 km de um local e outro que mora a cinco minutos dali marcam um encontro para as nove horas. O primeiro cultivou o pensamento da

clube. Quando uma pessoa boceja num determinado lugar, outras a imitam; quando em um ônibus alguém dispara a tossir, outros também começam a tossir. Estes são exemplos simples de pensamentos que passam de uma mente a outra, e esta passagem eles realizam "com extrema facilidade", conforme o ensinamento de Raumsol.

Os pensamentos, apesar de sua imaterialidade, são tão visíveis e tangíveis como se fossem de natureza corpórea, já que, se a um ser ou objeto desta última manifestação é possível vê-lo com os olhos e palpá-lo com as mãos físicas, pode-se ver os pensamentos com os olhos da inteligência e palpá-los com as mãos do entendimento, capazes de comprovar plenamente sua realidade subjetiva.

Quando Raumsol criou seu método com objetivo de levar o ser humano a conhecer a si mesmo e evoluir conscientemente, visou também ensinar a conhecer todas as deficiências e defeitos que nos criam problemas diariamente; identificar, selecionar estes pensamentos chamados deficiências, ou os que são defeitos. Alguns têm de ser controlados e postos a serviço da inteligência, como a rebeldia, por exemplo; outros devem ser literalmente eliminados tal é o caso

pontualidade; o segundo é brasileiro típico. O que mora a 60 km do lugar do encontro chegará antes da hora, o outro chegará atrasado sempre dando uma série de desculpas para sua impontualidade ...

Como se pode tocar nos pensamentos, se são entidades incorpóreas com vida própria? perguntará com razão algum dos leitores. Raumsol dá a resposta em seu livro "Logosofia, Ciencia y Metodo":

Os pensamentos são criados a partir de um querer forte (chamado "anelo" em espanhol, a língua em que Raumsol escrevia), de uma inquietude qualquer (como a necessidade de saber, por exemplo), de uma aspiração, uma necessidade ou um sentimento. Uma das faculdades da inteligência, a principal chamada faculdade de pensar cria este propósito. Por exemplo, este trabalho que o leitor ora consulta nasceu do propósito de levar aos alunos uma contribuição no sentido de transmitir o que sei a respeito da técnica de escrever, com base nos ensinamentos de Raumsol, o mestre que me ensinou a aperfeiçar o uso da minha inteligência. Igualmente, uma pessoa que planeja escrever um trabalho sobre "a revolução literária de Guimarães Rosa" ou "consequências da corrupção na produtividade anual do Brasil", primeiro cria um propósito. Assim, também, o pensamento da melhoria econômica, o de estudar para assumir uma profissão, são todos propósitos surgidos ora de uma necessidade, ora de uma aspiração, etc.

Em nosso caso, estamos estudando como se usa a função de pensar ou seja, o uso de todas as faculdades da inteligência para produzir trabalhos de descrição, narração ou dissertação em forma escrita. Cada uma dessas criações é um pensamento que se vai gerar e fazer crescer usando a inteligência. Não é ocioso repetir: uma coisa é o uso da função de pensar, outra são os pensamentos. Uma pessoa que entra em um ônibus, senta-se e observa sua mente devaneando, aquele entra-e-sai de pensamentos que se movimentam

do egoísmo, dos engendros instintivos que induzem à perversidade, do rancor, etc. Entretanto o método de Raumsol também ensina a criar pensamentos que virão a servir a nossos propósitos de aperfeiçoamento, de superação tanto exterior como interna.

Vamos seguir adiante no processo de criar um pensamento, após gerá-lo como propósito. A maioria dos propósitos não chega a se concretizar em realização por vários motivos, sendo quase todos estes obstáculos pensamentos negativos que interferem na realização. O método de Raumsol ensina a superar estas causas de fracasso. No caso que tratamos, para que o propósito se realize, ele precisa ganhar espaço suficiente no sistema mental, amadurecer e realizar-se, passando do mundo mental ao mundo físico. É necessário que este propósito se reproduza como pensamento, para ganhar vida na realidade material.

Suponhamos que a aspiração de cultivar uma ciência, uma arte ou uma profissão tenha chegado a concretizar-se ali em um pensamento propósito. Esse pensamento, para poder conservar em permanente ação o motivo central que o alenta, necessita reproduzir-se, e para

A reprodução de pensamentos na mente se realiza por uma necessidade

natural

e

em

obediência

à

lei

de

conservação.

 

livremente pelo sistema mental esta pessoa não está pensando; são os pensamentos que transitam por seu espaço mental sem nenhum controle.

Reproduzir-se quer dizer "produzir-se outra vez." Como é possível a um pensamento produzir a si mesmo novamente?

Ensina Raumsol a esse respeito:

à

de

final

cultivada.

especialidade

correspondente

seu desenvolvimento, o

Ao culminarem os esforços na etapa

se servirá doravante para desenvolver suas atividades no campo

conhecimento adquirido será o fruto hereditário do pensamento propósito que deu origem aos pensamentos conhecimentos, dos quais a inteligência

O expressado será suficiente para que se compreenda que não basta criar um propósito, mas que é forçoso dotá- lo de tudo quanto possa contribuir a seu desenvolvimento até sua total execução.

isto procriará novos pensamentos, umas vezes por próprio e espontâneo concurso, outras pelo concurso dos pensamentos que sustentam a ciência, a arte ou a profissão eleitas.

A reprodução de pensamentos aumentará, assim, a energia mental que demanda a realização de uma aspiração e permitirá ao pensamento-propósito abarcar uma zona da mente cada vez mais extensa.

Vejamos como um pensamento deve se reproduzir na criação do trabalho dissertativo.

Ao

criar

a

que será

idéia

ponto central da

o

dissertação, o autor do texto irá buscar em sua mente

tudo

o

que

conhece

respeito

a

do

tema

eleito.

Entretanto apenas o conhecimento ou a experiência pessoal podem não ser bastante para compor o texto. Nesse caso, o pensamento deverá se reproduzir usando o conhecimento alheio, que se buscará em livros ou em conversas com pessoas que entendem do assunto. Este é um problema central para se conceituar a criação. Como ninguém conhece a mente, seu funcionamento para criar pensamentos, no ambiente acadêmico se acredita, de modo às vezes bastante grosseiro, que criar pensamentos é segregar um monte de teorias novidadeiras, que as pessoas irão repetir durante certo tempo, até que outras as substituam. por esta crença, fruto da ignorância do que é a inteligência e os pensamentos, e da mecânica do sistema mental, os estudantes são obrigados a fazer citações aos montes, a granel, em seus trabalhos; são proibidos de escrever em primeira pessoa, obrigados a produzir apenas coisas "que todo mundo já conhece", pois se pensa que criar pensamentos é inventar teorias novas, e como os estudantes ainda não conhecem tudo que os teóricos figuraram, eles são incompetentes para criar.

Suponhamos que esse tema seja "o maior responsável pela violência urbana é o consumidor de drogas ilícitas." O primeiro movimento será o de buscar na mente tudo que se possui de conhecimentos a respeito da violência urbana, uma vez que não se pode escrever sobre aquilo que não se conhece. À medida que o pensamento se forma por este meio, ele irá se reproduzindo, dia após dia, até ganhar uma definição boa o suficiente para se tornar trabalho de composição escrita.

Porém o estudante, ao compor seu trabalho escrito, está criando um pensamento em sua mente. Este pensamento, à medida que se reproduz usando o que o estudante foi buscar em livros, ou nas anotações em

classe, no conselho de professores, tomará forma na mente de quem o criou como pensamento-próprio. Amadurecido, finalmente, este propósito é propriedade do criador do trabalho. Portanto, obrigar um estudante a fazer o triste papel de macaco de imitação, alinhavando citações, além de inibir a capacidade mental de quem é vítima dessa espécie de amesquinhamento da inteligência alheia, viola a melhor tradição do individualismo ocidental, introduz um mecanismo de glorificação do anonimato como se ainda estivéssemos na Idade Média e constrange a mente de quem produz o trabalho escrito. Alguns professores levam tão a sério a necessidade, em moda atualmente, de tolher a liberdade de pensar do estudante, que dizem ser obrigatório "escrever só o que todo mundo já sabe." Em outras palavras, o estudante não vale pelo que pensa, mas pelo que repete. Talvez esse método seja fruto da crença de que o ser humano é apenas um macaco evoluído, o que faria de nossos estudantes um bando de macacos de imitação.

Seja como for, criar um pensamento não significa inventar teorias, dizer coisas originais ou que seja. Isto é apenas uma faceta dos poderes que possui a mente humana. Criar um pensamento é segregar e re-segregar a substância mental que, ao amadurecer, poderá passar do mundo mental para o mundo físico onde se tornará realidade.

Que é descrever algo? Uma resposta direta e simples seria: "Descrever é colocar as características de um mineral, um vegetal, animal, ser humano ou de uma paisagem."

2. Descrição

Ponto importante a colocar deve ser o uso da observação. De acordo com o pensador argentino González Pecotche (Raumsol), as faculdades da nossa mente, falando de modo bem simples, são: "pensar, razão, julgar, intuição, entender, observar, imaginar, memória, predizer, etc., as quais são assistidas por outras faculdades que devemos chamar de acessórias, cujo trabalho é discernir, refletir, combinar, conceber, etc. Todas estas faculdades formam a inteligência. A Logosofia denominou a esta última "faculdade cume", porque abarca todas as faculdades da inteligência juntas."

Tais poderes intelectuais podem trabalhar de modo independente ou como um sistema, interconectados ou interpendentes. A observação, que é a capacidade mental básica usada para realizar boas descrições, pode operar sozinha, porém de ordinário ela se liga à memória, à razão, ou mesmo à faculdade de pensar esta última é a responsável pela criação de pensamentos. De acordo com os conhecimentos de González Pecotche, a faculdade de pensar é o poder intelectual mais importante que temos em nossas mentes.

Para descrever um objeto, podemos simplesmente colocar suas propriedades, ou seja, suas características, sem comentários adicionais. Caso se arranje esta descrição de modo organizado, se estará usando a razão combinada com a observação, uma vez que a razão é a faculdade encarregada de organizar os pensamentos em nossa mente. Pode-se também enfeitar este objeto mental, deixando que a imaginação interfira. Além disto, suponhamos que a descrição contenha expressões de

É uma definição do que seria "descrever", mas ainda não nos diz como nossa mente trabalha quando está criando uma descrição.

razão

entusiasmo, ou sensações como o amor, o ódio, rancor, depressão. Neste caso, a pessoa pode permitir, ou não, que participe no processo a sensibilidade, ou seja, as reações sensíveis, ou o instinto, que comanda as reações passionais. Pode-se também descrever um objeto usando o poder de combinar as sutilezas que o formam, mas pressupondo que será preciso realizá-lo de memória. Então aparecem a memória e a observação operando em conjunto.

Suponhamos que temos necessidade de explicar a um marciano o significado da palavra "cadeira". Nosso alienígena é capaz de falar inglês, mas ele não sabe o que é uma cadeira em outras palavras, até hoje ele nunca viu este objeto. Como começar a explicação?

A razão é absolutamente fria. Por isto, o discurso acadêmico é em geral considerado monótono, ou mesmo chato. Entretanto quando aparece a necessidade de arrumar os pensamentos em nossas mentes, a razão é a faculdade chamada a atuar.

A interferência da razão nos diz que se deve dividir a descrição em partes organizadas de acordo com a hierarquia, ou com seu grau de importância. Vejamos, então: o que é mais importante numa cadeira?

Como se pode ver, a Logosofia nos sugere que todos deveríamos aprender como manejar as faculdades da nossa inteligência, e também as da nossa sensibilidade com plena consciência.

organizar observações?

contribui

Como

para

2.a

a

Esta forma de pensar é o que eu particularmente chamo de "raciocínio por exclusão." Se dissermos a alguém que "uma maçã é algo para se comer", se estará excluindo toda outra ação humana, à exceção do ato de comer, das funções de uma maçã. Assim, se estará dizendo que uma maçã NÃO É algo que se usa para escrever, ou para viajar por via aérea, ou para cortar madeira mas algo para comer, e só para isto. Logo, maçãs são um tipo de comida. Você também pode dizer que "uma maçã é uma fruta". O resultado seria o mesmo, no que tange ao "raciocínio por exclusão."

Como estamos descrevendo a cadeira como generalização, em forma de conceito comum a todas as cadeiras ou seja, sem especificar nenhuma cadeira em particular, a cor, o material com que é feita esta ou aquela cadeira, a altura, nada disso é importante. Devemos focar nossa atenção simplesmente no conceito de cadeira e descrevê-lo.

Então nosso marciano já sabe que "uma cadeira é algo que os humanos usam para sentar." E o que mais é importante numa cadeira? Seu peso? A cor? O material que entrou em sua composição?

A maioria dos estudantes confunde as duas proposições, bem como mistura características da maior importância com meros acidentes, o que torna suas descrições verdadeiras bagunças. Se usarmos

Neste caso: o propósito do objeto, para que ele é usado, esta é a característica mais distinta, a mais importante qualidade ou propriedade dele.

Assim, seria necessário começar dizendo a nosso amigo marciano que "uma cadeira é um objeto para sentar."

Observe que, se você mencionar só uma destas partes componentes, tal como "uma cadeira tem quatro pernas", perderá a vantagem, previamente adquirida, de usar o "raciocínio por exclusão". Cavalos, cães, touros, ursos, todos são objetos de quatro pernas. Assim, é preciso manter-se conectado ao objetivo prévio fazer nosso amigo marciano entender para que "não serve" uma cadeira, varrendo da idéia quaisquer propósitos de seu conjunto que não sejam os

Que é mais importante em uma cadeira, além do seu objetivo? As porções mais importantes que a compõem. Tais seções devem ser colocadas juntas de modo coordenado, caso contrário o propósito da cadeira perderá sua função e teremos uma confusão no lugar dele.

corretamente a faculdade da razão em tais casos, iremos perceber que descrever é algo muito fácil de realizar. É necessário, em primeiro lugar, pensar em tornar a própria descrição o mais simples possível para a pessoa que está ouvindo ou lendo esta descrição.

Que partes da cadeira, então, funcionam como uma integração de componentes, um todo? O encosto, o assento, e o suporte das quatro pernas. Tais são as partes que, unidas ao propósito do objeto, transformariam tais elementos numa cadeira.

por isto que o conhecimento científico, quando transmitido à mente do público em forma de pensamentos simples, se torna rápido e leve, às vezes até passível de entender sem esforço.

simplifica a transmissão do conhecimento é a razão. É

Boas descrições são

a faculdade que

simples;

e

Vamos continuar usando a organização, feita por González Pecotche, das faculdades que compõem nossa inteligência. Existe uma grande diferença entre o modo como pensamos ao definir algo, e o modo como usamos nossa inteligência para descrever esse mesmo objeto. Para descrever o "homem" de modo superficial, neste caso, "homem" seria a pessoa humana não precisamos de nada além da nossa observação sozinha. Um homem tem cabeça, um tronco, dois membros superiores, dois membros inferiores. No final dos membros inferiores há as mãos, na ponta dos membros inferiores, os pés. O homem é bípede.

No caso da cadeira, se você disser ao marciano que é um objeto colorido (todo objeto tem cor), que é feita de ferro (prédios, locomotivas, facas, espadas são feitas de ferro), que é confeccionada com madeira (muita coisa é feita de madeira), você vai perder o foco. Permaneça atento para este ponto: "Preciso raciocinar de tal forma que meu raciocínio deverá excluir todos os outros objetos da minha descrição, e o que permanecer será reunido numa unidade." Esta junção de componentes (propósito mais os principais constituintes) é o que realiza o objeto, e uma boa descrição deve considerar este fato.

Se necessitássemos ir além da mera descrição de superfície, porém, e captar a essência do "homem", é claro que o objeto se tornaria muito mais complexo de definir. Cadeiras são bem mais simples, é claro. Qual é

2.b Qual a diferença entre descrever e definir?

adequados. Para descrever algo bem, é preciso transmitir a impressão de unidade.

Por que a razão? Simplesmente porque a razão irá estimular as outras faculdades para sintetizarem o objeto "homem" numa definição que abarcará todas as suas características básicas. Com apoio nisso, entendo que a melhor definição curta para a essência do "homem" é a colocada por Aristóteles algo como há 2.500 anos atrás: "O homem é um animal racional." Ou seja, há um lado animal na constituição dessa estrutura total a que denominamos "homem", mas algo mais existe nela, algo que os animais não possuem: a porção racional. Podemos assumir que, por "racional", Aristóteles quis dizer "o homem é composto por um sistema mental, um sistema sensível, consciência, atenção, livre-arbítrio, e alguns destes órgãos existem apenas de modo rudimentar nos animais, enquanto outros nem existem."

Seriam necessárias muitas horas para descrevermos um homem, a despeito de nossa técnica de descrever as coisas numa forma bem chã, de modo simples e objetivo, porque o "homem" é o ser mais sofisticado que existe neste planeta. Acabamos de atingir a fronteira entre as descrições e as definições.

De qualquer forma, as definições se esclarecem em nossas mentes por graus de compreensão, desde que são conceitos.

A fim de descrever algo, a faculdade intelectual básica da nossa inteligência é a observação. Para definir,

o propósito de um homem? O que existe dentro de sua cabeça? Como o homem vê? ...

a faculdade do intelecto mais fundamental é a

Que é, então, uma definição?

razão!

...

Coisas abstratas são noções, impressões, emoções, idéias que não têm correspondência no mundo material, etc. Eles não se referem a gêneros ou a espécies que seriam possívels de transformar em descrições. Por exemplo, "mamífero" é uma idéia que remete a qualquer animal que pertença a um gênero, e é possível que você possa descrevê-la. Mas como compor uma descrição do próprio signo "gênero"? É uma palavra que só se presta a definições, mas não a ser descrita. Tentar descrever abstrações seria o mesmo que preencher um vazio, tentar converter um objeto puramente mental em algo da realidade material, e tal tentativa resultaria numa ação impossível de realizar.

Descrever saudade, digamos, é algo totalmente impossível. Saudade é uma palavra que só existe em português, e mesmo em nossa língua não há sinônimo para ela. "Saudade" é um sentimento, mas pode ser também uma sensação pura, como quando se usa a palavra em sentenças como "sinto saudade daqueles bons tempos." Neste caso, a pessoa não quer dizer "quero de volta aqueles bons tempos", mas apenas sente

Uma definição é um conceito. Ele pode ser composto por outros conceitos, mas é primariamente uma abstração. As definições são conceitos puros, enquanto as descrições referem-se a uma realidade que se coloca também fora de nossas mentes.

Acreditamos em absoluto que não é possível descrever objetos abstratos de modo direto por exemplo, ódio ou responsabilidade, amor, saudade, etc.

Grosso modo, descrever é dizer como é um objeto, enquanto definir é dizer o que ele é.

2.c Como descrever objetos abstratos?

Alguns traduzem saudade como "sentir falta de", mas você pode dizer "sinto falta da minha caneta", embora isto não signifique que você sente saudade dela. Você apenas sente falta da sua caneta para escrever alguma coisa, talvez porque sua ponta seja melhor ... "Saudade" pressupõe uma conexão pessoal entre você e o objeto com o qual o sentimento vai uni-lo através da recordação. Há o caso contrário, em que uma pessoa sente saudade de um objeto sem sentir falta dele. Pore exemplo, se você diz "eu sinto saudade da bicicleta que eu tinha quando era menino", isto não significa que você sente falta da sua bicicleta, pois hoje em dia você nem anda mais de bicicleta. E, além dela ser hoje algo inútil, é impossível você andar numa bicicleta de criança. Neste último caso, "saudade" significa uma recordação da felicidade que se teve no passado, quando criança, brincando com uma bicicleta de garoto, uma experiência que só se pode ter de volta por via da recordação, mas na realidade física é algo perdido para sempre.

Se dissermos "O amor é o poder de fertilização do Universo", ou, com Gonzalez Pecotche, que o poder de sustentação do Universo é o amor de Deus, isto seria uma definição, não uma descrição do amor. Pode-se concordar ou não com estes conceitos, mas é impossível não os conderarmos definições. Definições não são pensamentos verdadeiros de antemão, aceitáveis pelo ponto de vista de quem os ouve ou lê,

sentir saudade de um objeto, de um tempo, um espaço, duma situação, duma pessoa, ou de animais, vegetais,

minerais, duma pedra, de um ambiente descrever tudo isso?

uma nostalgia da felicidade que se curtia então. Pode-se

Voltando ao tema do conceito de definição:

e como

...

Em forma de nota, esclareço que minha conceituação das faculdades da mente se baseia no conhecimento de Raumsol (Gonzalez Pecotche) sobre a inteligência e os pensamentos. O sistema mental é composto pela mente de um lado, com suas faculdades, tais como pensar, imaginar, intuir, raciocinar, ou a memória, a observação, etc; do outro lado estão os pensamentos, que são entidades autônomas, têm vida própria e podem passar de uma mente a outra com extrema facilidade. Para melhor esclarecimento sobre o que significa intuir no pensamento de Gonzalez Pecotche, ver "Imaginación Intuición", artigo publicado na coletânea "Articulos y Publicaciones".

ou até mesmo sensatos. A definição dos nazistas para "raça" não passa de um complexo de idéias insanas. Na verdade, a maior parte da nossa comunicação diária repousa sobre descrições e definições que existem a priori em nossas mentes. É o que o filósofo Emanuel Kant chamou "intuição a priori". Se não existissem as "intuições a priori" (de acordo com o conceito kantiano de intuição) seria impossível realizarmos quaisquer atos de comunicação com nosso semelhante. O que Kant chama de "intuição", os linguistas chamam de "significado". Pareticularmente, prefiro o conceito dos linguistas, pois a intuição é uma faculdade da mente, não uma simples junção do significante com o significado de um signo.

Algumas pessoas acham que cada ser humano tem sua realidade pessoal própria, e que tais visões individuais do universo são totalmente separadas das outras, ou seja, cada pessoa tem um diferente ponto de vista sobre todas as coisas, e estas diferentes noções separadas da realidade não se conectam entre si, havendo portanto bilhões de seres humanos com bilhões de realidades individuais diferentes, que irão levar consigo até o final de seus dias em sua constituição psicológica. Se isto fosse verdade, não haveria o signo linguístico que nos permite a comunicação com nossos semelhantes, e seríamos ou esquizofrênicos todos, ou teríamos que nos comunicar projetando imagens mentais na realidade, como faziam nossos ancestrais antes de aprenderem a falar.

Quanto ao conceito de significado suponhamos a frase: "Sua paixão por aquela garota era tão intensa, que ele quase perdeu toda sua fortuna para satisfazer seus caprichos." A palavra seu pressupões conhecimento do que seja posse; paixão é uma palavra abstrata complicadíssima, e a usamos em geral com significado muito vago e superficial, não em sua acepção profunda, para nos comunicar com as pessoas; a inclusão de intensa na frase também pressupõe uma idéia feita de antemão sobre o que significa intensidade.

Também à guisa de nota: Gonzalez Pecotche nos ensina que o primeiro ofício da humanidade foi o que em espanhol se denomina "oficio mudo". Hoje em dia existe uma reminiscência

deste ofício, na brincadeira, praticada pelas crianças ou pelos jovens, de uma pessoa fazer mímica para exprimir algo, enquanto as outras tentam entender o que a mímica quer dizer. A primeira linguagem da humanidade foi esta, pois os primeiros homens ainda não tinham a fala. Nas escolas onde se usa o método de Raumsol para ensinar crianças a pensar, os meninos são estimulados a brincar de "oficio mudo" para desenvolver a habilidade de exprimir pensamentos e para tornar mais poderosa a observação das sutilezas da linguagem humana.

Descrever pode também traduzir a expressão "dizer COMO algo é", enquanto por outro lado definir pode ser "dizer O QUE é este algo." É claro, para tentar descrever uma cadeira a fim de informar a alguém O QUE ela é, você terá que discriminar sobre seu uso também (para quê), ou sua descrição será incompleta. Entretanto de certa forma "como" ou "o quê" são os objetos, define a diferença entre descrições e definições.

Um último comentário: discriminar sobre O QUÊ e PARA QUÊ é uma coisa ou um conceito não é tão fácil como parece. O ensinamento de Gonzalez Pecotche neste área abrange todo o início de seu trabalho a respeito

Para conhecer a si mesmo, é preciso conhecer a fundo a diferença entre pensar e pensamento dentro do próprio sistema mental, bem como a diferença entre sentir e sentimento. Este conhecimento pressupõe a decisão de examinar TODOS os conceitos (ou as definições) que existem em nossa mente de modo paulatino, é claro, pois isto é impossível de fazer duma só vez. À medida que se vai conhecendo o verdadeiro mecanismo do sistema mental e do sistema sensível, as leis que regem esse mecanismo também são conhecidas, e tudo que contradiz estas leis é preconceito. Uma pessoa com a mente pejada de preconceitos ideológicos, religiosos, pessoais, etc., jamais consegue conhecer a si mesma, uma vez que não tem condição de entender o funcionamento de seus sistemas mental e sensível, nem de organizá-los, por causa dos preconceitos que travam, desviam, distorcem ou até destroem a possibilidade de haver este funcionamento.

do conhecimento de si mesmo e do processo de evolução consciente.

Por que estas noções são importantes para realizar boas descrições?

2.d Algo sobre essência e acidente

Tem havido ampla discussão filosófica a respeito dos conceitos de essência e acidente. Uma vez que este é só um artigo, não podemos mergulhar profundamente no assunto, mas tratar apenas o básico dele. Com intuito de informar os estudantes sobre as abordagens controversas à definição de "homem", e ilustrá-lo sobre quão disputada tem sido a questão das definições, vamos nos fixar numa tentativa rápída de entender os conceitos de essência e acidente no pensamento de Aristóteles. De acordo com Aristóteles, a essência do homem precede sua existência. Assim, definir o que um "homem" é se torna sinônimo de identificar a essência do homem. Tal essência existe anteriormente a nosso nascimento como membros da humanidade. Desta maneira, somos todos "animais racionais", e esse é nosso estado permanente, não importando o que acreditamos ter sido o método pelo qual tal essência nos tenha sido dada: por um deus religioso, por um deus não-religioso, pela natureza, pelas leis da Criação, etc. Conforme Aristóteles, não existe livre-arbítrio em relação à escolha da essência do homem, pois ela nos foi concedida antes do nascimento, simplesmente porque somos todos indivíduos humanos, e não nos é possível escolher de outra forma. Em conformidade ao pensamento de Aristóteles, a essência do homem define o que somos, e se a mudarmos, nossa humanidade desaparece.

Com base nisto, as definições referem-se a porções essenciais da coisa que descrevemos ou definimos, enquanto a descrição poderia até se tornar mais complexa que uma definição. De acordo com a definição de Karl Marx, a religião é o ópio do povo. Mas como descrever uma religião? Há algo mais a ser colocado, porém: se você fizer uma cadeira em pedaços, e usar sua essência material (madeira, por exemplo) para fazer molduras, esta essência material a madeira

Assim, a essência de um objeto individualizado é sua estrutura como um todo, não apenas a porção aparente desta. Tudo que faz parte da composição de uma coisa individualizada (esta cadeira, não cadeiras em geral), pertence à sua essência; neste caso, isso torna as descrições um pouco mais difíceis de realizar do que poderia parecer num primeiro momento. Por outro lado, a descrição de um objeto não-individualizado, um substantivo de espécie (comum a todos os gêneros, como televisão ou geladeira) deve ignorar sua essência material, que é um acidente na medida desta descrição. Como se pode ver, o assunto relativo a descrições e definições é algo mais complexo do que se poderia supor numa consideração inicial.

séculos antes de nascer, eu era um "animal racional". Séculos antes de nascer um cavalo, ele era um quadrúpede. A essência de um objeto ou de um ser vivo existe em forma de arquétipo muito antes dele existir. Um pouco adiante, veremos como, em relação ao ser humano, isto não é totalmente verdadeiro, quando analisarmos o pensamento de González Pecotche a esse respeito.

permanecerá igual a si mesma, embora a descrição ou a definição do que virá como consequência da destruição da cadeira para fazer molduras mude por completo. Na sequência, teremos que descrever ou definir uma moldura, e não uma cadeira, apesar do material empregado ser o mesmo. Mais tarde, poderíamos desfazer a moldura e usar sua essência material para fazer uma caixa, e assim por diante.

Voltemos rapidamente à definição de "homem". Aristóteles define os seres humanos como tendo uma essência anterior a tudo o mais. A essência do "homem" é anterior à sua existência. Isto não é difícil de entender:

No século XX, os filósofos existencialistas pensaram o oposto de Aristóteles: os humanos não têm uma essência a priori, porque a existência humana precede sua essência. Para os existencialistas, quando os humanos chegam a este mundo eles só existem, simples e livremente, e isto quer dizer que sua humanidade não é dada por antecipado. No momento em que nós, humanos, chegamos a este mundo, somos nada mais que uma forma existente. O que define nossa essência é a liberdade para escolher o que vamos FAZER. Adquire-se uma essência imediatamente após a primeira escolha. Assim, "livre-arbítrio" é questão de selecionar algo em conexão com os valores do mundo. Nossa escolha pode variar de algo inocente até a mais radical de todas as opções: podemos escolher apenas existir, e não ter essência. Foi o que os "Beatniks" fizeram nos anos cinquenta: os crimes horrendos do passado recente, a Segunda Guerra Mundial, era tudo evidência, para a juventude do pós-guerra, que o mundo era tão baixo quanto pode ser o mais asqueroso dos objetos. Cerca de cinquenta milhões de pessoas foram massacradas na Segunda Guerra Mundial, e os horrores mais extremos haviam sido perpetrados recentemente contra a humanidade. A "Beat Generation" sentiu que a vida nesse mundo não tem significado em absoluto, e uma sociedade que permite a carnificina massiva que sabemos ter ocorrido no século XX não merece que vivamos nela. Influenciados pelo Zen-Budismo e pela Filosofia Existencialista, grupos de jovens simplesmente decidiram escolher não fazer nada neste planeta em outras palavras, existir apenas, e nunca penetrar no mundo exceto para realizar o necessário no sentido de praticar algum meio de sobrevivência. Chamou-se a isto, mais tarde, "sociedade alternativa". A palavra "Beat" é uma gíria americana que significa "consumido", exausto, abatido ao extremo. Os Beatles

[

]

uma pessoa se define apenas (1)

A existência precede a essência

... na medida em que age e (2) em que é responsável por suas ações. Por

exemplo, alguém que age cruelmente com relação a seus semelhantes é definido como um ser cruel. Além disso, através da crueldade esta pessoa se torna responsável por sua nova identidade (uma pessoa cruel). Isto se opõe à culpa

Uma proposição central do existentialismo é que a existência precede a essência, e isto significa que a vida real de um indivíduo é o que constitui sua "essência", em vez de existir uma essência pre-determinada que define o que é ser humano. Apesar de ter sido Sartre quem explicitamente cunhou a frase, noções similares podem ser achadas no pensamento de muitos filósofos existencialistas, de Kierkegaard a Heidegger.

(Beat+suffix) se inspiraram nos Beatniks para criar o nome de seu grupo de rock'n roll.

Para transmitir uma idéia do quão complexo pode ser o assunto colocado acima para a filosofia comum, vamos ler um comentário inserido na Wikipedia sobre esta concepção da existência anterior à essência (traduzido por mim para o português):

Vamos comparar estes dois conceitos a idéia aristotélica e a existencialista sobre o que é a essência humana. Pode-se definir uma coisa, à maneira aristotélica, mesmo anos, séculos ou milênios antes dela assumir existência. Se um casal humano tiver duas crianças nos próximos anos, seus filhos projetados serão "animais racionais" longo tempo antes da mulher ficar grávida. Este é o conceito de essência por Aristóteles: a essência é algo que precede a existência. Por tal razão, podemos definir um cavalo ou uma estrela antes deles adquirirem existência. A definição é uma noção mental sobre algum ser material, moral, mental ou espiritual; eis porque se pode definir qualquer coisa em particular, tenha ou não aquele objeto já adquirido existência. Basta conhecermos o gênero ou a espécie à qual ele pertencerá quando passar a existir.

Como Sartre coloca a questão, em seu livro "O Existentialismo é um Humanismo": "o homem primeiro de tudo existe, encontra a si mesmo, surge para o mundo e só depois vai se definir." É claro, o aspecto mais positivo, terapêutico disto, está implicado: você pode escolher de modo diferente, e ser bom em vez de ser uma pessoa cruel. Aqui também fica bem claro que a partir do momento em que o homem pode escolher ser cruel ou ser bom, ele não é nenhuma dessas coisas essencialmente.

que em geral se coloca nos genes, ou seja, na "natureza humana".

No oposto, os filósofos existencialistas acham que um ser humano não pode ser definido em absoluto, dado que nossa essência se escolhermos ter uma só pode acontecer depois, e nunca antes, de assumirmos a existência. De acordo com os existencialistas, o homem é o único ser da natureza que pode escolher o que ele será, e essa escolha é condicionada por nossas ações. Assim, uma pessoa que pretende adquirir uma essência deve AGIR, sendo tal ação uma questão de escolha; além disto, qualquer escolha trará total responsabilidade à pessoa que a realizou. De certa forma, com relação à culpa o filósofo existencialista é mais severo ainda que os religiosos cristãos. Ninguém pode culpar os "genes" ou as "doenças" por seu ato mal escolhido. A pessoa é sempre livre para escolher, não importando as circunstâncias. E assim que tiver feito a escolha, é obrigada a assumir as consequências, sem nenhuma excusa em absoluto.

Não importando o que pensemos a respeito dos conceitos existencialistas mencionados aqui, eles nos fazem entender que volta e meia as definições são muito difíceis de realizar, em especial as que se referem a objetos complexos. Mas voltemos ao Aristóteles. De acordo com o estagirita, a palavra essencial, apesar de seu significado muito complexo em relação a coisas sofisticadas, deve ser oposta à palavra acidental, e se a pessoa for descrever uma coisa, deve separar sua essência dos acidentes de sua composição. A cor de uma cadeira, sua aparência, o material de que foi feita, o tamanho do objeto é tudo acidente, com respeito à descrição daquele objeto como um gênero. Assim, não devemos simplificar muito os conceitos, mesmo quando os empregando na comunicação comum do dia-a-dia, pois quando alguém decide mover-se um pouco adiante, adentrando a natureza das coisas, vai

Vejamos um sujeito que acorda na segunda-feira de manhã de mau humor, e sai para trabalhar reclamando da vida. No trajeto, se impacienta por causa dos problemas do trânsito, e chega ao trabalho algo nervoso. Enquanto trabalha, tem de enfrentar uma série de problemas causados por suas deficiências psicológicas, e as causas de seus problemas costuma atribuir a terceiros, o que lhe ocasiona uma série de desavenças com seus colegas ou semelhantes em geral. Desordem, indisciplina mental (por exemplo, o hábito de deixar tudo pra depois), impontualidade, as explosões temperamentais pelos contratempos e percalços diários, vão minando o bom humor do cidadão ainda mais. Se é empregado, a grosseria do chefe termina por acabar de vez com sua boa vontade. Esbarra na irritação dos colegas, e estes na sua própria irritação. Às vezes comete erros por causa do hábito de fazer tudo de modo automático. Aparte os momentos de bonança, que costumam ser poucos, na maior parte

Vamos agora ao que nos ensina Gonzalez Pecoteche (Raumsol) a respeito dessa questão controversa da definição do que é um ser humano. Embora os existencialistas estejam certos quando dizem que o ser humano se faz, eles erram ao afirmar que esta construção de si mesmo ocorre na escolha, na opção para agir desta ou daquela maneira. Uma pessoa que pratica no campo experimental que é sua própria vida, seu mundo mental, alguém que pratica os conceitos de sistema mental, função de pensar, pensamentos, ensinados por Raumsol, sabe que o ser humano só existe de forma bastante embrionária, e os que ultrapassaram os estágios primitivos do que se pode considerar um autêntico ser humano são muito poucos.

descobrir que uma quantidade considerável de reflexão é necessária para iluminar o objeto abordado.

ds

Controle

consciente

esforço que

lentidão. Teme-se o

experiências pessoais

e os que o fazem com despreocupada

responsabilidade que lhe incumbe em cada caso, etc. Há os que trabalham com pressa, como se fugissem deles mesmos,

44. No comum, o homem não é consciente, na maior parte do dia, do que pensa e faz ou deixa de fazer, ou seja, não está atento a tudo que vai acontecendo dentro dele. Distrai-se com suma facilidade ou busca

desnecessariamente

motivos

de

distração. Por outro lado, descuida de

não poucas

das

coisas que

deberiam

merecer

sua

atenção,

 

atenção

essa

consciente que inclui o estudo de cada

situação,

a

análise

detalhada

das

circunstâncias

 

que

a

criaram,

a

que

semana

Vejamos o

nos diz Gonzalez Pecotche a

De volta para casa, ainda tem de enfrentar

do tempo a amargura o leva a sonhar com o prêmio da loteria, a aposentadoria, as férias, a cerveja no final de

respeito da vida inconsciente, em seu livro "Curso de Iniciación Logosófica":

... mais um problema, causado pela esposa, que prometeu ao filho uma vingança do pai quando este chegar, pois o moleque fez meia dúzia de travessuras pesadas durante o dia. Como se não bastassem as irritações fora de casa, o cidadão ainda tem de fazer o papel do deus rancoroso que vai às forras contra seus próprios filhos ...

confia na sorte para solucionar os problemas. Aparte os momentos de ócio, ou de descanso, breves ou prolongados, a maioria busca amenizar ao máximo seu tempo com entretenimentos e diversões. Que consciência pode por de manifesto um ser que vive na forma descrita? Esta

pergunta leva a definir o caráter ambíguo de seu comportamento, que reflete não só ausência de domínio, mas também falta de sentido com respeito à direção que se deve dar à vida.

de pensar, amiúde se

demanda o

ato

A colocação dos existencialistas é bastante ingênua. Uma pessoa que desconhece a atuação dos pensamentos é escrava deles na maior parte do tempo. "De hoje em diante vou agir de modo diferente", promete-se quem passa por alguma experiência difícil, mas logo depois se pega atuando como sempre. Um estudante que sofre de falta de vontade crônica tenta ser atento, concentrar-se nos estudos, mas não consegue.

Os cientistas prevêem, para meados do século XXI, que a doença mais comum da humanidade será a depressão crônica. Eu, particularmente, o autor deste trabalho, pressinto e principalmente intuo para este século uma situação de sofrimento extremo, que irá se agravando até que a humanidade será forçada a acordar de seu sonho milenar.

entender. Há dois ou

três

anos,

mil

o

ser humano

andava

a

cavalo,

e

para

cem quilômetros

viajar

Este "sonho milenar" a que me refiro é fácil de

Portanto é bastante ingênuo afirmar que o ser humano se faz pelas escolhas, porque estas escolhas estão condicionadas aos pensamentos que escravizam a mente deste ser humano embrionário, que mal existe como entidade consciente. Que espécie de escolha consciente pode fazer um sujeito que busca realizar algo mas, presa de uma impaciência crônica, tenta "queimar etapas" o tempo todo e acaba desistindo de seu projeto? Um sujeito tímido, com a mente bloqueada pelo pensamento chamado por Raumsol de "cortedad", vai ver suas escolhas influenciadas todo o tempo pelo complexo de inferioridade, e as fará por impulsos de pensamentos que ele mal conhece ou que desconhece em absoluto. Se assumir uma essência humana fosse tão

demorava às vezes um mês inteiro. Hoje se vai à Lua, e para uma pessoa do Rio se comunicar com alguém no Japão, basta mandar um email ou dar um telefonema. No aspecto espiritual, porém, continuamos andando a cavalo. A diferença absurda entre evolução material e estancamento moral e espiritual levou alguns a considerar que progresso não existe, mas isto é fruto do materialismo dos cientistas, que julgam ser possível causar progresso moral e espiritual pela melhoria dos meios tecnológicos o que, diga-se, é o cúmulo da ingenuidade, ou da ignorância.

Basta olhar ao redor para constatar que o ser humano, como entidade física, material, alcançou um progreso estupendo, mas como ser moral e espiritual continua num estágio próximo o que é pior: bem próximo do que era há dois ou três mil anos. Os conceitos relativos à moral e ao espírito continuam quase os mesmos daqueles tempos, enquanto na medicina, na engenharia, no comércio enfim, na ciência e na tecnologia em geral o progresso foi estupendo ...

universal

Como um jovem nesta

melhor do que viver em casa

Mas, nós todos sabemos, a maior parte das

... teorias não passa mesmo de manipulação de palavras ...

... situação vai ter liberdade para fazer escolhas

fácil como dizem os existencialistas, não haveria tanto fracasso no mundo ...

desrespeitosos, cuja frequente alteração no temperamento faz os filhos acharem que viver na rua é

profissionais refletidas, conscientes, se é pressionado por uma realidade tão adversa?

Parece, os filósofos nunca perderam o hábito mental de apoiar suas teorias na lógica do raciocínio pelo raciocínio, divorciado da realidade humana e

Este, enfim, é o objetivo da ciência criada por Raumsol, chamada por ele de "Logosofia": levar o ser humano a superar tudo que existir dentro dele mesmo e for passível de superação, criando assim uma nova individualidade, muito mais ampla, mais livre do que a anterior. Isto éo que a Logosofia chama "conhecimento de si mesmo", ou seja, quem cria a si mesmo conhece o que criou, e ainda ajuda o semelhante a fazer o mesmo, mas pela única via possível: o conhecimento.

Dizer que, neste mundo onde vivemos hoje, controlado por forças cada vez mais materialistas e, muitas vezes, malignas, é possível fazer todas as escolhas por vontade própria, é demonstrar um enorme distanciamento da realidade que se vive. Até mesmo em coisas mínimas se observa que isto é impossível. Grande parte dos jovens brasileiros saem de casa e assumem uma profissão que não é a de suas escolhas, porque precisam com urgência se livrar do ambiente infernal que vivem em seus lares, com pais intolerantes,

Para

que

que

é

o

consciente.

pura e simples,

conceito modifique a vida

enorme entre uma definição

estática, e um conceito dinâmico, que despertaria não

Fechando esta parte de meu raciocíunio, indo mais a fundo no conceito, podemos observar a diferença

apenas as faculdades da mente, mas também a sensibilidade. Quando mente e sensibilidade atuam reunidas, pode ocorrer a ativação do princípio

individual, é preciso que ele passe a integrar a consciência. Vejamos o que nos diz Raumsol a esse respeito, na sua conferência "La razón y el conocimiento":

investigador

expressar

devem

ser

elaboradas por ele com plena

consciência

do

valor

que

haverá

de

representar para sua vida a explicação das mesmas. E quando observar diariamente as coisas, os fatos, e em seus

absorvida, não permaneça como traste inútil dentro da mente, mas que esteja ali

para acalmar uma inquietude momentânea. As perguntas que o

circunstâncias o requeiram, pois só assim é como a vida ganha corpo e se faz

As simples definições só

as

vez

que

dela

para

cada

servem

servir-se

estudos meditar sobre cada

um

dos

aspectos que lhe interesam vivamente,

sempre que tudo

deve tratar

quanto

recolher como

explicação

de

suas

interrogações seja transladado ao plano

do permanente, do eterno;

que essa

explicação, uma

recolhida e

vez

*

3. Narrativa

possível

expansão

sua

sempre

mais

ampla,

interna

tanto

como

externamente.

 

s.f. Relato, exposição de um fato, de um acontecimento; narração. / Conto, novela.

história; conto. / Exercício escolar que consiste em redigir uma composição do

http://www.dicionariodoaurelio.com/

gênero narrativo.

Narrativa

Fonte:

Narração

 

s.f.

Ato

ou

efeito

narrar. /

de

Exposição escrita ou verbal de um fato. /

Obra literária em que se relata

um

acontecimento ou uma

seqüência

de

acontecimentos e que se caracteriza pela

presença de

personagens;

narrativa;

Em ambos os casos, a faculdade de pensar deverá patrocinar a reprodução do pensamento central da narrativa. Ele poderá, inclusive, reproduzir-se em pensamentos secundários, como nas novelas de televisão ou nos romances: há uma trama central e várias secundárias. Se a narrativa é feita de memória, o pensamento central também terá de se enriquecer até aparecer com amadurecimento satisfatório. Esta reprodução do pensamento deverá ser feita com muito cuidado. Existem casos de pessoas que, ao tentarem criar uma narrativa ou uma dissertação, vão colocando tudo que lhes assoma à mente na composição escrita, e acabam não criando nada, pois a faculdade de pensar não está bem treinada para selecionar corretamente os pensamentos a integrar a reprodução da idéia básica, e o trabalho acaba como uma grande árvore cujos galhos deveriam ter sido podados muito tempo atrás. Existem

memória e imaginação. Nenhuma das duas pode dispensar a razão, se têm por objetivo organizar os pensamentos que integram o que será narrado; é claro, além de ser impossível ignorar a faculdade de pensar no percurso, pois ela criará o pensamento central da narração a ser criada.

Pode-se narrar algo que aconteceu no mundo real. Neste caso, a faculdade da memória será chamada à atuação. Se a narrativa é inventada, ou seja, se a história nunca ocorreu na realidade, deve-se usar a imaginação para figurá-la.

Enquanto as descrições requerem principalmente a faculdade da observação para serem realizadas, as narrativas se apóiam em duas faculdades básicas:

Inferindo do que acabamos de ler no texto acima, o verbo "narrar" significa apenas "contar uma história".

Em primeiro lugar, se a verdade não existisse, seria impossível aos cientistas descobrirem as leis da natureza. As pessoas usam tais descobertas para criar tecnologia, e esta simples evidência demonstra que há uma miríade de formas da verdade que podemos desencavar em nossa busca permanente pelo conhecimento. A própria existência da humanidade é manifestação da verdade pois se algo tem vida no mundo real, deve necessariamente ter também uma realidade, e "real" é uma das palavras que reconhecemos, pelo senso comum, como estando em conexão com a idéia de verdade. Desta forma, considerando que nós existimos, tal existência se prova por nossa consciência de nós mesmos e do mundo a não ser, é claro, que acreditemos em filosofias niilistas.

Como foi afirmado, embora alguns digam que cada pessoa tem seu ponto de vista sobre a realidade, e que tais visões são excludentes, é impossível concordar com uma idéia tão extremista, a menos que consideremos a humanidade como sendo formada por um conjunto de esquizofrênicos. Não é possível percorrer o conceito de verdade neste artigo, mas vamos com certeza abordar algo básico dele.

As duas definições apresentadas (memória e imaginação) levam nossas mentes a conectar-se com uma terceira dimensão, que tem causado problemas aos filósofos, desde que os homens começaram a refletir sobre o significado do mundo em que vivem, bem como de si próprios: a dimensão na qual devemos conceituar a palavra "verdade".

ainda os que tomam um caminho, depois mudam de pensamento ao sabor do que lhes aparece na mente. Estes acabam chegando sempre ao ponto de partida ... sem nunca sair dele.

Muitos pensadores ocidentais utilizariam o fato de que cada testemunha observou a batida de um ângulo diferente como prova de que as noções de realidade variam de pessoa a pessoa, e de que não existe universalidade em nossas apreensões do mundo real. Voltemos a González Pecotche, porém: nosso pensador argentino afirmaria que tais ângulos não são exclusivos, mas complementares. Basta uma pessoa sumarizar estas seis ou sete diversas versões da mesma realidade, expurgar sua síntese de excessos imaginários, e terá uma versão excelente, e unificada, do que realmente aconteceu antes, durante e após a ocorrência.

Suponhamos que ontem de manhã vimos um acidente de trânsito. Cinco outras pessoas também o viram. Uma pessoa observou o evento do terraço de um apartamento, outra estava enchendo o tanque de seu carro numa bomba de gasolina, uma terceira passava de ônibus, a quarta testemunha um sujeito míope que tinha acabado de perder os óculos estava de pé próximo a você, e um quinto cidadão a se apresentar como testemunha dirigia um carro na vizinhança quando ocorreu a colisão.

Entretanto o problema permanece aberto à discussão: como confiar na memória humana? Este é um imbróglio que tem confundido as mentes no campo do Direito, da História, Economia, e em muitos outros ...

Se este é o caso, a única verdade que a pessoa vai aceitar como evidente é a idéia abstrata de que nada é real o que não tem a ver conosco, felizmente ...

A memória humana está sujeita à influência da imaginação, das paixões, de pensamentos distorcidos, mas também de nossos melhores pensamentos e

Em minha opinião, o fato de diferentes versões da mesma realidade poderem excluir umas às outras, não importando quão falsas e pretensiosas elas possam ser, nos diz que a questão da verdade deveria ser substituída por outra abordagem, algo menos perigosa, e um pouco mais segura: devemos usar nossas memórias tão livres de preconceitos quanto for possível, e o mais próximo que puderem estar da verdade a respeito do fato acontecido. Neste caso, a memória deve contar com a ajuda da observação, da razão, da intuição, da faculdade de pensar; e a memória deve tentar com seriedade diminuir a influência da imaginação, e manter esta última sob controle nos limites de seu território.

Nas mentes dos homens comuns, observamos que a imaginação promove confusão e erros, porque produz uma hipertrofia das imagens que apresenta como reais. É usual confiar demais nesta faculdade mental, e em seguida culpar as consequências a outros fatores, nunca à própria imaginação. Por isto a Logosofia adverte sobre a influência da imaginação,

Deve-se lidar com a imaginação com extremo cuidado.

sentimentos tais como o amor, a compaixão, etc. Assim, como confiar em nossa memória, e convencer a nós mesmos de que estamos afirmando a absoluta expressão da verdade?

O conceito de Pecotche sobre a imaginação é bem diferente do comum. No livro "Exegesis Logosofica" (p. 41), Pecotche escreveu:

a qual é necessário neutralizar. A imaginação inclina as pessoas ao fácil; acredita que vai a todo lugar, mas nunca aparece em lugar nenhum; a imaginação se inebria com a ficção, e raramente consegue realizar um projeto, dentre os mil e um que arquiteta. A imaginação às vezes consegue levar a cabo um projeto, mas sempre com enormes dificuldades. A imaginação acredita, e faz a pessoa acreditar, que tudo é fácil de realizar. Tal manobra diminui a força da vontade, que no final acaba anulada.

No processo para realizar quaisquer projetos, especialmente aqueles que são difíceis de realizar, é o trabalho da inteligência que deve prevalecer. A inteligência move e ativa a vontade em direção ao sucesso de seu trabalho. Esquecer tal realidade é o equivalente a preferir uma inferioridade que as gentes não podem nem devem desejar.

Pode-se inferir, do texto acima, que o conceito que Raumsol avança a respeito da imaginação é diferente da idéia comum que as pessoas armaram sobre esta faculdade mental. Se não usamos as outras faculdades para controlar a imaginação, ela pode causar sérios problemas à nossa vida. As pessoas que vão começar um negócio e imaginam que o futuro só tem cores azuis, e logo depois descobrem que a vida é uma luta dura, em geral mergulham em pensamentos depressivos. Porque a maioria das pessoas têm uma imaginação descontrolada, é muito fácil aos líderes religiosos ou

Porém Pecotche não nos está dizendo para excluirmos a imaginação do nosso cenário mental; isto seria uma repetição do que a maioria das ideologias religiosas propõem no caso das religiões, elas prescrevem abolir a razão. A imaginação não deve trabalhar sozinha, desde que empurra as pessoas afora da realidade, quando elas permitem que o absolutismo das "imagens em ação" aconteça. A questão é bem simples, de acordo com Pecotche: a imaginação só exerce função criadora quando não se aparta da realidade. Portanto, é preciso conhecer a realidade antes de usar a imaginação para criar algo. É o que fazem todos os grandes escritores através da mimesis. O conceito aristotélico pode ser usado aqui para esclarecer a idéia de Raumsol: mimesis não é imitatio, mas conhecimento da realidade. A imaginação transforma este conhecimento em imagens, e neste caso ela exerce função criadora.

políticos empurrarem seus seguidores a situações difíceis, ou mesmo a guerras que matam milhões. Em perspectiva menos trágica, os demagogos convencem seus aderidos a lhes dar dinheiro em troca de benefícios divinos, como se Deus fosse um mesquinho comerciante. A imaginação também aumenta o volume dos nossos problemas, tornando-os maiores do que são na realidade ...

Convido o leitor a observar como Guimarães Rosa, um dos dez maiores escritores do mundo em todos os tempos, nos conta seu modo de criar:

SERTÃO), por exemplo, quase inteira "assisti", em 1948, num sonho duas noites repetido. "Conversa de bois" (SAGARANA), recebi-a, em amanhecer de sábado, substituindo-se a penosa versão diversa, apenas também sobre viagem de carro-de-bois e que eu considerava como definitiva ao ir dormir na sexta. "A terceira margem do rio" (PRIMEIRAS ESTÓRIAS) veio-me na rua, em inspiração pronta e brusca, tão "de fora" que, instintivamente, levantei as mãos para "pegá-la," como se fosse uma bola vinda ao gol e eu o goleiro. "Campo geral" (MANUELZÃO E MIGUILIM) foi caindo já feita no papel, quando eu brincava com a máquina, por preguiça e receio de começar de fato um conto, para o qual só soubesse um menino morador à borda da mata e duas ou três caçadas de tamanduás e tatus; entretanto, logo me moveu e apertou, e, chegada ao fim, espantou-me a simetria e ligação de suas partes. O tema de "O recado do morro" (NO URUBUQUAQUÁ, NO PINHÉM) se formou aos poucos, em 1950, no estrangeiro, avançando somente quando a saudade me obrigava, e talvez também sob razoável dose do vinho ou do conhaque. Quanto ao "Grande sertão :

Veredas", forte coisa e comprida demais seria tentar fazer crer como foi ditado,

[

]

À Buriti (NOITES DO

Porém essas exaltações não

Também (a imaginação)

mente e as mãos em suas extraordinárias

realizações artísticas ou literárias. [

as obras mais admiráveis. [

]

Deveu (a

... Não são os conhecimentos de que pode

dispor a consciência do

imaginação) contar inevitavelmente com a predisposição natural interna, que

de induzir ao erro, guiou o ser mediante inspirações, às vezes sublimes, a realizar

... trabalhavam sob o império da consciência; pelo contrário, uma força

favoreceu a exaltação eventual desta faculdade, elevada à hierarquia de potência criadora.

... contribuiu à formação de não poucos homens das letras e da arte em suas diversas manifestações. Porém ali, longe

dirigir-lhes

a

[

[

]

]

]

os

ser

que

parecia

desconhecida

O que não

... se conhece, às vezes se nos afigura "estranho". Vejamos

Estas forças e correntes "muito estranhas" advieram do próprio espírito deste grande escritor. Como carecemos por completo do conhecimento de

sustentado e protegido por forças e correntes muito estranhas.

um texto de Gonzalez Pecotche sobre a imaginação, quando esta faculdade assume função criadora:

nós mesmos, ele as chama de "estranhas"

O romance é uma narrativa longa, com muitos personagens diferentes, e uma trama com várias sub- narrativas ou seja, no romance, o pensamento se re- produz com muito mais liberdade que nos outros gêneros. O conto é uma narrativa que tem uma trama só, em geral sem tramas secundárias. Possui poucos personagens, e satisfaz a necessidade dos leitores que não têm tempo para abordar tramas complicadas. Uma novella se coloca entre o romance e o conto; em outras palavras, corre a meio caminho entre a narrativa longa e a curta.

A técnica moderna de criar contos foi inventada no século XIX por autores americanos, particularmente Edgard Allan Poe. O rápído desenvolvimento do capitalismo nos Estados Unidos fez que eles procurassem formas de expressão literária mais apropriadas aos tempos modernos, significando que as técnicas literárias deveriam se tornar melhor ajustadas ao novo modo de vida capitalista. Os autores haviam percebido que o leitor capitalista não podia dedicar

dominam esta

faculdade,

e

sim

a

inspiração que a exalta obedecendo a

outros

desígnios

ignorados

por

ele

mesmo.

romance, novella e conto. Além destes, vamos incluir a crônica, por ser um gênero muito importante, existindo ainda o teatro, que mescla literatura e arte. Porém vamos nos ater às três partes básicas da literatura:

Tal como as descrições, as narrativas devem ser também elaboradas de acordo com técnicas. Na literatura, há basicamente três tipos de narrativas:

romance, novella e conto.

muito tempo a ler longas descrições, arabescos linguísticos, diálogos retóricos pomposos, entrecortados pela ação apenas aqui e ali. O novo leitor não estava mais interessado em histórias que tomavam centenas de páginas para se desenrolarem. Os tempos modernos impeliram os autores a colocar, em poucas palavras, o ambiente onde suas narrativas deveriam ocorrer, e ir direto ao assunto, transmitir muitas idéias e ações em poucos parágrafos, excitar a mente do leitor e induzi-lo ao entusiasmo pela história logo no começo, e apresentar um final convincente.

weak

and

weary,

Over many a quaint and curious volume of

forgotten

lore,

came

While I nodded, nearly napping, suddenly there tapping,

a

As of someone gently rapping, rapping at my

chamber

door.

 

" 'Tis some visitor," I muttered, "tapping at my

chamber

door;

Talvez o melhor exemplo desta nova técnica reunindo poesia e prosa, e fazendo um raconto seja "O Corvo" de Edgar Allan Poe. É uma narrativa que toma poucas estrofes para ser contada: pode-se lê-la do início ao fim em poucos minutos. Poe usou apenas duas linhas e meia para colocar o ambiente onde a história iria ocorrer; ainda na primeira estrofe, ele apresenta o começo da ação:

Considerando que o leitor brasileiro não tem obrigação de ler em inglês, vamos apresentar uma curiosidade literária: as traduções d'O Corvo feitas por dois gênios em minha opinião tão talentosos quanto,

Once upon a midnight dreary, while I pondered,

Only this, and nothing more."

E

de

fadiga,

MACHADO DE ASSIS

FERNANDO PESSOA

disse estas palavras tais:

Numa meia-noite agreste,

quando eu lia, lento e triste,

Ao pé de muita lauda antiga,

Em certo dia, à hora, à hora Da meia-noite que apavora, Eu, caindo de sono e exausto

"É alguém que me bate à porta de mansinho; Há de ser isso e nada mais."

De uma velha doutrina, agora morta, Ia pensando, quando ouvi à porta Do meu quarto um soar devagarinho,

Vagos,

curiosos

tomos

de

ciências

ancestrais,

E já quase adormecia, ouvi o

que

parecia

O som de algúem que batia levemente a meus umbrais.

"Uma visita",

eu

me

disse,

"está batendo

a

meus

porém muitíssimo mais profundos e complexos em matéria de idéias do que Edgar Allan Poe. Vejamos "O Corvo" traduzido por Fernando Pessoa e Machado de Assis:

Só aparecem três personagens em O Corvo: o homem que conta a história, sua falecida esposa ou noiva, e o corvo de maus presságios, símbolo de tudo que pode existir no lado mais obscuro da mente humana. A maior parte dos contos se desenvolve ao redor de poucos personagens, porque não oferecem ao escritor tempo suficiente para apresentar muita gente ao público. Histórias longas (romances) têm de usual uma idéia básica e muitas re-produções do pensamento em idéias secundárias, que correm em direção à dominante maior para usar a terminologia formalista. Esta é a técnica que vemos nas novelas de TV. Todas as narrativas e poemas, de costume transmitem uma ou mais idéias filosóficas que o autor quer fazer as pessoas entenderem e pensarem a respeito. A dominante real costuma ser esta idéia. Todos os eventos entrelaçados na trama constituem a parte material desta estrutura, e essa parte deve se acoplar à esfera psíquica dela. Ou seja, a história deve aceitar a guia da idéia ou das idéias que a conduzem. Em linguagem de Raumsol, há um pensamento central que se reproduziu enquanto a idéia estava se desenvolvendo, e nos contos, as reproduções do pensamento em idéias secundárias são poucas e curtas. Portanto, é preciso usar a faculdade de pensar para selecionar com cuidado o que se vai incluir na história, em especial nas narrativas longas, pois é costume não resistir ao impulso de incluir tudo que vem

Assim o leitor, em três linhas, já sabe o tema da poesia: é uma história, não uma coleção de pensamentos "poéticos": alguém bate à porta do narrador numa hora que, como crê a superstição do povo, é a das aparições.

umbrais. É só isto, e nada mais."

Tem-se considerado, de modo tácito ou assumido, direta ou indiretamente, que o objeto final de toda poesia é a Verdade. Todo poema, tem-se dito, deveria inculcar uma moral; e esta moral é o mérito poético do trabalho a ser julgado. ( ) Temos considerado em nossas cabeças que escrever um poema apenas pelo poema em si, e reconhecer que este foi nosso desígnio, seria confessar a nós mesmos que estamos em falta com a verdadeira dignidade e com a força poética: porém o simples fato é que, caso permitíssemos a nós mesmos olhar em nossas almas, descobriríamos lá de imediato que sob o Sol não existe nem pode existir trabalho mais digno

Entretanto algumas vezes esta idéia que guia ou que dirige não existe. Em "A Clean, Well-Lighted Place", Hemingway levou só duas ou três páginas para desenvolver um universo de pensamentos filosóficos; em "O Corvo", porém, Edgar Allan Poe apenas conta uma história gótica. O ensaio de Poe intitulado "The Poetic Principle" declara que uma história não deveria ter propósito moral algum. Portanto, em Hemingway o pensamento central é de base moral, enquanto Allan Poe usa a própria trama como idéia base. Ele advoga a "ars gratia artis", a arte pela arte:

à mente. Neste caso, como foi dito, a faculdade que seleciona é a de pensar, responsável pela criação do pensamento.

Existe uma lei universal chamada "lei de repetição", que Raumsol descobre aos olhos humanos. Por esta lei entre outras, é claro todas as coisas evoluem. Mas a repetição, na humanidade comum, longe de produzir evolução, reproduz uma rotina incessante, irritante. O resultado é a permanência praticamente no mesmo lugar sempre, e o que se colhe de evolução espiritual neste processo mecânico é quase nulo. Um dos objetivos de Raumsol é ensinar as pessoas a parar de evoluir de modo inconsciente e passar à evolução consciente, começando pela identificação, individualização e seleção dos pensamentos, e pela organização de seus sistemas mental, sensível e instintivo. E um dos segredos que aprendi com Raumsol foi como usar a repetição para produzir uma grande novidade a cada dia, renovar impressões,

No ensaio "Que é um romance psicodinâmico", aqui publicado, discordei desta idéia. Tomando por base uma proposição útil dos formalistas russos, diria que uma idéia importante da literatura é fazer o leitor enxergar a realidade de maneira renovada sempre, como se a repetição lhe trouxesse uma luz nova a cada dia. Os formalistas gostavam de Tolstoi, porque o autor de Guerra e Paz costumava usar uma série de artifícios literários para obrigar o leitor a enxergar as coisas como renovadas, e um deles era produzir o efeito de estranhamento, como por exemplo fazer um cavalo proferir um discurso comunista.

supremo que este poema per se este poema que é um poema e nada mais este
supremo que este poema per se este
poema que é um poema e nada mais
este poema escrito apenas pelo poema
em si.
por completo
nobre
mais
em

O Corvo, porém, é uma história por ela mesma, um poema per se e de modo assumido. Allan Poe não tem intenção de ensinar nada na esfera moral. Em poucos minutos, o leitor encontra que uma mulher chamada Lenore tinha morrido, e que a lembrança dos tempos idos, quando o narrador e Lenore tinham vivido juntos, irá assombrar para sempre a memória do homem. O efeito sombrio das cortinas fantasmagóricas; a hora (meia-noite), a noite invernal oferecem o pano de fundo para a entrada de um corvo que profere uma única palavra: Nevermore (Nunca Mais). De início o personagem principal não leva a ave a sério, mas logo ele salta dum estado de admiração com a entrada do corvo em sua câmara de dormir ao alarme, até que atinge o horror extremo realizando o propósito de Poe, que é dar pábulo ao surgimento duma impressão macabra no peito do leitor.

emoções, renovar pensamentos e sentimentos mas nunca, jamais utilizando artifícios, pois o processo de evolução consciente preconizado por Raumsol não necessita deles. Este é um dos grandes segredos do romance psicodinâmico: a história não tem nenhum artifício em absoluto, é sempre a mesma na trama, porém o leitor encontra nela novos alicientes morais e espirituais cada vez que retorna e renova sua leitura, porque a repetição em Logosofia não induz ao comportamnento mecânico, uma vez que o processo de evolução consciente se realiza em espiral. Portanto, para uma história ser psicodinâmica é essencial que ela possua conteúdo moral e espiritual, caso contrário ela se esgotará na primeira ou segunda leitura ...

Na verdade, as histórias pós-modernas, expressão duma decadência extrema, costumam tender à maneira como Poe e seus confrades concebiam as novas formas literárias. Não é preciso dizer que considero isto uma

expressão acabada da decadência de uma cultura milenar que está se esboroando. O autor não tem obrigação nenhuma de edificar a moral, a ideologia, a religião ou que seja. É claro que o autor é livre para escrever o que quiser. Diga-se, na maioria das vezes esta questão moral foi usada por fazedores de milagres com sede numa instituição multinacional riquíssima, baseada na Itália, ou pelos outros milagreiros, além dos manipuladores de ideologias e mentes que pulularam no século XX nazistas, comunistas, fascistas e outros com objetivo de usar a literatura com o fim espúrio de anular a função de pensar dos leitores e manipular suas mentes. Na maior parte das vezes, isto encerrou a literatura numa camisa de força, como a que os comunistas inventaram no século XX. Os autores comunistas eram obrigados a enfiar o Marxismo em tudo que escreviam; isto era chamado de "Realismo Socialista". Durante muito tempo, os escritores brasileiros foram constrangidos a dar um "conteúdo social" a suas histórias, sob pena de serem considerados "reacionários". O célebre protesto de Cacá Diegues, nos anos 70, quando veio à mídia denunciar as "patrulhas ideológicas", marcou esta expressão para sempre no português do Brasil.

O fato de ser adepto do romance psicodinâmico criado por Raumsol me leva a advogar um novo uso, uma nova forma de criar histórias com objetivo de contribuir para o avanço moral e espiritual da humanidade, livre por completo de constrangimentos religiosos ou políticos; histórias que dependerão por exclusivo do talento individual de seus autores, e da sua habilidade para transformar o nível de conhecimento de si mesmo adquirido, em auxílio ao progresso extra- físico da humanidade.

Por último, devemos assinalar que os leitores não devem acreditar que uma narrativa histórica é a necessária expressão da verdade o que é muito comum entre os menos acostumados às teorias literárias. Por exemplo, uma narração que ocorre na Itália durante a Segunda Guerra Mundial, e envolve soldados brasileiros lutando no Vale do Pó, apresenta alguns fatos históricos patentes: os brasileiros foram os únicos latino-americanos a lutar na Segunda Grande Guerra, sua briga real foi contra os alemães no norte da Itália, e isto aconteceu no século XX. É tudo fato real. Porém os eventos que envolverão os protagonistas, seus amigos, etc., não importando se baseados ou não em caracteres reais, jamais expressarão a verdade absoluta, uma vez que os autores nunca descartam a faculdade de imaginar para criar suas narrativas.

Vale a pena mencionar que desde as primeiras ocorrências literárias até o século XIX cristão, os escritores reconheceram tacitamente que o trabalho principal de uma obra literária era edificar uma moral positiva. A liberdade de todo constrangimento ideológico, religioso ou político, ao menos nas democracias ocidentais, penetrou no campo literário somente no final do século XIX.

DISSERTAÇÃO s.f. Discurso, exposição ou exame minucioso de determinado assunto. / Exercício escrito em que os alunos expõem suas idéias sobre tema dado pelo professor, ou de sua livre escolha.

4. Dissertações ou teses

Dado que uma dissertação, breve ou longa, é discurso feito para demonstrar que uma ou mais idéias estão corretas, é corolário dizer que as faculdades da inteligência atuando para elaborar tal tipo de composição são a faculdade de pensar, porque ela cria ou seleciona pensamentos, e a razão a faculdade encarregada de organizar objetos mentais. Estas são as duas faculdades principais da inteligência além do entendimento, da intuição, da memória, etc. Isto significa que todo o mecanismo mental denominado por Raumsol função de pensar será convocado ao trabalho.

ARGUMENTO s.m. Prova que serve para afirmar ou negar um fato: argumento válido. / Sumário de um livro, de uma peça de teatro etc. / Lógica Raciocínio pelo qual se tira uma conseqüência de uma ou várias proposições. // Lógica Argumento de uma função, elemento cujo valor é bastante para determinar o valor da função dada.

ARGUMENTAR

v.t.

e

v.i.

Usar

de

argumentos; discutir

apresentando

e

contrapondo

razões

que,

através

do

raciocínio lógico, levem a uma conclusão.

De início, vou desenvolver minhas idéias sobre o que é uma dissertação, falando de modo generalizante, para em seguida expor alguma crítica sobre o conceito pós-moderno de tese, ou de dissertação acadêmica.

In: Aurélio, Internet

Não importando o quão popular seja esta versão, só posso admitir que um argumento tenha função de convencer em situações muito específicas. Considero defeituosa esta idéia de que se deve convencer o interlocutor. Em minha mente, o argumento é composto por uma ou mais idéias com o desígnio de avançar uma contribuição a outras inteligências, sempre com o propósito de ajudá-las a pensar melhor a respeito de algum assunto. Em política, ou mesmo no meio científico, os argumentos têm sido usados para fazer as pessoas pensarem igual a quem os profere, o que viola a liberdade individual.

Se consultarmos a maioria dos dicionários ou artigos sobre a arte de dissertar, veremos que se considera argumento como sinônimo de raciocínio que tem por fim convencer. No entanto, penso que argumentar para convencer é imoral; logo, não é esta minha intenção. Este meu livro A LUZ DOS HOMENS aponta com seriedade para os vícios impostos pelas ideologias políticas e religiosas, denuncia a

Como se pode ler, em nenhum momento o Aurélio diz que argumento é um pensamento com intenção de convencer. No entanto, a maioria dos dicionários assim o definiria desde os gregos clássicos, conforme veremos adiante.

Abaixo, vamos ler a seção do meu livro "A Luz dos Homens" onde proponho uma nova noção para o signo "argumento":

corrupção humana, mas não tenho interesse em convencer as pessoas a considerarem meus pensamentos válidos. Nenhum leitor deve acreditar em mim; pelo contrário: as coisas escritas neste livro têm por fim convidar a refletir sobre aspectos da condição humana; identificar os artifícios dos que manejam a mentira com o objetivo que considero o supra-sumo do mal de submeter os outros às suas vontades, a seus caprichos ou à perversidade da tirania, em especial a pior de todas: a tirania que se intromete na consciência do homem e destrói os recursos morais ali enraizados.

Segundo minha concepção da palavra "ética", o argumento é um raciocínio que leva em si o propósito de trazer alguma contribuição ao ideal de melhorar o ser humano. Ou seja, o argumento é composto por idéias que pretendem ser verdadeiras, porém tais idéias não podem intentar fazer o ouvinte ou leitor pensar da mesma forma que o criador da argumentação. Criar argumentos é uma arte desenhada para ajudar as pessoas a julgarem os fatos da condição humana de modo mais acurado, para corrigir erros, ou para melhorar nossa sabedoria. O argumento planejado para convencer é antidemocrático ele agride a ética.

De acordo com Gonzalez Pecotche (Raumsol): "Da verdade só surgem afirmações, jamais hipóteses." Isto não significa que todo argumento deva ser verdadeiro, mas que, para se chegar à verdade, é preciso antes pensar; se cada um contribui com seu aporte de

Entretanto a partir do momento em que se aprende a diferença entre pensar e pensamento, começa o treinamento de observar tudo que se passa na mente, guiado pelo método de Raumsol com objetivo de promover uma superação poermanente e, o que é de suma importância, de defender a mente individual das intromissões de pensamentos que se instalaram nela desde longa data, e também defendê-la das intromissões de pensamentos alheios. Parte do método logosófico ensina, por exemplo, a fazer juízos com base em conclusões amadurecidas, e não com base nas

Com relação à reprodução de pensamentos, e também ligado ao dito acima, um dos mnais importantes objetivos de Raumsol é ensinar quem se dedica ao cultivo de seu pensamento a usar a faculdade da observação. Existem pessoas cuja observação tem sumo desenvolvimento, mas se atentarmos para como ela é usada, veremos que a maioria dirige esta faculdade para fora deles mesmos. Não é de admirar, pois vivemos numa cultura voltada para o externo quase por completo.

importantes, e que, se posto em prática pela maioria das pessoas, impediria que os tiranos da mente humana conduzissem coletividades inteiras, reduzidas ao espírito nômade, para o abismo das guerras, do fantástico cenário de misérias espirituais, morais e físicas que advêm após a entrega que a ingenuidade faz, aos pastores da ideologia política e religiosa, de suas vontades e inteligências.

experiência, de observação, raciocínio, pode-se chegar à verdade sem discussões estéreis, mais próprias da intemperância típica da filosofia. Se cada teoria que se inventa contradiz as outras, onde está a verdade? ...

dos mais

aspecto

Existe

ainda

outro

um

observação, tal como

indicado,

fica

constitua um hábito, se notará que atua

se comprova porque desaparece gradual

a consciência. E isto

e

definitivamente o inveterado costume de

distrair a mente em coisas vagas. O vazio

produzido

suspensão

mental

pela

Vejamos que nos diz González Pecotche sobre esta importantíssima faculdade chamada observação sempre, é claro, chamando a atenção para o conceito logosófico da diferença entre pensar e pensamento:

Quando se conseguir que a

LOGOSÓFICA

EXEGESIS

livro

Do

interpretações alheias, que na maioria das vezes levam intenções no mínimo duvidosas. Se esta faculdade da mente a observação é usada com disciplina e método, torna-se impossível aos demagogos, aos mal- intencionados, ao vigaristas, ou simplesmente às informações com intuito distorcido de penetrarem na mente e fazerem nela o trabalho destrutivo que a história registra.

Para criar pensamentos é preciso, antes, criar uma individualidade própria, que exclui terminantemente a possibilidade de reduzir seu dono à condição de homem-massa, de espírito nômade. Esta realização bastaria, sozinha, para avaliar o alto cunho pedagógico de um método que visa ensinar o ser humano a pensar, como é o método criado por Raumsol.

frequente do pensamento é uma espécie de "letargo branco" assim o denomina a Logosofía que, sem ser sono, recolhe a atenção como se o fosse, de modo que olhando não se vê e ouvindo não se escuta.

na apreciação

alheia,

e

lhe evitará

também que em sua mente se

introduzam

subrepticiamente

pensamentos

índole

de

indesejável,

como os alarmistas, os tendenciosos ou os simplesmente nocivos para o próprio campo mental.

... incorrer em erros como os que se cometem ao elaborar um juízo com base

A faculdade da observação deve se constituir em vigía permanente da

fortaleza interna [

Isto lhe evitará

].

Esta é, portanto, a possibilidade aberta pelo método de González Pecotche: a de acumular sabedoria suficiente para superar as deficiências da própria mente e, em paralelo, impedir que mentes alheias manipulem a própria inteligência. Em outras palavras, tornar-se de verdade o dono de seu próprio campo mental. Isto possibilita ao ser humano criar seus próprios pensamentos. No campo acadêmico, porá um fim à tendência grosseira, comum nas universidades brasileiras, de impedir que o estudante pense, obrigando-o a repetir pensamentos alheios como se fosse macaco de imitação. Considera-se, de modo bastante primitivo, que "pensar" é criar um monte de teorias. Esta concepção limitadíssima do que seja "pensar" leva os professores a agredir o que de melhor

importante que a palavra que persuade os juízes na corte, os senadores no conselho, os cidadãos na assembléia ou em qualquer outra reunião política? Se você tiver o poder de pronunciar esta palavra, transformará o doutor em seu escravo, e o treinador de ginástica em seu cativo, e o homem que empilha

Górgias Este bem, Sócrates, que é mesmo o melhor de todos os bens, é o que confere liberdade aos homens, e ao indivíduo confere poder sobre seus compatriotas nos diferentes Estados.

Sócrates Qual é, como você diz, o bem mais importante que um homem pode ter, bem que você mesmo cria? Dê- nos uma resposta.

Sócrates

você o

como

E

concebe?

Górgias

Existe

algo

mais

Um capítulo de Platão intitulado Gorgias, mostra o gênio de Sócrates demonstrando, ao personagem Górgias, a verdadeira natureza da retórica. Este diálogo se aplica a quaisquer períodos históricos, visto as pessoas usarem a retórica como ferramenta de manipulação, tornando desta forma sua prática imoral, e passível de culpa sob um ponto de vista ético. Na citação abaixo, Gorgias aparece com o discurso mal intencionado que Sócrates irá condenar minutos após:

existe na cultura do Ocidente: o desenvolvimento, inda que embrionário, da individualidade.

O fenômeno da manipulação das mentes, envolvendo multidões, convencendo centenas, milhares ou milhões de pessoas a renunciar a suas individualidades para seguir os "condottieri", os "fuehrers", os "pastores", os "padres", como os rebanhos de carneirinhos são guiados por seus donos este fenômeno é observado há séculos. William Shakespeare, em seu "Júlio César", faz Brutus convencer facilmente o povo de Roma de que havia liderado uma inconfidência, matando César, para o bem de Roma; alguns minutos depois, Marco Antônio convence o povo romano do oposto, e os induz à rebelião contra os novos detentores do poder. Em "Coriolanus", Shakespeare mostra a mesma triste realidade: quão fácil é conduzir a mente da multidão para onde se quer, bastando com isso que se domine a habilidade, emulada por Górgias, de convencer. Respeito bastante os milhares de páginas gastos pelos teóricos para explicar este fenômeno, mas a verdade é simples, e não se necessita de livros e mais livros para explicá-la:

Não obstante o discurso de Górgias parecer um exagero, pergunto-me, e ao leitor ele não transmite a interpretação usual que as pessoas geralmente dão à palavra argumento? Persuadir. Convencer. É a fala dos ditadores da ideologia religiosa e política, cujo objetivo é sempre escravizar a mente humana e torná-la dócil instrumento de seus baixos desígnios.

para ele mesmo, mas para você, pois você tem a capacidade de falar e convencer a multidão.

dinheiro [

]

irá acumular tesouros não

as pessoas desconhecem o que é a mente e os pensamentos, não sabem que possuem um tesouro

denominado por Raumsol de "sistema mental", por isto é tão fácil convencê-las, seja do que for. O mais cômico é que todos pensam que os outros são fáceis de convencer, que éa humanidade que se deixa levar com tamanha facilidade como espíritos nômades, mas de minhas observações concluí que é tão fácil convencer os doutores das universidades, que se acham muito capazes de pensar, quanto convencer os mortais comuns, que não possuem títulos e comendas. A cultura comum não ensina ninguém a pensar; só forma profissionais. Fora de sua área específica, o sujeito mais genial costuma se comportar às vezes pior que os outros, que ele considera seus inferiores ...

Portanto, convencer não deve constituir o objetivo de um escritor que se preze, mas é preferível apenas tentar contribuir com seu aporte para a evolução da humanidade. É um propósito muito mais humilde e modesto do que as pretensões dos criadores das tais "metanarrativas" discursos fechados que explicam tudo, como o comunista, o das religiões estas se arrogam o direto de serem nada menos que proprietárias de Deus! o do doutor Freud (Freud explica!), o das filosofias antigas e modernas, e de tantos outros. Meta significa "além de", e eles chegaram além do quê? Afora o fracasso das "metas", nenhum deles

... que se acha capaz de pensar às mil maravilhas. Alguns até dizem que os poetas possuem uma capacidade de

Mao Tsé Tung, havia doutores, PhD's, cientistas de renome, grandes artistas, filósofos, teóricos da

enxergar a realidade de modo mais profundo que o comum dos mortais ...

Entre os seguidores de Hitler, Stalin, Mussolini,

literatura, escritores, grandes cineastas

toda essa gente

Pois é ...

e

A

4.a

entre

razão

relação

conhecimento

Vamos ler o que diz González Pecotche sobre a relação entre razão e conhecimento:

jamais narrou a realidade do ser humano em sua verdadeira estrutura mental, moral e espiritual. A triste situação da humanidade está aí, para demonstrar o fracasso da cultura vigente, ocidental e oriental, apesar de toda a empáfia das grandes autoridades do pensamento acadêmico.

Sempre que estou ensinando composição escrita, pergunto a meus alunos o que eles pensam ser a principal característica duma boa dissertação o conhecimento do assunto ou a coerência? A maioria dos estudantes responde que se uma pessoa não tem conhecimento do que está sendo desenvolvido, será impossível ser coerente.

A razão é e não é uma faculdade. Existe e não existe, e só aciona com base nos conhecimentos que se possua. É o conhecimento que lhe dá vida; sem ele, a razão não poderia exercer sua função como faculdade central da mente, pois o conhecimento constitui sua razão de existir.

A razão requer o auxílio imediato do conhecimento para poder discernir; ela não pode estabelecer nenhum juízo sem antes haver buscado e reunido os elementos indispensáveis a tal função.

Poderia, por exemplo, quem se acha em um bosque encontrar a planta que haverá de curar-lhe uma ferida, se não a conhece? Não; e até pereceria no mesmo lugar em que cresce a erva salvadora. Ao ignorar sua existência, não pode fazer uso dela, nem sua razão pode julgar acerca do valor medicinal da mesma; em troca, o que a conhece, por meio desse conhecimento a utiliza e julga ao mesmo tempo sua bondade para curar feridas.

De modo que os conhecimentos aumentam o volume ea consideração do juízo que vai elaborando essa faculdade central chamada razão, a qual, nutrida por estes conhecimentos, pode fazer com que estes, por sua vez, nutram a razão com outros.

 

De tudo

isto

se depreende que, a

maior conhecimento, maior razão.

[

...

]

O conhecimento é básico para se estabelecer um raciocínio, mas pode não sê-lo para tratar um tema com coerência. Há casos de pessoas que têm total conhecimento do assunto sobre o qual devem discorrer, mas não podem ser coerentes em absoluto. Mesmo se um homem sabe tudo sobre um assunto, isto não faz dele automaticamente um bom escritor.

Os melhores autores profissionais fazem pesquisas detalhadas do assunto que vão trabalhar, para se sentirem por completo seguros deles mesmos antes de

começarem a escrever suas histórias. Mário de Andrade escreveu Macunaíma, uma obra prima da literatura universal, com base nos conhecimentos que tinha do folclore sul-americano, e do povo brasileiro. Guimarães Rosa conhecia profundamente o dialeto da região onde suas histórias acontecem, e é mesmo de surpreender que tanta gente escreva sobre a linguagem de Guimarães Rosa sem nunca ter sequer visitado aquela área do Brasil. É óbvio, como as razões destes teóricos não têm conhecimento do assunto, a quantidade de incorreções que cometem é enorme. Machado de Assis e Lima Barreto escreveram sobre a vida do Rio de Janeiro com tamanha acuidade porque eram cariocas da gema. Para compor sua obra-prima "Os Sertões", Euclides da Cunha participou como repórter e pesquisador da campanha de Canudos.

No final dos anos setenta, um escritor Judeu- Americano chamado Isaac Bashevis Singer ganhou o prêmio Nobel. Este homem havia escrito uma história sobre o Brasil que, além de ofensiva, era baseada na total ignorância sobre nosso povo, e até mesmo sobre fatos elementares da geografia. Em sua novella "One Night in Brazil", Singer inventou um furacão perto de Santos, pois pensava que toda região tropical tem furacões; fez um navio que levava passageiro judeu atracar em Santos para se proteger do furacão, e seu judeu inventado

... ônibus tinha asas, decerto. Em seguida, seu personagem absurdo tomou um táxi no Rio e mandou o motorista procurar o bairro judeu, como se todas as cidades brasileiras fossem como as americanas, onde existem "comunidades" isoladas entre si. Como o tal cidadão não morava no bairro judeu, ele foi achá-lo nas

Não obstante, o fato dos bons escritores profissionais construírem suas tramas desta forma não significa que todos os escritores se comportem assim.

em duas horas, de ônibus! O

viajou de Santos ao Rio

cercanias do Rio de Janeiro, onde pasmem os leitores! Mister Singer pôs seu personagem a admirar a luxuriante paisagem tropical, com pássaros de variegadas cores e não a poluição de Santa Cruz ou dos milhões de carros que trafegam por aqui! Os amigos judeus do viajante de origem israelita que nunca existiu moravam no Brasil! numa casa igual às americanas, com aquelas portas que têm uma espécie de rede fina para não entrar mosquito. É que a ignorância de Mister Singer inventou que, à noitinha, mosquitos do tamanho de morcegos saíam da floresta para beber o sangue de suas vítimas humanas! Seriam todos afilhados do famoso conde da Transilvânia? Depois vem um diálogo em que a esposa do judeu que nunca aparece na história diz que seu marido estava maluco, mas que não podia tratá-lo no Brasil porque os psiquiatras daqui são de décima categoria ou pior ainda. Seria porque eles costumam fazer estudos complementares nas universidades norte-americanas? Quando o visitante diz à esposa do judeu invisível que tem de voltar logo, porque o navio vai sair de Santos assim que passar o terrível tornado, a dona lhe informa que não tem problema, porque "essa gente não tem noção de tempo", se o navio não sair hoje, sai amanhã ou daqui a uma semana, vai ficar esperando o passageiro voltar, pra eles tanto faz hoje como daqui a um mês ...

Para o sujeito ser escritor, não precisa ser profissional. Existem amadores bons. Por outro lado, há profissionais como este senhor Singer, que ignoram o básico de sua profissão. Ele nem se preocupou em perguntar a algum brasileiro, dos tantos que sempre houve nas universidades americanas, como era o Rio de Janeiro; nem se deu ao trabalho de consultar um mapa do sudeste do Brasil!

para Quão grande foi minha surpresa quando, atônito, no final dos anos setenta, ouvi dizer que
para
Quão grande foi minha surpresa quando, atônito,
no final dos anos setenta, ouvi dizer que este escritor de
décima categoria ou pior tinha sido contemplado com ...
o Prêmio Nobel! A razão era política, como sempre, e
não literária: aquele tratado que se denominou "Acordo
de Camp David" tinha sido assinado entre palestinos e
judeus, e era preciso chamar a atenção para ele que,
aliás, não resolveu nada, como sempre. Estes homens
assinam tratados com uma mão e os violam, antes da
assinatura, com as duas. Enquanto isso, escritores
realmente profissionais, e bons, como Mário de
Andrade, Guimarães Rosa, Carlos Drummond de
Andrade, Cecília Meirelles, Graciliano Ramos, e tantos
outros escritores brasileiros muito melhores que este
senhor Singer, jamais chegaram perto do tal Prêmio
Nobel.
Não obstante maus ficcionistas poderem produzir
tais imposturas grosseiras talvez porque pensem que
ficcionista não tem compromisso com a realidade
não é admissível que um raciocínio dissertativo
apresente tamanha contrafação. São dois os
requerimentos básicos para elaborar bem uma
dissertação: seu autor precisa ter a experiência, ou pelo
menos ter estudado o suficiente do assunto para
apresentar idéias convincentes, e o desenvolvimento de
sua tarefa deve ser apresentado em parágrafos
coerentes.
como um escritor usa sua função de pensar quando
decide produzir boas dissertações.
dissertação bem estruturada
Vamos ver em seguida, passo
compor
Passos
a passo,
modo
4.b
uma
o
atrair O método é simples: busque na sua memória todo tipo de conhecimento que ela tiver
atrair
O método é simples: busque na sua memória todo
tipo de conhecimento que ela tiver possivelmente
armazenado a respeito do assunto. Durante este
processo de memorização, você deve recorrer à
paciência, caso contrário perderá o foco. À medida que
você espicaça a memória, visando fazê-la fornecer o
que sabe a respeito do assunto da sua breve ou longa
dissertação ou tese algumas idéias surgirão na
superfície de sua mente. Você deve escrever toda e
qualquer idéia que tiver aparecido, pois elas
possivelmente se originaram na parte mais profunda de
sua estrutura psíquica. O pré-requisito para criar esse
tipo de idéias é a capacidade para focar no assunto, e
fazer a memória fluir livre da interferência de
pensamentos estranhos a ele.
Qualquer informação extraída da faculdade
memórica vale sua atenção. Por exemplo, se você vai
escrever uma dissertação breve sobre o assunto
"Descobrimento da América", deve perguntar à sua
memória: Quando a América foi descoberta?
"Descoberta" é um bom termo para usar, com vistas a
Chamemos o conhecimento geral do que se sabe de
"assunto"; e vamos nomear como "tema" a idéia que
você irá buscar no interior do assunto. Algumas vezes o
tema é dado de antemão, mas via de regra você tem que
extrair a idéia do assunto dado.
necessidade do conhecimento para elaborar boas
dissertações, sem considerar seu tamanho. Vale para
todas.
I. Como criar uma idéia para uma redação ou uma
dissertação?
baseado
método
idéias
para
Meu
na
é

De súbito, a primeira idéia irá aparecer na sua tela mental. Em meu caso, me ocorreu que de fato os chamados "índios" (ameríndios, na velha termilogogia dos historiadores) foram os verdadeiros descobridores da América. Assim, eu escreveria dizendo que os antropólogos datam a chegada dos homens a nosso continente por volta de uns 10 ou 15 mil anos atrás, e não no ano cristão de 1492, como foi convencionado. Também informaria que a etnia dos asiáticos e dos ameríndios é aparentada, visto os povos antigos que vieram para nosso continente muito provavelmente haverem cruzado o Estreito de Behring, vindos da Ásia, durante a última era glacial. É por isso que, no Brasil, com frequência esbarramos em pessoas que não têm sangue asiático, mas cujos rostos lembram os dos japoneses. Portanto, nossos ancestrais (históricos e étnicos) foram os verdadeiros deescobridores do continente onde vivemos.

O tema (a idéia) que você extraiu do assunto deverá ser posto em folhas de papel. Assim, você tem um espaço e um tempo para ajustar seu discurso às folhas disponíveis. Desta forma, sua idéia deve se adaptar ao tamanho e à duração que o trabalho irá requerer. Com relação ao tempo e ao espaço, o título tem grande importância. Por exemplo, se uma pessoa tem uma folha de papel para desenvolver uma idéia (o tema), e lhe dá o título de "A Violência no Brasil", esse tema se

nomear a chegada dos europeus em nosso continente? Quem era o comandante da frota que chegou aqui em 1492? Por que os europeus vieram para a América?

Ei-la, então: a idéia para uma dissertação breve.

transferir uma idéia da mente para o

II. Como

papel?

Não se esqueça de selecionar suas idéias em parágrafos. Algumas pessoas escrevem só um parágrafo que inclui muitos tópicos diferentes. Tal erro é resultado da falta de treinamento. Se você escreve uma redação ou uma dissertação em longos, gigantescos parágrafos que vão de oceanos a lagoas, o leitor porá de lado seu trabalho num par de minutos. Parágrafos tão apinhados de pensamentos ficam pesados e chatos. É impossível manter presa a atenção do leitor em parágrafos longos e maçantes.

O ideal, portanto e isto é de suma importância é compor parágrafos curtos. Fazer parágrafos longos é para escritores experientes, ou para profissionais. Cada parágrafo deve conter uma seção da idéia geral do trabalho, cada tópico deve conter um sub-aspecto desta mesma idéia básica. O pensamento que se reproduziu tem de estar bem organizado em suas várias seções e sub-seções.

Assim, a pessoa terá de passar o assunto por uma peneira, até que as idéias e o tempo-espaço disponíveis se coadunem. Você terá de continuar pensando temas de amplitude cada vez menor, até se ajustar ao tempo- espaço de que disporá para desenvolver seu trabalho.

No primeiro parágrafo, você começará informando o que vai demonstrar. Se sua dissertação for longa, apenas escreva uma introdução dizendo ao leitor o que será desenvolvido.

perdeu por antecipado. É impossível desenvolver idéias sobre a violência no Brasil em duas páginas.

III. Do geral ao particular

Usando o método de desenvolver suas informações do geral ao particular: antes de mais nada, comente sobre os muitos e diferentes dialetos falados no Brasil. Ainda no geral, você pode dizer que o português do Brasil tem forte influência das línguas indígenas e do modo africano de falar, uma vez que os colonos portugueses costumavam absorver as culturas que submetiam, por toda a vasta área de seu império; em segundo lugar, diga ao leitor que alguns eruditos consideram o português carioca parte do dialeto do sudeste.

Esta forma de pensar, do geral ao particular junto com a divisão das idéias em tópicos, fará sua redação ou dissertação, ou mesmo sua tese, funcionar bem e alcançar seu propósito. Vamos supor que você deseja escrever uma dissertação sobre o modo como as pessoas nascidas e criadas no Rio de Janeiro falam o português do Brasil:

Agora que você ofereceu ao leitor a informação geral, diga-lhe que o registro mais sofisticado da língua a linguagem artificial da alta cultura, usada no discurso escrito e no jornalismo radiofônico, ou na TV é baseada no dialeto do Rio de Janeiro.

Assim, partindo de uma generalização (português brasileiro) para o particular (português carioca), você chegou ao Rio.

dissertação, compare esse dialeto com os tipos básicos de português existentes no sudeste (se você os conhecer), ou mesmo com a linguagem do Espírito

Chegue,

então,

às

peculiaridades

do nosso

português carioca. Para desenvolver

melhor sua

De acordo com o item número III (do geral ao particular), vamos supor que é nossa intenção escrever sobre a linguagem específica usada na cidade do Rio de Janeiro, e sobre as leves diferenças entre a linguagem da cidade e a do estado do Rio de Janeiro. Voce desenvolveu seu tema com referência ao português do Brasil em geral; na sequência, filtrou o tema e chegou à linguagem do sudeste, até sua chegada ao português do Rio de Janeiro. Você informou a seu leitor que os modos de falar no resto do estado podem apresentar diferenças consideráveis com relação à linguagem do Rio de Janeiro, cidade.

Você pretende situar seu discurso no espaço, dizendo ao leitor que quanto mais uma cidade ou vila se aproximar do Rio de Janeiro, mais semelhante ao português carioca será a linguagem do seu povo. Assim, que tópicos serão mais importantes, considerando nosso método de sortear as idéias de acordo com sua hierarquia?

As idéias são como os militares: dividem-se em hierarquias. Isto significa que, se você tiver tópicos diferentes a desenvolver, eles devem ser selecionados de acordo com suas hierarquias: do mais importante ao menos importante, dentre os tópicos a serem listados.

O tópico um seria uma citação, apenas, do português falado ao norte do estado do Rio, dirigindo- se ao oeste, e mais tarde ao sul. Desta maneira você localiza as áreas influenciadas, mais ou menos, pelo Rio.

Santo, que está mais próxima do dialeto do Rio que a linguagem mineira ou paulista.

IV. Dividindo suas idéias em tópicos

Com respeito à construção dos parágrafos, não se esqueça de fazê-los curtos. O leitor moderno não gosta de ler coisas muito longas, parágrafos ou romances. Outro aspecto: procure as palavras repetidas e trate de substituí-las por sinônimos. Se não houver esta possibilidade, arrume outro jeito de exprimir as mesmas idéias. Textos com repetições exaustivas de palavras são chatíssimos e redundantes, e dão a impressão de que a pessoa não domina a flexibilidade do idioma. Evite, também, repetição de sons. Há textos com verdadeiras cacofonias, tipo a repetição de "mente" e afins dezenas de vezes (tenente, semente, semelhante, somente, frequentemente) ...

No tópico dois, você faria uma consideração geral das áreas ao norte do estado, mostrando a semelhança com o sotaque do sul do Espírito Santo; depois, passando pelo oeste, as áreas influenciadas por Minas Gerais seriam alvo de uma consideração geral, até chegar ao sul do estado, onde falam português parecido com o sotaque daquela área paulista.

Não escreva de modo relaxado. Faça uma redação limpa, com parágrafos bem localizados, escrita de modo elegante por exemplo, nunca faça coisas como ñ em vez de não, ou q em vez de que. Comece os parágrafos com letra maiúscula, escreva os substantivos comuns com minúsculas e os próprios com maiúsculas. Existem

Após considerações gerais, com alguma menção dos detalhes, você iria fundo nestes, escrevendo o sub- tópico um (o português do Rio influenciado pelo Espírito Santo), sub-tópico dois (influência da Zona da Mata mineira), e sub-tópico três (influência paulista).

IV. O parágrafo

Os estudantes brasileiros costumam armar parágrafos que começam com gerúndio, mas não colocam a oração principal depois. Isto faz sua dissertação incoerente. Por exemplo: "Andando pela borda duma plantação de café em São Paulo." Isto não diz nada, pois o verbo no gerúndio significa "quando andava", ou "enquanto andava", e necessita de uma oração principal para ganhar sentido, como: "Andando pela borda duma plantação de café em São Paulo, vi meu amigo João." Outro péssimo hábito é começar parágrafos com "Pois", como por exemplo: "José viu a irmã de seu amigo cair. Pois ela tinha escorregado, e então ela se machucou. Pois ela era muito agitada."

Você deveria fechar sua dissertação breve ou longa dizendo ao leitor que alcançou seu propósito de desenvolver um tema e não se esqueça de nomeá-lo. Para demonstrar que sua afirmação é correta, faça um sumário da idéia central de seu discurso, e ofereça ao leitor uma viagem superficial e generalizante através das várias reproduções do pensamento que foram expostas. Esta é uma forma de acabar uma redação ou dissertação.

Há outros modos de desenvolver parágrafos finais, tais como fazendo perguntas que lançarão as mentes dos leitores adiante, e dizendo-lhes que o tema permanece aberto ao intercâmbio de idéias. Diga que

Grande quantidade de indivíduos não consegue escrever combinando maiúsculas com minúsculas; eles escrevem só com maiúsculas, o que é um erro crasso.

regras básicas, necessárias, para fazer uma redação decente.

V. Parágrafos finais

Então, comecei conceituando o que é uma descrição, depois passei à narrativa e ao argumento, e você me acompanhou por todo o caminho, até estes parágrafos finais. Dissemos ao leitor que as pessoas devem usar sua razão para organizarem discursos escritos, e como alcançá-lo. Alguns segredos do trabalho escrito foram desvendados, além de um incentivo para pensar mais sobre este importante assunto relativo à produção de redações, dissertações e teses.

você apenas abordou parte "deste vasto tema". Uma afirmação sincera como esta é sempre agradável aos leitores; significa que você os está convidando a viajarem juntos através de paisagens interessantes, e que seu aporte seria bem-vindo.

Espero que você aproveite ao máximo as técnicas colocadas nesse trabalho.