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FERRUGEM

Combate com
tecnologia de
APLICAÇÃO
Custo para combater a mais terrível das doenças da soja é bastante alto.
Por isso é importante fazer a aplicação correta do fungicida, sobretudo
escolher o equipamento e o sistema mais adequados
Eng°. Agr. Manoel Ibrain Lobo Júnior, consultor em tecnologia de aplicação
lobo@pulverizador.com.br

A
ferrugem asiática (Phakopso- muito longe de ser conseguida por meio A grande dificuldade no controle
ra pachyrhizi) é uma doença da utilização de variedades resistentes dessa doença, que rapidamente se alas-
causada por fungos que ataca ou do combate com produtos quími- trou pelo País nos últimos anos de ma-
severamente a cultura da soja por todos cos, pois a grande capacidade de mu- neira avassaladora, está explicada pe-
os Estados do Brasil e em muitos outros tação do fungo é reconhecida pelos los muitos fatores que seguem:
países da América do Sul, além dos Es- maiores especialistas da área. 1o. — A ferrugem ataca a soja em
tados Unidos. É atualmente o fator bi-
ológico com maior poder de limitar a
produtividade dessa cultura. Desde a
safra de 2002 a doença já acumula
um prejuízo estimado em cerca de
US$ 10 bilhões à agricultura brasileira.
Nas regiões onde a ocorrência da fer-
rugem foi mais severa, foram necessá-
rias até quatro aplicações de fungicidas
para o seu controle. As porcentagens
de perdas provocadas na produção va-
riam entre 30% a 80%.
No Brasil, nos últimos anos houve
significativos avanços no combate à fer-
rugem por meio do uso de novas tec-
nologias de informação, de produtos
químicos mais específicos e do desen-
volvimento de novas tecnologias em equi-
pamentos cujo objetivo é uma maior pre-
cisão, rapidez e eficiência na realização
do controle químico. Apesar dos inten-
sivos trabalhos de pesquisa para o con-
trole dessa doença, para a maior parte
dos especialistas o fato de que a elimi-
nação completa dessa doença ainda está
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qualquer estágio do seu desenvolvimen- consideração os nú- Nos Estados
to fisiológico, desde a emergência da meros de máquinas Unidos, a ferrugem
planta do solo até o final do ciclo vege- que serão necessá- asiática é considera-
tativo (ciclo aproximado de 120 dias). rias para o rápido da e tratada como
No início do desenvolvimento da cultu- controle químico de “arma biológica” e é
ra, o controle químico é realizado com toda a cultura. combatida em nível
maior facilidade, pois as máquinas se Muitos produto- de penetração dos
movimentam com maior mobilidade res dobram a área esporos, em que a
dentro da cultura, ainda com pouco en- de plantio, mas não estratégia é aplicar o
folhamento. Nessa fase inicial do ciclo, aumentam o núme- controle químico

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a proteção da planta é mais fácil por- ro de equipamentos ainda na fase de de-
que a deposição e a penetração do pro- para as operações senvolvimento do
duto químico são mais eficientes pelo de pulverização des- fungo na planta in-
pouco número de folhas nas plantas e sas novas áreas, re- Lobo: ferrugem causa perdas que fectada, através de
varia entre 30% e 80% da produção
pelo grande espaço entre elas. sultando nas falhas monitoramentos di-
A época de ataque da doença mais de aplicações tardi- ários das plantas uti-
crítica para a cultura da soja acontece as e nas perdas da produção pela falta lizando microscópios, limitando ao má-
durante o florescimento, pois, além das de controle imediato da doença. Os pul- ximo a doença para não atingir a fase
plantas se encontrarem mais sensíveis, verizadores terrestres, quando operam reprodutiva de liberação dos esporos por
existe ainda uma maior dificuldade de na cultura da soja nesse estágio de flo- toda a área da cultura de soja.
movimentação das máquinas dentro da rescimento, mesmo equipados com 3o. — A frase “prevenir é sempre me-
cultura, devido ao fechamento das en- protetores de plantas conhecidos como lhor (e muito mais econômico) que re-
trelinhas, por onde passam os pneus, “abre plantas” (cropsavers), provocam mediar” deve ser seguida à risca, quan-
pela grande quantidade de folhas. O fe- também a derrubada das flores, dimi- do falamos em utilizar a tecnologia de
chamento da folhagem dificulta a mo- nuindo ainda mais a produção. Uma ob- aplicação na cultura da soja para o con-
vimentação dos pulverizadores dentro servação muito importante a ser consi- trole da ferrugem. Através do monitora-
da cultura, o que diminui o rendimento derada é o fato de a maior parte dos mento da doença em áreas próximas às
operacional das máquinas resultando em produtos químicos aplicados ter a ação de soja, da previsão de condições ambi-
perdas na produção devido ao atraso sistêmica de “cura e proteção” na plan- entais propícias ao desenvolvimento da
no controle químico da doença. Esse ta, onde o sentido de translocação do ferrugem e analisando o histórico do seu
problema é potencializado também pelo produto dentro da planta é das folhas desenvolvimento nessas áreas, é possí-
incorreto planejamento e dimensiona- mais velhas para as mais novas. vel programar as aplicações preventivas
mento da área de plantio, levando-se em Essa característica dos fungicidas objetivando a eficiência no controle quí-
sistêmicos faz obrigatória a deposição mico da ferrugem.
das gotas nas folhas mais velhas para a A outra frase “quem chega primeiro
total proteção da planta. Caso a deposi- bebe água limpa” também poderá ser uti-
ção das gotas aconteça apenas nas fo- lizada como estratégia de controle da do-
lhas mais novas (ponteiro das plantas), ença na soja, pela escolha de cultivares
a planta de soja ficará protegida apenas precoces, objetivando diminuir a pres-
nessa área, podendo acontecer a res- são de esporos do fungo de outras áreas
surgência da doença em toda a área da mais velhas e já infectadas pela doença
cultura, a partir das folhas velhas de uma próximas da área a ser protegida. Nas
única planta infectada. grandes áreas do cerrado brasileiro, os
2o. — Um outro fator que dificulta o meios mais eficientes de controle quí-
controle da doença é a identificação dos mico na soja são realizados por grandes
primeiros sintomas da infestação da fer- pulverizadores terrestres, conhecidos
rugem nas folhas, que se assemelha mui- como pulverizadores autopropelidos, e
to a outras pintas de outros tipos de do- também por grandes aeronaves agríco-
enças fúngicas menos severas, e até mes- las Air Tractor e Dromader. Ambos os
mo são bastante parecidas com algumas meios aplicadores, terrestres e aéreos,
doenças causadas por bactérias oportu- proporcionam a mesma eficiência nas
nistas. Essa dificuldade na identificação aplicações dos agroquímicos no controle
dos primeiros sintomas ocasiona a per- da ferrugem da soja, desde que seja fei-
da do “timing” (o momento oportuno ta a formatação correta na regulagem e
do controle), permitindo a disseminação calibração nesses equipamentos antes
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da doença através dos esporos, necessi- das aplicações.


tando de aumento das doses e também Atenção ao tamanho das gotas —
de mais aplicações. O segredo para conseguir a eficiência
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no controle químico da ferrugem aplicação de produtos de contato. No
da soja é o controle do tamanho caso dos pulverizadores terrestres, já
das gotas a serem produzidas. O existem novas tecnologias em pontas
objetivo é sempre proporcionar de pulverização com indução de ar que
uma densidade satisfatória de go- produzem gotas com tamanhos satis-
tas depositadas sobre o alvo e a fatórios para possibilitar uma melhor de-
maior penetração de gotas pos- posição e penetração nas folhagens

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síveis nas folhas mais velhas das adensadas, levando em consideração a
plantas, visando a uma melhor densidade necessária para o máximo
ação sistêmica dos fungicidas, Na aplicação aérea as novas tecnologias em efeito biológico.
assunto já mencionado anterior- atomizadores rotativos possibilitam maior Essas novas pontas de pulverização
mente. Tanto os aviões agríco- controle sobre o tamanho das gotas com tecnologia de redução de deriva (sis-
las como os pulverizadores ter- tema venturi) com jatos planos duplos
restres devem ser equipados com tec- A característica das aplicações aére- (com ângulo de 60 graus entre eles) pro-
nologias em pontas e bicos de pulve- as é a utilização de baixos volumes nas duzem gotas grandes aeradas, mas que
rização que produzam gotas que su- aplicações (8 a 15 litros por hectare), proporcionam uma boa cobertura sobre
perem as mais adversas condições para maior rendimento possível das ae- o alvo, pois explodem e se esparramam
meteorológicas de temperatura alta e ronaves, não sendo possível produzir na superfície das folhas da soja sem o
umidade do ar baixa do Cerrado bra- gotas muito grandes, pois a pulveriza- menor risco de escorrimento. Normal-
sileiro, reduzindo ao máximo o risco ção não conseguiria produzir a densida- mente, gotas com diâmetros maiores que
de perdas por deriva, evaporação e es- de necessária de gotas sobre as folhas 400 micrômetros, produzidas por pon-
corrimento das gotas. para a correta proteção da cultura de soja. tas convencionais, são perdidas por es-
Também no Cerrado brasileiro, as A fim de evitar os riscos de perdas por corrimento e vão diretamente para o solo,
constantes rajadas de vento são um deriva, novas tecnologias em sistemas, contaminando o lençol freático. No caso
fator limitante às aplicações, pois as pontas e bicos de pulverização estão sen- das aplicações aéreas, as novas tecnolo-
gotas produzidas com tamanhos (diâ- do desenvolvidas para superar esses fa- gias em atomizadores rotativos (eólicos
metros) entre 150 a 250 micrômetros, tores limitantes, conferindo um maior e elétricos) estão possibilitando um mai-
muito utilizadas nas aplicações aéreas, tempo de vida à gota, desde a sua altura or controle sobre o tamanho das gotas
são facilmente levadas pelo vento, de liberação do bico (3 metros – aero- produzidas, conseguindo uma pulveri-
mesmo em situações amenas de ven- naves agrícolas; 0,5 metro – pulveriza- zação com espectro homogêneo, que
to com velocidades entre 5 a 7 quilô- dores terrestres) até atingir o alvo bio- atenda às necessidades de densidade e
metros por hora. Essas gotas muito lógico. cobertura, com tamanhos suficientes que
pequenas são levadas até distâncias in- Densidade — Geralmente, a den- superem as condições meteorológicas
determinadas, contaminando áreas sidade de gotas necessárias para con- adversas.
sensíveis próximas à área de aplica- seguir um eficiente efeito biológico no Estão sendo testados também novos
ção. As gotas grandes (gotas com di- controle químico da ferrugem está en- produtos adjuvantes que, adicionados à
âmetro acima de 400 micrômetros) tre 40 a 70 gotas por centímetro qua- calda de pulverização, possibilitam a di-
são menos suscetíveis às perdas por drado, depositadas sobre a folha de soja. minuição do risco da deriva e evapora-
deriva, porém podem ser também per- As 40 gotas (DMV: 250-300 micrôme- ção, conferindo um maior tempo de vida
didas pelo escorrimento das folhas. tros) seriam necessárias quando forem à gota, aumentando as chances de con-
aplicados produtos sistêmicos e as 70 seguir atingir o alvo biológico. Quando
gotas (DMV: 200-250 micrô- a aplicação aérea é necessária a partir do
metros) seriam ne- florescimento da cultura, o maior pro-
cessárias no blema dessa tecnologia, que utiliza bai-
caso de xos volumes (8 a 15 litros por hectare),
é conseguir uma densidade de gotas que
consigam a penetração na folhagem aden-
sada da soja. Nesses casos de maior fe-
chamento da cultura da soja, o mais re-
comendável são volumes maiores nas
aplicações aéreas (30 a 40 litros por hec-
tares) a fim de produzir um maior nú-
mero de gotas e conseguir atingir as fo-
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Meios aéreos e terrestres propiciam a mesma


eficiência de aplicação

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QUADRO 1 – EXPERIMENTO REALIZADO UTILIZANDO PULVERIZADORES AUTOPROPELIDOS NA
CULTURA DA SOJA, COMPARANDO DOIS TIPOS DE PONTAS DE PULVERIZAÇÃO, EQUIPANDO
BARRAS DE PULVERIZAÇÃO CONVENCIONAIS E BARRAS DE PULVERIZAÇÃO COM SISTEMA VORTEX

TIPO DE PONTA T1 B1 T2 B2 T3 B3
Ponta 01 c/ar 25 22,5 19 14,5 34,5 13,5
Ponta 01 s/ar 31,5 3 29,5 2 35 2,5
Ponta 02 c/ar 43 19 36,5 18 33 18
Ponta 02 s/ar 37 6 28 11,5 29 5,5
Obs.: Densidade de gotas por centímetro quadrado
Teste número 01 (T1 e B1), média de 4 repetições
Teste número 02 (T2 e B2), média de 4 repetições
Teste número 03 (T3 e B3), média de 4 repetições
Obs. Localização dos coletores de gotas nas plantas de soja - T1 (topo da planta) e B1 (baixeiro da planta)
Ponta 01 c/ar – Ponta de pulverização de jato tipo cone vazio (60 graus), equipando a barra de pulverização Vortex (com assistência de ar)
Ponta 01 s/ar – Ponta de pulverização de jato tipo cone vazio (60 graus), equipando a barra de pulverização convencional (sem assistência de ar)
Ponta 02 c/ar - Ponta de pulverização de jato plano (11002), equipando a barra de pulverização Vortex (com assistência de ar)
Ponta 02 s/ar - Ponta de pulverização de jato plano (11002), equipando a barra de pulverização convencional (sem assistência de ar)
Volume de aplicação: 120 litros por hectare

lhas mais velhas localizadas no baixeiro do a folhagem está totalmente fechada. ses da comunidade européia. Nesses, é
das plantas. No caso dos helicópteros, o efeito comum acontecer até a diminuição das
No caso dos aviões agrícolas, o efei- downwash do rotor do helicóptero pos- doses dos produtos aplicados com os
to aerodinâmico (que empurra as gotas sibilita a máxima penetração das gotas helicópteros devido à grande eficiência
para baixo) não é suficientemente forte dentro da cultura, técnica muito utiliza- de deposição e penetração das gotas den-
para conseguir a penetração das gotas da nos Estados Unidos, Canadá, Aus- tro das plantas e diminuição das perdas
para dentro da folhagem da soja, quan- trália, Nova Zelândia e em todos os paí- em razão do efeito downwash do rotor

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te para as operações de
controle químico da fer-
rugem em suas extensivas
áreas de soja e, posterior-
mente, para a prestação
de serviços em empresas
aero-agrícolas.
Sistema Vortex —

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Atualmente, a tecnologia
que mais se aproxima da
eficiência conseguida
Na Europa, a opção por helicópteros se
dá pela facilidade operacional e pela sua
pelo helicóptero na depo-
utilização como transporte executivo sição e penetração de go-
tas nas folhagens da cul-
do helicóptero empurrar as gotas para tura da soja é um novo
dentro das folhagens. sistema de cortina de ar
Em muitos países europeus, a es- (sistema Vortex), que já
colha dos helicópteros pelos grandes é utilizado nos pulveriza-
produtores para as aplicações aéreas dores autopropelidos da
também é justificada pela maior facili- Europa e, recentemente,
dade operacional durante os trabalhos está também sendo utilizado nos pul- tre a barra de pulverização convencio-
de aplicação e também devido ao fato verizadores autopropelidos fabricados nal e a barra de pulverização com tec-
de o helicóptero poder ser utilizado no Brasil. O sistema Vortex é formado nologia Vortex, é possível observar a
como transporte executivo, quando não por dois tubos flexíveis de ar posicio- maior penetração de gotas (número de
estiver sendo utilizado nas pulveriza- nados sobre as barras de pulverização, gotas por centímetro quadrado) na cul-
ções. No Brasil, nos próximos meses, que são inflados por duas turbinas de tura da soja quando utilizamos a assis-
a tendência entre grandes produtores ar acionadas por motores hidráulicos tência de ar da barra Vortex.
de soja que já utilizam helicópteros instalados nos pulverizadores autopro- Quando as aplicações de fungicidas
como meio de transporte particular e já pelidos. são realizadas em culturas adensadas,
confiam nesse aparelho é adquirir ou- No teste do quadro 1, em aplica- a barra Vortex possibilita uma melhor
tros helicópteros e utilizá-los inicialmen- ções comparativas de agroquímicos en- distribuição das gotas nas diversas par-
tes da planta, depositando quantidades
QUADRO 2 – EXEMPLO DE PERDAS NA APLICAÇÃO UTILIZANDO significativas de gotas no ponteiro das
PONTAS CONVENCIONAIS plantas, nas partes medianas e também
nas partes do baixeiro, protegendo a
Produto: fungicida sistêmico planta completamente. A barra de pul-
Preço médio: US$ 20,00/litro verização convencional somente depo-
Dose: 0,5 litro/hectare sita uma quantidade significativa de
Custo por hectare: US$ 10 gotas no ponteiro das plantas, ficando
Despesas extras (operacionais): US$ 5/hectare as partes medianas e do baixeiro, com-
Custo total por hectare: US$ 15 pletamente sem proteção do produto
químico.
Analisando as possibilidades acima, podemos calcular as perdas diretas Novas Tecnologias — A deriva nas
(deriva) e indiretas (ataque da doença fúngica não controlada pelas falhas pulverizações ocasiona perdas entre
na aplicação). 30% e 40% nas operações com pul-
Perdas diretas por hectare: US$ 4,50 (30%)
verizadores terrestres, equipados com
barras horizontais e bicos hidráulicos,
Perdas indiretas por hectare: US$ 3,00 (20%)
porém, ao analisarmos as perdas por
Perdas totais por hectare: US$ 7,50 deriva pelo uso de pontas com indu-
Se o produtor utilizar uma ponta com tecnologia de deriva reduzida nessa ção de ar, essas perdas serão somen-
aplicação, como as pontas Venturi, poderemos calcular o retorno do
te de 2% do total aplicado na opera-
ção do controle químico. Veja no qua-
investimento da seguinte maneira:
dro 2 um simulado de como o produ-
Ponta com Indução de Ar (Sistema Venturi) tor poderá economizar dinheiro, ado-
Preço por ponta: US$ 10,50 (preço médio estimado) tando tecnologias como as pontas
Investimento em pontas: US$ 504,00 venturi e evitando as perdas por deri-
Retorno do investimento em 67,2 hectares aplicados va e evaporação. ■

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