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BR 3300023

TRN/TITULO

1/1

E15/B/M/V

CARNEIRO, J.; CARNEIRO. E. TRATADO DE CONTABILIDADE V. 3. CONTABILIDA- DE RURAL

2. ED. [NP] (BRAZIL) 1933 228 P. (PT) ADMISTRAÇÃO RURAL; CONTABILIDADE

TRATADO

DE

CONTABILIDADE

JUVENAL

ERYMA

POR

CARNEIRO

E

CARNEIRO

Diretor da Contabilidade do Estado de Minas; advogado; Professor de Contabilidade

VOLUME III

CONTABILIDADE RURAL

2.ª EDIÇÃO

1

9

3

3

CALVINO FILHO

E

D

I

T

O

R

I CAPITULO

DA CONTABILIDADE RURAL

LIÇÃO I

Da Contabilidade Rural

Sumario: — Conceito. Contabilidade Rural ou Agraria. Sua extensão.

DA CONTABILIDADE RURAL

Contabilidade Rural é a especialisação da Contablida- de que se ocupa dos atos e fatos administrativos das empre- zas rurais. Estabelecimentos rurais ou agrarios são todos aqueles que são localisados nos campos e que têm por fim a explora- ção das terras (agricultura stricto-sensu) ou a creação de animais (pecuaria).

A Contabilidade Rural, de acôrdo com a nossa divisão

da Contabilidade (1) póde ser Publica ou Privada. Geral- mente é Privada, pois que os estabelecimentos agrarios são via de regra instituições particulares. Quando se tratar, porém, de empreza agraria publica, isto é, emprezas rurais do governo (fazendas modelos, campos de sementes, de ex- perimentação, etc.) a Contabilidade aí aplicada será consi- derada publica.

DA CONTABILIDADE RURAL OU AGRARIA

A Contabilidade Rural, tambem é denominada Agra-

ria. Outros preferem dar-lhe a denominação de Contabili-

dade Agricola. Principalmente os autores da lingua por-

(1) Ver “Tratado de Contabilidade”, vol. I, 2ª. edição, Rio de Janeiro, 1929, pag. 31.

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tugueza. Essa ultima expressão porém não a julgamos perfeitamente clara.

A expressão Contabilidade Agricola não nos dá uma idéa bem nitida da compreensão enorme deste vasto ramo da ciencia contabilistica. As expressões agricola, agricul- tura, comquanto designem o objeto de estudo, mais parti- cularisam um dos ramos da vida rural, que é a cultura dos campos. Pelo menos este é o sentido etímologico da palavra. Contrariamente: As expressões contabilidade Rural e Contabilidade Agraria compreendem muito mais amplamen- te o movimento dos estabelecimentos rurais, todas as diver- sas modalidades de emprezas que têm por fim ora a cultura dos campos, ora a creação de animais e ainda a transforma- ção de alguns produtos do campo em novas utilidades (in- dustrias rurais). Por Contabilidade Agricola podemos entender a que se ocupa das operações atinentes aos estabelecimentos rurais sómente dedicados á cultura (lavoura) dos campos (Agri- cultura propriamente dita). Ao passo que pela expressão Rural ou ainda Agraria tanto se compreende aquela como a Contabilidade Pastoril ou Creacional e as diversas indus- trias rurais. Deste modo apurando-se bem o sentido dessas expres- sões poderemos formular as seguintes conclusões:

a) Por Contabilidade Agraria ou Rural entende-se o

estudo da Contabilidade aplicada a todos e quaisquer estabe- lecimentos dos campos.

b) Por Contabilidade Agricola entender-se-á a aplica-

da ás operações das pequenas aziendas rurais que se dedi-

cam concomitantemente á creação (de animais, aves, etc.), e a cultura dos campos (fazendas mixtas).

c) Por Contabilidade Pastoril ou Creacional compreen-

der-se-á a aplicada ás emprezas rurais que têm por fim a creação de animais.

d) Por Contabilidade Cultural entende-se a que se ocupa

das operações dos estabelecimentos que têm por fim a cultura

dos campos (lavoura). Deste modo pensamos bem claro deixar o sentido das

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diversas expressões empregadas neste livro, não mais dando azo a confusões.

DA EXTENSÃO DA CONTABILIDADE RURAL

Pelo exposto notamos a estensão vastissima que abran- ge a Contabilidade Rural. Ela compreende todos os estabele- cimentos agrarios, todas as emprezas subordinadas á vida rural, tais como fazendas de plantação e creação, estancias, industrias rurais, cooperativas e sindicatos agrarios, bancos e caixas rurais, etc. Tem pois uma importancia indiscutivel; um papel multiforme e vasto. Principalmente em paizes agrarios como o são os do Novo-Mundo e muito especialmen- te o Brasil. Vê-se logo, pois, que o estudo deste ramo da Contabili- dade é complexo. E, para que bem estudado e mais clara e amplamente fique este assunto, dividimos o presente trabalho em tres partes, estudando na primeira as noções fundamen- tais e indispensaveis de Contabilidade Rural — bem como noções imprescindiveis de Economia Agraria — e as princi- pais questões que interessam ao estudo contabilistico das em- prezas rurais. Na Parte II estudaremos as emprezas pastorís (Conta- bilidade Pastoril). Na Parte III estudaremos os estabelecimentos agrarios culturais. Estas duas ultimas partes se ocuparão tão sómente dos principios especiais a cada uma delas.

LIÇÃO II

Da Contabilidade Rural

(Continuação)

Sumario — Objéto e fins. Necessidade e vantagens. Escritu- ração Rural. Requisitos ecenciais. Objeções. Refutações.

DO OBJETO E FINS DA CONTABILIDADE RURAL

O papel da Contabilidade Rural — como de toda a cien- cia contábil — é sobremodo saliente. Ela não é só necessaria sob o ponto de vista economico e administrativo mas tambem moral. A bôa ordem e regularidade são elementos de real importancia em toda administralção. E é a Contabilidade quem melhor nos fornece os meios necessarios para conse- guir aqueles requisitos. Anotando tudo o que se ocorre com as diversas empre- zas agrarias, a Contabilidade Rural nos apresenta ao mesmo tempo:

a) O estado economico, juridico e financeiro da azien-

da agricola ao começar o exercicio, isto é, os valores existen- tes, os débitos e créditos, e o movimento de numerário.

b) As modificações operadas pelos fátos administrati-

vos realisados (aumento, diminuição ou transformação de valores)

e) A demonstração de quais foram as contas afetadas

pela gestão administrativa e em que consistiram essas trans- formações.

d) O resultado de cada objéto da exploração rural, bem

como o seu resultado final (lucro ou prejuizo).

DA NECESSIDADE E VANTAGENS DA CONTABI- LIDADE RURAL

Pelo que dito ácima ficou, uma Contabilidade Agraria bem organisada nos demonstra a vida evolutiva da empreza administrada. Por isso é de enormes vantagens. Mas é im- prescindivel que a contabilisação dos fatos da entidade ad-

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ministrada seja realizada com perfeito conhecimento não só técnico, como da empreza. Principalmente em se tratando de estabelecimentos agrarios onde os fátos administrativos oriundos, são os mais diversos e complexos. A Contabilidade Agraria demonstrando-nos o movi- mento dos estabelecimentos rurais é pois, de indiscutivel ne- cessidade. Ela é a unica apta a nos demonstrar quais series de operações nos darão lucros, quais no-los não darão, bem como a proporção destes em cada caso especial. Desse modo ela orienta o fazendeiro ministrando-lhe as informações in- dispensaveis para a produtividade de sua empreza. E este po- derá facilmente encontrar os remedios para curar as suas doenças administrativas. Mas, sem Contabilidade a sua gestão permanecerá aeria. E os prejuizos serão inevitaveis. E a debacle final como resultante da descontabilização, quer dizer, da incerteza de negocios.

DA ESCRITURAÇÃO RURAL

Como parte integrante e indispensavel a toda Contabi- lidade, a Escrituração, que nada mais é do que o registro dos fatos administrativos de uma azienda, a arte de escrever em bôa ordem nos livros apropriados todas as transações efe- tuadas, a Escrituração tem papel importante na demonstra- ção prática dos resultados das gestões das emprezas rurais. Por isso é de grande necessidade estudarem-se os diversos métodos de registração contábil, afim de se poder escolher o que melhor se coadune com a natureza das diversas empre- zas agrarias. Como uma das partes mais importantes da Contabilida- de, a Escrituração deve obedecer a uma concepção essencial- mente prática e eficaz. Para isto o estudo que iremos fazer adiante dos métodos de escrituração, das contas, livros, etc. nos demonstração claramente o caminho a adotar.

DOS REQUISITOS PARA UMA BÓA CONTA- BILIDADE RURAL

A organização perfeita de um sistema contábil a seguir, é questão essencial para a administração e não é das mais fa-

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ceis. Primeiro que tudo, o contador precisará conhecer per- feitamente a situação da empreza afim de poder classificar os diversos elementos segundo a verdadeira técnica contabi- listica. A classificação dos capitais agrarios deverá ser tra- balho bem cuidado afim de que não dê margem a duvidas e não origine ambiguidade de técnica. Após a classificação dos capitais, o conceito cientifico de contas, para a sua uni- forme registração, bem como a classificação indispensavel dos livros de registro. Devem-se evitar os livros inuteis que só servem para aumentar o trabalho de contabilidade. Outra questão importantissima em Contabilidade Agra- ria é a fixação do exercicio agricola. Este poderá variar para maior ou menor espaço de tempo, conforme a necessidade dos diversos fatores que influem na produtividade da empre- za rural. Além desses requisitos que devem sempre ser bem es- clarecidos, outros ha de menor importancia e que surgem com a necessidade de cada caso isolado.

OBJEÇÕES A’ CONTABILIDADE RURAL

Diversas têm sido as objeções opostas a adoção da Con- tabilidade Rural nas fazendas. Comquanto a elite dos agri- cultores já tenha sentido a necessidade de uma perfeita Con- tabilidade para o registro do movimento das aziendas agra- rias, muitos fazendeiros ainda vacilam, por uma questão es- treita de rotina, a contabilizar os atos referentes ás suas aziendas agrarias. (1) Todas as objeções que usualmente se têm levantado, pó- dem ser reduzidas a duas ordens: (2) a) Alegam uns a extensão das operações rurais: e ar- gumentam que a complexidade dessas operações não permi- te uma contabilisação perfeita dos fatos das aziendas agrarias.

(1) Tornou-se conhecida a expressão “agrario” como sinonimo de retrogrado, atrazado. (2) Ernesto Marenghi “Lezioni di Contabilitá Agraria”. Milane, 1922, pag. 5.

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b) Outros alegam a ignorancia em que vive o homem do campo. Ambas essas objeções não são brasileiras como á pri- meira vista se poderá pensar. São de todos os paizes em que já se tem feito sentir a necessidade da Contabilidade Agraria.

REFUTAÇÃO ÁS OBJEÇÕES ANTERIORES

Hoje não mais pódem subsistir essas objeções. No es- tado atual da nossa cultura contábil não mais se deve admi- tir que uma pessôa possuindo certos conhecimentos práticos da vida economica, comercial, as aceite de bôa fé. A ignorancia não póde ser de nenhum modo motivo de excusa. A Contabilidade é hoje uma ciencia constituida e difundida. E, se os homens dos campos, os responsaveis pela nossa economia rural não possuem o seu conhecimento, im- ponha-se-lhes. Na ignorancia é que não pódem nem devem ficar, para o seu e o bem geral, e para melhor regulamenta- ção da nossa produção. Sem Contabilidade nenhuma admi- nistração poderá alegar a seu favor presumção de honesti- dade.

Finalmente: Os principios da Contabilidade hodierna são aplicaveis a quaisquer aziendas. Desde o menor patrimo- nio domestico ao mais extenso patrimonio bancario, publico, industrial, mercantil ou rural, a Contabilidade satisfaz, com os seus principios e normas infaliveis, á perfeita regularisa- ção da administração. A extensão da empreza rural não impede a perfeita Contabilidade. Se fosse questão de complexidade dos fa- tos administrativos realisados seria impossivel a existencia da Contabilidade Publica. Tudo depende de ordem e de saber contabilisar. Pelo exposto, cáem por terra os dois pontos de ataque dos inimigos da Contabilidade que são tambem os inimigos da ordem e da lealdade nos negocios, (3) pois que sem Con- tabilidade nunca haverá ordem nem administração.

3 — Marenghi chama á primeira objeção ácima de objetiva (ostacoli oggetivi) e á segunda subjetiva (ostacoli soggettivi): Loc. cit.

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LIÇÃO IV

Da Contabilidade Rural

(Continuação)

Sumario: — Divisão da Contabilidade Rural. Divisão de D. Santos

DA DIVISÃO DA CONTABILIDADE RURAL

A especialisação das tarefas é um dos caracteristicos da bôa ordem, regularidade e perfeição. Assim, devemos tam- bem dividir o estudo da Contabilidade Rural para a sua me- lhor compreensão. Essa divisão póde ser feita sob varios aspétos, variando de acôrdo com o ponto de vista sob o qual

a encararmos. Para nós a melhor classificação, a fundamental, é a que divide o estudo da Contabilidade Agraria segundo a natureza das operações realisadas na empreza a que é aplicada. Deste modo, a Contabilidade Rural póde ser:

a) Cultural.

b) Pastoril ou Creacional.

c) Agricola ou Mixta.

Como sabemos ja, pelo que dito ficou, a Contabilidade Cultural é a que cuida das fazendas de cultura dos cam- pos, (lavoura). A Contabilidade Pastoril ou Creacional se refere ás operações dos estabelecimentos rurais destinados á criação de animais. Denominamos Contabilidade Rural Mixta á que e fei- ta nas fazendas que tanto cuidam de lavoura como de cria- ção de animais. Este é o nosso mais comum tipo de aziendas. Como dissemos, as emprezas rurais compreendem tam- bem as industrias rurais, cooperativas e sindicatos, caixas rurais, etc.; mas a contabilidade destas aziendas deve ser efetuada segundo os principios da Contabilidade Industrial para as primeiras, segundo os ensinamentos da Contabilida-

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de Mercantil e Bancaria para as ultimas, sempre de acôrdo com a natureza das operações de cada uma e as modificações sugeridas pelas necessidades da Contabilidade Rural.

DA DIVISÃO DA CONTABILIDADE RURAL SEGUNDO D. SANTOS

Desejando particularisar ainda mais as diversas varie- dades de emprezas rurais poderemos de acôrdo com a clas- sificação de D. Santos (1) dividir tanto a Contabilidade Pas- toril quanto a Cultural nas tres classes seguintes:

a ) Exclusiva. b ) Dominante. c) Mixta. A Contabilidade Rural (Pastoril ou Cultural) é exclu- siva quando é aplicada a emprezas agrarias que têm por fim- uma unica ordem de operações:

E’ Dominante a Contabilidade Agraria (Cultural ou Pastoril), quando ela se ocupa dos estabelecimentos rurais em que uma serie de fatos administrativos é mais frequente que as demais. Contabilidade Rural Mixta. é a em que não ha predomi- nio nem exclusividade de determinadas ordens de opera- ções. (2). Como é claro, a mais facil de todas estas é a Contabili- dade Rural Exclusiva, por se ocupar com uma unica ordem de elementos economicos Não ha, porém, para essas tres classes da Contabilidade Agraria principios caracteristicos e especiais. Sob o ponto de vista contábil, a divisão que mais inte- ressa é a que apresentamos no parágrafo anterior.

(1) “Contabilidade Agricola, S. Paulo. Empreza Editora Brasileira,

pag.20.

(2) Ver lição VII onde melhor esclarecemos este assunto.

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LIÇÃO V

Da Contabilidade Rural

(Continuação)

Sumario: — Estudo da Contabilidade Rural. No Brasil. Historico. Literatura nacional sobre Contabilidade Agraria.

DO ESTUDO DA CONTABILIDADE RURAL

Já fartamente demonstrámos a necessidade da Conta-

bilidade Rural. Vejamos o que se tem feito pelo seu estudo e pela sua propaganda.

A importancia da Contabilidade Agraria justifica a

sua necessidade. Não é só o contador, não é só o guarda- livros da empreza rural quem dela necessita. O proprietario, o administrador das aziendas agrarias não pódem precindir desta ciencia. Infelizmente pouco se tem estudado este belo ramo da ciencia contabilistica. De todas as especialisações da Conta- bilidade é a menos cultivada. Em países como o nosso, es sencialmente agrario, não se exige uma Contabilidade dos fazendeiros. Deixa-se ao léo da sorte e mesmo da ignorancia de muitos, — ignorancia que felizmente decresce — a fonte primordial da nossa riqueza economica. Mas tambem não é este um mal brasileiro. Não seremos nós que nos acusare- mos. E’ antes um mal geral, de todos os paizes. Desse im- portante problema dizia recentemente o professor Dufayel:

“Maihereusement, cet agriculteur, qui a tant besoin d’une comptabilité ordonee et méticuleuse, est, parmi les in- dustriels et les commerçants, celui qui s’en est le moins servi jusqu'á present''. (1)

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DO ESTUDO DA CONTABILIDADE RURAL NO BRASIL

Entre nós o estudo desta disciplina é deficientissimo.

Somente nestes ultimos tempos vêm as elites das classes ru- rais e contabilisticas reagindo contra o marasmo que cerca a Contabilidade Agraria. Descurámos por completo do estu- co desta ciencia. Nós que somos os responsaveis pelo desti-

no de um país essencialmente agrario. E, talvez a esse descui- do de ordem administrativa poderemos culpar o grande erro

da nossa economia rural: a monocultura.

Basta este unico fato historico para nos mostrar o indi- ce da orientação dos nossos dirigentes na proteção da vida dos campos: Proclamou-se a Republica em nosso país, fo- ram creados os Ministerios para cuidar dos interesses dos diversos ramos da nossa atividade economica, social e poli-

tica, e os utopistas se esqueceram de crear o Ministerio mais

necessario

o da Agricultura, que só 20 anos depois foi

creado

Um consolo de carater nacionalista nos resta: Não so- mos os unicos contabilistas que se queixam. O nosso país

não é o unico atrazado neste assunto. E’ o que nos informa

o elegante (2) ERNESTO MARENGUI com referencia á

Italia, e com referencia á França HENRI DUFAYEL (3).

DO HISTORICO DA CONTABILIDADE RURAL NO BRASIL

Passemos, agora uma ligeira vista sobre o que se ha feito, até agora a favor do estudo da Contabilidade Rural em nos-

so país. Como vimos de dizer, sómente com a creação do Minis- terio da Agricultura foi que nasceu a nossa Contabilidade Agraria. Este departamento publico foi creado pela lei n°.

2 — “Lezioni de Contabilitá Agraria”, Milano, 1922, pag. 5.

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1. 606 de 29 de Dezembro de 1906, no governo do Presiden- te Affonso Penna mas a lei que o creou sómente foi posta em execução no governo do seu sucessor, Dr. Nilo Peçanha, com muita inteligencia e compreensão da sua enorme valía. Os cultores da Contabilidade no nosso país quase nada têm podido fazer, devido mesmo ao trabalho dispersivo que

tem sido feito, o qual só agora se encaminha, para, afinal re- presentar o papel que lhes cabe na vida intelectual e economi- ca do pais, com a creação e fortalecimento das associações de classe. O estudo da Contabilidade Rural no Brasil tem se limi- tado tão sómente aos frutos do esforço e da bôa vontade do Ministerio da Agricultura. Pela regulamentação do decreto numero 8.319 de 20 de Outubro de 1910, que creou o “Ensino Agronomico” no Brasil, o estudo da nossa diciplina tornou-se obrigatorio nas escolas de Agronomia. Deste modo passou a “Contabilidade Agricola” a ser ensinada nas Escolas Superiores de Agricul- tura e Medicina Veterinaria, Escolas Medias ou Teórico- Praticas de Agricultura. Escolas Praticas de Agricultura, Aprendizados Agricolas, nos Campos de Demonstração e outros estabelecimentos, consoante as disposições do citado decreto e de outros que se lhe seguiram. E’ bem verdade que muita tinta foi gasta inutilmente

Quasi tudo ficou no papel

Nos ultimos anos, devido aos progressos de nossa cien- cia e á elevação natural do nivel cultural das populações agra-

rias e aos esforços de Escolas e Professores de Contabilida- de, ultimamente, a Contabilidade Rural tem feito ligeiros progressos entre nós. Assim é que pelo decreto n. 17.329 de 28 de Maio de 1926, que regulamentou o “Ensino Comer- cial” no Brasil, a cadeira de “Contabilidade Agricola” faz parte do mesmo e fórma a 4.ª cadeira (conjuntamente com

a Contabilidade Industrial, é verdade

No Distrito Federal, o recente Decreto numero 2.940, de 22 de Novembro de 1928, que regulamentou a “Organi- sação do ensino no Distrito Federal” reservou um “cantinho” á “Contabilidade Rural” na cadeira de “Economia Rural”, que compreende a “Contabilidade, administração e legislação rural.

inclusive muita boa-vontade

) do 3.° ano.

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DA LITERATURA BRASILEIRA SOBRE CONTABILIDADE RURAL

Como corolario do que exposto temos nesta e na poste- rior lição, segue-se a pobreza de nossa literatura sobre Con- tabilidade Agraria. Poucas são as obras especialmente dedi- cadas ao assunto. Até agora esta materia era tratada em algumas paginas, na rabada dos livros de Agricultura, Agro- nomia, Economia Rural, etc. Dentre os livros brasileiros sobre Contabilidade Rural não conseguimos contar meia duzia e poderemos citar, tão somente:

I) Lourenço Granato: “Noções Elementares de Conta- bilidade Agricola”, 3ª edição, 1912, S. Paulo. A 1.ª edição é de 1906.

II) D. Santos “Contabilidade Agricola”, Empreza Edi-

tora Brasileira, S. Paulo, 1917 (1).

III) Alvaro Figueiredo: “Elementos de Contabilidade

Agricola”. 1917. Belo Horizonte.

IV) F. T. de Souza Reis: “Contabilidade Agricola”, S.

Paulo, 1921.

V) — José Watzl: “Guia para Contabilidade Agricola”,

1923, publicação autorisada pelo Ministerio da Agricultura, para propaganda do assunto, Rio de Janeiro.

Suumario: — contabil. Suas funções.

LIÇÃO VI

(Conclusão)

Posição

da

Da Contabilidade Rural

Rural

Contabilidade

na

ciencia

DA POSIÇÃO: DA CONTABILIDADE RURAL NA CIENCIA CONTÁBIL

Como sabemos a Contabilidade Rural é uma especiali- sação importantissima da Contabilidade. Ocupa-se ela das

(1) — É o melhor livro sobre “Contabilidade Agricola” que temos. O melhor ou o unico?!

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operações administrativas das emprezas agrarias e é pois, um dos ramos mais importantes da Contabilidade Privada. Em- quadra-se ainda a Contabilidade Rural na especialização da Contabilidade Privada denominada Patrimonial. Para melhor compreensão da situação da Contabilidade Agraria ou Rural no quadro geral da ciencia contábil, apre- sentamos o seguinte quadro squematico:

contábil, apre- sentamos o seguinte quadro squematico: DAS FUNÇÕES DA CONTABILIDADE RURAL Como toda empreza

DAS FUNÇÕES DA CONTABILIDADE RURAL

Como toda empreza industrial, os estabelecimentos agra-

rios exercem sempre duas ordens distintas de operações:

a) Operações técnicas.

b) Operações comerciais.

São operações técnicas das emprezas rurais, as que se referem ao trabalho dos campos, á atividade rural prori- mente dita.

São operações comerciais das emprezas rurais as que têm por fim as transações mercantís das aziendas agrarias. Disto decorrem duas ordens de funções que cabem á Contabilidade Rural:

a) Operações técnicas.

b) Operações comerciais.

São funções técnicas da Contabilidade Rural as que se referem ao registro e apuração dos fatos administrativos ori- ginaldos das operações industriais da fazenda, ás operações produtoras das culturas,criação, etc.

São funções comerciais a registração e apuração dos fatos administrativos oriundos das operações comerciais das fazendas, tais como compra e venda, emprestimos, penhor, ipotéca, etc. Estas duas ordens de funções da Contabilidade Rural são inseparaveis e, por vezes, chegam a se confundir.

II CAPITULO

DA ECONOMIA RURAL

LIÇÃO VII

Da Economia Rural

portancia desta. Importancia daquela.

Sumario

Conceito

Agricultura.

Industrias

DA ECONOMIA RURAL

Rurais

Im-

A Economia Rural é à ciencia que estuda a organiza-

ção e direção economica das emprezas agrarias. Ou, no di- zer de JOUZIER é “a economia politica aplicada á agri- cultura”. (1).

E’ esta ciencia um dos ramos mais novos e uteis dos conhecimentos agrarios. Estuda ela os meios mais economicos para a produção rural, os modos de proteção e repartição desta, a organisação administrativa das emprezas agrarias, etc. E’ ela pois, uma ciencia complexa, que requer inumeros outros conhecimentos, tais como a Economia Politica, Agronomia, Matematica, Geologia, Quimica, Astronomia, Botanica, Bio- logia, Zoologia, Medicina Veterinaria, Agricultura, Direito, Engenharia Rural, etc.

A Contabilidade Rural ocupa papel proeminente no es-

tudo dessa diciplina.

DA AGRICULTURA

A palavra Agricultura póde ser tomada como designan-

do uma ciencia ou uma industria. Quer como ciencia, quer

(1) “Economie Rurale”, Paris, 1920, pag. 15.

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como industria, ela tem por fim, designar o campo de ação

dos estabelecimentos rurais. Quando geralmente se usa da expressão. Agricultura, não se quer com ela significar sómen- te a "cultura do sólo" como pensam alguns autores.(2).Com aquela palavra compreende-se não só essa ordem de idéas, como tambem a creação de animais.

A palavra Agricultura tanto significa a cultura do sólo,

como a industria pastoril. E’ bem verdade que a expressão Agricultura, dá muito facilmente motivos a essas confusões. Mas em tal não pódem caír os técnicos

As industrias rurais são um prolongamento natural da Agricultura. Constituem um estágio superior da vida econo- mica rural, e se verificam nos centros mais adeantados. Elas tomam diversas fórmas. Assim, são mais comuns nos centros pastorís, e tomam as fórmas de estancias, xar- queadas, laticinios (queijo, manteiga, requeijões), carnes, lãs, couros, péles, enfim, todas as fórmas de aproveitamento dos produtos animais. Na economia brasileira, os produtos provenientes das industrias rurais, tomam logares preeminentes, pois, além dos acima mencionados, temos tambem famósas industrias extrativas, como a da borracha, oléos de babassu, mamona, etc. Basta dizer que pór uma recente publicação feita pelo Ministerio da Agricultura, o comercio de exportação de pro- dutos agricolas brasileiros, atingiu em 1.930, á

5.500.000:000$000.

A contabilisação das industrias rurais, toma um aspéto

mais importante, e se apresenta mais dificil, pois ela se socórre de elementos especiais á Contabilidade Rural e ou- tros pertinentes á Contabilidade Industrial encontrando-se

em algumas ás vezes perfeitamente diferenciadas, ambas ás especialisações técnicas.

2 — Dentre outros: E Jouzier, liv. cit., pag. 11 e Alvaro Figueire- do: “Elementos de Contabilidade Agricola”,Bello-Horizonte, 1917, pag. 17.

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DA IMPORTANCIA DA ECONOMIA RURAL

Sendo o estudo das instituições agrarias e suas necessi- dades, o papel que cabe á Economia Rural hodiernamente é inegavel. As necessidades da vida humana nos provam que mais não é possivel a vida sem a sua concepção economica. A concepção economica é quem regula a vida do homem. Desse medo foi que surgiu a necessidade desta nova ciencia — a Economia Rural — afim de nos encaminhar nos pro- cessos mais eficientes para a produção util e barata das em- prezas agrarias.

DA IMPORTANCIA DA AGRICULTURA

O papel representado pelas emprezas rurais na vida dos povos tem sido sempre dos mais salientes e proficuos. Delas provêm a riqueza economica de inumeras nações. São elas que alimentam as industrias, proporcionando-lhes as mate- rias primas indispensaveis á sua atividade e manutenção. Ademais, é pela Agricultura que se crêa a riqueza das nações. E’ uma das primeiras etapas da produção. Todos os povos foram primitivamente agricultores. E isto é facil de se explicar, pois que a vida rural não exige um cabedal gran- de de conhecimentos. Principalmente quando incipiente. Não queremos, porém, dizer com isto que a Agricultura não ne- cessite, hoje, de conhecimentos técnicos. Dispensa-os a peque- na cultura algumas vezes. Mas nas grandes emprezas agricolas, aqueles são indispensa- veis. E’ hoje um assunto de grande interesse para os países agrarios, a Agricultura cientifica. E é para ela que con- vergem os esforços dos administradores, creando escolas técnicas e cientificas, amparando-as, estimulando-as. Não obstante ser a Agricultura uma fonte incomensu- ravel de riquezas, só ela não faz a riqueza de um povo (3).

(3) — E’ interessante observar que os povos industriais dominam os povos agrarios. As nações industrialistas guiam as rurais. Na luta economica — e, pois, politica, social — a maquina vence a terra. Basta ver quais são os países que contrólam a vida economica social e

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Ha uma completa interdependencia entre os diversos ramos produtores da economia moderna, mas, entre estes, uns ainda predominam sobre outros quer pela elevação do nivel cultu- ral, quer pela grandeza numerica ou outros quaisquer fatos, sendo que a produção agraria não tem ocupado sempre o primeiro logar. Não se póde, porém, precindir da Agricultura. Os ali- mentos com que se nutre e mantém a humanidade, provêm dela. No dia em que fôr resolvido o problema de alta alqui- mia e que o homem puder se alimentar unicamente com algu- mas cápsulas diarias, então, sim, talvez advenha a desneces- sidade da Agricultur

a) Monocultura.

b) Pólicultura.

car, de borracha, etc.

LIÇÃO VIII

Da Agricultura

Sumario: — Divisão. Agricultura e Contabilidade

DA DIVISÃO DA AGRICULTURA

A Agricultura considerada como ciencia comporta divi- sões para melhor compreensão de suas idéas. Considerada co- mo industria, tambem póde ser dividida conforme a sua, es- pecialidade. Conforme a extensão e diversidade da sua produção, a Agricultnra póde tomar dois aspétos:

Monocultura como o nome o indica, é a cultura de um só produto. Exemplo: A cultura só de café, de cana de assu-

politica do mundo. São as potencias industrialistas: Estados Unidos da America, Inglaterra, Allemanha, Japão. A Russia, que era um pais essencialmente agrario, somente teve influencia na vida internacional com a queda do tzarismo e o advento do leninismo e consequente in- dustrialisação do país.

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Policultura é a cultura concomitante de mais de um

produto. Poder-se ia falar tambem de monocreação e pôlicreação ou multicreação, mas, essas modalidades da Agricultura são mais raras, comquanto se encontrem. Segundo a sua especialisação, a Agricultura póde ser:

a) Cultural.

b) Creacional ou pastoril.

c) Mixta ou Agricola.

A Agricultura Creacional ou Pastoril é a que se ocupa

exclusivamente da creação de animais.

Agricultura Cultural é a que cuida da exploração do campo, da cultura do sólo (lavoura). Agricultura Mixta é a que trata da creação de animais e plantação da terra, concomitantemente. Essa divisão é a que mais interesse apresenta. Alguns autores dividem a empreza agricola, segundo a diversidade de sua produção, em:

a) Exclusiva.

b) Dominante.

c) Mixta.

Chama-se-Agricultura Exclusiva, a que se dedica a uma só ordem de operações produtoras. Agricultura Dominante é a em que havendo produção diversa uma predomina sobre as outras. Denomina-se Mixta a Agricultura em que não ha exclu- sividade nem predominio de uma exploração sobre outra. Como é claro, tanto a Agricultura a Cultural, a Creacio- nal, como a Mixta, pódem ser Exclusivas ou Dominantes. Chamamos Monocultura á Exclusiva. E, Policultura

as Dominante e Mixta.

DA CONTABILIDADE E, DA AGRICULTURA

Com o vimos, em Economia Rural a Contabilidade é um complememto indispensavel da Agricultura racional. Deseja- mos agora, porem, frisar um ponto para os menos entendi- dos na ciencia de que tratamos.

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Quando apontamos a importancia da Contabilidade nas emprezas agrarias, não queremos com isso dizer que uma bôa Contabilidade Rural aumente a produção. Absolutamente. A Contabilidade não é ciencia produtora. E’ um a ciencia eco- nomica, de ordem mor al, reguladora da vida administrativa das entidades economicas, publicas ou privadas. Ela não au- menta a riqueza dos estabelecimentos em que é empregada. Mas coordena e organisa eficientemente, demonstrando as operações que são vantajosas e as que o não são, bem co- mo os resultados parciais e totais dos fatos administrativos realisados. E’ um elemento de ordem, de natureza moral, de- monstrativo das condições economico-administrativas das aziendas em que é adotada.

LIÇÃO IX

Da Produção Rural

Sumario: — Conceito. Fatores. Papel da Contabilidade.

DA PRODUÇÃO RURAL

Já por vezes temos demonstrando a importancia da pro- dução rural. Esta especie de produção é a mais verdadeira, se se encarar o sentido etímologico da palavra. As outras industriais geralmente transformam a materia prima crean- do novo produto. A produção rural nos dá sempre um pro- duto novo. Aliás, esse caráter da produção agraria tem sido muito exagerado. Assim é que a antiga escola economista dos Fi- siocratas, que combatia o sístema mercantil, exagerando es- se conceito dizia que a agricultura deve estar colocada em pri- meiro logar na esfera das humanas atividades, acima do co- mercio e das demais industrias. E fundaram os Fisiocratas a sua escola sobre o principio segundo o qual só a Natureza é fonte de riquezas; só ela nos fornece um produto ver dadeira-

— 43 —

mente novo, emquanto que as demais classes são estéreis, im- produtivas. (1). Como vemos, a concepção economica dos Fisiocratas era por demais agraria e pouco acorde com os progressos da vi- da moderna.

DOS FATORES DA PRODUÇÃO RURAL

Como uma das modalidades industriais (industria rural que é), a produção agraria sofre a ação de varios fatores. Estes, parém variam com o critério economico de cada um. Uma das mais antigas classificações dos fatores da produ- ção os classifica assim:

a) Natureza.

b) Capital.

c) Trabalho.

Pelo primeiro fator — a Natureza — não só compre- endemos o sólo, á terra como todos os agentes naturais, tais como o clima, as forças motoras, vento, aguas, vapor, eletri-

cidade, etc. Na produção agraria este fator é fundamental. Pelo fator Capital, compreendemos os valores ou rique-

zas pre-existentes, que contribuem direta ou indiretamente para a produção. São tais, os bens pertencentes a uma pes- soa, como materiais, dinheiro, etc.

O Trabalho — terceiro fator da produção — é o esfor-

ço, humano ou não para a produção de utilidades.

O Trabalho humano póde ser fisico ou intelectual.

Os fatores ácima enumerados pódem ser ativos ou pas- sivos. São fatores passivos: a Natureza e o Capital. O Tra-

balho é o fator activo por ecelencia. (2).

(1) Charles Gide: “Principes d’Economie Politique”, Paris. 1923,

pag. 7.

— 44 —

DO PAPEL DA CONTABILIDADE NA O PRODUÇÃO RURAL

A perfeita Contabilidade está na ordem direta da bôa

classificação das contas. Para essa classificação, porém, não apresenta a classificação dos fatores da produção ácima

enumerados nenhuma vantagem. Devemos procurar estudar todos os meios que facilitam a produção rural para podermos

organisar a Contabilidade a se adaptar ás diversas aziendas agrarias. E’ o que vamos fazer nas lições seguintes, para orientação dos estudos contáveis.

A Contabilidade está reservado o importante papel de

esclarecer os fatos administrativos que dão origem á pro- dução rural, bem como os que resultam desta. Deve tam- bem demonstrar não sómente o custo de cada produção agri- cola, como tambem a proveniencia das diversas verbas que modificam a receita e a despeza de cada produto colhido. A’ Contabilidade Rural pois está reservado o importan- te e dificil papel de demonstrar a produtividade das diversas emprezas agrarias bem como o grão produtivo de cada or- dem de fatores, afim de que fique bem orientado o adminis- trador capás. Ela serve de base para o levantamento estatis- tico da vida das emprezas rurais bem como de seu valor eco- nomico.

LIÇÃO X

Do Trabalho Rural

Sumario — Sua condição. Proteção. Contabilisação.

DA CONDIÇÃO DO TRABALHO RURAL

O trabalho é a força empregada na produção de utilida-

de. Póde ser humano ou animal. O trabalho humano póde ser fisico ou muscular e intelectual ou mental.

Pelo trabalho se opéra sempre uma transformação no objeto que é executado. Essa transformação póde ser

— 45 —

mudando o estado da materia (bruta ou ja trabalhada), ou deslocando-a de logar somente.

A hodierna condição do trabalho humano e, em tése a

da liberdade. Dizemos em tése por que, verdadeiramente a propalada liberdade de trabalho não póde ser completa num regimen em que os fracos têm que contratar com os fortes. E’verdade que, considerados isoladamente os homens são seres livres. Mas, vistos em sociedade não o são, pois de- pendem economicamente dos individuos economicamente mais poderosos. E’ verdade que as leis asseguram a liberdade da

escolha de profissão, bem como o exercicio do direito de as- sociação, etc. Isso tudo, porém, são condições teóricas que verdadeiramente não existem, a não ser idealmente. Segundo os economistas oficiais, a liberdade de traba- lho repousa nos tres seguintes principios:

a) Liberdade profissional.

b) Liberdade de exercer a sua profissão em qualquer

logar.

c) Liberdade de ter mais de uma profissão.

Sabemos, porém — e neste ponto estão conosco os pro- prios economistas oficiais — que essa liberdade de trabalho é condicionada (diplomas, licenças, etc.) e, assim, que a li- berdade do trabalho é no minimo uma liberdade condicional

DA PROTEÇÃO AO TRABALHO RURAL

As legislações modernas ás vezes procuram proteger a liberdade do trabalho. Dentre as medidas de proteção usa- das citam-se ás referentes ao dia de 8 horas, trabalho em lo- gar salubre, garantia, do salario em caso de molestia, inde- nisação em casos de acidente no trabalho, etc. Estas medi- das, porém, são mais protetoras do trabalho industrial, das- fabricas.

O trabalhador rural ainda está esquecido e poucas são-

as disposições que os protegem. Principalmente em nossa

Dentre algu-

terra “essencialmente agricola e pastoril”

mas medidas protetoras do nosso trabalhador rural, citare- mos as referentes ao abono de salarios, á organisação de sindicatos e cooperativas agrarias, á impenhorabilidade do

— 46 —

salario do trabalhador rural, os seus creditos serem privile- giados em caso de falencia, etc.

E’ bem verdade, porém, que essa prerogativas, do tra-

balhador rural nunca são constatadas na vida pratica.

DA CONTABILISAÇÃO DO TRABALHO RURAL

Em Contabilidade os fatos administrativos consequentes do trabalho merecem registro cuidado. Para a apuração do custo da produção temos necessidade de contabilisar a ex- pressão economica do trabalho empregado.

O trabalho usado nas aziendas rurais é humano e

animal.

O trabalho humano recebe a denominação especial de

“Salarios”, “Mão de Obra”, e queijandas. E nessa conta re- gistraremos por débito o trabalho produzido pelos emprega- dos de acôrdo com o preço combinado. Por crédito registra- mos os serviços pagos.

O trabalho animal é de mais dificil contabilisação. E

tanto o é que os autores que têm tratado do assunto dele não cuidam. Mas, desde que seja um serviço prestado pelos ani- mais, as contas que representam estes devem ser creditadas por um importancia que represente a expressão economica do esforço produzido. Para justificar este registro basta uma pergunta:

— Não debitamos aos animais as despezas com a sua

manutenção, tais como alimentação, curativos etc.? (1).

O valor do custo do trabalho animal é usualmente cal-

culado sobre o total das despezas diarias com a manutenção

do

mesmo. Observe-se, porém, que deve ser contabilisado sómente

o

serviço prestado pelos animais de trabalho sendo que os

animais de creação, que se destinam á exploração comercial

não prestam serviços e sim produtos ou rendas.

(1) — Quando nos referimos á contabilisação das despesas com a manutenção do animal (despesas gerais), para efeito de orçamento, distinguimos da registrarem apenas para dar um valor ao animal. Aquela tem toda a importancia que falta á esta.

— 47 —

LIÇÃO XI

Do Seguro Agrario

Sumario: — Necessidade. Companhias do Seguro Rural. Sua Contabilidade.

DA NECESSIDADE DO SEGURO AGRARIO

“Considera-se contrato de seguro aquele, pelo qual uma das partes se obriga para com outra, mediante a paga de um

premio, a indeniza-la do prejuizo resultante de riscos futuros, previstos no contrato”. (1).

O contrato de Seguro póde ser efetuado para proteção

dos bens ou das pessôas (seguro de vida). Pode ser tambem terrestre ou maritimo. Dentre as diversas especies de con- trato de Seguro terrestre, cita-se o Seguro Agrario.

O Seguro Agrario é uma das mais modernas fórmas de

Segura. Por muito tempo julgou-se impossivel esta modali- dade de seguro por serem inumeros os imprevistos que atin- gem a produção rural, não sendo ás vezes possivel uma per- feita compensação tal o vulto dos prejuizos e a natureza dos danos que se verificam. Mas, como esta modalidade de se- guro é muito vantajosa idealisou-se pagar sinistros por um valor préviamente estabelecido (um terço, metade ou dois terços do valor da cousa segurada), para tambem evitar que os administradores nada fizessem para salvar seus bens. Nes- te seguro deve-se banir o lucro. Esta é, aliás, a caracteristi- ca do instituto dos seguros. Dentre as inumeras vantagens proporcionadas pelo Se- guro Agrario, destaca-se a proteção á produção animal e ve- getal, assistencia, amparo, indenisações, etc. Ordinariamente o Seguro Agrario é efetuado para pro- teção dos bens rurais em caso de incendio, peste, geada, etc.

2 — Codigo Civil, 1.432.

— 48 —

DAS COMPANHIAS DE SEGURO AGRARIO

As Companhias de Seguro Agrario, que já se, desenvol- veram muito, principalmente na Europa e Estados Unidos da America, ainda, não tem no Brasil a representação que lhes compete. Elas geralmente se revestem da forma mutua ou de premio. Dentre os inconvenientes apontados nestas modalidades de seguro cita-se o fato de que o fazendeiro de posse da apo- lice que o garanta no caso de sinistro não tem mais interesse em procurar salvar os seus bens ou mesmo evitar as causas de sua destruição. Estes argumentos não procedem. Se em devida conta fossemos leva-los, não seria tambem possivel a exigencia de nenhuma especie de seguro. Todas as diversas modalidades de seguros sobre as cousas estão sujeitas a estes argumentos. Para evita-los, no caso de Seguro Agrario, bastará, como dis- semos ácima, as Companhias de Seguros segurarem os bens rurais por uma fração do seu valor (meio, um terço, dois terços, tres quartos, etc.), evitando assim o enriquecimento ilicito dos segurados.

DA CONTABILIDADE DO SEGURO RURAL

Não pretendemos estudar aqui a Contabilidade das Com- panhias, de Seguro Agrario. Nem cabe tal neste momento. Seu logar é no estudo especial da Contabilidade das Compa- nhias de Seguros, num livro especial. Queremos grifar só- mente a maneira de contabilisar na azienda rural a efetua- ção de um seguro. Efetuado o contrato de seguro (sobre determinado ani- mal ou cultura, etc.) deve-se fazer o seguinte lançamento no Diario, pelo pagamento das anuidades:

Seguros de a Caixa Pg. á Cia. X, 1.° anuidade da apolice n° Y X

— 49 —

Recebida a apolice de seguro efetuado deve-se fazer o seguinte lançamento:

Companhia X

a Apolice de Seguro. Pelo seguro de que fizemos naquela Cia., anuidade de

rs. Z apagar em

apolice n.° 1.000

X

Alguns contadores aconselham e usam levar por oca-

a Lu-

cros & Perdas. Pensamos, porém, que tal não se deve fa- zer. Como um dos principais papeis da Contabilidade é de- monstrar o estado especifico do patrimonio em qualquer mo- mento, pensamos que a Conta de Seguros deverá ficar aber- ta para que no caso de indenisação possamos saber qual foi a real indenisação obtida. Conhecemos esta pelo calculo se- guinte:

sião de balanço o debito da conta de Seguros sobre

Indenisação = Valor da Apolice — Anuidades. O lucro ou prejuizo apurado sobre a conta segurada se- rá, pois, o seguinte resultado:

Valor dos bens perdidos — Indenisação = Prejuizo ou ainda este resultado mais raro:

Indenisação — Valor dos bens perdidos = Lucro. Quando fôr recebida a indenisação far-se-á um lança- mento assim .

Caixa

a Companhia X Recebi pela indenisação da apolice n. 1.000, do seguro de nossos

X

Em seguida levamos á conta do bem que foi segurado, por debito, o valor da apolice, assim:

Apolice de Seguro (Animais ou Cultura).

a

Pelo valor da indenisação da apolice n.

— 50 —

será levado ao seu

crédito, para saldo, e a debito da conta que foi segurada, da maneira seguinte:

(Animais ou Cultura) a Seguros sobre Pelo débito desta conta, por saldo Z

E o débito da conta de Seguros de

Dessa maneira temos escriturado (1) todo o ciclo dos fatos administrativos originados das operações sobre os se- guros. E, pelos lançamentos ácima poderemos vêr nitida- mente qual foi o resultado da operação de seguro, assim:

Indenisação —

Anuidades pagas = Indenisação

líquida.

A Indenisação Líquida póde ser maior ou menor do que

o prejuizo verdadeiro sofrido pelo fazendeiro. Se fôr maior, houve lucro; se menor, prejuizo.

LIÇÃO XII

Do Penhor Rural

Sumario — Conceito. Especies. Contabilidade

DO PENHOR RURAL

Penhor é uma garantia de divida efetuada pela aliena- ção de bens moveis. Penhor Rural é o que se efetua, sobre bens moveis das emprezas agrarias. Como sabemos, é da essencia do penhor

(1) — Ha outra fórma mais simples de se anotar a liquidação dos seguros a saber: Recebida a indenisação, estórna-se o segundo lança- mento ácima, e dá-se entrada do dinheiro em Caixa, debitando-se a esta conta e creditando-se a Lucros e Perdas.

— 51 —

que ele tenha por garantia bens moveis. Não obstante isto, o nosso Codigo Civil enumerando no seu artigo 781 os objé- tos que podem ser dados em penhor cita as colheitas penden- tes e as em via de formação, que, como sabemos, são por sua natureza bens imoveis. E’ por isso mesmo ainda que os auto- res dizem que “o penhor agricola é uma fórma anormal do penhor, que se aproxima da hipotéca”. (1). O penhor rural foi instituido entre nós pelo Decreto n° 3.272 de 5 de Outubro de 1885, artigo 10, e hoje já se acha regulado pelo Codigo Civil, artigo 781 e seguintes.

DAS ESPECIES DE PENHOR RURAL

O penhor rural pela nossa legislação em vigor póde to-

mar duas fórmas diferentes. Póde ser :

a)Agricola. b)Pecuario. Penhor Agricola é o efetuado sobre os bens moveis das emprezas agricolas.

Penhor Pecuário é o realisado com a garantia dos bens moveis das emprezas pastorís, pecuárias (animais de creação ou de trabalho).

A distinção ácima, entre as duas especies de penhor rural

enumeradas, comquanto não tenha sido observada pela nossa legislação, depreende-se facilmente do espirito de seus arti-

gos (2). Nas Partes seguintes estudaremos detalhadamente cada uma dessas especies do penhor rural.

DA CONTABILIDADE DO PENHOR RURAL

O registro dos fatos administrativos oriundos das opera- ções referentes ao penhor rural não apresenta grande dificul-

(1)Clovis Bevilaqua:”CodigoCivil Brasileiro Commentado”, vol. 3°, pagina 343. (2) Artigo 781 e seguintes.

— 52 —

dade.No Diario poder-se-á obedecer á seguinte ordem de lan- çamentos:

Efetuado o contrato de penhor e recebido o dinheiro apu- rado com o mesmo:

Caixa

a Colheita de Milho em Penhor. Recebido de F. por emprestimo com a ga- rantia do penhor da nossa colheita de milho

X

Resgatada a divida que deu origem ao penhor ácima (penhor agricola), estorna-se o lançamento feito da maneira

seguinte:

Colheita de Milho em Penhor

a Caixa Pelo resgate de n emprestimo contraído com F., e com a garantia da nossa colheita de milho

X

Quando houver pagamento de juros, farse-á:

antecupadamente,

Diversos a Colheita de Milho em Penhor

Caixa

Rec°. de X, a 120 dias,

conforme contrato d. d. 9:900$000 Juros & Descontos Desconto por antecipa-

100$000 10:000$000

Si os juros não forem pagos antecipadamente, registrare- mos como no primeiro lançamento deste capitulo, e na liquida-

ção faremos:

ção

Diversos a Caixa Colheita de Milho em Penhor Pelo resgate de n em- prestimo com X Juros & Descontos Juros pagos

10:000$000

100$000

10:000$000

III CAPITULO

DA ASSOCIAÇÃO RURAL

LIÇÃO XIII

Da Parceria Rural

Sumario: — Conceito. Especies. Contabilidade.

DA PARCERÍA RURAL

Parcería Rural é o contrato pelo qual uma pessoa cede a outra, mediante condições préviamente estabelecidas a explo- ração de algum ou alguns bens rurais. E’ esta uma instituição já consagrada e regulada por inumeras legislações. O nosso Codigo Civil dela trata no seu artigo 1.410 e seguintes.

O contrato de Parceria Rural já está sobremodo den-

tro dos costumes do nosso país, recebendo denominações re- gionais, sendo mais conhecido nos meios rurais por contrato

de “meiação”, de “meiá”. As pessoas que por ele contratam, em linguagem rural, se denominam meieiros. O contrato de Parcería Rural, de Meiação, tem sido já estudado sob varios aspétos, principalmente na Italia (mezzadria, colonia parzia- ria), permanecendo porém ainda entre nós sem a obrigatorie- dade de uma fórmula juridica que garanta a parte do carnei- ro no contrato com o lobo Tem por fim este contrato a exploração industrial das cousas pertencentes aos dominios agrarios: cultura do sólo ou exploração de animais

A Parcería Rural como observa o grande Clovis Bevila-

qua “participa’ da natureza da locação e da sociedade, (1); por isso, “aplicam-se a este contrato as regras do de sociedade no que não estiver regulado por convenção das partes”. (2)

(1)

Liv

cit

V

observação 1

20,

Rio

de

Janeiro,

1926,

pag

168,

— 56 —

DAS ESPECIES DE PARCERIA RURAL

Como é facil de se concluir são de duas naturezas dife- rentes as modalidades de Parcería Rural:

 

a)

Parcería Agricola.

b)

Parcería Pecuária.

O

Codigo Civil no artigo 1.410 define a Parcería Agrí-

cola:

“Dá-se a parcería agricola, quando uma pessôa cede um

predio rustico a outra, para ser por esta cultivado, repartindo- se os frutos entre as duas, na proporção que estipularem”.

E’

ainda o nosso Codigo Civil quem define a Parcería

Pecuária:

“Art. 1.416 — Dá-se a parcería pecuária, quando se en- tregam animais a alguem para os pastorear, tratar e criar, mediante uma quota nos lucros produzidos”.

A Parcería Pecuária só se dá sobre os animais (“gado

grosso” ou “meu’do”), não podendo ter por objéto aves e in-

sétos.

No contrato de Parcería Rural (Pecuária ou Agricola) aparecem sempre, no mínimo, duas pessoas que se denominam Parceiro e Proprietario. Nas Partes seguintes trataremos de cada uma dessas especies de Parcería, especialmente.

DA CONTABILIDADE DAS PARCERÍAS RURAIS

Nada mais são as Parcerías Rurais que especiais azien- das agrarias, com ligeiras modificações. São quasi que um contrato de sociedade comercial de capital e industria. Lógo, a elas pódem e devem ser aplicados os mesmos principios que estamos estudando para as demais emprezas rurais com ligei- ras modificações de fórma contábil, baseadas no contrato efe- taudo, direitos e obrigações dos parceiros, etc.

— 57 —

LIÇÃO XIV

Das Cooperativas e Sindicatos Rurais

Importancia de um e de outro. Principais fórmas.

Sumario:

Cooperativas

Rurais.

Sindicatos

DAS COOPERATIVAS RURAIS

Rurais.

Denominam-se Cooperativas as sociedades em que mais de sete socios se reunem para proteção de interesses comuns, com capital variavel e numero ilimitado de socios (1). As cooperativas são reguladas pelo Decreto n°. 1.637 de 5 de Janeiro de 1907. As cooperativas Rurais são as que se destinam á prote- ção dos estabelecimentos agrarios e de seus membros. Delas só pódem fazer parte as pessoas que se ocupam de serviços rurais.

DOS SINDICATOS RURAIS

Sindicatos Rurais “são as associações formadas entre profissionais da agricultura e industrias rurais de qualquer genero, para defesa dos interesses de ordem economica, social ou moral comuns aos associados”. (2) São considerados profissionais da agricultura e indus- trias rurais, nos termos do artigo 4 do Regulamento citado “o proprietario, o cultivador, o arrendatario, o parceiro, o cria- dor de gado, o jornaleiro e quaisquer pessoas empregadas em serviço dos predios rurais, bem como a pessôa juridica cuja existencia tenha por fim a exploração da agricultura ou indus- tria rural”.

DA IMPORTANCIA DOS SINDICATOS E COOPERATIVAS RURAIS

E’ ocioso encarecer as vantagens dessas associações. A conciencia do cumprimento do dever, a elevação das profis-

(1) Ver o volume 11.° do nosso “Tratado de Contabilidade (Contabi- lidade Mercantil), pag. 200 e seguintes. (2) Regulamento do Decreto n. 6.532 de 20 de Junho de 1907, art. 1.

— 58 —

sões, a compenetração do papel que cada um deverá represen- tar na vida, provém dessas associações. Além da conciencia moral que ali se cria, aquelas sociedades são as grandes pro- tetoras e incentivadoras da classe. Mórmente as associações rurais representam papel saliente. O auxilio á produção agra- ria é sempre dos mais eficazes, principalmente no nosso país. Por isso se faz sentir a grande necessidade das Cooperativas e Sindicatos Rurais para contrabalançar o descaso em que vi- ve a nossa produção rural.

DAS PRINCIPAIS FO’RMAS DAS COOPERATIVAS E SINDICATOS

Sindicatos e cooperativas Rurais pódem tomar inumeras, fórmas conforme a especie de auxilio de que pretendam se ocupar. Assim é que os ha destinados á proteção da produ- ção, do crédito, do consumo, do seguro agrario; etc. (3). Qualquer que seja o fim dessas associações, todas elas prestam relevantes serviços, salientando-se as Cooperativas e Sindicatos destinados á proporcionar o crédito aos seus filiados.

LIÇÃO XV

Das Cooperativas e Sindicatos Rurais

(Conclusão)

Sumario: — Cooperativas e Sindicatos de credito. Caixas Rurais. Contabilidade das Cooperativas e Sindicato.

DAS COOPERATIVAS E SINDICATOS DE CRÉDITO

Dentre todas as especies de Cooperativas e Sindicatos salientam-se as que têm por fim imediato o adiantamento de capitais aos seus associados. O crédito rural é de todos o que

(3) Sobre este assumpto não se deve deixar de ler, a monographia do professor Salvatore Bruno, intitulado: “I Monti Frumentari, Torino 1924.

— 59 —

mais ampa o necessita. Dependente de fatores extranhos e al- gumas vezes inevitaveis, a produção agraria necessita de cer- tas vantagens. Uma destas é a que se refere ao prazo dos serviços rurais. Os estabelecimentos puramente comerciais geralmente fazem emprestimos a curto prazo. E é por isso que os Sindicatos e Cooperativas de Crédito proliferam com o incremento que vemos hoje em dia.

DAS CAIXAS RURAIS

As associações de crédito agrario geralmente se consti-

tuem sob a fórma de Caixas Rurais. Estas têm por fim pro- porcionar capitais aos seus associados, bem como obriga-los á economia. São os Bancos dos agricultores. As caixas rurais obedecem geralmente a dois tipos di- ferentes:

a) Caixas Locais.

b) Caixas Regionais

As caixas locais se caraterisam por agir em campo deli-

mitado. Só pódem ser seus associados e com elas efetuar operações as pessoas residentes em determinada circumscri- ção territorial.

As caixas regionais têm campo de ação mais amplo. Efe-

tuam operações com pessoas residente em logares diferentes, comquanto dentro de determinada região.

O que caraterisa esses dois tipos de caixas rurais é o

maior ou menor ambito em que elas operam. De maneira, que, para que uma pessoa possa efetuar transações com uma cai- xa regional é preciso que tenha alguma notoriedade e as ope- rações sejam baseadas em garantias mobiliarias ou imobilia- ris. Ao passo que nas caixas locais são em via de regra ga- rantia das transações o crédito pessoal. Existem diversos tipos de caixas rurais, sendo que os mais conhecidos são os do tipo Schulte-Delitszch, Raiffeisen, Bancos Luzzatti e outros geralmente conhecidos pelo nome de seus creadores.

— 60 —

A primeira caixa rural que se tem noticia foi creada

na Allemanha, em Altenkirchen (Prussia Renana), em 1847 (1). Vê-se, pois, que é uma instituição recente, não obstante ser hoje das mais propagadas nos meios rurais.

DA CONTABILIDADE DAS COOPERATIVAS E SINDICATOS RURAIS

A contabilidade dos Sindicatos e Cooperativas rurais de-

ve obedecer a um criterio a adotar de acôrdo com o fim da associação. Por isso deveria seguir ora os principios da Contabilidade Mercantil, ora os da Contabilidade Bancaria, pois que esses institutos participam de algumas operações comuns ás emprezas bancarias (Caixas Rurais) e comerciais.

(1) Prof. Salvatore Bruno: “Le Casse Rurali de Prestiti”, Torino. 1924, pag. 59

IV CAPITULO

DA EMPRESA RURAL

LIÇÃO XVI

Da Empreza Rural

Sumario: — Conceito. Organisação. Azienda Rural. Pes- soal da empreza rural.

DA EMPREZA RURAL

A Empreza Rural é a organisação ecoonmica destinada

á exploração produtiva dos campos. Ela póde abranger gran-

de numero de operações produtoras ou se dedicar a uma mo- dalidade só da exploração agraria. Póde tambem se destinar-

á grande ou á pequena cultura. Por Empreza Rural não devemos compreender sómente as instituições que têm por fim a produção de utilidades agra- rias, mas tambem as que se destinam á proteção dessa produ- ção ou ainda á transformação dos produtos rurais (industrias rurais).

DA ORGANISAÇÃO DA EMPREZA RURAL

Qualquer que seja a fórma e a finalidade da Empreza Rural a sua organisação é tarefa dificil e que deve ser bem orientada para agir proficuamente. Em todo periodo de orga- nisação de uma empreza as operações iniciais são sempre ba- sicas. Na Empreza Rural a escolha dos terrenos a serem traba- lhados, das raças de animais para creação, dos maquinismos e utensilios necessarios á industria rural, das sementes e mudas para cultura, da elaboração da receita e despeza, etc. são ope-

— 64 —

rações primordiais e de relevante importancia. Como em toda organisação produtora é de grande necessidade a escolha do pessoal habilitado, não devendo se esquecer nunca um orga- nisador de que são fatores da grandeza de toda instituição economica as cabeças que pensam e os braços que executam. Após a inventariação dos capitais agrarios deve, tambem o or- ganisador cuidar das combinações culturais ou industriais a que se destina a Empreza. No calculo das despezas dos exercicios devemos tambem levar na devida conta as que são necessarias e inevitaveis, bem como as eventuais e os impostos e gravames com que são em geral afetados os bens e a produção, tais como despezas com os trabalhadores, materia prima a empregar, sementes, prepa- ro do sólo, etc., alimentação dos animais, premios de seguros, juros de capitais empenhados, impostos diversos, etc.

O PESSOAL DAS EMPREZAS RURAIS

O pessoal que auxilia a produção agraria se classifica por diversas categorias. O numero destas, porém, varia com a extensão da empreza. Na pequena Empreza Rural unia familia ás vezes se en- carrega de todas as operações necessarias á produção. Mas, no regimen da grande propriedade territorial, que é o dominante em nosso país, torna-se necessario um pessoal mais habilita- do, e, debaixo de certas disposições costumeiras e contratuais facil nos torna agrupa-los nas seguintes categorias, dentre outras:

a) Proprietario, detentor da riqueza administrada (dono,

arrendatario, etc.)

b) Administrador, que dirige os diversos serviços da

Empreza.

c) Colonos, trabalhadores manuais e que ordinariamente

trabalham por contrato.

d) Pessoal do Escritorio (Contador, caixa, auxiliares,

etc.).

e) Meieiros, colonos ou parceiros, que trabalham para o

proprietario com o contrato de satisfazer ás despezas e dividir os lucros com este

— 65 —

f) Jornaleiros ou diaristas, empregados que ganham por

dia de trabalho. g) Camaradas, que são os empregados contratados por

mês.

Sob o ponto de vista contábil diversas são as pessoas que fazem parte da administração das emprezas rurais, como ve- remos adiante.

LIÇÃO XVII

Da Administração Economica

Sumario: — Conceito. Funções administrativas. Pessoas. Azienda Rural.

DA ADMINISTRAÇÃO ECONOMICA

Administração economica é a serie de funções exercidas pelos encarregados do patrimonio afim de que este produza. Ela tem por fim todas as operações cujo fim é acconserva- ção, melhoramento ou produtividade da riqueza administrada,

E’ exercida por meio de funções executadas por meio de atos

e fatos administrativos, por um corpo de pessoas sobre um

patrimonio. As funções administrativas têm por fim a organisação, direção e liquidação dos estabelecimentos administrados.

Daí se infere que são de tres ordens diferentes as funções

administrativas:

a) Funções iniciais, que são as que têm por fim a organi-

sação dos estabelecimentos.

b) Funções gestivas ou gestoriais, que têm por fim a di-

reção, a gerencia da empreza.

c) Funções finais ou conclusivas que têm por fim a liqui-

dação das operações de um exercicio, ou a liquidação final da

empreza.

Em toda administração economica, de qualquer que seja

a natureza

Empreza Rural tres pessoas distintas:

da

entidade

administrada,

a) Proprietario.

b) Agentes Consignatarios.

aparecem sempre

na

— 66 —

Proprietario é o dono da Empreza, é o senhor do patri-

monio.

a) Caixas Locais.

Agentes Consignatarios são os encarregados da guarda dos bens materiais da administração. Correspondentes são os freguezes da administração. As contas que representam o Proprietario, são as de Ca- pital e Lucros e Perdas (Resultado). As contas que representam os agentes consignatarios são as que representam os bens materiais da administração tais como Caixa, Mercadorias, Semoventes, Imoveis, etc. As contas que representam os Correspondentes são as que demonstram os débitos e créditos das pessoas que mantêm, transações com a Empreza, são os devedores e credores.

DA AZIENDA RURAL

Denomina-se azienda rural ao patrimonio das emprezas agrarias, ao conjunto de todos os bens que formam o ativo e passivo da entidade economica rural. E’ sobre o Patrimonio da Empreza que são executadas as funções administrativas ácima enumeradas, pelas diversas pessoas da administração. A Azienda Rural póde ser dividida em duas seções com- pletamente distintas:

a) Azienda Domestica.

b) Azienda Agraria.

Azienda Agraria é a que se compõe dos bens destinados á produção rural. Azienda Domestica é a que se compõe dos bens destina- dos ás despezas particulares do Proprietario da Empreza Rural.

— 67 —

LIÇÃO XVIII

Do Inventario

Sumario — Conceito. Complexidade. Levantamento do Inventario.

DO INVENTARIO (1)

Inventario é a verificação, descrição e avaliação de to- dos os bens que formam um patrimonio. E’ a apuração do valor economico de uma riqueza. O Inventario é efetuado

quando se trata de crear um estabelecimento que tem por fim operações economicas (Inventario Inicial), para a verifica- ção do resultado produzido em determinados periodos ou exercicios (Inventario Periodico), ou para a terminação das operações (Inventario Final). E’ o Inventario que nos de- monstra o valor economico do patrimonio, a situação da azienda. E’ uma das bases para o 1 evantamento do Balanço. O fim principal e toda a importancia do Inventario, está em demonstrar ao administrador, em qualquer azienda:

a) a sua situação especifica, isto é, global, dos movi-

mentos.

b) a sua situação juridica, a saber, as relações com os

correspondentes.

c) a sua situação economica, isto é, o estado liquido do

patrimonio nas suas relações com as contas que o compõem.

d) a sua situação financeira, a saber, o movimento mo-

netario, de numerario.

DA COMPLEXIDADE DO INVENTARIO RURAL

Nas aziendas rurais as operações de inventariação se tornam ás vezes, por demais complexas. Compondo-se elas de elementos de natureza as mais diversas torna-se ele por isso extenso e assaz trabalhoso. Ademais, sendo grandé o número de contas, dificulta ainda mais as operações impres- cindiveis de clasificação dos bens patrimoniais.

— 68 —

Como todo Inventario, o aplicado ás aziendas agrarias

tambem póde ser Analitico ou Sintético. E’ Analitico o Inventario Rural, quando descrimina to- dos os elementos patrimoniais, um por um, demonstrando to- das as suas qualidades e defeitos.

O Inventario Sintético é o que reúne os dados todos da

mesma categorias, debaixo da conta correspondente. Todo Inventario deve ser primeiramente Analitico e ao depois Sintético, para bôa ordem e exata verficação do pa- trimonio.

Dissemos, que na azienda agraria se torna complexa a operação de inventariação, pois que os bens que a compõem são inumeros e vasta se torna aquela operação. Principal- mente a clasificação dos diversos imoveis se torna algo dificil, pois cada classe é aplicada a um determinado, fim, e, faz par- te pois, de contas especiais. DO LEVANTAMENTO DO INVENTARIO Em qualquer que seja a modalidade do patrimonio o pro- cesso para inventario é um só. Resume-se ele em tres ope- rações, fundamentais;

a) Classificação.

b) Descrição.

c) Avaliação.

A operação da classificação nos faz grupar os bens exis-

tentes em um patrimonio, de acôrdo com a natureza de cada um. Cada grupo destes formará uma conta tambem especial. Descrição é o meio de qualificar os bens pela demons- tração de suas qualidades e defeitos. A bôa descrição é con- dição essencial para uma exata avaliação. Uma depende e é consequencia da outra.

Avaliação é o calculo em dinheiro do valor dos bens in- ventariados. E’ esta operação que demonstra o estado econo- mico da azienda.

O Inventario Analitico exige sempre uma completa e

detalhada descriminação dos elementos patrimoniais. O In- ventario Sintético se contenta com o agrupamento de elemen- tos da mesma natureza, pois que este se baseia naquele. O

— 69 —

Inventario Analitico exige classificação descriminada por-

menorisadamente. Para e Inventano Sintético torna-se ne- cessario conhecer as contas que representam os diversos bens afim de formar as varias catégorias de contas.

A descrição e a enumeração dos diversos elementos pa-

trimoniais (classificação) são essenciais no Inventario Ana- litico. Já no Inventario Sintético esta descrição não se faz

necessaria pois este - um resumo daquele.

A Avaliação é tanto necessaria no Inventar io Sintético

quanto no Analitico. Com a diferença de que neste ela é efetuada sobre cada cousa, e os totais de cada bem, ao pas- so que no Inventario Sintético o calculo monetario é feito sobre a conta que representa a cousa inventariada. (1). Nas lições seguintes vamos tratar de cada uma destas operações para levantamento do Inventario. Deixaremos de tratar da Descrição, tão sómente, pois que esta depende dos conhecimentos gerais de cada um e não se baseia em conhe- cimentos nem principios contaveis.

LIÇÃO XIX

Da Classifica ção dos Bens Rurais

Sumario: — Método. Capitais Agrarios. Classificação. Qua dro siriático.

DA CLASSIFICAÇÃO DOS BENS RURAIS

A Classificação dos bens rurais é uma das funções pri-

mordiais para o levantamento do Inventario de uma azienda agraria. Para essa operação deve-se ter em vista os bens da

mesma natureza e grupa-los debaixo da conta que os tiver de representar.

A classificação dos elementos patrimoniais das aziendas

rurais no Inventario Analitico é a operação mais simples pos- sivel. Basta tão sómente enumerar as cousas ou bens da

(1) Ver lição XVIII onde apresentamos os modelos de Inventarios Analitico e Sintéico.

— 70 —

mesma natureza debaixo de um titulo que os represente, com a especificação dos seus caracteristicos e fins. Assim, debai- xo da conta de “Máquinas Ágrarias” incluiremos todas as que forem usadas na empreza rural, tais como arados, char- ruas, etc. Sob o titulo de Imoveis incluiremos os diversos bens dessa natureza, tais como terrenos de culturas, terrenos em matas, construções, pastos, etc. No Inventario Sintético, porém, não ha necessidade de minucia na classificação dos bens. Sendo esta especie de In- ventario um resumo do Analitico, este servirá de documenta- ção tornando-se, pois, desnecessaria a minudencia. Basta tão sómente um ligeiro historico designando, por conjunto, a na- tureza dos bens que a conta inventariada representa. Após a classificação dos elementos patrimoniais segue- se a fase terminal do Inventario que é a Avaliação, após pas- sar pela fase de terminação, que é a Descrição.

DOS CAPITAIS AGRARIOS

Capital, num sentido, amplo, são todas as cousas que nos proporcionam serviços ou servem á nossa manutenção. São as riquezas ecedentes, conservadas para aproveitamento em ocasião oportuna. E’ o trabalho acumulado, convertido em bens ou cousas, e é geralmente uma resultante da economia ou da superprodução. Não cabe aqui exaltar a função e necessidade do Capi- tal. Sem ele quasi não seria possivel a vida. E é ele um gran- de fator da produção, comquanto não seja o principal nem o mais importante, como pensam os economistas conservadores. A utilidade dos Capitais se faz sentir grandemente na

Agricultura. Dependendo esta não só do fator humano mas de condições outras, fatais e inevitaveis, tais como o prazo para germinação das sementes, desenvolvimento das plantas, maturação dos frutos, colheitas, criação e crescimento de ani-

a necessidade da riqueza acumulada torna-se pon-

mais, etc

to essencial. E é por isso que não se concebe azienda rural sem fortes reservas de capitais. Os Capitais agrarios tomam diversas fórmas, sob as quais são convertidos tais como terras nuas e lavradas ou em

 

— 71 —

Pastos,

recoltas

a

colher,

animais,

maquinarios,

dinheiro,

construções, sementes, adubos, etc.

DA CLASSIFICAÇÃO DOS CAPITAIS AGRARIOS

Inumeras tem sido as classificações propostas dos capi- tais rurais. Principalmente os tratadistas de Economia Ru-

ral não descuidam deste ponto. Assim é que, dentre outras classificações, podemos citar as de E. Jouzier (1) Manvilli (2) Nicoli (3). Geralmente estas classificações são mais propostas de acôordo com os principios de Economia Rural e não sob o ponto de vista contabil. Para nós os Capitais Agrarios pódem ser classificados primordialmente em duas grandes classes:

a) Capitais Domesticos.

b) Capitais Industriais e Comerciais.

Capitais Domesticos de uma azienda agraria são os que satisfazem ás necessidades particulares, pessoais, do dono

da Empreza Rural. Estes capitais se regulam e se subdivi- dem de acôrdo com as normas da Contabilidade Domestica, cabendo a esta a sua sub-divisão. Capitais Industriais e Comerciais da azienda rural, são todos aqueles que concorrem para a produção agraria e para as operações comerciais efetuadas com os resultados daquela. Estes capitais se referem ás funções técnicas (industriais) e comerciais da azienda agraria, a que já nos referimos. E, como todo Capital póde desaparecer ou não lógo após um fato administrativo, dizemos que estes Capitais pódem ser economicamente considerados.

a) Fixos.

b) Circulantes.

São fixos quando não desaparecem nem se transfor- mam após uma operação realisada. Estes Capitais ainda pó-

dem ser, fisicamente considerados:

(1) E. Jouzier: “Economie Rurale”, Pariz, 1920, pag. 84. (2) Venanzio Manvilli: “Valutazione Agrarie”, Livorno, 1922, pa- gina 47, e “Contabilit á Agrarie”. Livorno, 1922, pag. 6. (3) Vittori Niccoli: “Economia Rurale, Agrotimesia e Computiste- ria Agraria”, Torino, 1927, pag. 16.

a) Moveis.

b) Imoveis.

— 72 —

São moveis quando constituidos por bens desta natureza. Estes ainda pódem ser, segundo a sua natureza:

a) Animados ou Semoventes.

b)Inanimados. conforme tenham ou não movimento independente do

esforço alheio. Os Capitais fixos imoveis são os formados por bens imoveis. Estes pódem ser:

a) Imoveis territoriais.

b) Imoveis de Exploração ou Cultura.

Aqueles são formados pelos terrenos desaproveitados. Estes são constituidos por terras cultivadas, edificações, etc.

Os Capitais circulantes são sempre moveis. E pódem

ser:

a) Animais, se têm vida propria.

b) Inanimados, em caso contrario.

Ambos pódem ser utilizados na produção agraria ou nas

suas operações comerciais.

QUADRO SINÓTICO DOS CAPITAIS AGRARIOS

Apresentamos a seguir o quadro sinótico da nossa clas- sificação dos Capitais Agrarios.

DOS CAPITAIS AGRARIOS Apresentamos a seguir o quadro sinótico da nossa clas- sificação dos Capitais Agrarios.

— 73 —

LIÇÃO XX

Da Avaliação dos Bens Rurais

Sumario — Conceito. Métodos. Agrotmésia. Metodos.

DA AVALIAÇÃO DOS BENS RURAIS

Para a apuração do estado economico das aziendas agrarias, torna-se indispensavel a Avaliação, que é a função conclusional de todo Inventario. Avaliação é o calculo monetario efetuado sobre uma de- terminada cousa. Todos os bens são sucetiveis de avalação. Para tal, diversos são os processos usados. A Avaliação po- rém, dos bens rurais não segue uma regra prefixada. O mé- todo a aplicar varía com a natureza do elemento a inventa- riar. Sendo que até a classificação dos imovéis rurais cons- titue oje um capitulo especial de Economia e Contabilidade Rurais que estudaremos adeante. E’ assunto de tal importan- cia que os diversos métodos de aváliação das terras das em- prezas rurais constituem hoje uma ordem de estudos definida, denominada Agrotimesia.

DOS MÉTODOS DE AVALIAÇÃO DOS BENS RURAIS

As cousas que formam o patrimonio das emprezas ru- rais pódem ser avaliadas por diversos processos. Varios são os métodos aplicados, tais como o do preço do custo, preço corrente, curso, médio, etc. Estes métodos pódem ser aplica- dos a quaisquer especie de bens moveis, com maior ou menor vantagem, variando todos eles de caso a caso. Pelo método do preço do custo damos a cada elemento patrimonial um valor monetario baseado nas despezas por que nos ficou a cousa, mais os juros compensadores do em- prego do capital. Pelo método do preço corrente damos ao bem inventaria- do um valor monetario baseado no preço de cotação do mercado

— 74 —

Pelo método do curso médio ou valor médio, encontra- se o valor de um dado elemento fazendo-se a soma da cotação atual da cousa (preço corrente), mais o preço de custo do mesmo, dividido o total por dois. O resultado será o preço médio.

Qualquer destes processos como outros mais que exis- tem, póde ser adotado com maior ou menor vantagem. Tudo depende do criterio do contador encarregado da avaliação.

DA AGROTIMESIA

Agrotimesia é a ciencia que tem por fim a avaliação mo- netaria dos imoveis rurais. E’ uma das operações mais com- plexas do Inventario dos bens rurais, pois que depende de um criterio seguro a adotar. Exige tambem grande prática das operações rurais e conhecimentos de principios indispensaveis de ciencias correlatas, tais como a Economia Politica. Agro- nomia, Economia, Legislação, Contabilidade Rural, Algebra, etc. Além de tudo, a avaliação das propriedades rurais varía de método só com o fim que se tem em vista com o Inventa- rio: se para venda, se para aluguel, se para balanço. Constitue esta dificil parte do Inventario Rural uma cien- cia moderna, uma nova ordem de estudos, principalmente em países como a Italia e Alemanha onde as obras de VENAN- ZIO MANVILLI, SERPIEIRI, ERNESTO MARHEN- GI e sobretudo a obra notavel de V. Nicoli assentaram as bases definitivas da nova ordem de estudos. Como sabemos, ha fatores externos que atuam sobre a avaliação dos imoveis rurais fazendo com que aumente ou diminua o seu valor, tal como a lei da oferta e da procura. Além desses fatores externos ha tambem fatores internos que agem para melhoria ou não do valor dos imoveis agra- rios, tais como a fertilidade das terras, a especialidade de cultura, adatavel, a facilidade de comunicação, a concurren- cia, o clima, a situação do imovel, etc. LOURENÇO GRANATO, a quem devemos na lingua portugueza a prioridade de tratar do estudo a que nos refe- rimos, escreveu:

— 75 —

“Para se avaliar um terreno cultivavel não devemos considerar tão sómente a sua extensão; outros muitos ele- mentos influem para lhe elevar ou depreciar o preço, que, á primeira vista se lhe pode atribuir. O avaliador deve, pois, levar muito em conta, além da extensão da área cultivavel, a natureza mineralogica do sólo; a sua fertilidade, a natureza da vegetação, as condições dos meios de comunicação, a dis- tancia dos centros consumidores, a natureza do clima, as aguas para a irrigação, as quédas d’aguas aproveitaveis como força motriz, a sistematização do sólo, as servidões, a natu- za das culturais, a topografia do sólo sob o ponto de vista das lavras culturais, os melhoramentos introduzidos com a drenagem e outros muitos elementos que eventualmente se apresentam á sua observação. (1).

DOS MÉTODOS DE AGROTIMESIA

Os autores costumam enumerar tres métodos diferentes para a avaliação dos terrenos agricolas (2):

a) Método da Avaliação Comparativa ou Indireta.

b) Método da Avaliação Empirica, ou Direta Síntetica.

c) Método dá Avaliação Racional, ou Direta Analitica.

O primeiro é denominado Método Indireto por se dar o valor á propriedade rural tomando-se por base propriedades semelhantes. Segundo este método devemos comparar a pro- priedade a avaliar com outras que se encontrem nas mesmas condições, e que bem conheçamos. Quando, porém, a empreza rural fôr muito extensa, classifica-la-emos em zonas de acôr- do com os tipos carateristicos, e daí faremos as diversas com- parações. Procede por meio de confronto.

(1) “Noções Elementares de Contabilidade Agricola”, São Paulo,

1912.pag.85.

(2) Ha além desses três outros mais. Para melhor, estudo desta ma- teria vêr as duas seguintes obras que se podem considerar classicas: Vitto- rio Nicolli: “Economia Ruralle, Agrotimesia e Computisteria Agraria”, To- rino 1927 e Venanzio Manvilli “Valutazioni Agrarie”, Livornio, 1922.

— 76 —

Segundo o método da Avaliação Empirica, Direta ou Sintética o avaliador — baseado na sua prática — procurará saber a historia das terras que tem que avaliar (preço por que foram compradas, produção anual, produtos que dão. etc.). Procede por síntese, pelo conhecimento da região. Pelo método da Avaliação Racional ou Direta Analítica,

o avaliador calculará o preço sobre uma proporção baseada

na renda territorial da propriedade, e sobre essa renda fará

o calculo do capital que deva proporcionar tal renda. Este

método é o mais dificil de ser realisado pois depende do bom conhecimento da propriedade, economica e técnicamente. Chama-se Racional porque é o mais cientifico de todos, ou antes, é o unico método cientifico de Agrotimesia. E’ tam- bem o método preferido. “A renda territorial, é o titulo prin- cipal sobre o qual se mede o valor de uma propriedade ru- ral” (3) Baseia-se na utilidade material das terras. Os dois primeiros métodos enumerados são esperimen- tais. O ultimo é o cientifico. Aqueles se baseiam na expe- riencia, na prática. O ultimo depende do estudo economico

da

empreza a avaliar. Em todos estes métodos, porém, devem-se ter em vista

as

condições especiais de cada caso isolado: Condições extrin-

secas (população, mão de obra, regimen tributario, facilida- de de crédito, etc.), e condições intrinsecas (estado agrono-

mico da propriedade e topografico e onus que pesam sobre o imovel). (4).

(3) Manvilli: Liv. cit., pag. 94. (4) Vér Niccoli, op. cit., pags. 323 e 324.

— 77 —

LIÇÃO XXI

Do Inventario

Sumario — Contas Ativas e Passivas. Inventario Geral e

Parcial.

Modelo

de

Inventario

Analitico.

Modelo

de

Inventario

Sintético

DAS CONTAS ATIVAS E PASSIVAS

Terminada a avaliação esta dá fórma contábil ao In-

ventario. Num Inventar ha ha sempre duas partes perfeitamente distintas:

a) O Ativo, onde colocamos as contas que representam

os bens existentes (contas dos agentes consignatarios) e as obrigações que temos a receber (contas dos correspondentes).

b) o Passivo, onde registramos as nossas obrigações a

resgatar (titulos ou credores em contas correntes). Dai surgem duas especies de contas

a) Contas Ativas.

b) Contas Passivas

São ativas quando fazem parte do Ativo, tais como, Imoveis, Caixa, Maquinas Agrarias, Construções, Planta- ções, Animais, etc. São contas passivas quando pertencem ao passivo. São

tais: Obrigações, a Pagar, Duplicatas a Pagar, etc.

DO INVENTARIO GERAL E PARCIAL

Quando o Inventario é efetuado sobre toda a empreza rural, denomina-se Geral. Nele se incluem, pois, todas as contas ,ativas e passivas. Quando o Inventario é efetuado sobre parte ou partes da azienda agraria, recebe a denominação de Parcial (1).

(1) Para melhor comprehensão deste assunto, vêr o nosso 1.º vo- lume (Tratado de Contabilidade: Contabilidade Geral), pag 61, 2ª. Edição.

— 78 —

DO MODÊLO DO INVENTARIO ANALITICO

Inventario da Fazenda das “TRES BARRAS” efetua- do em 30 de Junho de 1929.

UNIDADE

TOTAL

IMMOVEIS:

     

50

20

alqueires de terra em capoeira “

“ “ “ pastos

400$000

20:000$000

300$000

6:000$000

10.000 cafeeiros de 10 annos

1$000

10:000$000

casa moradia, feita de telhas, tijolos, for- rada, assoalhada, com 100m2., em estylo moderno em perfeito estado

1

20:000$000

15

casas para colonas, de tijolos, cobertas

de telha, com 900m2

2:000$000

30:000$000

1

cocheira para os animaes de trabalho

1:000$000

curral de 6.500m2. para o gado GADO:GROSSO:

1

250$000

5

touros caracús

 

600$000

3:000$000

90

vacas hollandezas

400$000

36:000$000

50

communs

300$000

15:000$000

12

novilhos de 1 a 2 annos

80$000

860$000

20

novilhas de 2 a 3 annos

100$000

2:000$000

2

jumentos

 

1:200$000

2:400$000

20

eguas para creação

150$000

4:500$000

5

cachaços nacionaes

200$000

1:000$000

40

bacorinhos

 

40$000

1:000$000

MACHINAS E UTENSILIOS

2

arados “Oliver’, de cisco

250$000

500$000

1

de sub-solo

100$000

1

troly

350$000

5

carroças

 

300$000

1:500$000

5

arreios para carroças

50$000

250$000

5

montarias para passeio

140$000

700$000

machina de escrever CAIXA:

1

950$000

950$000

Dinheiro no cofre PAIOL:

2:641$000

35

carros de milho

40$000

1:400$000

600 arrobas de café

30$000

18:000$000

20

saccos de feijão (Continua)

55$000

1:100$000

— 79 —

(Continuação) CONTAS CORRENTES Devedores 560$000 Marcel Amaral Lopes Yolanda Lacerda Gilberto Soares Fontes
(Continuação)
CONTAS CORRENTES
Devedores
560$000
Marcel Amaral Lopes
Yolanda Lacerda
Gilberto Soares Fontes
Eurico Oliveira de Campos
980$000
3:500$000
770$000
5:810$000
TITULOS
1 promissoria acceita por Hilda Pinho,
para 5/8/29
4:000$000
1 letra acceita por Helio Coutinho da
Costa, para 10/7/29
3:200$000
7:700$000
VEHICULOS:
1caminhão “Chevrolet”
1caminhão “Ford”
1automovel “ Buick”
7:800$000
5:500$000
12:000$000
25:300$000
CONTAS CORRENTES:
Credores:
Hugo Jordão
1:400$000
Celia Resende
820$000
Ruy
Barbosa
21:000$000
23:226$000
Pinto
TITULOS:
12:500$000
Promissoria que acceitei a Armando Silva
para 8/7/29
SALARIOS:
Pelos deste mez a pagar, conforme livro
ponto
11:000$000
HYPOTHECA
Pela que effectuamos com Epaminondas
Torres Filho
10:000$000

— 80 —

Apresentámos a seguir um modêlo de inventario já Sob a fórma sintética:

Inventario da Fazenda das “TRES BARRAS” efetua- do em 30 de Junho de 1929.

ACTIVO:

Immoveis Pelos inventariados. B ovinos Idem, idem Equideos Idem, idem Suinos Idem, idem Machinas Agrarias Idem, idem Moveis e Utensílios 1 machina de escrever Caixa Dinheiro em cofre Produtos no Paiol Pelos armasenados Vehiculos Pelos arrolados Arreios e Silhões Pelos em uso Titulos a Receber Pelos em carteira Contas Correntes Devedores

 

PASSIVO:

Contas Correntes Credores Titulos a Pagar Pelos de n/ acceite Salarios Pelos a pagar H ypothecas Pela que contrahimos

 

87:750$000

23:220$000

56:900$000

12:500$000

6:900$000

11:000$000

2:600$000

10:000$000

600$000

 

950$000

2:843$000

20:500$000

27:150$000

950$000

7:700$000

5:810$000

 

56:720$000

Total do Activo

220:713$000

 

V CAPITULO

DAS CONTAS

LIÇÃO XXII

Das Contas

Sumario: Conceito. Modelos.

DAS CONTAS

Conta é um agrupamento de fatos da mesma natureza.

E na Contabilidade Sintética que melhor se evidencia o pa-

pel das contas, pois, registrando elas todas as mutações pa- trimoniais são aptas para nos demonstrar a todo momento a situação especifica de cada ordem de bens aziendais. Regis- trando toda entrada e saída de valores, toda obrigação e di- reito concernente a cada bem, ela é apta para nos mostrar qual foi o movimento com os fatos administrativos de deter- minada ordem, a situação destes num começo de exercicio e no momento que se deseja, as modificações produzidas e os resultados obtidos, evidenciando tudo com clareza e certeza. A função das contas é a mesma, qualquer que seja a especialisação da Contabilidade, qualquer que seja a empreza em que é aplicada: demonstrar o estado especifico e economi-

co dos elementos patrimoniais. As classificações sob o ponto de vista contábil, cientifi- co, das contas, são aplicaveis a qualquer azienda administra- da. Segundo a natureza de suas especialisações é que os pa- trimonios nos fornecem conceitos diversos para a classifica- ção técnico-contábil de suas contas.

DOS MODELOS DAS CONTAS AGRARIAS

Com referencia aos modelos das contas pódem e devem ser adotados todos os que satisfaçam a natureza dos fatos ad-

— 84 —

ministrativos a registrar, ás operações a contabilisar. A’ Contabilidade Rural será permitido adotar os que se fize- rem necessarios. No geral todas as contas têm sempre duas partes distintas:

a) a da esquerda (Deve, Débito ou Entrada), onde re-

gistramos os fatos positivos, que trazem aumento ou dimi- nuição de direito á conta;

b) a da direita (Crédito, Haver ou Saída), onde regis-

tramos os fatos negativos, que diminuem o valor da conta.

Além destas ha contas que pela natureza das cousas que representam necessitam de outras colunas que poderão ser adotadas á vontade, como subsidios esclarecedores, tendo in- tuitos mais estatisticos do que contaveis. São de tres modos diversos os modelos usados em Conta- bilidade na colocação das secções de Débito e Crédito do Contas:

a) Secções Contiguas, quando o débito vem junto ao

crédito.

b) Secções Divididas ou Separadas, quando o débito

vem numa pagina e o crédito na outra. c) Secções Superpostas, quando o débito vem por cima e o crédito por baixo. Apresentamos a seguir modelos da fórma grafica des- tas diversas especies:

— 85 —

Modelo de secções contiguas:

DEBITO CREDITO
DEBITO
CREDITO

Modelo de secções divididas:

DEBITO CREDITO
DEBITO
CREDITO

— 86 —

Modelo de conta de secções superpostas:

DEBITO

CREDITO

— 87 —

LIÇÃO XXIII

DAS CONTAS

(Conclusão)

Sumario:— Classificação. Na Contabilidade Rural. Clas- sificação. Exemplos.

DA CLASSIFICAÇÃO DAS CONTAS

Vamos apresentar agora algumas classificações de con- tas que julgamos indispensaveis para o estudo de qualquer Contabilidade aplicada. As contas pódem se classificar:

1.° Quanto á sua personalidade:

a) Contas do Proprietario, que são todas as que de-

monstram lucro ou prejuizo, bem como a conta de Capital. Ex.: Despezas, Salarios, etc.

b) Contas dos Agentes Consignatarios, que são todas

as que representam os bens materiais da administração. Exemplo: Caixa, Bovinos, Sumos, Café, Maquinas Agra-

rias, etc.

2.° — Quanto á sua função as contas pódem ser:

a) Integrais, quando representam os objetos e pessoas

que tornam parte numa operação. São as contas dos Consi

gnatarios e Correspondentes.

b) Diferenciais, que são as que representam o resultado

das operações, os lucros ou prejuizos. São as contas do Proprietario.

c) Contas dos Correspondentes que são as que repre-

sentam as pessoas com quem a empreza mantém relações

mercantis. Exemplo: Nair Succar, Edgard Marx, Banco do Brasil, etc.

3.° Finalmente, quanto á sua função, ainda pódem ser:

a) Contas de Movimento, que são todas as que repre-

sentam os objetos das operações aziendais, taes como Imo- veis, Construções, Produtos no Paiol, etc. b) Contas de Resultado, que são as que demonstram lucro ou prejuizo, tais como: Lucros e Perdas e suas sub-di-

visões, como Despezas, Juros e Descontos, Comissões, etc.

— 88 —

DAS CONTAS NA CONTABILIDADE RURAL

Todas as contas pódem ser sintéticas ou Analiticas, conforme se destinam á escrituração sintética ou á analitica. As contas sintéticas ou de razão, só demonstram as mu- tações economicas; as contas analiticas, ou dos auxiliares, demonstram não só estas como a sua origem, natureza e es- clarecimentos necessarios. Na Contabilidade Rural as contas auxiliares ou analiti- cas são importantissimas e apresentam vantagens formida- veis; são de grande necessidade e indispensaveis para demons- trar o custo e a razão de ser das diversas produções agrarias. Contra elas não permanecem de pé as alegações de MA- RHENGI que tentou demonstrar a desvantagem da Conta- bilidade Analitica na Contabilidade Rural, sem lograr exito porém.

DA CLASSIFICAÇÃO DAS CONTAS RURAIS

São varios os criterios que pódem ser adotados para a classificação das contas rurais. Dentre os principais cita- remos o que as estuda sob um ponto de vista geral, isto é, compreendendo as emprezas rurais mixtas e o da classifica- ção das contas segundo a especialisação da empreza rural (pastoril ou cultural). Ocupar-nos-emos no momento da classificação das con- tas das emprezas rurais mixtas. Quando tratarmos de cada uma daquelas especialisa- ções da Contabilidade Agraria, estudaremos-as classifica- ções que se lhes refiram. (1)

EXEMPLOS DE CONTAS DA CONTA- BILIDADE RURAL

Vamos enumerar perfuntoriamente algumas contas que geralmente são usadas tanto na Contabilidade Pastoril quan-

(1) Liv. cit., pag. 54 e seguintes.

— 89 —

to na Cultural, reservando para quando destas tratarmos es- pecialmente, fazer a enumeração das suas contas carateris- ticas.

Dentre as principais contas que usualmente aparecem na Contabilidade Rural, citaremos:

Capital. Conta fundamental. Representa os valores com que uma pessôa constitue o seu patrimonio para inicio de suas transações. E’creditada pelos valores que constituem o capital e debitada pela diminuição ou desaparecimento deste. Caixa. Representa o movimento monetario. Registra a entrada e saida de dinheiro. Imoveis. Representa os bens que não se deslocam De- bita-se pelos existentes e adquiridos. Credita-se pelos alie- nados.

Maquinismos ou Maquinarios. Representa as maquinas em uso na empreza rural. E’ debitada pelas que são insta- ladas e creditada pelas amortisações, depreciações e inutili- sações. Contas Correntes. Registra as transações com os Cor- respondentes: no débito quando estes asumem uma obriga- ção; no crédito, quando adquirem algum direito. Moveis e utensilios: Representa os objetos de uso. E’ debitada pelos comprados e creditada pelas amortisações e estragos. Animais de Trabalho. Representa os que são utilisa- dos nos serviços agrarios. Debita-se pelos existentes. Cre- dita-se pelos que morrem ou são vendidos. Animais de Trabalho. Representa os que são utilisados nos serviços agrarios. Debita-se pelos existentes. Credita-se pelos que morrem ou são vendidos. Despezas Gerais. Registra por débito os gastos miudos do estabelecimento rural. Não tem crédito. E’ conta de lu- cros e perdas. Salda-se por balanço. Salarios. Representa os pagamentos de serviços aos trabalhadores, por débito. Não tem crédito: salda-se por balanço. E’conta de resultado. Colonos. Representa a conta das familias ou pessoas que empregam a sua atividade na fazenda. Movimento iden- tico ao de contas corrente.

— 90 —

Veículos. Registra as operações efetuadas com os bens de transporte. Movimento egual á Moveis & Utensilios, acrecido com as despezas por débito, com a sua manutenção e funcionamento. Arreios e Selins. Representa estes utensilios, bem como correiames, barrigueiras, freios, etc. usados pelos animais de trabalho. Movimento identico á conta de Moveis e Uten- silios.

Titulos a Receber. Registra as obrigações aceitas a fa- vor do fazendeiro. Debita-se pelas aceitas. Credita-sé pe- las recebidas. Titulos a Pagar. O inverso da precedente. Jogo escri- tural inverso. Juros & Descontos. Comissões. Representam por débito os que abonamos aos nossos devedores, e por crédito os que nos são abonados. Lucros e Perdas. Registra por débito os prejuizos e por crédito os lucros da empreza. Conta de resultado. Fundo de Reserva. Representa uma parte dos lucros retirada para garantia de prejuizos eventuais, pelo que é cre- ditada. Debita-se pelos prejuizos. Lucros Supensos. Idem, idem.

LIÇÃO XXIV

Das Contas

Sumario: — Classificação proposta no Primeiro Congresso Brasileiro de Contabilidade. Classificação adotada Critica.

CLASSIFICAÇÃO DAS CONTAS RURAIS NO PRIMEIRO CONGRESSO BRASILEIRO DE CONTABILIDADE

Sob a epigrafe de “Uniformisação da Contabilidade Agricola”, o “Primeiro Congresso Brasileiro de Contabili- dade” estudou a questão da classificação das contas rurais, sendo então propostas duas classificações (1)

(1) “Relatorio do Primeiro Congresso Brasileiro de Contabilidade”, Rio de Janeiro, 1927, pag. 320.

— 91 —

Uma, pelo autor da tése numero 33, outra pelo relator desta, sendo esta ultima adotada pela Commissão encarregada de dár parecer, a qual foi posteriormente aceita pelo Congresso. Vejamos estas classificações:

A tése num. 33 foi da autoria do Sr. PERCILIO DE CARVALHO. A classificação proposta por este, comquan- to encare a empreza rural sob varios aspétos, não nos apre- senta uma classificação rigorosa sob o ponto de vista con- tável, pois se extende assaz por sub-ordens. Preocupou-se tambem ecessivamente o seu Autor com a especialisação da empreza rural. Aliás neste ponto a tése é interessante. Não se ateve, porém, a uma classificação do ponto de vista geral. No entretanto a sua classificação das contas de “Culturas” e “Criações” são muito bôas para compreensão das emprezas culturais e pastorís. (2). Nota-se na classificação do Sr. PERCILIO DE CAR- VALHO o intuito de classificar as contas de acôrdo com a especialisação do estabelecimento rural. Ocupando-se na sua tése da classificação das contas das emprezas agrarias, num sentido amplo, não deveria se ater com as especialisações da produção dos estabelecimentos rurais. Sob este ponto de vista, porém, a sua classificação das contas é perfeitamente aceitavel, não obstante a sua proli- xidade.

DA CLASSIFICAÇÃO ADOTADA NO “PRIMEIRO CONGRESSO BRASILEIRO DE CONTABILIDADE”

Por proposta da Commissão encarregada de relatar a tése n. 33, no citado Congresso, da qual foi relator o prof. ANTONIO MIGUEL PINTO (3), foi aprovada outra classificação das contas da Contabilidade Rural. Na verdade a classificação então aprovada satisfaz ás exigencias da

(2) Idem, idem, pag. 309. (3) Idem, idem, pag. 318.

— 92 —

técnica contábil, pois, encara as diversas especies de fatos ad- ministrativos de uma azienda agraria. Classificando as contas em quatro grandes classes, o Congresso citado houve por bem aprovar a seguinte classifi- cação das contas na Contabilidade Rural: (4):

houve por bem aprovar a seguinte classifi- cação das contas na Contabilidade Rural: (4): (4) Idem,

(4) Idem, idem, pag. 320.

— 93 —

CRITICA DA CLASSIFICÇÃO SUPRA

A classificação ácima não é prolixa. E é das melhores

que conhecemos. E a que adotamos, tendo em vista que as contas na Contabilidade Rural ou representam os fundos com que foi constituida a empreza agraria (Conta de Capital), ou representam os fatos administrativos referentes ao exer- cicio agricola (contas da gestão rural), ou ainda as opera- ções comerciais das aziendas agrarias. E, finalmente, tendo- se em vista que estas duas ordens de fatos administrativos pódem apresentar um resultado positivo (lucro) ou um re- sultado negativo (prejuizo), segue-se que devemos abrir ainda uma quarta e ultima classe de contas: as de Lucros e Perdas.Vê-se que é bem racional tal classificação.

Quando estudarmos as duas modalidades de emprezas agrarias exclusivas (cultura e pastoril), teremos ocasião de formular algumas idéas sobre a classificação das contas refe- rentes a cada uma daquelas aziendas.

A classificação ácima se refere ás emprezas rurais de

caráter mixto.

VI CAPITULO

DOS METODOS DE ESCRITURAÇÃO

LIÇÃO XXV Dos Métodos de Escrituração Suimario: — Escrituração. Métodos. Partidas Simples e Mixtas. Diario.

LIÇÃO XXV

Dos Métodos de Escrituração

Suimario: — Escrituração. Métodos. Partidas Simples e Mixtas. Diario. Razão. Especies.

DA ESCRITURAÇÃO (1)

Escrituração, como já dissemos, é a arte de escrever nos livros de Contabilidade, é o registro grafico de todas as ope- rações que afetam o patrimonio. Das funções da Contabili- dade esta é uma das mais importantes. Registra metodicamen- te, segundo principios fixos e preestabelecidos todos os fatos das aziendas administradas. E nos demonstra a todo e qual- quer momento o resultado dessas operações. A Escrituração póde ser efetuada por tres modos dife-

rentes:

a) Escrituração Cronologica, em que todos os lançamen-

tos obedecem á ordem de data (dia, mez e ano). b) Escrituração sistematica ou sintética ou de Razão, em que os lançamentos são registrados em fórma contábil, por partidas, no Livro Razão.

c) Escrituração Analitica ou Auxiliar, em que os regis-

tros são efetuados em contas especiais para cada cousa, de- monstrando ao contrario da antecedente todas as mutações efetuadas com cada bem, como a sua razão de ser. E’ tam- bem uma Escrituração Estatistica.

— 98 —

DOS MÉTODOS DE ESCRITURAÇÃO

São diversos os métodos de Escrituração dos livros de Contabilidade (2). Servem eles para orientar o contador na registração das operações efetuadas. Não se póde conce- ber uma Escrituração sem um método prefixado. E’ este que orienta no registro dos fatos administrativos, nas contas e livros necessarios. Dentre os principais métodos de Escrituração aplicaveis á azienda rural, citam-se a Unigrafia ou Partidas Simples, as Partidas Mixtas, a Digrafia ou Partidas Dobradas, os Métodos do Diario-Razão, dentre os quais citaremos como principais o de Degrange (Método Americano), o de GIU- SEPPE CERBONI (Método Logismografico e o de EM- MANUELLE PISANI (Método Estatmografico). Vamos nesta e nas lições seguintes dar algumas noções sobre estes diversos métodos. Extender-nos-emos tão só- mente quando tratarmos da Digrafia, pois julgamos este o mais cientifico e necessario dos métodos de Escrituração.

DAS PARTIDAS SIMPLES E MIXTAS

Entende-se por Unigrafia ou método das Partidas Sim- ples o que nos ensina a registrar todas as operações no dé- bito ou no crédito de determinada conta. O que caráterisa este método, porém, é o fato de que só se preocupa com as contas dos Correspondentes (pessôas que mantêm transa- ções com a administração) e dos Consignatarios (bens cor- poreos), sem se preocupar com as contas do Proprietario (contas de resultado). Como sabemos a Unigrafia passou por duas fases evo- lutivas distintas a) Primeiramente compreendia este método sómente o registro das operações efetuadas com os Correspondentes (freguezes) (2).

(2) Ver o nosso 1°. volume Contabilidade Geral, lição XVII e se-

guintes.

— 99 —

b) Posteriormente se passou a compreender por Uni- grafia o método de registro das operações efetuadas com os

Correspondentes e Agentes Consignatarios (bens materiais).

O método das Partidas Mixtas se confunde com este

segundo conceito da Unigrafia. Pelo exposto, porém, se vê a desvalía desses métodos que no seu rudimentarismo são incapazes de orientar o melhor administrador, aquele que necessita sempre estar ao corrente do movimento economico e juridico da riqueza que admi- nistra.

Nestes dois métodos apurava-se o reesultado de um exer- cicio pela comparação do Inventario Inicial com o Inventaria extraído no momento. São pois, métodos rudimentares, in- uteis no estado atual da ciencia contábil.

DOS DIARIOS-RAZÕES

Denominamos Diarios-Razões aos métodos administra- tivos num só livro destinado ao Diario e ao Razão. Este métodos se baseiam nas Partidas Dobradas de que são aper- feiçoamentos. Por isto mesmo já podemos induzir que são métodos muito superiores aos antecedentes.

O intuito dos Diarios-Razões é tornar mais facil e ra-

pida a escrita dos estabelecimentos. Nem sempre conseguem ambos os resultados ácima. Baseiando-se na Digrafia os Diarios-Razões não dis- pensam os livros auxiliares, que são sempre fundamentais e esclarecedores da escrituração.

DOS PRINCIPAIS METODOS DE DIARIO-RAZÃO

Dentre os principais métodos de Diario-Razão usados e aconselhaveis, mencionaremos:

a) Diario-Razão de EDMOND DEGRANGE PAE. E tambem impropriamente conhecido por Método America- no. Foi o primeiro Diario-Razão conhecido. Este méto- do nos ensina a escriturar aquele livro dividindo-se as contas em cinco ordens, as quais têm por fim representar todo o mo-

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vimento das administrações: Mercadorias, Caixa, Obriga- ções a Receber, Obrigações a Pagar, e Lucros e Perdas, re- servando-se, porém, uma coluna para as novas contas que surgirem e não possam ser enquadradas naquelas “cinco con- tas gerais”.

b) O método Racionalista de MORAES JUNIOR. E’

um aperfeiçoamento do anterior. Pela teória de MORAES JUNIOR além das cinco contas gerais enumeradas ácima

devemos abrir mais uma coluna para a conta de Capital e fa- zer desaparecer a de “Diversas Contas” pois, conforme este autor aquelas contas representam todas as ordens de opera- ções de um patrimonio.

c) A Logismografia de GIUSEPPE CERBONI. Este

classificou as operações efetuadas em tres ordens de fatos administrativos: permutativos, modificativos e mixtos. E em tres as pessôas que tomam parte na administração de um patrimonio: Proprietario; Consignatarios e Correspondentes ( Teória Personalista). Segundo CERBONI devemos abrir no Diario Logismografico uma coluna para a primeira da- quelas pessôas, uma para as segunda e terceira e outra final- mente para as “permutações”, além de colunas auxiliares de somenos importancia. d) A Estatmografia de EMMANUELLE PISANI DIPESCIA. E’ este um método de escrituração por meio de balanços. O seu Diario-Razão é dividido nas seguintes co- lunas:

A Para as operações referentes ao estado patrimonial; B quando se refere ao movimento dos valores, C para se apurar os “resultados economico-administrativos”,além de outras colunas auxiliares. Todos estes métodos têm o jogo escritural das suas con- tas baseado por débito e crédito, principio fundamental das Partidas Dobradas.

— 101 —

LIÇÃO XXVI

Da Digrafia

Sumario: — Conceito. Principio fundamental. Mecanismo.

DA DIGRAFIA

Digrafia ou método de Escrituração por Partidas Do- bradas é aquele que nos ensina a escriturar os fatos adminis- trativos sempre em duas contas diferentes: numa devedora (que recebe ou asume uma obrigação) e numa credora (que fornece ou adquire um direito). Tem este método, por fun- damento, a contraposição de contas que representam valores, direitos, obrigações ou resultados, as quais apresentam no fim de um exercicio, por balanço, o patrimonio liquido e os resultados parciais e totais de todas as operações. E’ um processo cientifico por ecelencia, e, desde o seu aparecimento, ha seculos, foi universalmente adotado. Não se sabe ainda quem foi o credor das Partidas Do- bradas, sendo que o primeiro livro sobre o assunto foi escri- to em 1494, por FREI LUCCA PACCIOLO, em Veneza. E’este o método por todos aconselhado na escrituração dos livros de Contabilidade. E é tambem o que adotamos.

DO PRINCIPIO FUNDAMENTAL DA DIGRAFIA

Baseia-se este método em que toda operação afeta sem- pre duas ordens de contas, e que invariavelmente uma fica sendo devedora da outra. Por isso é que se diz não haver em lançamento algum devedor sem credor. Porque: devedor

é a pessôa que recebe alguma cousa, que se obriga; e credor

é a que fornece ou que adquire algum direito. Ora, não póde haver recebimento sem ter havido fornecimento; não póde haver aquisição de um direito (credor) sem que uma pessôa assuma uma obrigação (devedor). Este é o principio basico e eterno das Partidas Dobra- das: Não ha devedor sem credor, nem credor sem devedor.

— 102 —

Como sabemos, ha sempre num patrimonio contas que representam valores movimentados e resultados. Ora, lan- çando-se sempre no débito e no crédito desta ultima, de acôr- do com o fato administrativo que origina o lançamento, é claro que no fim de um periodo (exercicio) essas contas de resultado demonstrem um lucro (quando são credoras) ou um prejuizo (quando são devedoras). Lógo a Digrafia é

apta para não só nos demonstrar as mutações operadas no pa- trimonio, e suas respectivas contas, como o seu estado liquido num periodo determinado, bem como o resultado perfeito que

as transações apresentaram.

DO MECANISMO DIGRAFICO

Nos livros auxiliares a aplicação da Digrafia torna-se facil: basta debitar a conta que recebeu e creditar a que for- neceu, na mesma importancia. No Diario, porém, usa-se um mecanismo segundo o qual os lançamentos são escriturados por meio de determinadas fórmulas. Estas pódem ser:

a) Fórmula Simples, quando na operação aparece um só

devedor e um só credor. Esta é tambem denominada pri-

meira fórmula. b) Fórmulas Complexas, quando na operação que

se registra surge uma conta devedora e diversas credoras, ou diversas contas devedoras e uma só credora. No primeiro caso se diz segunda fórmula; no segundo caso dizemos ter- ceira fórmula.

c) Fórmulas Composta, quando ha diversos devedores

e diversos credores. E’ tambem denominada quarta fór-

mula, ou fórmula de Diversos a Diversos. E’ de cada uma destas fórmulas que vamos tratar nas lições seguintes.

— 103 —

LIÇÃO XXVII

Da Digrafia

(Continuação)

Sumario: — Fórmula Simples. Colocação das importancias no Diario.

DA

FÓRMULA SIMPLES

Fórmula Simples é aquela que demonstra um só deve- dor e um só credor. Por isso é tambem chamada 1ª. Fórmu- la. O devedor é o elemento que vem antes; o credor, o que

vem depois. Esta simples colocação basta para suprimir as palavras débito e crédito. A Digrafia estabeleceu que a con- ta que vem antes, deve á que vem depois. Assim, em vez de no Diario lançarmos:

Caixa deve

a

Mercadorias Féria de hoje

Caixa

$

lançamos assim:

a

Mercadorias Féria de hoje

$

Pelo laconismo e clareza deste lançamento ficamos sa- bendo que Caixa é devedora de Mercadorias, e esta por sua

vez é credora de caixa. Esta Fórmula Simples é tambem denominada primeira fórmula.

DA COLOCAÇÃO DAS QUANTIAS DA FÓRMULA SIMPLES, NO DIARIO.

Não ha regras estabelecidas pela Contabilidade para a colocação das importancias das partidas nas colimas do Diario.

— 104 —

E’ a prática que nos aconselha a vantagem das posições das colunas. Vamos mostrar agóra como costumamos a colocar as quantias nas colunas do Diario, de tres colunas quando usamos a Fórmula Simples. Podemos supôr dois casos diversos:

a) — Quando na fórmula simples uma conta deve a

outra sómente uma vez.

b) — Quando ha uma conta devendo a outra mais de

uma vez. Vejamos como se deve fazer para a colocação das im- portancias nas colunas do Diario:

1.° Caso: A quantia vai dirétamente para a terceira (ul- tima) coluna. 2.° Caso: As quantias irão todas para a primeira coluna, sendo no final somadas para a terceira coluna (última). Ver na lição seguinte o primeiro e segundo lançamentos.

LIÇÃO XXVIII

Da Digrafia

(Continuação)

no Diario. Modelo de Diario Moderno.

Sumario:

Fórmulas

Complexas.

Colocação

das

DAS FÓRMULAS COMPLEXAS

quantias

As Fórmulas Complexas compreendem a segunda e a terceira fórmulas, enumeradas ácima. A Fórmula Complexa é aquela que demonstra um só devedor e varios credores, ou um só credor e varios deve- dores.

Exemplos:

— 105 —

2ª Fórmula

Contas Correntes a Diversos.

a Mercadorias Agnello G.da Silva Generos comprou

8$000

a Caixa Agnello G.da Silva Dinheiro que nos pediu

200$000

208$000

3ª Fórmula

Diversos a Caixa Contas Correntes José Getulio da Silva Dinheiro que nos pediu

10$000

Mercadorias Pelas compradas a dinheiro Obrigações a Pagar Pela de Armando Colapietro,

150$000

hoje resgatada

800$000

960$000

Ambos estes lançamentos são feitos por Partidas Do- bradas e Fórmula Complexa.O primeiro (2ª fórmula), contem um só credor e varios devedores. Chamam-se estas fórmulas Complexas,porque elas são complexas em cada um de seus termos.A segunda é comple- xa quanto aos credores (varios). A terceira é complexa quanto aos devedores (varios devedores). Quer dizer o primeiro exemplo que o correntista Agnel- lo Guedes da Silva deve a Mercadorias e deve a Caixa; e que Mercadorias tem haver de Agnello Guedes da Silva, assim como Caixa. O segundo exemplo quer referir que Caixa tem haver de José Getulio da Silva, de Mercadorias e de Obrigações a Pagar tambem.

— 106 —

DA COLOCAÇÃO DAS QUANTIAS DAS FÓRMU- LAS COMPLEXAS, NO DIARIO

Para colocação das quantias das fórmulas complexas

no Diario devemos supôr tambem os dois casos da lição anterior.

a) — Quando uma conta deve a outra so uma vez.

b) — Quando uma conta deve a outra mais de uma vez.

Quer para a segunda quanto para a terceira fórmulas, a colocação das quantias no Diario de tres colunas é identica.

No primeiro caso ácima: Todas as quantias vão para a segunda coluna e daí serão somadas para a terceira. No segundo caso ácima: Quando uma conta fór devedo- ra de outra mais de uma vez, colocam-se estas quantias na primeira coluna e somam-se para a segunda; e, dai, soma-se as quantias todas para a terceira coluna. Ver as duas ultimas partidas no Diario adiante.

Do Modelo do diario Moderno

Denomina-se Diario Moderno ao escriturado pela fór- mulas simples e complexas, sómente. Apresentamos um modelo de escrituração do

DIARIO MODERNO

Rio de Janeiro,1 de julho de 1929

Bo

vinos

               

a

Caixa Pg. por uma vac

ca

“Hollandeza”

600

000

C

aixa

               

a

Colonos a José Schultr Dro. que deu pa a Carlos Amor Idem, idem

e

ra

guardar

40

000

im

70

000

30

000

 

2

Cu

ltura de Café a

D

iversos

           

a

Colonos 120 alqueires de c na semana p.

af

é colhido

pa

ssada

240

000

a

Capina Pelas despezas d Serviço, conforme L

e

10 dias de

ivro

Pronto

50

000

290

000

Di

versos a Caix

a

             

Co

lonos Pg. mezadas a:

Newton R. Moraes Nestor Sobral Calry Vasconcel

80

000

90

000

los

110

000

280

000

D

espezas Geraes Pg. por livros de Co

nt

abilidade

15

000

295

000

LIÇÃO XXIX

Da Digrafia

(conclusão)

Sumario: — Fórmula Composta. Colocação das quantias no Diario.

DA FÓRMULA COMPOSTA

Quando as fórmulas são complexas em ambos os seus termos, elas se denominam Fórmulas Compostas. As Fór- mulas compostas por diversos devedores e diversos credores. Por (complexas) e mais de um credor (complexa). São fórmulas compostas por diversos devedores e diversos cre- dores. Por isto, esta fórmula é tambem chamada de Diver- sos a Diversos. Lança-se a Fórmula Composta da seguinte maneira:

Colocam-se as palavras Diversos a Diversos, que indi- cam a existencia de varios devedores e varios credores. Ao depois fazem-se os lançamentos como nas demais fórmulas. As quantias da terceira coluna são somadas para baixo; dão- se dois traços debaixo da soma e faz-se a contra-partida do seguinte modo: vê-se a conta credora e coloca-se na linha lógo abaixo — antecedida da preposição a; e debaixo dela a indicação da conta de quem ela tem haver, antecedida da preposição de. Em toda fórmula composta ha sempre duas partes dis-

tintas:

a) — A Partida

b) — A contra-partida.

Chama-se Partida a primeira parte do lançamento onde

fazemos os lançamentos de credito das contas. Contra-Partida é a segunda parte da fórmula, em que fazemos os lançamentos de crédito das contas.

DA COLOCAÇÃO DAS IMPORTANCIAS NAS COLUNAS DO DIARIO DE DIVERSOS A DIVERSOS

Denomina-se Diario de Diversos a Diversos aquele em que é usada a quarta fórmula (composta). Este Diario é tambem denominado Diario Antigo, pois que os guarda-

livros usam oje mais as tres primeiras fórmulas (Diario Moderno). O Diario de Diversos e Diversos têm geralmente quatro colunas. Para colocação das importancias nas colu- nas deste Diario, vamos supôr tambem os seguintes casos:

a) — Se ha lançamentos em que uma conta deve a ou-

tra só uma vez.

b) — Se ha lançamentos em que alguma conta deve a

mais de uma conta.

c) — Se ha lançamentos em que alguma conta deve a

outra mais de uma vez.

d) — Se ha lançamentos em que alguma conta deve a

outra mais de uma vez e deve ainda a mais de uma conta. No primeiro caso: As quantias irão todas para a ter- ceira coluna, donde será tirada a contra-partida. No segundo caso: As quantias irão para a segunda co- luna, sendo ao depois somadas para a terceira, donde será fei- ta a contra-partida. No terceiro caso: As quantias irão para a primeira co- luna sendo então somadas para a terceira coluna, e daí feita a contra-partida. No quarto caso: As quantias irão para a primeira co- luna, sendo depois somadas para a segunda; daí somam-se os totais para a terceira, onde será efetuada a contra-partida.

VII CAPITULO

DOS LIVROS NA CONTABILIDADE RURAL

LIÇÃO XXX

Dos Livros na Contabilidade Rural

Sumario: — Livros na Contabilidade Rural. Livros de Es crituração Rural.

DOS LIVROS DE CONTABILIDADE

Livros de Contabilidade ou de Escrituração são os que servem para o registro de todos os atos administrativos. E’ nesses livros que são registradas as contas, em que são lan- çadas todas as operações da administração. Os livros pódem ser de Escrituração Sintética, Analiti- ca ou Cronologica, conforme a especie de registro que se adote nos mesmos. Os livros de Escrituração cronologica não têm as suas paginas divididas em contas, ao passo que os de Escrituração Analitica e Sintética são divididos em contas.

DOS LIVROS NA CONTABILIDADE RURAL

Todas as especies de livros ácima enumeradas são de grande necessidade na Contabilidade Rural. Nas adminis- trações agrarias não ha livros exigidos por lei. De modo que a Contabilidade Rural está ainda em periodo muito rudimen- tar ainda em nosso país, caraterisando-se por anotações fei- tas a bel-prazer dos fazendeiros. Não obstante, nos Estados mais adiantados do país, como Minas e S. Paulo já ha empre- zas agrarias com sistemas de Contabilidade mais ou, menos perfeitamente organizadas.

Não se póde conceber a inexistencia de Contabilidade nas administrações rurais. Ela orienta e aconselha com a expressão muda de suas estatisticas. A’ falta de Contabilidade podemos atribuir o regimen de quasi monocultura em que vivemos e que caráterisa certas zonas do nosso vastissimo país. Pois, sem saber o custo de cada cultura e as vantagens destas em vista do preço do mer- cado e do de custo, o fazendeiro que se entrega a uma planta- ção (café aqui, assucar alí, borracha acolá, algodão além, etc) só dela passa a cuidar, julgando que o preço do produ to que explora e o mais vantajoso, o que dá mais lucros — pois o que mais cotação tem no mercado — sem se preocupar em que ha produtos que menor preço têm no mercado mas que rendem mais, pois o seu custo de produção é baratissimo Isto só a Contabilidade nos demonstra.

DOS LIVROS DE ESCRITURAÇÃO RURAL

Como dissemos, a lei não estabelece a exigencia de uma Contabilidade nas emprezas agrarias. Quer isto dizer que os fazendeiros poderão adotar os livros que quizerem, e se quizerem Já tivemos ocasião de fazer sentir o mal que nos causa a desorganisação das empregas rurais, devido á não exigen- cia de Contabilidade que as regulamente Esta é uma busso- la indispensavel á qualquer administração, de qualquer natu- reza que ela seja. Só ela nos proporciona os meios necessa- rios para o licito empreendimento dos negocios, para evitar os insucéssos, os prejuizos aos particulares e ao país inteiro, pela quebra da economia nacional, pelo desequilibrio da pro- dução.

Dentre os livros que pódem ser adotados na Contabili- dade Rural, trataremos ádiante dos principais. Nesta parte trataremos sómente dos livros que tanto pódem ser adotados na Contabilidade Pastoril quanto na Cul- tural, isto é livros indispensaveis á qualquer empreza agraria.

LIÇÃO XXXI

Do Borrador

Sumario: — Conceito, Escrituração, Modelos.

DO BORRADOR

O Borrador é o registro inicial das operações. E’ um livro em que se rascunham ligeiramente todas as transações efetuadas para ao depois serem transportadas em bôa or- dem contável para os demais livros, nos seus desdobramen- tos. E’ o registro cronologico de todos os fatos adminis- trativos. Tambem se conhece este livro pelas denominações de Costaneira, Memorial, Borrão, etc. E’ um livro que apresenta grandes vantagens. Nele nós fixamos provisoriamente, em resumo, todas as transa- ções e em qualquer tempo podemos transporta-las para os demais livros. E’ ordinariamente escriturado em ordem cronológica, por Partidas Simples, isto é, demonstrando sempre um dos elementos das contas: o devedor ou o credor. Nele repousa, pois, resumidamente, toda a Contabili- dade da azienda. Ele supre ainda a falta de tempo. Com uma, anotação ligeira e clara podemos deixar para lançar a transação nos outros livros de desdobramentos, muito tem- po depois.

DA ESCRITURAÇÃO DO BORRADOR

Este livro é escriturado cronologicamente e por Parti- das Simples. De maneira que nele costuma-se mostrar só- mente o devedor ou o credor. Dada a operação devemos aí buscar a conta que recebeu (devedor) e a que forneceu (credor) e fazer o lançamento demonstrando um daqueles dois elementos, assim: Exemplo: José nos pede 500$000. Lançaremos conforme se vê no primeiro lançamento adiante.

Em seguida vendemos um boi à dinheiro, por 400$000. Lançaremos conforme se vê no segundo exemplo adiante. Ao depois vendemos um saco de café a prazo, para Ma- noel, por 40$000. Lançaremos conforme se vê no terceiro exemplo adiante. Quando a conta que se tiver escrito houver recebido a importancia vai para a primeira coluna do Borrador (Deve ou Débito); quando houver fornecido vai para a segunda co- luna (Crédito ou Haver). No Borrador de minutas avulsas, em que cada folha, na parte de cima demonstra o devedor e na de baixo o cre- dor, basta lançar em cima quando a conta tiver recebido e em baixo quando tiver fornecido. No Borrador em livro, encarnado, os lançamentos são separados uns de outros por um traço de separação assim:

No Borrador de folhas soltas não ha necessidade desse traço, pois que cada lançamento é feito numa ficha.

DOS MODELOS DE BORRADOR

O

Borrador póde ser feito por dois modelos diferentes:

a)

Borrador de folhas soltas.

b)

Borrador encadernado.

O

Borrador de folhas soltas ou minutas avulsas é cons-

tituido por folhas apropriadas onde registramos as opera- ções. Neste Borrador fazemos os lançamentos em cada folha, para cada transação. O Borrador encadernado ainda é o mais usado, não obstante o anterior ser mais moderno, mais prático e já te- nha conseguido muita aceitação, principalmente nos estabe- lecimentos comerciais. Ha varios modelos usados para este Borrador, varian- do todos; porém, ligeiramente. Dentre os modelos mais usa- dos apresentámos o seguinte:

— 117 —

RIO DE JANEIRO,10 DE JULHO DE 1929 DEBITO CREDITO Jo se Dinheiro que pediu 500
RIO DE JANEIRO,10 DE JULHO DE 1929
DEBITO
CREDITO
Jo
se
Dinheiro que pediu
500
000
B
ovinos
Recebido pela venda de
um boi
400
000
M
anoel
40
000
1 saco de café

Sumario:

Conferencia. Erros.

— 118 —

LIÇÃO XXXII

Do Caixa

Conceito.

Escrituração.

DO CAIXA

Modelos.

Balanço-

O Caixa é o livro de registro das entradas e saídas de

dinheiro. Todos os lançamentos referentes a dinheiro têm que ser lançados no Caixa: no débito, quando o dinheiro entrar para a caixa, no haver, quando saír dinheiro de nos-

sa caixa. Sendo o movimento de dinheiro um dos mais intensos

das administrações, a necessidade de um livro especial para

o

registro particular das transações efetuadas com a moeda

se

faz sentir grandemente.

O livro Caixa registrando todas as operações efetua-

das com dinheiro, a todo momento nos fornece os dados so- bre a situação da caixa da administração, pela apresentação

do que entrou e do que saíu da mesma. Nisto está a grande vantagem deste livro: serve para mostrar o dinheiro exis- tente, a situação financeira da empreza.

DE COMO SE ESCRITURA O CAIXA

Como o Diario, o Caixa é escriturado pelo Borrador. Nele debitamos todas as quantias que a caixa recebe e cre- ditamos todas as que ela fornece (pagamento ou empres- timo) .

O primeiro lançamento que em todo livro Caixa se faz,

é no débito. Compreende-se: a caixa precisa primeiro re-

ceber dinheiro, para depois pagar ou emprestar (fornecer);

e, sempre que ela receba deve ser debitada. O dinheiro com

que uma pessôa começa a fazer as suas transações mercan-

tis, é sempre lançado no débito do Caixa.

Para fazermos os lançamentos no Caixa (quer sejam no Deve, quer no Haver), temos que escritura-lo da manei-

ra seguinte:

a) colocando na primeira coluna de cada seção o Ano, debaixo deste o mês, e na coluna seguinte o dia.

— 119 —

b) Adiante deste a preposição “a” ou “de” que prece-

dem a conta credora ou devedora.

c) Em seguida o nome da conta devedora ou credora.

d) E a quantia, na primeira coluna no dia houver mais

de um lançamento naquela secção; na segunda se houver um só lançamento. No primeiro caso, somam-se as importan- cias para a segunda coluna no fim do dia.

DOS MODELOS DO CAIXA

O livro Caixa póde ser escriturado por qualquer mo- delo, desde que satisfaça ao seu fim. Dentre os modelos mais usados citaremos os de secções contiguas, divididas e super- postas a que já nos referimos na lição XXII.

DO BALANÇO DO CAIXA

Usualmente balanceia-se o Caixa no fim de cada mez. Mas ha costume tambem de se o balancear quinzenalmente, semanalmente e até diariamente. Na Contabilidade Rural, porém, basta o balanço mensal do livro Caixa. Denomina-se balanço do Caixa o jogo por débito e cre-

dito das importancias lançadas neste livro, para apuração do dinheiro existente na caixa. Balanceia-se o caixa do seguinte modo:

a) Soma-se o débito, separadamente, não no livro.

b) Soma-se o crédito, idem, idem.

c) Subtrae-se o menor do maior: a diferença chama-se

saldo.

d) Coloca-se este no lado menor (crédito, porque não póde saír mais dinheiro do que entra).

e) Soma-se novamente, agora já no livro: o débito dá

igual ao crédito.

f) Passam-se dois traços de separação, debaixo de cada

conta, os quais indicam o fechamento.

g) Em seguida reabre-se o livro Caixa com a nova data

(dia, mês e ano), colocando-se tambem no débito o saldo

apurado. Apresentamos a seguir um modelo do Caixa escritura- do e balanceado:

C A I X A

1928

DEBITO

1928

CREDITO

Janeiro

5

a

Capital Dro. existente

         

Janeiro

6

de

Despezas

           

20

000

000

Pg. pelo preparo de n/ contrato

6

a

Mercadorias Feira

80

000

600

000

de

Moveis & Utensilios Pg. por 1 armação

9

a

Paulo Magalhães Dro. que deu

Paulo Costa Bastos Idem, idem

820

000

900

000

a

100

300

000

400

000

8

12

de

de

Mercadorias Pg. por 1 factura

Nelson Vidal Dro. que pediu

     

1

100

000