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Perfil da autoridade, hoje, na Igreja

Pe. Virgílio Leite Uchôa*

O PODER COMO SERVIÇO

A prática de Jesus de Nazaré é, e sempre será, o mais perfeito indicativo da missão da

autoridade na Igreja. Logo no início de sua vida pública, Jesus define-se ao se referir ao profeta Isaías: “O espírito do Senhor está sobre mim, pois ele me consagrou com a unção, para anunciar a Boa Nova aos pobres: enviou-me para proclamar a libertação aos presos e, aos cegos, a recuperação da vista; para dar liberdade aos oprimidos e pro-clamar um ano de graça da parte do Senhor” (Lc. 4,18-19).

Jesus é o servo da humanidade a caminho de instaurar uma nova ordem pela entrega total e plena da sua vida como dom. Entrega essa que tem o seu ponto culminante no fim dessa caminhada histórica, na sua morte e ressurreição em Jerusalém.

Ao logo desse caminho ele conviveu, preferencialmente, com os pobres e marginalizados. Ensinou aos discípulos, entre muitas tentações e hesitações por parte deles, que o verdadeiro poder é serviço. Este não é, nem dominação nem força opressiva. É firmeza que liberta e salva.

A AUTORIDADE NA IGREJA COMO SERVIÇO À SOCIEDADE

Para refletir sobre o exercício da autoridade hoje deve-se perguntar, em primeiro lugar, como

a

Igreja está se colocando diante dos grandes desafios da humanidade, nestes tempos difíceis

e

conturbados.

A

globalização financeira obscureceu e muito as positivas possibilidades que têm os homens e

as mulheres de se aproximarem e de serem solidários. A repartição dos bens é desigual em virtude da tremenda concentração da riqueza nas mãos de poucos. As grandes desigualdades fazem com que haja muitos partidários de um novo mundo possível. Espera-se que o

terrorismo e a desconfiança mútua não estejam na ordem do dia.

Por conta desse desarranjo universal assistimos a uma escalada de violência, sem precedentes na história da humanidade. Os acontecimentos de 11 de setembro de 2001 em Nova Iorque mudaram a conjuntura internacional sem ter mudado substancialmente os desafios e as desigualdades.

Há uma imensa carência de autoridade moral por parte das pessoas que exercem autoridade nesse momento crítico da história. As grandes lideranças estão desnorteadas, emudecidas ou perplexas.

O terrorismo usa armas inusitadas e desproporcionais. Insiste na lógica da destruição e na

semeadura da desconfiança e insegurança. O contra-terrorismo, liderado pelos Estados Unidos em aliança com os países ricos e com outros, cooptados pela força do dinheiro, não deixa de

encarnar uma nova e grave forma de terrorismo de estado.

O mundo de hoje está a necessitar de uma autoridade moral que insista na possibilidade de se

romper este círculo vicioso. Urge um salto de qualidade gigantesco para se fugir da barbárie e lançar as bases de uma nova ordem mais solidária.

O momento caracteriza-se, aparentemente, pela total incapacidade dos que detêm o poder

para exercer, com firmeza e discernimento, a necessária mediação dos conflitos. Urge valorizar

a experiência dos sentimentos de compaixão para com a população de cada país no exercício

da liderança. São muitos os que repetem o Êxodo, perambulando pelo mundo sem pátria e sem rumo. Crianças, jovens, adultos e velhos, homens e mulheres aos milhares, famintos e sedentos, migrando sem tranqüilidade e paz. Mesmo no seio das nações mais ricas do mundo

ninguém se sente tranqüilo, realizado e seguro. Teme-se o presente e, muito mais, angustia- se com o futuro.

As mobilizações em busca da paz ainda não conseguem ser eficazes apesar da sua visibilidade

e da boa vontade.

A proposta de mudança para um novo tipo de autoridade exige espaço novo de compaixão,

compreensão e tolerância entre os seres humanos.

Parece impossível e mesmo inconveniente imaginar a encarnação da autoridade em uma única pessoa de qualquer instituição, religiosa ou não. Ninguém pode arcar, sozinho, com o exercício da atitude de serviço, requerida para qualquer autoridade.

O modelo que se tem é de autoridades que encarnam valores e princípios da sociedade de

dominação. Quem domina quer impor uma ordem que está levando todos ao desespero.

Gasta-se hoje muito tempo e dinheiro para costurar alianças. Estas insistem em apresentar falsos valores de liberdade, democracia e nação que, de fato, engendram a impossibilidade de viverem juntos pobres e ricos, migrantes e nações estabelecidas, raças e culturas distintas, religiões tradicionais e novas expressões de busca do transcendente.

Com tudo isso deu-se um passo enorme na direção da globalização da intolerância, do medo, da insegurança e da xenofobia. Quase não existem vozes, corajosas e comprometidas, que se levantem, para defender o ser humano, homem e mulher, em espírito e verdade.

Os pobres, os coxos, os cegos e os vários deserdados que procuravam o nazareno são hoje todos aqueles que carecem de quem, com coragem, os ajude a criar as condições de viverem no mundo onde haja espaços para todos. Globalização significa destruição de barreiras que impedem de sermos e vivermos num mundo onde a hominização seja uma tendência permanente e a fonte de aproximação dos povos e nações.

Quem dará o primeiro passo rumo a essa insistente utopia? O poder e a força ou a autoridade que encarna o poder a serviço, capaz de tudo submeter ao principio da compaixão, até às entranhas, pelo ser humano, homem e mulher, quaisquer que sejam e onde estiverem?

A sociedade humana, nesta encruzilhada da história, requer autoridades que exerçam o poder

como serviço despojado. Sem este serviço à globalização onde o homem e a mulher estejam em primeiro lugar, corre-se o risco de se sucumbir à autoridade e ao poder do terror, quer seja

o

da truculência de Golias, quer seja o desencadeado pela astúcia de Davi.

E

O PAPA FUTURO?

É difícil imaginar a sua figura apenas como autoridade restrita ao serviço da Igreja. Nesta hora histórica, o desafio fundamental é construir a globalização da humanidade, é pensar a missão da Igreja Católica dentro do contexto de diálogo com as religiões, com as pessoas de boa vontade e com todo esforço de criar um novo humanismo.

A tarefa de estar exercendo autoridade como serviço, por si mesma, desloca o eixo do

personalismo autoritário para o personalismo da entrega da própria vida como testemunho e

como fator de união e comunhão entre os que fazem do serviço a fonte do verdadeiro poder.

A sociedade de hoje é extremamente ágil e interligada. Cada vez mais requer pessoas

dinâmicas e itinerantes na sua maneira de dar testemunho e de agir. Se já é difícil pensar num papa fora do “seu colégio”, mais difícil será imaginá-lo no exercício da sua autoridade sem a perene atitude de compaixão pastoral pelo homem e a pela mulher, não importa quem sejam.

O

outro, no exercício de sua autoridade: “Simão, filho de João, você me ama ”

sabes que eu te amo

Evangelho define a fidelidade primordial exigida de Pedro, homem frágil como qualquer ”

“Cuida dos meus cordeiros

” (Jo. 21, 15).

“Sim, Senhor, tu

A autoridade do papa, assim concebida, exige cada vez mais que ele se liberte da figura de chefe de estado e se comprometa a ser o pastor da humanidade globalizada, angustiada, perplexa e carente de uma profunda experiência da ternura humana solidária.

Que seja ele alguém capaz de descortinar o novo caminho e ajude a recolocar no seu devido lugar o homem e a mulher alienados pela globalização hegemônica do dinheiro, pelo poder autoritário da força e da violência de todos os terrorismos.

Brasília, 19 de outubro de 2001

*Pe. Virgílio Leite Uchôa Pároco de N.Sra. Mãe dos Migrantes, Sobradinho, DF. Ex-assessor da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Membro fundador da Comissão Brasileira de Justiça e Paz (CBJP). Membro fundador do Instituto de Migrações e Direitos Humanos (IMDH), Brasília, DF. Membro da Comissão de Direitos Humanos do Conselho Nacional das Igrejas Cristãs (CONIC). Endereço eletrônico: virgilio@gns.com.br