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Hierópolis o sagrado, o profano e o urbano II SINECGEO – Simpósio Nacional de Estudos
Hierópolis
o sagrado, o profano e o urbano
II
SINECGEO – Simpósio Nacional de Estudos Culturais e Geoeducacionais
V
ECEGE – Encontro Cearense de Geografia da Educação

Presidente da República Dilma Vanna Rousseff

Ministro da Educação Aloizio Mercadante

Universidade Federal do Ceará Reitor Prof. Jesualdo Pereira Farias Vice-Reitor Prof. Henry Campos

Conselho Editorial Presidente Prof. Antônio Cláudio Lima Guimarães Conselheiros Prof a Adelaide Maria Gonçalves Pereira Prof a Ângela Maria Mota Rossas de Gutiérrez Prof. Gil de Aquino Farias Prof. Italo Gurgel Prof. José Edmar da Silva Ribeiro

Diretor da Faculdade de Educação Maria Isabel Filgueiras Lima Ciasca

Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Educação Brasileira Enéas Arrais Neto

Chefe do Departamento de Fundamentos da Educação Adriana Eufrásio Braga Sobral

Série Diálogos Intempestivos Coordenação Editorial José Gerardo Vasconcelos (Editor-Chefe) Kelma Socorro Alves Lopes de Matos Wagner Bandeira Andriola

Conselho Editorial

Dr a Ana Maria Iório Dias (UFC) Dr a Ângela Arruda (UFRJ) Dr a Ângela T. Sousa (UFC) Dr. Antonio Germano M. Junior (UECE) Dr a Antônia Dilamar Araújo (UECE) Dr. Antonio Paulino de Sousa (UFMA) Dr a Carla Viana Coscarelli (UFMG) Dr a Cellina Rodrigues Muniz (UFRN) Dr a Dora Leal Rosa (UFBA) Dr a Eliane dos S. Cavalleiro (UNB) Dr. Elizeu Clementino de Souza (UNEB) Dr. Emanuel Luís Roque Soares (UFRB) Dr. Enéas Arrais Neto (UFC) Dr a Francimar Duarte Arruda (UFF) Dr. Hermínio Borges Neto (UFC) Dr a Ilma Vieira do Nascimento (UFMA) Dr a Jaileila Menezes (UFPE) Dr. Jorge Carvalho (UFS) Dr. José Aires de Castro Filho (UFC) Dr. José Gerardo Vasconcelos (UFC) Dr. José Levi Furtado Sampaio (UFC) Dr. Juarez Dayrell (UFMG) Dr. Júlio Cesar R. de Araújo (UFC)

Dr. Justino de Sousa Júnior (UFC)

Dr a Kelma Socorro Alves Lopes de Matos (UFC) Dr a Lia Machado Fiuza Fialho (UECE) Dr a Luciana Lobo (UFC) Dr a Maria de Fátima V. da Costa (UFC) Dr a Maria do Carmo Alves do Bomfim (UFPI)

Dr a Maria Izabel Pedrosa (UFPE) Dr a Maria Juraci Maia Cavalcante (UFC) Dr a Maria Nobre Damasceno (UFC) Dr a Marly Amarilha (UFRN) Dr a Marta Araújo (UFRN) Dr. Messias Holanda Dieb (UERN) Dr. Nelson Barros da Costa (UFC) Dr. Ozir Tesser (UFC) Dr. Paulo Sérgio Tumolo (UFSC)

Dr a Raquel S. Gonçalves (UFMT)

Dr. Raimundo Elmo de Paula V. Júnior (UECE) Dr a Sandra H. Petit (UFC) Dr a Shara Jane Holanda Costa Adad (UFPI) Dr a Silvia Roberta da M. Rocha (UFCG) Dr a Valeska Fortes de Oliveira (UFSM) Dr a Veriana de Fátima R. Colaço (UFC) Dr. Wagner Bandeira Andriola (UFC)

Raimundo Elmo dE Paula VasconcElos JúnioR JöRn sEEmann JosiER FERREiRa da silVa chRistian dEnnys montEiRo dE oliVEiRa stanlEy BRaz dE oliVEiRa

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hiERÓPolis:

o saGRado, o PRoFano E o uRBano

ANTÔNIA CARLOS DA SILVA ANTÔNIO BILAR GREGÓRIO PINHO ANTONIO CARLOS QUEIROZ FILHO ANTÔNIO IGOR DANTAS CARDOSO ANTÔNIO KINSLEY BEZERRA VIANA CARLOS AUGUSTO VIANA CARLOS ROBERTO CRUZ UBIRAJARA CHRISTIAN DENNYS MONTEIRO DE OLIVEIRA CÍCERO JOAQUIM DOS SANTOS EDNÉA DO NASCIMENTO CARVALHO EDSON SOARES MARTINS EMANOEL LUÍS ROQUE SOARES FERNANDA LIMA FERNANDES FRANCISCA KARLA BOTÃO ARANHA FRANCISCO ARI DE ANDRADE FRANCISCO EGBERTO DE MELO GLAUCO VIEIRA FERNANDES

JÖRN SEEMANN JOSÉ EDVAR COSTA DE ARAÚJO JOSÉ GERARDO VASCONCELOS JOSIER FERREIRA DA SILVA KEILA ANDRADE HAIASHIDA MARCELO EDUARDO LEITE MARIA DE LOURDES CARVALHO NETA NAIANA PAULA LUCAS DOS SANTOS OTÁVIO JOSÉ LEMOS COSTA PAULO WENDELL ALVES DE OLIVEIRA RAIMUNDO ELMO DE PAULA VASCONCELOS JÚNIOR REJANE MARIA DE SOUZA ROMEU DUARTE JUNIOR SAYONARA CARDOSO COPQUE STANLEY BRAZ DE OLIVEIRA ZENY ROSENDAHL

REJANE MARIA DE SOUZA ROMEU DUARTE JUNIOR SAYONARA CARDOSO COPQUE STANLEY BRAZ DE OLIVEIRA ZENY ROSENDAHL

Fortaleza

2013

Hierópolis: o sagrado, o profano e o urbano © 2013 Raimundo Elmo de Paula Vasconcelos Júnior, Jörn Seemann, Josier Ferreira da Silva, Christian Dennys Monteiro de Oliveira e Stanley Braz de Oliveira (Organizadores) Impresso no Brasil / Printed in Brazil Efetuado depósito legal na Biblioteca Nacional TODOS OS DIREITOS RESERVADOS Editora Universidade Federal do Ceará – UFC Av. da Universidade, 2932, Benfica, Fortaleza-Ceará CEP: 60020-181 – Livraria: (85) 3366.7439. Diretoria: (85) 3366.7766. Administração: Fone/Fax (85) 3366.7499 Site: www.editora.ufc.br – E-mail: editora@ufc.br Faculdade de Educação Rua Waldery Uchoa, N o 1, Benfica – CEP: 60020-110 Telefones: (85) 3366.7663/3366.7665/3366.7667 – Fax: (85) 3366.7666 Distribuição: Fone: (85) 3214.5129 – E-mail: aurelio-fernandes@ig.com.br Normalização Bibliográfica Perpétua Socorro Tavares Guimarães – CRB 3/801 Projeto Gráfico e Capa Carlos Alberto A. Dantas (carlosalberto.adantas@gmail.com) Leitura e Revisão de Texto Leonora Vale de Albuquerque

Leitura e Revisão de Texto Leonora Vale de Albuquerque Dados Internacionais de Catalogação na Publicação

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação Universidade Federal do Ceará – Edições UFC

Hierópolis: o sagrado, o profano e o urbano / Raimundo Elmo de Paula Vasconcelos Júnior, Jörn Seemann, Josier Ferreira da Silva et al

] [

Fortaleza: Edições UFC, 2013.

486 p. Isbn: 978-85-7282-603-7

1. Sociologia da Educação 2. Sagrado e Profana I. Vasconcelos Júnior, Raimundo Elmo de Paula, II. Seemann, Jonn III. Silva, Josier Ferreira da

CDD: 370.711

SOBRE OS AUTORES

Antônia Carlos da Silva – Graduada em Geografia pela Universi- dade Federal do Ceará (1993) e mestre em Geografia pela Universida- de Estadual do Ceará (2000). Trabalhou como orientadora pedagógi- ca e coordenadora de área do ensino fundamental, e como professora de Geografia no ensino médio. Atualmente é professora do curso de Geografia na Universidade Regional do Cariri – URCA. Tem experi- ência na área de ensino de Geografia, atuando principalmente nos seguintes temas: formação de professores – ensino e pesquisa – car- tografia escolar – livro didático – metodologia – avaliação. E-mail: antoniacarlos@gmail.com

Antônio Bilar Gregório Pinho – Graduação em Direito pela Universidade Regional do Cariri. Pesquisa em Cultura Popular com ênfase na Dança de Coco, Umbanda, Candomblé e demais manifes- tações caririenses. E-mail: bilar91@hotmail.com

Antonio Carlos Queiroz Filho – Professor de Geografia (Gradu- ação e Mestrado) da Universidade Federal do Espírito Santo UFES. Líder do Grupo de Pesquisa RASURAS – Imaginação Espacial, Poéticas e Cultura Visual. Tem artigos publicados nessas correla- ções em periódicos de qualidade reconhecida, tais como: "A Edição dos Lugares", na Revista ETD-UNICAMP (Qualis A), "Imaginação Espacial no filme A Vila", na Revista Rua- -UNICAMP (Qualis A), "Sobre Política e Território no Espa- ço da Narrativa Fílmica", na Revista Terra Livre-AGB (Qua- lis A) e "Desviando Olhares: estéticas-políticas dos relatos de viagem", na Revista Geograficidade-UFF. E-mail: queiroz.ufes@gmail.com

Antônio Igor Dantas Cardoso – Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal do Ceará –

UFC. Especialista em Ensino de Geografia pela Faculdade Juazeiro do Norte – FJN. Graduado em Licenciatura em Geografia pela Uni- versidade Regional do Cariri – URCA. Membro do Grupo de Estudos e Pesquisa em Geografia Agrária – GEA. Pesquisador dos aspectos culturais da Festa de Santo Antônio, em Barbalha, Ceará. Membro do Centro Pró-Memória Josafá Magalhães de Barbalha, entidade promotora da valorização da cultura popular do município. E-mail: anttonioigor@hotmail.com

Antônio Kinsley Bezerra Viana – Mestre em Geografia pela Universidade Estadual do Ceará. Graduado em Geografia pela Uni- versidade Estadual do Ceará. Integrante do grupo de pesquisa sobre Geografia da Educação, da linha Espaço e Educação, cadastrado no Diretório dos Grupos de Pesquisas do Brasil – CNPq. Atualmente é professor de geografia da rede estadual de educação básica. E-mail: kinsleybezerra@yahoo.com.br

Carlos Augusto Pereira Viana – Graduado em Comunicação Social pela Universidade Federal do Ceará (1985) e Mestre em Le- tras por essa mesma universidade (1995). Doutorando em Educação na UFC. Professor da Universidade Estadual do Ceará, onde atua na área de Letras, com ênfase em Literatura Brasileira, ocupando- -se principalmente dos seguintes temas: poesia, literatura, crítica, jornalismo cultural. Atua ainda como professor de Literatura no en- sino Médio e como jornalista junto ao Diário do Nordeste, onde é editor de cultura. É membro da Academia Cearense de Letras e da Academia de Letras e Artes do Nordeste e Membro Honorário da Academia Fortalezense de Letras. E-mail: ca.viana@terra.com.br

Carlos Roberto Cruz Ubirajara – Doutorando em Geografia – UECE. Mestre em Geografia pela Universidade Federal de Per- nambuco (2001). Licenciado em Geografia pela Universidade de Pernambuco. Professor assistente da Universidade de Pernambuco. Atua principalmente nos seguintes temas: Dinâmica Sócio-Espacial,

Função Turística, Região e Regionalização, Gestão Educacional , Le- gislação e Política Educacional, Metodologia do Ensino. E-mail: cruzubirajara@gmail.com

Christian Dennys Monteiro de Oliveira – Pós-Doutor em Ge- ografia Humana pela Universidade de Sevilha (Espanha) em 2011; e em Turismo, pela Universidade de São Paulo (Brasil), em 2005. Mestre (1993) e Doutor (1999) em Geografia Humana pela Faculda- de de Filosofia Ciências e Letras (FFLCH) da USP.Professor Adjunto (Nível IV – Classe C) no Departamento de Geografia da Universida- de Federal do Ceará (Cursos de Graduação, Mestrado e Doutorado). E-mail: cdennys@gmail.com

Cícero Joaquim dos Santos – Professor do Departamento de História da URCA. Doutorando em História pela UFC. Pesquisador do Núcleo de Pesquisa em Ensino de História e Cidadania (NU- PHISC/URCA), e do Laboratório Imagem, História e Memória (LA- BIHM/URCA). E-mail: cjoaquims@yahoo.com.br

Ednéa do Nascimento Carvalho – Licenciada e Bacharel em Geografia pela Universidade Federal de Uberlândia (1998). Espe- cialista em Educação pela UNICLAR(2000) e mestrado em Geogra- fia pela Universidade Federal de Uberlândia (2008). É doutoranda em Geografia pela Universidade Estadual do Ceará. É professora no Programa de Geografia da Universidade Federal do Oeste do Pará. Tem experiência na área de Educação, com ênfase em ensino de geografia. E-mail: edneancar@yahoo.com.br

Edson Soares Martins – Possui graduação (1996), mestrado (2001) e doutorado (2010) em Letras pela Universidade Federal da Paraíba. Professor Adjunto de Literatura Brasileira, na Universidade Regional do Cariri (URCA). Tem experiência na área de Literatura, com ênfase em Literatura Brasileira, atuando principalmente nos

seguintes temas: literatura brasileira, poesia, narrativa moderna e contemporânea, romances de Clarice Lispector e Osman Lins e psi- canálise. Também manifesta crescente interesse pelas literaturas africanas. Editor-geral de Macabéa – Revista Eletrônica do Netlli. E-mail: edsonmartins65@hotmail.com

Emanoel Luís Roque Soares – Professor de Filosofia da Edu- cação da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, Centro de Formação de Professores, Amargosa -BA,pós-doutor em Educação Universidade Federal da Paraíba/FACED(2012), doutor em Educa- ção(2008) Universidade Federal do Ceará/FACED. Mestre em Edu- cação(2004) Universidade Federal da Bahia/FACED, Especialista em Estética, Semiótica, Cultura e Educação(2001): Universidade Federal da Bahia/FACED. Bacharel em Filosofia(1999): Universida- de Católica do Salvador. E-mail el-soares@uol.com.br

Francisca Karla Botão Aranha – Possui graduação em Pedago- gia pela Universidade Federal do Ceará (2011.2). Foi bolsista Pibic/ UFC e Pibic/CNPq em sua graduação e desde então participa do gru- po de estudo e pesquisa História e Memória da Universidade Fede- ral do Ceará – NIHME, no qual hoje é mestranda e pesquisadora na área de História da Educação tendo o seu projeto financiado pela FUNCAP (2012). E-mail: karla.botao@hotmail.com

Fernanda Lima Fernandes – Graduanda do curso de Letras pela Universidade Regional do Cariri (URCA). Membro do corpo discen- te do Núcleo de Estudos em Teoria Linguística e Literária e do Ateliê de Tradução Inglês – Português do NETLLI. Atualmente, desen- volve o projeto “Poética Sistemática dos Cocos no Crato-CE”, sob a orientação do professor doutor. Edson Soares Martins. Bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. E-mail: fernandalf@live.com

Francisco Ari de Andrade – Professor Adjunto – DE do Depar-

tamento de Fundamentos da Educação, da Faculdade de Educação

– FACED, da Universidade Federal do Ceará – UFC. Professor per- manente do Programa de Pós-Graduação em Educação Brasileira

– PPGE (Mestrado e Doutorado), da linha de pesquisa História e

Memória da Educação, do eixo História da Educação, Política e So- ciedade brasileira do PPGE-FACED-UFC. Doutor em Educação Bra- sileira pelo PPGE-FACED-UFC. Líder do Grupo de Estudos e Pes- quisas em História da Educação do Ceará – GEPHEC. Desenvolve pesquisa sobre História da Educação, Instituição Escolar e Cultura Escolar. E-mail: andrade.ari@hotmail.com

Francisco Egberto de Melo – Possui graduação em História pela Universidade Federal do Ceará (1993), especialização em Teoria e Metodologia do Ensino de História (UECE-2003), mestrado em História Social pela Universidade Federal do Ceará (UFC-2006) e doutorado em Educação Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Ceará. É professor assis- tente da Universidade Regional do Cariri (URCA). Tem experiência na área de Educação e História, com ênfase em História da Educa- ção e História e Ensino de História, atuando principalmente nos se- guintes temas: história; ensino; formação de professores, educação; cultura, história, educação, metodologia, educação e estado – Ceará; política e educação. E-mail: egbertomelo13@yahoo.com.br

Glauco Vieira Fernandes – Possui graduação em Geografia pela Universidade Federal do Ceará (1997) e mestrado em Geografia pela Universidade Estadual do Ceará (2001). Atualmente é professor ad- junto da Universidade Regional do Cariri – URCA. Tem experiência na área de Geografia e Cinema, com ênfase em Geografia Urbana, tendo interesse nos seguintes temas: paisagem e corporeidade, re- presentação da cidade no cinema, paisagem e territorialidades em representações culturais. Coordena o grupo Imago – pesquisa em

cultura visual, espaço, memória e ensino, vinculado ao Laboratório de Estudos e Pesquisas em Espaço Urbano e Cultura – LEPEUC, na URCA. Atualmente, cursando doutorado na Universidade Federal Fluminense – UFF/Niterói-RJ. E-mail: glauco.vieira@gmail.com

Jörn Seemann – Possui mestrado em Geografia (Universität Ham- burg, 1994) e doutorado em Geografia (Louisiana State University, 2010). Atualmente é professor adjunto da Universidade Regional do Cariri. Seu maior foco de pesquisa é a interface entre cartografia e cultura. Jörn se interessa particularmente pelos seguintes assuntos:

perspectivas culturais na cartografia, mapas e sociedade, geografia cultural, educação cartográfica, mapas mentais, percepção ambien- tal e pensamento geográfico/cartográfico. O Nordeste Brasileiro lhe serve como espaço para suas pesquisas empíricas. Ele faz parte do conselho editorial de várias revistas brasileiras e contribui para a Comissão sobre Mapas e Sociedade da International Cartographic Association (ICA). Desde julho de 2011, é membro do Comité Dire- tor da Conference of Latin Americanist Geographers (CLAG). E-mail: jornseemann@gmail.com

José Edvar Costa de Araújo – Graduado em Letras pela Univer- sidade Estadual do Ceará (1982), mestre em Educação pela Universi- dade Federal do Ceará (1994) e doutor em Educação pela Universida- de Federal do Ceará (2009). Professor Adjunto do curso de Pedagogia da Universidade Estadual Vale do Acaraú – UVA/Centro de Filosofia, Letras e Educação. Líder do MEDUC – Grupo de Pesquisa História e Memória Social da Educação e da Cultura. Colaborador do NIHME – Núcleo de História e Memória da Educação e da LHEC – Linha de História da Educação Comparada, da UFC.Exerce a docência, a pesquisa e a extensão a partir da disciplina Princípios e Métodos da Pesquisa em Educação, com ênfase nos temas: processos culturais e educação, formação e prática docente, história das instituições edu- cativas, cultura escolar, memórias e autoformação de educadores. E-mail: edvarcosta@hotmail.com

José Gerardo Vasconcelos – Possui Licenciatura em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará (1988), Bacharelado em Fi- losofia Política pela Universidade Estadual do Ceará (1989), Espe-

cialização em Filosofia Política pela Universidade Estadual do Ce- ará (1990), Mestrado em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará (1993), Doutorado em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará (1997), Pós-Doutorado em Artes Cênicas, pela Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia (2002) e Pós-Doutorado em Educação pela Universidade Federal da Paraíba (2011 – 2012) . Atualmente é professor associado IV, do Departamento de Funda- mentos da Educação, da Universidade Federal do Ceará. Tutor do PET Pedagogia da UFC. É lider do Grupo de Pesquisa de História

e Memória da Educação do CNPq – NHIME. Coordena a Linha de

Pesquisa de História e Memória da Educação do Programa de Pós- -Graduação em Educação Brasileira da UFC. Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Filosofia da Educação, História da Educação e Antropologia da Educação, atuando principalmente nos seguintes temas: Filosofia da Educação Contemporânea (Niet- zsche e Foucault) e História e Memória da Educação (Biografias, Memória/Esquecimento) e Antropologia da Educação (disciplina- mento do corpo, sexualidade/prostituição e Práticas de escrita na cadeia e cultura negra/capoeira).Editor da Revista Educação em Debate do PPGEB/FACED/UFC e da Coleção Diálogos Intempes- tivos da EUFC.

E-mail: gerardo.vasconcelos@bol.com.br

Josier Ferreira da Silva – Licenciado em Geografia (1989), Li-

cenciado em História (1995) pela Universidade Regional do Cariri

– URCA. Especialista em Análise Ambiental Urbana pela Universi-

dade Estadual do Ceará – UECE e em Desenvolvimento Regional e Meio Ambiente – pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte UERN/URCA. Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambien- te pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte – UERN/ PRODEMA, (2001) e Doutor em Educação Brasileira pela Univer- sidade Federal do Ceará – UFC. Pós-doutorando em Educação pela

Universidade Federal da Paraíba – UFBA. Professor Associado da Universidade Regional do Cariri – URCA. E-mail: josiersilva@ig.com.br

Keila Andrade Haiashida – Possui graduação em Pedagogia pela Universidade Federal do Ceará (1999) e Mestrado em Educa- ção também pela Universidade Federal do Ceará (2004) é doutoran- da em Geografia pela Universidade Estadual do Ceará, professora assistente da Universidade Estadual do Ceará. Tem experiência na área de Educação, principalmente em educação especial, gestão e avaliação do Ensino Superior. Atualmente pesquisa espaço, cultura e educação. E-mail: keilandrade@hotmail.com

Marcelo Eduardo Leite – Professor de estudo em Fotografia e Fotojornalismo na Universidade Federal do Cariri. Possui Ba- charelado em Ciências Sociais pela UNESP (1998), Licenciatura em Ciências Sociais pela UNESP (1997), Mestrado em Sociologia pela UNESP (2002) e Doutorado em Multimeios pela UNICAMP (2007). É filiado à Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplina- res da Comunicação. E-mail: marceloeduardoleite@gmail.com

Maria de Lourdes Carvalho Neta – Possui graduação em Ge- ografia (Licenciatura Plena e Bacharelado) pela Universidade Fe- deral do Ceará e mestrado em Geografia pela mesma instituição. Atualmente é professora do Departamento de Geociências/Curso de Geografia da Universidade Regional do Cariri e Coordenadora do Laboratório de Geoprocessamento – LABGEO. Tem experiência na área de Geografia, com ênfase em Geografia instrumental, atuando principalmente nos seguintes temas: geotecnologias e ensino. E-mail: carvalhoneta@gmail.com

Naiana Paula Lucas dos Santos – Geógrafa graduada em Li- cenciatura pela Universidade Estadual do Ceará. Atualmente mes-

tranda do Programa de Pós-Graduação e Pesquisa em Geografia da Universidade Estadual do Ceará- PROPGEO e membro do Grupo de Pesquisa em Espaço, Cultura e Educação – GPECED. E-mail: nayanapaula@yahoo.com.br

Paulo Wendell Alves de Oliveira – Graduado em Licenciatura de Geografia pela Universidade Regional do Cariri – URCA (2012), atualmente Discente de Mestrado em Geografia pela Universidade Estadual do Ceará – UECE, participante do Laboratório de Pesquisa em Estudos do Espaço, Cultura e Educação (LAPECED – UECE), do Laboratório de Pesquisa em Espaço, Memória e Cultural aplicado a Educação (LAPEMCE – URCA) e do Laboratório de Narrativas, Fo- toetnográficas e de Fotografia Documental – Campus Cariri (UFC). Tem experiência na área de Geografia, com ênfase nas áreas: Memó- ria das cidades, Geografia Histórica, Educação (Ensino de Geografia); Espaço e Cultura e Educação Ambiental, atuando principalmente nos seguintes temas: Memória das Cidades, educação, ensino de geogra- fia, Geopark Araripe, educação ambiental , espaço e cultura e PIBID. E-mail: paulowendell@bol.com.br

Otávio José Lemos Costa – Doutor em Geografia pela Universi- dade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ. Possui Mestrado em Geo- grafia pela Universidade Estadual do Ceará – UECE. Atualmente é Professor Adjunto da Universidade Estadual do Ceará, lecionando no curso de graduação e no Programa de Pós-Graduação em Geo- grafia da UECE. Desenvolve pesquisas na área de Geografia Cultural, especificamente voltado para as temáticas da religião, paisagem, lu- gar e patrimônio cultural. E-mail: otaviouece@yahoo.com.br

Raimundo Elmo de Paula Vasconcelos Júnior – Possui gra- duação em Geografia pela Universidade Estadual do Ceará (1992), Mestrado em Geografia pela Universidade Estadual do Ceará (1999), Doutorado em Educação pela Universidade Federal do Ceará (2006) e Pós-Doutorado em Educação pela Universidade Federal da Paraí-

ba (2012). É Professor Adjunto do curso de Graduação em Geografia

e do Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Es-

tadual do Ceará. Professor Colaborador do Programa de Pós-Gra- duação em Educação Brasileira da Universidade Federal do Ceará. E-mail: elmovasco@gmail.com

Rejane Maria de Souza – Atualmente é aluna do curso de Mes- trado do Programa de Pós-Graduação em geografia na Universidade Estadual do Ceará e partcipa do Laboratório de Pesquisas em Espa- ço, Cultura e Educação da mesma universidade. E-mail: rejanesouza_21@hotmail.com

Romeu Duarte Junior – Graduado em Arquitetura e Urbanismo pelo curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Ceará-UFC em 1985. Possui Mestrado (2005) e Doutorado (2012) em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo. É Pro- fessor Adjunto Nível 1 do curso de Arquitetura e Urbanismo da UFC, onde ensina desde 1991 e orienta trabalhos finais de graduação. Tem experiência nas áreas de Arquitetura e Urbanismo, com ênfase em História da Arquitetura e do Urbanismo, Teoria de Arquitetura e Ur- banismo, Projeto de Arquitetura e Urbanismo e Patrimônio Cultural Edificado. É também compositor, escritor e cronista. E-mail: romeudj@yahoo.com.br

Sayonara Cardoso Copque – Graduanda em Geografia da Uni- versidade Estadual da Bahia, colaboradora do Grupo Recôncavo.

Bolsista do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID) 2012-2013. Trabalha com a temática Geografia, Candomblé

e Meio Ambiente. Trabalhos apresentados em eventos nacionais e

internacionais, a exemplo do I Simpósio Nacional de Estudos Cul- turais e GeoEducacionais ( I SINECGEO) UECE em Fortaleza- CE

e o VI Fórum Internacional 20 de Novembro UFRB em Cruz das Almas-BA. E-mail: sayonaracopke2009@hotmail.com

Stanley Braz de Oliveira – Doutorando em Geografia pelo Pro- grama de Pós- Graduação em Geografia- PROPGEO da Universidade Estadual do Ceará, Mestre pelo Programa de Pós- Graduação em Ge- ografia- PROPGEO, da Universidade Estadual do Ceará- UECE ,Es- pecialista em Ciências Humanas e e suas Tecnologias, pela Faculdade Internacional de Curitiba – FACINTER, Educação, Trânsito e Meio Ambiente pela Universidade Estadual do Piauí – UESPI. Psicopeda- gogia Clínica e Institucional pela Faculdade Montenegro,Graduado em Licenciatura Plena em Geografia pela Universidade Estadual do Piauí (2004). Diretor Editorial da Revista Focus Insight. Possui ex- periência em Gestão de Instituição de Ensino Superior, Coordena- ção de Curso, Afinidade com a disciplina de Metodologia da Pesqui- sa Cientifica, Sociologia, Sociologia da Educação, Área de pesquisa:

Espaço, Cultura e Educação. E-mail: stanleybraz@hotmail.com

Zeny Rosendahl – Professora Associada do Departamento de Ge- ografia Humana – UERJ. Coordenadora do Programa de Estudos Avançados em Geografia, Religião e Cultura – PEAGERC e do Nú- cleo de Estudos e Pesquisas sobre Espaço e Cultura – NEPEC. E-mail: zeny.rosendahl@gmail.com

APRESENTAÇÃO

SUMÁRIO

Raimundo Elmo de Paula Vasconcelos Júnior

21

O

RITUAL DA PROCISSÃO SACRALIZANDO O ESPAÇO: A PAISAGEM RELIGIOSA

Zeny

Rosendahl

25

CAPÍTULO 1 Diálogos entre Educação, Geografia, História e Arquitetura

NOTAS PARA UMA HISTÓRIA DA PROTEÇÃO DO PATRIMÔNIO EDIFICADO NO CEARÁ Romeu Duarte Junior

37

FORMAÇÃO DE PROFESSORES: DE PATINHO FEIO À MUSA COBIÇADA Francisco Egberto de Melo

55

COMO OS MITOS ACERCA DO CEARÁ E DO SER CEARENSE CIRCULAM ENTRE AS FESTAS COMUNITÁRIAS E A CULTURA ESCOLAR José Edvar Costa de Araújo

68

SERTÃO, AS FAZENDAS DE GADO E A OCUPAÇÃO ESPACIAL DA CAPITANIA DO CEARÁ Francisco Ari de Andrade

O

79

CORPO, PROSTITUIÇÃO E EDUCAÇÃO SEXUAL NO TERRITÓRIO DO PRAZER José Gerardo Vasconcelos Francisca Karla Botão Aranha

96

CAPÍTULO 2 Espaço, Religião e Festas Populares

TEMPOS DE FESTA: ESPACIALIDADES E SIMBOLISMOS Otávio José Lemos Costa

115

CIDADE E A CONSTRUÇÃO DA CULTURA NOS ESPAÇOS FESTIVOS CATÓLICOS Josier Ferreira da Silva

A

128

PEREGRINAÇÃO RURAL AO SANTUÁRIO METROPOLITANO: O LUGAR DA RELIGIOSIDADE TURÍSTICA DE NATÉRCIA-MG EM APARECIDA-SP Christian Dennys Monteiro de Oliveira

146

ORGANIZAÇÃO DOS AFRODESCENDENTES ATRAVÉS DO CANDOMBLÉ Emanoel Luís Roque Soares Sayonara Cardoso Copque

A

165

(IN)VISIBILIDADES DE ESPAÇOS FESTIVOS: A CENTRALIDADE DA FESTA DE SANTO ANTÔNIO E AS MANIFESTAÇÕES PERIFÉRICAS DE BARBALHA – CEARÁ Antônio Igor Dantas Cardoso

179

CAPÍTULO 3 Fotografia, Paisagem, Literatura e Geografia

GEOGRAFIAS INVENTADAS: TRAVESSIAS, RASURAS, DEVIR Antonio Carlos Queiroz Filho

199

PAISAGENS EM MOVIMENTO DA CICERÓPOLIS DOCUMENTAL Glauco Vieira Fernandes

211

BEIRA-SOL: A POÉTICA DE UMA CIDADE Carlos Augusto Viana

236

A

PAISAGEM E A FOTOGRAFIA ATRAVÉS DE NOVOS ESTUDOS DA GEOGRAFIA

CULTURAL

Naiana Paula Lucas dos Santos

254

BENFICA DA EDUCAÇÃO: UMA ANÁLISE DA PAISAGEM ATRAVÉS DE FOTOGRAFIAS Rejane Maria de Souza Raimundo Elmo de Paula Vasconcelos Júnior

O

269

PAISAGEM, MOVIMENTO, PERFORMANCE Jörn Seemann

287

CAPÍTULO 4 Políticas Educacionais na Dinâmica Espacial

A EDUCAÇÃO COMO PRÁXIS TEOLÓGICA NA CONSOLIDAÇÃO

DA TERRITORIALIDADE DO PRESBITERIANISMO EM GARANHUNS-PE Carlos Roberto Cruz Ubirajara

307

AS POLÍTICAS EDUCACIONAIS DA IGREJA CATÓLICA NA PRODUÇÃO DO ESPAÇO URBANO DA CIDADE DE TERESINA-PI Stanley Braz de Oliveira

334

AS POLÍTICAS EDUCACIONAIS DESBRAVANDO A FLORESTA Ednéa do Nascimento Carvalho

350

UNIVERSIDADE E DESENVOLVIMENTO REGIONAL Keila Andrade Haiashida

362

CAPÍTULO 5 Cidade, Memória e Patrimônio

ESPAÇO URBANO E REPRESENTAÇÃO SOCIAL NAS FOTOGRAFIAS DO SÉCULO XIX Marcelo Eduardo Leite

381

CIDADE É A ROÇA: POLÍTICA E CULTURA NO CARIRI CEARENSE DE HOJE Edson Soares Martins Antônio Bilar Gregório Pinho Fernanda Lima Fernandes

A

398

OS TRILHOS E O URBANO: A GEO-HISTÓRIA DO MUNICÍPIO DE CEDRO-CE Antônio Kinsley Bezerra Viana

414

ESPAÇO E MEMÓRIA NA REPRESENTAÇÃO HISTÓRICOCULTURAL MATERIALIZADA NA PAISAGEM DO NÚCLEO DE FORMAÇÃO HISTÓRICO DA CIDADE DE JUAZEIRO DO NORTE – CE

Paulo Wendell Alves de Oliveira

428

CAPÍTULO 6 Prática de Ensino e Livro Didático

ATLAS ESCOLAR MUNICIPAL: PRODUÇÃO DE MATERIAL DIDÁTICO-PEDAGÓGICO PARA OS ALUNOS DA EDUCAÇÃO BÁSICA Antônia Carlos da Silva Maria de Lourdes Carvalho Neta

447

POR OUTRAS PRÁTICAS DE ENSINO DE HISTÓRIA Cícero Joaquim dos Santos

461

APRESENTAÇÃO

O leitor tem em mãos uma coletânea formada por tex-

tos que contemplam, numa perspectiva transversal e plura- lista, a complexidade dos fenômenos culturais e geoeduca- cionais, apresentados na reunião anual do Grupo de pesquisa do CNPq de Espaço, Cultura e Educação – GPECED que se consubstancia no II Simpósio Nacional de Estudos Culturais e Geoeducacionais e no V Encontro Cearense de Geografia da Educação (ECEGE). Percorre-se, aqui, da via da pesquisa geo- gráfica, agregando às reflexões nela colacionadas, achegas da percepção do geógrafo à do educador, ao lado de tantas outras contribuições das mais diversas áreas de conhecimento. As páginas que se seguem reúnem textos sobre a cultura

nos seus mais variados aspectos prestigiando, também, a pro- dução acadêmica sobre a temática geoeducacional, incluindo o exame de uma diversidade temática que vai do ensino de geografia e livro didático; instituições e políticas educacionais; metodologias da pesquisa e outros campos do conhecimento humanístico, inseparáveis da educação, conforme os eixos te- máticos do Grupo de Pesquisa em Espaço, Cultura e Educação do Programa de Pós-Graduação em Geografia da UECE.

O GPECED nasceu no Programa de Pós-Graduação em

Geografia, tendo realizado, anualmente, encontros regionais e, agora, o nosso segundo nacional, eventos relacionados a cultura e educação e sua relação com o espaço geográfico. Os eventos anteriores realizaram-se em Fortaleza (2009/UFC), Sobral (2010/UVA), Fortaleza (2011 e 2012/UECE) e agora, Crato (2013/URCA). As múltiplas percepções teóricas e metodológicas com as quais o leitor irá se deparar resultam do esforço de supera- ção dos estudos verticais e fragmentados, como dito, empre-

endido pelo GPECED, dos obstáculos epistemológicos a que aludiu Gastón Bachelar, objetivando romper a segregação dos paradigmas descrito por Thomas Kuhn, perigo sempre pre- sente. O referido esforço foi estimulado pelo reconhecimento da complexidade do fenômeno educacional, seja na perspecti- va geográfica, seja pelo prisma da história. O objeto dos estudos relatados neste analecto é a cultu- ra e a educação em sentido restrito e também em sua acepção ampla, contemplando-se assim os mais diversos escaninhos do aprendizado da cultura, da descoberta de limitações e po- tencialidades do educando, com vistas à superação das pri- meiras e reforço das últimas. Tal orientação ensejou a reunião de um amplo e variado leque de estudos. Os mais diversos interesses de educadores, geógrafos e historiadores e das pes- soas letradas em geral, certamente estarão presentes entre os textos reunidos neste espicilégio, abrangendo desde a cultura popular até a erudita. Apresentamos, agora a programação do II SINECGEO e V ECEGE:

y

Conferência de abertura com o tema: o ritual da procissão sacralizando o espaço: a paisagem religiosa, tendo como conferencista a professora doutora Zeny Rosendahl;

y

Diálogos entre Educação, Geografia, História e Arquitetura, tendo como palestrantes os professores Raimundo Elmo de Paula Vasconcelos Júnior, Romeu Duarte Junior, Francisco Egberto de Melo, José Edvar Costa de Araújo, Francisco Ari de Andrade e José Gerardo Vasconcelos;

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Espaço, Religião e Festas Populares, tendo como palestran- tes os professores Otávio José Lemos Costa, Josier Ferreira da Silva, Christian Dennys Monteiro de Oliveira, Emanoel Luís Roque Soares e Antônio Igor Dantas Cardoso;

22 d

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Fotografia, Paisagem, Literatura e Geografia, tendo como palestrantes os professores Antonio Carlos Queiroz Filho, Glauco Vieira Fernandes, Carlos Augusto Pereira Viana, Naiana Paula Lucas dos Santos, Rejane Maria de Souza e Jörn Seemann;

y

Políticas Educacionais na Dinâmica Espacial, tendo como palestrantes os professores Carlos Augusto de Amorim Cardoso, Carlos Roberto Cruz Ubirajara, Stanley Braz de Oliveira, Ednéa do Nascimento Carvalho e Keila Andrade Haiashida;

y

Cidade, Memória e Patrimônio, tendo como palestrantes os professores Marcelo Eduardo Leite, Edson Soares Martins, Antônio Kinsley Bezerra Viana e Paulo Wendell Alves de Oliveira e finalizando,

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Prática de Ensino e Livro Didático, tendo como palestrantes os professores Maria Adailza Martins de Albuquerque, Ma- ria Soares da Cunha, Cícero Joaquim dos Santos e Antônia Carlos da Silva.

y

Ressalte-se o decisivo apoio da Reitoria da Universidade Regional do Cariri, à frente a professora Antonia Otonite de Oliveira Cortez, Expresso Guanabara, Viação Urbana e FLATED – Faculdade Latino-Americana de Educação.

y

Registre-se o esforço e a dedicação dos coordenadores do evento, professores Raimundo Elmo de Paula Vasconcelos Júnior (UECE), Jörn Seemann (URCA), Josier Ferreira da Silva (URCA), Christian Dennys Monteiro de Oliveira (UFC) e Stanley Braz de Oliveira (UESPI/UECE), juntamente com o apoio da administração do Magnífico Reitor da UECE, professor doutor José Jackson Coelho Sampaio.

Fortaleza, 14 de novembro de 2013.

Raimundo Elmo de Paula Vasconcelos Júnior

O RITUAL DA PROCISSÃO SACRALIZANDO O ESPAÇO:

A PAISAGEM RELIGIOSA 1

Zeny Rosendahl

Olha lá vai passando a procissão

Se arrastando que nem cobra pelo chão As pessoas que nela vão passando Acreditam nas coisas lá do céu As mulheres cantando tiram versos E os homens escutando tiram o chapéu Eles vivem penando aqui na Terra Esperando o que Jesus prometeu

E Jesus prometeu coisa melhor [ (Gilberto Gil)

]

A letra da música “A procissão”, de Gilberto Gil, músico baiano, retrata e nos fornece a noção da dimensão simbólica do poder do sagrado no espaço. A poesia representa o ponto de vista do artista ao ver a paisagem religiosa materializada no espaço. Na análise geográfica “a espacialidade é uma condição fundamental ao fenômeno da visibilidade” (GOMES, 2013, p.36). As lições de Paulo Cesar da Costa Gomes sobre as con- dições gerais da visibilidade espacial podem ser reunidos em três principais elementos de análise: primeiro “dependerão das leituras do sentido que emergem da associação entre o lugar e o evento”; em segundo “dependerão também da pos- sibilidade da morfologia do espaço do espaço físico” onde se mostra e “que deve ser capaz de garantir uma convergência dos olhares e a desejada captura da atenção”; e o terceiro ele- mento de análise é “que este lugar deve garantir a presença

1 Este artigo contem parte da fala apresentada no II Colóquio Literatura e Paisagem (18 de outubro de 2013).

de observadores sensíveis aos novos sentidos nascidos da as- sociação entre o lugar e o evento que se apresenta.” (GOMES, 2013, p.37-38). Com base nos elementos de análise da visibilidade aci- ma citado, e com a escolha do evento religioso a procissão, daremos neste artigo, importância à dimensão devocional im- pressa na paisagem religiosa. Na literatura brasileira destacamos autores que des- crevem o cortejo da procissão nas cidades, especialmente nas cidades mineiras, destacando o desfile religioso e seus parti- cipantes. A dinâmica do estudo geográfico está em analisar o local escolhido, como também o lugar que ocorre o desfile, quem participa da procissão e quem aprecia o caminhar da procissão. Ao pensar literatura e paisagem para esse encontro e a sua relação entre a geografia e a religião, temática que gosto e venho me dedicando já algum tempo, resolvi seguir nesta reflexão. Escolher uma narrativa em que a paisagem religiosa estivesse presente foi o primeiro passo metodológico. O desa- fio estava bem visível no ver e sentir o religioso em Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida, bem descrito em seu capitulo XVII intitulado D. Maria. Neste artigo vamos priorizar a paisagem religiosa com seus limites e suas relações com a sociedade da época do con- to de Memórias de um sargento de milícias. Será uma refle- xão geográfica da visibilidade do sagrado, em suas diferentes formas espaciais, que são marcas da religiosidade do grupo social que as constrói no espaço e tempo sagrado. O romance representará o exemplo empírico de nossa análise, ou seja, abordaremos a paisagem religiosa criada du- rante a procissão em Memórias de um Sargento de Milícias. Manuel Antônio de Almeida (1996) fala:

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ZENY ROSENDAHL

Um dia de procissão foi sempre nesta cidade um dia de

grande festa, de lufa-lufa, de movimento e de agitação;

e se ainda é hoje o que os nossos leitores bem sabem, na época que viveram as personagens desta história

a coisa subia do ponto.

A procissão é um ato de culto externo em que se mani-

festam com mais exuberância o sentimento religioso e a devo- ção popular, ela se destaca como o momento mais importante de uma festa religiosa na cidade ou durante uma romaria ao

santuário visitado. As solenes procissões são práticas devocio- nais católicas impostas, ao longo do período colonial, como estratégia de conversão pelo clero, cujos membros eram con- siderados agentes oficiais da religião e auxiliares da Coroa na preservação da fé entre o povo. A procissão representa a passagem da Eucaristia pelas ruas da cidade. Essa solene ce- lebração litúrgica do Corpus Christi destinava-se a exteriori- zar os sentimentos religiosos de louvor, súplica, penitência ou agradecimento de modo a realçar a pompa das solenidades em torno do sagrado.

A promoção da festa sagrada vem sendo ao longo dos

séculos vinculada à Igreja Matriz. A paróquia fornece a função religiosa e valoriza a cidade ou o lugar do evento. A procissão foi e é um exercício da devoção que une sacerdotes e população num ritual que melhor concretiza o simbolismo de comunhão religiosa, cultural e social no espaço. O autor no texto desta- cado, ao falar de lufa-lufa e de agitação no dia da procissão refere-se ao cenário que acompanha a devoção. O comércio, a dança, e a feira livre coexistem, até hoje, no espaço profano di- retamente vinculado ao sagrado (ROSENDAHL, 1996, 2012). Manuel Antônio de Almeida (1996) continua sua narrativa:

Enchiam-se as ruas de povo, especialmente mulheres de mantilhas, armavam-se as casas, penduravam-se

às janelas magníficas colchas de seda, de damasco de todas as cores, armavam-se coretos em quase todos os cantos. E quase tudo o que ainda hoje se pratica, porém em muito maior escala e grandeza, porque era feito por fé, como dizem as velhas desse bom tempo, porém nós diremos, porque era feito por moda, era tanto do tom enfeitar as janelas e portas em dias de procissão ou con- correr de qualquer outro modo para o brilhantismo das festividades religiosas, como ter um vestido de mangas de presunto, ou trazer à cabeça um formidável trepa- -moleque de dois palmos de altura.

Na paisagem religiosa da procissão não era somente o desfile, a rua por onde passava as calçadas, as casas com suas janelas abertas com toalhas brancas dependuradas, como véus limpos e engomados, mostrando a beleza, o gesto refinado de seus moradores. A dimensão econômica e social do habitar, do morar da elite, na maioria das vezes uma maneira de com- por e harmonizar o cenário do ritual da procissão fornecendo uma unidade visual à paisagem. A escolha do itinerário é e era fundamental ao sucesso da procissão. As ruas escolhidas tinham algum tipo de poder social e/ou político e retratavam este poder na paisagem. A paisagem religiosa que a procissão impõe pode ser compreendida em primeiro lugar por sua relação com a socie- dade ou com o grupo social que a produziu, em segundo na ação dos que observam a procissão, em alguns casos não são os que têm a vestimenta da a “roupa da missa” como foi descrito, e nem foram selecionados para o desfile. Aqui temos aqueles que só querem conferir o evento. Enfim, todos têm sua posição e sua função na paisagem. Como ocorre nas festas religiosas, a procissão que im- prime marcas da cultura local: os costumes alimentares, o baile, as vestimentas, os cantos e as músicas identitárias do

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ZENY ROSENDAHL

lugar são práticas religiosas que compõem o evento. Neste sentido, esclarece-se que o fantástico da manifestação cultural herdada pela colonização portuguesa foi de ter transmitido as crenças e costumes religiosos pela propaganda da fé e o grupo religioso ter permitido que se preservasse o singular do lugar. Manuel Antônio de Almeida (1996) em continuação relata:

Alguns haviam tão devotos, que não se contentavam vendo-a uma só vez, andavam de casa deste para a casa daquele, desta rua para aquela, até conseguir vê-la des- filar de principio a fim duas, quatro e seis vezes, sem o que não se davam por satisfeitos. A causa principal de tudo isto era, supomos nós, além talvez de outras, o levar esta procissão era uma coisa que não tinha nenhuma das outras: o leitor há de achá-la sem dúvida extrava- gante e ridícula, outro tanto nos acontece, mas temos obrigação de referi-la. Queremos falar de um grande rancho chamado das – Baianas – que caminha adiante da procissão, atraindo mais ou menos como os santos, os andores, os emblemas sagrados, os olhares dos de- votos; era formado esse rancho por um grande número de negras vestidas à moda da província da Bahia, donde lhe vinha o nome, e que dançavam nos intervalos dos Deo-Gracias uma dança lá a seu capricho.

A paisagem, de fato, é uma maneira de ver, uma manei- ra de compor e harmonizar o mundo externo em uma cena in- dicando uma relação entre os seres humanos e seu ambiente (COSGROVE, 2012). A compreensão das expressões impres- sas por uma cultura em sua paisagem é necessário ao decodi- ficar a linguagem simbólica e os seus significados. Comunga- mos com as ideias da geografia cultural pós-80 ao afirmar que todas as paisagens são simbólicas, por menos aparentes que possam ser. No estudo da paisagem religiosa, consideramos a narra- tiva do texto fundamental para fazermos uma leitura a partir

O RITUAL DA PROCISSÃO SACRALIZANDO O ESPAÇO: A PAISAGEM RELIGIOSA

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de várias dimensões de análise, oferecendo ao leitor a possibi- lidade de leituras diferentes e igualmente variadas do simbo- lismo impregnado na paisagem da procissão. Vamos destacar os estudos do geógrafo Augustin Berque (1998 [1984]). Para este autor é de fundamental importância nas ciências huma- nas e sociais o estudo da paisagem do ponto de vista cultural.

A paisagem é marca, pois é reflexo do comportamento de um

determinado grupo social, mas é também uma matriz, por- que participa dos esquemas de percepção, de concepção e de ação, ou seja, é meio e condição de reprodução da cultura na paisagem. Insistimos no ver e sentir a procissão como marca e matriz das procissões portuguesas. O posicionamento dos in-

tegrantes da comunidade; dos visitantes no evento; dos fiéis

e dos devotos na procissão é, ainda hoje, repetido no mundo

católico, notadamente no catolicismo popular brasileiro (RO- SENDAHL, 2012). Ao analisar as procissões portuguesas, Barroso (2004) elaborou um esquema hierárquico dos membros que delas participam e reforçam a ideia da fé aglutinada em diferentes funções e em alas. O esquema a seguir reflete essas alas. Na narrativa de Manuel Antônio de Almeida, ao se re- ferir a ala das baianas, localizadas na frente da procissão, em posição ordenada de ala das baianas, oferece certa preocupa- ção com a descrição do grupo social. As marcas da cultura no desfile dessas representantes da Província da Bahia estão na prática da dança e da vestimenta dos componentes da ala na procissão. Manuel Antônio de Almeida (1996), nos diz:

As chamadas Baianas não usavam vestido: traziam somente umas poucas de saias presas à cintura, e que chegavam pouco abaixo do meio da perna, todos elas ornadas de magníficas rendas; da cintura para cima

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ZENY ROSENDAHL

apenas traziam uma finíssima camisa, cuja gola e mangas eram também ornadas de renda; ao pescoço punham um cordão de ouro ou um colar de corais, os mais pobres eram de miçangas; ornavam a cabeça com uma espécie de turbante a que davam o nome de trun-

fas, formado por um grande lenço branco muito teso e engomado; calçavam umas chinelinhas de salto alto,

e tão pequenas, que apenas continham os dedos dos

pés, ficando de fora todo o calcanhar; e além de tudo isto envolviam-se graciosamente em uma capa de pano

preto, deixando de fora os braços ornados de argolas de

metal simulando pulseiras. [

Para falarmos a verdade,

a coisa era curiosa.

Sem dúvida, a característica mais marcante destacada pelo autor foi a narrativa deslumbrante da extravagância da ala das baianas, pois para o viver religioso daquela época era essa pompa e o esplendor que possuíam enorme valor. O ves- tiário, não se pode negar, também pertencia à moda, ao status social, à arte e na paisagem. Faz parte da própria finalidade das roupas que a pompa e o esplendor prevaleçam sobre a be- leza. A vaidade pessoal puxa a arte da moda para a esfera da sensualidade, do desejo do participante ser visto e apreciado. As festividades promovidas pela Igreja, na época do Brasil colônia tinham esse estilo graças à própria liturgia. A dignidade sagrada e a nobre solidez da cerimônia não são destruídas pelo transbordamento dos detalhes festivos do grupo social. A Igreja Católica Apostólica Romana teve a fun- ção social, política, além da religiosa no Brasil. As solenidades religiosas valorizavam o arraial e o povoado. Paralelamente, acentuava-se o catolicismo mais pessoal trazido pelos colonos portugueses: o da devoção. A Igreja Matriz era o território para a ação de conversão e a festa completava a função. O padre, à frente com o turíbulo prepara o caminho, qualifica o lugar do quotidiano, das práti-

]

O RITUAL DA PROCISSÃO SACRALIZANDO O ESPAÇO: A PAISAGEM RELIGIOSA

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cas do profano em um lugar sacralizado pela procissão ao pas- sar. A folia é parte integrante da procissão. A devoção é práti- ca de intimidade com o extraordinário. Estudos demonstram que, além dos preparativos na paróquia, existe a seletividade espacial na construção do itinerário simbólico do cortejo. A paisagem retrata a procissão como um cortejo reli- gioso público, com elementos do clero e do povo disposto de forma ordenada em alas que desfilam por um trajeto prede- terminado: ruas, praças, avenidas, retornando para a igreja de que partiu ou encaminhando-se para outra que está à espera da chegada da procissão. Os visitantes e os observadores têm seu lugar fora das alas que compõem a procissão. Eles estão nas partes laterais ocupando uma possível moldura da paisa- gem religiosa, atentos à passagem do cortejo. Ao construir a paisagem religiosa tendo como base o conto XVII de Memórias de um Sargento de Milícias, de Ma- nuel Antônio de Almeida podemos concluir com a cantiga to- cada pelos músicos e cantada pelo povo:

O Divino Espírito Santo É um grande folião, Amigo de muita carne, Muito vinho e muito pão.

Referências Bibliográficas

ALMEIDA, M. A. de. Memórias de um sargento de milícias. 25. ed. São Paulo: Ática, 1996. BARROSO, P. Romarias de Guimarães: patrimônio simbóli-

co, religioso e popular. Guimarães: Universidade do Minho,

2004.

BERQUE, A. “Paisagem Marca – Paisagem Matriz: Elementos da Problemática para uma Geografia Cultural”. In: R.L. COR-

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ZENY ROSENDAHL

RÊA e Z. ROSENDAHL (Orgs.). Paisagem, Tempo e Cultura Rio de Janeiro, EdUERJ, 1998, p.84-92. COSGROVE, D. A geografia está em toda parte: cultura e sim- bolismo nas paisagens humanas. In: CORRÊA, Roberto Lo- bato e ROZENDAHL, Zeny (Orgs.). Geografia cultural: uma antologia, v. 1. Rio de Janeiro: Eduerj, 2012. p.219-237. GOMES, Paulo Cesar da Costa. O lugar do olhar: elementos para uma geografia da visibilidade. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2013. GIL, Gilberto. A procissão. Disponível em: http://letras.mus. br/gilberto-gil/46237/. Acesso em: 17 set 2013. ROSENDAHL, Z. Espaço e religião: uma abordagem geográ- fica. Rio de Janeiro: EdUERJ, 1996 História teoria e método em geografia da religião. Espaço e Cultura, n. 31, p.24-39. Rio de Janeiro, 2012.

O RITUAL DA PROCISSÃO SACRALIZANDO O ESPAÇO: A PAISAGEM RELIGIOSA

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CAPÍTULO 1

Diálogos entre Educação, Geografia, História e Arquitetura

NOTAS PARA UMA HISTÓRIA DA PROTEÇÃO DO PATRIMÔNIO EDIFICADO NO CEARÁ

Romeu Duarte Junior

Os atos oficiais da preservação do patrimônio histórico- -cultural no país 1 se iniciaram em 1933, com o tombamento, por decreto presidencial, da cidade de Ouro Preto, uma das mais destacadas do ciclo do ouro havido no século XVIII em Minas Gerais. Deflagradas no âmbito federal sem o concur- so de uma instância ou órgão especificamente voltados à sua promoção, mesmo assim, desde o seu nascedouro, as ações de proteção dos acervos culturais no Brasil, notadamente os de natureza edilícia, serão marcadas pelo cunho estatal, de clara inspiração francesa. Somente em 1937, com a criação do Ser- viço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – SPHAN (posteriormente Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN) no primeiro governo de Getúlio Vargas, é que o país passou a ter, na esfera federal, um órgão encarre- gado diretamente dessas responsabilidades. Criado como a base legal para a operação do recém- -nascido órgão, o Decreto-Lei Nº 25/37 2 , gerado no bojo da constituição outorgada de 1937, continua detendo essa con- dição, tendo sido mantido em vigor por todos os diplomas constitucionais subseqUentes. O caldo de cultura patrimonial

1 Anteriormente, dignos de nota, somente alguns poucos eventos: em 1920, Bruno Lobo, presidente da Sociedade Brasileira de Belas Artes, encarrega o professor Alberto Childe, do Museu Nacional, da elaboração do anteprojeto de lei de defesa do patrimônio artístico nacional; em 1923, Luiz Cedro, deputado por Pernambuco, apresenta à Câmara dos Deputados o primeiro projeto com vistas a organizar a defesa dos monumentos artísticos e históricos do país; e em 1927, Francisco Góis Calmon, presidente estadual da Bahia, organiza a defesa do acervo histórico e artístico do Estado, criando a Inspetoria Estadual de Monumentos Nacionais.

2 Legislação esta que estabelece o tombamento como forma adequada de proteção para o patrimônio material.

à sua volta é curioso: quem vai se ocupar da preservação do

patrimônio cultural brasileiro, batendo ponto diariamente na repartição federal, serão os intelectuais que já respondiam pela renovação de nossas expressões artísticas. Com efeito, serão os pioneiros modernistas, em sua maioria mineiros, reunidos em torno do prestígio de Gustavo Capanema, então Ministro da Educação e Saúde, e em boa medida simpáticos às propostas do comunismo, que vão dar concretude às ideias do IPHAN. Começarão pelos inventários da arquitetura religiosa do período colonial, que lhes revelará a imensidão e a urgên- cia de sua tarefa. De outra parte, será o conceito de “cidade-monumen- to”, elaborado a partir de sua própria condição de refinados estetas, que animará seu trabalho. Por este prisma, só serão alçadas à condição de patrimônio nacional aquelas manifes-

tações arquitetônicas e urbanísticas produzidas sob o risco português, os materiais locais e o braço escravo, filiadas esti- listicamente ao barroco. As cidades protegidas nesta etapa se- rão contempladas como obras de arte perfeitamente acabadas

e consagradas, dignas de estudo e reverência, relegando-se a

patamar bastante inferior as realizações de períodos posterio- res, considerados como espúrias. Este era um momento em que os nossos pioneiros do IPHAN repudiavam o emprego no presente das linguagens historicistas europeias (neoclássico, ecletismo, Art Nouveau, Art Déco etc.) e procuravam encon- trar nexos entre a produção construída dos séculos coloniais e a modernista, num esforço de continuidade de uma tradi- ção construtiva e espacial. Como bem disse Castriota (2009, p.74), nesse período,

considerada como expressão estética privilegiada, a cidade é abordada segundo critérios puramente esti- lísticos, ignorando-se completamente sua característica

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ROMEU DUARTE JUNIOR

documental, sua trajetória e seus diversos componen- tes como expressão cultural de um todo socialmente

isso, instaura-se ali, como de resto

em todo o Brasil, uma prática de conservação orien- tada para a manutenção de conjuntos tombados como objetos idealizados, desconsiderando-se, muitas vezes, sua história real.

construído

com

Serão os primeiros documentos preservacionistas de escala internacional, posteriormente conhecidos como cartas patrimoniais, que, de certa forma, balizarão o ideário e a ação dos modernistas preservacionistas brasileiros. A Carta de Ate- nas de 1933, um dos principais produtos teóricos do Congres- so Internacional de Arquitetura Moderna – CIAM, apresenta em seu escopo, noções que estruturam essa forma de conceber o patrimônio construído. Baseando-se no princípio funcional das quatro “chaves do urbanismo”, a saber, habitar, trabalhar, recrear-se e circular, a carta vai tratar a preservação do patri- mônio edificado por uma ótica higienista e a-histórica carac- terística do Modernismo, já que, para seus redatores,

a morte, que não poupa nenhum ser vivo, atinge também

tudo que é passado tem,

por definição, direito à perenidade; convém escolher com sabedoria o que deve ser respeitado (apud CURY,

as obras dos homens

Nem

2004, p.52),

o que deixa claro que esta última ação caberia somente aos téc- nicos envolvidos com a construção da nova cidade industrial. É mister também reconhecer que a linha interpretati- va dos grandes feitos e da contribuição dos “heróis” de nossa história, o que passou a ser conhecido como “história oficial”, determinou fortemente a compreensão e interpretação da tra- jetória histórica brasileira, na qual o povo, em sua miscelânea de classes sociais, raças, origens e credos, ainda não era reco- nhecido como seu principal protagonista. Daí a construção da

NOTAS PARA UMA HISTÓRIA DA PROTEÇÃO DO PATRIMÔNIO EDIFICADO NO CEARÁ

d 39

imagem de um Brasil idealizado, com manifestações artísticas próprias, entendidas como dignas de proteção e valorização por parte dos pioneiros, em detrimento de outras não reco- nhecidas por estes como tal. As ações do IPHAN, consentâneas com essa orientação teórico-conceitual, vão, portanto, se concentrar nas regiões brasileiras que, para os intelectuais do patrimônio, expressa- vam de forma eloquente esse cenário imaginado. As cidades da administração colonial e imperial (Salvador e Rio de Ja- neiro) e as dos ciclos econômicos da cana-de-açúcar (Recife, Olinda, João Pessoa), do ouro e das tropas (as urbes mineiras, paulistas e goianas), com sua diversificada, rica e por vezes suntuosa arquitetura, serão aquelas escolhidas para atendi- mento prioritário pelo órgão federal de preservação. Outros Brasis, seja pela ocupação territorial recente ou por manifes- tarem, ao ver desses estetas, valores arquitetônicos e urbanís- ticos de menor relevância, terão que aguardar na fila até que estes sejam compreendidos e aceitos como legítimos, opera- ção que consumirá tempo razoável. É o que aconteceu, dentre outros estados-membros da federação situados nesta zona cinza, com o Ceará. O patrimô- nio edificado cearense só mereceu menção federal no final da década de 1950 3 , com o tombamento em 1957, pelo IPHAN, da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário, em Aracati. Emblemático do posicionamento teórico-conceitual anterior- mente descrito é o tratamento concedido ao monumento por Lúcio Costa em seu parecer de tombamento, o que evidencia também os “cuidados” dispensados pelas instâncias adminis- trativas locais ao acervo teoricamente posto sob a responsabi- lidade destas:

3 O primeiro bem tombado pelo IPHAN no estado foi a coleção arqueológica do Museu da Escola Normal, em 1941, atualmente sob a guarda do Museu do Ceará.

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ROMEU DUARTE JUNIOR

Arquitetonicamente, a Matriz de Aracati não tem quali-

dades que justifiquem a sua inclusão nos Livros do Tom- bo Artístico como monumento nacional. Excetuados, externamente, o conjunto das portadas e internamente

a banca de comunhão, é obra destituída de qualquer

significação artística. Embora edificada no século XVIII,

o seu interior só foi concluído no século XIX, quando

também foi acrescentada a volta redonda às janelas do coro. O retábulo singelo do altar-mor, mandado vir de Pernambuco, data de 1814. O varandão do coro foi posto em 1852, pelo tesoureiro Capitão Melquíades da Costa Barros, etc. Contudo, como os governos estadual e muni- cipal não se interessam pela preservação do patrimônio regional ou local, o recurso à intervenção federal visaria, no caso, unicamente impedir as obras desfiguradoras que se anunciam, dando-se assim satisfação ao louvável empenho demonstrado pela população e ao interesse manifestado pelo Dr. Gustavo Barroso 4 , sempre atento na defesa das obras antigas da sua terra (COSTA, apud PESSÔA, 2004, p.147).

Neste momento, o patrimônio não despertava o inte- resse dos escassos arquitetos existentes no estado, este des- tituído ainda de escolas de arquitetura ou de qualquer outra instituição de pesquisa nessa área. Em meados da década seguinte, essa situação iria se alterar. Mediante a condução do arquiteto José Liberal de Castro 5 , então professor da Escola de Engenharia da UFC, o

4 Gustavo Barroso (Fortaleza/CE, 1888 – Rio de Janeiro/RJ, 1959) exerceu as atividades de advogado, professor, político, contista, folclorista, cronista, ensaísta e romancista. Ideólogo destacado da Ação Integralista Brasileira, foi diretor do Museu Histórico Nacional. Membro da Academia Brasileira de Letras, presidiu-a por diversas vezes. Em 1941, foi designado para coordenar os estudos e pesquisas relacionados ao folclore brasileiro, juntamente com Afrânio Peixoto e Manuel Bandeira.

5 José Liberal de Castro (Fortaleza/CE, 1926) é arquiteto e urbanista formado em 1955 na Faculdade Nacional de Arquitetura (atual FAU/UFRJ), ex-presidente do Departamento do Ceará do Instituto de Arquitetos do Brasil – IAB/CE, fundador da Escola de Artes e Arquitetura da UFC, professor emérito da UFC e pioneiro do

NOTAS PARA UMA HISTÓRIA DA PROTEÇÃO DO PATRIMÔNIO EDIFICADO NO CEARÁ

d 41

Ceará daria seus primeiros passos no sentido do reconheci- mento federal do seu acervo construído dotado de interesse cultural. Com bom trânsito junto às autoridades do IPHAN, foi comissionado pelo seu presidente, doutor Rodrigo Melo Franco de Andrade 6 , para cuidar do patrimônio cearense de valor nacional. Os trabalhos tiveram início em 1964 com os tombamentos do Theatro José de Alencar e da Casa Natal de José de Alencar, o primeiro remetendo aos experimentos de portabilidade da arquitetura metálica produzida na Europa, na esteira da Revolução Industrial, e exportados para o Brasil na passagem do século XIX para o XX, e o segundo, relacio- nado a uma singela edificação vernácula, verdadeiro reposi- tório de técnicas construtivas retrospectivas. Em 1965, com a criação e o pleno funcionamento da Escola de Arquitetura e Artes da UFC 7 , Liberal de Castro passou a contar com apoio institucional e humano para realizar suas pesquisas relativas ao patrimônio construído cearense, de que é exemplo o notá- vel esforço de inventariação de nossa arquitetura antiga, por ele conduzido até meados da década de 1980 com a ajuda dos seus muitos alunos. Data deste ano também o tombamento federal do Passeio Público, a velha Praça dos Mártires de For- taleza, tipologia urbanística típica do Império e associada às transformações havidas nas cidades brasileiras decorrentes da vinda da família real portuguesa ao Brasil em 1808. Como elemento balizador dos tombamentos da arqui- tetura cearense, Liberal de Castro elegeu o processo sócio- -histórico de ocupação do território da província, com suas

patrimônio cultural edificado no Ceará. 6 Rodrigo Melo Franco de Andrade (Belo Horizonte/MG, 1898 – Rio de Janeiro/ RJ, 1969) exerceu as atividades de advogado, jornalista e escritor. Presidiu o IPHAN de 1937 a 1967. 7 Atual Curso de Arquitetura e Urbanismo da UFC, ligado ao Centro de Tecnologia desta universidade.

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penosas lidas civilizatórias ligadas à formação e evolução dos núcleos urbanos. Enfatizando o papel aglutinador dos ciclos econômicos havidos nos séculos XVIII e XIX, respectivamen- te o do charque e o do algodão, e das ribeiras dos principais cursos d’água (Acaraú e Jaguaribe), desenvolveu uma linha de raciocínio e operação arrimada tanto no modus faciendi da “fase heróica” 8 do IPHAN quanto em uma história feita por homens sem rosto, nome ou sobrenome, na linha da narrativa histórica de um Capistrano de Abreu 9 . Sob essa ótica, passam a ser investigadas nossas primeiras aglomerações humanas, com destaque para Aracati, Aquiraz, Fortaleza, Icó e Sobral. Em 1968, o governo do Estado do Ceará cria a Secreta- ria Estadual da Cultura, que já nasce com um serviço de pa- trimônio dotado de atribuições técnicas, legais e administra- tivas estruturadas pela Lei Nº 9.109/68 10 . Portanto, mesmo antes da realização dos Compromissos de Brasília e Salvador, promovidos pelo IPHAN respectivamente em 1970 e 1971, os quais, claramente influenciados pelos ditames preservacionis- tas constantes das Normas de Quito 11 , motivaram os governos estaduais a criarem secretarias estaduais de cultura e órgãos específicos de patrimônio cultural, o Ceará passou a contar com uma instância voltada especialmente para esta tarefa no âmbito estadual. Como se verá, por uma série de razões, será

8 Para Lima (1997), “Até os anos 1960, a idéia que se fazia da arquitetura como patrimônio cultural era ortodoxa e calcada sobre conceitos estratificados na fase “heróica” do IPHAN, onde as estéticas do colonial, do barroco, do neoclassicismo

e do Movimento Moderno representavam um sólido modelo”.

9 Capistrano de Abreu (Maranguape/CE, 1853 – Rio de Janeiro/RJ, 1927) é notável historiador brasileiro, com produção registrada também nas áreas de etnografia

e linguística. As principais características de sua obra são a rigorosa pesquisa das

fontes consultadas e uma visão crítica dos fatos históricos.

10 Substituída pela Lei Nº 13.465/04.

11 Evento realizado pela Organização dos Estados Americanos – OEA na capital equatoriana, em 1967, que teve como objetivo discutir a “conservação e utilização de monumentos e sítios de interesse histórico e artístico” (apud CURY, 2004. p.105).

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bastante deficiente a ação do Estado neste campo, gerando uma dívida para com o reconhecimento e a salvaguarda de suas legítimas manifestações culturais. A década de 1970 se inicia com a liderança do órgão fe- deral de preservação. Como reflexo da política nacional de pa- trimônio, consubstanciada nas ações do Programa Integrado de Reconstrução das Cidades Históricas – PCH 12 , são elabora- das, de modo preliminar, propostas de tombamento por parte do IPHAN para os sítios históricos de Aracati e Icó, as quais só foram realmente finalizadas e levadas a efeito no final da década de 1990 e no início da década de 2000. São tombadas as casas de câmara e cadeia de Quixeramobim (1972), Caucaia (1973) e Icó (1975) 13 , programas edilícios do período colonial relacionados à administração e à segurança das vilas. O pré- dio da antiga Assembléia Provincial 14 , em Fortaleza, projeta- do por Adolfo Herbster 15 , completa a lista de imóveis públicos protegidos pelo IPHAN naquele período (1973), revelando o pendor de então pela preservação de edifícios de inequívoca relevância histórica, estética e social, mas com funções que, por si sós, já garantiriam, de certa forma, sua integridade fí- sica. A nota pitoresca vai para o tombamento, em 1974, da fachada da Igreja Matriz de Sant’Anna, em Iguatu, solicitação

12 O PCH foi criado em 1973 e incorporado à estrutura administrativa do IPHAN em 1979. Primeiro programa oficial de preservação urbana no país, visava prioritariamente à recuperação das cidades históricas do Nordeste pela via da atividade turística como fator de revitalização urbana.

13 Todas mantendo, no período assinalado, as funções de Câmara Municipal e

cadeia pública.

14 À época, ocupado pela Assembléia Legislativa do Estado do Ceará, e hoje pelo

Museu do Ceará.

15 Adolfo Herbster (Pernambuco, 1820 – Fortaleza/CE, 1893), arquiteto, exerceu

as atividades de engenheiro da Câmara e da Província, tendo produzido notável documentação cartográfica sobre Fortaleza, tais como as suas plantas de 1852 (Planta da Cidade de Fortaleza), 1859, 1875 (Planta Topográfica da Cidade de Fortaleza e Subúrbios) e 1888 (Planta da Cidade de Fortaleza Capital da Província do Ceará).

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de conterrâneos de prestígio intelectual 16 face à iminente exe- cução de obras de reforma no templo, que o descaracteriza- riam completamente, propostas pelo titular da Diocese 17 . Os anos de 1980, no âmbito da proteção do patrimônio edificado cearense, serão marcados por várias novidades. A primeira delas é a implantação, em 1983, de uma delegacia regional do IPHAN no estado, a 3ª DR 18 , com jurisdição tam- bém no Rio Grande do Norte, cuja direção caberá ao arquiteto Domingos Linheiro 19 . A arquitetura vernácula cearense será objeto de inventariação por parte da 3ª DR/IPHAN, inician- do-se pela encontrada na Região Metropolitana de Fortale- za. A repartição recém-criada começará também a executar exemplares obras de restauro, tais como as efetuadas na Igre- ja de Nossa Senhora da Conceição de Almofala, em Itarema, e no Mercado da Carne, em Aquiraz. Os tombamentos federais realizados na década em apreço dão continuidade à práxis do período “heróico”: são protegidos o Mercado da Carne (1984), em Aquiraz; a Casa de Câmara e Cadeia de Aracati (1980); a Igreja de Nossa Conceição de Almofala (1983), em Itarema; o Palacete Carvalho Mota (1983), em Fortaleza; e o açude do Cedro (1984), em Quixadá, este de cunho paisagístico, talvez a grande ousadia do momento. A atividade de proteção, por parte da representação do IPHAN no Ceará, só será retomada 14 anos depois, com os tombamentos dos sítios históricos. Mas a boa notícia do período é o começo das atividades de proteção do patrimônio cultural na esfera estadual, com os

16 Alcântara Nogueira e Cláudio Martins, conforme depoimento do professor arquiteto José Liberal de Castro.

17 Dom José Mauro Ramalho de Alarcón y Santiago, primeiro bispo de Iguatu.

18 Posteriormente 3ª Superintendência Regional do IPHAN, abrangendo os estados do Ceará e Piauí, e atualmente IPHAN/CE.

19 Domingos Cruz Linheiro (Taperoá/BA, 1945), é arquiteto e urbanista formado

pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal da Bahia em 1969.

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tombamentos da antiga Casa de Detenção (1982), da Secre- taria da Estadual da Fazenda (1982), da Estação Ferroviária João Felipe (1983), do Farol do Mucuripe (1983), da Igreja de Nossa Senhora do Rosário (1983), da Agência Centro da Caixa Econômica Federal (antigo Palacete Ceará) (1983), do Palácio da Luz (atual sede da Academia Cearense de Letras) (1983), em Fortaleza; da Casa de Câmara e Cadeia (atual Museu Sa- cro São José de Ribamar) (1983) e da Igreja de São José de Ribamar (1983), em Aquiraz; do Museu Jaguaribano (1983), em Aracati; do Hotel Casarão (1983), em Barbalha; do Tea- tro da Ribeira (1983), em Icó; e do Teatro São João (1983), em Sobral (1983). A grande quantidade dos atos de proteção não esconde os mesmos propósitos e conceitos empregados nesse mesmo mister pelo órgão federal: são sempre imóveis destacados, em sua maioria públicos ou pertencentes à Igreja Católica, exemplares de uma arquitetura culta e relacionados às elites. A década de 1990 se abre com a consideração da rele- vância da cultura e, por conseguinte, da preservação do pa- trimônio cultural, como função ligada à dinâmica urbana e ao desenvolvimento econômico e social, não mais como algo acessório ou mero enfeite administrativo. As obras de restau- ração do Theatro José de Alencar, levadas a efeito em 1990 20 , até hoje a intervenção do gênero de maior vulto realizada no estado, evidenciaram essa nova condição, mesmo assim, às vezes esquecida pelas gestões municipais e estaduais. Se- guem-se os tombamentos no âmbito estadual: o Arquivo Pú- blico (antigo Solar Fernandes Vieira) (1995), o Banco Frota & Gentil (1995), o Cinema São Luiz (1991), a sede do IPHAN/

20 Executadas durante a gestão de Violeta Arraes quando Secretária Estadual da Cultura, na primeira administração de Tasso Jereissati como governador do estado do Ceará.

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CE (antiga Escola Normal) (1995), a Praça General Tibúrcio (1991) (também conhecida como Praça dos Leões) e a SUCAP/ COELCE (antigo Hotel do Norte) (1995), em Fortaleza; a Casa de Câmara e Cadeia de Barbalha (1995); e a Igreja de Nossa Senhora da Soledade (1991), em São Gonçalo do Amarante. Com a criação, em 1997, da Lei Nº 8.023 21 , a Prefeitu- ra Municipal de Fortaleza formaliza a sua responsabilidade quanto à proteção do patrimônio cultural com um diploma le-

gal específico, decorrência da Constituição Federal de 1988 22 . Anteriormente, os atos de proteção eram realizados por leis municipais específicas, abordando a preservação caso a caso. Dessa forma, foram protegidos a Capela de Santa Therezinha (1986), o Estoril (1986), os espelhos das lagoas de Messejana

e

Parangaba (1987), o Riacho Papicu e suas margens (1988),

o

Teatro São José (1988) e a Ponte dos Ingleses (1989), na

gestão da prefeita Maria Luiza Fontenelle 23 ; o Parque da Li- berdade (também conhecido como Cidade da Criança) (1991), na gestão do prefeito Juraci Magalhães 24 ; e a Feira de Arte- sanato da Beira-Mar (1995), na gestão do prefeito Antônio

21 Posteriormente substituída pela Lei Nº 9.347/2008.

22 “Título III – Da Organização do Estado – Capítulo II – Da União – Art. 23 – É competência comum da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios:

III – proteger os documentos, as obras e outros bens de valor histórico, artístico

e cultural, os monumentos, as paisagens, naturais e os sítios arqueológicos; IV –

impedir a evasão, a destruição e a descaracterização de obras de arte e de outros

bens de valor histórico, artístico ou cultural; V – proporcionar os meios de acesso à cultura, à educação e à ciência; Capítulo IV – Dos Municípios – Art. 30 – Compete

aos Municípios: IX – promover a proteção do patrimônio histórico-cultural local,

observada a legislação e a ação fiscalizadora federal e estadual” (Constituição da

República Federativa do Brasil de 1988).

23 Maria Luiza Menezes Fontenelle (Quixadá/CE, 1942), socióloga e professora

universitária, exerceu o mandato de prefeita municipal de Fortaleza no período

de 1986 a 1989, tendo sido a primeira mulher a ser eleita para o cargo, bem como

a primeira gestora de uma capital brasileira eleita pelo Partido dos Trabalhadores.

24 Juraci Vieira de Magalhães (Senador Pompeu/CE, 1931 – Fortaleza/CE, 2009),

médico, exerceu o mandato de prefeito municipal de Fortaleza em três períodos,

a saber, de 1990 a 1992, de 1997 a 2000 e de 2001 a 2004.

Cambraia 25 . Esses tombamentos revelam uma intenção de valorizar, além de paisagens notáveis de Fortaleza, espaços utilizados no cotidiano pelos moradores da cidade, todos de essência simbólica e afetiva, alguns mesmo de forte apelo po- pular, não se centrando propriamente em seus predicados ar- quitetônicos ou urbanísticos. Cumpre destacar também que, apesar da determinação constitucional, são ainda muito pou- cos os municípios cearenses que desenvolvem gestões oficiais no sentido da preservação do seu patrimônio cultural 26 , razão da diminuta importância que a cultura ainda detém nas admi- nistrações municipais em nosso estado. Os anos de 1990 vão ser marcados também pela emer- gência, no Brasil, do conceito de patrimônio imaterial no ce- nário da preservação cultural. Consideradas desde o início dos trabalhos do IPHAN nesse campo, merecendo inclusive a realização de extraordinárias pesquisas por parte de intelec- tuais do porte de Mário de Andrade e de Luís da Câmara Cas- cudo, suas manifestações (celebrações, formas de expressão, saberes e fazeres e lugares) e os meios necessários à sua salva- guarda, apesar da menção constante da Constituição Federal de 1988 27 , ainda não tinham um diploma legal específico, o que irá ocorrer em nível federal com a criação do Decreto Nº

25 Antônio Elbano Cambraia (Senador Pompeu/CE, 1942), economista e administrador, exerceu o mandato de prefeito municipal de Fortaleza no período de 1993 a 1996. 26 Itapipoca, Maranguape e Sobral são exemplos de municípios que têm leis específicas de preservação do patrimônio cultural e bens protegidos. 27 “Título VIII – Da Ordem Social – Capítulo III – Da Educação, da Cultura e do desporto – Seção II – Da Cultura – Art. 216 – Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais se incluem: I – as formas de expressão; II – os modos de criar, fazer e viver; III – as criações científicas, artísticas e tecnológicas” (Constituição da República Federativa do Brasil de 1988).

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3.551, no ano de 2000 28 . Em 1997, em Fortaleza, o IPHAN promove o seminário internacional “Patrimônio imaterial:

estratégias e formas de proteção”, evento que balizará a ela- boração do decreto anteriormente mencionado e que teve no documento intitulado “Carta de Fortaleza” a sua expressão máxima. Contudo, serão os tombamentos federais dos sítios históricos cearenses a realização de maior envergadura da década. Efetuados de forma tardia e protegendo trechos de cidades já bastante prejudicadas pela descaracterização e des- truição de vários edifícios e espaços significativos, iniciam-se com o de Icó, em 1998. Posteriormente, em 1999, o de So- bral, reclamado por um abaixo–assinado com mais de duas mil assinaturas encaminhado ao IPHAN/CE. Na sequência, os de Aracati (2001) e Viçosa do Ceará (2002), este precedido em poucos meses pelo tombamento da Igreja Matriz de Nos- sa Senhora da Assunção. Se os tombamentos de Icó, Aracati e Viçosa do Ceará foram efetuados tomando-se por base os processos sócio-históricos de formação e evolução dessas ci- dades e o seu rebatimento em tipologias arquitetônicas e mor- fologias urbanas de maior interesse, com rigor na seleção do acervo edificado passível de proteção, o de Sobral foi marca- do pela vinculação do urbano à sua dinâmica funcional, à sua forma atual e às principais referências culturais aí existentes, elementos estes definidores da preservação. Com efeito,

partiu-se do princípio que o patrimônio a ser preservado em Sobral não se compunha apenas das expressões ma- teriais dos processos históricos e culturais aí ocorridos mas também das manifestações culturais produzidas por esses processos (DUARTE JR., 2012, p.336),

28 Legislação esta que estabelece o registro como forma apropriada de salvaguarda do patrimônio imaterial.

o que diz da complexidade da pesquisa elaborada como base

para a efetuação do tombamento do sítio histórico sobralense, muito inspirada nos cânones da Nova Historiografia 29 e nos

moldes da “cidade-documento” 30 . As proteções dessas espe- ciais áreas contribuíram sobremaneira para a problematiza- ção das questões urbanas no estado, colocando a preservação como uma função a ser considerada de forma obrigatória nos processos de planejamento urbano municipal. O novo século se inicia com a intensificação dos pro- cessos de proteção, principalmente no âmbito do município

de Fortaleza. Procurando tirar o atraso do protagonismo da atuação municipal, a administração Fortaleza Bela, tendo à frente a prefeita Luizianne Lins 31 , deflagrou suas ações tom- bando os bens imóveis existentes na cidade protegidos nas es- feras estadual e federal. Com o apoio do Conselho Municipal de Patrimônio Histórico e Cultural – COMPHIC, procedeu ao tombamento de diversos imóveis de escalas, tipologias e essências arquitetônicas variadas e à abertura de uma gran- de quantidade de processos de proteção edilícia 32 , estes em boa medida prejudicados pela falta de regulamentação de instrumentos urbanísticos de mediação entre a preservação

e o mercado imobiliário e a atuação desconexa das instâncias

29 Corrente historiográfica surgida por volta de 1970 na França e correspondente à terceira geração da Escola dos Annales. Recusa a abordagem da História como simples narrativa e considera a participação efetiva dos indivíduos como elementos explicativos para os eventos históricos, enfatizando a objetividade. Seus principais nomes são Jacques Le Goff e Pierre Nora.

30 Conceito elaborado para a abordagem das áreas urbanas de interesse histórico-

-cultural que preconiza “o estudo das etapas de formação e desenvolvimento da cidade e a identificação das marcas dos processos históricos deixados no espaço” (SANT’ANNA, 1995, p.73).

31 Luizianne de Oliveira Lins (Fortaleza/CE, 1968), jornalista, exerceu o cargo de

Prefeita Municipal de Fortaleza em dois períodos, a saber, de 2005 a 2008 e de 2009 a 2012.

32 Para conhecimento do acervo mencionado, consultar http://www.fortaleza.

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municipais. O estado, mesmo à mercê de uma equipe técni- ca insuficiente, da inexistência de um órgão específico dota- do de maior estrutura e de melhores condições de trabalho e da falta de uma política pública de patrimônio, ou melhor, da carência de vontade política para com este assunto, regis- trou um aumento de bens tombados 33 no período da gestão do governador Lúcio Alcântara 34 , esforço este sem continuidade no governo posterior de Cid Ferreira Gomes 35 , expresso pelo funcionamento errático do Conselho Estadual do Patrimônio Cultural – COEPA. Na órbita federal, registrou-se apenas os tombamentos do conjunto de monólitos de Quixadá (2004), da Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção (2008) e do Sítio Alagadiço Novo (2012), este em complementação à proteção da Casa de José de Alencar. Quais os desafios à proteção do patrimônio cultural edificado cearense? Se estas manifestações de arte e história ainda permanecem desconhecidas da maior parte do público é porque não há ainda obras de referência ou outros meios de promoção do acervo à disposição do interesse geral. Numa palavra: sabe-se ainda muito pouco sobre os marcos arqui- tetônicos e urbanísticos do Ceará. Permanecendo dissociado dos processos de desenvolvimento socioeconômico, o patri- mônio não cumpre a sua função de “instrumento” (DUARTE JR., 2012, p.429) para a melhoria das condições de vida das comunidades, principalmente aquelas mais carentes, o que faz com que seja impositiva a sua consideração como ativo e

34 Lúcio Gonçalo Alcântara (Fortaleza/CE, 1943), médico e escritor, dentre outras

atividades como político, exerceu o cargo de Governador do Estado do Ceará no período de 2002 a 2005.

35 Cid Ferreira Gomes (Sobral/CE, 1963), engenheiro civil, exerceu o cargo de

Governador do Estado do Ceará no período de 2006 a 2009, tendo sido reeleito para cumprir o mandato no período de 2010 a 2013.

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recurso fundamental, conforme estabeleceram as Normas de Quito, de maneira a que possa se consolidar como eminen- te função urbana e influir nos rumos dos planejamentos das cidades. Para tanto, faz-se mais que necessário que os muni- cípios se organizem e estruturem para a montagem de uma

política pública de patrimônio, que deverá se iniciar com um amplo trabalho de inventariação dos seus acervos, em largo escopo, pois, como disse muito bem o doutor Rodrigo Melo Franco de Andrade, “só se conhece o que se preserva e só se preserva o que se conhece”. Essa operação, realizada com

o apoio do estado e do IPHAN, trará a lume expressões de

arte, história e técnica que confirmarão a riqueza e a diver- sidade do nosso acervo construído, num momento em que

o patrimônio se expande cronológica, tipológica e geografi- camente, ampliando-se também o público interessado em

seus assuntos. Para tanto, as ações dos conselhos municipais

e do COEPA conformam-se como um ponto-chave, de forma

a garantir essência democrática às decisões sobre o que pro-

teger e preservar. De modo específico, a criação de um órgão estadual de patrimônio, nos moldes dos institutos existentes na Bahia e em Minas Gerais, autônomos e bem estruturados, preencherá a preocupante lacuna atual, resolvendo a dívida do estado para com essa faceta de nossa cultura. Na mesma linha, a atualização ou a criação das legislações patrimoniais, reconhecendo as peculiaridades e a complexidade das mani- festações culturais e as maneiras apropriadas de salvaguarda, tendo em vista a existência do tombamento, do registro e da chancela 36 . Por fim, reconhecer que proteger e preservar são verbos de significados diferentes, mesmo operando sobre o mesmo

36 Forma específica de proteção das paisagens culturais, no âmbito federal, expressa pela Portaria IPHAN Nº 127/2009.

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objeto; o primeiro se refere a um ato legal e distintivo que impõe uma tutela legal estatal sobre um determinado bem. O segundo diz respeito à manutenção e ao uso deste mesmo bem, à sua passagem pelo tempo e ao seu usufruto pela comu- nidade. Saibamos distingui-los e bem utilizá-los.

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FORMAÇÃO DE PROFESSORES: DE PATINHO FEIO À MUSA COBIÇADA

Francisco Egberto de Melo

Experiência e expectativa são os dois aspectos funda- mentais utilizados por Koselleck (2002) para pensar o pas- sado e o presente de um determinado tempo histórico e creio que são úteis para nos ajudar a refletir um pouco sobre o mo- mento histórico que estamos vivendo no que diz respeito ao ensino das disciplinas escolares e sua relação com as ciências correlatas, especialmente quando pensamos na relação que se estabelece entre os cursos de licenciatura como espaços for- mação de professores e lugar de pesquisa. O artigo que vos apresento é resultante de uma reflexão so- bre esta conturbada relação à luz das experiências de um passa- do recente com permanências bastante presentes na atualidade. É inegável que as áreas de ensino das diversas licencia- turas como História, Geografia, Matemática, Física, dentre outras, vêm se afirmando nos últimos anos nos espaços aca- dêmicos, não só como área de formação, mas, também, como objeto de pesquisa. De início, as pesquisas no campo ficaram concentradas nos programas de pós-graduação em educa- ção. Não resta dúvida que a Educação ainda tem este domí- nio sobre estas pesquisas, mas, aos poucos, os programas de pós-graduação nas áreas específicas começam a desenvolver pesquisas no campo do ensino. O mesmo pode-se dizer nos cursos de graduação, quando os alunos dão seus primeiros passos como pesquisadores e professores. Em boa medida, esse diálogo teve seu crescimento nos últimos anos, notadamente nos governos Lula e Dilma, com os investimentos do governo federal em projetos de incentivo às licenciaturas, como, por exemplo, o Programa Institucional de

Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID) e o Prodocência. Difí- cil, hoje, participarmos de eventos nos quais não identificamos pesquisas e/ou relatos de experiências resultantes destes e ou- tros programas de valorização na formação do professor. Não faz muito tempo, havia um considerável desprezo por parte dos próprios professores dos cursos de licenciatura e dos programas de pós-graduação em relação ao ensino. Os alu- nos que se preparavam para a docência acabavam pagando o preço, e muitas vezes, um preço muito alto, das pesquisas que seus professores queriam desenvolver em outros áreas. Muitos entendiam que para formar seus alunos bastavam as leituras das teorias e pesquisas mais recentes, alguns preferiam iden- tificar os melhores alunos e prepará-los para as seleções das pós-graduações nos campos mais diversos, menos no ensino. No entanto, observa-se que, nos últimos tempos, tem havido um deslocamento para os projetos governamentais voltados para a docência, de pesquisadores que tradicional- mente se dedicaram às pesquisas em diversos campos do co- nhecimento das licenciaturas enquanto viam o ensino como um apêndice da formação profissional, ainda que isso ocor- resse em cursos de formação de professores. Aparentemente, isso pode significar que o ensino passa a ocupar o lugar sempre reivindicado pelos que sentiram no dia a dia as dificuldades pelo envolvimento com esta área, ou por serem professores da escola básica. Resta saber qual a medida de envolvimento destes pesquisadores com o novo nicho das licenciaturas. Normalmente, quando as águas do sertão nordestino começam a secar, muitas aves de arribação voam em busca de áreas mais verdes. Mas ali não fazem ninho, preferem re- tornar ao seu habitat de origem quando a seca passa. Talvez estejamos vivenciando um momento sazonal de envolvimento com o ensino. Dizendo de outra forma, não vislumbro que o

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namoro dos pesquisadores e cientistas com o ensino se trans-

forme em casamento, me parece que são apenas flertes passa- geiros, enquanto o poço de verbas não seca. É difícil acreditar que uma tradição de discriminação de longas datas tenha sido quebrada, ainda que tenhamos um campo que vem se afir- mando pela organização, luta e produção acadêmica.

É fácil perceber isso quando se observa que professores

de graduação e pós-graduação disputam os projetos governa- mentais para o ensino e formação docente, como o PARFOR, PRODOCÊNCIA, PIBID, PROCAMPO, Mestrados profissio- nais, dentre outros, mas na hora de abrirem concursos para preencher os seus quadros, inclusive na área de ensino, dão prioridade aos candidatos que têm uma formação verticaliza- da (graduação, mestrado e doutorado), quando não excluem completamente os que mesclam sua formação com a Educa- ção, apesar de serem estes os profissionais predominantes que

têm atuação e pesquisa nas áreas de ensino em nível superior.

A experiência do passado demonstra que esta contra-

dição é fruto de uma cultura de longa duração que se arrasta por anos em nossa formação como professores e historiadores que necessita ser visitada para possamos compreendê-la me- lhor. Fazendo, assim, talvez possamos rever algumas ideias e marcos cristalizados de tanto se repetirem, como sugere a professora Margarida Maria Dias de Oliveira, por exemplo, no que diz respeito às generalizações feitas com relação aos Estudos Sociais, impedindo que sejam observadas as experi- ências diferenciadas do modelo da ditadura militar, inclusive as positivas (OLIVEIRA, 2013, p.232). Aceitando esta provocação, resolvi ler os anais da ANPUH, 1 para identificar a medida da resistência entre os his-

1 Até 1977, a ANPUH – Associação Nacional de Professores Universitários de His- tória, hoje Associação Nacional de História – vetava a participação dos professores da escola básica em suas atividades (FONSECA, 1995).

FORMAÇÃO DE PROFESSORES: DE PATINHO FEIO À MUSA COBIÇADA

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toriadores nos anos de 1970 às imposições do regime no que diz respeito à substituição da História e da Geografia pelo ensi- no dos Estudos Sociais e até que ponto posições sobre a relação ensino e pesquisa, teoria e prática, licenciatura e bacharelado, presentes nos dias atuais eram postas naquele momento. Para este artigo, trabalhei com os Anais do Simpósio da ANPUH, em 1977, um dos momentos cruciais em que o ensi- no era o patinho feio da academia, apesar de algumas mani- festações em sentido contrário. Na História, temos os artigos da professora Emília Vioti da Costa (1957, 1959, 1960 e 1963) e os livros de Mirian Moreira Leite (1969) e Terezinha Deu- sdará (1972), por exemplo. Na segunda metade dos anos de 1970, a preocupação com o ensino nos cursos universitários de História começava a dar os primeiros passos em busca de um lugar no espelho do lago das vaidades acadêmicas. Dois fatos de 1977 marcam, portanto, esse novo olhar para o ensino de História. Em dezembro, foi a publicação da Revista de História da USP (v. LVI, n° 112, Ano XXVIII, de 1977) com uma seção que trazia o título Questões Pedagógi- cas. Neste caso, era um artigo de Antonio Alberto Banha de Andrade com o título A Reforma Pombalina dos estudos me- nores em Portugal e no Brasil (linhas gerais para um livro que importa escrever). O outro fato foi a participação dos professores da escola secundária no IX Simpósio da ANPUH, posto que até o Sim- pósio anterior era vetada. Ou seja, até 1977, os professores do ensino secundário eram chamados para a academia apenas para ouvir e não para falar, ou decidir. Mesmo naquele ano, quando os professores da escola básica somados aos alunos da graduação eram a maioria dos participantes do Simpósio Nacional, estes foram discrimina- dos conforme se pode observar nos Anais do IX Simpósio Na-

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cional do Professores Universitários de História, realizado em Florianópolis, entre os dias 17 e 23 de julho de 1977. Naquele ano, se inscreveram, conforme os anais 2 :

quinhentos e trinta e dois (532) interessados, assim categorizados: 225 professores universitários, 62 professores secundários e 245 estudantes; dos quais somente aos primeiros, de acordo com os Estatutos da entidade, era facultada a participação efetiva, tanto nas comunicações, como nas discussões que se lhe seguiram, enquanto aos demais, deveriam permanecer, apenas, como observadores (ANPUH, 1977, p.15).

Destaque-se que para garantir a efetivação do determina- do, a Secretaria do Simpósio providenciou “distintivos diferen- tes para cada categoria de participantes” (ANPUH, 1977, p.45). Evidentemente, que esta posição da ANPUH sempre foi contestada, ainda que de forma isolada. No entanto, em 1977, a inserção dos professores da escola básica na entidade ganhou o apoio de cerca de cem associados, que subscreve- ram uma moção que teve a adesão do presidente Eurípedes Simões de Paula, votada, aprovada e publicada na Assemblea Geral, no dia 20 de julho de 1977. Pela moção apresentada por professores como Fer- nando Antonio Novais, Maria Stella Bresciani, Dea Ribeiro Fenelón, Edgar De Decca, Antonio Torres Montenegro, José Jobson de Arruda e Alice Canabrava, para citar os mais co- nhecidos entre nós, e aprovada na Assembleia por 73 votos a favor, 4 contra e 5 abstenções, os § 1° e § 2° do Art. 20, foram substituídos por um único § com a seguinte redação:

A ANPUH assegura o direito a participação de pro- fessores secundários, professores de matérias afins, estudantes de pós-graduação e graduação em todas as

2 Anais do IX Simpósio Nacional da ANPUH, Florianópolis, julho de 1977.

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reuniões de seus Simpósios, salvo o direito de voto na Assembléia Geral. (ANPUH, 1977, p.16).

Observe-se que a deliberação mantém o poder de de-

cisão exclusivo para os professores de Institutos de Ensino Superior e somente teria validade para o Simpósio seguinte,

o de 1979, uma vez que o Simpósio de 1977 seguiu o regula-

mento definido em Aracaju, no encontro anterior, em seu Ar- tigo 4°: “A apresentação das comunicações ao IX Simpósio é reservada aos professores de História dos institutos de ensino superior participantes do certame” (ANPUH, 1977, p.45). Em todos os espaços do Simpósio os professores do ensino secun- dário eram silenciados. Na Assembléia Geral, somente pode- riam fazer uso da palavra e votar, os “professores de História dos institutos superiores de ensino, inscritos no certame (art. 11, § segundo, ANPUH, 1977, p.49). Apesar do caráter limitado, a decisão de inserir os pro- fessores da rede básica de ensino nas atividades do Seminá- rio Nacional gerou uma “crise face às mudanças estruturais recém aprovadas” (ANPUH, 1977, p.18), a preocupação em abrir os espaços da Associação maior dos historiadores evi- dencia a tradição deixa muito clara a tradição bacharelesca de nossa formação. A outra novidade do Seminário de 1977 foi definir para

o encontro seguinte a realizar-se em Niterói uma ampliação do debate sobre o ensino de História, uma vez que um dos três temas para o X Simpósio Nacional era “Metodologia e Técnica do ensino e da pesquisa Histórica” (ANPUH, 1977, p.16), isto porque abria-se o debate para os diversos níveis de ensino, ao contrário do que ocorrera no IX Encontro, em Florianópo- lis, de 1977, quando o tema sobre o ensino, definido em 1975, em Aracaju, era bem mais restrito: “Metodologia do ensino de História em nível superior” (ANPUH, 1977, p.26).

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Neste caso, o tema recebeu a inscrição de 12 trabalhos, enquanto os outros dois, O homem e a técnica teve 36 tra- balhos (17 de História Geral e 19 de História do Brasil) e Le- vantamento de fontes primárias, 55 comunicações. (ANPUH, 1977, p.27-28). Os números demonstram claramente o desin- teresse pelo tema do ensino, mesmo que específico para o en- sino superior. Quanto aos minicursos, foram ofertados cinco, nenhum deles voltado para o ensino, apesar de serem ministrados no período noturno em estabelecimentos de ensino de Florianó- pollis, de onde se conclui que havia a intenção de atingir os professores da escola básica. Era o saber acadêmico se sobre- pondo ao escolar. Caberia aos professores secundários ouvir os iluminados da academia e fazerem a transposição didática para os sues alunos. Dos minicursos do Seminário da ANPUH de 1977, o que mais recebeu inscrições foi Política econômica e monarquia ilustrada – a época pombalina, ministrado por Francisco José Calazans Falcón, com 162 inscritos, de onde se tem uma ideia dos temas de maior interesse dos participantes. Nenhum dos minicursos voltava-se para o ensino, apesar de serem mi- nistrados no período noturno em estabelecimentos de ensino de Florianópolis, de onde se conclui que havia a intenção de atingir os professores da escola básica. Quanto às mesas-redondas, de 1977, das quatro apre- sentadas, 3 se dedicavam ao ensino de História e ao currícu- lo, no entanto, mais uma vez, a preocupação era com o nível superior e a pesquisa, como se pode observar pelos títulos:

História no Currículo da Graduação das Faculdades de Filo- sofia, A História e o problema dos Estudos Sociais, As Novas Técnicas do Ensino de História em Nível Superior. (ANPUH, 1977, p.29).

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Dos doze trabalhos inscritos nos Simpósio sobre o en- sino de História no ensino Superior, merecem destaque as comunicações da professora Antonieta de Aguiar Nunes da Faculdade de Filosofia Carlos Pasquale, São Paulo, com o tí- tulo O Ensino de História em Faculdades de Estudos Socais (ANPUH, 1977, p.967) e História e Estudos Sociais um estu- do comparativo dos guias metodológicos do MEC, de Raquel Glezer, do Departamento de História da Faculdade de Filoso- fia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (ANPUH, 1977, p.863) Para pensarmos um pouco o lugar social da professora Antonieta vale destacar que era licenciada em História pela Universidade Federal da Bahia, desde 1963, e estava concluin- do o bacharelado em Serviço Social na Faculdade Paulista de Serviço Social. Vinha de uma trajetória profissional aberta a outras possibilidades de trabalho do historiador, tendo em vista que 1975, no VII Simpósio, fizera uma comunicação so- bre um trabalho interdisciplinar do qual participara com o título A participação do historiador numa equipe interdisci- plinar de restauração de monumentos e obras de arte (VIII Simpósio Nacional dos Professores Universitários de Histó- ria, 1973, Belo Horizonte. ANPUH, São Paulo, 1974). Quanto à sua comunicação, em 1977, abre espaço para repensarmos o ensino de Estudos Sociais, tradicionalmente visto como o grande vilão e carrasco da História da Educação Básica no Brasil. Segundo Antonieta Aguiar Nunes, o problema dos Estu- dos Sociais não foi o propósito da lei que o criou, mas a forma como a mesma foi utilizada, pois a Lei de 1971 “criou uma área multidisciplinar denominada Estudos Sociais que abrangia como conteúdos específicos História, Geografia e Organização Social e Política do Brasil” (ANPUH, 1977, p.979). O proble-

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ma foi que na hora de contratar os professores para ministrar os conteúdos, muitas escolas preferiram contratar apenas um professor, por uma questão de economia. E daí, várias facul- dades viram nesse campo um excelente nicho para investir na formação rápida de professores e aquisição de lucro fácil. O artigo de Antonieta nos fornece algumas evidências

contrárias a duas interpretações extremadas sobre a criação e

o ensino dos Estudos Sociais que foi sedimentado no final doa

anos de 1980 e início de 1990: primeiro que os Estudos Sociais resultou do autoritarismo ideológico de Estado da Ditadura

Militar – neste caso, os professores e alunos da Escola Básica e do Ensino Superior foram meros coadjuvantes, obrigados

a aceitar as imposições do Estado; segundo, em pesquisas e

interpretações mais recentes de que os professores da escola básica foram resistentes e que se contrapunham ao ensino dos Estudos Sociais e burlavam em suas práticas cotidianas as de- terminações do governo militar, enquanto havia uma ampla mobilização da ANPUH para a derrocada dos Estudos Sociais. Não estou negando estes fatos e não podemos ser ingê- nuos em acreditar que não havia interesses de hegemonização da Ideologia de Segurança Nacional à frente dos Estudos So- ciais, nem tampouco posso negar o papel dos professores que fechavam as portas das salas para que os olhos e ouvidos do regime não lhes escutassem as aulas, ou de alguns professores universitários que armaram suas barricadas em suas associa- ções e Departamentos. Mas temos que considerar que havia aqueles que viam os Estudos Sociais com bons olhos e defenderam por acredi- tarem que era o melhor para a aprendizagem de seus alunos. Além disso, parece haver uma supervalorização da resistência aos Estudos Sociais nos anos de 1970, a considerar o que afir- ma Raquel Glezer de que existiam professores preocupados

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com o “problema dos Estudos Sociais e de História, mas que até agora [1977] não encontrou nenhum trabalho impresso (GLEZER, ANPUH, 1977), o que lhe incentivara a fazer aque- la comunicação. Raquel Glezer faz diversas críticas enfatizando o fato dos dois manuais, tanto para os Estudos Sociais como para a História, serem escritos e prefaciados pelas mesmas pesso- as e de que havia um direcionamento para que o professor de História se sentisse superado e, mesmo permanecendo na especificidade da História, se rendesse aos novos tempos con- templados pelos Estudos Sociais e afirma:

Com tudo que acabamos de dizer, não somos contra o material didático fornecido pela FENAME. Ao contrário, consideramos este material de alta qualidade, ofere- cendo grandes oportunidades de trabalho com alunos, e pelo baixo preço acessível a todos; mas queremos ressaltar a responsabilidade do professor de História, que não pode ser um mero transmissor da Ideologia pronta, e sim um elemento crítico do material didático colocado à sua disposição (ANPUH, 1977, p.877-878).

O Simpósio de 1977 da ANPUH, realizado um ano após a publicação da portaria 790 de 1976, reservava exclusiva- mente aos professores formados em Estudos Sociais o direito de ensinar Estudos Socais nas escolas de 1° Grau, excluídos, portanto, os formados em Geografia e História. Apesar do momento, não encontramos nos Anais do Simpósio, manifes- tações em sentido contrário, de forma mais efetiva. A comunicação mais relevante que encontramos é da professora Antonieta que discorda não da criação da Lei, mas do fato da mesma ter sido desvirtuada e seu espírito não ser atendido, mas sim o interesse comercial de diretores de esco- las particulares (ANPUH, 1977, p.970).

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Para a professora, havia duas possibilidades de se for- mar em Estudos Sociais: “profissionais com visão crítica ou integradora, ou profissionais superficialmente polivalentes” (idem). Para a professora, o tempo de quatro anos era pouco para formar “professores críticos, capazes de ter o domínio regular de cada área e de síntese e integração necessária aos Estudos Sociais” (idem). Mesmo fazendo a crítica, no entanto, a professora, em nenhum momento, propõe o fim dos Estudos Sociais, mas saídas que possam superar as dificuldades encontradas nas disciplinas históricas como o trabalho conjunto entre os pro- fessores, como forma de facilitar ao aluno da licenciatura de Estudos Socais a capacidade integradora. Mas, destaca que esta ação se torna difícil à medida que os professores são mal remunerados e por não terem disponibilidade os alunos ficam abandonados. Ao fazer a crítica, a comunicação ressalta o papel do pro- fessor das instituições de ensino superior no processo de for- mação de professores. O interessante de se observar na fala da professora é que as questões levantadas por ela, em 1977, pare- cem extremamente atuais. Se não vejamos quando levanta uma problemática, que muitas vezes se pensa ser recente:

Face a este aluno despreparado e aflito, nem sempre

consciente do peso da tarefa que lhe cabe, como deve

proceder o docente de História?

devemos pensar que estamos formando professores de Estudos Sociais e não pesquisadores em História e, por- tanto, preocupar-se em fornecer uma bibliografia onde o aluno encontre os mais recentes pontos de vista sobre cada assunto de forma já sintetizada e coerentemente organizada (ANPUH, 1977, p.973).

Em primeiro lugar,

Veja-se, portanto, que havia uma clara desvalorização da formação do professor. Este não precisava desenvolver ha-

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bilidades de pesquisa, o trabalho com as fontes e documentos seria dispensável, caberia apenas uma formação de acúmulo enciclopédico adquirido. As mudanças que ocorreram dos anos de 1970 para cá em relação ao ensino de história na escola básica foram con- sideráveis, tanto em pesquisas como na produção historiográ- fica, No entanto, ainda temos muitos cursos de bacharelado disfarçados legalmente de licenciaturas. Mesmo com todo debate e produção acadêmica que se expressam nas pesquisas e encontros, como no Encontro Nacional Perspectivas do Ensino de História, realizado desde 1988, o Encontro Nacional de Pesquisadores em Ensino de História, realizado desde 1993, e dos diversos Simpósios Te- máticos presentes nos encontros da ANPUH e da Associação Nacional de Geografia (AGB), ainda se repete que a história e a geografia na escola básica são decorebas e que não mudam, ocultando os esforços e silenciando o trabalho de professo- res que se desdobram para um ensino de qualidade capaz de formar alunos que sejam capazes de questionar a realidade social, espacial e histórica na qual estão inseridos. Soma-se a isso a concepção hierarquizada dos saberes e conhecimentos que envolvem o ensino. Nossa tradição per- petuou a ideia de que é na academia e nos institutos que se produz conhecimento, cabendo à escola básica sua repetição de forma vulgarizada. E tudo isso num momento em que se articulam nas es- feras do MEC uma reforma curricular para o Ensino Médio que aposta num retorno ao ensino por áreas. Este filme nós já vimos e não gostaríamos de assisti-lo novamente.

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VERSITÁRIOS DE HISTÓRIA, 9, Anais

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2013.

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COMO OS MITOS ACERCA DO CEARÁ E DO SER CEARENSE CIRCULAM ENTRE AS FESTAS COMUNITÁRIAS E A CULTURA ESCOLAR 1

Mitos sobre o Ceará e o Ser Cearense

José Edvar Costa de Araújo

Existe uma cearensidade, entendido este termo como um conjunto de características, atributos e valores que carac- terizam um típico indivíduo do universo físico e cultural do estado do Ceará? Existe um Ceará profundo, compreendido como um determinado ambiente humano, como um modo de ser vin- culado a certos arquétipos paisagens que possam ser consi- derados genuínos em comparação com outro Ceará, litorâneo ou superficial? Existe um Ceará Moleque assinalado por um modo particular e inconfundível de interpretar e de se posicionar diante do mundo e da vida, fazendo troça da própria desgraça ou sendo capaz de zombar do estabelecido? Talvez seja impossível defender e afirmar peremptoria- mente qualquer um destes vieses interpretativos ou de outros assemelhados que circulam entre os considerados especialis- tas ou autoridades em algumas das áreas de conhecimento e entre pessoas comuns. No entanto, é incontestável que tais ideias circulam e fundamentam o pensamento e as ações de muita gente que pensa e que constrói o Ceará no plano factual ou imaginário. É verdade também que estas perspectivas são fortes no plano das crenças, das ideologias e das paixões telúricas. O

1 Texto da palestra apresentada no II Simpósio Nacional de Estudos Culturais e Geoeducacionais – SINECGEO, na mesa-redonda Diálogos entre Educação, Geografia, História e Arquitetura.

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que não significa dizer que não tenham alguma legitimidade

e alguma importância do ponto de vista do conhecimento sis-

temático; e que desempenhem um papel indiscutível na cons- trução de uma imagem e de um perfil civilizatório, por mais que muitas vezes possa parecer absurdo ou fique ao sabor da imaginação de cada um. Também é verdade que outras vertentes interpretati- vas construídas com base na lógica das ciências têm surgido e ocupado espaços. Ao lado, junto, concordando ou discordan- do destas primeiras vertentes, em parte ou no todo. Refiro- -me às contribuições que, nas décadas mais recentes, alguns dos campos de conhecimento científico têm produzido sobre

o Ceará: entre eles, a sociologia, a antropologia, a educação, a geografia, a história as artes visuais e a arquitetura. A oportunidade deste evento e desta mesa parece as- sim propícia para traçar algumas reflexões e desenhar alguns pontos de vista sobre as possibilidades de provocar diálogos da Educação, Geografia, História e Arquitetura entre si com outras disciplinas; diálogos que têm como moldura o Ceará, o ser cearense, o construir do ser cearense.

O Ceará das Festas Comunitárias

Do meu lugar e da minha experiência tento fazer este exercício a partir de descrições e comentários que venho acu- mulando, ao longo de algumas décadas, sobre as festas que ocorrem em diferentes lugares do estado do Ceará, muitas vezes denominadas de festas populares pelos estudiosos dos campos da educação, da cultura e da comunicação e que, nes- ta oportunidade, vou chamar de festas comunitárias. As observações e as especulações que pretendo fazer poderiam ser feitas em torno de outros eventos, mas um dos

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meus lugares e experiências na sociedade cearense tem sido o do estudo sobre as culturas populares e, neste campo, as festas comunitárias têm sido objeto de contínua observação. Além de apresentarem uma vantagem adicional: nelas estão presentes muitos outros elementos que de alguma forma podem revelar modos de ser, de fazer, de contar, de aprender e ensinar das populações e dos setores sociais do Ceará que muitas vezes es- tão associados às interpretações sobre a cearensidade, o Ceará profundo, o Ceará moleque e outros que tais. Nestas festas estão presentes as histórias e as paisagens dos lugares e de seus habitantes; histórias que registram, escondem ou exageram seus feitos, virtudes e defeitos. Fei- tos que estão ligados ao modo de ocupar e usar os espaços, “dominando-o” ou por ele “sendo dominado”. Dominação que implica na consideração de arquiteturas naturais ou criadas e recriadas, teatros e anfiteatros naturais e construídos, casas grandes e cabanas, cercas e quintais. A partir do exame como são criadas, produzidas e con- sumidas; dos rituais e personagens que as envolvem com inúmeros sentidos e finalidades; a partir dos espaços que as conformam ou dos espaços que seus fabricantes criam; a partir dos saberes e valores que são expressos, transmitidos, negados ou negociados; a partir dos modos de organização, produção e consumo de lazer e de significação; a partir dos modos de repousar, de se alimentar, de se vestir, de reveren- ciar as figuras e os panteões divinos; por todos estes e outros elementos constituintes, a festas são universos incomparáveis para compreender, observar, aprender, transmitir e arriscar interpretações e construções de sentido em relação às inter- pretações mencionadas no início deste texto. Considero necessário, antes de ir adiante, esclarecer o uso da expressão festas comunitárias. Desde certo tempo ob-

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servo que a expressão festa popular não corresponde mais ao modo pelo qual meu olhar capta estes eventos socioculturais. O uso dos termos cultura popular ou festa popular inú- meras vezes tem produzido interpretações dicotômicas, como se fosse possível operar uma separação definitiva entre os ele- mentos próprios ou de uso de uma e de outra classe social, geralmente classificadas como a elite e o povo. A observação e a experiência vivida tem mostrado que tais elementos se mis- turam. E atualmente esta mistura não diz respeito apenas ao que vem de classes sociais distintas, mas também das gera- ções distintas e de muitos outros sujeitos coletivos que tem surgido no cenário social. De modo que as festas originadas há bastante tempo, fora do circuito da indústria cultural, são cada vez mais opor- tunidades de manifestações de um tipo de arranjo comuni- tário: em que a expressão e a criação de significados envol- vem a participação de diversos segmentos e sujeitos sociais, provocando intensas relações de convergência e divergência, de semelhanças e diferenças, de disputas, acordos e conflitos. Neste intenso movimento de sociabilidade estão implícitas re- lações entre conhecimentos, saberes e práticas surgidas em contextos passados e conhecimentos, saberes e práticas origi- nadas em contextos contemporâneos, e cujo estudo e compre- ensão transitam por campos e disciplinas como a pedagogia, a geografia, a história e a arquitetura e outras áreas não incluí- das no título desta mesa. Da minha experiência pessoal de observação e estudo selecionei algumas festividades para iniciar alguma reflexão perceptiva e especulativa. Diversas: pelos sujeitos sociais e as motivações que as sustentam ao longo de um determinado pe- ríodo; pelos desdobramentos e evoluções nas formas de orga- nização e de diálogo com o público, considerando os tempos

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passados e os dias atuais; os espaços naturais em que se reali- zam e que influenciam suas formas de existência e mudanças; os espaços construídos para sua realização tradicional ou in- corporação de novos significados. Em termos do estado do Ceará são festas associadas a algum tipo de relação com o domínio do sagrado ou do so- brenatural, mas fundadas em diferentes relações com os ditos domínios; localizadas em regiões naturais e culturais que em sua diversidade expressam a multiplicidade que se oculta por trás da convenção de um Ceará aparentemente homogêneo:

ocorrem em municípios litorâneos, sertanejos ou serranos; em pequenas localidades interioranas, em cidades médias ou na metrópole capital. Independentemente das relações que estabelecem com o cotidiano e com o sagrado, da região onde acontecem, de serem grandes ou pequenas, de serem comu- nitárias ou massificadas, recentes ou muito antigas, atraem pessoas de todos os lugares e simultaneamente são aconteci- mentos locais e universais.

Sucintas Descrições de Festas Comunitárias do Ceará

y Os caretas de Jardim Jardim, sede do município do mesmo nome, está loca- lizada no cimo da chapada do Araripe, fronteira com o estado de Pernambuco, fazendo limites com os municípios cearenses de Barbalha, Missão Velha, Porteiras e Jati e com o município pernambucano de Serrita. Em certas localidades rurais, brin- cam os moradores ao dizer que uma parte de suas casas está em Pernambuco e outra no Ceará; de acordo com as descri- ções bem-humoradas, até as águas das chuvas aí se dividem; caindo de um dos lados dos telhados correm para o Ceará, caindo do outro, correm para Pernambuco.

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Anualmente acontece no município de Jardim, dissemi- nada por todas as localidades rurais e urbanas, centralizada na sede do município, a Festa dos Caretas. No artigo A Festa dos Caretas – parte II, publicado no dia 2 de abril de 1991 no jornal O POVO destaquei a hipótese segundo a qual “os acon- tecimentos que hoje formam a Festa dos Caretas reúnem três elementos da tradição popular: os caretas, o roubo durante a Semana Santa e a malhação do Judas”. Em outra passagem do texto afirmava que “ganhan- do adeptos e enfrentando oposições, a Festa dos Caretas faz concessões ao mesmo tempo em que cria as condições para a transgressão nos limites sociais aceitáveis. Uma das conces- sões foi o fim do saque ao sítio do Judas pouco antes da sua derrubada. Este era um dos momentos de maior violência e causa potencial de conflitos. Em compensação, a organização da festa, atualmente soba a responsabilidade da Sociação dos Karetas de Jardim – SKJ, dá total assistência aos caretas que são perseguidos por causa dos “roubos” de perus, galinhas, feijão, cana e outros alimentos que servem de alimentação para os brincantes”. Bem próximo da cidade de Jardim, embaixo, no sopé da chapada do Araripe, está Barbalha, cujo calendário religioso e civil destaca no mês de junho a Festa Santo Antônio, Pa- droeiro do município por imposição do catolicismo quando este considerava toda a população como parte da comunidade católica.

ƒ Santo Antonio e o pau da bandeira Escrevia no mesmo ano de 1991 que a Festa de Santo Antônio padroeiro de Barbalha se multiplica em festas, cada uma com sua face própria; esferas distintas no conjunto das relações da comunidade, inter-relacionadas pela história pas-

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sada e pelo destino futuro: a festa religiosa, a festa social e a do pau da bandeira.

A festa religiosa está indissoluvelmente ligada ao sur-

gimento da povoação, conforme o testemunho dos estudiosos Marchet Callou e Napoleão Tavares Neves, ancorados aos es-

tudos de outros tantos historiadores regionais. A povoação ini- cial, depois município e cidade surge em redor da capelinha do sítio da Barbalha de propriedade do capitão Francisco Maga- lhães Barreto e Sá, que consagra seus domínios materiais e hu- manos ao santo padroeiro da localidade de origem em Sergipe.

A festa do Pau da Bandeira também tem origem antiga.

Não havendo documentos ou informações precisas, os dois es- tudiosos da história local já citados concordam que as referên-

cias mais antigas ao cortejo do mastro podem estar ligadas à passagem do padre Ibiapina pela região do Cariri. O padre mes-

tre aconselhava o hasteamento da bandeira do Santo Padroeiro nos dias de festa diante das igrejas ou das casas onde houvesse comemoração. Independentemente desta especulação, o corte- jo do pau como um momento destacado da festa de Santo An- tonio em Barbalha, com algumas das características atuais, tem seguramente mais de 60 anos. Esta certeza se baseia em que há mais de 60 anos a árvore vem sendo doada pelo doutor João Filgueira Teles e retirada de seu sítio São Joaquim.

A chamada festa social, onde tem lugar quermesses, lei-

lões e em épocas mais recentes os shows e forrós, também se origina da festa religiosa. Inicialmente eram apenas as barra- cas no patamar e ao lado da Igreja onde aconteciam os leilões em benefício da paróquia; em torno delas os partidos, o Azul e o Encarnado, disputavam o mérito da maior arrecadação. A festa social cresceu e passou de acontecimento de natureza fa- miliar para o parque de diversões amplo e diversificado mon- tado na praça Engenheiro Dória; depois agigantou-se no Par-

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que da Cidade e nos dias atuais divide-se entre a característica inicial de festa familiar ao lado da matriz e a existência de nu- merosas festas espalhadas por inúmeros recantos da cidade. Os estudos sobre a Festa de Barbalha assinalam o ano de 1975 como o momento da passagem da pequena festa lo- cal marcadamente comunitária para a Festa de consumo tu- rístico. Naquele ano o prefeito Fabriano Sampaio colocou em execução a ideia de realizar a festa social na praça ao lado da Igreja do Rosário e a ela incorporou os produtos artesanais, as comidas típicas e os grupos folclóricos. Estava iniciada a era de atenção ao potencial turístico da Festa de Santo Antônio.

ƒ São Pedro no mar do Mucuripe Em artigo intitulado No revolto mar da vida, publicado no jornal O POVO de 4 de julho de 1991, descrevo aspectos de

uma festa distante do Cariri rural: a festa de São Pedro, o pes- cador, típica de comunidades ribeirinhas ou praianas. “Termina o terço na Igreja de Nossa Senhora da Saúde.

O Mucuripe desce para a praia. À frente, São Pedro nos om-

bros de velhos companheiros do mar. Em volta, o pessoal da

Casa do Idoso, com suas batas azuis, e os moradores. Cantan- do, rezando, batendo palmas, soltando fogos, eles restauram a si próprios e ao bairro. Reconhecem em cada palmo daque-

le chão o trabalho e a vida de gerações. O Bráulio, com seus

noventa e tantos anos, pernambucano das praias de Olinda aportado no Ceará, aponta com toda certeza o lugar onde foi sua casa e que agora é calçadão”. “Antes da missa, selo da religião oficial sobre o tecido da religiosidade popular, o encontro da comunidade com o Estado. Governador, Secretários, Prefeito, Parlamentares buscam a legitimação através do contato direto com a praça ou através da intermediação das lideranças formais e infor-

COMO OS MITOS ACERCA DO CEARÁ E DO SER CEARENSE CIRCULAM ENTRE AS FESTAS COMUNITÁRIAS E A CULTURA ESCOLAR

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mais. As autoridades reconhecem em seus discursos o valor

do povo; as lideranças locais aproveitam o momento propício

a compromissos e tentam acordos no sentido das aspirações

sentidas. A assistência ouve os dois e aplaude. Esperança. Fé. Persistência. O que ela pensa mesmo de tudo isso?”

ƒ Procissões de São Sebastião na Barra do Ceará Na mesma cidade, em outro bairro, Barra do Ceará, ca-

racterizado pelo encontro do rio Ceará com o Oceano Atlânti- co, na tarde do dia 20 de janeiro de 1990 acontece o encerra- mento da Festa de São Sebastião.

A festa estava anunciada para iniciar às 17 horas, em-

bora os organizadores já estejam no local cerca de uma hora antes. O local é a praça Nova Lisboa, exatamente no entron- camento da Avenida Perimetral com a avenida Beira-Rio. Ali, fica o ponto terminal de diversas linhas de ônibus interbair- ros: Perimetral Messejana – Barra, Barra do Ceará – Aldeota, Barra do Ceará – Vila Betânia, Leste-Oeste, Barra – Mucuri- pe, além da linha que sai do bairro para o centro da cidade. É antigo ponto de convergência: pescadores e vendedores de

peixe, oficinas de construção e consertos de barcos e a antiga parada do “ônibus da verdura” na época das festas de término de curso no Clube de Regatas Barra do Ceará.

O encerramento da Festa de São Sebastião começa no

ancoradouro localizado no fundo da praça, onde estão 14 bar- cas enfeitadas e prontas para receber as pessoas que querem ir

à procissão fluvial. Dali, as barcas saem enfileiradas até o an-

coradouro localizado em frente ao Clube de Regatas Barra do Ceará. Ao mesmo tempo em que o cortejo dos barcos se des- loca pelo rio inicia-se a procissão terrestre pelas ruas. O carro de som da paróquia centraliza a coordenação. A irmã Leo fala pausadamente; pede fé e silêncio; orienta a formação de duas

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JOSÉ EDVAR COSTA DE ARAÚJO

filas. Avisa que os integrantes da procissão de terra não podem entrar nos barcos quando se iniciar a procissão fluvial.

ƒ Festa de finados em Ocara No universo das festas comunitárias no Ceará, entre as primeiras horas da noite do dia 1º de novembro e as primeiras horas da madrugada do dia 2, anualmente se repete na localida- de de Ocara um acontecimento que desperta curiosidade. Cen-

tenas de pessoas das mais diferentes localidades, vilas, distritos e cidades, se dirigem para lá e neste intervalo de tempo que dura apenas uma noite enchem com seu movimento o largo em redor da igreja, algumas ruas vizinhas e o caminho do cemitério. Em anotações de campo relativas ao ano de 1991 re- gistrei que “Françui Correia, agricultor, nascido e criado na vizinha Vila São Marcos, conhecedor da festa como todos os moradores locais, mostra-se surpreendido ao enumerar de cabeça os lugares de onde o pessoal vem para a festa: Qui- xadá, Pacajus, Chorozinho, Serragem, Novo Horizonte, Bor- ges, Piancó, Barreira, Redenção, Aracoiaba, Passagem Funda, Vazantes, Ideal, Lagoa de São João, Vage da Onça, Vage da Abelha, Vage Queimada, Carnaúba, Sereno de Cima, Sereno de baixo, Croatá, Córrego do Facó, Placa do Zé Pereira, Piran- gi, Boa Vista, Córrego das Vacas, Curupira, Placa da Ocara, lagoa do Riacho, Lagoa do Velho, Barro, Seis Carnaúbas, mato Queimado, Foveira, Cristais, até de Fortaleza vem”. Acrescenta o mesmo depoente que “As festas religio- sas de Santo Antonio e de Nossa Senhora de Fátima definha- ram. Elas também atraíam muita gente de todos os lugares em redor. Mas, aos poucos, foram diminuindo, foram ficando reduzidas às celebrações estritamente religiosas. Desaparece- ram as noitadas animadas, os leilões fartos. Relembra Fran-

na década de 70, quando iniciaram as festas da Igreja

çui:

COMO OS MITOS ACERCA DO CEARÁ E DO SER CEARENSE CIRCULAM ENTRE AS FESTAS COMUNITÁRIAS E A CULTURA ESCOLAR

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elas foram animadas. Porque não existia diversão nenhuma e quando a “radiadora” chegava aí que botava a primeira músi- ca quem tava no roçado apanhando algodão ficava tudo doido.

A festa era animada, o dinheiro que se adquiria era para gas-

tar na festa

e não era só rico que comia não. O pobre também

cabidela

participava. Agora, hoje

todo mundo rematava o que tinha. De bolo, de

é arroz com farinha”.

Diálogos, Mitos, Festas e Escola: “Informal” e o “Formal”

Para as possibilidades de diálogo, o estudo das festas pode contribuir muito para a reflexão acerca do ser cearense, tanto do ponto de vista dos mitos fundadores quanto do ponto de vista de mitos explicativos contemporâneos.

A reflexão sobre o ser cearense se constituiu inicialmen-

te através da literatura de ficção, dos cronistas e memorialis- tas; mais recentemente recebeu a contribuição dos sociólogos, folcloristas, historiadores e educadores; filiada a diferentes correntes de pensamento e apresentada como desinteressa- da, está vinculada a interesses concretos de setores, grupos

e categorias sociais e a necessidades de posicionamento nos embates ideológicos, políticos e intelectuais.

A reflexão apresentada aqui tem também um interesse

definido no âmbito da atual produção no campo da história da educação no Ceará; é rascunho de um projeto de estudo sobre a história da educação escolar na região norte do Ceará, asso- ciando a formação das redes de ensino com a educação não formal presente no contexto: identificando nas festas comu- nitárias os elementos que influenciam as demandas por esco- larização, os ambientes e interesses da organização escolar, a formação dos professores, os programas de ensino e outros aspectos do universo da cultura escolar.

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JOSÉ EDVAR COSTA DE ARAÚJO

O SERTÃO, AS FAZENDAS DE GADO E A OCUPAÇÃO ESPACIAL DA CAPITANIA DO CEARÁ

Introdução

Francisco Ari de Andrade

O presente texto traz uma reflexão acerca da ocupação

política, econômica e social do espaço sertanejo cearense, a partir do último quartel do século XVII, quando se iniciam os empreendimentos das fazendas de gado na ribeira dos princi- pais rios desse território, com destaque para o Jaguaribe.

A história política e econômica da Capitania do Ceará

tem sua gênese na base das fazendas de gado assentadas nas margens de rios que cruzam o sertão em direção ao litoral. Ao ser eleito tal tema para se discutir a origem do po- der no Ceará, não há nenhuma pretensão de formulação de uma teoria política em busca de um entendimento de tal fenô- meno, mas, apenas, lançar um olhar criterioso compreensivo dessa evolução política, que não seja arrogante e nem fecha- do em si mesmo, mas que abra espaço para o debate sobre o conjunto de fatores que vieram a contribuir, sobremaneira, na metodologia de se fazer política nessas paragens brasileiras. Com destaque para famílias poderosas do sertão, envolvidas com fazendas de gado, agenciadas na figura de um coronel, potentado da política local, na busca do domínio político mais amplo. A legislação portuguesa estabeleceu limites entre as áreas agricultáveis para cana-de-açúcar e aquelas destinadas à criação bovina. Reservou-se a faixa litorânea para plantação de cana e produção de açúcar. Ali se instalaram os engenhos, marco da organização política e social colonial brasileira. No

sertão, o “país das caatingas”, faixa de terra que desce das cha- padas úmidas em direção ao litoral, instalar-se-iam as herda- das de rebanhos bovinos. A partir de uma revisão bibliográfica, procura-se trazer à baila uma reflexão sobre o percurso e o itinerário do processo de ocupação espacial e política da Capitania do Ceará, que se originou no sentido oposto ao processo institucional da maio- ria das capitanias nordestinas, isto é, do litoral para o sertão. Aqui na Capitania do Ceará, o processo se constrói do sertão para o litoral. E, precisamente, a historiografia local atribui às fazendas de gado o papel de ocupação espacial do território sertanejo e do delineamento político e institucional do Ceará. Ao prosperarem as fazendas de gado no sertão pastoril surge a classe social dos fazendeiros, em contraposição a dos senhores de engenho do litoral. Por conseguinte, o criatório bovino dará origem à agroindústria da carne seca, a chamada charqueada, na cidade litorânea de Aracati. Não obstante, a origem e a apropriação primitiva do poder política na capita- nia são tributárias das fazendas de gado.

As Fazendas de Gado na Origem do Poder Local no Sertão

Cada fazenda era um microcosmo social no sertão. Era a grande propriedade. Uma unidade econômica e moral que se configura politicamente pelo pater família. O título honorí- fico de fazendeiro era dado ao sesmeiro pela Coroa portugue- sa. Significava antes de tudo homem de bens, criador bovino. Toda a vida na fazenda girava em torno da criação de gado. Aos poucos, cada proprietário foi se transformando num chefe po- lítico em torno de sua órbita geográfica, por demais limitadas, a intervir nos destinos e na vida de muita gente, apesar das relações sociais serem caracterizadas pela mão de obra livre.

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FRANCISCO ARI DE ANDRADE

Nessa base econômica e social do sertão nordestino surge uma aristocracia territorial, endinheirada, pres- timosa e politicamente forte a intervir na dinâmica regional. Apesar de seu domínio político ser demarcada pela área geográfica de onde se situava a fazenda, as prósperas cidades do litoral se tornaram acuadamente dependentes da economia dos estabelecimentos rurais. Nessa relação de subordinação da litoral ao sertão reside uma das explicações para o fenômeno do coronelismo nordestino (FERNANDES, 1977, p.60).

Não obstante, o processo civilizatório cearense aconte- ce do sertão para o litoral. Através dos rios Jaguaribe e Acaraú uma perspectiva de vida é levada às populações mestiças do semiárido. Do Vale do São Francisco, em busca de pasto nas ca- atingas verdurosas, desceram as boiadas que se fixaram nas margens dos rios dando origem, anos mais tarde, às princi- pais cidades cearenses. Com o surgimento das fazendas de gado, a partir de meados do século XVIII, nas ribeiras cearenses, decorre a gênese do nosso mandonismo local. Cada proprietário de terra, possuidor de uma patente militar, dada pela Coroa portuguesa, passara a legislar seu território pelo poder da força. Demarcam um espaço territorial e passam a impor seus interesses acima dos coletivos. Fica o meio rural redu- zido a um ambiente produtivo, mas, também, num cenário de disputas políticas, de lutas entre os próprios fazendeiros e, destes, com a resistência silvícola, que se vê ameaçada de- vido a invasão de seu território. Os potentados criadores de gado ambicionam, também, o controle do mandonismo lo- cal. E chegam, no decorrer do processo cearense, a se proje- tar como lideranças junto às forças que esboçaram o sistema político brasileiro.

O SERTÃO, AS FAZENDAS DE GADO E A OCUPAÇÃO ESPACIAL DA CAPITANIA DO CEARÁ

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Das unidades criatórias do sertão cearense, originou-se no Litoral, principalmente na vila de Aracati, a indústria e o comércio da carne salgada seca ao sol, conhecida por char- que. Não foi à toa que o historiador cearense do século XIX, Capistrano de Abreu (1988), na sua crônica resolver chamar a civilização do couro, aludindo ao desenvolvimento de indu- mentárias decorrentes da indústria pastoreira. As fazendas de gado foram evoluindo ao longo do nosso processo civilizatório. De microcosmos políticos independen- tes vieram a se constituir em vilas e cidades. Foram peças- -chaves, na medida das exigências históricas, do esboço da nossa geografia política. No desenrolar do contexto histórico, foi sendo gestada uma classe social, de traços aristocráticos, territorialmente importantes que, paulatinamente, fora se apropriando do poder político na região.

A Emergência da Aristocracia Territorial Sertaneja

A classe social aludida, constituíra-se, num primeiro momento, empreendedora de gado e, num segundo, como consequência do primeiro, principalmente, detentora do con- trole das diretrizes políticas locais. Assim, fora surgindo um poder local, arraigado pela tradição e de base familiar, carac- terizando-se pela presença central de um coronel, como enti- dade máxima, que incorpora a política e a justiça, guardiã da manutenção da “ordem”. Detentora da produção material da sociedade, devido à montagem de um sistema produtivo, que apesar de requerer uma mão de obra especializada no trato com os animais, entra em cena o trabalho dos vaqueiros, esti- vera submissa aos seus interesses, sendo o ponto crucial dessa incorporação o absoluto controle dos direitos sobre a vida e a sobre o destino final de todas as criaturas a seu alcance.

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A respeito de tal fato, são importantes as considerações feitas por Sucupira:

No Ceará, as rédeas do governo, desde os primórdios da sua formação política, estiveram sempre na dependên- cia de poderosos grupos familiares.Isso começou com a família Castro, atuando desde os tempos coloniais, seguindo-se com as famílias Alencar, Pompeu, Feitosa, Fernandes Vieira, Paula Pessoa etc. Na monarquia as famílias Pompeu e Paula Pessoa, embora dissidentes, formavam as duas alas do Partido Liberal (SUCUPIRA, 1987, p.138).

Pelas alusões de Sucupira, denota-se uma relação de famílias cuja historiografia veio a identificar como podero- sas durante o processo de evolução social cearense, que delas tenham começado a apropriação do poder no Ceará, fazendo surgir uma elite política profundamente identificada com a terra.

Tal elite territorial, agenciadora do ritmo e da dinâmica do mandonismo local, com influência, em larga escala, no po- der nacional, tanto no período colonial e imperial quanto nas primeiras décadas da fase republicana cearense, apropria-se, decisivamente, da capital, sede do governo, tendo em vista que é neste espaço onde rolam as transações financeiras e os serviços decorrentes da dinâmica da vida comercial e política da Província. A necessidade de debruçar um olhar sobre a forma pri- mitiva de apropriação do poder no Ceará, longe da pretensão de descortinar as teorias que discutem a origem do político no mundo moderno, busca-se, apenas, seu entendimento a partir das fazendas de gado. Tal visão, talvez, contribua para uma melhor aproxima- ção com as nossas raízes e, a partir dela, se possa perceber

com maior nitidez as contradições sociais que tão fartamente têm caracterizado o nosso processo histórico.

A Territorialidade Cearense à Luz da Sua Crônica Histórica

Segundo Yaco Fernandes (1977), a colonização do Ceará começa, verdadeiramente, com a presença de empresas cria- doras de gado voltadas para a exploração das terras do ser- tão. Para tal investimento, fora de fundamental importância o “trilho ribeirinho”, com ele destaca, principalmente o rio Ja- guaribe, pois sem tal caminho, as especulações teriam ficado reduzidas, por algum tempo, a uma significante faixa costeira sem condições de penetrar no espaço interiorano.

Essas estradas, que os vaqueiros reinauguram, quase sempre, de jusante para montante, são a glória e a ser- vidão das cidades sertanejas cogumeladas ao longo de seu traçado. E explicam como ninguém a maneira por que se processa a formação da sociedade cearense, parti- cularista, familiar, excessivamente mediterrânea, – sem um pingo do universalismo que lhe daria a extensa faixa costeira, se fosse mais abordável e se se comunicasse, de modo efetivo, com as regiões do interior (FERNANDES, 1977, p.57).

Aludindo aos rios como estradas, percebe-se a preocu- pação do autor em demonstrar que, na origem do Ceará, está o papel desempenhado por eles. Como destaque para o Rio Jaguaribe, que vai ser considerado a ”estrada geral do Jagua- ribe”, pois nas suas margens vão surgir as primeiras unidades de criação de gado. O recorte apresenta aquilo que já havia se apresentado anteriormente, que o estudo da nossa formação social nos remete à necessidade de se compreender a dinâmi- ca das fazendas na consolidação e integração do sertão e do litoral.

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FRANCISCO ARI DE ANDRADE

Um contato com o poema “Jaguaribe” do jornalista ce- arense Demócrito Rocha, remete-se, também, àquele rio. Nos primeiros versos, verificam-se imagens atribuídas, pela força poética do autor, um canto de louvor por onde correria o san- gue do Ceará. É-lhe atribuída a fonte da vida do nosso povo que, ao contrário disso, não poderia ter existido. Assim se ex- pressa o poeta:

Rio Jaguaribe é uma artéria aberta por onde escorre

e

se perde

o

sangue do Ceará

O mar não se tinge de vermelho Porque o sangue do Ceará

É azul [

]

1

Pelas imagens apresentadas, tal personagem da paisa- gem cearense é comparado a um organismo vivo. Daí a sua importância para a história cearense, porque a seu favor can- tam e decantam os versos melodiosos de poetas, as palavras adocicadas dos cronistas da terra, além das análises socioló- gicas, quando se debruçam na compreensão da nossa gênese histórica. Ao procurar apresentar ao leitor uma clareza acerca dessa faixa de terra que recebeu o título de capitania, eis o seguinte trecho trazido por Antônio Bezerra:

Situado ao norte do continente sul-africano, o atlântico deu ao seu território quase que a mesma configuração e relevo do continente africano, que lhe fica fronteiro, e grande parte do interior, aberto em extensos taboleiros que aos ardores do sol do estio se despem da ligeira ve- getação , semelha em muito por esse tempo aos campos do continente negro.

1 ROCHA, Demócrito. O Rio Jaguaribe. In: SECULT. Terra da Luz. Antologia. Fortaleza: Secretaria da Educação e Cultura do Ceará, 1966. p.33.

O SERTÃO, AS FAZENDAS DE GADO E A OCUPAÇÃO ESPACIAL DA CAPITANIA DO CEARÁ

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Há lugares que são verdadeiros desertos, e em geral, o terreno tem feição diversa da dos outros Estados (BE- ZERRA, 2001, p.1).

Na sequência, o autor veio a classificar o território ce- arense em três zonas: litorânea, sertaneja e agrícola. A partir dessa classificação, procura apontar algumas características psicológicas de cada habitante. Nota-se, pelo recorte, que o autor apresenta um quadro geográfico com semelhanças com o território africano. Noutra passagem da obra, ele indagaria se os primeiros europeus que tomaram contatos com esta terra, a serviço do Estado portu- guês, no caso a expedição de Pero Coelho de Souza e depois as missões dos padres Francisco Pinto e Luis Figueira, não te- riam despertado a terminologia Ceará, associando-a ao termo Saara, ou seja, o deserto? É notório assinalar, os contrastes naturais reservados ao Ceará. Renegado a um naco de terra com variações e irregula- res estações climáticas, tendo toda extensão do seu litoral, ao contrário da Capitania de Pernambuco, contornado por dunas de areias brancas, leves e soltas à mercê da direção dos alísios, marcado por vegetações rasteiras destacado pela exuberância de altos coqueiros, sob os raios do sol escaldante, impingira aos primeiros colonizadores os castigos inclementes, duran- te a travessia em direção à Ibiapaba. Por conta disso, a nossa experiência colonizadora fora retardada, ficando à espera dos empreendimentos na segunda metade do século XVII, quando começam os registros das primeiras fazendas de criar. Os estudos de Pompeu Sobrinho (1966) acerca dos as- pectos fisiográficos e antropológicos do Ceará vão de encontro ao ponto de partida dessa discussão, em que se procura des- cortinar o passado social cearense. Seus apontamentos nos co- locam diante uma realidade das mais contraditórias possíveis:

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FRANCISCO ARI DE ANDRADE

O Ceará constitui vasta região intertropical, encantona- da no extremo nordeste do Brasil, intimamente articu- lada, tanto sob o aspecto físico, como sob o social, aos estados do Piauí, Pernambuco, Rio Grande do Norte e da Paraíba. Terra do Sol e irregular umidade, sofre os percalços destas condições e goza também os favores delas decorrentes ( POMPEU SOBRINHO,1966, p.11).

A partir do que está posto, verifica-se o aspecto natu-

ral do nosso território em situação diferenciada daqueles por onde foram empreendidos, por exemplo, os engenhos da ca- na-de-açúcar. Por aqui, a natureza não fora tão favorável à montagem daquelas empresas de exploração do açúcar.

O nosso litoral não ofereceu condições naturais favorá-

veis, pois “acompanhando de perto a linha do mar, elevam-se dunas de areias movediças à feição dos ventos dominantes.”, é, precisamente, por trás destas elevações movediças que”

se estendem os tabuleiros, também arenosos, sulcados pelos rios que descem do sertão, para logo em seguido “cortados por lombadas e elevações” se projetarem as famosas “terras mais altas do sertão”. (POMPEU SOBRINHO, p.12)

E naquelas paragens altas e longínquas do litoral, vai

acontecer a revolução da terra cearense: o florescimento das fazendas de criar bois. O sertão vai demandar a expansão de- mográfica do território cearense, por força da pecuária. Voltando a Pompeu Sobrinho, este considera que, dian- te das contradições geográficas do espaço cearense, fora a única atividade econômica possível naquele processo de co- lonização. Segundo ele, alguns fatores contribuíram para o desenvolvimento dessa atividade no solo cearense. A começar pela atividade em si que não requeriria um aviltado número de trabalhadores. Além disso, dispensaria a montagem de uma engrenagem bem como de um conhecimento especializado,

O SERTÃO, AS FAZENDAS DE GADO E A OCUPAÇÃO ESPACIAL DA CAPITANIA DO CEARÁ

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(uma ciência), capaz de fazê-la funcionar. Sem levar em conta que o gado se transportava por si e não precisava de estradas. As condições físicas da região, finalmente, ganham uma apreciação louvável pelo referido autor, principalmente no que facilita ao deslocamento e a fixação dos rebanhos:

Corroborando tal discussão, Fernandes (1977), tam- bém, procura apresentar uma descrição daquela realidade seguindo o mesmo viés de raciocínio do autor, anteriormen- te apreciado. Para este, toda dinâmica do processo cearense giraria em torno da água. Daí a importância dos rios, pois dos sopés das chapadas úmidas brotam essas fontes, que ao descerem a procura do litoral, vão recortando, quase que em linha reta , o solo do sertão, e trazendo durante as cheias peri- ódicas a fertilização ao solo, brotando neste a vegetação típica da região, vindo a integrar o chamado “ o sistema-Nilo do Ce- ará”. Pelo olhar do cronista:

Da raiz das chapadas, as terras descem para o mar, num plano inclinado de ondulações sempre mais ligeiras, que os agentes físicos e químicos laboriosamente vão nivelando num desmarcado e único pléneplain: é o sertão, país das caatingas.

Com tal investida, o sertão vai contornando a linha da civilização cearense. Vai aos poucos sendo moldado aquilo que tornaria o reduto de famílias abastadas. Os sesmeiros vai construindo as primeiras, porém primitivas, edificações no espaço sertanejo. E da forma como o meio rural ia sendo deflorado, as populações nativas eram dizimadas ou empurradas mais para dentro daqueles confins. Qualquer reação por parte das tribos que habitavam o sertão, que se vira atingida pelo usufruto de suas terras, entrava em ação o poder da força delegado aos sesmeiros pelo Estado lusitano.

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FRANCISCO ARI DE ANDRADE

As Relações de Poder na Sociedade Sertaneja

Ergue-se tal sociedade a se configurar numa nova di- nâmica da geografia política nordestina, como aquela em que pesa a seu favor a existência de classes sociais compostas por homens supostamente livres, articulados, direta ou indire- tamente, com os negócios da lida do gado. Nas relações de trabalho numa fazenda de gado, como é destaque na análise sociológica, não se aplica a metodologia escravista dos en- genhos, mas as relações livres embora rígidas e estreitas. O critério da obediência ao dono da fazenda era uma das exi- gências aos agregados da estância. O não cumprimento das regras estabelecidas pelo fazendeiro, de acordo com as matri- zes advindas da celebração do pacto colonial, cabia punições que iam da prisão à decretação de morte. O gado no pasto é criado às soltas. O trabalho dos va- queiros, na lida com o gado, era livre. Os currais de confina- mento serviam aos animais apenas durante o período de es- tiagem. Mas, a fazenda mantém pessoas sob as intenções do proprietário. Índios convertidos ou mamelucos compunham uma classe subalterna, ao lado do fazendeiro, do padre, da guarda de segurança, dos mercadores e agregados. Eis que assim se descortina uma nova perspectiva social para o Ceará.

Por assim lentas e trabalhosas as viagens, ao sabor caprichoso das necessidades bovinas, e porque o sertão pulula da indiada hostil, os homens se reúnem em grupo numerosos, verdadeiras caravanas, para a realização das jornadas; convencionam-se locais certos e épocas determinadas para esses encontros: tal como no cruza- mento das grandes estradas e nos vaus mais difíceis dos rios (quando correm), nesses pontos de reunião surgem ranchos onde demoram os viandantes e para os quais acorrem os selvagens circunvizinhos e os desinquietos

O SERTÃO, AS FAZENDAS DE GADO E A OCUPAÇÃO ESPACIAL DA CAPITANIA DO CEARÁ

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negociantes que andam acima e abaixo traficando as suas mercadorias. O pouso dos tangerinos transforma-se num posto de trocas e de intenso comércio sexual; aparecem as primeiras vendas e bodegas: é uma cidade que nasce. A fórmula conserva-se e aperfeiçoa-se: na seqüência, quem quer fundar uma cidade instala à beira da estrada, num lugar de águas fáceis e próximas, uma tasca onde haja aguardente, uma casa de raparigas e, se possível, uma capela. É o quanto basta. (FERNANDES, 1977, p.58)

O recorte ilustra bem as classes sociais que manifestam dentro do processo histórico enfocado. Como podemos notar, apesar das colocações grosseiras que aos olhos de uma nova interpretação sociológica não reduz os silvícolas cearenses a selvagens, aparecem fazendeiros, tangerinos, comerciantes, prostitutas de ganho etc. Na sequência de tal identificação, o autor apresenta ou- tro recorte de tal realidade em que podemos perceber a dinâ- mica do mundo do sertão, em processo, possível de se com- preender a questão das classes que se aglutinam em torno do processo de produção implantado na região naquele período.

A população dessas aldeias é extremamente flutuante, seu número está na razão direta da importância das estradas que se servem. Seus elementos fixos são um

diverso refugo humano: terrível malta de mestiçozinhos

semi-selvagens, vagabundos e desordeiros [

tempo, acomodam-se às aldeias artistas de variados ofícios, prosperam os acanhados comerciantes, a popu- lação vai-se estabilizando. Já cidades, entretanto, esses aglomerados humanos se compõem de artífices, nego- ciantes, funcionários da administração, trabalhadores braçais e uma amálgama informe de indivíduos sem profissão conhecida ou honesta.(FERNANDES, p.59)

]. Com o

A descrição do referido autor é precisa por aproximar uma compreensão micro das classes sociais dentro de tal sis-

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tema. A ressalva pertinente da análise destaca pessoas à mar- gem daquela sociedade, que se configurava no sertão. A mio- pia sociológica impediria uma leitura mais crítica do processo de acumulação de riqueza na região, sobretudo naquele mo- mento de apropriação primitiva de poder e de capital, em que as relações de mando se davam através da força física pelo uso da violência do mais forte sobre o mais fraco. Mesmo assim, feito tal comentário, a geografia política do espaço sertanejo vais sendo esboçada como a presença de tais personagens. Uma compreensão da nossa história sem levar em con- ta a apreciação do campo de força a existir entre as camadas sociais que disputam o direito à vida num território, natural- mente adverso, porém transformado pela ação humana, num mundo político extremamente conservador aos interesses da elite emergente, tornando-a fosca aos olhos ansiosos por uma análise mais compreensiva. Como critério de discernimento acerca da discussão, que vem sendo desalinhada do novelo que entrelaça a histó- ria cearense, debruça-se uma apreciação sobre as fazendas de gado no sertão naquele contexto. Tal olhar se monta a partir de uma apreciação da literatura de ficção, tida como regiona- lista, pois dela é possível identificar as imagens expressa pelo senso de produção estético de seu autor. Para tal apreciação fora eleita a obra O sertanejo do romancista cearense José de Alencar. Pelo enredo da obra se passar numa fazenda no inte- rior do Ceará, permite ao leitor uma aproxima e compreensão das relações sociais, tanto numa escala ampla quanto parti- cular, do microcosmo político que representara a fazenda de gado no espaço sertanejo nordestino. É, precisamente, à cata das imagens existentes no en- redo da narração em destaque que o presente estudo se di- reciona agora. Nele verifica-se a dinâmica interna ao mundo

das fazendas como tentativa de rever a base onde se origina o mandonismo político cearense.

A fazenda de gado fora um microcosmo político no

semiárido cearense. Dito isso, tal terminologia sugere que na base de sua organização, além da atividade econômica, há, também, um poder politicamente constituído, que ope- ra dentro de uma demarcação geográfica. O campo de força girava em torno do território de domínio da fazenda e fora

representado na figura central de seu proprietário, que viera

a receber do próprio Estado português uma patente militar.

De posse de tal poder na capitania, que lhe corresponderia a responsabilidade pela preservação da unidade territorial dos domínios lusitanos, mediante a defesa da posse contra as in- vasões de outros Estados europeus, principalmente franceses

e holandeses, passa ele, então, a legislar, também, em defesa

dos valores exauridos do que fora estabelecido pela celebra- ção do pacto colonial. O absoluto controle de tal ordem impõe um sistema político-jurídico na colônia onde essa figura, em nome da Coroa portuguesa aplicaria, radicalmente, o poder de julgar e decidir sobre a vida e a morte dos súditos. Um olhar atencioso sobre alguns recortes da obra alen- carina O Sertanejo, sem a pretensão de transformá-la em de- poimento histórico, mas ao mesmo tempo apresentá-la como suporte na reconstrução do real, observamos algumas situa- ções que nos remete a refletir a dimensão da ostentação do poder que emana a partir das fazendas.

A Fazenda Oiticica de propriedade do capitão-mor

Campelo ficava no sertão do Ceará. A descrição do espaço ocupado por ela segue a narrativa do autor:

A morada da Oiticica assentava a meio lançante em uma das encostas da serra. Erguia-se do centro de um terreno revestido de marachões de pedra solta. Por diante, além

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do terreiro, descia a rampa com suave ondulação até a planície; atrás da habitação, remontava-se ao dorso de uma eminência donde caia abrupta sobre um vale pro- fundo que a separava do corpo da montanha.

Na frente elevava-se no terreiro, a algumas braças da estrada, a frondosa oiticica, donde viera o nome à fazen- da. Era o gigante da antiga mata virgem , que outrora cobria aquele sítio.[ ] As casas da opulenta morada eram todas construídas com solidez e dispostas por maneira que se prestariam sendo preciso, não somente à defesa contra um assalto como à residência em caso de sítio. Ocupava a maior área do terreiro um edifício de vastas proporções que prolongava duas asas para o fundo, flanqueando um pátio interior, bastante espaçoso para conter horto e pomar.

À extremidade de cada uma dessas asas prendiam-se outros edifícios menores, alguns já trepados sobre os píncaros alpestres, porém ligados entre si por maciços de rochedos que formavam uma muralha formidável (ALENCAR, 1982, p.24).

Percebem-se na narrativa aqueles edifícios construídos no sertão por força do novo ciclo da economia nordestina, o ciclo do couro, a representar um novo ambiente social e polí- tico, com suas contradições e embates internos.

Apreciação Final

Aqui não se encerra essa discussão. Pode-se assegurar um primeiro passo, como uma tentativa de compreender a origem do nosso estado e das suas relações sociais e políticas. Retratar a história das fazendas de gado no sertão cea- rense é não desconsiderar as nuances dos grupos políticos que vão estar à frente dos destinos políticos da nossa sociedade,

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no limiar da consolidação do Estado brasileiro, por todo o sé- culo XIX. Estudar a nossa história é ficar atento ao modelo social que se descortina a partir da segunda metade do século XVII, com a expansão das fazendas de gado. Porque daquele mode- lo de unidade produtiva, mesmo que pese contra si a falta de uma racionalidade capaz de usar conhecimentos para prever e prover as consequências das intempéries naturais, tão ad- versas, que poria fim àquele ciclo novidadeiro na economia colonial, não se deve deixar de enxergar que daquele modelo econômico e social brotou o modelo institucional da socieda- de cearense, que veio a se consolidar a partir do ultimo triênio do século XVIII e até a segunda metade do século XIX, tendo Fortaleza como sede do governo a representar a centralidade do poder político e pela via parlamentar a congregar, na As- sembleia Provincial, os representantes políticos dos interes- ses da aristocracia territorial do sertão. Finaliza-se estas traçadas linhas pedindo licença para reafirmar ser sempre desafiante diante daquilo que se preten- de apresentar em sintonia com o ponto de vista de quem o lê, que na maioria das vezes busca encontrar, nas suas páginas, respostas às inquietações latentes que carecem de caminhos. Nesse sentido, tal empenho esbarra na necessidade de se reco- nhecer que há algo mais a ser dito, principalmente se tratando de olhares sobre universo contraditório como o em apreço.

Referências Bibliográficas

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FRANCISCO ARI DE ANDRADE

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CORPO, PROSTITUIÇÃO E EDUCAÇÃO SEXUAL NO TERRITÓRIO DO PRAZER

José Gerardo Vasconcelos Francisca Karla Botão Aranha

O verdadeiro homem quer duas coisas:

perigo e jogo. Por isso quer a mulher: o jogo mais perigoso. (Friedrich Nietzsche)

Era mais ou menos umas oito horas da noite, saíamos da Faculdade de Educação, da Universidade Federal do Ceará e seguíamos para outro espaço de aprendizagem, no centro do cidade de Fortaleza. Na avenida Imperador, entre as ruas Pe- dro Pereira e Pedro I avistávamos o nosso lócus de pesquisa. Uma casa de prostituição denominada de Gata Garota. Logo, somos barrados por um segurança, vestido de preto que ocu- pava toda entrada de um longo corredor que nos levaria ao coração de nosso território. Faz cara de mal, solicita com cara de poucos amigos a documentação e, talvez para ganhar res- peito, ou marcar território, olha atento para nossos corpos, certificando-se que não causamos, pelo menos à primeira vis- ta, perigo ao recinto. Após a realização desse ato, a entrada é enfim liberada para que se penetre nesse ambiente recheado de mistério e cheio de volúpia. O citado salão é constituído de imensos cartazes de dan- çarinas em trajes menores. Nesse mesmo espaço podemos vi- sualizar um bar situado à esquerda atrelado ao caixa, e sobre o bar, o comando de som. Muitas cadeiras e mesas no devido espaço, e no meio desse, um pequeno palco, e do lado do pe- queno palco um compartimento minúsculo, lugar esse onde as dançarinas profissionais do sexo se preparam com trajes insinuantes, seja uma roupa inventada pela própria garota ou uma fantasia comprada em lojas do centro da cidade.

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No final do corredor uma luz vermelha chama a atenção dos clientes, nela escrita a palavra MOTEL, lugar esse reser- vado para os programas contratados pelos clientes no referido território de prazer. Ao lado podemos encontrar dois banhei- ros, um masculino e um feminino. Mulheres e homens circulam nesse território. Saltos fe- mininos exibem compassos e exaltam as curvas femininas ao som da música que invade nossos ouvidos. O cheiro de bebida invade todo o território. Entre as mesas as dançarinas exibem as suas formas em traços de volúpias e movimentos. Foi nesse território que conhecemos uma de nossas entrevistadas, que hoje diz ser uma ex-prostituta, a qual nos informa como ela concebe o puteiro:

O puteiro é um ambiente muito alegre, possui o di-

namismo da música, as atenções são voltadas para as mulheres. Por mais que a prostituição tenha seu lado ruim, não se pode esquecer que é nesse ambiente que as putas sentem-se em seu território. Lá elas são desejadas, aplaudidas, escolhidas mesmo que por alguns instantes é despertado o sentimento de atenção.

Sob o olhar de uma autora pesquisadora, eis a definição de um prostíbulo. Sousa (2000):

O ambiente de um prostíbulo é algo lúdico, no qual tudo

é, aparentemente, permitido, lá se espera concretizar as fantasias sexuais que, por uma série de razões, não têm lugar apropriado e não são permissíveis no lar com a esposa (SOUSA, 2000, p.103).

Nesse mesmo território onde o prazer é exaltado, pode- -se também localizar marcas de descompassos que desenca- deiam cuidados referentes ao corpo, sobretudo, os esmeros realizados pelas profissionais do sexo em relação a uma pre- servação contra DST (Doença Sexualmente Transmissíveis).

Abordar a educação sexual não é novidade, principalmente quando se pensa a questão da sexualidade vista de forma his- tórica, entretanto faz necessário lançar nosso olhar ao grande alvo. Produto e efeito do poder. Aquele que desperta nossos instintos mais primitivos: o corpo. Os cuidados com o corpo vão se desenvolvendo em conexões múltiplas. Espaços, territórios e lugares lampe- jam em plena apropriação e possibilidades de controle. São modos impactantes nem sempre caracterizados de acordo com a época, mas inseridos em momentos de territorialida- des que se desmancham nas teias de uma sociedade, cujas marcas estão introduzidas, em compartilhamento de signos estéticos, espaços de sempre novas conceituações ou luga- res que se desarrumam para considerar novos aspectos de “pura” beleza. Vale ressaltar que o corpo é teia de significados espa- ciais. Transgride o tempo e o espaço e se esmera em sempre novas construções territoriais, pelas quais são aferidos em distintas marcas ou diferentes congraçamentos espaço-tem- porais. Para evocar incertezas impactantes, ou recobrir com o manto da vergonha as curvas sinuosas, o corpo sofre transfor- mações, ou seja, é mutável e mutante, apto a inúmeras inter- venções de acordo com o desenvolvimento científico e tecno- lógico de cada cultura e suas máquinas de controle. De acordo com Del Priore (2000), foi no transcorrer do século XX que a mulher se despiu. Visto que o nu dos corpos apresentados na mídia, ou seja, na televisão, nas revistas, nas praias, interferiram para que o corpo, desvelasse em público e, consequentemente, fosse se banalizando para atender os impulsos sexuais. Para tal exposição, foram necessários mui- tos cuidados com o corpo, como uso excessivo de cremes, vita- minas, silicones e colágenos. Assim, revela Del Priore (2000):

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Uma estética esportiva voltada ao culto do corpo, fonte inesgotável de ansiedade e frustração, levou a melhor sobre a sensualidade imaginária e simbólica. Diferen- temente de nossas avós, não nos preocupamos mais em salvar nossas almas, mas em salvar nossos corpos da desgraça da rejeição social (DEL PRIORE, 2000, p.11).

Quando se faz necessário expor a sensualidade à flor da pele, praticar exercícios envolventes e inovadores, buscar atividades corporais em outros estados de pureza ou cam- partilhamento que acelere a performance corporal a busca da plenitude da beleza se justifica. Nossa entrevistada fala da chegada da arte do Poli Dance 1 , ou seja, como essa foi aderida:

Fui a São Paulo em 2001, lá as meninas já faziam essa dança, porém, lá é diferente daqui, pois o show delas

é pago pela casa como se fossem uma miniestrela, tem empresário, as meninas ganham bem, podem cuidar

melhor do corpo. Aqui, coitadas, só se o cliente pagar,

e ainda é muito pouco.

A entrevistada revela a importância da valorização da

profissional do sexo, pois com essa atitude há uma maior intensidade de estímulo aos cuidados com o corpo e, conse- quentemente, a saúde do mesmo, fazendo com que o número de clientes também possa aumentar nos cabarés. Ela ainda nos revela que:

Cada noite que passava a concorrência ia aumentando,

e é aquela coisa, tem a oferta e a procura. E a oferta tem

que ser a atração, tem que ter o atrativo. Então, meu dia era todo dedicado a cabelo, roupa, a beleza, e o dinheiro dos meus programas cobria todos esses gastos.

A importância com a estética era, cada vez mais, neces-

sária, mesmo porque o instrumento de trabalho da profissio-

1 Poli Dance – Trata-se de um cano localizado no pequeno palco onde são pratica- das danças sensuais e requer esforço físico para fazer manobras no referido cano.

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nal do sexo é o corpo. É com ele que elas poderão satisfazer sexualmente o cliente. Sendo bela, ou constantemente bela, ou simplesmente bela para que sempre desperte o desejo em território recheado de sensualidade. Porém, é necessário ressaltarmos que, segundo Del Priore (2000), o corpo feminino sofreu uma revolução si- lenciosa nas ultimas três décadas. A pílula anticoncepcional permitiu-lhe fazer do sexo, não mais para satisfazer uma pro- blema moral, mas de bem-estar e prazer. Com isso a mulher tornou-se mais exigente em se tra- tando do seu parceiro, proporcionando assim uma sexualida- de mais ativa e prolongada. Entre ambos surgiram normas e práticas mais igualitárias. Porém, a corrente de igualdade não varreu, contudo, a dissimetria profunda entre homens e mu- lheres na questão da atividade sexual. Quando da realização da ação, desejo e excitação físicos continuam compreendidos como domínio e espaços de ordens masculinas. Visto que, o casal quase nunca reconhece a existência e a autonomia do desejo feminino, fazendo com que seus desejos mais primiti- vos, seu gozo, suas pulsões possam se esconder atrás de uma capa de afetividade. A ditadura da perfeição física empurrou a mulher, não para a busca de uma identidade, mas de uma identificação fincada em múltiplos espaços. Fazendo com que a mulher seja vista como um objeto de prazer sexual e que ela possa tornar-se mais bela para que seja desejada. Porém, com a revolução sexual eclipsou frente aos riscos da AIDS. Portanto se faz necessário cuidado com o corpo, mas, sobretudo, a saúde e o bom funcionamento das atividades cor- porais. Podemos revelar que a ideia sugerida por uma sociedade consumista, é que a história das mulheres passa pela história de seu corpo. Então, referindo-se à beleza, revela Del Priore (2000):

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A mulher tem uma beleza considerada perigosa, pois capaz de perverter os homens. Sensualidade mortal, pois comparava-se a vagina a um poço sem fundo, na qual o sexo oposto naufragava. As noções de feminilidade e corporeidade sempre estiveram, portanto, muito ligadas em nossa cultura (DEL PRIORE, 2000, p.14).

O que deve e como deve expor. Isso é uma escolha. O que poderá esconder em relação ao corpo? Para dar respostas a essas perguntas o olhar deverá estar fixado nas mudanças e impactos culturais. Ou se voltarmos a nossa atenção aos terri- tórios de prazer vislumbraremos que muitos desses aspectos dependerão não somente de determinada cultura, ou época em que a sociedade está inserida, mas, sobretudo, das novas práticas culturais, educativas e territoriais. Atualmente, após séculos de ocultação, nossa sociedade se desprendeu de uma legítima sacralização dos corpos. No que se refere à higiene e o esporte, primeiro reabilitaram os homens, porém os corpos femininos, rapidamente, seguiram esse mesmo ritmo. Até porque se faz necessário o cuidado com os corpos, visto que, a mulher é objeto de desejo em to- das as culturas. Os cuidados com a higiene podem ser apreendidos no próprio espaço privado, passados de gerações a gerações no âmbito público, através das mídias, ou seja, em qualquer lu- gar. Podemos perceber que existe um processo mimético no decorrer, em alguns caos, dessa prática de higienização. Se- gundo as ideias de Wulf (2004):

Ainda que toda definição sistemática do conceito des- sa forma insuficiente, almeja-se agora revelar outras características da mimesis. Antes de tudo, mimesis significa imitação. Enfim, ela significa a reprodução de um quadro ou de uma imagem de uma pessoa ou de uma coisa em sua forma material (WULF, 2004 p.350).

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O processo mimético refere-se à imitação de comporta- mentos individuais ou de um grupo para ampliá-lo ao conjun- to da sociedade. No ambiente profissional, o prostíbulo não é diferente, também se caracteriza como um lugar de apren- dizagem, no qual se destaca o aprender a cuidar do corpo, a higienização, conforme nos relata uma das entrevistadas:

Aprendi no cabaré a fazer ducha, utilizada antes e após o ato sexual. Essa higienização consiste em dar um jato de líquido dentro da vagina. Esse líquido é composto da dissolução de um sachê de LUCRETIM. Esse é um pó utilizado para higienização feminina, adicionado com água morna, na qual a menina introduz na vagina. Essa substância funciona como um desodorante para amenizar o odor da genitália feminina, servindo para a preservação de bactérias, pelo fato da camisinha possuir um óleo industrial que pode favorecer a proliferação de bactérias, preservando também rachaduras no útero, consequente de um intenso ato sexual.

Os cuidados com os corpos eram necessários dentro do cabaré, pois, para algumas pessoas, o prostíbulo é considera- do um ambiente sujo, sem a higienização. Porém, através de várias visitas realizadas aos prostíbulos do centro da cidade de Fortaleza, podemos verificar que as profissionais do sexo estão sempre muito preocupadas com os cuidados corporais, pois esse é o seu instrumento de trabalho. Certa vez, em conversas informais sobre a questão da aparência física, uma das prostitutas nos revelou que no momento que dançam para o cliente, quando o mesmo paga para que aquela profissional do sexo se insinuasse para ele, elas se sentem poderosas, pois os olhares se voltam para seu desempenho no pequeno palco. Nesse momento é marcada a importância de ter o “corpo em forma”, ser atrativa para então poder surgir, quem sabe, uma saída até o motel, que

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se encontra no mesmo território, como uma opção para o cliente. A responsabilidade do cuidar com o corpo está presente em todas as culturas. Por exemplo, desde o início do século XIX, na Europa, multiplicavam-se os ginásios, os professo-

res de ginástica, os prontuários de medicina que abraçavam

a atenção para as vantagens físicas e morais dos exercícios. A elegância feminina começou a combinar com a saúde, ser bela era essencial para seduzir o homem, então cuidar da beleza era consequência do cuidado com a saúde. Porém no Brasil, nessa mesma época em que o corpo feminino começava a se movimentar rumo aos esportes, já era

o início da República, no qual as cidades trocavam a aparência paroquial por ares cosmopolitas, segundo Del Priore:

Hoje em dia, preocupada com mil frivolidades munda- nas, passeios, chás, tangos e visitas, a mulher deserta do lar. É como se a um templo se evadisse um ídolo. É como se um frasco se evolasse um perfume. A vida exterior, desperdiçada em banalidades é um criminoso esbanjamento de energia. A família se dissolve e per- de a urdidura firme e ancestral dos seus liames (DEL PRIORE, 2000, p.64).

Pode-se perceber que o cuidado com a forma física es- tava relacionado com a aparência em que se queria dar ao corpo, para que esse seja desejado, e que preenche os requi- sitos da sociedade. Então, a revolução dos costumes começou a subir saias. A cintura de vespa, herdada em alguns séculos, continuava aprisionada em espartilhos. A medicina evoca a importância de exercícios físicos e vida saudável para preservar, não somente a saúde, mas tam- bém, a pele saudável, o corpo firme e jovem, mas em aspectos relacionados à vida higiênica, Del Priore informa:

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