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Repórter: Bàbálórìsà Claudinei de Aganjú

ADUNI BENTON - Diretora da Peça Teatral "Uma Rede Para Iemanjá"

Nome?
Aduni Benton

Significado?
A que conquista com suavidade (Informação passada pelo professor José Beniste)

Origem?
Benin

Idade?
39 anos

Estado civil?
Solteira

Iniciada?
Sim

Por quem?
Já faleceu, hoje sou filha do Professor e Doutor José Flávio Pessoa de Barros

Onde?
Cachoeiras de Macacu

Quando?
1973

Qual seu Orixá?


Oyá

O que tens feito em prol da religião?


Sou pesquisadora da cultura afro-brasileira, Bacharel em Artes Cênicas, faço
através da minha arte que é o Teatro.

Seus trabalhos ou espetáculo?


A Mitologia dos Deuses Africanos de Luiz Motta, com minha Direção e Produção;
Uma Rede para Iemanjá de Antonio Calado.

O que gosta de ler?


De revista em quadrinhos até os grandes clássicos, leio tudo que me chega.

Como você vê o candomblé de hoje?


Uma religião tradicional, que os mais novos tem que respeitar e aprender com os
mais antigos, que estão indo embora e não passando os seus conhecimentos. Os
avôs deveriam cuidar mais de perto dos seus filhos, para que os netos não saiam
por aí, causando um monte de desatinos com a cabeça das pessoas inocentes e
vulneráveis, deveria haver uma espécie de sindicância dos mais antigos nas casas
dos mais novos para coibir os irresponsáveis, ou seja,cuidar da sua árvore
genealógica para que a tradição não se perca, por que entendo também, que os
mais antigos hoje, não tenham mais tanta paciência para ensinar da forma como
aprenderam, então, acredito, que caiba aos seus filhos, cuidar desta continuação da
raiz ou tronco, como se diz. Serem responsáveis por cada Ilê que é aberto.
Alguns "Zeladores" em nome da Hierarquia dentro dos terreiros humilham
seus abiãs ou iaôs (obrigando-os a referenciá-los,não sentar na mesma
altura, ficarem descalços, etc... Os orixás ficam contente com esse
comportamento? É correto os "zeladores se comportarem assim?
Eu acredito em hierarquia sim, você pode ser humilde e respeitoso, sem ser
subserviente. É igual na família, antigamente as crianças não ficavam na sala
ouvindo a conversa dos mais velhos, e quando ficavam, só um olhar do mais velho,
já se sabia que era para sair, isto é respeito.
Dentro de um Ilê é a mesma coisa, se você não foi convidado para sentar-se a
mesa junto com os mais velhos, quando você tiver seus tempos, conquistará este
direito, a meu ver é uma questão de conquista. Quanto a andar descalço, faz parte
do ritual,você se veste e se comporta conforme o ambiente, você não vai a uma
festa de black-tie, vestido de calça jeans,você não vai entrar na casa do orixá de
salto agulha, é uma questão de comportamento, saber se colocar corretamente nos
lugares.

Você acha que luxo do candomblé do RJ é causador de algum tipo de


desvantagem espiritual com relação à simplicidade do candomblé da Bahia.
Afetando fatores como: Concentração, invocação em ambientes típicos, e
etc...?
É difícil esta pergunta, pois não visito as casas de candomblés. Mas tenho uma
opinião, festa de orixá não é desfile de escola de samba e nem de moda, o orixá e
seus adeptos devem estar vestidos conforme a tradição, o resto é invenção. Orixá
é simplicidade, as pessoas estão lá para invocá-lo para agradecer e reverenciar e
não para usar este momento para suplantar os mais humildes.

Você viu a matéria do "Fantástico"? Em que o Índio "BORORO" reclamava


da falta de união, do seu povo em dar continuidade ao ritual fúnebre de
sua tribo (BORORO), em ter que se obrigar a compartilhar com o
catolicismo. Você tem atitude de mobilizar o mundo, mesmo sendo minoria
para prevalecer o que você acredita... Se o candomblé precisar da sua
mobilização,"a lei contra sacrifícios de animais foi sancionada em
21/05/03 nº 11915 por Dep. Manoel Maria (RS)". Você iria as ruas
defender o que você cultua e acredita?
Com toda a certeza! Alguém come animal vivo? Ou tem-se que matar para
comer? Esta Lei é preconceituosa, gostaria que me fosse enviada na integra pra já
conversarmos um movimento, antes que eles comecem a invadir (como era no
início) as nossas casas nos impedindo de manifestar livremente nossa fé.

Entendemos, que o Ensino Religioso na forma confessional, em vigor


atualmente no Estado do Rio de Janeiro (lei 3459/00), está em desacordo
com a Lei Federal 9.475/97, conhecida como "nova lei do Ensino
Religioso", que alterou parte da Lei de Diretrizes e Bases da Educação
(9.394/96-LDB), fruto de um grande consenso, atingido após longos e
profundos debates que envolveram diversas Igrejas, setores educacionais
do governo e organizações sociais, inclusive de professores. A LF 9.475/97
diz claramente: "Art. 33 : O ensino religioso, de matrícula facultativa, é
parte integrante da formação básica do cidadão e constitui disciplina dos
horários normais das escolas públicas de ensino fundamental, assegurado
o respeito à diversidade cultural religiosa do Brasil, vedadas quaisquer
formas de proselitismo. Você concorda com o Ensino Religioso
Confessional?
Não conheço a Lei na íntegra, mas me parece discriminatória.

Você acha necessário a realização de rituais na mata, e necessário termos


espaços específicos para estas finalidades ? Ou seja, um espaço sagrado?
Eu acredito que a religião do candomblé não existe sem a natureza. É necessário
o elemento da mata, cachoeira, rios, mar, fogo, ferro, terra etc. Orixá é energia
viva e comunga diretamente com a natureza. Cada Ilê é um espaço sagrado.

O que acha do sincretismo religioso Afro-católico?


Foi necessário na época da escravidão, para que se pudesse preservar a nossa
religião, hoje em dia, não é mais necessário. Jesus Cristo não é Oxalá, ok?

O que você acha da criação de um conselho de ética para cada nação do


Candomblé?
Já falei sobre isto, na pergunta anterior. É extremamente necessário, só que
cada raiz é que tem que cuidar dos seus galhos e folhas, e não um grupo de fora.

O que você acha sobre a africanização do candomblé?


Não entendi a pergunta! As origens da religião está na África, é o berço das
nações, orixá se cultua em sua língua de origem (banto, gege, yorubá).

Faça suas considerações finais.


Estou muito agradecida, de ter tido esta oportunidade de expressar as minhas
opiniões. Quero deixar uma sugestão. Que se faça uma mesa redonda com os mais
antigos e respeitados Yalorixás e Babalorixá do Rio de Janeiro e Salvador, com
estas mesmas perguntas, cada um respondendo, e poderíamos ter um grande
debate, e que fosse tudo registrado para o futuro.