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37º ENCONTRO ANUAL DA ANPOCS

SPG 11 A RELIGIÃO NA COMPLEXIDADE CONTEMPORÂNEA

RELIGIÃO, CIÊNCIA E A IRREDUTIBILIDADE DAS DIFERENÇAS: CONSIDERAÇÕES EM TORNO DA COMUNICAÇÃO, DO CONFLITO E DO CONSENSO

EDUARDO HENRIQUE ARAÚJO DE GUSMÃO (UFCG)

ROBERTA BIVAR CARNEIRO CAMPOS (UFPE)

ÁGUAS DE LINDÓIA/SP, SETEMBRO/2013

2

I

A proposição que apresento aqui parte

sempre do fato fundamental de que

atitudes últimas possíveis para com a vida

são inconciliáveis, daí sua luta jamais chegar a uma conclusão final. 1

as

No mundo contemporâneo, a presença da religião nos espaços públicos constitui um fator gerador de conflitos e tensões. No Brasil, somos testemunhas de um momento no qual posições são tomadas e discursos são defendidos. Bandeiras, como símbolos que representam as mais diferentes agendas tremulam num horizonte repleto de fraturas.

A palavra fratura é bastante moderna. Vocábulo latino, fractura significa quebradura, fragmentação, fração, termos que serão bastante representativos dos eventos ocorridos no Ocidente, ao longo da fase mais revolucionária da Modernidade. No Manifesto Comunista, por exemplo, Marx irá referir-se à sua época recorrendo à clássica imagem de processos durante os quais tudo que é sólido desmancha no ar. É a representação que coroa a descrição feita por este autor da moderna sociedade burguesa: Tudo o que era sólido e estável evapora-se, tudo o que era sagrado é profanado e os homens são, finalmente, obrigados a encarar com serenidade suas condições de existência e suas relações recíprocas. 2 São imagens detentoras de uma grandeza visionária, de uma força altamente concentrada e dramática, com tons vagamente apocalípticos, qualidades e traços característicos de uma imaginação moderna, preocupada com os horizontes fraturados deste novo mundo do século XIX.

No livro As Fontes do Self Charles Taylor explora as fontes morais do que ele chama de cultura da Modernidade. Nos séculos XVII e XVIII, amplos movimentos culturais teriam se desenvolvido em diversos países da Europa, em torno de quatro grandes temas: a nova valorização do comércio, a

1 WEBER, Max. A ciência como Vocação. In Ensaios de Sociologia. 1982. Rio de Janeiro, Guanabara Koogan, p. 179. 2 MARX, Karl. Manifesto do Partido Comunista. 1988. São Paulo, Global, p. 79.

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ascensão do romance, a mudança da visão do casamento e da família e a nova importância do sentimento.

A valorização de uma ética comercial, a afirmação da vida como uma história cujos acontecimentos precisam ser narrados, a crescente idealização do casamento baseado no afeto de um verdadeiro companheirismo entre marido e mulher, erguido sobre o amor devotado aos filhos constituem processos e mudanças ocorridos no âmbito da sensibilidade. Na análise que desenvolve, Charles Taylor explora as consequências éticas e morais destas mudanças tomando como referência o desenvolvimento da identidade moderna.

Ao falar de identidade, Taylor refere-se a um sentido de interioridade que dá consistência à noção moderna de self. 3 O homem ocidental moderno julga que os seus pensamentos, ideias ou emoções estão dentro de si, enquanto os objetos do mundo com os quais estes estados mentais se relacionam estariam fora. Ou ainda, pensa em suas capacidades ou potencialidades como sendo interiores, à espera do desenvolvimento que as manifestará ou realizará na esfera pública. Em seu estudo, Taylor destaca que para este homem, o inconsciente está dentro, logo, as profundezas do não-dito, do indizível, dos intensos e rudimentares sentimentos, afinidades e temores que disputam o controle de sua vida, são internos. Em termos ideais, o homem moderno seria uma criatura cuja auto-compreensão percorre profundezas internas, interiores parcialmente inexplorados e sombrios.

Característica desse mundo ocidental e moderno. Essa geografia, Taylor faz questão de destacar, não é universal. Por mais ancorada que esteja na própria natureza do agente humano, consiste numa configuração historicamente específica. Constitui uma forma de auto-interpretação limitada por um sentido histórico, que se tornou predominante no Ocidente ao longo da

3 TAYLOR, Charles. As fontes do Self: a construção da identidade moderna. 2005, São Paulo, Loyola. p. 149.

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modernidade. Embora predominante, surgiu num determinado momento e pode deixar de existir.

Este cuidado com certo senso histórico de perspectiva não costuma se fazer presente. Apesar dos inúmeros argumentos de historiadores e antropólogos em seu favor, há uma dificuldade em reconhecê-lo. A razão deste impedimento, nos termos de Taylor, é a de que essa geografia relaciona-se com nosso sentido de self e compõe a constelação de fontes morais vigentes e consolidadas. Princípios morais, herança cultural, geografia interior que diz respeito a nós. É nossa, e neste espaço, vivenciamos e decidimos sobre nossa conduta moral. 4 Seja qual for o grau de nosso conhecimento histórico ou antropológico, essa condição amplia a impossibilidade de não considerar os espaços morais como localizações fixas que definem consensos inalteráveis. Dificulta, portanto um entendimento mais amplo acerca dos referenciais que nos localizam no mundo. É o que se perde de vista, nos termos de Charles Taylor, quando este apresenta sua definição do que é ser um self:

O que sempre perdemos de vista aqui é que ser um self é inseparável da existência num espaço de questões morais, que têm a ver com a identidade e com aquilo que devemos ser. É ser capaz de encontrar sua própria posição nesse espaço, conseguir ocupá-lo, ser uma dentro dele. 5

Espaço erguido em torno de fontes morais que mobilizam o sujeito. Ao tratar das gradativas mudanças que envolvem as percepções da importância do afeto, ocorridas no século XVIII na França e em países anglo-saxões, o autor destaca a ênfase que sentimentos como o amor aos filhos e o afeto entre cônjuges passaram a receber, tornando-se inclusive parte crucial daquilo que torna a vida significativa e valiosa. Sentimentos de amor, interesse e afeição por um cônjuge e pelos filhos passam a ser alimentados, enfatizados,

4 TAYLOR, Charles. Op. cit. p. 150. 5 TAYLOR, Charles. Op.cit. p. 150.

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celebrados e articulados. Dinâmica cultural que irá transformar o núcleo familiar numa comunidade íntima de amor e carinho, em contraste com as relações com parentes mais distantes e estranhos que são vistos, correspondentemente, como formais ou distantes. 6

Trata-se de uma passagem que se desenvolve ao longo de épocas, conforme mostrado por Philippe Ariés nas conclusões do seu História Social da Criança e da Família. A partir do século XV, as realidades e os sentimentos da família se transformariam. De uma realidade exclusivamente moral e social, o núcleo familiar adquire contornos outros, sentimentais: a densidade social não deixava lugar para a família. Não que a família não existisse como realidade vivida: seria paradoxal contestá-la. Mas ela não existia como sentimento ou como valor. 7 O autor refere-se a mudanças civilizatórias que transformaram comportamentos, numa dinâmica de criação de novos valores e experiências. É o que Norbert Elias coloca ao estudar as causas e as forças motivadoras do chamado processo civilizador. Seus efeitos, na análise de Elias, devem ser compreendidos a partir de um estudo das transformações dos costumes e práticas sociais, que envolvem desde o comportamento à mesa até os hábitos sexuais no quarto:

No processo civilizador, a sexualidade, também, é cada vez mais transferida para trás da cena da vida social e isolada em um enclave particular, a família nuclear. De maneira idêntica, as relações entre os sexos são segregadas, colocadas atrás de paredes da consciência. Uma aura de embaraço, a manifestação de um medo sociogenético, cerca essa esfera da vida. 8

São desdobramentos que ganham corpo no século XVIII. Contudo, em diálogo com Ariés e Elias, Taylor salientará que, embora tenham sido intensificados pela industrialização, o rompimento de comunidades primárias

6 TAYLOR, Charles. Op.cit. p. 377.

ARIÉS, Philippe. História Social da Criança e da Família. 2006, Rio de Janeiro, LTC, p. 191. 8 ELIAS, Norbert. O Processo Civilizador, Vol. 1. 1994, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, p. 180.

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anteriores, a separação entre vida profissional e familiar e o crescimento de um mundo capitalista, móvel, de larga escala, burocrático e impiedoso, os paradigmas do sentimento e autoproteção familiares teriam sido estabelecidos antes que a industrialização arrastasse o grosso da população a reboque, e em classes que não foram brutalmente desalojadas. 9

Inicialmente, teria sido a classe média que, consciente da força e correção dos sentimentos de amor e solicitude que a mantinham coesa, passou a fazer novos tipos de exigência a seus membros. Importante referência no livro de Charles Taylor é a que trata de J. Fliegelman, quando este, referindo- se à última parte do século XVIII, situa a relevância e o novo formato adquirido pelo mandamento bíblico de obediência das crianças aos seus pais. Não é apenas a ordem de Deus e o caminho do dever filial, mas, também constitui uma exigência de amor, uma vez que a desobediência ameaça partir os seus corações.

São mudanças que estão vinculadas à emergência desse novo personagem moral, definido por Taylor como self, âmbito e dimensão nova nas relações humanas. Dimensão moderna que concentra os efeitos de uma mudança nesse amplo universo das sensibilidades: A mudança na sensibilidade, em outras palavras, é exatamente aquela cuja expressão filosófica venho acompanhando: diz respeito a quais aspectos da vida são marcados como significativos. 10

O autor refere-se ao processo que transforma a existência desse homem moderno num domínio moral, isto é, numa vida orientada por horizontes de sentido que incluem distinções qualitativas. Fala-se, portanto de um espaço moral erguido em torno de ações e valores discriminados em termos de certo ou errado, melhor ou pior, digno ou indigno, distinções que envolvem o que Taylor chama de avaliação forte 11 e que são construídas numa dinâmica

9 TAYLOR, Charles. Op.cit. p. 379.

TAYLOR, Charles. Op.cit. p. 378. 11 TAYLOR, Charles. Op.cit. p. 16.

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cultural que influencia desejos, inclinações e escolhas. Em sua discussão, essa noção é compreendida como um fato da vida moral, e as distinções qualitativas feitas entre diferentes ações, sentimentos ou modos de vida, tomados como, de algum modo, moralmente superiores ou inferiores são centrais no processo de formação da identidade moderna.

Há um espaço de indagações 12 no qual esse processo se desenvolve. Em sua perspectiva de análise, ao compreender o homem como um ser de profundidade e complexidade empenhado na descoberta de sua identidade, Taylor salienta que a sua formação se dá no âmbito de redes de interlocução 13 essenciais para o alcance de uma autodefinição. Por constituir uma esfera rica em fontes morais, a identidade de cada pessoa é formada pela posição em que esta se coloca dentro do espaço moral a que pertence e pelo intercâmbio linguístico que a envolve, cuja relação escapa ao modelo sujeito/objeto. 14 Na explicação de Charles Taylor, é impossível à pessoa humana prescindir de configurações, isto é, de noções morais e intuições valorativas auto- interpretáveis. Nesse sentido, a resposta à questão da identidade quem eu sou? não se restringe apenas a termos de nome e genealogia. Para uma definição satisfatória da identidade moderna é imprescindível a referência às suas configurações morais, ao horizonte de sentido dentro do qual o agente humano toma posição e decide sobre questões relevantes.

Ora, essa passagem por autores como C. Taylor, P. Ariés e N. Elias é importante, pois atualmente, nos debates e confrontos envolvendo lideranças LGBT e diversos grupos religiosos, fontes morais encontram-se em jogo. Convicções, símbolos laicos e religiosos, concepções de família, percepções acerca dos limites e responsabilidades de uma sociedade democrática, além de demandas por liberdade religiosa e sexual constituem, na companhia de inúmeras outras, o espaço moral das questões que dizem respeito a este agente, aqui compreendido como self.

12 TAYLOR, Charles. Op.cit. p. 52.

13 TAYLOR, Charles. Op.cit. p. 55. 14 TAYLOR, Charles. Op.cit. p. 51.

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Cenário de conflitos erguido em torno de diferenças, com pautas que estimulam, na companhia de Pierucci 15 , o seguinte questionamento: na modernidade contemporânea, somos todos iguais ou somos todos diferentes? Essa questão se faz necessária, para que se compreenda o movimento atual de afirmação das diferenças e a ênfase de suas irredutibilidades. É a retórica dos nossos dias, como coloca Pierucci: “somos diferentes”, dizem as mulheres, “somos diferentes”, dizem os negros, “somos diferentes”, dizem os idosos, “somos diferentes”, dizem os religiosos de diversos grupos, “somos diferentes”, dizem gays, lésbicas e simpatizantes. Pessoas de diferentes orientações e preferências sexuais, homens e mulheres, jovens e velhos, adultos e crianças, negros e brancos querem ser levados a sério justamente em sua diferença. Reivindicam que as situações diferentes em que se encontram pelo fato de pertencerem a esse grupo étnico específico, a essa ou àquela coletividade religiosa, a essa ou àquela minoria, sejam levadas em conta e recebam, porque diferentes, um tratamento diferente. Numa época tão enfática nos discursos que profere celebrando as diferenças, é importante se perguntar:

qual o lugar que a igualdade política ocupa nesse cenário? A igualdade, entendida como exigência do mesmo tratamento legal e político para todos, teria tido seu valor diminuído, desconsiderado, postergado? São questões que precisam ser problematizadas.

É importante reconhecer que essa situação radicaliza dinâmicas que são próprias da modernidade, e que se intensificam ao longo do século XX. Referem-se ao que Charles Taylor define como ganho epistêmico, isto é, o surgimento e a abertura de fontes morais alternativas, representando importantes possibilidades humanas. São mudanças culturais que dão à modernidade a configuração destacada por Marx nas considerações que abrem esse artigo. Mudanças cujos efeitos serão sentidos em inúmeras esferas da identidade moderna, como mostra Taylor, e que modificarão profundamente a sensibilidade religiosa do ocidente cristão:

15 PIERUCCI, Antônio F. Ciladas da Diferença. 1999. São Paulo: USP, Ed. 34.

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Nossa percepção da certeza ou problematicidade de Deus é relativa a nossa percepção de fontes morais. Nossos antepassados em geral não tinham problemas com sua fé, porque as fontes que podiam imaginar tornavam a descrença inconcebível. O grande acontecimento desde então foi a descoberta de outras fontes possíveis. Numa situação em que estas são plurais, parecem problemáticas muitas coisas que antes não o eram e não só a existência de Deus, mas também os princípios éticos “inquestionáveis”, como o de que a razão deve governar as paixões. Gostaria de afirmar que nossa situação atual representa um ganho epistêmico, porque acho que as fontes morais alternativas que se abriram para nós nos dois últimos séculos representam potencialidades humanas reais e importantes. 16

No tocante aos efeitos sofridos pela religião, em decorrência desse ganho epistêmico obtido no âmbito da identidade moderna, Taylor salienta que a crença constitui uma esfera importante para compreendê-los. É a sua tese no livro A Secular Age. O surgimento de outras fontes morais, comentado acima, constitui uma das etapas de um amplo processo de secularização, cujo desenvolvimento e etapas geram consequências no âmbito do domínio que envolve as condições da fé. Em sua análise, Taylor salienta que numa era secular a fé em Deus deixa de ser axiomática e torna-se uma possibilidade. 17 Essa dinâmica fará com que, no contexto das sociedades modernas ocidentais, os símbolos religiosos já não garantam, por si só, o consenso normativo, como mostra Jurgen Habermas. Este precisa ser construído em torno do conflito de ideias e, no tocante à religião, suas mensagens precisam ser traduzidas em termos argumentativos e dialógicos capazes de convencer os diversos grupos, atuantes no mundo da vida. 18

Nesse mesmo cenário de debates, Marcel Gauchet, abrindo divergência com Luc Ferry, aponta possiblidades interpretativas acerca dos rumos tomados pela religião na contemporaneidade. Sua tese é a de que a contemporaneidade seria testemunha de uma dinâmica de saída da religião, ou seja: o importante não seria conceber uma sociedade dividida ou classificada entre setores ainda

16 TAYLOR, Charles. Op.cit. p. 405.

TAYLOR, Charles. Uma Era Secular. 2010. São Leopoldo, Ed. UNISINOS. 18 HABERMAS, Jurgen. Religion and the public sphere. 2006. European Journal of Philosophy.

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vulneráveis à influência do cristianismo e os que superaram este estágio. Antes, o processo de saída da religião estaria ocorrendo numa sociedade na qual não só a religião teria deixado de ser estruturante, mas o próprio estatuto do sagrado teria sido transformado, e esta transformação seria uma consequência interna ao desenvolvimento do próprio cristianismo, tendo seus efeitos acelerados pelo surgimento do Estado e o avanço da ciência. 19

II

Os processos sociais discutidos até esse momento fornecem orientações importantes para a compreensão dos conflitos que tem colocado em confronto lideranças laicas e religiosas. Nestes, entre os diversos aspectos que sobressaem e que são ressaltados pela teoria social contemporânea, percebe-se a forte presença da laicidade, como demanda apresentada em diversas agendas. Concepções de laicidade afirmadas através de retóricas e práticas nas quais, ora afirma-se a religião como direito e defende-se a legitimidade de sua presença no espaço público, ora negam-lhe o reconhecimento com indignação e sarcasmo. É o que se percebe, por exemplo, nas falas de duas importantes lideranças, atualmente bastante atuantes nos debates que envolvem religião, direitos sexuais e política. No dia 27 de Novembro de 2012, Silas Malafaia e Jean Willys encontraram-se no Congresso, em lados opostos, para debater o Projeto de Decreto Legislativo (PDC) que propunha a suspensão da Resolução 001/99, do Conselho Federal de Psicologia que estabelece normas de atuação para os psicólogos em relação à questão da orientação sexual. Seguem trechos importantes da fala do Deputado Federal Jean Willys 20 :

19 FERRY, Luc & GAUCHET, Marcel. Depois da Religião. 2008. Rio de Janeiro, DIFEL. 20 Disponível no youtube (http://www.youtube.com/watch?v=F--Ty5EAKT0)

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Cristianismo bastante seletivo, solidário a algumas questões e outras não. Procurei na Plataforma Lattes, site que inclui o currículo dos principais pesquisadores do país, o currículo do Pastor Silas Malafaia e o currículo da psicóloga Marisa Lobo e não encontrei. E aí fico me perguntando sobre os critérios de seleção das pessoas que vêm falar de um tema relevante para a comunidade científica da psicologia. Fico me perguntando: qual o propósito de se convidar, ainda que psicólogo,

se está em jogo aqui derrubar uma

resolução do Conselho Federal de Psicologia, que é uma entidade que

reúne diversas entidades, num fórum de discussão científica, acho que

esse critério deveria ser minimamente observado. (

PDC fere o princípio da laicidade do Estado. Ainda que se diga, nós vivemos num Estado que é laico, mas não é ateu. Não estou discutido se o Estado é laico ou é ateu. O princípio da laicidade diz que: o Estado não tem paixão religiosa. E visto que o autor deste PDC é pastor evangélico e responde aos interesses da sua igreja, dois membros dessa mesa, por favor eu estou falando, visto que essas pessoas respondem a esses interesses, portanto o Estado não pode se dirigir por paixão religiosa e aprovar esse PDC. Me espanta a compreensão rasteira, mas é rasteira mesmo das noções de identidade de gênero e orientação sexual expostas aqui. Eu fiquei envergonhado de pessoas com essa pobreza intelectual e de informação prestar serviços psicológicos a pessoas com sofrimento psíquico, e aqui tem que ficar claro que em nenhum momento a resolução do conselho proíbe a pessoa com sofrimento psíquico procurar um terapeuta. A resolução não proíbe! O que a resolução proíbe é que nenhum profissional da psicologia pode reorientar sexualmente um paciente. Se o paciente sofre de algo chamado na psicologia de egodistonia, uma dissintonia do ego com o desejo, o fim do sofrimento tem que vir pela egosintonia, colocar o ego em sintonia com o desejo, e não reforçar a egodistonia por meio de terapias e proselitismos religiosos de todo tipo. Esse é um ponto. É preciso que a gente se pergunte sobre a razão desse sofrimento psíquico: o que é que os homossexuais experimentam numa cultura heteronormativa, construída há 3000 anos, por que eles experimentam um sentimento negativo em relação a si mesmos. É preciso se perguntar isso. E qualquer terapêutica tem que fazer o homossexual passar da vergonha pro orgulho, e não reforçar a vergonha, mesmo com casamentos, casamentos aparentes de felicidade aparente, construída e sustentada por um discurso religioso. Isso é que é fundamental. Então esse PDC além de inconstitucional, ele tem um problema ético, ele tem um problema ético, ele fere a laicidade, por fim, já pra concluir, eu quero deixar claro que não adianta proselitismo, não adianta teatro, voz alta, as estatísticas falsas, o falso cientificismo, os phds de araque, eu sou homossexual assumido, nunca fui abusado, meu pai tem orgulho de mim, minha mãe tem orgulho de mim, sou deputado federal, ocupo uma vaga aqui nessa mesa, represento a população homossexual e, portanto, sou um homem de sucesso. Não há discurso que negue isso, me desculpem.

um pastor, que não tem produção

)

Além disso, esse

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A fala do Deputado Jean Willys foi antecedida pelas colocações de Silas Malafaia, cujos trechos mais importantes são os seguintes:

A psicologia não tem autoridade científica para dizer se alguém nasce ou não homossexual. Qual é o ramo da ciência que tem autoridade científica? A genética. A genética é o ramo da ciência que tem autoridade pra dizer se alguém nasce ou não homossexual. Então, vamos lá: não existe ordem cromossômica homossexual, não existe gene homossexual, não existe, é, a libido do homem macho ou fêmea, um hormônio homossexual, não existe. Só tem hormônio de macho e fêmea. Momento de interrupção. Aqueles que reclamam por direito devem aprender a respeitar os direitos dos outros! Continuando a questão, se o indivíduo nasce homossexual, significa então que 2 gêmeos, ok, idênticos, chamados monozigóticos, isto é, um mesmo espermatozoide num mesmo óvulo, eles se dividem em dois embriões, os genes deles são cem por cento iguais, então se um é homossexual, o outro teria que ser homossexual, um é heterossexual, o outro teria que ser heterossexual. Porque eles possuem a mesma genética. 38% de gêmeos homossexuais não tem no seu gêmeo, ser homossexual, no nível de gêmeos iguais. Nova interrupção. Senhores, nós não estamos falando aqui de sociologia ou teologia. O modelo científico é o modelo da observação. Então, escute isso aqui: um documento científico, uma tese científica, se ela for refutada, a sua alegação cai por terra. Um exemplo simples: se você afirma que laranja só dá laranja, ok? Se alguém provar que laranja dá abacaxi, a tese de que laranja só dá laranja caiu por terra. Por quê? Porque o modelo científico é o da observação. Se uma pessoa pôde ter a sua sexualidade reorientada, cai por terra. Qualquer pessoa que se sente, isso é direitos humanos! É um direito, aqueles que reivindicam direitos, têm que respeitar o direito do outro! Eu tenho o direito, isso aqui é Estado Laico, ok? Não é laicista, ok? Nós estamos baseados na Constituição. Existem, eu tenho aqui um livro de um PHD em genética, mais de trinta por cento de casos de reorientação na América. Isso é conversa! Nós não estamos obrigando ninguém a deixar de ser gay. Pelo amor de Jesus Cristo! Cada um é o que quer ser. Eu estou dizendo que uma pessoa tem o direito. Agora, escute. Psicologia. Não é o terapeuta que diz qual é a queixa ou onde está a dor do paciente. Nós só podemos nos meter onde somos chamados. Escute essa gente. Em pleno século XXI, a sexualidade é tabu na psicologia. Isto é, se um paciente tiver conflito acerca da homossexualidade e procurar o terapeuta: meu filho, assuma. Mas eu não quero. Se vira, eu não posso falar nada. Agora, Freud que eu ouvi na universidade, que tanto foi citado aqui, pai da psicanálise, ou será que os senhores esqueceram parte dos livros? Ele faz o estudo de uma mulher homossexual e ele chega à conclusão que ela tinha uma questão com a figura paterna. Tá nos escritos de Freud, manda botar na

fogueira da inquisição do Conselho Federal de Psicologia. (

nenhum lugar do mundo, em nenhum lugar do mundo é proibido um

Em

)

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terapeuta, onde um homossexual pede ajuda, receber ajuda. A Sociedade de Psicologia Americana, ela indica, ela dá uma dica sobre essa questão, mas ela não proíbe nenhum terapeuta, eu quero saber em que país do mundo tem uma resolução ridícula como essa. Eu quero saber, eu não conheço, eu não conheço, nenhum país do mundo

O que está em jogo aqui é o direito do

paciente decidir. Não tem o conselho de psicologia, não tem nem o psicólogo, é o paciente que decide. Eu quero ser ou eu não quero ser. Nós não estamos tratando de religião aqui. Nós não estamos tratando de igreja aqui, esse é o joguinho que eles querem. Entrar no jogo da religião. Eu tô aqui como psicólogo. Momento de interrupção. Imagina senhores, um pastor resolve fazer uma regra numa igreja e dizer, os senhores não podem opinar assim, assim acerca de Deus ou da teologia. O pastor pode botar no estatuto dele, a organização pode

botar no estatuto que quiser. Agora, tem uma lei maior. Que é essa

aqui, a Constituição do Brasil. Então escute

Então escute essa, todo mundo aqui sabe quem é Sampaio Dória, que é um jurista, ele diz o seguinte: liberdade de pensamento é o direito de exprimir por qualquer forma o que se pensa em ciência, religião e arte. A constituição garante à pessoa o direito de ser gay. E garante à pessoa o direito de não querer ser mais. Senhores deputados, o jogo aqui é esse: nós não estamos discutindo liberdades de homossexuais Momento de interrupção. Pra terminar, senhores, não é o psicólogo, é o paciente. Não é o psicólogo, eu vou repetir, é o paciente, com saúde mental, que deseja se submeter a um tratamento, seja ele terapêutico pela psicologia, seja ele terapêutico pela psiquiatria. Não é o psicólogo que diz: eu vou te tratar sim, tá acabado. Eu vou mudar teu comportamento, tá acabado. Isso é balela! Isso é conversa fiada!

Momento de interrupção.

no conselho de psicologia! (

)

Confronto democrático de ideias que põe em destaque o modo pelo qual diferentes visões de mundo se comunicam e disputam sentidos a respeito do mundo social e subjetivo. Um Brasil menos interessante, no entanto, para o antropólogo Peter Fry, conforme depoimento em entrevista 21 :

Quando cheguei aqui na década de 70, eu achei uma espécie de paraíso, porque eu fui criminoso até 1967, eu tinha 26 anos, porque a lei britânica era muito cruel, dois anos de trabalho forçado. Então, quando cheguei no Brasil, o Brasil que tem um código meio napoleônico, nunca criminalizou a homossexualidade. Pra mim era um imenso alívio, achava interessante, achava também as pessoas relaxadas com essa questão, pelo menos no meio universitário, e naquela época de ditadura

21 Entrevista concedida por Peter Fry ao Programa Sem Fronteiras, exibido na Globonews. Disponível em: https://www.facebook.com/video/video.php?v=10200402356215563

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militar, não era assunto, não era mesmo. Eu me senti muito tranquilo. Agora, voltando a Inglaterra, velha Europa, eu vejo que Inglaterra avançou com uma rapidez extraordinária, extraordinária! Eles foram assim de situação de criminalização da homossexualidade até agora o casamento, que o Cameron quer! Quer dizer, eu sinto que Inglaterra foi muito, muito rapidamente na direção, como parece estar acontecendo também nos Estados Unidos. E o Brasil estacionou-se. Nesse país que tinha uma fama de tolerância, sobretudo em relação ao sexo, se vê nas mãos de um grupo pequeno, mas cada vez maior de pessoas aguerridamente contra.

Questão lançada a Peter: por quê é tão importante para os gays que formam um casal, também chancelar este casamento através de uma autoridade, ou seja, ter o casamento formal?

Peter: na minha geração, nós éramos contra o casamento em geral. Achávamos que a informalidade era a questão. A questão que se coloca, eu também me coloco. Nos Estados Unidos, vale porque o casamento tem efeitos materiais mesmo, de imposto de renda, de acesso à saúde, etc. E também outros lugares, a França também tem um pouco diferença entre a união civil e o casamento formal. E a outra razão é o significado da palavra casamento. Acho que tem algumas pessoas que tem uma vontade de ser como todos os outros. E pensam que o casamento de todos os outros, mesmo se esses todos os outros se casam cada vez menos. Mas a ideia de casamento, eu acho que é muito forte. Tem um apelo simbólico muito forte. Eu sempre fui contra os rótulos. Nós falávamos de geração. A minha geração foi contra todos os rótulos, e sobretudo o rótulo homossexual, heterossexual, né, e esse rótulo continua, por exemplo, se eu quisesse formalizar uma união estável no cartório, chama-se união homoafetiva, então eu recusaria. Pensei em fazer isso, mas com esse nome não vou, porque ou é uma união ou não é uma união. Eu acho que a arte da modernidade seria realmente desenvolver uma legislação que ignorasse o significado do sexo e da orientação sexual, que deixasse as pessoas com o que é de foro íntimo, definirem quem são. Mas não que precisava ficar em documentos, etc.

Nos depoimentos acima, as fontes morais exploradas por Charles Taylor nas discussões sobre o processo de formação da identidade moderna ganham evidência. E o fazem de uma forma agonística, seja na defesa que a elas é dirigida, seja nos discursos que propõem uma nova compreensão das relações entre os sexos e das concepções de família. Aspecto agonístico que pode ser

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percebido na reação próxima da indignação, demonstrada por Marília Gabriela, diante das opiniões de Silas Malafaia sobre o casamento 22 :

S: A homossexualidade, o adultério, a prostituição são pecados claríssimos à luz da Bíblia.

MG.: Então, um casamento que não der certo pra você também tem que continuar lá pra sempre. A pessoa não pode se separar e fazer outra família, com outra pessoa?

S: Pode, a Bíblia, pode, tem margem

MG: Mas essa interpretação

S: Quem te disse que não pode?

MG: Mas essa interpretação é muito fortuita. Quando você diz assim, eu estou aqui para defender a família

S: Na minha igreja tem vários divorciados.

MG: Mas quando você diz, eu tô aqui pra defender a família, eu quero saber que família é essa. Que conceito de família é esse, que

eu vou propor um problema

a você, que é contra inclusive o aborto, a legalização do aborto.

Supondo que nasça uma criança e que a mãe dessa criança não vá poder criá-la. Um casal homossexual se dispõe a criar essa criança, essa criatura que senão vai ficar jogada, à disposição do que seja, numa instituição que vai tratá-la mal. Você acha que ainda assim um casal homossexual não pode ter essa criança e fazer dela um belo cidadão, uma bela cidadã, e criar um ser humano digno, com todos os seus direitos, com toda a sua inteligência, com todo o seu amor e compaixão pelo outro?

desde a época de Cristo não foi revisto! (

)

S: Primeiro, tem mais na fila casais hetero esperando criança do que homo.

M.G: eu não estou perguntando isso pra você. Eu tô falando das novas famílias.

S: Eu não acredito que dois homens possam criar uma criança

perfeita no sentido total que você quer. Eu não acredito, porque eu acredito que Deus fez homem e mulher e esses seres se completam, e

lá na França, ninguém chamou de fundamentalistas

MG: Ô Silas, as famílias, as famílias mudaram, a sociedade como um todo mudou

22 Entrevista realizada em Fevereiro deste ano, disponível no Youtube.

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S: Vamos ver daqui a cinquenta, acontecer.

sessenta anos o que vai

MG: Mas daqui a cinquenta, sessenta anos, o que é que pode acontecer?

S: O que é que pode acontecer? Crianças, que agora essa questão de adoção é nova, dez anos, doze anos, não tem mais de quinze anos isso no mundo. Então, não adianta agora vim com fotografia de jornal e mostrar dois caras com uma criança feliz. Essa história, pra mim não me convence.

MG: Eu não tô falando só disso. Tô falando de duas mulheres ou dois homens

S: Eu não acredito que dois homens ou duas mulheres tenham capacidade pra desenvolver um ser humano. Eu acredito que um homem e uma mulher, eu não acredito nisso!

MG: Eu conheço muitas pessoas que foram criadas dessa forma.

S: Daqui a trinta anos você pode me dizer alguma coisa.

MG: Mas

julgando, prejulgando!

você tá prejulgando Silas! Você é Deus,

você tá

S: Não, você que tá me julgando. Eu tô dizendo baseado no que aprendi.

MG: Você tá dizendo que uma criança ali criada daqui a trinta anos vai ser o quê?

S: Eu não sei, tenho minhas dúvidas. Assim como uma criança ser criada por leviano, um pai leviano? Eu tenho minhas

MG: Um pai bandido que bate na mulher. Uma família que tem um pai maldito.

S: Tenho minhas dúvidas no que é que vai dar essa criança. Eu até acredito que o ser humano, por ele ser um ser inteligente, ele possa romper uma história e construir uma história nova. Não significa que filho de bandido vai ser bandido e filho de bacana vai ser bacana. Um cara pode romper a sua história, ou pra melhor ou pra pior. Agora eu tô falando aqui na tese que você tá me apresentando.

MG: Das novas famílias.

S: Eu posso defender as minhas teses com a maior veemência possível e não significa que eu odeio as pessoas. Eu sou muito veemente pra defender meus princípios. É meu jeito. Você mesmo já falou, eu sou polêmico, é meu jeito, eu defendo com muita vontade. Agora, eu amo profundamente. Uma vez um repórter perguntou assim pra mim: pastor, vamos lá, se seu filho fosse homossexual, como é que

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o senhor agiria? Eu disse pra ele: eu o amaria cem por cento e discordaria dele cem por cento.

MG: Você ia fazer um inferno da vida do seu filho.

S: Não! Eu ia mostrar a ele, ia tentar ajuda-lo com o meu amor. Sabe por que Gabi? O ser humano pensa que amar é falar o que o outro quer ouvir.

MG: Supondo que ele não conseguisse, que você

S: Vai continuar o caminho dele.

MG: Você ia continuar enlouquecendo o seu filho.

S: Não, isso é você me julgando. Olha, a mãe de um bandido vai na cadeia. E eu tenho trabalho em penitenciária, o filho é assassino e facínora, ela o ama profundamente, agora pergunta se ela concorda um milímetro com aquilo. Concordar com uma prática é uma coisa, amar a pessoa é outra. Eu amo os homossexuais, mas discordo cem por cento de suas práticas.

MG: Diga pra eles

S: Eles sabem. Eu amo os homossexuais, eles não são bobinhos não. Eu amos os homossexuais, como amo os bandidos, amo assassinos. Vambora, eu aumento o leque, porque eu amo.

MG: Você tá colocando homossexual do lado de bandido e assassino.

S: Eu num gosto de uma prática, eu tô dizendo pra você.

MG: Silas, religião e política, caminham bem? Nós temos um Estado laico. Agora, os evangélicos tem

S: É laico, mas não é laicista.

MG: Vai daí quê?

S: Vai daí quê, assim como um ateísta pode com as suas convicções trafegar na política, eu com as minhas convicções religiosas posso. O que eu não posso é querer fazer que a minha religião seja dominante, entre pela goela das pessoas. Agora, eu como cidadão, o que eu e você somos?

MG: Agora, você não quer ser político?

S: De jeito nenhum. Nunca serei.

MG: Mas, quer influenciar na política?

S: Com toda certeza! Não só na política, na sociedade.

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III

Seja no embate entre lideranças laicas e religiosas, como demonstram

os trechos das falas do Pastor Silas e do Deputado Jean, ou na entrevista

descrita acima, um aspecto que se apresenta de uma forma muita clara é o que diz respeito aos processos de tradução cultural ou, nos termos de Paula Montero em diálogo com Jurgen Habermas 23 , o problema da irredutibilidade das diferenças. Os depoimentos expostos acima são emblemáticos nesse

sentido. Em sua direção deve-se dirigir um olhar que seja capaz de problematizar a comunicação de sentidos, e a forma conflituosa como essa se dá.

Percebe-se que, diante da ênfase colocada sobre imperativos morais tão fundamentalmente ocidentais como liberdade e dignidade, e uma ênfase erguida em torno de argumentos tão distintos, é preciso retornar a uma sociologia e antropologia preocupada em problematizar as dinâmicas sociais instauradoras de conflitos. Ora, os termos da discussão são fortes e

desqualificadores: fala-se em descabimento argumentativo, coloca-se que os atores protagonistas do debate misturam os fatos com a moral ou ética, dando

a sugestão de que há um expediente desonesto na elaboração dos argumentos. É preciso, portanto, seguir outro caminho.

A alternativa que surge aproxima-se das considerações lançadas por Luiz Eduardo Soares, quando este problematizava os confrontos religiosos que envolviam os pentecostais e os afro-brasileiros. Ao defender a existência de dimensões democráticas naquele conflito, o autor dizia que era preciso que os

23 MONTERO, Paula. Jurgen Habermas: Religião, Diversidade Cultural e Publicidade. In Novos Estudos CEBRAP, 84, Julho de 2009. P. 199-213.

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cientistas sociais o etnografassem, ou seja, que a ele dirigissem reflexões apoiadas em material etnográfico sistematicamente elaborado. 24

Nesse sentido, como se trata de confrontos inseridos em domínios axiológicos, é imprescindível o recurso a uma perspectiva teórica que problematize a oposição de interesses, sentimentos e ideias, no diálogo com uma teoria da ação fundada em valores. Ou seja, no âmbito de uma teoria sociológica do conflito, compreendida nos termos propostos por Georg Simmel e Max Weber.

Esses dois autores inauguram uma perspectiva sociológica do conflito que se afasta de vertentes durkheimianas e marxistas. Tanto para Durkheim como para Marx, a leitura de seus trabalhos demonstra que o conflito corresponde ao patológico e o normal, à integração. Para Durkheim, a possibilidade de erradicação do conflito surgia associada à implementação funcional da divisão do trabalho social e em Marx, somente a sociedade que tivesse abolido a propriedade privada conseguiria eliminar suas dissensões. De uma forma teleológica, o conflito e a integração eram tratados como instrumentos de uma causa, como um meio para atingir um fim.

Do ponto de vista do desenvolvimento de uma teoria do conflito, e de uma teoria que seja capaz de compreender as dinâmicas culturais conflituosas da contemporaneidade e aquelas que envolvem agentes sociais laicos e religiosos, não haveria muitas possibilidades nos limites das abordagens desses dois autores. Comentando as duas perspectivas e o tratamento sociológico que cada uma dá à esfera do conflito, Pierre Birnbaum coloca: sua abordagem do fenômeno continua a ser demasiado reducionista e revela-se incapaz, devido a uma interpretação demasiado rígida das fontes dos conflitos, de apreender a sua extrema diversidade. 25

24 SOARES, Luiz Eduardo. A guerra dos pentecostais contra o afro-brasileiro: dimensões democráticas do conflito religioso no Brasil. In Comunicações do ISER, nº 44, ano 12, 1993. 25 BIRNBAUM, Pierre. Tratado de Sociologia. 1995. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, p. 253.

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Com interesse sociológico no conflito, Simmel e Weber inauguram outra perspectiva que combina ação e intencionalidade e que situa a apreensão e a compreensão desse fenômeno no domínio da interação social. Seja nas considerações weberianas sobre o politeísmo dos valores ou no conceito de Simmel de sociação, em ambos o conflito deixa de ser visto como anomia, uma vez que é fundante e fundamental à vida social, constituindo, portanto um fenômeno normal e vital para o funcionamento da sociedade. Deixando de ser uma estrutura que corresponderia, em Durkheim e em Marx, a uma etapa de uma evolução disfuncional da história do homem -, torna-se um processo, ao mesmo tempo detentor de positividade e de possibilidade de aplicação em nível de conceito. Essa aproximação possibilita compreender as tênues modificações ocorridas nas formas como o laço social se estabelece, e nestas, o lugar que a religião e a ação social motivada religiosamente ocupam.

O legado sociológico weberiano ensina que os processos de racionalização e intelectualização que se desenvolvem no Ocidente são geradores de uma consequência decisiva: desencantam o mundo. No entanto, Weber reconhece que apesar de sua progressão em superfície, por todos os domínios da atividade humana, a racionalização não consegue solapar o império do irracional. Ao contrário, com a racionalização crescente, o irracional se reforça em intensidade. Ao homem resta a capacidade de racionalizar apenas as relações que lhe são exteriores.

O sentimento de Weber, exposto tanto no estudo sobre a Objetividade do Conhecimento como na Ciência como Vocação é o de que a vida e o mundo são fundamentalmente irracionais. Na vida afetiva, nas relações com o poder, nas demonstrações do acaso e, principalmente, no domínio dos valores o irracional se impõe como núcleo duro da realidade, transformando o mundo num espaço irremediavelmente marcado por uma irracionalidade ética. Como já colocado anteriormente, segundo Weber, porquanto que a vida tenha em si mesma um sentido e que se compreenda em si mesma, ela não conhece senão o eterno combate que os deuses travam entre si, isto é, ela não conhece

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senão a incompatibilidade dos pontos de vista últimos, a impossibilidade de se resolver os seus conflitos e, como consequência, a necessidade de se decidir em favor de um ou de outro. O desencantamento do mundo, pela racionalização, permanecia impotente diante da luta eterna que os gregos, ainda sob o encanto dos deuses e dos demônios, exprimiam em seu politeísmo. Da mesma forma que em outras épocas oferecia-se grande quantidade de sacrifícios a Afrodite, Apolo e aos deuses da cidade, agora serviços são oferecidos à paz, à justiça, ao amor, à verdade, à liberdade. Estas imagens, nos termos de Weber, representam a verdade da experiência humana. Gays e evangélicos, de forma agonística, tem feito questão de atualizá-las.

Configurações sociais marcadas pelo conflito são irredutíveis, portanto à vida em sociedade. A questão maior, que se impõe é a da escolha: a cada um de nós, diz Weber, de acordo com nosso ponto de vista último, cabe a decisão acerca de quem é Deus e quem é o Demônio. 26 Ao ressaltar esse aspecto, Weber refere-se ao conflito inconciliável das várias esferas de valor do mundo, que consiste na recusa das posturas que atribuem à realidade uma significação intrínseca. Ora, a realidade só adquire sentido em função de avaliações subjetivas, como coloca Paulo Iotti, advogado, ao expor razões íntimas e jurídicas que fundamentam a sua divergência das ideias expostas por Silas Malafaia, na entrevista concedida em fevereiro desse ano:

Eu vou aqui comentar também a entrevista que o Pastor Silas Malafaia concedeu pra Marília Gabriela e eu, pra dar alguma resposta do ponto de vista jurídico que mostram o descabimento de

Como eu sou gay, me afirmo gay, há a

possibilidade dele falar que eu tô advogando em causa própria. Bom, primeiro é absolutamente legítimo uma minoria ou integrante de um grupo vulnerável defender seus próprios interesses. É um absurdo desmerecer alguém por causa disso. Por outro lado, o Pastor Malafaia está claramente defendendo o interesse próprio dele, já que ele se acha no direito de criticar a homossexualidade, não só homossexuais, a

tudo aquilo que ele falou ali. (

)

26 WEBER, Max. Op.cit. p. 175

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conduta concreta de homossexuais específicos, mas a homossexualidade em sentido abstrato mesmo, vamos colocar dessa forma. Então, se eu tô em causa própria ele também tá. 27

Em Simmel, o conflito constitui uma condição necessária para a vida em sociedade. O conflito é vital. Em suas considerações, o autor coloca: um grupo absolutamente centrípeto e harmonioso, uma união pura não só é empiricamente irreal, como não poderia mostrar um processo de vida real. 28

O antagonismo, a concorrência, a animosidade desempenham, para Simmel, papel positivo e integrador, uma vez que, independentemente de seus resultados objetivos determinam tanto a forma do grupo como a sua posição recíproca. Numa relação conflituosa, sendo também uma relação de reciprocidade, não é suficiente que a hostilidade tenha causas que se apresentem objetivamente. É preciso que esteja acompanhada de um sentimento e de suas expressões. 29 A relação recíproca que é o conflito, selada pelo sentimento que lhe é específico, é também uma relação de interdependência e, nesta medida, é produtora de um elemento de comunidade. 30

A passagem pelas discussões de Weber e Simmel, e o conteúdo das falas reunidas nesse artigo lembram a colocação de Léa Freitas Perez, dirigida ao conflito entre pentecostais e afro-brasileiros: no âmbito da comunicação de sentidos que gays e evangélicos disputam, a vida social é experienciada como sendo o domínio da pluralidade irredutível. 31

Concluindo

o

cenário

de

conflitos

instaurado

atualmente

entre

lideranças

evangélicas

e

LGBTs

dramatiza

valores

e

identidades

cujos

27 Disponível no Youtube.

SIMMEL, Georg. A natureza sociológica do conflito. In Grandes Cientistas Sociais. São Paulo, Atica. p. 124.

28

29

SIMMEL, Georg. Op.cit. p. 126.

30 SIMMEL, Georg. Op.cit. p. 133. 31 PEREZ, Léa Freitas. Conflito religioso e politeísmo dos valores em tempos de globalização. V Simpósio da Associação Brasileira de História das Religiões, Juiz de Fora/MG, 27 a 30 de Maio de 2003.

23

significados são irredutíveis. Imperativos morais inegociáveis. A ênfase indignada dos discursos se apresenta aos cientistas sociais como um fenômeno que necessita de análises atentas, capazes de perceber o jogo cultural que envolve o problema da comunicação das diferenças e a dinâmica da produção dos consensos, no âmbito dos diversos modos de ver o mundo na contemporaneidade.