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teste saúde 89 fevereiro/março 2011

HIGIENE ORAL

HIGIENE ORAL

InquéRIto Deco PRoteste
InquéRIto
Deco
PRoteste

Mais de um terço dos inquiridos desleixa a higiene diária e quase metade evita a visita ao dentista, na maioria, por razões económicas

200 euros por ano afastam do dentista

O sorriso é um cartão-de-visita

para a sociedade e a saúde da boca influencia o funcionamento do organismo. Os dentes em mau es- tado causam dores insuportáveis, mastigam mal e dificultam a tare-

fa ao sistema digestivo. As cáries e

inflamações favorecem diversas patologias, incluindo doenças cardíacas. Mau hálito e constran- gimento nas relações sociais são outras consequências. A experiência de quase 4 mil por- tugueses mostra o País com o pior nível de saúde oral dos 4 do estu- do. Lavamos mal os dentes, repor- tamos mais problemas e vamos

menos ao dentista do que os bel- gas, espanhóis e italianos.

A maioria dos inquiridos revela ser

obrigada a recorrer a especialistas

privados e a pagar do seu bolso, por falta de cuidados no Servi-

ço Nacional de Saúde. Os grupos abrangidos pelo cheque-dentista, em muitos casos, não aproveitam as consultas gratuitas.

Duas escovagens de difícil alcance

■ A Organização Mundial de Saú-

de recomenda lavar os dentes, no mínimo, duas vezes por dia, de preferência, a seguir ao pequeno-

>

O NOSSO ESTUDO

Radiografia de 3863 bocas

• Em fevereiro de 2010 enviámos, por correio, um in-

quérito sobre saúde oral a uma amostra representati- va da população portuguesa entre os 18 e os 74 anos. O mesmo fizeram associações de consumidores da Bél- gica, Espanha e Itália. Objetivo: conhecer os hábitos de higiene e tratamentos dentários e verificar a evolução dos indicadores face ao último estudo, em 2005.

• Recebemos 7773 questionários válidos e anónimos

(3863 portugueses). Ponderámos os dados para refletir

os hábitos, experiências e opiniões dos adultos por sexo,

idade, local de residência e nível de educação. Apresen- tamos os resultados nacionais e, quando se justifica,

comparamos com outros países.

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HIGIENE ORAL

teste saúde 89 fevereiro/março 2011 24 HIGIENE ORAL Motivos da insatisfação com os dentes Ausência Coloração

Motivos da insatisfação com os dentes

Ausência

Coloração

Tortos ou irregulares

Grande espaço interdentário

Partidos

32% 26% 21%
32%
26%
21%

46%

40%

quatro em cada 10 portugueses revelam-se insatisfeitos com o sorriso, na maioria dos casos, por falta de dentes. Em geral, as próteses desagradam mais do que os dentes naturais

>

-almoço e antes de deitar. A es- covagem deve prolongar-se por 2 minutos. O fio dental é útil para limpar os espaços entre os den- tes, pelo menos, uma vez por dia. O ideal é fazê-lo antes de deitar. ■ Muitos inquiridos admitiram não seguir as regras: quase 4 em cada 10 lavam os dentes menos de 2 ve- zes por dia e apenas um quinto faz do fio dental um fiel companheiro. Sem este, é impossível remover os restos de comida inacessíveis à es- cova e que causam cáries interden- dárias, as mais frequentes.

■ Face ao último estudo, em 2005,

os hábitos de escovagem pioraram

ligeiramente. Os profissionais da área arrecadam parte da respon- sabilidade: tal como há 6 anos, metade dos inquiridos afirmaram que o dentista nunca demonstrou

o bom uso da escova e 9 em cada

10 não obtiveram instruções sobre

o fio dental. Dos utilizadores de

próteses dentárias, só um quarto recebeu explicações de limpeza. Uma falha a retificar: a nossa aná- lise indica que os cumpridores so- frem menos cáries e apresentam

CHEqUES-DENTISTA ALARGADOS A DOENTES COm VIH/SIDA

estaDo Paga consultas no PRIvaDo

os cuidados dentários gratuitos através de cheque-dentista foram alargados a doentes com vIH/sida. o programa já abrangia crianças, grávidas e idosos. o paciente escolhe um especialista da lista de aderentes ao programa

´ Os pacientes com VIH/sida podem usufruir de 6 che- ques, para tratar 9 a 11 dentes. O primeiro cheque é atribuído pelo médico de família e os seguintes, solici- tados pelo dentista.

´ Aos 7 e 10 anos, as crianças que frequentam escolas públicas ou Instituições Públicas de Solidariedade So- cial têm direito a 2 cheques-dentista, que se tradu- zem em igual número de consultas para tratamentos. Aos 13 anos, estão previstas 3 consultas. Se o especia- lista julgar necessário, pode pedir uma suplementar em todos os casos. O primeiro cheque é fornecido pela escola ao encarregado de educação e os seguintes, pelo dentista. Preste atenção à data de validade.

´

´

A partir dos 65 anos, quem recebe o complemento soli-

dário para idosos beneficia de 2 cheques por ano, para

tratar dentes ou preparar a boca para próteses. Estas não podem ser financiadas pelo mesmo sistema, mas os utentes têm direito ao re-embolso de 75% do valor aplicado (até € 250) a cada 3 anos. Contacte o centro de saúde.

As grávidas com vigilância pré-natal no Serviço Nacio- nal de Saúde usufruem de 3 consultas. Os tratamen- tos podem ocorrer até 60 dias após o parto. Fale com

o médico de família: é este quem avalia a situação e

atribui o primeiro cheque. Os restantes ficam a cargo

do dentista.

o primeiro cheque. Os restantes ficam a cargo do dentista. www.saudeoral.min-saude.pt para consultar a lista de

www.saudeoral.min-saude.pt para consultar a lista de inscritos no programa

para consultar a lista de inscritos no programa Grávidas assistidas no SNS usufruem de tratamento gratuito

Grávidas assistidas no SNS usufruem de tratamento gratuito

no programa Grávidas assistidas no SNS usufruem de tratamento gratuito Cheque-dentista não paga próteses a seniores

Cheque-dentista não paga próteses a seniores

teste saúde 89 fevereiro/março 2011

menos dentes em falta.

■ Escova elétrica ou manual, pou-

ca diferença faz, se a limpeza for

bem conduzida. A primeira pode ser útil para quem tem dificuldade

de manuseamento, como os mais

idosos. Mais de metade dos inqui- ridos recorre à escova manual de dureza média, a mais adequada para a generalidade da popula- ção. Quem tem dentes ou gengi- vas sensíveis, como 22% dos que nos responderam, deve usar uma escova suave.

■ A consulta anual ao dentista e

um raio-X panorâmico todos os 5 anos, num paciente sem proble- mas, completam os bons hábitos:

as cáries e as doenças das gengivas

em fase inicial são impercetíveis

para o doente. Em cada 100 por- tugueses, 3 confessaram nunca ter recorrido ao dentista e 39 só o vi- sitam quando sentem dor.

■ Apenas um quarto afirmou con-

sultar este especialista, no míni-

mo, uma vez por ano. As crianças merecem um pouco mais de aten- ção: 55% dos inquiridos com fi- lhos menores declararam levá-los

ao especialista com a frequência

aconselhada. Mas 63% dos pais de

crianças entre 2 e 5 anos nunca as sentaram na cadeira do dentista.

O mais adequado seria fazê-lo

uma vez por ano.

■ As famílias com rendimentos

baixos tendem a evitar mais as consultas de rotina.

Doces exterminadores

■ Quando comemos e bebemos

sem lavar os dentes, estes desmi- neralizam e acumulam restos, que formam placa dentária. Esta favo- rece o aparecimento de cáries. Os alimentos com teor de açúcar ele-

vado, como bolos, rebuçados, cho- colates e refrigerantes são os maio- res inimigos, sobretudo, quando consumidos entre as refeições. Cerca de um quarto dos inquiridos deixa-se convencer regularmente por estas doces tentações.

■ O tabaco e o álcool estão associa-

Porquê um novo estudo sobre saúde da boca? Após a recolha de dados do nosso estu-

do publicado em 2005, o primeiro com autorrelato de saúde oral de base nacio- nal, foi criado o Programa Nacional de Promoção da Saúde Oral (PNPSO). Por

isso, interessa avaliar a evolução de indi- cadores como a autoperceção do estado de saúde e a satisfação com o aspeto dos dentes, entre outros. Importa ainda ana- lisar a evolução dos hábitos de higiene, já que um objetivo do PNPSO é respectiva

promoção. Os indicadores do plano têm por alvo os jovens. Ao estudar os adultos, contribuí- mos para avaliar os efeitos do programa de modo abrangente.

mos para avaliar os efeitos do programa de modo abrangente. expetável uma melhoria acentuada dos hábitos

expetável uma melhoria acentuada dos hábitos entre os adultos. Porém, fica-nos o alerta para o agravamento de certos in- dicadores de saúde oral e menor adesão a comportamentos de higiene. Mais preo- cupante é não haver alterações nos jovens entre os 18 e os 24 anos, alguns, provavel- mente, já abrangidos pelo PNPSO.

como melhorar os hábitos? Deve-se continuar a apostar na promoção junto das crianças e criar estratégias para envolver os pais. Atraí-los à escola, para formação, e incentivar os jovens a dar o exemplo em casa podem melhorar os há- bitos de higiene também nos adultos.

dos a maior prevalência de cáries, doenças nas gengivas e doenças pré-cancerosas na boca. Dois em cada 10 inquiridos declararam- se fumadores e um quinto ingere bebidas alcoólicas quase todos os dias.

Dentes e gengivas muito frágeis

■ Seis em cada 10 inquiridos classi- ficam a saúde da boca como fraca ou muito fraca. O mesmo sucede,

por exemplo, com apenas 29% dos

Dentífricos para criança e adulto devem incluir 1000 a 1500 partes por milhão de flúor

belgas. Por cá, 58% pensam que o exame de um dentista decretaria

a necessidade imediata de trata-

mentos, um indicador de que a grande maioria está consciente dos problemas.

■ Se a saúde é frágil, a aparência

dos dentes também não satis- faz. Em cada 10 inquiridos, 4 não apreciam o sorriso devolvido pelo espelho. Os espanhóis são os mais próximos no desgosto, com quase 30% de insatisfeitos. ■ As queixas centram-se sobretu-

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HIGIENE ORAL

SERVIçO DE LImpEzA COmpLETO 8 gestos contRa cáRIes 1 Corte 45 a 50 centímetros de
SERVIçO DE LImpEzA COmpLETO
8 gestos contRa cáRIes
1 Corte 45 a 50 centímetros de fio dental, enrole as extremidades
nos dedos do meio e segure com o polegar.
2 Desloque o fio suavemente entre cada dente até à gengiva.
Chegado a esta, curve-o em “C” e deslize no sentido contrá-
rio, em movimento oscilante. Repita para todos os espaços
interdentários.
3 Coloque um centímetro de pasta com flúor na escova. Para as
crianças com menos de 6 anos, basta o equivalente ao tama-
nho da unha do respetivo dedo mínimo.
4 Com a escova ligeiramente inclinada em relação à gengiva
(45º), faça movimentos circulares com pouca pressão.
5 Comece pela parte exterior dos dentes e passe para a inte-
rior.
6 Coloque a escova na vertical e lave o interior dos dentes da
frente, em cima e em baixo, em movimentos circulares.
7 Escove a parte superior dos dentes com movimentos de vai-
vém.
8 Esfregue a língua para remover a maior quantidade de bacté-
rias possível.
Desloque o fio entre os
dentes até à gengiva
Escove dente a dente
em movimento circular
Lave o interior com a
escova na vertical
No final, esfregue
a língua
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teste saúde 89 fevereiro/março 2011
a língua 26 teste saúde 89 fevereiro/março 2011 os nossos estudos: 6 anos depois, resultados não

os nossos estudos: 6 anos depois, resultados não melhoram

a saúde da boca e os hábitos de higiene mantiveram os fracos níveis que detetámos no último inquérito sobre a matéria, em 2005

Já perderam

dentes

Julgam precisar

de tratamento

Gengivas

a sangrar

Dentes

sensíveis

Insatisfeitos com o aspeto

Dor

2 escovagens

diárias

Escovar antes de deitar

Uso diário de fio dental

saúDe Da boca

87% 89% 57% 58% 48% 50% 47% 48% 56% 40% 24% 35% HábItos De HIgIene
87%
89%
57%
58%
48%
50%
47%
48%
56%
40%
24%
35%
HábItos De HIgIene
69%
62%
57%
56%
18%
2005
20%
2011

A maioria dos indicadores de saúde oral piorou ligeiramente: há, agora, mais dentes em falta, dor, gengivas a sangrar e sensibilida- de dentária. Os últimos 3 critérios respeitam aos 3 meses anterio- res a cada estudo. Nos hábitos de higiene, só o fio dental ganhou adeptos

Nos hábitos de higiene, só o fio dental ganhou adeptos quando as crianças vão ao dentista

quando as crianças vão ao dentista

dental ganhou adeptos quando as crianças vão ao dentista 28% Mais de 1 vez por ano

28%

Mais de 1 vez por ano

27%

1 vez

por ano

25%

Nunca

12%

Caso tenham

problemas

8%

Menos de 1 vez por ano

Depois da irrupção da maioria dos dentes de leite, as crianças devem consultar o especialista, no mínimo, uma vez por ano, como os adultos

teste saúde 89 fevereiro/março 2011

teste saúde 89 fevereiro/março 2011 Insatisfeitos com os tratamentos Preço Explicações sobre a intervenção

Insatisfeitos com os tratamentos

Preço

Explicações sobre a intervenção

Qualidade dos cuidados

Cuidados para não magoar

Higiene

Qualidade dos cuidados Cuidados para não magoar Higiene 15% 28% 26% 23% 65% Um quarto dos
Qualidade dos cuidados Cuidados para não magoar Higiene 15% 28% 26% 23% 65% Um quarto dos

15%

28%

26%

23%

65%

Um quarto dos inquiridos revela desagrado geral com a consulta, mas o preço reco- lhe mais queixas: metade afirma que o custo elevado impede a frequência adequada das consultas

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do na coloração escura ou ama- relada e na falta de dentes. O ali- nhamento (tortos, inclinados ou irregulares) desagrada a cerca de um terço e o espaço interdentário,

a um quarto.

■ Os inquiridos acusam a falta de 7 dentes, em média. Apenas 11%

mantêm todos os dentes naturais.

A perda aumenta com a idade, mas

os mais novos não estão isentos de problemas: só um quinto dos in-

quiridos entre 18 e 24 anos guarda

a dentição completa. A média de

falhas varia entre 3, nos jovens, e

11, entre os 65 e os 74 anos. Quatro em cada 10 inquiridos preenche- ram o vazio com dentaduras, co- roas e implantes.

■ Os dentes naturais mantidos pe-

■ Por cá, a limpeza e polimento,

observação de rotina e raio-X fo- ram as intervenções mais comuns. Desvitalizar, tratar cáries e extrair

dentes surgem a seguir.

■ Um quarto dos utentes con-

siderou a experiência negativa.

O tempo desperdiçado na sala de

espera, falta de explicações sobre

o tratamento e a qualidade insu-

ficiente deste contribuíram para

o desagrado. Mas o preço gerou

mais queixas: 65% julgam-no de-

masiado elevado.

■ A grande maioria (90%) recorreu

a um especialista privado e pagou,

em média, mais de € 200 no último ano. O valor anual indicado por maior número de inquiridos foi

€ 100, que corresponderá a 1 ou,

los inquiridos nem sempre estão intactos: em média, cada boca

no máximo, 2 consultas com tra- tamento. Porém, 5% desembolsa-

apresenta 2 cariados, um pouco

ram mais de 2 mil euros.

mais do que em 2005. Quase me-

Metade confessou que o cus-

tade dos inquiridos revelou sensi-

to

impede as idas necessárias ao

bilidade dentária e sangramento

dentista. Porém, o setor privado

das gengivas. Dor, desconforto ao comer e mau hálito são outras consequências indicadas, que se refletem ao nível psicológico: 30% sentem-se constrangidos com o mau estado da boca.

continua a única alternativa váli- da para os portugueses. O Estado garante tratamentos gratuitos a alguns grupos da população, por exemplo, através do cheque-den- tista, mas não tem resposta para

custo difícil de suportar

■ Com ou sem problemas na boca,

54% dos portugueses consultaram

o dentista no último ano. O mes-

mo fizeram, por exemplo, 79% dos belgas e 64% dos espanhóis.

a maioria. Tratar os dentes ainda

é um luxo insuportável para mui-

tos. O Ministério da Saúde tem

de divulgar os apoios existentes e

prever uma resposta com cuida- dos adequados, pelo menos, para

os mais necessitados.

Apenas

5% dos

portugueses

recorrem a

dentistas

do Serviço

Nacional

de Saúde

MaIs PaRa assocIaDos

Pastas de dentes de proteção total PROTESTE n.º 317 Outubro de 2010

Entre 15 e 365 euros para tratar os dentes TESTE SAÚDE n.º 82 Dezembro de 2009

Sorrisos a preço de ouro TESTE SAÚDE n.º 81 Dezembro de 2009

MAiS vAlE PrEvEnir

MAiS vAlE PrEvEnir

 

Higiene diária cuidada e consulta anual

´

lave os dentes, no mínimo, duas vezes por

dia, durante 2 minutos, e sempre antes de dei-

tar. O ideal mesmo é escovar a seguir a todas as refeições.

´

limpe os espaços interdentários com fio

dental, pelo menos, antes da última escovagem

 

do dia.

 

´

Utilize sempre dentífricos com flúor. As

crianças até aos 6 anos devem usar uma quan- tidade idêntica ao tamanho da unha do seu dedo mínimo. A partir desta idade, basta cerca

de um centímetro de pasta.

´

Opte por uma escova de dureza média. Se

tiver dentes ou gengivas sensíveis, a suave é mais indicada. Substitua-a de meio em meio ano ou quando os filamentos começarem a deformar-se.

´

Consulte o dentista uma vez por ano, mes-

mo sem problemas. Siga igual regra com as crianças logo que tenham os dentes de leite.

´

Cuide da alimentação. Evite doces e refrige-

rantes, sobretudo, entre as refeições.

rantes, sobretudo, entre as refeições.
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