Você está na página 1de 42

80

3 OS PRINCÍPIOS CONSITUCIONAIS E O
ACESSO ÀS TECNOLOGIAS CONCEPTIVAS

Os sistemas jurídicos de sociedades democráticas contemporâneas vêm pautando, há


algum tempo, o reconhecimento da necessidade de tutela dos valores existenciais da pessoa
humana. Isto porque o direito é axiológico: determinada sociedade, em um contexto histórico
específico, elege certos valores para incorporar ao ordenamento jurídico. Nas palavras de Villey,
nossa sociedade vive na obsessão da santidade, da virtude ou do paraíso, portanto, o direito, na
opinião de alguns, serviria para subvencionar os prazeres dos sujeitos.1

A tarefa de um jurista, dessa forma, seria propiciar o bem-estar dos indivíduos. Esse bem-
estar foi marcado nas codificações oitocentistas por uma concepção estritamente patrimonialista,
no âmbito do direito privado. De outra forma, no direito público, observou-se o alargamento da
compreensão dos papéis dos indivíduos, da sociedade e, conseqüentemente, do próprio Estado
para a construção de um projeto político comum. Refletindo tais mudanças, o direito ampliou
suas fronteiras epistemológicas e modificou seu papel de mero protetor de interesses
patrimoniais, para, de outra maneira, dar sustentação jurídica ao livre desenvolvimento da
personalidade.2

1
VILLEY, Michel. Filosofia do direito - definições e fins do direito: os meios do direito. São Paulo: Martins Fontes,
2003, p. 125.
2
CORTIANO JUNIOR, Eroulths. Alguns apontamentos sobre os chamados direitos de personalidade. In: FACHIN,
Luiz Edson (coord.). Repensando fundamentos do direito civil brasileiro contemporâneo. Rio de Janeiro: Renovar,
2000, p. 31-55.
81

A fim de sustentar as condições de possibilidade para o livre desenvolvimento da


personalidade, há que se destacar, primeiramente, a pessoa humana como fundamento para a
ordem jurídica. Nesse sentido, na parte final deste trabalho, resgatamos a vinculação
indissociável entre pessoa e sua categorização como sujeito de direito e o necessário
reconhecimento da autodeterminação para o livre desenvolvimento das capacidades e habilidades
humanas.

Avançando, em um segundo momento deste último capítulo, enfrentamos o problema da


categorização do embrião. Como será visto adiante, tal empreendimento contribui para a
racionalização do debate acerca do estatuto moral e jurídico do embrião, como também para
afirmarmos a dignidade que está contida nele.

Por fim, resta enfrentarmos a questão da ausência de normas positivadas pelo


ordenamento jurídico para as práticas em RA. Propõe-se, assim, que os limites e as possibilidades
para o seu descortinamento serão encontrados nos valores éticos que dão sentido aos preceitos
jurídicos, sobretudo nos princípios constitucionais, nomeadamente no princípio da dignidade
humana (artigo 1 , III)3, no da proteção à família (artigo 226, parágrafos 3 , 7 e 8 )4, no do acesso
universal à saúde (artigo 196)5, como também no do Estado como agenciador do bem-estar de
todos (artigo 3 , IV).6
3
Artigo 1 da CF – “A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e
do Distrito Federal, constitui-se em um Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos:
[...] III – a dignidade da pessoa humana”.
4
Artigo 226 da CF – “A família, base da sociedade, tem especial proteção do Estado.
[...] § 3 Para efeito da proteção do Estado, é reconhecida a união estável entre o homem e a mulher como entidade
familiar, devendo a lei facilitar sua conversão em casamento.
[...] § 7 Fundado nos princípios da dignidade da pessoa humana e da paternidade responsável, o planejamento
familiar é livre decisão do casal, competindo ao Estado propiciar recursos educacionais e científicos para o exercício
desse direito, vedada qualquer forma coercitiva por parte de instituições oficiais ou privadas.
[...]§ 8 O Estado assegurará a assistência à família na pessoa de cada um dos que a integram, criando mecanismos
para coibir a violência no âmbito de suas relações”.
5
Artigo 196 da CF - “A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e
econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal igualitário às ações e
serviços para sua promoção, proteção e recuperação”. No que diz respeito ao Sistema Único de Saúde, o artigo 200
da Constituição Federal determina sobre sua competência para:
“I – controlar e fiscalizar procedimentos, produtos e substâncias de interesse para a saúde e participar da produção de
medicamentos, equipamentos, imunobiológicos, hemoderivados e outros insumos;
[...] V – incrementar em sua área de atuação o desenvolvimento científico e tecnológico”.
6
Artigo 3 da CF – “Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil:
[...] IV – promover o bem de todos, sem preconceito de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de
discriminação”.
82

Trata-se de uma proposta enunciada por um conjunto de princípios os quais, acreditamos,


poderão organizar um quadro jurídico-normativo seguro para o confrontamento das questões
suscitadas, especialmente em relação ao principal problema apontado na análise realizada: os
critérios de acessibilidade para a procriação medicamente assistida. Por óbvio, tal proposta não
tem a pretensão de esgotar a riqueza das interfaces entre a moral, a família e as tecnologias
reprodutivas. Trata-se tão-somente de alguns apontamentos.

3.1 A pessoa humana como fundamento e o livre desenvolvimento da personalidade como


condição

O termo ‘pessoa’ tem sua origem na palavra latina persona – máscara utilizada pelos
atores teatrais. Modernamente, o termo persona indica o homem como ator no mundo jurídico.
Dessa forma, dependendo da natureza da relação jurídica, o homem assumirá determinado papel:
o pater, o proprietário, o comprador, entre outros. Dessa forma, no direito civil codificado, a
identidade pessoal do sujeito humano é substituída pelas figuras do testador, do prestador de
serviços, do réu, etc.7

Nos dias de hoje, parece óbvio pensar que todos somos pessoas e, somente por essa
condição, dotados de dignidade. Mas a obviedade é apenas aparente. Nem todas as teorias
filosóficas a respeito da fundamentação da dignidade humana concordam em relação à
delimitação conceitual do sujeito e sua dignidade.8

7
Na Antigüidade, o homem era detentor de direitos enquanto cidadão na pólis grega. O sujeito de direito era o
homem como cidadão livre e senhor da casa, e as desigualdades eram vistas como intrínsecas à natureza humana. Em
Roma, o status dava a medida da proteção do que se entendia por personalidade. Assim, além do nascimento, exigia-
se que o nascido gozasse de liberdade (status libertatis) e fosse cidadão (status civitatis). Na Idade Média, a partir do
Cristianismo, com os princípios de igualdade e dignidade humana, a personalidade era um atributo essencialmente
formulado a partir do indivíduo. Por existir enquanto criação divina, o homem gozava de autonomia terrena,
respondendo, individualmente, perante o Criador. Com a Igreja Católica Apostólica Romana, desenvolveu-se uma
doutrina teológico-política, que atribuía explicitamente ao poder um fundamento divino. Assim, todos os homens,
sendo a imagem e semelhança de Deus, constituíam-se em um horizonte metafísico de transcendência - sua dimensão
não estava circunscrita apenas ao mundo terreno, mas também à Cidade de Deus. O cristão deixa de ser parte do
organismo político, ele é um todo, um infinito, um valor em si mesmo. Possui um fim superior aos fins temporais da
política e sua pessoa transcende o Estado. Este é o gérmen das liberdades modernas do indivíduo (oponíveis ao
Estado) do que chamamos ‘direitos do homem’. Tais características do cristianismo sofreram uma radicalidade que
lhe conferiu traços de absoluto, desencadeando, em última análise, a radicalização da individualidade do sujeito
humano. (MASSINI CORREAS, C. I. Filosofía del Derecho – el derecho y los derechos humanos. Buenos Aires:
Abeledo-Perrot, [s.d.], p. 59).
83

O tema da circunscrição do conceito de pessoa desenvolveu-se na perspectiva das


diferentes correntes filosóficas que se preocuparam em definir o sujeito como ser dotado de
direitos. Nesse sentido, Zarka fala na invenção do sujeito de direito, pois trata-se de uma
invenção da filosofia moral e das políticas modernas.9

De acordo com Ferraz Júnior, “a personificação do homem foi uma resposta cristã à
distinção, na Antigüidade, entre cidadãos e escravos. Com a expressão pessoa obteve-se a
extensão moral do caráter de ser humano a todos os homens, considerados iguais perante Deus”.10
De fato, a noção de pessoa como subjetividade, que possui um valor em si, surge da síntese das
culturas gregas, romana e judaico-cristã: o homem como ser isolado e encerrado em si mesmo.
Entretanto, a construção moderna de sujeito tem impulso a partir da noção de indivíduo,
desenvolvida por Guilherme de Ockham11 e a ‘querela dos universais’.12
8
ALVES, Gláucia C. R. B. Sobre a dignidade da pessoa humana. In: MARTINS-COSTA, Judith. A reconstrução do
direito privado: reflexos dos princípios, diretrizes e direitos fundamentais constitucionais no direito privado. São
Paulo: Revista dos Tribunais, 2002, p. 213-229. Para conceituar pessoa há que se registrar a interdependência entre
as dimensões individual e social do ser humano, pois a sociedade seria formada pela soma dos indivíduos, que, por
sua vez, dela dependem para se desenvolverem como pessoas. A supressão de qualquer uma dessas dimensões do ser
humano conduziria a alguma espécie de totalitarismo.
9
Ver: ZARKA, Yves Charles. A invenção do sujeito de direito. In: Filosofia Política: nova série. Porto Alegre:
L&PM, 1997, p. 9-29.
10
FERRAZ JÚNIOR, Tércio Sampaio. Introdução ao estudo do direito. 4. ed. São Paulo: Atlas, 2003, p. 156.
Quanto à caracterização do sujeito de direitos e do cidadão livre, Aristóteles afirma, no livro terceiro, capítulo I, § 2:
“Mas, sendo a cidade algo de complexo, assim como qualquer outro sistema composto de elementos ou de partes, é
preciso, evidentemente, procurar antes de tudo o que é um cidadão”. De outra forma, em relação à natureza das
desigualdades humanas, o mesmo refere, no livro primeiro, capítulo II, § 13: “Há na espécie humana indivíduos tão
inferiores a outros como o corpo o é em relação à alma, ou a fera ao homem; são os homens nos quais o emprego da
força física é o melhor que deles se obtém. Partindo dos nossos princípios, tais indivíduos são destinados, por
natureza, à escravidão; porque para eles nada é mais fácil do que obedecer”. (ARISTÓTELES. A política. Tradução
de Nestor Silveira Chaves. Bauru: EDIPRO, 1995).
11
Guilherme de Ockham, teólogo franciscano do século XIV, fundador da ‘via moderna’, desenvolveu sua filosofia a
partir da análise da linguagem. Para o nominalismo ockhaniano, a existência real só é reconhecida aos seres
singularmente considerados. Dessa forma, os ‘universais’ não possuem uma existência para além da mental e
instrumental; os seus significados são forjados livremente. Não se exige que sejam verdadeiros, mas que possibilitem
raciocinar sobre os fenômenos singulares. Ver: VILLEY, Michel. Op. Cit., p. 131-5. Com as linhas traçadas por
Guilherme de Ockham, o humanismo e a concepção moderna de ciência determinaram uma visão da realidade
jurídica sob a perspectiva do sujeito titular de poderes. Esses poderes lhe outorgavam a faculdade de exigir condutas
alheias. A concepção moderna de ciência, por seu método, conduziu uma percepção da sociedade política como um
conglomerado de indivíduos, independentes uns dos outros e reunidos pela associação voluntária. Assim, a
concepção de um direito natural objetivo, cuja finalidade é a ordenação do conjunto social, produto da natural
sociabilidade humana, deu lugar à noção de direitos subjetivos naturais, adquiridos pelos indivíduos de modo inato e
virtualmente ilimitado. Nesse projeto de subjetivação do direito, a concepção cristã do homem e de seu destino
pessoal e transcendente contribuiu bastante. Cf. MASSINI CORREAS, I. Op. Cit., p. 60-1. O sujeito de direitos
constitui-se no credor de direitos, devendo exigi-lo contra qualquer que viole sua esfera.
12
A ‘querela dos universais’ diz respeito à oposição entre realistas e nominalistas. De um lado, para os realistas
(como Duns Scot, teólogo do início do século XIV), cada termo empregado em uma proposição corresponde a uma
realidade. Para estes, o mundo não seria feito apenas de uma multiplicidade de coisas singulares, ele seria ordenado,
84

A partir do Jusnaturalismo e do Iluminismo, solidifica-se a concepção de que o sujeito é o


centro da organização social, por isso o direito objetivo passa a configurar-se como uma criação
de si próprio. Assim, os direitos subjetivos refletiriam as manifestações da personalidade
humana; não se trata mais de um ter, mas de uma qualidade inerente ao indivíduo.
Modernamente, o conjunto dos direitos atuais ou meramente possíveis, as faculdades jurídicas
atribuídas a um ser, constituem o que a ordem jurídica reconhece como personalidade. Os
chamados direitos de personalidade, portanto, configuram-se em um corpus normativo de
proteção à dignidade humana. Embora essa categoria de direitos seja das mais inquietantes para
os pesquisadores, existe ao menos um consenso a respeito da existência de um direito objetivo da
personalidade, que não se limita apenas ao direito civil, mas integra todo o ordenamento.13

Assim, a tutela da personalidade humana ultrapassa a construção tradicional do direito


subjetivo, devendo ser colocada em supremacia em relação a todo e qualquer outro interesse. Se a
proteção das situações patrimoniais está atrelada à previsão legal, isto não acontece com a
proteção que deve ser dada à personalidade humana, que extrapola qualquer previsão legal. Os
direitos de personalidade, portanto, são direitos fundamentais do indivíduo, subsumidos no
princípio da dignidade humana. Conseqüentemente, dependem do livre exercício da autonomia
privada, não podendo ser limitados, a não ser no que diz respeito à salvaguarda de terceiros. Por
essas razões, não pode o Estado determinar quaisquer padrões objetivos de exercício dos direitos
da dignidade, através do estabelecimento de regras morais oficiais, sob pena de, por superposição
do público ao privado, em nome do bem absoluto, conduzir ao terror totalitário.14

Cabe advertir que não se versará sobre a questão dos direitos subjetivos dos direitos de
personalidade e sua classificação ou sobre o problema da sua redução à categoria da capacidade

estruturado e tais estruturas seriam refletidas pelos termos chamados universais. De outra forma, os nominalistas não
reconhecem que os termos universais possam corresponder a um objeto real, ou que possam designar imediatamente
uma coisa. Os universais seriam instrumentos lingüísticos que nos remeteriam a uma pluralidade de objetos que
guardam semelhança entre si. (VILLEY, Michel. Op. Cit., p. 131-2).
13
CORTIANO JUNIOR, E. Op. Cit.
14
CUNHA, Alexandre dos Santos. Op. Cit.
85

jurídica.15 Apenas nos serviremos da idéia de um direito geral de personalidade como mecanismo
jurídico e condição de possibilidade para a proteção da dignidade humana.

O desenvolvimento da personalidade é na realidade, segundo Mota Pinto, a designação


encontrada para a autonomia do indivíduo que é garantida para áreas de proteção específicas nos
direitos de liberdade, constituindo, assim, fundamento para um ‘direito geral de liberdade’. Nesse
sentido, concordamos com o referido autor, pois o direito ao livre desenvolvimento da
personalidade reveste-se de um caráter universal e particularista, tal como os direitos
fundamentais, que não estão adstritos à necessidade de impor limites aos poderes do Estado -
liberdade negativa -, ao contrário, também gerenciam as relações entre particulares. Isto porque,
na modernidade, não nos interessa, tão somente, contrapor a liberdade dos antigos - status
libertatis, restrita ao lugar que o sujeito ocupa no espaço público - à dos modernos - inerente a
todo ser humano. Há que conciliá-las: o exercício da autonomia deve ser harmonizado com a
responsabilidade para com os outros e para com aqueles que ainda virão.16

15
Com base em figuras tradicionais, pretendeu-se reconstruir a teoria dos direitos de personalidade, que teriam como
finalidade proteger a essencialidade humana: a personalidade. Assim, todo o esquema utilizado para a proteção do
crédito e da propriedade serviu como moldura para a proteção dos direitos de personalidade. O direito subjetivo
serviu de pano de fundo para a proteção da personalidade. Os direitos de personalidade, dessa forma, passaram a
configurar como um terceiro gênero de direito subjetivo, que se classificava como extrapatrimonial e inato aos
sujeitos. Da submissão do conceito de pessoa ao de sujeito de direito resulta que esse seja um conceito social, uma
vez que somente o indivíduo em sociedade é dotado de direitos e deveres. Tal evento também fora favorecido pela
Escola Histórica do Direito, sob a qual houve uma decadência dos estudos sobre a pessoa, em nome das teorias da
capacidade jurídica, indispensáveis à teoria da relação jurídica. Na França, por meio da codificação dos direitos
universais e imanentes dos homens, a ordem positiva seria justa na medida em que excluía qualquer outro direito
diverso do legislado. Na Alemanha, o direito subjetivo deveria ser compreendido a partir da lógica de derivação da
ordem estabelecida, por intermédio da estrutura do ordenamento jurídico e do monopólio estatal da produção
normativa. No pandectismo alemão do século XIX, o direito subjetivo é definido como ‘willensmacht’, poder de
ação livre, potência da vontade do sujeito, a proteção jurídica de seu interesse. De acordo com Villey, sobre esta base
operou-se uma nova separação entre direito e moral: a moral ditaria os deveres ao indivíduo; o direito lhe conferiria
poderes para agir. Ver: VILLEY, Michel. Op. Cit., p. 143-4. A partir de então, o direito subjetivo, inicialmente
admitido como característica geral e inerente do indivíduo, assumiu o caráter de poder-dever atribuído pelo
ordenamento e, em última análise, pelo Estado.
16
Rawls nos fala dessa dicotomia entre a liberdade dos antigos (oriunda de Rousseau), a qual prioriza as liberdades
políticas iguais e os valores da vida política, e a dos modernos (oriunda de Locke), a qual enfatiza a liberdade de
pensamento e de consciência, os direitos básicos da pessoa e da propriedade e o primado da lei. Segundo Rawls, o
conflito entre as reivindicações de liberdade e as de igualdade na tradição do pensamento democrático evidencia que
não há acordo público sobre como as instituições básicas devem ser organizadas para melhor se adequarem a esses
dois imperativos. É importante destacar que a liberdade dos antigos faz referência às liberdades dos cidadãos nativos
de sexo masculino, especificada por um ethos marcado pela participação política na democracia ateniense, no
período de Péricles. Ver: RAWLS, J. Justiça como eqüidade. Op. Cit., p. 02-3.
86

A consagração do direito ao livre desenvolvimento da personalidade tem em vista a tutela


da individualidade e, em particular, da diferença, da autonomia e da autodeterminação. Para
tanto, faz-se necessária a conciliação entre o direito de liberdade, em relação a modelos de
personalidade, e o acato à pluralidade. É neste processo conciliatório que será engendrado um
‘direito à diferença’. É de fundamental relevância, nesse contexto, a questão do livre
desenvolvimento e sua tutela: “para que cada um seja verdadeiramente uma pessoa, devem-se
assegurar condições essenciais às quais denominamos direitos de personalidade”.17 Em outras
palavras, o direito ao desenvolvimento da personalidade deve permitir que cada indivíduo
promova seu estilo de vida, desde que não cause prejuízo a terceiros.18

Vê-se, aqui, a conexão entre a proposição do direito ao livre desenvolvimento da


personalidade, nos termos em que encontramos em Mota Pinto e com os quais concordamos, e os
princípios de justiça rawlsianos. Acredita-se que é nesse sentido que a regulamentação das
tecnologias conceptivas no Brasil deveria se pautar: o desenvolvimento da pessoa humana e a
proteção à sua dignidade intrínseca necessitam de condições de possibilidades estruturais e
intersubjetivas, as quais encontram no respeito à diversidade de concepções de bem e na
autodeterminação para a projeção de um plano racional de vida o seu reduto e amparo.

Um outro ponto a ser destacado refere-se a uma possível colisão de interesses entre o
direito ao livre desenvolvimento da personalidade e o estatuto moral e jurídico do embrião. Tal
oposição parece ser fruto muito mais da radicalidade de alguns militantes do que propriamente da
racionalidade dos argumentos.

3.2 O problema da categorização do embrião

O reconhecimento da dignidade e da proteção jurídica do embrião difere em seus


pressupostos, como veremos a seguir. Para a teoria genético-desenvolvimentista, este
reconhecimento se dá no momento em que é possível individualizar o ser em desenvolvimento,
quando o zigoto apresenta caracteres suficientes para determinar sua individualidade; não sendo
17
CARVALHO, Orlando de. Les droits de l’homme dans le droit civil portugais. Boletim da Faculdade de Direito
da Universidade de Coimbra, n. XLIX, 1973, p. 11.
18
MOTA PINTO, Paulo. Op. Cit., p. 157-8.
87

possível, portanto, no momento da concepção determinar tal propriedade. Em outra perspectiva,


para a teoria da viabilidade, a natureza humana do concebido é outorgada somente àqueles que
alcancem maturidade suficiente para viver fora do útero.19

Consoante Meirelles, não é possível estabelecer distinção de valor no ser humano segundo
as diversas etapas de seu desenvolvimento. Conforme a autora, poder-se-ia chegar à conclusão de
que o embrião não é ainda um homem, assim como uma criança é ‘menos humana’ que o
indivíduo adulto.

O conhecido Relatório Warnock20 apresentou recomendação no sentido de não serem


mantidos vivos (criopreservados ou não) embriões humanos oriundos de fertilização in vitro, se
não transferidos para uma mulher no período de 14 dias após a fertilização.21 Com tal critério, o
referido relatório passou a determinar uma distinção entre pré-embriões (até 14 dias após a
fecundação) e embriões humanos (após o 14º dia).O denominado pré-embrião seria um conjunto
de células sem forma humana reconhecível e, portanto, não compartilharia do mesmo status de
pessoa humana.

Outros especialistas consideram necessário, para a caracterização da pessoa humana,


aguardar-se até o 18º dia, momento em que se dá o aparecimento da placa neural, além do
primeiro esboço das estruturas cerebrais e nervosas que, desenvolvidas, possibilitam o controle
da sensibilidade à dor.

19
MEIRELLES, J. A vida humana embrionária e sua proteção jurídica. São Paulo: Renovar, 2000, p. 130. No caso
Roe vs. Wade, 410 U.S. 113 (1973), a Suprema Corte dos Estados Unidos considerou que somente quando se
evidencie no feto elevado grau de vida extrauterina o Estado pode interferir na liberdade da mulher quanto à
disposição do próprio corpo. Distinguiu, portanto, em três fases o poder de intervenção estatal. Na primeira, da
concepção até o terceiro mês de gravidez, a mulher teria direito ao aborto segundo o processo terapêutico escolhido.
Na segunda, a partir do quarto mês, o Estado teria o poder de regular os métodos de realização do aborto. Na terceira
fase, quando o feto já é capaz de viver fora do ventre materno, o Estado tem o direito de proibir o aborto, ressalvadas
as hipóteses em que este seja necessário para preservação da vida e saúde da gestante. Ver: DWORKIN, Ronald. El
dominio de la vida - una discusión acerca del aborto, la eutanasia y la libertad individual. Barcelona: Editorial Ariel,
1998.
20
Relatório da Comissão de Pesquisa sobre Fertilização Humana e Embriologia, reunida em julho de 1984, na
Inglaterra, e liderada por Mary Warnock.
21
O 14º dia corresponde aos estágio 5 e 6 de desenvolvimento do embrião. Nessa fase, aparece a linha ou estria
primitiva que permite identificar o eixo craniocaudal, as extremidades, as superfícies dorsal e ventral, a simetria
direita-esquerda, em outras palavras, o plano constitutivo do embrião.
88

Segundo Mathieu, a distinção em diferentes categorias para os embriões (pré-embriões,


embriões, fetos...) visa permitir a utilização do embrião enquanto estiver em um estágio pouco
avançado. Dessa forma, um tratamento ontologicamente específico para o embrião, no que tange
à proteção da vida e do princípio da dignidade, seria perigoso ao se incorporar nas estruturas
jurídicas, tendo em vista que a verdadeira natureza escapa tanto da apreensão filosófica e moral
quanto do direito. Portanto, o relativismo ontológico, no qual podemos deduzir o estatuto do
embrião nos textos constitucionais ou internacionais, é que deverá nortear o quadro conceitual de
cada sistema jurídico, de acordo com a concepção da natureza humana ou conforme as
preocupações utilitaristas.22

Sob a ótica da potencialidade da pessoa humana, não é possível identificar o embrião


totalmente com os seres humanos. Por outro lado, também não se admite caracterizar o embrião
como um conjunto de células, na medida em que seu desenvolvimento se destina à formação de
uma pessoa humana. Por essas razões, prefere-se reconhecer no embrião um ‘ser humano
potencial’ para designar a autonomia embrionária e o estatuto que lhe é próprio.23

Sob o ponto de vista jurídico, a preocupação em caracterizar como pessoa o embrião


humano desde o momento em que é concebido situa-se, fundamentalmente, na necessidade de se
afastar a sua identificação com os bens ou com as coisas.24

Em uma perspectiva bastante diferenciada, Mathieu afirma que o sentido jurídico do


termo ‘vida humana’ não é mais do que um processo contínuo que a própria ciência reconhece.
Por isso, em matéria de pesquisa com embriões, não há controvérsia sobre a possibilidade de

22
MATHIEU, B. Op. Cit., p. 34.
23
MEIRELLES, J. A vida humana embrionária e sua proteção jurídica, p. 138. Nesse sentido, concorda Mathieu: ‘Il
est alors douteux de considérer que ces cellules doivent être protégées au même titre qu’un embryon, mais il est aussi
difficile de considérer qu’elles échappent à toute protection, du fait du lien intime qu’elles entretiennent avec le
développement de la vie humaine’ (MATHIEU, B. Op. Cit., p. 34).
24
Mathieu afirma que o Conselho Constitucional francês tem admitido que o legislador fixe, arbitrariamente ou
conforme sua própria lógica, os contornos conceituais no qual se inscreve a noção de pessoa humana, tal como é
protegida pela Constituição. Nesse sentido, reconhece-se a necessidade de conciliação entre os direitos do embrião e
os da mãe, uma vez que uns e outros respondem às exigências constitucionais. (MATHIEU, B. Génome humain et
droits fondamentaux. Paris: Economica, 2000, p. 32-3)
89

transformar seres humanos em material de estudo e experimentação, desde que tais estudos
estejam a serviço de um interesse coletivo.25

Tal hipótese é justificável, pois trata-se de uma realidade que o direito apreende através de
determinadas categorias, em função de uma realidade espaço-temporal e, sobretudo, em função
do destino que a sociedade ou os indivíduos atribuem a esta vida humana em desenvolvimento.26

Como vimos anteriormente, para os clássicos, pessoa era o indivíduo concreto dotado de
capacidades, funções e racionalidade, que se definia na sua contextualização histórico-social. De
outra forma, os modernos constroem a noção de pessoa como correspondente a um conceito
abstrato definido por habilidades como reflexão, autoconsciência, autodeterminação,
comunicação intersubjetiva, representação simbólica, independentemente de sua natureza
ontológica. No sentido técnico-jurídico, o termo ‘pessoa’ corresponde, resumidamente, a uma
categoria abstrata cuja finalidade é estabelecer parâmetros à titularidade jurídica. Assim, o
vocábulo poderia ser tomado como sinônimo de sujeito de direitos.27 Desse modo, quando se o se
pretender afirmar a caracterização do embrião humano como pessoa desde o momento da
fecundação, o termo ‘pessoa’ não é utilizado no sentido técnico-jurídico.

Conforme já se havia referido anteriormente, a personalidade e, por óbvio, o sujeito não


se constituem em um dado formal e materialmente acabado. Ao contrário, estão em permanente
reinvenção de si mesmos. Diferentemente dessa proposição, Bourguet explica que todo ser
humano possui, enquanto tal, os direitos da personalidade ou, dito de outro modo, a sua
personalidade lhe é imanente, ele a possui por natureza, de tal modo que atribuir a personalidade
a um ser humano é uma contradictio in termini. A personalidade, assim, é uma ‘grandeza
invariável’ (porque de tipo numênico), haja vista que independe das contingências de tempo ou
de hierarquizações. A personalidade de um ser humano não começaria no tempo, mas com o
próprio ser humano, de tal modo que ela é coextensiva à sua humanidade.28

25
Ibidem, p. 33.
26
Ibidem, p. 33.
27
MEIRELLES, J. A vida humana embrionária e sua proteção jurídica. Op. Cit., p. 94.
28
BOURGUET, Vicent. O ser em gestação: reflexões bioéticas sobre o embrião humano. São Paulo: Edições
Loyola, 2002, p. 161-172.
90

Disso decorre que a personalidade de uma criança não lhe seria atribuída, mas seria
‘natural’, originária e inata. Quanto ao estatuto moral do embrião, Bourguet refere que é preciso,
em primeiro lugar, ‘dessituá-lo’, não pensar no resto, nas conseqüências, nos eventuais conflitos
de deveres ou de direitos. ‘Dessocializar’, ‘despolitizar’, ‘descontextualizar’ o problema é
esforçar-se para ganhar o ponto de vista moral sobre ele. Nas palavras do autor: “Com efeito, esse
ser é uma pessoa antes que tenhamos de tomar uma posição sobre ele e, eventualmente, a fazer
valer direitos ou interesses contrários a ele, e não é nossa situação em relação a ele que deve
definir o que ele é”.29

Vimos que um novo ser, um filho, projeta no imaginário social uma variedade de
representações, entre as quais a de que esse ente (pessoa para uns, ou embrião para outros)
realizará a necessária continuidade biológica e moral de seus genitores.

Dessa forma, entende-se que a maneira pela qual se realizará a personalidade humana não
é algo pré-determinado, que se receba por atribuição, herança, situação num dado momento ou
classe, ou por imposição ou dádiva de um modelo ou padrão. Trata-se de algo que se auto-institui
ou constrói, segundo o seu próprio projeto, determinado a partir da própria pessoa, como centro
de decisão autônoma.30

Ressalta-se, dessa forma, que a noção de pessoa não é construída pelo ordenamento, mas
é recebida. Ao recebê-la, o direito o faz com toda a carga valorativa de que ela é dotada, e não
pode diminuir ou represar esse valor. Poderá, entretanto, limitar a capacidade de exercício dos
direitos reconhecidos, mas não pode alterar seu conteúdo axiológico.31

O ordenamento jurídico reconhece a todos os seres humanos, em qualquer fase do seu


desenvolvimento, o valor de pessoa humana. Com esse reconhecimento, afasta-se a possibilidade
de serem excluídos de proteção jurídica alguns seres por encontrarem-se em etapas bem iniciais
da vida.
29
Ibidem.
30
MOTA PINTO, Paulo. Op. Cit., p. 152.
31
CORTIANO JUNIOR, E. Op. Cit., p. 45. Cortiano afirma que, se o centro nuclear do direito é a pessoa humana,
então a noção de personalidade, construída pela ordem jurídica, tem como fundamento um dado pré-normativo, que é
ao mesmo tempo ontológico (a pessoa é) e axiológico (a pessoa vale). (Ibidem, p. 41).
91

Tal proteção deve se fundamentar, mais do que na caracterização do novo ser como titular
de direitos, em uma tábua axiológica constitucional que norteia a ordem jurídica estabelecida.

3.3 Do princípio da dignidade humana

Como vimos na seção anterior, ainda que não se consiga estabelecer uma unanimidade
quanto à categorização do embrião, sabe-se que este é merecedor do respeito e proteção relativos
à sua dignidade. Antes de mencionarmos propriamente a dignidade contida no embrião, faz-se
necessário nos remetermos e explicitarmos – ainda que não exaustivamente – o conteúdo
explicativo do princípio da dignidade da pessoa humana.

Nesse sentido, recorremos à secular formulação proposta por Kant. Entre os autores
modernos, Kant inaugurou a noção de que o ser humano é dotado de dignidade enquanto ser,
independentemente de sua identidade estatutária.32 Tal noção implica que a dignidade de uma
pessoa independe de seu status social, do cargo que ocupa, da sua popularidade, de sua utilidade
para os outros.33 Observa-se que em Kant há uma vinculação estrita entre personalidade e o dever
ético de utilizar autônoma e racionalmente a liberdade. Assim, como pessoa que é, o ser humano
tem direitos e deveres em suas relações com os demais seres humanos, como pessoas que são, de
forma a consagrar-se o respeito recíproco como um princípio fundamental do ordenamento
jurídico.34

Da mesma forma, porém ancorado em um outro postulado – remanescente da concepção


jusnaturalista, Sarlet afirma que uma ordem constitucional que consagra a idéia de dignidade da
pessoa humana parte do pressuposto de que o homem, em virtude tão-somente de sua condição

32
A concepção de sujeito como uma identidade estatutária é proposto por Singly. (SIGLY, François de. Identité
personelle et identité statutaire dans la sphère privée et la sphère publique. Archives de Philosophie du Droit, n. 41,
1997, p. 56.).
33
Nesse sentido, não se pode dizer que uma pessoa possua mais dignidade que outra, pois a dignidade não admite
equivalente, portanto, não é passível de mensuração, comparação ou, mesmo, de sacrifícios sob qualquer pretexto.
34
Nesse sentido, a concepção de dignidade em Kant parte da autonomia ética do ser humano. Essa autonomia da
vontade, entendida como a faculdade de se determinar a si mesmo e agir em conformidade com a representação de
certas leis, é um atributo apenas encontrado nos seres racionais, constituindo-se no fundamento da dignidade da
natureza humana. Ver: SARLET, Ingo Wolfgang. Dignidade da pessoa humana e direitos fundamentais. Op. Cit., p.
32-5; KANT, Immanuel. Fundamentação da metafísica dos costumes. Lisboa: Edições 70, p. 67-77.
92

humana e independentemente de qualquer outra circunstância, é titular de direitos que devem ser
reconhecidos e respeitados por seus semelhantes e pelo Estado.35

Todavia, resta advertir-se para a circunstância de que não se pode fixar rigidamente o
conceito de dignidade da pessoa humana. Trata-se, pois, de uma categoria axiológica aberta que
comporta uma natureza de pluralidade e diversidade de valores manifestados nas sociedades
democráticas contemporâneas. Nesse sentido, acompanhamos a avaliação de Sarlet quando este
refere que o conceito de dignidade está em permanente processo de construção e
desenvolvimento.36

Assim como está também em construção os termos da dignidade relativa ao embrião.

3.3.1 A dignidade contida no embrião

Observou-se, há pouco, por um lado, o fracasso de um debate em termos de uma


categorização para o embrião, mas, por outro, o reconhecimento da existência de uma estreita
relação entre o embrião e a pessoa humana. Este dado, por si, impõe a necessidade de se respeitar
este ente, na medida da dignidade que lhe é devida.

A Constituição Federal de 1988, em seu artigo 1º, inciso III, impõe como alicerce para o
Estado Democrático de Direito a dignidade da pessoa humana.37

Assim, o valor da dignidade da pessoa humana, ao lado dos direitos e garantias


fundamentais, incorpora as exigências de justiça e valores éticos, conferindo suporte axiológico a
todo o sistema jurídico brasileiro. Nesse sentido, a pessoa humana é pressuposto e fundamento da
ordem jurídica brasileira. Fixa-se, assim, como princípio, o conteúdo da cláusula constitucional
que determina o respeito à dignidade humana. Destaca Rios que o reconhecimento da dignidade
35
SARLET, Ingo Wolfgang. Dignidade da pessoa humana e direitos fundamentais. Op. Cit., p. 37.
36
Ibidem, p. 40-1.
37
Desde a Declaração Universal dos Direitos do Homem, de 10 de dezembro de 1948, as reivindicações por justiça e
liberdade ganharam novos contornos. Passou-se a reconhecer a necessidade de se respeitar o homem como ‘pessoa’.
Junto ao princípio da soberania dos Estados, surge, nesse contexto, outro princípio na ordem internacional
contemporânea: a dignidade de todo o ser humano.
93

humana como elemento central que caracteriza o conceito de Estado Democrático de Direito
promete aos indivíduos muito mais que abstenção de invasões ilegítimas de suas esferas pessoais,
promete a ascensão positiva de suas liberdades.38

Segundo Sarlet, a estreita vinculação entre as noções de dignidade humana, vida e


humanidade constitui a base de todos os direitos fundamentais39 e, portanto, são postulados nos
quais se assenta o direito constitucional contemporâneo. Entretanto, o referido autor admite que
não existe um consenso sobre o conteúdo e significado da dignidade na e para a ordem jurídica.
De tal forma que é possível afirmarmos a existência de diferentes graus de vinculação a este
princípio, do mesmo modo que existem direitos que constituem explicitações em primeiro grau
da idéia de dignidade e outros que destes são decorrentes.40

Assim, ao mesmo tempo em que se reconhece que o princípio da dignidade da pessoa


humana atua como elemento fundante e informador de todos os direitos e garantias fundamentais,
também se admite uma variedade no grau de intensidade desta vinculação.

Nesse sentido, destaca-se a função instrumental integradora e hermenêutica do princípio


da dignidade, pois serve de parâmetro para aplicação, interpretação e integração dos direitos
fundamentais e do próprio ordenamento jurídico. Notadamente, o princípio da dignidade da

38
RIOS, Roger Raupp. Dignidade da pessoa humana, homossexualidade e família: reflexões sobre as uniões de
pessoas do mesmo sexo. In: MARTINS-COSTA, Judith. A reconstrução do direito privado. São Paulo: Revista dos
Tribunais, 2002, p. 487.
39
As expressões direitos do homem ou direitos humanos também são empregadas nos textos de direito internacional
para se referir aos direitos fundamentais. Com a influência dos juspublicistas alemães, adotou-se a expressão direitos
fundamentais para nomear aqueles direitos inerentes à pessoa humana, inseridos nos textos constitucionais e que
recebem, assim, amparo jurídico e jurisdicional do Estado. Cf. LOBATO, Anderson C. Reconhecimento e garantias
constitucionais dos direitos fundamentais. Revista da Faculdade de Direito, Curitiba, a. 28, n. 28, 1994/95, p. 109-
137. Quanto ao fundamento ontológico dos direitos fundamentais, é necessário esclarecer que, embora, tenha sido
explicitado por diversas teorias, parte-se do pressuposto de que os direitos fundamentais não são meros valores
jurídicos, orientadores da atuação dos poderes estatais, ao contrário, investem o sujeito de prerrogativas,
legitimando-o a exigi-los. Conforme Reis, “os direitos fundamentais ocupam seu espaço no mundo jurídico
independentemente de haver normas que o prevejam. Sua existência é uma realidade de fato, inexorável, que
dispensa o reconhecimento do legislador. Tal reconhecimento só serve como uma garantia”. (REIS, Márcio
Monteiro. Moral e Direito: a fundamentação dos direitos humanos nas visões de Hart, Peces-Barba e Dworkin. In:
TORRES, Ricardo Lobo (org.). Teoria dos Direitos Fundamentais. Rio de Janeiro: Renovar, 1999, p. 150).
40
SARLET, Ingo Wolfgang. Dignidade da pessoa humana e direitos fundamentais. Op. Cit., p. 26-7.
94

pessoa humana serve de referencial inarredável no âmbito da indispensável hierarquização


axiológica inerente ao processo hermenêutico-sistemático.41

Com efeito, não é demais relembrar que a Constituição de 1988 consagrou a idéia da
abertura material do catálogo constitucional dos direitos e garantias fundamentais. Isto quer dizer
que, para além daqueles direitos e garantias expressamente reconhecidos pelo legislador
ordinário, existem direitos fundamentais decorrentes do regime, dos princípios constitucionais,
bem como dos tratados internacionais assegurados pelo dispositivo do §2º do artigo 5º da nossa
Constituição.42

A noção de dignidade está assentada na autonomia pessoal, isto é, na liberdade que o ser
humano possui de formatar a própria existência e constituir-se em sujeito de direitos. Nesse
sentido, a liberdade e os direitos fundamentais são simultaneamente pressuposto e concretização
direta da dignidade da pessoa, de tal forma que há um entendimento de que sem liberdade (seja
negativa ou positiva) não haverá dignidade, ou, pelo menos, esta não estará sendo reconhecida e
assegurada.43

Mas, afinal, o princípio da dignidade da pessoa humana tem caráter absoluto? Até que
ponto a dignidade da pessoa, notadamente na sua condição de princípio e direito fundamental,
pode efetivamente ser vista como absoluta, infensa a qualquer tipo de restrição e/ou
relativização?

41
Segundo Sarmento, os princípios assumem múltiplas funções no ordenamento jurídico. Uma função hermenêutica,
quando os princípios alicerçam o sistema jurídico, aparando as arestas e fornecendo a pauta de valores para a
interpretação das questões controvertidas. Uma função regulativa, pois, na ausência de regras, os princípios
constituem-se em normas de conduta, regulando o comportamento de seus destinatários. Por fim, os princípios
podem, ainda, desempenhar uma função argumentativa, que permite denotar a ratio legis de uma disposição ou
regular normas que não são expressas por enunciados legislativos. (SARMENTO, D. Os Princípios Constitucionais e
a Ponderação de Bens. In: TORRES, R. L. (org.). Teoria dos Direitos Fundamentais. Rio de Janeiro: Renovar, 1999,
p. 50-51).
42
Cada vez mais se encontram decisões dos nossos Tribunais valendo-se da dignidade da pessoa como critério
hermenêutico, como fundamento para solução das controvérsias, especialmente interpretando a normativa
infraconstitucional à luz da dignidade da pessoa humana. (SARLET, Ingo Wolfgang. Dignidade da pessoa humana e
direitos fundamentais. Op. cit., p. 99-100).
43
Ibidem, p. 87-88.
95

Tal problema se coloca quando se toma a dimensão intersubjetiva da dignidade da pessoa


humana. Sendo todas as pessoas iguais em dignidade e existindo um dever de respeito recíproco
da dignidade alheia, podemos imaginar a hipótese de um conflito direto entre as dignidades de
distintas pessoas. Impõe-se, dessa forma, o estabelecimento de uma harmonização, que
necessariamente implica hierarquização (como sustenta Juarez Freitas) ou ponderação (conforme
Robert Alexy) das dignidades em conflito.44

Constata-se que a doutrina majoritária se opõe a qualquer tipo de restrição à dignidade


pessoal, de tal modo que se afirmou que cada restrição à dignidade implica sua violação e,
portanto, encontra-se vedada pelo ordenamento jurídico. Nesse sentido, nem mesmo o interesse
comunitário poderia justificar ofensa à dignidade individual, considerada como valor absoluto e
insubstituível de cada ser humano.45

Conforme Sarlet, no que concerne à eventual relativização da dignidade por força de sua
dimensão necessariamente relacional e intersubjetiva, cumpre distinguir o princípio jurídico-
fundamental da dignidade do indivíduo propriamente dito, isto é, com o valor intrínseco de cada
pessoa. Embora cada ser humano seja merecedor de igual respeito e proteção, em virtude de sua
dignidade, não se pode afastar a possibilidade de relativização no nível jurídico-normativo.

Conseqüentemente, podemos afirmar que o reconhecimento da dignidade do embrião,


propriamente dito, não é passível de questionamentos – eis um argumento que beira a
unanimidade. Entretanto, concordamos com o professor Sarlet, eis que, em determinadas
circunstâncias, cuja complexidade não poderíamos cogitar, exige-se a adequada relativização
quando a dignidade de um embrião entre em conflito com outra.

No que se refere à possibilidade de formação de uma família monoparental através das


técnicas de RA, acredita-se não haver uma ofensa à dignidade primeira do embrião e,
posteriormente, da criança nascida desse projeto. Podemos pensar que, para aqueles que
rechaçam a possibilidade de tal prática, o critério da biparentalidade serviria como o núcleo

44
Ibidem, p. 121-122.
45
Ibidem, p. 132-133.
96

garantidor da dignidade da criança, não podendo, assim, ser relativizado, pois diria respeito ao
valor absoluto daquele ser. Entretanto, conforme foi mencionado anteriormente, cabe indagar se
uma criança concebida em um ambiente plenamente favorável ao desenvolvimento não estaria
tendo sua dignidade protegida e assegurada, ainda que tenha somente uma mãe.

3.4 Do princípio da proteção à família

De acordo com a Constituição Federal de 1988, a família, como instituição social básica,
tem proteção especial do Estado, conforme disposto no artigo 226 e parágrafos.

De outra forma, vimos que na análise realizada anteriormente no capítulo próprio que
tratou da pluralidade familiar, uma demanda por filhos é mais que a expressão da afirmação de
uma individualidade, é a reivindicação pela descendência planejada e racionalizada, com o intuito
de zelar pela manutenção de si e daquele outro ser tão vigorosamente desejado.

Assim, temos, de um lado, a família, como base da sociedade brasileira, de outro,


indivíduos que projetam sua realização pessoal através da formação de uma família e que
compreendem a si próprios na condição de pais ou mães. Em princípio, parece não haver
qualquer oposição entre as duas situações. Ocorre que determinadas pessoas, de acordo com
alguns dos projetos de leis que tramitam no Congresso sobre a regulamentação da RA, não
preenchem os critérios estabelecidos, nomeadamente as mulheres solteiras. Podemos depreender
de tal critério que mulheres solteiras seriam membros cooperativos de uma sociedade, capazes de
exercer e respeitar seus vários direitos e deveres, enfim, na acepção rawlsiana, seriam cidadãs.
Entretanto, sua cidadania não lhe permitiria construir uma família com o auxílio das tecnologias
de RA, caso a legislação que venha a ser aprovada restrinja o acesso a usuários/pacientes casados
ou em união estável.
97

Ocorre que, consoante nos ensina Rawls, uma concepção normativa de pessoa seria
alguém a quem se poderia chamar de cidadão, um membro cooperativo da sociedade por toda a
vida.46

Verifica-se, então, que, para o filósofo estadunidense, o conceito de pessoa está vinculado
ao papel que o sujeito desenvolve na sua sociedade. Embora haja um pressuposto de não
homogeinização dos papéis e status, a categoria de cidadão conferirá, na perspectiva rawlsiana,
uma certa universalização e vinculação entre os critérios para a definição de pessoa e de cidadão.
Aquele que não for cidadão, sujeito cooperativo na sociedade, não seria em tese uma pessoa.

Assim sendo, diante do conceito de pessoa nestes termos formulado (membros normais e
plenamente cooperativos da sociedade ao longo da vida), há que se questionar sobre os sujeitos
que, por uma debilidade permanente ou temporária, não participam da sociedade em termos de
um sistema eqüitativo. O próprio autor refere que para alguns problemas a justiça como eqüidade
talvez não tenha uma única resposta, mas a extensão dessa deficiência deverá ser analisada
conforme a situação concreta se apresente. Isso porque a justiça política prescinde de outras
virtudes.47

A concepção de pessoa, então, é elaborada a partir da maneira pela qual os cidadãos são
vistos na cultura política pública de uma sociedade democrática, em seus textos políticos básicos
(constituições e declarações de direitos humanos) e na tradição histórica da interpretação desses
textos.48 A idéia básica é a de que, em virtude das características morais do senso de justiça e

46
Conforme Rawls, sua concepção de pessoa é uma concepção normativa, quer seja legal, política, moral ou até
mesmo filosófica ou religiosa, dependendo da visão geral à qual pertence a concepção. Para o autor, a concepção de
pessoa é moral, parte da idéia de uma concepção cotidiana de pessoa enquanto unidade básica de pensamento,
deliberação e responsabilidade, e adaptada a uma concepção política de justiça, e não a uma doutrina abrangente. É,
com efeito, também uma concepção política, pois dados os objetivos da justiça como eqüidade, uma concepção
adequada de pessoa terá como fundamento a cidadania democrática. Enquanto concepção normativa, deve ser
distinguida de uma descrição da natureza humana dada pela ciência natural ou pela teoria social, e tem um papel
diferente na justiça como eqüidade. Rawls esclarece que a idéia de pessoa, quando especificada numa concepção de
pessoa, pertence a uma concepção política. Uma idéia fundamental torna-se, assim, uma concepção quando
especificamos seus elementos de uma determinada maneira. Isso significa que a concepção de pessoa do autor não
foi tirada da metafísica, da filosofia do espírito, ou da psicologia. A concepção de pessoa é, em si, normativa e
política, e não metafísica ou psicológica. (RAWLS, J. Justiça como eqüidade. Op. Cit., p. 27).
47
RAWLS, J. O liberalismo político. Op. Cit., p. 64.
48
RAWLS, J. Justiça como eqüidade. Op. Cit., p. 27.
98

concepção de bem, da faculdade da razão, julgamento, pensamento e inferência, as pessoas são


livres.49

Nessa passagem, observa-se que o sujeito considerado ‘normal’ é aquele que será
considerado pessoa, e assim, cidadão. Aqueles que por uma contingência ou outra não se
encaixam neste perfil seriam considerados ‘anormais’. Todavia, o próprio Rawls infere que a
justiça política não possui uma única resposta correta para cada questão que se coloca. Ao
contrário, a concepção política de justiça propõe-se a elaborar e reelaborar, cada vez que se fizer
necessário, o conteúdo da concepção de bem, a partir dos critérios racionalmente deduzidos.

Para descrever a concepção política de pessoa, Rawls utiliza a categoria de cidadão. Dessa
forma, ser cidadão significa ser livre no sentido de conceber a si e aos outros como indivíduos
que possuem a capacidade moral de ter uma concepção de bem. Isso não significa que estejam
inevitavelmente vinculados ao esforço de realização dessa concepção específica de bem. Ao
contrário, são capazes de rever e mudar essa concepção por motivos razoáveis e racionais. Nas
palavras de Rawls: “enquanto pessoas livres, os cidadãos reivindicam o direito de considerar-se
independentes e não identificados com qualquer concepção específica. Dada sua capacidade
moral de formular, revisar e procurar concretizar racionalmente uma concepção do bem, sua
identidade pública de pessoa livre não é afetada por mudanças em sua concepção específica do
bem ao longo do tempo”.50

Nesse sentido, a identidade pública de uma pessoa, em um ordenamento jurídico que


garante a igualdade de todos, pressupõe a possibilidade de reivindicar, perante as instituições
sociais, a promoção de sua concepção de bem – desde que esta concepção esteja em consonância

49
RAWLS, J. O liberalismo político. Op. Cit., p. 61. Para a justiça como eqüidade, os cidadãos estão envolvidos na
cooperação social e são capazes de fazê-lo por toda a vida. Para tanto, devem apresentar duas faculdades ou
características morais: a primeira, é a de ter um senso de justiça, isto é, compreender e aplicar os princípios de justiça
política e agir a partir deles (não somente de acordo com eles); a segunda, é a de formar uma concepção do bem. Em
outras palavras é ter, revisar e buscar atingir de modo racional uma concepção de bem. Tal concepção, para Rawls, é
um conjunto ordenado de fins últimos que determinam a concepção que uma pessoa tem de vida boa e digna de ser
vivida. (RAWLS, J. Justiça como eqüidade. Op. Cit., p. 26).
50
Ibidem, p. 73. “Os elementos dessa concepção costumam fazer parte de, e ser interpretados por, certas doutrinas
religiosas, filosóficas ou morais abrangentes à luz das quais os vários fins são ordenados e compreendidos”.
(RAWLS, J. Justiça como eqüidade. Op. Cit., p. 26).
99

com a concepção pública de justiça ou, em última instância, com os princípios de justiça
compartilhados.

Outro aspecto destacado por Rawls é o de que um cidadão livre é capaz de assumir
responsabilidades por seus objetivos. Isso afeta a maneira de avaliar suas várias reivindicações.
Dessa forma, havendo instituições de bases justa, e dado que cada pessoa tem uma parte
eqüitativa de bens primários, os cidadãos são considerados capazes de ajustar seus objetivos e
aspirações ao que é razoável esperar que possam fazer. São vistos como capazes de restringir
suas reivindicações àquelas permitidas pelos princípios de justiça.51

Uma pessoa boa, então, ou uma pessoa de valor moral, é aquela que tem, num grau maior
que a média, os traços de caráter moral de cunho genérico que é racional que as pessoas na
posição original queiram encontrar umas nas outras. Em outras palavras, uma pessoa boa tem
traços de caráter moral que é racional que os membros de uma sociedade bem-ordenada queiram
encontrar em seus consórcios.52

Nesse sentido, para Rawls, uma pessoa boa ou um cidadão possui um dos mais
importantes bens primários, qual seja, a auto-estima ou respeito por si próprio. Esse bem primário
fundamental tem dois aspectos. Primeiramente, inclui um senso que a pessoa tem de seu próprio
valor, convicção de que vale a pena realizar sua concepção de bem, seu plano de vida. Em
segundo lugar, a auto-estima implica uma confiança na habilidade pessoal de realizar as
intenções.53

Nas palavras do autor, quando sentimos que nossos planos têm pouco valor, somos
incapazes de promovê-los com satisfação e de sentir prazer com sua execução. Presume-se,
então, que, em um plano racional de vida, faltará algum interesse se este plano não exigir do
sujeito suas capacidades naturais de forma estimulante. Quando as atividades deixam de
satisfazer o princípio aristotélico, provavelmente parecerão enfadonhas e desinteressantes, não
nos dando um sentimento de aptidão nem um senso de que vale a pena realizá-las. Entretanto,
51
RAWLS, J. O liberalismo político. Op. Cit., p. 77.
52
RAWLS, J. Uma teoria da justiça. Op. Cit., p. 484.
53
Ibidem, p. 487.
100

embora seja verdade que, se nossos esforços não são apreciados pelos outros, nos é impossível
manter a convicção de que vale a pena realizá-los, também é verdade que os outros tendem a
valorizá-los apenas na medida em que esses esforços provocam a sua admiração e lhes dão
prazer.54

Para exemplificar a necessidade de provocar admiração que temos em relação aos nossos
planos e realizações de vida, passomos a descrever a seguinte situação. Um casal, um homem e
uma mulher, brancos, com certa maturidade e estáveis profissionalmente passeiam em férias com
seus dois filhos: um menino e uma menina de etnia indígena. Se, por um lado, reconhece-se a
admiração que tal circunstância causa, dado que não é muito comum a adoção interracial –
sobretudo entre brancos e indígenas, por outro, evidencia-se a marca do diferente, de pais e filhos
com fenótipos tão desiguais e capazes de chocar alguns. Mas o que é está causando essa espécie
de admiração? Não temos neste caso um exemplo clássico de representação familiar, uma
expressão socialmente valorizada de um padrão familiar, o qual corresponde ao preceito do
direito à convivência familiar?

Agregando-se outros elementos ao exemplo, pensemos no espanto que possivelmente essa


mesma situação causaria na hipótese de o casal ter recorrido às práticas de RA. Poderíamos
pensar em juízos como egoísmo não justificado, ausência de um fundamento natural de
legitimidade para o estabelecimento da filiação, prejudicialidade para a formação identitária.
Certamente, nem todos realizariam essa espécie de julgamento diante do caso relatado, por certo.
Ocorre que os argumentos enunciados acima foram referidos por Ascensão para explicitar seu
posicionamento quanto à legitimidade das práticas de RA. Como sói ser, tais argumentos estavam
direcionados a uma circunstância específica: a necessidade de relativizar ‘o direito de toda a
mulher a ter filhos’.55

Nas palavras daquele jurista: “Procurou-se dar um fundamento geral falando-se em um


direito de procriar, ou direito de dar a vida; e mais particularmente, do direito de toda a mulher a
ter filhos. [...] Consistiria (o problema) em afirmar que aí se está na esfera da liberdade natural e
54
Ibidem, p. 488-9.
55
ASCENSÃO, José de Oliveira. Problemas jurídicos da procriação assistida. Revista Forense, Rio de Janeiro, v.
328, 1980, p. 69-80.
101

que cada um dispõe do corpo como quiser. Mas nenhum direito é absoluto. Semelhante direito
teria, pelo menos, de se conciliar com os direitos dos outros. No caso, parece muito mais
importante acentuar que há que entrar em conta com os direitos do novo ente, que não pode, em
nenhum caso, ser considerado um mero instrumento para a satisfação de objetivos alheios. Ora,
pensamos que se deve falar, qualquer que seja a construção teórica subjacente, de um direito de
todo novo ente, a um meio familiar normal. Isto implica que se pressuponha que haja um casal no
destino do novo ser. Afastaria, por exemplo, a mulher solteira. Afastaria, por mais graves razões,
o par homossexual. [...] Estas práticas, pela gravidade que revestem e pela responsabilização que
implicam do casal de destino, devem pressupor o máximo de estabilidade possível deste”.56

Com efeito, vimos que mesmo o princípio da dignidade da pessoa humana não é absoluto,
podendo comportar relativizações a serem ponderadas nas características do caso concreto.
Acreditamos que é necessário reconhecer as pluralidades ínsitas aos sujeitos. Dessa maneira,
ainda que não haja um consenso sobre o que é partilhável, é preciso haver respeito pelo diferente,
a fim de garantir a inviolabilidade da dignidade pessoal, o que há de mais íntimo e
incomensurável como nota distintiva dos sujeitos, em última análise, sua singularidade.

3.4.1 O direito dos filhos à convivência familiar

De outra parte, se afirmamos sobre a necessária atitude de respeito à pluralidade e à


singularidade dos indivíduos, sobretudo quanto às condições de possibilidade para a constituição
de um núcleo familiar monoparental, há que se verificar também os direitos fundamentais dos
filhos. Aqui, referimos-nos especificamente ao artigo 227 da Constituição Federal brasileira,57 o
qual dispõe sobre o direito à convivência familiar e comunitária.Regulamentando este princípio,
o artigo 19 do Estatuto da Criança e do Adolescente58 ressalta a importância do convívio em
família como ambiente favorável ao desenvolvimento das crianças.

56
Ibidem.
57
Artigo 227 da CF – “É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com
absoluta prioridade, direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à
dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma
de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão”.
58
Artigo 19, Lei 8.069/90 -. Toda criança ou adolescente tem direito a ser criado e educado no seio de sua família e,
excepcionalmente, em família substituta, assegurada a convivência familiar e comunitária, em ambiente livre da
presença de pessoas dependentes de substâncias entorpecentes”.
102

Com a Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança, incorporada ao


ordenamento brasileiro através do Decreto n. 99.710/90, consagrou-se a Doutrina da Proteção
Integral.59 Esta Convenção é fruto do esforço de alguns países na tentativa de definir os direitos
humanos comuns às crianças, com o objetivo de apresentar proposições de normas de direito
material aplicáveis, capazes de abranger as diferentes conjunturas socioculturais no universo de
diferentes povos.60 Tal convenção reconhece a família “como grupo social primário e ambiente
natural para o crescimento e bem-estar de seus membros, especificamente das crianças,
ressaltando o direito de receber a proteção e a assistência necessárias a fim de poder assumir
plenamente suas responsabilidades dentro da comunidade”.61 Nessa mesma lógica, a Convenção
em seu artigo 7 da referida Convenção afirma que “a criança deve ser registrada ao nascimento e
ter direito ao a um nome, e o direito a adquirir uma nacionalidade e, na medida do possível, tem o
direito de conhecer seus pais e de ser criada por eles”.

Observa-se que o direito a ter um pai e uma mãe e de conviver com ambos é fundamental,
entretanto, é relativizado pelas contingências. Sendo dessa forma, não se poderia deduzir que o
bem-estar físico ou psíquico da criança possa ser comprometido pela ausência de uma das figuras
parentais. De acordo com Brauner, esta atenuação ao direito à origem e à biparentalidade
reconhece um espaço reservado às famílias monoparentais, tanto àquelas formadas por
circunstâncias fáticas, quanto àquelas formadas a partir do auxílio da ciência, pela via das
técnicas de inseminação artificial heterólogas.62

O direito brasileiro reconheceu, na própria Constituição, a convivência dentro e fora do


casamento através da figura das entidades familiares.63 Conforme se observou em passagem
anterior, a família não se constitui tão-somente através do casamento e da filiação daí decorrente.
59
PEREIRA, Tânia da Silva. Direito da criança e do adolescente: a convivência familiar e comunitária como um
direito fundamental. Op. cit., p. 649. Tal doutrina é adotada em todos os documentos internacionais de proteção à
criança da atualidade, conforme assegura a mesma autora em outro trabalho. (PEREIRA, Tânia da Silva. Direito da
criança e do adolescente: uma proposta interdisciplinar. Rio de Janeiro: Renovar, 1996, p. 14). A doutrina da
Proteção Integral consagra o princípio de que os direitos das crianças e adolescentes possuem características
específicas em virtude dos seus sujeitos acharem-se em condição de pessoas em desenvolvimento.
60
PEREIRA, Tânia da Silva. Op. cit., p. 02.
61
PEREIRA, Tânia da Silva. Direito da criança e do adolescente: a convivência familiar e comunitária como um
direito fundamental. Op. cit., p. 649.
62
BRAUNER, Maria Claudia Crespo. Direito, sexualidade e reprodução humana. Op. Cit., p. 81.
63
Artigo 226 da CF, § 4º - “Entende-se, também, como entidade familiar a comunidade formada por qualquer dos
pais e seus descendentes”.
103

O liame subjetivo que perpassa os membros da família independe da formalidade dos vínculos
estabelecidos, portanto a ligação afetiva e a convivência serão os elementos de coesão social que
deverão ser priorizados.

Pereira, referindo-se a Lacan, mostra que a família não é um grupo natural, mas cultural.
Ela não se constitui apenas por um homem, uma mulher e filhos. Ela é antes uma estruturação
psíquica, em que cada um de seus membros ocupa um lugar, uma função. Lugar do pai, lugar da
mãe, lugar dos filhos, sem, entretanto, estarem necessariamente ligados biologicamente.64

Enfim, toda a proteção destinada aos filhos, principalmente quando menores, busca
assegurar a individualidade da criança e do adolescente. Consoante Bourguet, em sendo a criança
um sujeito de direitos, sua existência revela um dever, uma dívida de responsabilidade; o que
resulta, assim, no dever do ser humano em relação a si mesmo e na responsabilidade por seus
atos. Pela procriação, afirma o autor, a responsabilidade que os pais têm sobre si é transformada
em responsabilidade sobre outro ser humano: eles não devem mais responder apenas por si, mas
também responder por outro, pois são a causa desse outro.65

A lógica de proteção exclusiva ao núcleo familiar se contrapõe à lógica da Constituição


Federal, que permitiu que se reconhecessem, em perspectiva pós-moderna,66 dois princípios
eventualmente considerados antagônicos: o de proteção à unidade familiar e o de proteção aos
filhos, considerados em sua individualidade.

Entretanto, estes dois princípios, com os quais já trabalhamos separadamente, não


autorizam a negação da legitimidade de uma família monoparental formada, por exemplo, por
uma mulher solteira e seus filhos naturais ou adotivos.67 O mesmo não poderíamos dizer em
relação à monoparentalidade projetada com o recurso da RA? Ao que parece, o direito
64
PEREIRA, Rodrigo da Cunha. A família – estruturação jurídica e psíquica. Op. cit., p. 19.
65
BOURGUET, Vincent. Op. Cit., p. 162-3.
66
Há controvérsias sobre a origem do pós-modernismo. Encontramos um dos seus significados com Erik Jayme,
professor da Universidade de Heidelberg, na Alemanha, que demonstra o caráter de mudança, de crise, de
variabilidade do tempo e do direito. (MARQUES, Claudia Lima et. al. Op. cit., p. 12). Ver do próprio: JAYME, Erik.
Visões para uma teoria pós-moderna do direito comparado. Revista dos Tribunais, São Paulo, a.88, v.759, p. 24-40,
jan. 1999.
67
Artigo 42, Lei 8.069/90 – “Podem adotar os maiores de 21 (vinte e um) anos, independentemente de estado civil”.
104

fundamental das crianças à convivência familiar poderia ser ameaçado na hipótese em que o filho
convivesse somente com sua mãe, caso ela se submeta aos procedimentos de inseminação
artificial. Tal situação nos indica que existem diferentes códigos morais para a realização da
filiação: se a mãe é solteira e engravidou ou adotou uma criança, o Estado confere a proteção
especial que se reconhece à família e à entidade familiar; se a mãe é solteira e não pode
engravidar através de um relacionamento sexual, é interditada a ela a possibilidade de propiciar a
seu futuro filho, a ser concebido através do uso das técnicas médicas adequadas, as condições de
uma convivência familiar saudável.

3.5 Do princípio do acesso universal à saúde

3.5.1 O direito à vida e o planejamento familiar

A Constituição Federal assegura a todos, no seu artigo 5º, a inviolabilidade do direito à


vida. A vida, portanto, estaria protegida desde o seu início, de forma que não poderia ser afastada
a proteção devida aos embriões obtidos e mantidos com auxílio das tecnologias reprodutivas, na
interpretação de Meirelles.68

A vida não é concessão da sociedade, ou uma prestação do Estado. Logo, o direito à vida
não é um direito a uma prestação. Também não se trata de um direito de uma determinada pessoa
sobre ela mesma, sobre sua própria vida.69 Diferentemente do direito de propriedade que exige
um comportamento negativo dos outros, o direito à vida não traduz um direito sobre o bem
protegido. O que merece proteção, sob a perspectiva do titular, é o gozo do pleno
desenvolvimento de sua pessoa.

Dessa forma, do mesmo modo que o princípio da dignidade da pessoa humana, o direito à
vida não apenas impõe um dever de abstenção (respeito), mas também condutas positivas
tendentes a efetivá-lo e protegê-lo. Tal princípio impõe ao Estado, além do dever de respeito e

68
MEIRELLES, Jussara. A vida humana embrionária e sua proteção jurídica . Op. cit., p. 164.
69
Ibidem, p. 168.
105

proteção, a obrigação de promover as condições que viabilizem e removam toda sorte de


obstáculos que estejam impedindo as pessoas de viverem com dignidade70.

Meirelles afirma que, se a proteção à pessoa humana é o elemento fundante do


ordenamento estabelecido, deve-se conciliar juridicamente as inovações da biomedicina. Nesse
sentido, quando, por processo de fertilização assistida, for constituído o zigoto, ainda que
biologicamente existam divergências quanto à determinação de ser ou não pessoa humana, deve-
se outorgar a ele o benefício da dúvida e respeitá-lo em sua dignidade.71

Considerando-se os embriões humanos como pertencentes à natureza humana, a eles são


aplicáveis o princípio da dignidade humana e a proteção ao direito à vida.

Não se trata de fixar normas especiais sobre cada hipótese criada pelas novas tecnologias
reprodutivas, mas de adequar as normas já existentes, no sentido de respeitar a dignidade e a vida
dos embriões.72

No que diz respeito ao planejamento familiar, o diploma fundamental, no seu artigo 226,
parágrafo 7 , assegura que este está fundado nos princípios da dignidade humana e da paternidade
responsável. Além disso, reconhece a competência do Estado para propiciar recursos
educacionais e científicos para o exercício desse direito, vedando também qualquer espécie de
coerção.

O direito à vida dos embriões obtidos por procedimentos de inseminação artificial está
intrinsecamente vinculado ao direito ao planejamento familiar assegurado àqueles que o
idealizaram. Não se ignora o fato de que uma parcela considerável da população de baixa renda,
dependente exclusivamente do Sistema Único de Saúde, não tem nem mesmo acesso aos
contraceptivos mais usuais. Mas este, salvo melhor entendimento, não pode ser o argumento para
eximir o Estado de sua competência em relação a esta mesma população que demanda por

70
SARLET, Ingo Wolfgang. Dignidade da pessoa humana e direitos fundamentais. Op. cit., p. 109.
71
MEIRELLES, Jussara. A vida humana embrionária e sua proteção jurídica. Op. cit., p. 173.
72
Ibidem, p. 177.
106

tratamentos de infertilidade. Ainda que não se possa afirmar que tal demanda é característica de
um processo de planejamento familiar propriamente dito, há que se deduzi-lo de tal categoria,
pois implícita está a decisão de conceber os filhos, no tempo, na quantidade e no intervalo que se
quer, de maneira livre e consciente.

Nesse sentido, podemos afirmar que o direito ao planejamento familiar deveria ser
assegurado também àqueles que não podem ter filhos, como forma de propiciar o seu bem-estar,
compreendido em seu sentido mais amplo, e o desenvolvimento de seu projeto de vida.

3.6 Do bem de todos e sua promoção como objetivo fundamental

Por derradeiro, cabe analisarmos um dos objetivos do Estado brasileiro estatuídos na


Constituição Federal de 1988: a promoção do bem de todos, com igualdade substancial e vedados
os preconceitos de qualquer espécie, conforme dispõe o artigo 3 , inciso IV. De acordo com a
lição de Moraes, a conformação de nosso Estado Democrático de Direito tem por alicerces a
dignidade humana, a igualdade substancial e a solidariedade social.73

Com efeito, não foi por acaso que deixamos para o fim deste trabalho o ponto que trata da
promoção da idéia de bem. Iniciamos com ela, em uma perspectiva político-filosófica de
aproximação com o tema da sustentação de um projeto monoparental realizado com auxílio
médico à reprodução, especificamente, e encerramos com a mesma idéia, agora nos aproximando
de sua exigibilidade e concretização como forma de tutela da pessoa e de sua dignidade, dada sua
caracterização como princípio fundamental do Estado Democrático de Direito no Brasil.

Concordamos com Moraes quando a autora observa que a polêmica acerca dos direitos
humanos ou dos direitos da personalidade refere-se à necessidade de normatização dos direitos
73
MORAES, Maria Celina Bodin de. O conceito de dignidade humana: substrato axiológico e conteúdo normativo.
In: SARLET, Ingo Wolfgang (org.). Constituição, Direitos Fundamentais e Direito Privado. Porto Alegre: Livraria
do Advogado, 2003, p. 138. Quanto ao princípio da solidariedade, a autora informa que a referência expressa à
solidariedade estabelece em nosso ordenamento um princípio jurídico inovador, a ser levado em conta não só no
momento da elaboração da legislação ordinária e na execução de políticas públicas, mas também nos momentos de
interpretação e aplicação do direito, por seus operadores e demais destinatários, enfim, por todos os membros da
sociedade. (Ibidem, p. 138). Em outra perspectiva sobre o discurso do solidarista e sua origem, ver: FARIAS, José
Fernando de Castro. A origem do direito de solidariedade. Rio de Janeiro: Renovar, 1998.
107

das pessoas em favor da concretude do princípio da dignidade humana. Entretanto, já não é


admissível a negação de tutela jurídica a situações concretas não qualificadas como direitos, ou
no pressuposto de que elas não representariam interesses substanciais. Ocorre que a tais matérias
não se pode aplicar a categoria do direito subjetivo, elaborado para o ‘ter’, para direitos
patrimoniais. Na categoria do ‘ser’, não há dualidade entre sujeito e objeto, porque ambos
representam o ser. Em razão da natureza do interesse a ser protegido, a pessoa constitui, ao
mesmo tempo, o sujeito titular do direito e o ponto de referência objetivo da relação jurídica.74

Nesse sentido, a tutela jurídica da pessoa e a promoção de seu bem não podem ser
subsumidas às categorias fracionadas de direitos, uma vez que os interesses dos indivíduos,
sobretudo os de garantia ao livre desenvolvimento de sua personalidade também não podem ser
fatiados de acordo com os sistemas ou microssistemas sem vislumbrar-se a indispensável
interface entre estes.

Assim, para além da defesa de que a personalidade não se constitui somente na


perspectiva de um direito, mas também como um valor, um bem fundamental do ordenamento
jurídico, é necessário resgatarmos o questionamento do conteúdo moral da proposição de
promoção do bem, conforme havíamos desenvolvido no primeiro capítulo.

Dessa forma, abreviadamente, resgatamos o aporte rawlsiano para afirmarmos a


adequação de seu modelo teórico às características da nossa sociedade, de uma maneira geral,
bem como ao problema do acesso às tecnologias reprodutivas, em especial. Para os
construtivistas, como Rawls, o justo tem precedência em relação ao bem. Conseqüentemente, não
há uma única definição de bem, contrariamente à idéia de justo ou justiça que é partilhada por
toda sociedade. Portanto, para uma doutrina ética é fundamental destacar e diferenciar os
conceitos de justiça e de bem. Primeiramente, os princípios de justiça são derivados de uma
escolha determinada pela posição original. Expressam uma concepção correta de justiça a partir
de um ponto de vista filosófico. Segundo, a concepção que os indivíduos têm de uma vida boa
pode variar, mas a concepção de justo não. Em uma sociedade bem organizada, os indivíduos
defendem os mesmos princípios de bem de diferentes modos. Assim, os planos de vida dos
74
MORAES, Maria Celina Bodin de. Op. Cit., p. 141-3.
108

indivíduos são diferentes, no sentido de darem preferência a diferentes objetivos, e as pessoas


têm liberdade para determinar o seu bem, sendo as visões dos outros consideradas apenas como
orientações.

É desejável que uma sociedade bem organizada possua essa variedade de concepções do
bem. É racional que seus membros queiram que seus planos sejam diferentes. Por outro lado,
quando se trata da concepção de justo, exige-se não apenas princípios comuns, mas também
meios similares para aplicá-los em casos particulares.75

Por fim, a aplicação dos princípios de justiça é restringida pelo véu da ignorância, ao
passo que a avaliação sobre o bem baseia-se em um pleno conhecimento dos fatos.

Nesse sentido, se um dos objetivos fundamentais do Estado brasileiro é a promoção do


bem, ainda que este bem deva ser reconhecido como de realização particularizada, com relação
ao acesso às tecnologias conceptivas, conformado na perspectiva de realização de um plano
racional de vida, assegurada a não violação das dignidades envolvidas, acredita-se que não se
poderia excluir determinados sujeitos, pois o bem é para todos.

75
RAWLS, J. Uma teoria da justiça. Op. Cit., p. 497.
109

CONSIDERAÇÕES FINAIS

À guisa de considerações finais, destaca-se a necessidade de delineamento do alcance dos


princípios constitucionais sobre a dignidade da pessoa humana e o respeito pelo livre
desenvolvimento da personalidade como fundamentos da proteção ao embrião obtido e mantido
em laboratório e às pessoas que intentam realizar um projeto de vida monoparental. A solução
aos conflitos éticos e jurídicos surgidos através da manipulação das novas tecnologias deve ser
buscada no quadro jurídico-normativo que nos oferece a Constituição Federal.

No caso brasileiro, temos um texto constitucional que goza de supremacia na hierarquia


axiológica, o qual informa as demais regras infraconstitucionais. Nesse sentido, os dilemas que
não encontram escoamento pela via da legislação ordinária devem convergir para as linhas
principiológicas traçadas por nossa Constituição.

Em relação aos envolvimentos éticos e riscos que estão presentes na utilização das
tecnologias de reprodução, existe uma inquietação sobre a necessidade de uma legislação que
organize critérios e responsabilidades pelos descaminhos que possam envolver a vida e os
direitos da criança nascida dessas intervenções.
110

No contexto da reprodução humana medicamente assistida, observamos posicionamentos


conflitantes no que diz respeito à dignidade da mãe e à do embrião. Contudo, parece-nos não
haver um conflito de interesses propriamente dito entre uma mulher, portadora de uma causa que
lhe impede de engravidar através do intercurso sexual e determinada racionalmente a concretizar
seu plano de vida de constituição de uma família, e a dignidade de seu filho concebido, o qual
desfrutará das melhores condições possíveis para se desenvolver plenamente.

Considerando que não haja a violação da dignidade do embrião nessa hipótese específica,
como é possível justificar a exclusão da mulher solteira da possibilidade de acesso à RA no
substitutivo ao projeto de lei n. 90/99, que parece ter maiores probabilidades de prosperar e
tornar-se lei?

O legislador, ao que nos parece, tem por missão reproduzir os valores sociais
compartilhados pela sociedade que representa. O que se quer responder é a partir de qual
concepção de justiça deve ser pensada a legislação sobre o acesso às tecnologias reprodutivas?
Aqui, apresentamos alguns argumentos que corroboram a idéia de conciliação entre o bem
individual - compreendido como a realização do projeto de monoparentalidade - e uma
concepção liberal de justiça partilhada pelas ‘sociedades bem ordenadas’.

O que observamos nos projetos de leis que tramitam no Congresso Nacional são
argumentos conservadores apoiados numa idéia de maioria: a maioria da população brasileira
compreende a formação da família em sua acepção clássica e tradicional: pai, mãe, filhos. Tal
argumento, por si, não é sustentável, tendo em vista o mundo real no qual se verifica a
pluralidade das relações familiares. Perguntamos se os referidos projetos pretendem determinar o
que é uma verdadeira família ou o que é bom e justo para mulheres solteiras ou em situação de
conjugalidade homossexual. De acordo com a análise realizada, ao que tudo indica, o legislador
brasileiro tomou para si a função de determinar o modo pelo qual os indivíduos devem
desenvolver seus projetos ou planos de vida.

Em parte, justificada é a tentativa de cercar e proteger juridicamente esse ente para que
sua existência corresponda a um lugar primordial: concretizar e continuar aquilo que seus pais
111

são e devem ser. De acordo com esse ideal, é possível compreender – não quer dizer aceitar como
uma proposição razoável e racional – as tentativas de restringir e aproximar as representações de
uma ‘verdadeira família’ para negar o acesso às tecnologias reprodutivas das mulheres solteiras,
homossexuais, celibatárias e quaisquer outros não contemplados nessa idéia.

De outra parte, não podemos olvidar, que enquanto não tivermos um consenso sobre a
normatização do acesso às tecnologias de reprodução humana, o mercado e as diferentes formas
através das quais os indivíduos buscam essas tecnologias ficam mais ou menos “livres”. Dessa
forma, quando o Estado não assume sua função como última instância reguladora das relações
sociais, o que observamos é a chamada “mão invisível” gerenciando o crescente mercado da
reprodução humana medicamente assistida no contexto brasileiro.

Nesse contexto, pergunta-se se existiria uma resposta única e correta para justificar um
determinado modelo legislativo para tratar das tecnologias reprodutivas no Brasil. Diante dos
estudos que se realizaram neste trabalho, acredita-se que existem mecanismos para se chegar à
melhor justificação possível, a fim de garantir a racionalidade e plausibilidade sobre o tema ante
a comunidade jurídica e sociedade em geral. A melhor justificação possível, para o caso em tela,
deve atender à premissa da não violação ao princípio da dignidade da pessoa humana,
prioritariamente, como também aos demais princípios norteadores do tema como o da proteção à
família, do direito ao acesso universal à saúde e o da promoção do bem como objetivo
fundamental de um Estado Democrático de Direito.
112

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ABERASTURY, Arminda, SALAS, Eduardo J. A Paternidade – um enfoque psicanalítico. Porto


Alegre: Artes Médicas, 1984.

ALEXY, Robert. Direitos Fundamentais no Estado Constitucional Democrático. Revista de


Direito Administrativo, n. 217, p. 55-66, 1999.

ALEXY, Robert. Teoria de los Derechos Fundamentales. Madrid: CEC, 1993.

ALMEIDA, Angela M. de. Família e modernidade: o pensamento jurídico brasileiro no século


XIX. São Paulo: Porto Calendário, 1999.

ALVES, Gláucia C. R. B. Sobre a dignidade da pessoa humana. In: MARTINS-COSTA, Judith.


A reconstrução do direito privado. São Paulo: Ed. Revista dos Tribunais, 2002, p. 213-229.

AMARAL, Gustavo. Direito, escassez e escolha. Rio de Janeiro: Renovar, 2001.

ANDORNO, Roberto. La distinction juridique entre les personnes et les choses: à l’épreuve des
procréations artificielles. Paris: LGDJ, 1996.

AÑÓN, Carlos Lema. Reproducción, poder y derecho – ensayo filosofico-juridico sobre las
técnicas de RA. Madrid: Trotta, 1999.

ARISTÓTELES. A política. Tradução de Nestor Silveira Chaves. Bauru: EDIPRO, 1995.

ASCENSÃO, José de Oliveira. Problemas jurídicos da procriação assistida. Revista Forense, Rio
de Janeiro, v. 328, 1980, p. 69-80.
113

AZERÊDO, Sandra; STOLKE, Verena (orgs.) Direitos Reprodutivos. São Paulo: Fundação
Carlos Chagas, 1991.

AZEVEDO, Álvaro Villaça. Ética, direito e reprodução humana assistida. Revista dos Tribunais,
São Paulo, v. 729, 1996, p. 43-51.

AZEVEDO, Marco Antônio O. de. Bioética fundamental. Porto Alegre: Tomo Editorial, 2002.

BADINTER, Elisabeth. Um amor conquistado: o mito do amor materno. Rio de Janeiro: Nova
Fronteira, 1985.

BADINTER, Elisabeth. XY: sobre a identidade masculina. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993.

BARBOSA, Maria Regina; PARKER, Richard (orgs). Sexualidades pelo avesso – direitos,
identidades e poder. 1. ed., Rio de Janeiro: IMS/UERJ; São Paulo: Ed. 34, 1999.

BARCHIFONTAINE, Christian de Paul de. Bioética e procriação humana – dissensos e


consensos nos movimentos sociais da bioética na América Latina. O Mundo da Saúde, v. 21, n. 1,
1997, p. 21-25.

BARRETO, Vicente de Paula. Bioética, biodireito e direitos humanos. In: TORRES, Ricardo
Lobo (org.). Teoria dos direitos fundamentais. Rio de Janeiro: Renovar, 1999, p. 377-417.

BARSTED, Leila L. O campo político-legislativo dos direitos sexuais e reprodutivos no Brasil.


In: BERQUÓ, Elza (org.). Sexo & vida: panorama da saúde reprodutiva no Brasil. Campinas:
Editora da UNICAMP, 2003, p. 79-94.

BARSTED, Leila L. Permanência ou mudança? O discurso legal sobre a família. In: ALMEIDA,
A. et. al. (ed.). Pensando a família no Brasil. Da colônia à modernidade. Rio de Janeiro: Espaço
e Tempo, 1987.

BARZOTTO, Luiz Fernando. O Positivismo Jurídico Contemporâneo – uma introdução a


Kelsen, Ross e Hart. São Leopoldo: Editora UNISINOS, 1999.

BOBBIO, Norberto. Igualdad y Libertad. 1. ed. Barcelona: Ediciones Paidós, 1993.

BONACCHI, Gabriela; GROPPI, Ângela (orgs.). O dilema da cidadania: direitos e deveres das
mulheres. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista, 1995.

BOURGUET, Vicent. O ser em gestação: reflexões bioéticas sobre o embrião humano. São
Paulo: Edições Loyola, 2002.

BRAUNER, Maria Claudia Crespo. A monoparentalidade projetada e o direito do filho à


biparentalidade. In: DORA, D.; SILVEIRA, D. (orgs.). Direitos humanos, ética e direitos
reprodutivos. Porto Alegre: Themis, 1998, p. 61-78.
114

BRAUNER, Maria Claudia Crespo. Direito, sexualidade e reprodução humana: conquistas


médicas e o debate bioético. Rio de Janeiro: Renovar, 2003.

BRAUNER, Maria Claudia Crespo. Direitos Sexuais e Reprodutivos: uma abordagem a partir
dos Direitos Humanos. Anuário do Programa de Pós-graduação em Direito da UNISINOS,
1999, p. 199-228.

BRAUNER, Maria Cláudia Crespo. Novos contornos do direito da filiação: a dimensão afetiva
das relações parentais. Revista da Ajuris, Porto Alegre, a.XXVI, n.78, jun. 2000, p. 193-216.

CALLIOLI, Eugenio Carlos. Aspectos da fecundação artificial ‘in vitro’. Revista de Direito Civil,
n. 44, p. 71-95.

CARBONERA, Silvana M. Guarda de filhos na família constitucionalizada. Porto Alegre:


Sérgio Fabris Editor, 2000.

CARBONERA, Silvana M. O papel jurídico do afeto nas relações jurídicas. In: FACHIN, Luiz
Edson (coord.). Repensando fundamentos do direito civil contemporâneo. Rio de Janeiro:
Renovar, 1998, p. 273-313.

CARVALHO, Orlando de. Les droits de l’homme dans le droit civil portugais. Boletim da
Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, n. XLIX, 1973.

CHAVES, Antonio. Direito à vida e ao próprio corpo. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1994.

CHORÃO, Mario Emílio Bigotte. Concepção realista da personalidade jurídica e estatuto do


nascituro. Revista Brasileira de Direito Comparado, Rio de Janeiro, n. 17, 1999, p. 261-296.

CITELI, Maria Teresa. A reprodução humana na pauta dos jornais brasileiros – 1996/2000. In:
Olhar sobre a mídia. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2002, p. 184-213.

COOK, Rebecca J. Estimulando a efetivação dos direitos reprodutivos. In: BUGLIONE, S. (org.).
Reprodução e Sexualidade: uma questão de justiça. Porto Alegre: Sergio Fabris Editor, 2002, p.
13-60.

CORRÊA, Marilena Villela. A tecnologia a serviço de um sonho: um estudo sobre a reprodução


assistida. Rio de Janeiro: UERJ/Programa de Pós-Graduação do Instituto de Medicina Social,
Tese de Doutorado, 1997.

CORRÊA, Marilena Villela. Novas tecnologias reprodutivas: limites da biologia ou biologia sem
limites? Rio de Janeiro: EdUERJ, 2001.

CORRÊA, Sonia; ÁVILA, Maria Betânia. Direitos sexuais e reprodutivos: pauta global e
percursos. In: BERQUÓ, Elza (org.). Sexo & vida: panorama da saúde reprodutiva no Brasil.
Campinas: Editora da UNICAMP, 2003, p. 17-78.
115

CORRÊA, Sonia; PETCHESKI, Rosalind. Direitos sexuais e reprodutivos: uma perspectiva


feminista. Physis Revista de Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 6, n. 1/2, 1996, p. 147-178.

CORTIANO JUNIOR, Eroulths. Alguns apontamentos sobre os chamados direitos de


personalidade. In: FACHIN, Luiz Edson (coord.). Repensando fundamentos do direito civil
brasileiro contemporâneo. Rio de Janeiro: Renovar, 2000, p. 31-55.

CUNHA, Alexandre dos Santos. Dignidade da pessoa humana: conceito fundamental do direito
civil. In: MARTINS-COSTA, Judith. A reconstrução do direito privado. São Paulo: Ed. Revista
dos Tribunais, 2002, p. 230-264.

DELPÉRÉE, Francis. O direito à dignidade humana. In: BARROS, Sérgio Resende de;
ZILVETI, Fernando Aurélio (coord.). Direito Constitucional – Estudos em homenagem a
Manoel Gonçalves Ferreira Filho. São Paulo: Dialética, 1999, p. 151-162.

DINIZ, Débora, COSTA, Sérgio Ibiapina F.;. Bioética: ensaios. Brasília: S. I. F. Costa, D. Diniz,
2001.

DINIZ, Débora. Tecnologias reprodutivas, ética e gênero: o debate legislativo brasileiro.


Encontro Anual da ANPOCS, Petrópolis, 2000, mimeo.

DORA, Denise Dourado. Direitos sexuais, direitos reprodutivos e diretos humanos: conceitos em
movimento. In: ARILHA, Margareth; CITELI, Maria Teresa (orgs.). Políticas, mercado, ética:
demandas e desafios no campo da saúde reprodutiva. São Paulo: Editora 34, 1998, p. 69-80.

Dossiê Reprodução Humana Assistida. Rede Nacional Feminista de Saúde, Direitos Sexuais e
Direitos Reprodutivos. Agosto de 2003.

DWORKIN, Ronald. El dominio de la vida – una discusión acerca del aborto, la eutanasia y la
libertad individual. Barcelona: Ariel, 1998.

DWORKIN, Ronald. Los Derechos en Serio. Barcelona: Ariel, 1999.

ELOSEGUI ITXASO, M. Diez temas de gênero: hombre y mujer ante los derechos productivos y
reproductivos. Madrid: EIUNSA, 2002, p. 115-150.

ENGELHARDT JR., H. Tristam. Fundamentos da bioética. 2. ed. São Paulo: Edições Loyola,
1998.

ESTÉFANI, Rafael Junqueira de. Reproducción asistida, filosofia ética y filosofia jurídica.
Madrid: Editorial Tecnos, 1998.

FARIAS, José Fernando de Castro. A origem do direito de solidariedade. Rio de Janeiro:


Renovar, 1998.

FERRAZ JÚNIOR, Tércio Sampaio. Introdução ao estudo do direito. 4. ed. São Paulo: Atlas,
2003.
116

FERRAZ, Sérgio. Manipulações biológicas e princípios constitucionais: uma introdução. Porto


Alegre: Sergio Antonio Fabris, 1991.

FRANÇA, Rubens Limongi. Instituições de Direito Civil. 5. ed. rev. e atual. São Paulo: Saraiva,
1999.

FREITAS, Juarez. A interpretação sistemática do Direito. 6. ed. Malheiros: São Paulo, 2002.

FREUD, S. O estranho. In: Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, v. XVII, p. 237-269, 1976.

GEDIEL, José Antônio Peres. Tecnociência, dissociação e patrimonialização jurídica do corpo


humano. In: FACHIN, Luiz Edson (coord.). Repensando fundamentos do direito civil
contemporâneo. Rio de Janeiro: Renovar, p. 57-85, 1998.

GEERTZ, Cliford. O Saber local: novos ensaios em antropologia interpretativa. Petrópolis:


Vozes, 1999.

GIFFIN, Karen; CAVALCANTI, Cristina. Homens e reprodução. Revista Estudos Feministas,


Florianópolis, v. 7, n. 1 e 2, 1999, p. 53-62.

GROSSI, Mirian; HEILBORN, Maria Luiza; RIAL, Carmem. Entrevista com Joan W. Scott.
Revista Estudos Feministas, Rio de Janeiro, v.8, n.1, 1998, p. 114-124.

HABERMAS, Jürgen. A inclusão do outro – estudos de teoria política. São Paulo: Edições
Loyola, 2002.

HABERMAS, Jürgen; RAWLS, John. Debate sobre el liberalismo político. Barcelona: Ediciones
Paidós, 1998.

HEILBORN, Maria Luiza. De que gênero estamos falando? Sexualidade, Gênero e Sociedade, a.
1, n. 2, dez. 1994, p. 01-08.

HÉRITIER, Françoise. A coxa de Júpiter – notas sobre as novas tecnologias de reprodução,


Revista Estudos Feministas, v. 8, n. 1, 2000, p. 98-114.

KELSEN, Hans. Teoria pura do direito. 6. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

LAFER, Celso. A reconstrução dos direitos humanos: um diálogo com o pensamento de Hannah
Arendt. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

LEITE, Eduardo de Oliveira. As procriações artificiais e o direito: aspectos médicos, religiosos,


psicológicos, éticos e jurídicos. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1995.

LEITE, Eduardo de Oliveira. Famílias monoparentais: a situação jurídica de pais e mães


solteiros, de pais e mães separados e dos filhos na ruptura conjugal. São Paulo: Revista dos
Tribunais, 1997.
117

LEITE, Luiz Bernardo. Uma questão de justiça: Habermas, Rawls e MacIntyre. In: FELIPE,
Sonia T. (org.). Justiça como eqüidade. Florianópolis: Insular, 1998, p. 209-230.

LEIVAS, Paulo Gilberto Cogo. A genética, a eugenia e o conceito de dignidade humana. In:
MARTINS-COSTA, Judith. A reconstrução do direito privado. São Paulo: Editora Revista dos
Tribunais, 2002, p. 551-570.

LOBATO, Anderson C. Reconhecimento e garantias constitucionais dos direitos fundamentais.


Revista da Faculdade de Direito, Curitiba, a. 28, n. 28, 1994/95, p. 109-137.

LOPES, Joaquim Roberto C. O direito à reprodução. Disponível em: <http://www. sbrh.med.br/


boletins/bol03mar-abril/bl010301.htm> Acesso em 12/06/03.

LOPES, Maurício Antonio Ribeiro. A dignidade da pessoa humana: estudo de um caso. Revista
dos Tribunais, São Paulo, v. 758, p. 106 e ss., 1998.

LOUREIRO, João Carlos Gonçalves. O direito à identidade genética do ser humano. Boletim da
Faculdade de Direito, Universidade de Coimbra, 2000, p. 263-389.

LUDWIG, Marcos de Campos. O direito ao livre desenvolvimento da personalidade na


Alemanha e possibilidades de sua aplicação no direito privado brasileiro. In: MARTINS-COSTA,
Judith. A reconstrução do direito privado. São Paulo: Ed. Revista dos Tribunais, 2002, p. 265-
305.

LUNA, Naara Lúcia de Albuquerque. Maternidade desnaturada: uma análise da barriga de


aluguel e da doação de óvulos. Cadernos Pagu, Campinas, n. 19, 2002, p. 233-278.

LUNA, Naara Lúcia de Albuquerque. Pessoa e parentesco nas novas tecnologias reprodutivas.
Revista Estudos Feministas, v. 9, n. 2, 2001, p. 389-413.

MANN, Jonathan. Saúde pública e direitos humanos. Physis Revista de Saúde Coletiva, Rio de
Janeiro, v. 6, n. 1/2, 1996, p. 135-146.

MASSINI CORREAS, C. I. Filosofía del Derecho – el derecho y los derechos humanos. Buenos
Aires: Abeledo-Perrot, [s.d.].

MATHIEU, Bertrand. Génome humain et droits fondamentaux. Paris: Economica, 2000.

MATTIA, Fábio Maria. Direitos da personalidade: aspectos gerais. In: CHAVES, Antonio
(coord.). Estudos de direito civil. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1979.

MEIRELLES, Jussara. A vida humana embrionária e sua proteção jurídica. São Paulo: Renovar,
2000.

MEIRELLES, Jussara. Gestação por outrem e determinação da maternidade. Curitiba: Gênesis,


1998.
118

MIRANDA, Jorge. Os Direitos Fundamentais – sua dimensão individual e social. Cadernos de


Direito Constitucional e Ciência Política, n. 1, 1992, p. 198 e ss.

MORAES, Maria Celina Bodin de. O conceito de dignidade humana: substrato axiológico e
conteúdo normativo. In: SARLET, Ingo Wolfgang (org.). Constituição, Direitos Fundamentais e
Direito Privado. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2003, p. 105-147.

MOTA PINTO, Paulo. O direito ao livre desenvolvimento da personalidade: Portugal-Brasil, ano


2000. Coimbra: Coimbra Ed., 1999, p. 149-261.

NAGEL, Thomas. Rawls and liberalism. In: FREEMAN, Samuel. (ed.). The Cambridge
Companion to Rawls. Cambridge: Cambridge University Press, 2003, p. 62-85.

NEDEL, José. A teoria ético-política de John Rawls: uma tentativa de integração de liberdade e
igualdade. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2000.

NEIRINCK, Claire. L’enfant que l’on ne peut concevoir. In: ______ (org.). La famille que je
veux, quand je veux? Evolution du droit de la famille. Ramonville Saint-Agne: Éditions Érés,
2003, p. 39-55.

NOBRE JÚNIOR, Edílson Pereira. O direito brasileiro e o princípio da dignidade da pessoa


humana. Revista de Direito Administrativo, n. 219, 2000, p. 237-251.

NOVAES, Simone; SALEM, Tania. Recontextualizando o embrião. Revista Estudos Feministas,


Rio de Janeiro, v. 3, n. 1, 1995, p. 65-88.

OLIVEIRA, Fátima. Filhos (as) da tecnologia: questões éticas da procriação assistida. O Mundo
da Saúde, v.21, n. 3, mai./jun. 1997.

OLIVEIRA, José Lamartine Corrêa; MUNIZ, Francisco José Ferreira. O estado de direito e os
direitos da personalidade. Revista da Faculdade de Direito da UFPr, n. 19, 1978-1980.

OTERO, Paulo. Personalidade e identidade pessoal e genética do ser humano: um perfil


constitucional da bioética. Coimbra: Almedina, 1999.

PESSINI, Leo; BARCHIFONTAINE, Christian de Paul. Problemas atuais de bioética. 6. ed. rev.
e ampl. São Paulo: Edições Loyola, 2002.

PIOVESAN, Flávia. Os direitos reprodutivos como direitos humanos. In: BUGLIONE, S. (org.).
Reprodução e Sexualidade: uma questão de justiça. Porto Alegre: Sergio Fabris Editor, 2002, p.
61-92.

PIOVESAN, Flávia. Temas de Direitos Humanos. São Paulo: Max Limonad, 1998.

RAMIRES, Vera Regina. O exercício da paternidade hoje. Rio de Janeiro: Record / Rosa dos
Tempos, 1997.
119

RAMÍREZ-GALVEZ, Martha Célia. A fertilização tecnológica dos nossos corpos, nossas vidas.
Disponível em: http://www.comciencia.br/reportagens/mulheres/18.shtml > Acesso em 17/12/03.

RAMOS, César Augusto. A crítica comunitarista de Walzer à teoria da justiça de John Rawls. In:
FELIPE, Sonia T. (org.). Justiça como eqüidade. Florianópolis: Insular, 1998, p. 231-243.

RAWLS, John. Justiça como eqüidade. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

RAWLS, John. O direito dos povos. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

RAWLS, John. O liberalismo político. São Paulo: Editora Ática, 2000.

RAWLS, John. Uma teoria da justiça. 2.ed. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

REIS, Márcio Monteiro. Moral e Direito: a fundamentação dos direitos humanos nas visões de
Hart, Peces-Barba e Dworkin. In: TORRES, Ricardo Lobo (org.). Teoria dos Direitos
Fundamentais. Rio de Janeiro: Renovar, 1999.

RIDENTI, Sandra G. U. A desigualdade de gênero nas relações parentais: o exemplo da custódia


dos filhos. In: ARILHA, M., RIDENTI, S. G. U., MEDRADO, B. (orgs.). Homens e
masculinidade: atrás da palavra. São Paulo: ECOS/ED. 34, 1998, p.163-183.

RIOS, Roger Raupp. Dignidade da pessoa humana, homossexualidade e família: reflexões sobre
as uniões de pessoas do mesmo sexo. In: MARTINS-COSTA, Judith. A reconstrução do direito
privado. São Paulo: Ed. Revista dos Tribunais, 2002, p. 483-517.

ROCHA, Carmen Lucia Antunes. O princípio da dignidade da pessoa humana e a exclusão


social. Interesse Público, n. 4, 1999, p. 23-48.

ROHDEN, Fabíola. Uma ciência da diferença: sexo, contracepção e natalidade na medicina da


mulher. Rio de Janeiro: UFRJ/Programa de Pós-graduação em Antropologia Social, Tese, 2000.

ROTANIA, A. A celebração do temor: biotecnologias, reprodução, ética e feminismo. Rio de


Janeiro: E-papers, 2001.

SALEM, Tania. O princípio do anonimato na inseminação artificial com doador (IAD): das
tensões entre natureza e cultura. Physis – Revista de Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v.5, n.1, 33-
67.

SANTOS, Boaventura de Sousa. Por uma concepção multicultural de direitos humanos. Revista
Crítica de Ciências Sociais, n. 48, 1998, p. 11-32.

SARLET, Ingo Wolfgang. A eficácia dos direitos fundamentais. 2. ed., rev. e atual. Porto Alegre:
Livraria do Advogado, 2001.
120

SARLET, Ingo Wolfgang. Dignidade da pessoa humana e direitos fundamentais na Constituição


Federal de 1988. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2001.

SARMENTO, D. Os Princípios Constitucionais e a Ponderação de Bens. In: TORRES, R. L.


(org.). Teoria dos Direitos Fundamentais. Rio de Janeiro: Renovar, 1999.

SAVIN, Gláucia. Crítica aos conceitos de maternidade e paternidade diante das novas técnicas de
reprodução artificial. Revista dos Tribunais, São Paulo, v. 659, 1990, p. 234-242.

SCOTT, Joan Wallace. Gênero: uma categoria útil de análise histórica. Educação e Realidade,
Porto Alegre, n. 16 (2), jul/dez. 1990, p. 05-22.

SEGRE, Marco. Direitos humanos atinentes à sexualidade. In: ARILHA, Margareth; CITELI,
Maria Teresa (orgs.). Políticas, mercado, ética: demandas e desafios no campo da saúde
reprodutiva. São Paulo: Editora 34, 1998, p. 81-96.

SILVA, José Afonso da. A dignidade da pessoa humana como valor supremo da democracia.
Revista de Direito Administrativo, São Paulo, v. 212, 1998, p. 89-94.

SILVA, Margareth Arilha. Tecnologias reprodutivas – a concepção de novos dilemas. São Paulo:
International Women’s Health Coalition, 1991.

SILVA, Reinaldo Pereira e. Introdução ao biodireito: investigações político-jurídicas sobre o


estatuto da concepção humana. São Paulo: LTr, 2002.

SIQUEIRA, Maria Juracy Toneli. Saúde e direitos reprodutivos: o que os homens têm a ver com
isso? Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v.8, n.1, 2000, p. 159-168.

STRATHERN, Marilyn. Necessidade de pais, necessidade de mães. Revista Estudos Feministas,


Rio de Janeiro, n.2, 1995, p. 303-28.

STRATHERN, Marilyn. Reproducing the future – essays on anthropology, kinship and the new
reproductive technologies. Manchester: Manchester University Press, 1992.

SZANIAWSKI, Elimar. Direitos de personalidade e sua tutela. São Paulo: Revista dos
Tribunais, 1993.

TAYLOR, Charles. A política de reconhecimento. In: ______. Multiculturalismo. Lisboa:


Instituto Piaget, [s.d.], p. 45-94.

TEPEDINO, Gustavo. A disciplina civil-constitucional das relações de família. In: TEIXEIRA,


Sálvio de Figueiredo (coord.). Direitos de família e do menor. 3.ed. Belo Horizonte: Del Rey,
1993.

TEPEDINO, Gustavo. Temas de Direito Civil. Rio de Janeiro: Renovar, 1999.


121

VAN PARIJS, Philippe. Difference principles. In: FREEMAN, Samuel. (ed.). The Cambridge
Companion to Rawls. Cambridge: Cambridge University Press, 2003, p. 200-240.

VARGAS, Eliane Portes. Gênero e infertilidade na ótica feminina. In BARBOSA, Regina et. al.
(orgs.). Interfaces Gênero, Sexualidade e Saúde Reprodutiva. Campinas: Editora da UNICAMP,
2002, p. 309-347.

VILLELA, João Baptista. Desbiologização da paternidade. Revista Forense, Rio de Janeiro, v.


271, 1980, p. 45-51.

VILLELA, Wilza V.; ARILHA, Margareth. Sexualidade, gênero e direitos sexuais e


reprodutivos. In: BERQUÓ, Elza (org.). Sexo & vida: panorama da saúde reprodutiva no Brasil.
Campinas: Editora da UNICAMP, 2003, p. 95-150.

VILLEY, Michel. Filosofia do direito: definições e fins do direito: os meios do direito. São
Paulo: Martins Fontes, 2003.

WARAT, Luis Alberto. A questão de gênero no direito. In DORA, Denise Dourado. Feminino e
masculino – igualdade e diferença na justiça. Porto Alegre: Sulina, 1997.

ZARKA, Yves Charles. A invenção do sujeito de direito. In: Filosofia Política: nova série. Porto
Alegre: L&PM, 1997, p. 9-29.