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v.18, n. 2 p. 47-101

2007

REVISTA DE

Ocupacional Terapia

ISSN 1415-9104

47-101 2007 REVISTA DE O cupacional T erapia ISSN 1415-9104 DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO E

DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

EDITORIAL

O Fórum Nacional de Educação das Profissões na Área da Saúde -FNEPAS-: O Desafio da Formação de Profissionais para o Sistema Único de Saúde –SUS Elisabete Ferreira Mângia, Regina Lugarinho

ARTIGOS/ARTICLES

Os processos sociais de constituição das habilidades The social processes of the constitution of abilities Kátia Maria Penido Bueno

Redes sociais e construção de projetos terapêuticos: um estudo em serviço substitutivo em saúde mental Social networks and the construction of therapeutic projects: a study in a mental health substitutive service Elisabete Ferreira Mângia, Melissa Muramoto

Validade de conteúdo de questionários de coordenação motora para pais e professores Content validity of motor coordination questionnaires for parents and teachers Tatiana Teixeira Barral de Lacerda, Lívia de Castro Magalhães, Márcia Bastos Rezende

Estudo de Caso – atendimento em terapia ocupacional de um paciente com síndrome de Tourette Case study – occupational therapy for a patient with Tourett’s syndrome Tatiana Luísa Reis, Marina Silveira Palhares

Deformidades e incapacidades dos hemofílicos do Centro de Hemoterapia e Hematologia do Espírito Santo, Brasil Deformities and disabilities of hemophilics undergoing treatment at the Hemoterapy and Hematology Centre of Espirito Santo, Brazil Elem Guimarães dos Santos, Linger Laci Portes, Anne Guimarães Santana, Edson Theodoro dos Santos Neto

Efeitos da caminhada no sistema musculoesquelético – estudo da flexibilidade Effects of walking in muscleskeletical system – study of flexibility Fátima Aparecida Caromano, Rachel Rodrigues Kerbauy, Clarice Tanaka, Maiza Ritomi Ide, Cláudia Marchetti Vieira da Cruz

NORMAS PARA PUBLICAÇÃO/STANDARDIZATION

Rev. Ter. Ocup. Univ. São Paulo, v. 18, n. 2, p. 47-101, maio-ago., 2007.

Sumário/Contents

ISSN 1415-9104

EDITORIAL

O Fórum Nacional de Educação das Profissões na Área da Saúde -FNEPAS-: O Desafio da Formação de Profissionais para o Sistema Único de Saúde –SUS Elisabete Ferreira Mângia, Regina Lugarinho

ARTIGOS/ARTICLES

Os processos sociais de constituição das habilidades The social processes of the constitution of abilities Kátia Maria Penido Bueno

Redes sociais e construção de projetos terapêuticos: um estudo em serviço substitutivo em saúde mental Social networks and the construction of therapeutic projects: a study in a mental health substitutive service Elisabete Ferreira Mângia, Melissa Muramoto

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Validade de conteúdo de questionários de coordenação motora para pais e professores Content validity of motor coordination questionnaires for parents and teachers Tatiana Teixeira Barral de Lacerda, Lívia de Castro Magalhães, Márcia Bastos Rezende 63

Estudo de Caso – atendimento em terapia ocupacional de um paciente com síndrome de Tourette Case study – occupational therapy for a patient with Tourett’s syndrome Tatiana Luísa Reis, Marina Silveira Palhares

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Deformidades e incapacidades dos hemofílicos do Centro de Hemoterapia e Hematologia do Espírito Santo, Brasil Deformities and disabilities of hemophilics undergoing treatment at the Hemoterapy and Hematology Centre of Espirito Santo, Brazil Elem Guimarães dos Santos, Linger Laci Portes, Anne Guimarães Santana, Edson Theodoro dos Santos Neto

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Efeitos da caminhada no sistema musculoesquelético – estudo da flexibilidade Effects of walking in muscleskeletical system – study of flexibility Fátima Aparecida Caromano, Rachel Rodrigues Kerbauy, Clarice Tanaka, Maiza Ritomi Ide, Cláudia Marchetti Vieira da Cruz

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NORMAS PARA PUBLICAÇÃO/STANDARDIZATION

Rev. Ter. Ocup. Univ. São Paulo, v. 18, n. 2, p. i, maio/ago., 2007.

Editorial

O Fórum Nacional de Educação das Profissões na Área da Saúde - FNEPAS-: O Desafio da Formação de Profissionais para o Sistema Único de Saúde –SUS

Elisabete Ferreira Mângia 1 , Regina Lugarinho 2

O Fórum Nacional de Educação das Profissões na Área de Saúde – FNEPAS, criado em 2004,no contexto do “Seminário Nacional sobre o SUS e as Graduações na Saúde”, promovido pelo Ministério da Saúde, assumiu o compromisso de promover e contribuir para o processo de mudanças curriculares nos cursos de graduação, visando a formação de profissionais habilitados e comprometidos com a Política Nacional de Saúde. Pretende também que tais mudanças sejam orientadas pelos princípios do SUS e das Diretrizes Curriculares Nacionais e particularmente, que desenvolvam na teoria e na prática a concepção/ desafio da Integralidade na atenção em saúde. Atualmente, o FNEPAS é composto pelas seguintes entidades: Associação Brasileira de Educação Médica (ABEM), Associação Brasileira de Enfermagem (ABEn), Associação Brasileira de Ensino Odontológico (ABENO), Associação Brasileira de Ensino de Fisioterapia (ABENFISIO), Associação Brasileira de Ensino de Psicologia (ABEP), Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social (ABEPSS), Rede UNIDA, Associação Brasileira de Hospitais Universitários e de Ensino (ABRAHUE), Associação Brasileira de Pós-Graduação em Saúde Coletiva (ABRASCO), Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia (SBFa) e Rede Nacional de Ensino em Terapia Ocupacional (RENETO). Com apoio do Ministério da Saúde, esse grupo de entidades vem desenvolvendo um projeto que compreende a realização de oficinas, que visam fortalecer a articulação entre as diferentes profissões e destas com atores estratégicos que compõem o SUS, além de ampliarem, potencializarem e aprofundarem a discussão e a troca de experiências desenvolvidas no contexto de projetos inovadores que busquem integrar ensino, assistência, extensão e pesquisa para o SUS. Nesse percurso já foram realizadas oficinas por categorias profissionais em todo o país e neste ano serão realizadas oficinas regionais, articulando todos os atores, com o objetivo de proporcionar o compartilhamento entre as profissões dos diferentes olhares e formulações a respeito dos desafios da implementação das diretrizes curriculares nesses dois campos; criar oportunidades para a reflexão conjunta em torno do tema da integralidade, considerado central para a inovação das práticas e da formação em saúde e construir um repertório mínimo compartilhado que subsidie a realização de oficinas e outros movimentos de aproximação regional entre as diferentes profissões da saúde. Para a Terapia Ocupacional, a participação nesse movimento tem sido muito produtiva e propiciado, no contexto do diálogo com tantas entidades, espaços valiosos de reflexão e troca de experiências, mas gostaríamos que a participação da área fosse ampliada e que mais profissionais pudessem ingressar nesse processo, especialmente nos espaços que serão abertos com a realização das oficinas em todo o país. Assim, convidamos a todos para juntarem-se a nós nessa construção, para isso sugerimos o acesso ao site do FNEPAS – www.fnepas.org.br para a obtenção de informações sobre a sua região e o contato com os coordenadores de cada uma delas, outra possibilidade é o contato com os representantes da RENETO, pois estamos, em um trabalho artesanal, ampliando nossas parcerias e participação e contamos com você.

1 Editora da Revista de Terapia Ocupacional da USP , Profª Drª do Curso de Graduação em Terapia Ocupacional da FMUSP. Representante RENETO/FNEPAS. 2 Diretora Executiva da ABEM/FNEPAS, Profª Adjunta da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro.

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NORMAS PARA PUBLICAÇÃO DE ARTIGOS

A REVISTA DE TERAPIA OCUPACIONAL DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO é um periódico quadrimestral do Departamento de

Fisioterapia, Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Publica, prioritariamente, trabalhos originais e inéditos que tragam contribuições para o campo da Terapia Ocupacional e áreas afins. Criada em 1990, tem buscado contribuir com o processo de consolidação científica da Terapia Ocupacional, promovendo a divulgação e atualização das tendências teóricas e práticas desse campo, veiculando artigos originais de pesquisa, relatos de experiência, pontos de vista e

debates, constituindo-se como um periódico de caráter interdisciplinar. Atualmente está indexada na Latin American and Caribbean Health Sciences –LILACS- e no Latindex As contribuições enviadas pelos autores são submetidas à revisão por pares (no mínimo dois relatores), de acordo com os critérios definidos pelo Corpo Editorial e disponíveis em cada exemplar impresso da revista e no endereço eletrônico http://www.fm.usp.br/to/Normas-TO.pdf. As modificações sugeridas pelos relatores serão encaminhadas ao(s) autor(es). Em caso de divergência de pareceres, o texto será encaminhado a um terceiro relator, para arbitragem. A decisão final sobre o mérito do trabalho é de responsabilidade dos editores. Os trabalhos apresentados devem respeitar os critérios da ética em pesquisa sendo recomendado que os autores explicitem, no corpo do trabalho,

se houve aprovação do Comitê de Ética da instituição onde o estudo foi realizado. Quando se tratar de pesquisa financiada os autores devem indicar a instituição finaciadora e se há conflito de interesse.

A publicação do trabalho implica a cessão integral dos direitos autorais à Revista de Terapia Ocupacional da USP. Não é permitida a reprodução

parcial ou total de artigos e matérias publicadas, sem a prévia autorização dos editores. Todos os trabalhos submetidos à publicação deverão ser acompanhados pela declaração de transferência dos direitos autorais. Este documento é fornecido pela Revista.

Os textos são de responsabilidade dos autores, não coincidindo, necessariamente, com o ponto de vista dos editores e do Conselho Editorial da revista. Os editores reservam-se o direito de efetuar alterações ou cortes nos trabalhos recebidos para adequá-los às normas da revista, respeitando

o estilo e os conteúdos do autor.

A Revista aceita contribuições para as seguintes seções:

1. Editorial: de responsabilidade dos editores, destina-se a discussão de temas diversos relativos a algum assunto de importância da área e/ou a

temas abordados naquele número da revista. São habitualmente encomendados pelos Editores a especialistas na temática abordada.

2. Artigos Originais: destina-se a divulgação de resultados de pesquisa inédita de natureza empírica, experimental ou conceitual.

3. Relatos sobre projetos e experiências: destina-se a descrição e discussão de projetos efetivamente realizados, referidos as ações desenvolvidas

junto a instituições, comunidades e/ou sujeitos e que apresentem algum aspecto original para os campos da assistência, da reabilitação psicossocial, da promoção da saúde, da promoção social ou da intervenção sóciocultural e/ou artística. Inclui a apresentação de relatos de casos, formas inovadoras de avaliação e tratamento e/ou experiências de caráter didático assistencial.

4. Artigo de Revisão: destina-se a avaliações críticas e ordenadas da literatura sobre um determinado tema.

5. Artigo de Atualização: destina-se a apresentar descrições e avaliações baseadas na literatura recente sobre a situação global em que se

encontra determinado assunto investigativo.

6. Ponto de Vista e Debates: destina-se a divulgação de avanços em temas de interesse e a discussão e análise crítica de temas controversos de

relevância prática das diversas áreas. Os artigos desta categoria são geralmente encomendados pelos editores, a autores com comprovada experiência no assunto. Inclui também entrevistas que expressem a opinião de pesquisadores conceituados sobre temas polêmicos. Artigos não

encomendados são também aceitos, desde que expressem experiência do(s) autor(es) na área e não apenas revisão da literatura.

7. Resenha: análise crítica de livro relacionado ao campo temático da revista, publicado nos últimos dois anos.

A Revista se propõe também a desenvolver números temáticos, sob a coordenação de membros do corpo editorial e de acordo com projetos

apresentados aos editores e aprovados pelo Conselho Editorial.

Forma e Conteúdo:

1. Apresentação dos originais: Os originais deverão ser digitados em programa de texto Word for Windows, espaço 2, impressos em papel

A4, branco, em um só lado da folha. Para as sessões: Artigos Originais, os trabalhos não devem ultrapassar 15 páginas. Relatos sobre

projetos e experiências, Artigos de revisão, Artigos de atualização e Ponto de Vista não devem ultrapassar 10 páginas. Resenhas devem conter no máximo 5000 caracteres. Utilizar letra Arial, tamanho11. O disquete do trabalho a ser publicado deve ser entregue e acompanhado de duas cópias em papel branco, sem rasuras, no seguinte endereço:

Departamento de Fisioterapia, Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional da FMUSP. Revista de Terapia Ocupacional da USP. Rua Cipotânea, 51. Cidade Universitária “Armando de Salles de Oliveira” . 05508-900 - São Paulo, SP.

2. Página de rosto: Deve constar: título do trabalho elaborado de forma breve e específica, para auxiliar os serviços de recuperação da

informação; . versão do título para o inglês; nome completo dos autores e respectivos títulos profissionais e acadêmicos; identificação das

instituições as quais os autores estão vinculados;

apresentação do trabalho em eventos, indicando nome do evento, local e data de realização;

referência à

referência ao trabalho como parte integrante de dissertação, tese ou projeto;

endereço para correspondência.

3. Resumo/abstract: os trabalhos devem apresentar dois resumos, um em português e outro em inglês, com no máximo 1.400 caracteres

(incluindo descritores/key words), deve explicitar o objeto, objetivos, procedimentos metodológicos, abordagem teórica e resultados do estudo e/ou principais conclusões. Quanto à redação e estilo, usar o verbo na voz ativa na 3ª pessoa do singular, evitar locuções como “o autor descreve”, “neste artigo”. Não adjetivar e não usar parágrafos. É importante que o resumo seja redigido de forma clara e objetiva, o que certamente

contribuirá no interesse do leitor pelo texto.

4. Descritores/Keywords: palavras ou expressões utilizadas para fins de indexação e que representam o conteúdo dos trabalhos. Para o uso de

descritores em português, consultar “Descritores em Ciências da Saúde” (DECS) parte da metodologia LILACS-Literatura Latino Americana e

do Caribe em da Saúde. (http://decs.bvs.br/ )

5. Estrutura do texto: O caráter interdisciplinar da publicação permitiu estabelecer um formato mais flexível quanto à estrutura dos trabalhos,

sem comprometer o conteúdo. A publicação sugere que os trabalhos de investigação científica devem ser organizados de mediante a estrutura

formal:

Introdução: deve contemplar a apresentação e/ou justificativa do trabalho, seu objetivo, sua relação com outras publicações, esclarecendo o estado atual em que se encontra o objeto investigado e/ou apresentando a base teórica adotada; Procedimentos Metodológicos: que inclui a

descrição dos procedimentos empreendidos para o desenvolvimento do trabalho, a caracterização do contexto da pesquisa e/ou da população estudada, o período de realização, o referencial teórico e/ou as técnicas escolhidas para a análise de dados e/ou discussão do tema proposto. Resultados: exposição objetiva do que foi observado em relação aos objetivos propostos, pode ser apoiado em gráficos e tabelas. Discussão:

apresentação dos dados obtidos e resultados alcançados, estabelecendo compatibilidade ou não com resultados anteriores de outros autores e/ou dialogando com o referencial teórico adotado. Conclusões: são as considerações fundamentadas nos Resultados e Discussão. Não é necessário que os textos sejam subdivididos em seções, mas é importante que sua estruturação contemple esses aspectos. Os artigos podem ser escritos em português, inglês ou espanhol. Os textos em português e espanhol devem ter título, resumo e palavras-chave

na língua original e em inglês. Os em inglês devem ter título, resumo e palavras-chave na língua original e em português. Não serão aceitas notas

de pé-de-página

6. Referências: Organizadas em ordem alfabética pelo último sobrenome do primeiro autor; todos os autores dos trabalhos devem ser citados;

os títulos dos periódicos devem ser abreviados pela “List of Jounals Indexed in Index Medicus”. Para elaboração das referências observar as recomendações da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) NB 6023:

Livros e monografias:

PlAGET, J. Para onde vai a educação? 7. ed. Rio de Janeiro: J. Olimpio, 1980.

KOOGAN, A.; HOUAISS, A. (Ed.). Enciclopédia e dicionário digital 98. Direção geral de André Koogan Breikman. São Paulo: Delta: Estadão,

1998. CD-Rom.

ALVES, C. Navio negreiro. [S.I.]: Virtual Books, 2000. Disponível em: <http://www.terra.com.br/virtualbooks/freebook/port/Lport2/ navionegreiro.htm>. Acesso em: 10 jan. 2002.

Capítulo de livro:

KARASOV, W. H.; DIAMOND, J. M. Adaptation of nutrition transport. In: JOHNSON, L. R. Phyisiology of gastrointestinal tract. 2. ed. New York: Raven Press, 1987. p. 189-97. SÃO PAULO (Estado). Secretaria do meio ambiente. Tratados e organizações ambientais em matéria de meio ambiente. In: SÃO PAULO (Estado). Entendendo o meio ambiente. São Paulo, 1999. v.1 Disponível em: <http://www.bdt.org.br/sma/entendendo/atual.htm>. Acesso em: 8 mar. 1999. MORFOLOGIA dos artrópodes. In: ENCICLOPÉDIA multimídia dos seres vivos. [S.I.]: Planeta DeAgostini, C1998. CD-Rom 9.

Artigos de periódicos:

MÂNGIA, E. F. Contribuições da abordagem canadense “Prática de Terapia Ocupacional Centrada no Cliente” e dos autores da desinstitucionalização italiana para a terapia ocupacional em saúde mental. Rev. Ter. Ocup. Univ. São Paulo, v. 13/3, p. 127-34, set./dez. 2002.

VIEIRA, C. L.; LOPES, M. A queda do cometa. Neo Interativa, Rio de Janeiro, n.2, inverno 1994. 1 CD-Rom. SILVA, M. M. L. Crimes da era digital. Net, Rio de Janeiro, nov. 1998. Seção Ponto de Vista. Disponível em: <http://www.brazilnet.com.br/ contexts/brasilrevistas.htm?. Acesso em: 28 nov. 1998.

Teses:

DEL SANT, R. Propedêutica das síndromes catatônicas agudas. 1989. 121 f. Dissertação (Mestrado Medicina) - Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1989.

Eventos - considerado no todo:

Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Neurologia, 1974.

Recife: UFPe, 1996. Disponível em: <http://

CONGRESSO BRASILEIRO DE NEUROLOGIA, 6., 1984, Rio de Janeiro. Resumos

CONGRESSO DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA DA UFPe, 4., 1996, Recife. Anais eletrônicos www.propesq.ufpe.br/anais/anais.htm>. Acesso em: 21 jan. 1997.

Eventos - considerado em parte:

SPALDING, E. Bibliografia da revolução federalista. In: CONGRESSO DA HISTÓRIA DA REVOLUÇÃO DE 1984, 1., Curitiba,

1944. Anais

SABROZA, P. C. Globalização e saúde: impacto nos perfis epidemiológicos das populações. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE EPIDEMIOLOG IA,

Rio de Janeiro: ABRASCO, 1998. Mesa-redonda. Disponível em: <http://www.abrasco.com.br/

4., 1998, Rio de Janeiro. Anais eletrônicos epirio98/>. Acesso em: 17 jan. 1999.

7. Indicação da fonte das citações: As formas de apresentação das fontes consultadas variam em decorrência da inserção no texto, observar

os exemplos:

citação textual, parte do texto é transcrito na íntegra a luta, a impossibilidade de coexistência com o outro (LACAN, 1985, p. 50-1).

citação livre, reproduz o conteúdo do documento original Para Velho (1981, p. 27) o indivíduo

citação da fonte secundária (citação de citação)

O homem não se define pelo que é mas pelo que deseja ser (ORTEGA Y GASSET, 1963 apud SALVADOR, 1977, p. 160).

ou no final do artigo.

Curitiba: Governo do Estado do Paraná, 1944. p. 295-300.

citação referente a trabalhos de três ou mais autores consultadas periodicamente (SOUZA et al., 1984, p. 7).

citações diretas no texto (mais de 3 linhas) - citações diretas, no texto, com mais de três linhas, devem ser destacadas com recuo de 4 cm da margem esquerda, com letra menor que a do texto utilizado e sem aspas.

8.

Notas de rodapé: Adotadas para a primeira página do artigo com informações que identifiquem os autores: vínculo profissional, títulos

profissionais e acadêmicos dos autores, consignação de bolsas e endereço para correspondência e e-mail.

9. Ilustrações e legendas

Tabelas: devem ser digitadas e apresentadas em folha à parte, numeradas consecutivamente na ordem em que forem citadas no texto. O título deve constar na parte superior da tabela. Evitar o uso de linhas verticais e inclinadas. O limite de tabelas é de 5, acima deste número as despesas correm por conta do autor;

Figuras: correspondem as ilustrações, fotografias, desenhos, gráficos etc., adotar o mesmo procedimento das tabelas quanto a numeração e títulos. Usar a abreviação figura para todas as ilustrações acima, excetuando-se para as tabelas e gráficos. 10. Agradecimentos: Quando pertinentes, dirigidos à pessoas ou instituições que contribuíram para a elaboração do trabalho.

Rev. Ter. Ocup. Univ. São Paulo, v. 18, n. 2, p. 47-53, maio/ago., 2007.

Os processos sociais de constituição das habilidades*

The social processes of the constitution of abilities

Kátia Maria Penido Bueno 1

BUENO, K. M. P. Os processos sociais de constituição das habilidades. Rev. Ter. Ocup. Univ. São Paulo, v. 18, n. 2, p. 47-53, maio/ago., 2007.

RESUMO: Este artigo se baseia na tese de doutorado que aborda os processos sociais envolvidos na constituição das habilidades. Tem por objetivo central apresentar para o debate algumas referências teóricas que permitem compreender a sociogênese das habilidades, das quais se destacam os conceitos de Habitus, estrutura de patrimônios (BOURDIEU, 1998), as modalidades de socialização (LAHIRE, 2002) e configuração social (ELIAS, 1994). A metodologia de pesquisa utilizada foi o estudo de caso e os recursos para coleta de dados foram: a entrevista semi-diretiva com cada sujeito, seus familiares (incluindo os avós), professores, treinadores e amigos; a observação de perfil etnográfico em cada campo de habilidade e suas instâncias de socialização e a análise de registros e documentos relativos à atividade. Os dados foram analisados tomando-se como referência sete parâmetros, a saber: modelos socializadores/educativos familiares, tipos de mobilização, relações intersubjetivas, relações intergeracionais, ações pertinentes do próprio sujeito, grupos de referências e influência das condições sociais e o aprendizado formal. A síntese de um dos casos, relativo ao campo do futebol, é apresentada como exemplo de análise. Evidenciou-se a natureza social e complexa da constituição das habilidades e apontou-se algumas implicações desse tema para o campo da Terapia Ocupacional.

DESCRITORES: Aptidão. Socialização. Terapia ocupacional/tendências.

* Artigo baseado na tese de Doutorado, realizada com apoio do CNPq, intitulada: Os processos sociais de constituição das habilidades:

trama de ações e relações. Belo Horizonte, 2005.

1 Professora Doutora do Departamento de Terapia Ocupacional da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais, Doutora em Educação pela FAE/UFMG. Terapeuta Ocupacional do Serviço de Urgência (SUR) do Centro Psicopedagógico da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais/FHEMIG. Endereço para correspondência: Rua Cardoso 81, apt. 203. Belo Horizonte, MG. 30260 170. e-mail: katia.bueno@terra.com.br

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BUENO, K. M. P. Os processos sociais de constituição das habilidades. Rev. Ter. Ocup. Univ. São Paulo, v. 18 n. 2, p. 47-53, maio./ago., 2007.

INTRODUÇÃO

A presento neste artigo parte da pesquisa de

doutorado que teve por objeto de estudo os

processos sociais envolvidos na constituição

das habilidades – especificamente sua sociogênese – e aborda as ações socializadoras que as sustentam, como se tecem as condições sociais, as relações e interações pelas quais as habilidades tornam-se significativas para o sujeito e são constituídas. Tenho como ponto de partida a compreensão de que as habilidades são socialmente constituídas – ou seja, que elas se constituem e emergem a partir de processos de socialização. Com esse ponto de partida, minha pesquisa se opõe às explicações essencialistas naturalizadoras que buscam explicar o domínio de uma habilidade a partir da concepção de dons e talentos naturais, frutos de predestinações biológicas, genéticas ou mesmo religiosas; explicações estas que estão fortemente arraigadas no senso comum.

Para que pudesse então me opor às explicações

essencialistas, de dons e talentos naturais, tomei por objeto de pesquisa os quadros socializadores buscando dar visibilidade aos processos sociais – explícitos e implícitos

– postos em operação e mostrar seus efeitos constituidores

sobre o domínio pessoal de uma habilidade específica (BUENO, 2003, 2005). Tradicionalmente, a Terapia Ocupacional, em muitas de suas áreas, dirige seus recursos avaliativos para diversos campos de habilidade, dominados ou não pelo sujeito. Buscamos identificar suas limitações, defasagens, comprometimentos, níveis e qualidades de realização e desempenho e, do mesmo modo, freqüentemente, orientamos nossa prática e recursos de intervenção para favorecermos a melhora dos desempenhos e a ampliação dos campos de habilidade a serem exercidos. Sendo assim, julgo relevante refletirmos, pesquisarmos e discutirmos sobre os fundamentos e as formas de compreensão dos processos de constituição das habilidades. Este artigo tem

o propósito de contribuir para este debate.

Apresentação da pesquisa

Como terapeuta ocupacional meu interesse de pesquisa se voltou para campos de habilidades que envolvessem o aspecto da execução e da ação prática, ou seja, o domínio de um saber-fazer e, ao mesmo tempo, para campos nos quais a concepção essencialista de dom se encontrasse fortemente arraigada no senso comum. Sendo assim, optei por realizar minha pesquisa nos campos

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artístico e esportivo. Mas, ainda dentro desses campos,

era necessário definir quais domínios específicos seriam pesquisados. Orientada então pelo objetivo de fazer variar

a tonalidade social de cada habilidade e buscando

encontrar uma variação dos meios sociais de pertencimento de seus praticantes, optei, dentro do campo esportivo, por pesquisar o hipismo e o futebol e, dentro do campo artístico, pelo domínio da música, analisando um instrumento de perfil erudito – o piano, e outro de perfil popular – o violão. Os sujeitos a serem pesquisados foram indicados pelos especialistas de cada campo seguindo os seguintes critérios: aqueles que fossem considerados talentosos, que apresentassem desempenho destacado e a perspectiva de um futuro promissor dentro do campo. Deveriam, também, ter a faixa etária compreendida entre os 13 e 18 anos, pois, nesta faixa, esperava-se encontrar sujeitos que apresentariam um tempo de dedicação e aprendizado, estando, porém, ainda em processo de formação e onde a presença da família seria significativa. Realizei então quatro estudos de caso, um para cada campo de habilidade em questão. Buscando construir uma rede e pluralidade de informações que me permitissem construir a compreensão dos processos sociais envolvidos, explicitando assim, como cada uma das habilidades se configurava, utilizei instrumentos metodológicos variados para a coleta dos dados de pesquisa, a saber: a entrevista semi-diretiva, onde realizei o que pode ser denominado de um “cacho” de entrevistas visando construir a rede ou a estrutura das relações na qual cada sujeito estava inserido. Desta forma realizei entrevistas com o próprio sujeito, seus pais, irmãos, avós maternos e paternos, professores ou treinadores e, pelo menos, um amigo. Em média foram analisadas dezesseis horas de entrevista em cada um dos casos; a observação

de perfil etnográfico, tendo permanecido, em cada campo, por um período médio de 6 meses, acompanhei aulas, treinamentos, jogos, provas, concursos, audições e apresentações, festas e, quando possível, atividades sociais da família; análise de registros e documentos, onde

coletei materiais disponibilizados pelas famílias relativos

às histórias do sujeito com sua habilidade. Trata-se de um

conjunto de informações importante para a compreensão da história da habilidade, pois, além deles serem suportes de memória dos processos de constituição, são registros que podem explicitar sentidos e significados relativos à habilidade. Sendo assim, analisei fotos, filmes, troféus, medalhas, folhetos, reportagens, programas etc (BUENO,

2005).

BUENO, K. M. P. Os processos sociais de constituição das habilidades. Rev. Ter. Ocup. Univ. São Paulo , v. 18, n. 2, p. 4 7-53, maio/ago., 2007.

A sociogênese das habilidades

Dois grandes grupos de referências teóricas serviram de base para minha pesquisa. O primeiro é aquele que põe ênfase sobre a análise das influências das condições sociais e objetivas de existência sobre os processos de constituição das habilidades e, destacam-se os estudos realizados por Bourdieu (1983, 1998) e seus conceitos de “Habitus” e “estrutura de patrimônios”. O conceito de habitus, desenvolvido pelo autor, é compreendido como um elemento mediador entre as estruturas sociais e as práticas do indivíduo ou grupo ao qual pertence. Formulou-o na tentativa de compreender como as estruturas sociais tendem a se reproduzir, criando disposições e competências, resultando em práticas a elas adaptadas, participando também da gênese de certos esquemas de pensamento, percepção e ação. Assim, às diferentes condições sociais de pertencimento, corresponderiam certas disposições e estilos de vida que se exprimem por gostos, preferências, propensão a certas práticas, modos de ser e agir, valores, princípios éticos e estéticos e modos de pensar. Desse modo, pode-se pensar que o habitus de determinada classe social de pertencimento pode ser um elemento constitutivo do processo de constituição de uma habilidade ao engendrar gostos, formas de percepção e apreciação, códigos de compreensão, estilos de vida próximos ou correspondentes àqueles demandados em cada um dos campos de habilidade. Ou seja, o exercício de uma habilidade implica

em preferências, trajetórias, valores, vocabulários, esquemas de pensamento e ação que podem encontrar disposições facilitadoras e condições férteis para o aprendizado, constituídas a partir do habitus. Pode-se citar como exemplo o hábito familiar de se ouvir música (certos tipos de música) ou a participação em certas práticas esportivas, que indicam referências a gostos e estilos de vida que vão criando disposições. As próprias habilidades

e seus aprendizados são também associados às classes

sociais, pois algumas levam intensamente a marca social. As duas práticas esportivas analisadas nessa pesquisa –

o hipismo e o futebol – podem ser tomadas como exemplo,

pois a cada uma delas correspondem valores compartilhados e interiorizados a partir da estrutura social de pertencimento e seus modos e estilos de vida. Por um lado, temos a valorização da distinção e da conquista pessoal, a disposição ao comando, o orgulho e a auto-

confiança, o sentido estético, a contenção e o auto-controle. Por outro, a humildade, a perseverança, o espírito de luta,

o sentido de hierarquia e de coletivo, a disciplina e o controle rigoroso e ascético do corpo.

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Já a noção de “estrutura de patrimônios” é compreendida como o conjunto de riquezas sociais possuídas por um grupo ou indivíduo, em sua composição interna, ou seja, a combinação dos diferentes tipos de capital econômico, social e cultural. Pode-se então, também

pensar nas influências sobre a constituição das habilidades da posse e do volume destes capitais. O desenvolvimento

de

uma habilidade pode implicar diferentes níveis de gastos

e

investimentos econômicos que, de algum modo,

distinguem socialmente as possibilidades de seu exercício. Do mesmo modo uma rede durável de relações e de pertencimento podem trazer benefícios contribuindo para facilitar acessos, informações, convites, orientações quanto à escolha de professores e instituições, contribuindo para uma trajetória adequada e sem atribulações dentro do campo de habilidade. E, por fim, a posse do capital cultural, transmitido preferencialmente de maneira sutil, oculta, por familiarizações insensíveis no âmbito familiar, pode ser tomado como uma forma de riqueza, criando disposições e distinguindo indivíduos. Como diz Bourdieu (1983):

a música não são os discos e a eletrola dos vinte anos, graças aos quais descobrimos Bach e Vivaldi, mas o piano da família, ouvido desde a infância e praticado até a adolescência; a pintura não são os museus, de repente descobertos no prolongamento de um aprendizado escolar, mas o cenário de um universo familiar (p. 97).

Mas o olhar lançado sobre as estruturas sociais, para compreender o processo de constituição das habilidades,

é insuficiente, pois pode levar ao risco da desconsideração dos sujeitos envolvidos. Sendo assim, no segundo grupo teórico tomado como referência para minha pesquisa o olhar se volta para os sujeitos dos processos de transmissão das disposições e construção das habilidades

e suas ações efetivas. Trata-se da consideração da

dimensão relacional e dos aspectos advindos das interdependências pessoais, das relações e interações envolvidas. Neste contexto o papel da constelação familiar

é posto em relevo e o conceito de socialização, seus

processos, suas instâncias e modalidades, tornam-se centrais e o principal teórico de referência é Lahire (1999,

2002).

A primeira modalidade de socialização destacada por

Lahire (2002) é a que se dá por aprendizagem prática e se refere aos efeitos socializadores da prática direta, pois, na ação prática recorrente se interioriza todo um quadro de ação. Pode se dar de modo informal, por exemplo, no grupo

de pares, ou no interior da família quando somos iniciados

em uma prática por algum de seus membros, que nos trazem

e nos apresentam objetos e instrumentos, mostram-nos

seus modos de uso, as maneiras de interagirmos com eles,

BUENO, K. M. P. Os processos sociais de constituição das habilidades. Rev. Ter. Ocup. Univ. São Paulo, v. 18 n. 2, p. 47-53, maio./ago., 2007.

usam vocabulários, gestos, atitudes condizentes a eles, explicam e corrigem nossas ações. As oportunidades de exercício prático possibilitam a aquisição de disposições e dos saberes e fazeres envolvidos em uma habilidade. Também se incluem nesta modalidade de socialização os contextos formais de aprendizagem, enquadrados por especialistas. Outra modalidade de socialização é aquela chamada de socialização tácita e que é resultante de efeitos mais difusos, situações tácitas, injunções implícitas e processos menos visíveis. Pode se dar por uma impregnação indireta, por exemplo, por meio de contextos e climas familiares. Nesta modalidade também se incluem os processos intersubjetivos de identificação que exercem grande força socializadora, pois favorecem a vontade do “fazer como”, muitas vezes expressa na expressão coloquial “ele puxou isso de mim”, própria do discurso intergeracional, e que significa que o sujeito traz para si e torna seu, incorporando, algo que inicialmente era do outro. E por fim, Lahire (2002) destaca a socialização por inculcação ideológico-simbólica. Trata-se dos efeitos socializadores advindos dos contextos culturais, sociais e históricos a fornecer modelos de ação, incitação ao exercício e referências de comportamento, difundidos por toda sorte de instituição (escola, meios de divulgação como televisão, rádio, publicidade etc). Pode-se pensar nos efeitos socializadores advindos do contexto cultural do exercício de uma prática, por exemplo, o lugar do futebol na cultura brasileira e a forma intensiva de sua divulgação, ou no convite implícito a sua prática pela existência dos campos ou quadras nas proximidades da vizinhança de boa parte dos bairros brasileiros, tornando esse espaço, muitas vezes, lugar de encontro e convivência e possibilidade de um lazer comunitário. Além destes conceitos referenciais, já apresentados, Lahire (1999) ressalta a importância de se definir parâmetros ou eixos condutores para análise, quando se utiliza o estudo de caso, tendo em vista o grande volume de dados com os quais, geralmente, neste tipo de recurso, o pesquisador trabalha. Do mesmo modo, a definição de uma mesma orientação ou estrutura interpretativa é que permite a comunicação entre os casos. Seguindo então esta recomendação, defini sete eixos condutores para análise, que apresento a seguir. Todos os parâmetros são analisados tendo como referência suas implicações e efeitos sobre o processo de constituição das habilidades. Modelos socalizadores/educativos familiares: a habilidade pode ser nutrida, suportada, favorecida e estar em íntima relação com os modelos socializadores e os

princípios que os orientam, ou mesmo sua procura pode estar inserida em um projeto ou propósito socializador. Por outro lado, um conjunto de disposições, afinadas e relacionadas ao campo de habilidade em questão, pode ser constituído e incorporado por meio dos processos socializadores, por exemplo, os valores do esforço e da disciplina. Desse modo, são analisadas aqui as variadas formas de presença educativa dos pais, buscando compreender, nas inter-relações, alguns dos processos e lógicas socializadoras presentes. Consideram-se então os estilos de interação, as formas de gestão das relações, o conjunto de valores professados, a dinâmica normativa, os tipos de poder e exercício da autoridade, o enquadramento das condutas e regulação dos comportamentos e o horizonte de expectativas e projetos.

Tipos de mobilização: são as atitudes e intervenções práticas voltadas sistemática e intencionalmente para fim da constituição da habilidade. Consideram-se, então, as formas de participação familiares diretas e indiretas, as ações e disponibilidades que envolvem a família. Busca- se ressaltar como a habilidade se inscreve no funcionamento, organização e cotidiano familiar considerando os aspectos de gerência do tempo, do orçamento, do transporte e deslocamento, a escolha das instituições, o estímulo e vigilância dos estudos, o trabalho de persuasão e o controle da sociabilidade e do lazer. Relações intersubjetivas: trata-se das relações afetivas envolvidas, dos subterrâneos das relações, dos não-ditos, dos aspectos inconscientes que jogam seus efeitos. A habilidade em questão, pode expressar dinâmicas inconscientes, exercendo, por exemplo, uma missão valorizante para o sujeito e sua família, ou representando um prolongamento narcísico gratificante para os pais. Pode adquirir o sentido reparador de trajetórias interrompidas em gerações anteriores, ou indicar processos projetivos e de identificação. Outro aspecto também relevante a ser analisado é a relação com a fratria e o lugar da habilidade no jogo das relações fraternas.

Relações intergeracionais: analisa-se aqui como a habilidade participa do jogo da herança familiar e como ela se insere no quadro das representações, trajetórias geracionais, memórias, mitos e tradições familiares. A habilidade pode evidenciar a intenção de uma perpetuação de atributos e qualidades familiares, indicando um sentido de filiação e pertencimento, muitas vezes expresso pela metáfora: “isso está no sangue, vem de família”.

Ações pertinentes do próprio sujeito: trata-se da análise do papel desempenhado pelo próprio sujeito, que é o condutor central de todo o processo de aquisição e exercício da habilidade. Consideram-se as formas como se

50

BUENO, K. M. P. Os processos sociais de constituição das habilidades. Rev. Ter. Ocup. Univ. São Paulo , v. 18, n. 2, p. 4 7-53, maio/ago., 2007.

apropriam das habilidades, as ações e mobilizações próprias, como se manifestam a autodeterminação, o auto- investimento e os sentidos atribuídos; Grupos de referência e influência das condições sociais: esse parâmetro de análise permite operar uma contextualização mais ampla de cada caso, analisando as condições sociais que os envolvem, a estrutura de patrimônios presente e se a habilidade se ajusta às condições de classe e estilos de vida correspondentes. Busca-se compreender como as condições sociais orientam o exercício da habilidade e os projetos futuros relativos a ela. Neste eixo também se analisam as possibilidades socializadoras advindas de outros grupos de convivência para além do familiar, como os grupos religiosos, de amizade e vizinhança. O aprendizado formal: por fim, é necessário considerar o espaço institucional formal como uma outra instância de socialização analisando as afinidades e dissonâncias entre as socializações familiares e do espaço institucional. Há também dinâmicas específicas de interação com colegas, funcionários e professores, sendo este último o mediador principal dos processos de aprendizagem. Ressalta-se ainda que cada campo de habilidade organiza de modo específico os espaços de ação, instâncias e modos de consagração, reconhecimento e distinção e suas influências precisam também ser analisadas.

Os traços de análise aqui apresentados são pensados em uma dinâmica configuracional, fundada no conceito de “configuração social” desenvolvido por Elias (1994, 1995). Isso significa, em meu caso específico, compreender que as habilidades se constroem a partir da rede de interações e interdependências na qual o sujeito está inserido. A perspectiva configuracional difere dos modelos de compreensão que procuram isolar fatores explicativos ou causas determinantes e toma por base a noção de interdependência, a prevalência das relações e dos efeitos combinatórios e/ou compensatórios dos traços, o modo como eles se ligam, em suas relações e efeitos recíprocos. Assim, os aspectos advindos tanto da estrutura social quanto dos processos de interação e socialização, ou presentes em cada eixo de análise, são considerados como traços em relação, que em suas articulações compõem uma configuração própria. É trama que se configura, a tessitura que se dá entre as relações, ações e contextos que tornam possíveis a compreensão da constituição de cada habilidade.

Perfil de configuração

Selecionei para apresentar neste artigo uma síntese

51

relativa ao caso do futebol para que o leitor possa ter uma exemplificação das análises realizadas. A extensão da análise de cada caso e a complexidade de cada um deles, impedem, neste espaço, uma apresentação e uma discussão mais detalhada. Robson, 14 anos, artilheiro de todos os campeonatos dos quais participou. Família de origem bastante modesta, com condições sócio-econômicas próximas da pobreza. Família composta pelo pai, mãe, Robson e um irmão mais novo pequeno (3 anos). Esse caso é caracterizado pela

forte e intensa mobilização paterna que canaliza suas ações

e energia para o propósito de formação da habilidade do

filho e para conseguir torná-lo profissional. Tal propósito

é um sonho acalentado antes mesmo do nascimento do

filho. Em uma das entrevistas o pai me mostra uma foto de Robson, provavelmente antes dos dois anos de idade, vestido com uma grande camisa de seu clube e segurando uma bola, ajudado por alguém, que, significativamente, tampa todo o seu rosto. Em seguida afirma orgulhoso: Esse sempre gostou de bola, esse era danado! É importante também relatar que, em sua adolescência, o pai teve sua própria trajetória com o futebol e o desejo de tornar-se profissional interrompidos a partir da proibição da mãe e da necessidade de inserir-se precocemente no universo

do trabalho. Em relação à atividade do filho com a bola, o pai envolve-se em suas brincadeiras, acompanha-o em suas atividades, gere, planifica e organiza o cotidiano, aconselha, orienta, direciona gastos, assume sacrifícios, fornece reconhecimentos e apóia moral e afetivamente o filho, ajudando-o a manter o ânimo e o investimento. Ele

se fará presente em todas as fases da atividade de Robson.

Há ainda um forte processo identificatório que leva Robson

a tornar-se um herdeiro ativo do desejo do pai,

incorporando-o como seu. Nos momentos de entrevista e contatos com a família, o pai sempre utilizava o pronome pessoal nós e os verbos na primeira pessoa do plural, para referir-se às atividades do filho com o futebol, mesmo quando relatava situações onde não estivera presente. A perspectiva da ascensão econômica está presente como aspiração, mas essa é uma característica mais geral da totalidade da parcela jovem que tem procurado a carreira

de jogador de futebol nos últimos anos. A vida da família

está marcada pelo sentido de luta tentando vencer adversidades, revelado pelo uso repetitivo das expressões “a gente corre atrás”, “é preciso correr atrás”. Assumem uma série de sacrifícios e esse sentido de luta vai envolver toda a atividade do filho. Este é também o caso em que se apresentam e se conjugam todas as modalidades socializadoras: a socialização por aprendizagem prática informal (exercida pelo pai e também pelas oportunidades

BUENO, K. M. P. Os processos sociais de constituição das habilidades. Rev. Ter. Ocup. Univ. São Paulo, v. 18 n. 2, p. 47-53, maio./ago., 2007.

do ambiente comunitário) e formal (a partir da vinculação

a noção das habilidades como predeterminadas e inscritas

precoce de Robson ao clube); a socialização tácita de onde

em uma natureza inata.

se

destacam os processos identificatórios e a socialização

Cabe destacar ainda que podemos admirar e

por inculcação ideológico-simbólica. Sua socialização é maciça e tem o caráter mais homogeneizador de todos os casos, onde todas as ações convergem para o futebol. Sua história revela também e nitidamente uma correspondência entre as disposições decorrentes de suas condições de existência e aquelas exigidas e professadas pelo campo em questão, por exemplo, o sentido do coletivo. Os valores norteadores dos processos socializadores familiares e do espaço institucional formal são semelhantes e próximos, como por exemplo: as relações assimétricas, o respeito unilateral, o exercício diferenciado de poder e autoridade e os valores da obediência, esforço, submissão, humildade e disciplina. Toda esta convergência faz com que a própria identidade de Robson esteja impregnada por seu processo formador e contribui para que ele consiga

contemplar uma habilidade não só pelo que ela revela da ação individual, mas como obra humana coletiva. Elas fazem circular histórias, memórias, significações, afetos e a ação de muitos. O sujeito, condutor central do processo, dá vida e tonalidade próprias à habilidade, exercendo-a de modo singular, mas a forma individual que assume relaciona-se às contingências de cada biografia e ao conjunto das interações e contextos nos quais o sujeito vive. Por fim, é importante extrair algumas implicações e reflexões de minha pesquisa para a Terapia Ocupacional. Ao ter tido a oportunidade de trabalhar sobre os dados das histórias relativas às habilidades de cada sujeito, relatados pelos membros de cada família, e acompanhar seus processos de constituição, pude ter a dimensão da

persistir em um ambiente altamente seletivo e competitivo.

riqueza que esses processos comportam. Pude

O

pertencimento ao clube que formaliza seu aprendizado

compreender com maior clareza que a posse e o exercício

implica em um rigoroso regime corporal, moral e de controle

de um conjunto de habilidades faz parte da condição

da sociabilidade, onde se estabelece, progressivamente, uma socialização cada vez mais homogênea, fazendo com que o próprio sentido de si, passe a estar impregnado pela pertença ao clube e pelo exercício da atividade (BUENO,

humana, evidenciando a riqueza da cultura na qual cada um de nós está imerso. As habilidades estão vinculadas a significados, valores, memórias, dizem de nossas histórias e de nossos processos de constituição como sujeitos,

 

2005).

trazendo em si o sentido de realização e de apropriação de

CONCLUSÕES

modos de ação construídos culturalmente. Sendo assim, a possibilidade do pleno exercício daquelas que nos são

A partir dos estudos realizados, pôde-se concluir que os processos de constituição das habilidades estão associados e sofrem influência das condições e trajetórias sociais dos sujeitos e de suas famílias, das intenções e propósitos socializadores; são sustentados por ações mobilizadoras da família; relacionam-se a aspectos intersubjetivos; vinculam-se a histórias e memórias familiares e, por fim, são dependentes de múltiplas modalidades de socialização. Cada habilidade traz a marca e a história de suas relações e da estrutura da rede humana em que se desenvolveu. Elas são a configuração resultante da combinação singular dos traços encontrados, de sua tessitura. As habilidades estão enraizadas em suas histórias, nos processos socializadores, nos valores e afetos que as suportam, nas condições de existência de cada sujeito. Mostrar a dimensão construída, relacional, interdependente e contextual das disposições, decorrentes de múltiplas esferas e agentes socializadores permite também afastar as explicações essencialistas e questionar

significativas, vitais, necessárias à nossa condição de sujeitos autônomos, faz parte da condição de saúde humana. Tal constatação reforça e fundamenta a compreensão de que conhecermos o campo de habilidades de um sujeito, suas riquezas e recursos, seus processos de constituição e, ao mesmo tempo, as implicações dos variados tipos de adoecimento sobre seus exercícios, como também a procura por formas de recuperação e desenvolvimento das habilidades, são campos privilegiados de atuação da Terapia Ocupacional (BUENO, 2003, 2005). Considero uma de nossas especificidades profissionais a compreensão e explicitação dos processos de constituição, desenvolvimento e recuperação, embutidos nas ações humanas, o que nos permite ter um olhar que desnaturaliza nossas aquisições. Reafirmo com isso, a importância da história ocupacional como um instrumento privilegiado de acesso à compreensão desses processos. Todas as entrevistas que realizei se pautaram neste entendimento e os eixos de análise estabelecidos funcionaram como parâmetros interpretativos (BUENO 2003, 2005).

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BUENO, K. M. P. Os processos sociais de constituição das habilidades. Rev. Ter. Ocup. Univ. São Paulo , v. 18, n. 2, p. 4 7-53, maio/ago., 2007.

O último aspecto que gostaria de destacar a partir de minha pesquisa é que a complexidade explicitada, presente nos processos de constituição das habilidades, lança um alerta para que nossas práticas que enfocam as Atividades

de vida diária (AVDs) e as Atividades de vida prática (AVPs) não percam de vista essa complexidade, a riqueza e os significados presentes em cada aquisição, mesmo nas mais simples (BUENO, 2003, 2005).

BUENO, K. M. P. The social processes of the constitution of abilities. Rev. Ter. Ocup. Univ. São Paulo, v. 18, n. 2, p. 47-53, maio/ago., 2007.

ABSTRACT: This article is based on the PhD thesis dissertation entitled The Social Processes of the Constitution of Abilities: a Network of Actions and Relations. Its main objective is to discuss some theoretical references that allow us to understand the sociogenesis of abilities, which include the concepts of Habitus, the structure of heritages (BOURDIEU, 1998), the forms of socialization (LAHIRE, 2002) and social configuration (ELIAS, 1994). The methodology consisted of a case study and the data was collected through a semi-directive interview with each subject, their family members (grandparents included), teachers, coaches and friends; the observation of the ethnographic profile of each ability field and their spaces of socialization; and the analysis of the records and documents related to the activity. The data were analyzed within seven parameters: family models of socialization/upbringing, types of mobilization, intersubjective relations, intergenerational relations, actions directly pertinent to the subject, reference groups and the influence of the social conditions, and the formal learning. The synthesis of one of the cases, related to a soccer field, is presented as an example for analysis. The social and complex nature of the constitution of abilities became evident and some implications of this theme for the field of Occupational Therapy were addressed.

KEY WORDS: Aptitude. Socialization. Occupational therapy/trends.

REFERÊNCIAS

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Ophicina de Arte & Prosa, 2003. 152 p.

BUENO, K. M. P. Os processos sociais de constituição das habilidades: trama de ações e relações. 2005. 398p. Tese

Recebido para publicação: Jan./2007 Aceito para publicação: Fev./2007

53

(doutorado em educação) - Faculdade de Educação – Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2005.

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LAHIRE, B. Portraits sociologiques: disposition et variations individuelles. Paris: Nathan, 2002.

Rev. Ter. Ocup. Univ. São Paulo, v. 18, n. 2, p. 54-62, maio/ago., 2007.

Redes sociais e construção de projetos terapêuticos: um estudo em serviço substitutivo em saúde mental

Social networks and the construction of therapeutic projects: a study in a mental health substitutive service

Elisabete Ferreira Mângia 1 , Melissa Muramoto 2

MÂNGIA, E. F.; MURAMOTO, M. Redes sociais e construção de projetos terapêuticos: um estudo em

serviço substitutivo em saúde mental. Rev. Ter. Ocup. Univ. São Paulo, v. 18, n. 2, p. 54-62, maio/ago.,

2007.

RESUMO: Estudos demonstram que pessoas com transtornos mentais severos que dispõem de rede social apresentam maior probabilidade de êxitos positivos em breves ou curtos períodos, nas áreas clínica, laborativa e relacional, tais resultados devem orientar a elaboração e realização das intervenções assistenciais e de reabilitação psicossocial desenvolvidas pelos serviços de saúde mental, de forma a priorizar a intervenção sobre a rede social. Nessa perspectiva, apresentamos resultados parciais da pesquisa de mestrado “A sustentabilidade da vida cotidiana. Um estudo das redes sociais de usuários de um serviço de saúde mental no município de Santo André”, iniciada em 2005, que tem como objetivo geral

caracterizar as redes sociais de pessoas com transtornos mentais severos, usuários de serviços substitutivos

de saúde mental e identificar fatores que contribuam para a formulação de estratégias de ativação de redes.

A pesquisa se inscreve no campo da investigação qualitativa e utiliza procedimentos orientados pela

etnometodologia. Foram realizadas 25 entrevistas com usuários que recebiam atenção em regime de tratamento intensivo, pesquisa bibliográfica e observação participante, com a elaboração de caderno de campo. A análise preliminar dos dados possibilitou: a caracterização das redes sociais de usuários do serviço de saúde mental e de suas necessidades, além de confirmar a importância das redes sociais no percurso assistencial. Para o modelo assistencial, a validação de estratégias de ativação de redes sociais exige mudanças nas culturas técnica e de organização de serviços, e a definição de novos desenhos assistenciais, mais complexos e que incorporem em suas estratégias o manejo dos fatores de proteção, que garantem aos sujeitos a possibilidades de viver a vida fora dos circuitos de institucionalização.

DESCRITORES: Transtornos mentais. Reabilitação. Serviços de saúde mental. Institucionalização. Terapia ocupacional.

1 Prof. Dra. do Departamento de Fisioterapia, Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional da FMUSP. 2 Terapeuta Ocupacional, aluna do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Reabilitação da FMUSP. Endereço para correspondência: Departamento de Fisioterapia, Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional da FMUSP. Rua Cipotânea, 51, Cidade Universitária, São Paulo, SP, CEP: 05360-160.

54

MÂNGIA, E. F.; MURAMOTO, M. Redes sociais e construção. Rev. Ter. Ocup. Univ. São Paulo, v. 18, n. 2, p. 54-62, maio/ago., 2007.

INTRODUÇÃO

A população que sofre de algum transtorno mental é reconhecida como uma das mais excluídas socialmente. Estudos demonstram

que tal população é quatro vezes mais propensa que a média a não ter um amigo próximo e que mais de um terço afirma não ter ninguém a quem recorrer num momento de crise (OMS, 2001; HUXLEY; THORNICROFT, 2003). As pessoas com transtornos deste tipo apresentam redes sociais menores do que a média das outras pessoas, de acordo com estudos específicos sobre redes sociais e saúde mental. No caso da esquizofrenia, os sujeitos com esse tipo de diagnóstico possuem a rede social reduzida a 1/3 do tamanho estimado da rede de indivíduos que não apresentam transtornos dessa natureza (STARACE; GRITTI, 1987). Por outro lado, diversos autores apresentam dados que demonstram que a pessoa que sofre de algum transtorno

mental severo e persistente, quando inserida em redes fortes

de troca e suporte, apresentam maior probabilidade de êxito

positivos no tratamento, em breves períodos de tempo, nas áreas clinica, laborativa e social. A associação entre rede social e êxito no tratamento em saúde mental é forte e persistente e independe de outros fatores prognósticos (LEFF; TRIEMAN, 2000; BECKER et al., 1997; BEDONI, 1995; CASTELFRANCHI, 1995, 1998, 2003, 2004; HALL; NELSON, 1996; DAYSON et al., 1998; MERCIER et al., 1998; SARACENO, 1998, 1999; HOWARD et al., 2000; BENGTOSSON-TOPS; HANSSON, 2003; TERZIAN,

TOGNONI,2003).

Ciompi (1994) afirma que, nos momentos de crise, quanto maior for o apoio social recebido pelo individuo, menor será a necessidade de contenção ou sedação. Afirma também que as expectativas depositadas pelo ambiente externo neste individuo, quando positivas, podem configurar-se no reforço mais potente para o tratamento.

A partir destes dados, autores defendem que investimentos devem ser realizados pelos serviços de atenção em saúde mental, no sentido de fortalecer e estimular

a inserção em redes de trocas e a inclusão social,

transformando tais ações em metas para o tratamento em saúde mental e para a construção de políticas publicas neste

setor (HUXLEY; THORNICROFT, 2003).

Apresentação do estudo

Nesta perspectiva, apresentamos dados parciais da pesquisa de mestrado intitulada “A sustentabilidade da vida cotidiana. Um estudo das redes sociais de usuários de um serviço de saúde mental no município de Santo

55

André.”, desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Reabilitação, da Faculdade de Medicina da USP.

A pesquisa está sendo realizada no município de Santo

André e teve inicio em 2005. Desenvolve-se no contexto da

parceria firmada entre o curso de Terapia Ocupacional da USP e a Secretaria de Saúde do município, que tem como resultado a realização da pesquisa “Estudo Colaborativo sobre a experiência da rede de serviços em saúde mental do município de Santo André – SP: caracterizando os serviços, conhecendo resultados e desenvolvendo um experimento sobre ativação de rede social”.

O objetivo geral proposto pela presente pesquisa é

caracterizar as redes sociais de pessoas com transtornos mentais severos, usuários de serviços substitutivos de

saúde mental e identificar fatores que contribuam para a formulação de estratégias de ativação de redes sociais.

A pesquisa se inscreve no campo da investigação

qualitativa, se utiliza de procedimentos orientados pela

etnometodologia e pretende apreender a complexidade do fenômeno estudado, alem de trazer contribuições para o debate contemporâneo acerca do tema.

A coleta, realizada pela lógica da triangulação de

métodos, combinou diferentes técnicas orientadas pela postura etnográfica, buscando-se assim maior abrangência na abordagem dos dados. O enfoque maior foi dado à observação participante, ao reconhecimento de itinerários terapêuticos e à interação com os sujeitos da pesquisa no contexto do processo assistencial (MINAYO et al., 2005; ALVES; SOUZA, 1999). As informações foram extraídas a partir da realização

de entrevista por pauta aplicada aos usuários, do processo de observação participante e da elaboração de caderno de campo, cujo objetivo foi o de captar informações e percepções sobre o cotidiano dos usuários no contexto da assistência prestada pelo serviço. Foram realizadas 25 entrevistas com usuários pertencentes a um grupo caracterizado por apresentar transtornos mentais severos e persistentes e receber, à época da coleta, regime de tratamento intensivo no Núcleo de Atenção Psicossocial II (NAPS II). As entrevistas aconteceram no período de fevereiro e março de 2006, no contexto desse serviço de atenção, buscando-se respeitar

o cotidiano e as dinâmicas próprias dos usuários no percurso de seu acompanhamento; foram gravadas e posteriormente transcritas.

A análise preliminar dos dados possibilitou a

caracterização das redes sociais de usuários entrevistados; a caracterização e discussão das relações vivenciadas pelos

usuários e suas necessidades, e a discussão e reflexão sobre

o papel das redes sociais no percurso assistencial.

O processo de análise de conteúdo combinou as

MÂNGIA, E. F.; MURAMOTO, M. Redes sociais e construção. Rev. Ter. Ocup. Univ. São Paulo, v. 18, n. 2, p. 54-62, maio/ago., 2007.

estratégias propostas pela análise de enunciação e pela análise temática (MINAYO, 1992). Dessa forma, a partir dos procedimentos iniciais de transcrição, leitura minuciosa e pareamento de conteúdo, de acordo com os objetivos propostos, foram estabelecidas as temáticas de análise que combinaram os objetivos da investigação aos conteúdos expressos pelos entrevistados. Para cada categoria escolhida foi elaborado um texto analítico contemplando as seguintes séries discursivas: a) os conteúdos explícitos; d) as diferentes posições dos atores; c) o texto analítico propriamente dito cotejando a comparação sobre as diferenças encontradas e o referencial teórico adotado pela pesquisa (MÂNGIA, 2006). Quanto ao material coletado por meio do diário de campo, foram seguidos os mesmos passos metodológicos e o material resultante também foi utilizado para: elaborar os tópicos de apresentação e discussão dos contextos estudados; compondo assim um campo dialógico que busca promover a interação entre a experiência do pesquisador e a

construção de seu ponto de vista e os diferentes pontos de vista dos entrevistados e sustentar as conclusões preliminares do estudo em correlação com o referencial teórico assumido (MÂNGIA, 2006).

Apresentação dos dados

Com a intenção de refletir sobre o papel das redes sociais no percurso assistencial dos usuários, ou mais precisamente, na construção de seus itinerários terapêuticos, apresentamos dados sobre o tamanho da rede pessoal do grupo entrevistado.

Quadro de caracterização dos usuários

Primeiramente, apresentamos no Quadro 1 dados que permitem visualizar a caracterização dos usuários entrevistados; estes dizem respeito ao sexo, idade, hipótese diagnóstica, núcleo habitacional, situação de trabalho, rendimento/benefício, tempo de transtorno e tempo de tratamento no NAPS (Quadro 1).

Quadro 1 - Caracterização dos usuários.

Usuário

Sexo

Idade

 

Hipótese diagnóstica

Núcleo

Situação

Rendimento

 

Tempo de

 

Tempo no

 

habitacional

de

/benefício

transtorno

NAPS

trabalho

 

A.P.

M

46

F

20 esquizofrenia

Família

Não

Nenhum

> 20 anos

1

5 anos

A.A.O.

M

38

F

31 transtorno afetivo

Família

Ativo

Trabalho

> 20 anos

1

5 anos

bipolar

 

A.S.A.

M

36

F

20 esquizofrenia

Família

Afastado

Auxílio-doença

> 10 anos

<

1 ano

A.S.S.

F

24

F

20 esquizofrenia

Família

Não

Nenhum

> 10 anos

<

1 ano

A.S.D.

M

24

F

06 / F 79 o.t.m.o.*/def.

Família

Não

Nenhum

> 20 anos

5

10 anos

mental

 

A.S.

M

32

F

31 transtorno afetivo

Família

Afastado

Auxílio-doença

1 5 anos

1

5 anos

bipolar

 

A.H.O.

F

34

F

20 esquizofrenia

Família

Afastado

Auxílio-doença

5

10 anos

1

5 anos

A.M.M.

F

44

F

20 esquizofrenia

Família

Não

Aposentadoria

> 20 anos

5

10 anos

A.A.

M

52

F

20 esquizofrenia

Família

Não

Aposentadoria

> 20 anos

>

10 anos

C.L.V.

F

66

F

20 esquizofrenia

Sozinho

Não

Aposentadoria

> 20 anos

1

5 anos

D.P.

M

37

F

06/ F 20

Família

Não

Aposentadoria

> 20 anos

5

10 anos

o.t.m.o.*/esquizofrenia

 

G.R.F.

F

30

F

31 transtorno afetivo

Família

Afastado

Nenhum

1 5 anos

1

5 anos

bipolar

 

I.F.

F

56

F

20 esquizofrenia

Residência

Não

Aposentadoria

> 20 anos

5

10 anos

J.R.N.

M

42

F

31 transtorno afetivo

Residência

Não

Aposentadoria

> 20 anos

5

10 anos

bipolar

 

J.T.

M

55

F

32.3 episódios

Família

Afastado

Auxílio-doença

1 5 anos

1

5 anos

depressivos

 

M.E.A.

F

45

F

06 / F 31 o.t.m.o.*/

Família

Não

Aposentadoria

> 20 anos

>

10 anos

transt. afetivo bipolar

do marido

 

N.M.S.

M

36

F

20 esquizofrenia

Família

Não

Nenhum

10

20 anos

5

10 anos

N.B.

M

62

F

20 esquizofrenia

Abrigo

Não

Aposentadoria

>

20 anos

1

5 anos

Q.I.N.

F

33

F

32 episódios

Família

Ativo

Trabalho

5

10 anos

<

1 ano

depressivos

   

R.B.S.

F

32

F

20 esquizofrenia

Família

Não

Nenhum

> 20 anos

>

10 anos

R.O.

M

 

F

20 esquizofrenia

Família

Afastado

Auxílio-doença

1 5 anos

1

5 anos

V.L.S.

F

38

F

20 esquizofrenia

Família

Ativo

Benefício -

5

10 anos

1

5 anos

 

LOAS

   

V.T.L.

M

42

F

20 esquizofrenia

Família

Não

Aposentadoria

10

20 anos

5

10 anos

W.L.S.S.

M

29

F

31 transtorno afetivo

Família

Ativo

Trabalho

5

10 anos

1

5 anos

bipolar

   

W.C.G.N.

M

28

F

20 esquizofrenia

Família

Não

Aposentadoria

10

20 anos

1

5 anos

(*) outros transtornos mentais orgânicos

56

MÂNGIA, E. F.; MURAMOTO, M. Redes sociais e construção. Rev. Ter. Ocup. Univ. São Paulo, v. 18, n. 2, p. 54-62, maio/ago., 2007.

A partir dessas informações é possível identificar

características que podem contribuir para a compreensão e caracterização desse grupo e para a identificação de aspectos comuns que permitam a construção de seu perfil geral.

Redes sociais

Aqui, apresentamos dados coletados sobre o tamanho

das redes sociais dos usuários entrevistados, além da caracterização dos componentes considerados nessa mensuração.

O objeto rede social tem sido utilizado em estudos de

diversas áreas do conhecimento. Sua operatividade reside no fato de que ele permite apreender a complexidade das relações sociais e compreender a realidade social, indo de encontro aos limites presentes em dicotomias do tipo individuo e sociedade, ação e estrutura, objetividade e subjetividade, tradicionais nos estudos sociológicos. Estas acabam por limitar a compreensão do real e não são capazes de apreender os processos complexos das interações sociais (MARTELETO,2001;MARTINS; FONTES,2004;MOLINA,

2005).

Buscar conhecer e explicar aspectos da vida social a partir do referencial das redes sociais pode contribuir para a superação das reduções operadas pelos modelos explicativos tradicionais que, para conhecer, dividem um objeto complexo em partes que tendem a perder a conexão com o todo. Esse tipo de racionalidade representa a realidade social de maneira estática, não sendo capaz de captar os constantes processos de transformação e mudanças sociais (MOLINA, 2005). Nesse sentido, as redes sociais ocupam um lugar estratégico na reflexão sobre a construção/invenção de novos modelos de pesquisa capazes de apreender as dinâmicas complexas presentes nos processos de interações sociais que estruturam a sociabilidade. O referencial das redes sociais responde a exigência contemporânea de complexificação da teoria social e pode ser útil tanto para a análise de fenômenos mais específicos e locais como para a análise de fenômenos globais (MOLINA, 2005). Estudos em diferentes áreas do conhecimento reconhecem que as redes sociais se constituem como espaço potencial de trocas materiais e afetivas, no qual as pessoas encontram suporte e apoio social, compartilham problemas e tentam encontrar soluções em conjunto, além de trocarem informações (MARTINS; FONTES, 2004; MOLINA, 2005). Para o campo da saúde mental, e especialmente para configuração de itinerários terapêuticos de pessoas com transtornos mentais severos, as redes sociais se configuram

57

no contexto de espaços complexos de interações que podem oferecer apoio em momentos críticos e suportes

significativos para a produção e reprodução da vida social, protegendo assim os grupos vulneráveis contra os riscos dos processos de desfiliação (CASTEL, 2000; SOUZA,

1999).

Neste sentido, a compreensão sobre como as pessoas se inserem nos diversos espaços que compõem a sua vida

e a maneira pela qual interagem e vivenciam suas relações

se mostra importante, na medida em que tal conhecimento torna possível identificar fatores que atuam enquanto protetores e aqueles que representam riscos, pois um mesmo contexto social pode produzir, de acordo com o circuito de relações experimentada pela pessoa, processos positivos de inclusão e promoção da saúde ou processos mais negativos que vulnerabilizam e podem levar á institucionalização e ao abandono. Sobre essas configurações mutáveis e contingentes devem interferir os serviços de saúde mental. Estudos sobre estimação do tamanho da rede social de pessoas comuns mostram que, em media, a rede pessoal de um sujeito consiste em aproximadamente 290 contatos ativos, com desvios que variam de acordo com a posição social da pessoa. Já os estudos que buscam identificar a quantidade de pessoas com as quais um indivíduo mantém contatos ao longo da vida estimam que seja entre 1500 e 3500 pessoas. Por outro lado, os resultados sobre a presença de laços fortes indicam uma média de 18,5 pessoas. Esses laços fortes geralmente são representados pelo núcleo familiar mais próximo e alguns amigos e vizinhos, pessoas com quem o contato é ativo e recíproco. São as pessoas com quem se pode contar no dia-a-dia (MOLINA, 2005). Tendo em vista esses dados, apresentamos, no Quadro 2, dados sobre o número de pessoas nomeadas pelos entrevistados, nas esferas consideradas como componentes da rede social, de acordo com a teoria sobre os estudos de rede. É importante explicitar que foi solicitado aos entrevistados que nomeassem as pessoas com quem mais tem contato, com quem mais conversam e/ou recorrem nas diversas situações do cotidiano. As esferas consideradas para compor a rede social dos entrevistados foram: núcleo habitacional/família, família expandida, amigos e vizinhos, trabalho e relações vivenciadas a partir da inserção no serviço de atenção. Os estudos de redes consideram que a rede social de uma pessoa apresenta um núcleo denso, formado pelas pessoas mais próximas, como núcleo familiar, amigos e vizinhos, e uma periferia expandida, na qual estão as relações vivenciadas no trabalho, com os parentes e outros familiares

e pessoas conhecidas, mas não muito próximas.

MÂNGIA, E. F.; MURAMOTO, M. Redes sociais e construção. Rev. Ter. Ocup. Univ. São Paulo, v. 18, n. 2, p. 54-62, maio/ago., 2007.

Quadro 2 - Quantidade de pessoas nomeadas.

Nome

Núcleo

Família

Amigos e

Trabalho

Relações

Total de pessoas referidas

habitacional/

expandida

vizinhos

vivenciadas no

Família

serviço

 

A.P.

1

2

5

0

3

11

A.A.O.

5

3

4

2

5

19

A.S.A.

7

2

3

0

4

16

A.S.S.

2

1

4

0

1

8

A.S.D.

3

4

0

0

3

10

A.S.

1

6

2

0

7

16

A.H.O.

5

--

2

0

7

14

A.M.M.

3

1

2

0

2

8

A.A.

2

7

4

0

4

17

C.L.V.

0

3

2

0

2

7

D.P.

1

3

0

0

1

5

G.R.F.

1

2

12

0

4

19

I.F.

9

4

0

0

1

14

J.R.N.

9

5

4

0

3

21

J.T.

1

5

3

0

4

13

M.E.A.

2

6

4

0

12

24

N.M.S.

2

2

1

0

3

8

N.B.

9

2

1

0

2

14

Q.I.N.

2

4

1

1

4

12

R.B.S.

6

1

0

0

0

7

R.O.

1

1

0

0

0

2

V.L.S.

8

--

5

0

3

16

V.T.L.

4

2

0

0

2

8

W.L.S.S.

2

--

1

0

7

10

W.C.G.N.

2

5

0

0

4

12

Neste estudo, as relações vivenciadas a partir da inserção no serviço também foram consideradas e, a princípio, localizadas no grupo cujas relações são menos

intensas, ou seja, na periferia expandida (MOLINA, 2005).

O núcleo habitacional/família é composto por aquelas

pessoas que moram com os usuários. Conforme já

mencionado, de acordo com os estudos em rede social, é o grupo que compõe o núcleo denso de relações do sujeito.

A família expandida caracteriza-se pelos familiares que

não compõem o núcleo habitacional da pessoa. Estudos sobre redes sociais e saúde mental estimam que a rede social de um sujeito com transtorno mental severo seja composta por 70% de familiares. A estimativa para a população comum é de 50%. De acordo com os números apresentados no Quadro 2, é possível verificar que apenas 5 usuários apresentam essa proporção. A maioria dos

entrevistados tem as relações vivenciadas a partir da inserção no serviço como maior proporção da formação da rede social (MOLINA, 2005, HUXLEY; THORNICROFT,

2003).

Para a nomeação das pessoas na esfera amigos e vizinhos, solicitamos aos usuários que desconsiderassem as relações surgidas a partir de laços familiares e a partir da inserção no serviço de assistência. Esta é uma esfera considerada por alguns autores como também componente do núcleo denso de relações do sujeito. Os estudos de redes em comunidades mostram que os vizinhos ganham importância, especialmente devido à proximidade do cotidiano vivenciado, o que permite que diversas questões sejam compartilhadas, informações trocadas e que a possibilidade de encontram apoio e suporte mútuos seja ampliada. Estudos mais específicos apontam que, em

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MÂNGIA, E. F.; MURAMOTO, M. Redes sociais e construção. Rev. Ter. Ocup. Univ. São Paulo, v. 18, n. 2, p. 54-62, maio/ago., 2007.

muitos casos, os vizinhos são os primeiros a serem solicitados em situações de emergências. É possível observar que a participação dos usuários nessas redes promove um importante grau de proteção, tanto para situações comuns vivenciadas no cotidiano, quanto para aquelas que demandam mais atenção e cuidado. A percepção dessas relações de ajuda também se mostra como dado importante para a compreensão dos processos de busca e obtenção de apoios pessoais e sociais (MOLINA, 2005, HUXLEY; THORNICROFT,

2003).

Os laços existentes a partir da inserção em alguma atividade laborativa são considerados importantes pela literatura de redes, uma vez que, na fase adulta, configuram grande parte das relações vivenciadas pelas pessoas (MOLINA, 2005). Entre os entrevistados, apenas quatro usuários encontram-se em situação ativa de trabalho. Dentre esses, apenas dois mencionaram relações consideradas importantes nesta esfera. A ultima esfera considerada foi a composta por relações vivenciadas a partir da inserção no serviço de assistência. Aqui, os usuários identificaram os laços que possuem com as pessoas pertencentes ao contexto do NAPS: técnicos, funcionários e outros usuários.

Redes sociais e itinerários terapêuticos

Foi possível observar, nos diversos relatos coletados

e nos contextos analisados no processo de observação

participante, que muitos usuários acabam por perder espaços na casa e na família, conforme as trajetórias vividas em diversos momentos de ruptura ocasionadas, especialmente nos momentos de crise ou imediatamente após as situações de crise. Nesses períodos ocorre a diminuição da presença e participação dos usuários na rotina da casa, pelo aumento do período de permanência

no serviço, ou pela ocorrência de um período de internação, mesmo que breve. Ao regressarem á rotina habitual, muitos encontram os espaços domésticos ou familiares cada vez mais reduzidos, tanto no plano

concreto, como por exemplo, ter preservado o quarto, ou

a cama onde dormia, o armário onde colocava suas

roupas, etc, quanto no plano afetivo e simbólico, configurado nos momentos de trocas familiares, conversas, validação de sua opinião perante o grupo, convites para visitar parentes ou amigos, participar das festas familiares, dentre outros.

59

Também com relação aos laços vivenciados fora do âmbito familiar, os relatos e a observação nos mostram

que os sujeitos tendem a perder as relações de amizade; estas vão sendo enfraquecidas na medida em que os processos de ruptura e vulnerabilização das pessoas se reproduzem e não encontram o suporte necessário por parte do serviço de atenção e da família.

A eclosão de um transtorno mental em um

determinado contexto sócio familiar cria uma situação crítica que mobiliza todos os atores no processo de busca de soluções, tanto dirigidos ao sujeito que sofre, como ao próprio grupo do qual ele faz parte. Nesse processo, a própria identificação do problema se configura no contexto das relações e a partir da percepção das alterações produzidas pelos transtornos mentais nas interações sócio-relacionais que compõem o cotidiano, desencadeadas especialmente pelo comportamento diferente do sujeito em crise. Assim, o transtorno mental é um problema, ao mesmo tempo, individual e coletivo, ou seja, um fenômeno que envolve a rede social (MÂNGIA, 2006).

As redes sociais têm um papel na identificação do

problema e também na busca de solução e escolhas terapêuticas. Nesse processo, se percebe também rearranjos, rupturas, dissolução e reconfiguração das redes sociais, pois sabemos que as situações decorrentes dos transtornos mentais, especialmente aqueles severos

e persistentes podem trazer mudanças significativas nas

trajetórias de vida da pessoa e em seu circuito relacional

(SOUZA, 1999; MÂNGIA, 2006). Souza destaca que, no geral, os estudos tradicionais não levam em conta os percursos das pessoas, do momento que identificam a enfermidade até a obtenção

das formas de ajuda. Ressalta também que esses percursos são heterogêneos embora quase sempre levem

a alguma ajuda técnica, ou a entrada em um serviço de

saúde, além disso, a própria identificação e definição do problema sofre modificações ao longo do tempo e está em permanente interação com o contexto no qual se processa a busca de ajuda ou suporte (SOUZA, 1999).

A atribuição a alguém de um papel de doente ou do rótulo de louco, emerge de um processo interativo que envolve a

participação de vários atores pertencentes às redes sociais

) (

que induz e constrange o comportamento dos indivíduos, levando-os a tomar certas decisões e possui também um papel produtivo e construtivo, pois ser doente não é apenas uma condição biológica ou psicologicamente dada, mas

Ressalta-se que as redes sociais possuem uma dimensão

MÂNGIA, E. F.; MURAMOTO, M. Redes sociais e construção. Rev. Ter. Ocup. Univ. São Paulo, v. 18, n. 2, p. 54-62, maio/ago., 2007.

um produto constituído com base nas definições e reações dos outros(SOUZA, 1999, p.121).

O estudo sobre itinerários terapêuticos parte da

constatação sobre a multiplicidade das formas de enfrentamento dos problemas de saúde presentes na

atualidade e busca compreender como as pessoas e os grupos sociais realizam escolhas e aderem aos tratamentos. (ALVES; SOUZA, 1999, p. 125).

A compreensão sobre os itinerários terapêuticos

deve levar em conta os diferentes contextos de vida que definem as possibilidades de oferta e acesso aos serviços de saúde, no geral, nas grandes cidades essa oferta aparece mais ampliada e definida pela rede de serviços de saúde, encontramos também nesse campo a diversidade de interpretações e métodos terapêuticos dificilmente compreendidos pela população em geral. Além desses aspectos, as opções e decisões sobre os tratamentos de saúde sofrem influência do contexto sócio econômico e o próprio acesso á informação está relacionado a contratualidade do sujeito e seu lugar no campo das trocas sociais. Alves assinala que a análise dos itinerários terapêuticos foi muito influenciada pelos estudos sobre redes sociais. Como o conceito de management group of therapy, proposto por Janzen, que consiste em um grupo de parentes e amigos mobilizados para definir a situação e buscar soluções diante do adoecimento de um indivíduo”. Esse grupo troca informações, prove apoio, toma decisões e providências (JANZEN apud ALVES; SOUZA, 1999, p. 128). Alves e Souza criticam a abordagem adotada pela maior parte dos estudos sobre itinerários terapêuticos, pois consideram que exista uma redução do trabalho interpretativo que se evidencia no caráter essencialmente explicativo de tais estudos, que adotam premissas previamente estabelecida, (tais como escolha racional, valores culturais e estruturas de redes sociais) para explicar as ações de pessoas ou grupos (ALVES; SOUZA, 1999, p. 130). Esses autores elaboram importantes precauções teórico-metodológicas e sugerem que os estudos sobre itinerários terapêuticos devem priorizar a aproximação em relação ao conhecimento dos procedimentos utilizados pelos atores para interpretarem suas experiências e decidirem sobre suas ações. As escolhas sobre as formas de tratamento são o resultado de múltiplas negociações realizadas no contexto relacional dos sujeitos e dessa

forma expressam sínteses parciais que emergem de um campo de possibilidades histórica e culturalmente

definidas. O sujeito dessas ações compartilha um conjunto de crenças e receitas práticas para lidar com o mundoe o trabalho interpretativo do pesquisador encontra dimensões subjetivas dificilmente compreen- síveis, pois esse universo compartilhado não determinam as ações de forma homogênea (ALVES; SOUZA, 1999, p.

132-33).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A utilização do referencial proposto nos estudos das

redes sociais pode trazer contribuições importantes para

o estudo dos serviços de saúde mental e das estratégias

utilizadas no contexto dos projetos de reabilitação psicossocial (MARTINS; FONTES, 2004; MARTELETO,

2001).

A compreensão dos projetos terapêuticos e da problemática das populações vulneráveis no contexto de suas redes relacionais permite observar, na dinâmica

das relações, os componentes que podem contribuir para

a melhoria da saúde e da qualidade de vida, e, portanto, se constituem enquanto fatores de proteção e aqueles que, ao contrário, representam fatores de risco.

A participação em tais relações e intercâmbios sociais

ou a sua invenção é possível no cenário das redes sociais, este enquanto lugar complexo de interações, onde os diversos graus de contratualidade e as diferentes

identidades podem ser trocados. O empobrecimento da rede social também se configura como desabilitação, perda quantitativa e qualitativa, desde a primeira rede

social disponível, que é o núcleo familiar, até as formas mais ampliadas de relações. Assim, intervenções que visem integração com o núcleo familiar e a rede social ampliada da pessoa com transtorno mental severo, podem trazem benefícios tanto para as pessoas como para a qualificação dos programas de reabilitação (SARACENO, 1999, 2001; ROTELLI,

1993).

Tal tarefa exige mudanças nas culturas técnica e de organização de serviços, uma vez que demandam novos desenhos assistenciais e formativos capazes de tomarem como central não mais a remissão de sintomas e o treino de habilidades específicas, presentes na tradição da reabilitação no campo assistencial em saúde mental, mas

a complexificação dos processos de intervenção,

incorporando em suas estratégias o manejo dos fatores de proteção, que garantem aos sujeitos a possibilidades de viver a vida fora dos circuitos de institucionalização.

60

MÂNGIA, E. F.; MURAMOTO, M. Redes sociais e construção. Rev. Ter. Ocup. Univ. São Paulo, v. 18, n. 2, p. 54-62, maio/ago., 2007.

MÂNGIA, E. F.; MURAMOTO, M. Social networks and the construction of therapeutic projects: a

study in a mental health substitutive service. Rev. Ter. Ocup. Univ. São Paulo, v. 18, n. 2, p. 54-62, maio/ago., 2007.

ABSTRACT: Studies show that people with severe mental diseases who have social network present bigger probability of positive outcome in short or soon periods, in the clinic, labor and relational areas. These results should orient the elaboration and realization of assistance interventions and psychosocial rehabilitation developed by the mental health services, in a way in that the intervention about social network will be prioritized. In this perspective, we present the partial results of de masters research The sustainability of quotidian life. A study about the social networks of users in a mental health service in the city of Santo André”, started in December, 2005. The general objective is to characterize the social networks of people with mental health problems, users of mental health substitutive services and to identify factors that contribute to the formulation of activation strategies of networks. The research is located on the qualitative enquiry field and uses procedures oriented by ethnometodology. It had been done 25 interviews with users who received attention in intensive treatment regime, bibliographical research and participative observation, plus the elaboration of a field notebook. The preliminary data analysis allowed the characterization of the users social networks and their needs and also the confirmation about the importance of the social networks in the assistances trajectory. To the assistance model, the validation of activation strategies of social networks demands changes in the technical and services organization culture, and the definition of a new assistance structure, more complex and that includes in their strategies the operation of protection factors, that assurance to the individuals the possibilities to live their lives out of the institutionalization circuits.

KEYWORDS: mental disorders. Rehabilitation. Mental health services. Institutionalization. Occupational therapy.

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Validade de conteúdo de questionários de coordenação motora para pais e professores*

Content validity of motor coordination questionnaires for parents and teachers

Tatiana Teixeira Barral de Lacerda 1 , Lívia de Castro Magalhães 2 , Márcia Bastos Rezende 3

LACERDA, T. T. B.; MAGALHÃES, L. C.; REZENDE, M. B. Validade de conteúdo de questionários de coordenação motora para pais e professores. Rev. Ter. Ocup. Univ. São Paulo, v. 18, n. 2, p. 63-77, maio/ago., 2007.

RESUMO: INTRODUÇÃO: O termo Transtorno do desenvolvimento da coordenação (TDC) tem sido usado para referir às crianças que, na ausência de lesões do sistema neuromotor, apresentam dificuldades para realizar tarefas de vida diária que requerem coordenação motora. Face à escassez de testes de coordenação motora, validados para a criança brasileira, iniciou-se o processo de criação e validação da

Avaliação da Coordenação e Destreza Motora – ACOORDEM. O teste é dividido em 3 partes, sendo duas compostas por itens de observação direta do desempenho motor da criança e uma terceira parte que consiste de dois questionários estruturados, que visam avaliar o desempenho funcional da criança em casa

e na escola. OBJETIVO: O objetivo geral deste estudo foi examinar a validade de conteúdo dos Questionários

de Pais e Professores da ACOORDEM. MÉTODO: um painel de experts, composto por nove profissionais, 11 pais e sete professores, avaliou a qualidade dos itens dos Questionários. O Questionário para Professores

é composto por 73 itens e o de Pais por 108. RESULTADOS: Os resultados da avaliação deram suporte

à validade de conteúdo dos Questionários de Pais e Professores, uma vez que mais de 87 % dos itens

foram considerados de boa qualidade. CONCLUSÃO: Como resultado do painel de experts foi feita revisão e modificações nos questionários, que contribuíram para redução no número de itens e para confirmar a adequação do instrumento às necessidades dos pais e profissionais que lidam com crianças com problemas de coordenação motora.

DESCRITORES: Desenvolvimento infantil. Destreza motora. Validade dos testes. Transtornos das habilidades motoras.

* Este trabalho é parte integrante da dissertação denominada “Estudo sobre a validade dos Questionários de Pais e Professores da ACOORDEM – Avaliação da Coordenação e Destreza Motora”, apresentada ao Programa de Mestrado em Ciências da Reabilitação da Universidade Federal de Minas Gerais em 30 de março de 2006.

1 Fisioterapeuta, Mestre em Ciências da Reabilitação, Professora Assistente, Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais - PUC- MG.

2 Terapeuta Ocupacional, Doutora em Educação, Professora Associada do Depto. de Terapia Ocupacional, Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG.

3 Terapeuta Ocupacional, Doutora em Ciências Biológicas, Professora Adjunta do Depto de Terapia Ocupacional, UFMG.

Endereço para correspondência: Tatiana Teixeira Barral de Lacerda – Avenida Aníbal de Macedo, 904. Bairro Arcádia, Contagem, MG. Cep: 32041-370. e-mail: tatianabarral@terra.com.br

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LACERDA, T. T. B. et al. Validade de conteúdo de questionários. Rev. Ter. Ocup. Univ. São Paulo, v. 18, n. 2, p. 63-77, maio/ago., 2007.

INTRODUÇÃO

C rianças que apresentam problemas de

coordenação motora, que têm dificuldade para

aprender tarefas motoras novas e realizar

atividades de vida diária em casa, na escola e em ambientes infantis, têm sido examinadas sob diferentes perspectivas.

A literatura nessa área é confusa, pois na ausência de

terminologia unificada, essas crianças, até recentemente, recebiam diagnósticos variados, tais como disfunção cerebral mínima, dispraxia do desenvolvimento, síndrome da criança desajeitada, disfunção sensório-motora do desenvolvimento, entre outras (CERMAK et al., 2002). Entretanto, em 1996, em um encontro de pesquisadores

realizado no Canadá, decidiu-se adotar o termo Transtorno

do Desenvolvimento da Coordenação (TDC), usado pelo

DSM-IV, para se referir às crianças que, na ausência de lesões do sistema neuromotor, apresentam dificuldades para realizar tarefas de vida diária que envolvem coordenação motora. O desenvolvimento motor de crianças com TDC geralmente é mais lento do que o de crianças normais e o pobre desempenho em atividades motoras típicas da infância interfere na participação social e no relacionamento com os colegas, podendo levar a criança a experimentar o isolamento e a marginalização (GEUZE, 2003; MANDICH; POLATAJKO, 2003). Muitas crianças com esse distúrbio, que se caracteriza principalmente por falhas na coordenação motora, são encaminhadas para clínicas de fisioterapia e terapia ocupacional e seu diagnóstico nem sempre é imediato. Além da questão da nomenclatura confusa, os critérios para diagnóstico são inconsistentes e não há testes clínicos específicos para identificar essa condição (GEUZE et al., 2001; DUNFORD et al., 2004). Segundo Dunford et al. (2004), menos da metade das crianças encaminhadas para tratamento devido a sinais de TDC, se enquadra nos critérios para diagnóstico. Como o diagnóstico é difícil, muitas vezes o profissional, fisioterapeuta ou terapeuta ocupacional, se perde no direcionamento da intervenção apropriada. Segundo extensa revisão feita por Geuze et al. (2001), vários testes motores têm sido utilizados para diagnóstico do TDC, mesmo não tendo sido criados especificamente para tal fim, sendo que os mais citados na literatura são: o MovimentoABC – MABC (HENDERSON; SUDGEN, 1992), o teste de Gubbay (GUBBAY, 1975), e o Bruininks Ozeretsky Teste de Proficiência Motora – BOTMP (BRUININKS, 1978), além de avaliações clínicas e neurológicas (MUTTI et al., 1978). Embora a literatura internacional faça referência a esses instrumentos para detecção de problemas de

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coordenação, tais testes têm aplicação restrita em nosso país, uma vez que não existem normas para crianças brasileiras. Face à escassez de testes de desenvolvimento motor, validados para a criança brasileira, Magalhães e Rezende (MAGALHÃES et al., 2004) iniciaram o processo de criação da Avaliação da Coordenação e Destreza Motora – ACOORDEM, teste específico para a detecção do TDC em crianças brasileiras de quatro a oito anos de idade. A criação da ACOORDEM foi norteada pela Classificação Internacional de Funcionalidade (CIF), proposta pela OMS (OMS, 2003) para considerar o impacto das doenças em três áreas: estrutura e função do corpo, atividade funcional e participação social. De acordo com essa classificação, é essencial documentar o impacto do estado de saúde na funcionalidade do indivíduo, mudando, assim, do foco centrado na doença para as conseqüências da doença, levando em consideração a interação entre fatores pessoais e contextuais (BATTAGLIA et al., 2004). A ACOORDEM tem como proposta avaliar a criança sob diferentes perspectivas, estando previstas oportunidades para examinar desempenho nas três áreas de função definidas pela CIF:

(a) avaliação das habilidades sensório-motoras, por meio da observação de itens puramente motores como força, equilíbrio e coordenação motora (Estrutura e função do corpo), (b) observação informal do desempenho da criança em tarefas escolares que exigem coordenação como recorte, escrita e traçado (Atividade) e (c) avaliação do

desempenho funcional em casa e na escola, além das preferências no brincar e comportamento com colegas e familiares, por meio dos questionários de pais e professores (Atividade & Participação). Com a observação da criança sob diferentes condições, espera-se obter uma melhor compreensão da relação entre as habilidades motoras e os fatores que contribuem positivamente ou que restringem

a participação da criança em casa e na escola. Enfocando principalmente as atividades funcionais e aspectos da participação social da criança, os questionários de pais e professores, examinados no

presente estudo, foram elaborados a partir do modelo conceitual para a prática de terapeutas ocupacionais e fisioterapeutas em escolas públicas, proposto por Anita Bundy e Carter (1991). Além do trabalho de Bundy e Carter (1991), os questionários da ACOODEM foram também baseados no exame dos itens do Developmental Coordination Disorder Questionnaire – DCDQ (WILSON

et al., 2000) do MABC-Checklist (HENDERSON; SUDGEN,

1992), em revisão da literatura sobre as brincadeiras típicas de crianças de quatro a oito anos de idade e na experiência clínica das autoras (MAGALHÃES et al., 2004). Sendo

LACERDA, T. T. B. et al. Validade de conteúdo de questionários. Rev. Ter. Ocup. Univ. São Paulo, v. 18, n. 2, p. 63-77, maio/ago., 2007.

assim, os questionários para pais e professores da ACOORDEM foram desenvolvidos buscando criar recursos objetivos para a coleta de informações sobre a atividade funcional e participação social da criança, nos seus contextos usuais de desempenho, em casa e na escola. Os questionários são compostos por itens simples a serem respondidos pelos pais e professores, que pontuam o comportamento e o desempenho motor da criança, de acordo com a freqüência do comportamento observado. Na versão original os questionários são longos, uma vez que o de professores tem 73 itens e o de pais 108 itens, mas espera-se que no processo de validação sejam reduzidos a um formato de mais fácil manejo. Naturalmente os questionários podem vir a ser úteis como instrumento de triagem para TDC, mas espera-se que sua maior contribuição seja no mapeamento das dificuldades motoras da criança, em casa e na escola, o que é essencial para o planejamento da intervenção. Embora fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais brasileiros tenham pouco envolvimento com o processo de criação e validação de testes, é importante ressaltar que o diagnóstico correto é a base da intervenção adequada. Assim, o objetivo deste estudo é dar continuidade ao processo de validação da ACOORDEM, examinando a validade de conteúdo dos questionários de pais e professores. Este trabalho foi realizado entre maio e setembro de 2005, no contexto do Programa de Mestrado em Ciências da Reabilitação da Universidade Federal de Minas Gerais, sendo parte da Dissertação denominada “Estudo sobre a validade dos Questionários de Pais e Professores da ACOORDEM”. A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da UFMG (COEP), parecer numero ETIC 521/04. Validade de conteúdo é definida por Anastasi e Urbina (2000) como o exame sistemático do conteúdo do teste para determinar se ele abrange uma amostra representativa do domínio de comportamento e ser medido. A determinação da validade de conteúdo é um passo essencial no desenvolvimento de novos instrumentos e deve ser feita precocemente, para examinar se os conceitos abstratos, que originaram o teste, estão representados adequadamente, como expresso por indicadores observáveis e mensuráveis da qualidade dos itens. Embora haja numerosos métodos empíricos para estabelecer validade de conteúdo, o método que parece ser mais efetivo é pedir a um painel de experts (juízes) para comparar os objetivos do teste com seu conteúdo (HALEY et al., 2001; EXNER, 1993). O resultado do painel de experts é usado para definir os itens que serão mantidos, revisados ou eliminados.

CASUÍSTICAEMETODOS

Participantes

Os participantes deste estudo foram os componentes do painel de análise dos itens. Não existem regras específicas para determinar o número adequado de juízes para participar da avaliação do conteúdo de testes, mas foi feita tentativa de obter o maior número possível de participantes. Como os questionários da ACOORDEM são voltados para pais e professores, os participantes foram divididos em três grupos distintos:

(a) Profissionais que trabalham com crianças com TDC, tanto na clínica quanto em pesquisas. Este grupo incluiu terapeutas ocupacionais e pesquisadores de várias regiões do país. Os terapeutas ocupacionais deveriam ter

reconhecida experiência, de no mínimo 3 anos, na avaliação

e tratamento de crianças com problemas de coordenação

motora. Os terapeutas que trabalham nessa área ainda são

poucos e só foram incluídos no painel aqueles com treinamento no tratamento de crianças com TDC, que participaram de cursos na área, no Brasil e/ou no exterior,

e que relatam atender a essa clientela. Os pesquisadores

incluídos foram convidados a participar do painel devido

a trabalhos que vêm desenvolvendo com crianças com

TDC. Esse grupo de juizes foi denominado grupo de profissionais.

(b) Pais de crianças que apresentam sinais de TDC,

selecionados em consultórios particulares e clínicas de atendimento infantil, por meio da indicação dos terapeutas que participaram do grupo de profissionais. Os pais deveriam apresentar segundo grau completo, boa habilidade de leitura e foram selecionados devido à sua capacidade para perceber as dificuldades motoras dos filhos e para ler e responder aos questionários de avaliação dos itens. Foi dada preferência a pais de crianças que freqüentam serviços privados, por se considerar que esses pais, de maior poder aquisitivo, têm maior acesso à educação formal e, portanto, maior habilidade não apenas para ler o questionário mas, principalmente, para avaliar qualitativamente os itens.

(c) Professores do ensino infantil e fundamental de

escolas públicas e privadas, localizadas na Grande-BH.

Foram recrutadas professoras com experiência didática de no mínimo de cinco anos, com experiência em lidar com crianças que apresentam dificuldade escolar conseqüente

a problemas de coordenação motora.

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LACERDA, T. T. B. et al. Validade de conteúdo de questionários. Rev. Ter. Ocup. Univ. São Paulo, v. 18, n. 2, p. 63-77, maio/ago., 2007.

Instrumentação

O Questionário de Professores é composto por 73 itens

divididos em quatro partes. A primeira parte avalia a

habilidade da criança para expressar o que está aprendendo

e é composto por 19 itens. A segunda e a terceira parte

medem, respectivamente, a habilidade para assumir o papel de estudante e a mobilidade e participação em jogos e brincadeiras, contendo cada uma delas 21 itens. A última parte, com 12 itens, informa sobre desempenho em atividades de vida diária. O Questionário de Pais avalia o comportamento da criança em casa e o desempenho durante as brincadeiras do dia-a-dia. Ele é dividido em quatro partes e composto, ao todo, por 108 itens. A primeira parte avalia a mobilidade e habilidade para participar de jogos motores, contendo um total de 35 itens. Esta parte

inclui, ainda, um quadro descritivo das principais brincadeiras (28 itens) que fazem parte do repertório de crianças brasileiras, no qual se deve assinalar a freqüência observada e com quem a criança brinca. O desempenho nas atividades de vida diária é avaliado na segunda parte do questionário (19 itens); e na terceira estão incluídas as habilidades relacionadas ao papel de estudante (15 itens). Por fim, a última parte engloba os comportamentos, hábitos

e rotinas da criança em casa e é composto por 11 itens.

Procedimento

Terapeutas ocupacionais e pesquisadores, devido à sua experiência na avaliação de crianças, dentro dos contextos familiar e escolar, foram orientados a examinar os dois questionários. Os pais e professores avaliaram apenas seus questionários específicos. Cada questionário foi acompanhado de termo de interesse, explicando os objetivos do estudo e solicitando a colaboração na avaliação dos itens. Foram distribuídos um total de 71

questionários; 11 para profissionais, 25 para pais e 35 para professores.

A qualidade dos itens dos questionários foi avaliada

em seis critérios: 1) o item está bem redigido e é de fácil compreensão?; 2) o item é fácil de ser observado nas rotinas diárias em casa/na escola?; 3) o item representa aspecto relevante para o desempenho em casa/na escola?; 4) o item contribui para dar uma boa visão do desempenho motor em casa/na escola?; 5) o item contribui para dar uma boa visão do comportamento em casa/na escola? 6) o item tem potencial para diferenciar crianças com e sem dificuldade motora? Os participantes foram orientados a pontuar cada critério conforme sua opinião sobre cada

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item, da seguinte maneira: escore 1 - Concordo totalmente, escore 2 - Concordo parcialmente, escore 3 - Discordo parcialmente e escore 4 - Discordo totalmente. No caso específico do Questionário de Professores, deveria ser indicada, ainda, a faixa etária mais apropriada para inclusão do item (4 a 5, 6 a 7, 8 anos ou todas as idades). Havia espaço adicional para comentários, no qual os participantes poderiam dar sugestões ou fazer críticas sobre a adequação dos itens. Ao término dos questionários, os participantes deveriam, ainda, responder a duas perguntas: Qual a sua opinião final sobre os questionários? e Você acredita que pais/professores terão facilidade e interesse em respondê- lo?.

Análise dos dados

Uma vez que o índice de concordância é a medida mais utilizada para determinar a validade de conteúdo, o índice de, no mínimo, 80% de concordância entre os avaliadores quanto à boa qualidade dos itens, usado em vários trabalhos (HALEY et al., 1991; HARRIS; DANIELS, 1996), foi estabelecido para este estudo. Nem todos os itens deveriam ser avaliados por todos os 6 critérios, uma vez que nem todas as perguntas eram pertinentes a todos os itens. Desta forma, foi realizada uma média dos critérios relevantes, sendo estabelecido que o item deveria obter a média de 80% de escores 1 e 2 (Concordo totalmente e Concordo parcialmente) para ser considerado adequado para ser mantido nos questionários. Os resultados da análise da qualidade dos itens constituiriam a base para modificar os questionários, com a supressão ou revisão de itens, para garantir maior adequação dos itens ao seu objetivo original.

RESULTADOS

Foram distribuídos 71 questionários; sendo 11 para profissionais, 25 para pais e 35 para professores, sendo 25 para professores de escolas privadas e 10 para professores de escolas públicas. Dos questionários entregues para profissionais, oito foram para terapeutas ocupacionais e três para pesquisadores. Destes, apenas um terapeuta ocupacional e um pesquisador não devolveram os questionários respondidos. Assim, dos questionários enviados para profissionais, apenas nove (81,8%), sendo sete de terapeutas ocupacionais e dois de pesquisadores, foram respondidos e entregues no prazo determinado. Os terapeutas ocupacionais indicaram um total de 25 pais e 25 professores de escolas privadas para colaborarem

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na avaliação dos questionários. Dos questionários de pais, 11 foram devolvidos na data determinada. Outros 5 foram devolvidos posteriormente e não puderam entrar no estudo, pois a análise dos dados já havia sido concluída. Além dos 25 questionários entregues para os professores de escolas privadas, mais 10 questionários foram entregues, pessoalmente pela primeira autora do trabalho, para professores de três escolas públicas. No entanto, apenas sete questionários de professores, todos de escolas privadas, foram devolvidos. Apesar de exaustivas tentativas, nenhum dos professores da rede pública devolveu os questionários respondidos. Assim, foram totalizados 20 questionários de pais (11 pais e nove profissionais) e 16 questionários de professores (sete professores e nove profissionais) respondidos. De uma forma geral, todos os participantes do painel avaliaram bem os questionários, pois nenhum dos participantes

considerou os questionários como “Fraco” ou “Regular”. Mais de 75% indicaram acreditar que pais e professores teriam facilidade e interesse em respondê-los. Conforme avaliação feita pelos profissionais e pais, o Questionário de Pais apresentou oito itens (7,4%), dos 108 avaliados, classificados como abaixo do critério de 80% de escores indicadores de boa qualidade dos itens (Tabela 1). Três itens (Maneja controle de vídeo-game com destreza; É cuidadoso com brinquedos e materiais; É o último a ser escolhido para compor times em esportes ou atividades motoras) estão localizados na primeira parte do questionário referente à “Habilidade e mobilidade para participar de jogos”. Na avaliação da validade das brincadeiras infantis, incluídas na primeira parte do questionário, cinco das 28 atividades ficaram abaixo do critério de 80% (Assistir televisão; Skate, patinete e patins; Parque eletrônico; Vídeo-game; Coloções, álbum de figurinhas).

Tabela 1 - Percentuais médios de escores indicativos de boa qualidade dos itens de cada parte dos Questionários

Questionário de Pais

Percentual médio de escores 1 e 2

Questionário de Professores

Percentual médio de escores 1 e 2

Parte 1: Mobilidade e habilidade para participar de jogos e brincadeiras

86%

Parte 1: Habilidade para expressar o que está aprendendo

83%

Brincadeiras

83%

Parte 2: Habilidade para desempenhar atividades de vida diária

91%

Parte 2: Habilidade para assumir o papel de estudante

92%

Parte 3: Habilidades relacionadas ao papel de estudante

92%

Parte 3: Mobilidade e participação em jogos e brincadeiras

87%

Parte 4: Comportamento, hábitos e rotinas

91%

Parte 4: Desempenho em atividades de vida diária

77%

Escore 1 = Concordo totalmente; Escore 2 = Concordo parcialmente.

No Questionário de Professores, avaliado por profissionais e professores, do total de 73 itens, 14 (19,2%) obtiveram média de qualidade abaixo de 80%, sendo que quatro deles se encontram na primeira parte do questionário (Maneja apontador e faz ponta corretamente no lápis; Usa computador com habilidade e velocidade apropriadas; Se expressa verbalmente, fala compreensível; Parece saber mais do que consegue expressar), dois na terceira parte (Entra e sai do ônibus escolar ou do carro com facilidade e independência; É o último a ser escolhido para compor times em esportes ou

atividades motoras) e oito na quarta parte (Guarda materiais na estante, carteira ou local designado; Usa o banheiro e faz higiene pessoal; Veste blusa ou jaqueta; Veste uniforme de ginástica; Calça meias e sapato/tênis; Amarra sapato ou tênis; Maneja/manipula fechos, botões, fivelas; Abre ou fecha portas e maneja trincos acessíveis para crianças). Embora a avaliação global dos itens tenha sido positiva, os juízes do painel comentaram que um problema em potencial é que os questionários eram muito longos e cansativos para responder. Com base nessa informação,

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LACERDA, T. T. B. et al. Validade de conteúdo de questionários. Rev. Ter. Ocup. Univ. São Paulo, v. 18, n. 2, p. 63-77, maio/ago., 2007.

nos percentuais de qualidade, nas sugestões dos juízes e no julgamento clínico das autoras, passou-se à revisão dos questionários. Itens considerados de boa qualidade, mas com problemas na redação, foram revisados, de acordo com instruções dos juízes. Itens que não atingiram o critério de 80% de qualidade foram exclu