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ATUALIZA-ASSOCIAÇÃO CULTURAL

ENFERMAGEM DO TRABALHO

MILENA MARTA GÓES RAMOS

IMPORTÂNCIA DO USO DOS EQUIPAMENTOS DE PROTEÇÃO INDIVIDUAL PARA OS CATADORES DE LIXO

Salvador - Bahia

2012

MILENA MARTA GÓES RAMOS

IMPORTÂNCIA DOS EQUIPAMENTOS DE PROTEÇÃO INDIVIDUAL PARA OS CATADORES DE LIXO

Monografia apresentada à Atualiza Associação Cultural, como requisito parcial para a obtenção do Título de Especialista em Enfermagem do Trabalho, sob orientação do Professor Fernando Reis do Espírito Santo.

Salvador – Bahia

2012

RAMOS, Milena Marta Góes. Importância do uso dos Equipamentos de Proteção individual para os catadores de lixo/ Marta Milena Góes Gomes. – Salvador: 2012 31 f.

Monografia (Especialização) – Atualiza- Associação Cultural. Curso de Enfermagem do Trabalho.

1. Doenças ocupacionais/profissionais. 2. Equipamentos de Proteção Individual. 3. Catadores

de lixo.

MARTA MILENA GÓES RAMOS

IMPORTÂNICA DOS EQUIPAMENTOS DE PROTEÇÃO INDIVIDUAL PARA OS CATADORES DE LIXO

Monografia para obtenção do grau de Especialista em Enfermagem do Trabalho.

EXAMINADOR:

Nome

Titulação

PARECER FINAL:

Salvador, 14 de novembro de 2012

] [

melhor, mas lutamos para que o melhor fosse feito

Não somos o que deveríamos ser, mas somos

o que iremos ser. Mas graças a Deus, não somos o

talvez não tenhamos conseguido fazer o

] [

que éramos.

(Martin Luther King)

RESUMO

Este estudo aborda sobre as doenças do trabalho, ou doenças ocupacionais/profissionais, que são aquelas decorrentes da exposição dos trabalhadores aos riscos ambientais, ergonômicos ou de acidentes. Elas se caracterizam quando se estabelece o nexo causal entre os danos observados na saúde do trabalhador e a exposição a determinados riscos ocupacionais. Tem como objetivo evidenciar a importância do uso dos equipamentos de proteção individual em catadores de lixo. Trata-se de uma pesquisa do tipo bibliográfica, de natureza qualitativa e explicativa.Os resultados deste estudo nos mostram que a utilização de equipamentos de proteção individual ocorre de maneira indiscriminada e sem serem observados critérios definidos, desconsiderando-se a diretriz doutrinária que define o EPI como último recurso a ser utilizado na prevenção de acidentes e doenças, após esgotadas todas as possibilidades de proteção coletiva. No momento contemporâneo, a reciclagem de lixo vem se apresentando como nova modalidade de trabalho que tem atraído número cada vez maior de indivíduos. A cada dia surgem novas cooperativas de separação de lixo reciclável, nas grandes cidades, mas ainda não há uma política social e de saúde específica para atender as necessidades desse grupo expressivo de trabalhadores.

Palavras-chave: Doenças ocupacionais/profissionais. Equipamentos de Proteção

Individual. Catadores de lixo.

ABSTRACT

This study focuses on occupational diseases or illnesses / professionals, who are those workers from exposure to environmental hazards, ergonomic or accidents. They are characterized when establishing the causal link between the damage observed in workers' health and exposure to certain occupational hazards. It aims to highlight the importance of using personal protective equipment for garbage collectors. This is a survey-type literature, qualitative and explicativa.O result of this study shows that the use of personal protective equipment occurs indiscriminately and unobserved criteria, disregarding the doctrinal guideline that defines the PPE as a last resort to be used in the prevention of accidents and diseases, after exhausting all possibilities of collective protection. In the contemporary moment, waste recycling has been presented as a new way of working that has attracted increasing numbers of individuals. Every day brings new cooperatives separation of recyclable waste in large cities, but there is no social policy and health to meet the specific needs of this group of workers.

Keywords: Occupational diseases / professionals. Personal Protective Equipment.

Garbage collectors.

SUMÁRIO

1.

INTRODUÇÃO

7

2.

REFERENCIAL TEÓRICO

14

2.1

A saúde e os catadores de lixo

14

2.2

A importância dos Equipamentos de Proteção Individual (EPI's)

16

2.3

Uma população exposta a diversos tipos de agentes

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3.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

30

4.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

36

5.

REFERÊNCIAS

39

7

1. INTRODUÇÃO

Apresentação do objeto de estudo

A relação saúde-trabalho vem sendo discutida principalmente nas duas últimas décadas, tendo como marco teórico uma análise do processo saúde - trabalho, considerando as cargas presentes no ambiente de trabalho como um todo complexo, sendo que a interação entre as partes ocorre de forma processual, imprimindo-lhe uma qualidade específica. Os agravos à saúde, considerando os órgãos específicos de ação presentes em diversos processos produtivos, os quais os trabalhadores se expõem ao realizarem suas atividades laborais (MEDRONHO,

2003).

Na atual conjuntura da sociedade, os avanços tecnológicos e a globalização acabam por diminuir postos de trabalho e dificultar a produção em pequena escala, seja de produtos ou serviços, o que obriga os trabalhadores a buscar outras formas de trabalho para acompanhar o rápido desenvolvimento que se opera na área econômica e tecnológica (FERREIRA, 2008). No centro deste estudo colocamos a figura do catador, profissional banido do sistema produtivo convencional, que mantém na maioria das vezes condições de trabalho insalubres e perigosas. A renda destes trabalhadores também é motivo de preocupação, pois diversos fatores contribuem para que tenham uma renda bem abaixo da maioria da população, dentre elas a desorganização e a pouca quantidade e qualidade de material recolhido individualmente. No sistema de gestão de resíduos, observam-se de um lado a riqueza, o consumo, o desperdício, o descarte e, de outro, a miséria, a inclusão perversa dos catadores que vivem à margem deste sistema. Os excluídos do mercado formal de trabalho inserem-se em nichos de trabalho e de geração de renda dos setores mais pobres da população urbana, em uma realidade complexa nas práticas cotidianas de catação de lixo, ampliando, assim, a exploração daqueles que para sobreviver submetem-se a toda e qualquer exigência do mercado. De acordo com a Pastoral do Povo de Rua (2003), praticamente, são três os tipos de catadores de lixo: os chamados de "formiguinhas" ou catadores de rua que recolhem os detritos diretamente dos logradouros ou dos usuários, podendo ser vistos separando o lixo das lixeiras nas calçadas das cidades com sua inseparável

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carrocinha; os que trabalham em usinas de triagem, incineração e desidratação e, por fim, os que trabalham diretamente nos lixões recolhendo materiais aproveitáveis específicos, como alimentos, papel, papelão, alumínio, vidro etc. dos lixões e que são consumidos por estes sujeitos ou posteriormente vendidos aos donos de depósitos de lixo.

A tarefa principal dos grupos de catadores citados consiste em abastecer empresas

formalmente constituídas, que processam esses materiais para fabricação de outros produtos ou os exportam, objetivando quase sempre a comercialização. Por outro lado, temos o catador como um prestador de serviço social, que na maioria das vezes não é reconhecido pelo poder público e pela própria sociedade. O trabalho do catador deve começar pela coleta seletiva, e para tanto deve ter a participação da comunidade, com o apoio do próprio comércio e do poder público (FERREIRA, 2008).

A inclusão desses catadores ocorre de forma perversa. Dessa forma, pode-se inferir

que o catador de materiais recicláveis é incluído ao ter um trabalho, mas excluído pelo tipo de trabalho que realiza: trabalho precário, realizado em condições

inadequadas, com alto grau de periculosidade e insalubridade, sem reconhecimento social, com riscos muitas vezes irreversíveis à saúde, com a ausência total de garantias trabalhistas.

A valorização do trabalho do catador deve ser considerada tanto pelo aspecto do

benefício ambiental que proporciona, mas também pela geração de renda proporcionada, injetando capital-trabalho no meio econômico, que embora pouco significativo, deve ser considerado (FERREIRA, 2008). Há também que ser levado em conta a característica pública da atividade, já que

grande parte do lixo produzido na localidade é carreado gratuitamente, livrando o poder municipal de considerável parte do ônus gerado pela coleta de lixo. Neste aspecto gera-se de forma espontânea a figura conhecida como Relação de Parceria Público-privada (FERRREIRA, 2008).

O

lixão ou vazadouro é a forma mais inadequada de disposição de resíduos sólidos,

e

é caracterizada pela simples descarga dos resíduos sobre o solo, associado à

incineração a céu aberto. Os problemas causados por este método de disposição final não se limitam às áreas próximas ao depósito, e tem uma repercussão estética, sanitária, ambiental e social negativas. O lixão ainda constitui o método mais comum de disposição final nos municípios brasileiros.

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Quanto à realização da coleta desses resíduos, mostra-se uma tarefa árdua, que sujeita o catador a múltiplos riscos. Ainda assim, segundo Neves (2003), trata-se de “serviço socialmente tido como um dos mais desvalorizados”, ainda que seja uma tarefa fundamental para a sociedade, por livrá-la do convívio com doenças e pestes, e auxilia na manutenção da beleza da cidade. Além dos riscos inerentes, - que justificam, inclusive o adicional de insalubridade de grau máximo, especialmente pela presença de microrganismos -, os encarregados de recolher e dar destino aos resíduos desprezados precisam lidar com os agravos desses riscos, muitas vezes resultantes da negligência, do despreparo ou da falta de sensibilização de gestores públicos e privados e da sociedade. O atendimento a critérios de segurança e de higiene é fundamental para a prevenção de acidentes do trabalho, constituindo-se o seu uso uma obrigação do empregado e o seu fornecimento, um dever do empregador. Nesse sentido, o empresariado deve ser conscientizado de que a prevenção, levando-se em conta todos os fatores e consequências negativas do acidente do trabalho, é antes de tudo um investimento e não, uma despesa (CONCEIÇÃO; CAVALCANTE, 2001; NUNES, 2000). A Medicina do Trabalho compreende o estudo das formas de proteção à saúde do trabalhador, enquanto no exercício do trabalho, indicando medidas preventivas (Higiene do Trabalho) e remediando os efeitos através da medicina do trabalho propriamente dita (CESARINO JÚNIOR,1997). Com a implantação do Programa Nacional de Saúde do Trabalhador, objetivou-se reduzir os acidentes e doenças relacionadas ao trabalho, mediante a execução de ações de promoção, reabilitação e vigilância na área de saúde. Já o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), coadjuvante nesse processo, tem o papel de realizar, entre outros, a inspeção e a fiscalização dos ambientes do trabalho em todo o território nacional. Para cumprir tal atribuição, fundamenta-se na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e na Portaria n.º 3.214/19785, que criou as Normas Regulamentadoras (NRs), e, em 1988, as chamadas Normas Regulamentadoras Rurais (NRRs) aprovadas pela Portaria n.º 3.0676. Essas normas são compostas atualmente por 32 NRs e quatro NRRs, sendo continuamente atualizadas. Para prevenção dos riscos ambientais, a NR-9 – Programa de Prevenção de Riscos Ambientais.

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As doenças do trabalho, ou doenças ocupacionais/profissionais, são aquelas decorrentes da exposição dos trabalhadores aos riscos ambientais, ergonômicos ou de acidentes. Elas se caracterizam quando se estabelece o nexo causal entre os danos observados na saúde do trabalhador e a exposição a determinados riscos ocupacionais (CONCEIÇÃO, 2001). Portanto, se existir risco presente, a conseqüência inicial é a atuação sobre o

organismo humano que a ele está exposto, alterando sua qualidade de vida. Essa alteração pode ocorrer de diversas formas, dependendo dos agentes atuantes, do tempo de exposição, das condições inerentes a cada indivíduo e de fatores do meio em que se vive (CESARINO JÚNIOR, 1997).

O Brasil hoje dispõe de uma série de serviços voltados à prevenção de acidentes de

trabalho, entre eles o mais importante é o desenvolvido pelas CIPAS (Comissões

Internas de Prevenção de Acidentes) organizadas pelas empresas, compostas de representantes de empregadores e empregados, funcionando segundo normas fixadas pelo Ministério do Trabalho e voltadas ao serviço especializado em segurança e higiene do trabalho (NUNES, 2000).

O artigo 165 da Consolidação das Leis do Trabalho relata que, quando as medidas

de ordem geral não oferecem completa proteção contra os riscos de acidentes, caberá à empresa fornecer, gratuitamente, equipamentos de proteção individual, tais como: óculos, máscaras, luvas, capacetes, cintos de segurança, calçados, roupas

especiais e outros, que devem ser de uso obrigatório por parte dos empregados (CONCEIÇÃO, 2001).

Os EPIs podem ser definidos como todos os dispositivos de uso pessoal destinados

a preservar a incolumidade do empregado, quando do desempenho de suas

funções. Todo EPI deverá ser aprovado e registrado no Departamento Nacional de Segurança e Higiene do Trabalho – DNSHT (CONCEIÇÃO, CAVALCANTE, 2001). De acordo com CESARINO JÚNIOR (1997), aquele empregado que não obedece às normas de segurança e higiene do trabalho, inclusive quanto ao uso de EPIs, estará incorrendo em falta, uma vez que, de acordo com a Portaria nº 319, a empresa é obrigada a fornecer aos empregados, gratuitamente, EPI adequado ao risco e em perfeito estado de conservação e funcionamento, nas seguintes circunstâncias:

sempre que as medidas de proteção coletiva forem tecnicamente inviáveis ou não oferecerem completa proteção contra os riscos de acidentes de trabalho e/ou

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doenças profissionais e do trabalho; enquanto as medidas de proteção estiverem sendo implantadas; para atender as situações de emergência. O uso do EPI em catadores de lixo deve ser selecionado em função dos dados do estudo cuidadoso do trabalho executado e suas necessidades. A cada trabalho e para cada risco corresponde um equipamento de proteção individual. A seleção se fará não somente em função do risco, mas também em função das condições de trabalho (VIEIRA, 2000). Contudo, esta pesquisa objetiva analisar a importância do uso dos equipamentos de proteção individual em catadores de lixo através de uma revisão sistemática de literatura.

Justificativa

Consultando a literatura observei que não há uma preocupação do poder público em reduzir os acidentes de trabalho causados pela ausência do uso dos Equipamentos de Proteção Individual com a saúde dos catadores de lixo. Portanto, surgiu o interesse em pesquisar sobre o assunto considerando a vulnerabilidade explícita na qual essa classe está submetida. Justificando sua exposição a diversos riscos inerentes desta profissão.

.

Problema

Quais os riscos enfrentados pelos catadores de lixo pela não utilização dos Equipamentos de Proteção Individual (EPI’s)?

Objetivo

Evidenciar a importância do uso dos Equipamentos de Proteção Individual (EPI´S) em catadores de lixo.

Metodologia

Trata-se de uma pesquisa de natureza qualitativa, segundo Oliveira (2002), pois não emprega dados estatísticos como centro do processo de análise do problema. O

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método qualitativo não tem a pretensão de numerar ou medir unidades ou categorias homogênas. Quanto ao objetivo caracteriza-se como uma pesquisa explicativa, que de acordo Gil (2010), são as que mais aprofundam o conhecimento da realidade, pois têm como finalidade explicar a razão, o porquê das coisas. Caracteriza-se quanto ao procedimento como pesquisa bibliográfica, que segundo Gil (2010), é aquela elaborada com base em material já publicado, que inclui material impresso, como livros, revistas, jornais, teses, dissertações e anais de eventos científicos. Ele ainda aborda como a principal vantagem desse tipo de pesquisa o fato de ela permitir ao investigador a cobertura de uma variedade de fenômenos muito mais ampla do que aquela que poderia pesquisar diretamente. No entanto, ele traz que a pesquisa bibliográfica pode comprometer a qualidade da

pesquisa quando as fontes pesquisadas apresentam dados de forma equivocada. Portanto, ele afirma que o pesquisador deve se assegurar dos dados obtidos, analisar as informações, a fim de detectar possíveis incoerências ou contradições. Para Marconi e Lakatos (2002) a pesquisa bibliográfica que elas também chamam

de pesquisa de fonte secundária é a que abrange toda a bibliografia já publicada em

relação ao tema de estudo, desde jornais, revistas, teses, pesquisas, dentre outras

fontes. Além disso, elas trazem que a pesquisa bibliográfica não é uma simples repetição do que já foi dito ou escrito sobre o assunto, porém favorece um novo

enfoque ou abordagem do tema, podendo chegar a conclusões inovadoras. Já Oliveira (2002, p.119) defini: “ a pesquisa bibliográfica tem por finalidade conhecer

as diferentes formas de contribuição científica que realizaram sobre determinado

assunto ou fenômeno”. Como qualquer modalidade de pesquisa, a pesquisa bibliográfica desenvolve-se através de uma série de etapas. São elas: escolha do tema, levantamento

bibliográfico preliminar, formulação do problema, elaboração do plano provisório de assunto, busca das fontes, leitura do material, fichamento, organização lógica do assunto e redação (GIL, 2002).

O levantamento de artigos e outros estudos publicados entre 2000 e 2012 foi

realizado via internet nas seguintes bases de dados:

SciELO – Scientific Eletronic Library Online. “É uma biblioteca virtual piloto que abrange uma coleção selecionada de periódicos científicos brasileiros com base hospedada na Fapesp.” (GIL, 2002, p.74).

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LILACS – “Base produzida pelas instituições que integram o Sistema Latino- Americano e do Caribe de Informação em ciências da saúde e que registra a

literatura técnico científica [

Os artigos foram obtidos na íntegra através do próprio site ou através do link para as

revistas online. Sites oficiais brasileiros também foram consultados. Os descritores para o levantamento de artigos foram: Enfermagem, Equipamentos de Proteção Individual (EPI´S), catadores de lixo. Os textos foram selecionados a partir da leitura dos resumos em português, de acordo com a relação que tenha com o tema. Depois de lidos na íntegra eles foram novamente selecionados os que apresentavam algum grau de relevância para o estudo. Além disso, também foi feita uma busca nos livros e revistas que abordasse o tema em estudo. Foram excluídos artigos que não discutam a temática para os profissionais da equipe de enfermagem, bem como os artigos que disponibilizavam somente o resumo para a leitura e aqueles que não forem publicados entre os anos de 2000 a

2012.

Fatores que dificultaram o acesso a outros artigos para este estudo foram a falta de conhecimento da língua inglesa e disponibilidade apenas paga de alguns artigos.

]

publicada a partir de 1982” (GIL, 2002, p.72).

Estrutura do trabalho

Este estudo está constituído em três momentos. O primeiro momento mostra a maneira pela qual os catadores de lixo definem a condição de não ter saúde, onde alguns agravos são relacionados ao contato com o lixo, porém não consideram as influências do meio como determinantes incisivos na promoção e manutenção da saúde. No segundo momento é tratado sobre a importância dos Equipamentos de Proteção Individual (EPI’s), seu conceito e são listados os principais EPI’s disponíveis, além de informações importantes para assegurar a sua identificação e uso correto. Já o terceiro momento refere-se aos diversos tipos de agentes pelos quais os catadores de lixo estão expostos e aos acidentes de trabalho mais frequentes nesta ocupação.

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2. REFERENCIAL TEÓRICO

2.1 A Saúde e os Catadores de Lixo

Problemas relacionados ao lixo têm mobilizado as mais diversas áreas do

conhecimento no sentido de desenvolver tecnologias e propor alternativas com a intenção de minimizá-los. A alternativa mais difundida, estudada e incentivada atualmente é a reciclagem. A possibilidade de esgotamento das matérias-primas e a contaminação dos recursos naturais são as premissas ecológicas mais iminentes que justificam a necessidade de reciclar o lixo, pois essa medida “consiste em submeter produtos existentes no lixo a processos de transformação, de forma a gerar um novo produto” ( ROUQUAYROL, 1997).

É no trabalho e pelo trabalho que o homem é valorizado e reconhecido perante a

sociedade e utiliza-se deste para sua sobrevivência. Desta forma o trabalho passa a ter também uma acepção um tanto deletéria, isto é, o trabalho ao mesmo tempo em que dignifica o homem, também não é uma atividade necessariamente benéfica a sua saúde, na medida em que esta provoca fadiga e sofrimento (MADRUGA, 2002). Em se tratando dos danos à saúde humana, oriundos do contato com o lixo, devido “à diversidade de vias de transmissão e, especialmente, a ação dos vetores - biológicos e mecânicos - o raio de influência e os agravos à saúde mostram-se de difícil identificação” (HELLER, 2007). Contudo, as morbidades mais freqüentes,

advindas do contato humano direto ou indireto com o lixo são as doenças diarréicas, diretamente relacionadas à lavagem das mãos, e aquelas transmitidas por vetores biológicos e mecânicos. Outra situação potencialmente insalubre diz respeito ao reaproveitamento de alimentos e de outros objetos encontrados no lixo como bijuterias, brinquedos, vasilhames, utensílios etc., sendo importante destacar que a própria natureza do trabalho pode comprometer a integridade física, além de outros percalços que podem afetar a saúde. Em si mesma, tal problemática justifica o interesse que a enfermagem e demais profissões da área da saúde (REGO, 2002) devem dispensar

a esses trabalhadores que, mesmo não possuindo vínculo empregatício formal,

crescem numericamente a cada dia e integram a clientela dos serviços de saúde

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conveniados ao Sistema Único de Saúde (SUS) ( DALL´AGNOL; FERNANDES,

2007).

A Saúde e o autocuidado entre catadores de lixo convergiram manifestações para uma única certeza: ter saúde é não contrair uma doença grave. Para os profissionais desta área a condição de não ter saúde relaciona-se diretamente ao acometimento de doenças como o câncer, AIDS, tuberculose, leptospirose dentre outras (DALL’AGNOL; FERNANDES, 2007). Sobre esse assunto, Miura (2004) comenta que os catadores não parecem preocupados com os prejuízos provocados à saúde pelo trabalho, estes são suplantados pelo fato dessa atividade garantir sua subsistência e promover sua inserção social e profissional. Segundo a autora, as dores nas pernas, a intoxicação pelo lixo, os cortes, os arranhões, tudo isso pode ser curado, o que é mais dolorido do que tudo isso é a fome. Porto (2004) ressalta que os catadores percebem o lixo como fonte de sobrevivência, a saúde como capacidade para o trabalho e, portanto, tendem a negar a relação direta entre o trabalho e problemas de saúde. O entendimento de saúde limitou-se à esfera biológica, considerando o corpo o marcador por excelência dos estados de saúde e doença. Embora tenham apontado alguns agravos à saúde que podem ser adquiridos no contato com o lixo, não houve avaliação afirmativa no sentido de considerar as influências do meio como determinantes incisivos na promoção e manutenção da saúde(CASAS, 2006). Mesmo reconhecendo que as doenças respiratórias e as alergias podem ser adquiridas através do lixo, não foi conferida preocupação com tais doenças, mediante o argumento de que são passíveis de cura com o uso de medicação. Na concepção das participantes, essas doenças passam quase despercebidas, o que incomoda é o fato de ir morrendo aos pouquinhos e, então, estabeleceram associações com o sofrimento de quem tem câncer. Ou seja, a possibilidade de cura determina a importância de uma moléstia para a manutenção do status de saudável (DALL’AGNOL; FERNANDES, 2007). Segundo o estudo de Rego (2002) depreendeu-se dos debates que os catadores de lixo avaliam as condições de vida e saúde quantitativamente, ou seja, atêm-se à prioridade de ter que assegurar a sobrevivência e não com base numa medida qualitativa, que diz respeito ao prazer de viver, condição semelhante já sinalizada

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em estudo anterior. Ter saúde está muito vinculado à possibilidade de poder trabalhar, indiferentemente das condições que o trabalho ofereça. Essa concepção denuncia o quanto está distante a noção de salubridade que busca contemplar condições adequadas de trabalho e a separação do lixo, não apenas pelo caráter informal, mas principalmente pelos riscos que oferece, é legalmente considerada insalubre (BENSOUSSAN; ALBIERI, 2000). Ampliando o enfoque para além das fronteiras do trabalho, cabe destacar ainda que a saúde é o resultante das necessidades sociais plenamente atendidas, no sentido de obter vida digna e com qualidade (ROSA, 2005), o que não é observado no caso desses trabalhadores. A informalidade e a pobreza são problemas que persistem e toda essa complexa rede interage com a saúde do sujeito, pois permeia várias dimensões do bem-estar físico, psíquico e social (ROSA, 2005). A geração de renda sem dúvida representa parte da solução, uma garantia mínima para a própria sobrevivência e de suas famílias.

2.2 A importância dos Equipamentos de Proteção Invididual (EPI´S)

Conforme a NR 06 (Norma Regulamentadora), EPI é todo e qualquer dispositivo ou produto, de uso individual, utilizado pelo trabalhador, destinado a proteção de riscos susceptíveis de ameaçar a segurança e a saúde no trabalho. Sendo, a empresa, obrigada a fornecer aos empregados, gratuitamente, EPI adequado ao risco, em perfeito estado de conservação e funcionamento, sempre que, as medidas de ordem geral não ofereçam completa proteção contra os riscos de acidentes do trabalho ou de doenças profissionais e do trabalho; enquanto as medidas de proteção coletiva estiverem sendo implantadas; e para atender a situações de emergência. Os organismos patogênicos podem habitar por tempo indeterminado as embalagens, frascos e restos de lixo. Larvas do mosquito da dengue, por exemplo, podem ser carregadas de um lado para o outro, dentro de embalagens velhas ou mesmo em latinhas encontradas nas ruas, sem que as pessoas envolvidas no processo de reciclagem saibam. Sendo assim, os EPI’s são equipamentos fundamentais nos processos de reciclagem, tanto para os catadores quanto para o pessoal que trabalha separando os materiais ou na reciclagem propriamente dita.

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De acordo com FERREIRA (2000), a utilização de equipamentos de proteção individual ocorre de maneira indiscriminada e sem serem observados critérios

definidos, desconsiderando-se a diretriz doutrinária que define o EPI como último recurso a ser utilizado na prevenção de acidentes e doenças, após esgotadas todas

as

possibilidades de proteção coletiva.

O

EPI deve proteger contra os riscos dos locais de trabalho e, ao mesmo tempo,

deve dar proteção contra as condições de trabalho incômodas e desagradáveis; ademais, deve oferecer a proteção mais completa possível à região do corpo ameaçada diretamente (CONCEIÇÃO, 2001). Um aspecto de grande relevância diz respeito à educação e à preparação prévias do trabalhador no tocante à aceitação do EPI como rotina no trabalho, de modo que o mesmo se torne, psicologicamente, conscientizado, da sua importância e da necessidade do seu uso, em benefício de sua própria segurança. É importante evidenciar a necessidade da predominância das medidas de proteção coletiva - MPC sobre as de proteção individual, como aquelas que realmente podem assegurar a proteção da saúde do trabalhador independentemente do seu comportamento individual (CONCEIÇÃO, 2001). Cabe ainda para a empresa, exigir o uso dos EPI’s pelos seus funcionários durante a jornada de trabalho, realizar orientações e treinamentos sobre o uso adequado e a devida conservação, além de substituir imediatamente, quando danificado ou extraviado. Como em todas as relações empregador – empregado, os trabalhadores têm seus direitos e deveres, nessa situação não é diferente, sendo responsabilidade dos empregados, usar corretamente o EPI, e, apenas durante o trabalho, mantendo sempre em boas condições de uso e conservação (VICENTE, 2003). Abaixo, estão listados os principais itens de EPI disponíveis, além de informações importantes para assegurar a sua identificação e o uso correto:

PROTEÇÃO DA CABEÇA: Capacete – proteção do crânio contra impactos, choques elétricos e no combate a incêndios; Capuz - Proteção do crânio contra riscos de origem térmica, respingos de produtos químicos e contato com partes móveis de máquinas.

PROTEÇÃO DOS OLHOS E FACE: Óculos - Proteção contra partículas, luz intensa, radiação, respingos de produtos químicos; Protetor facial - Proteção do rosto.

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PROTEÇÃO DA PELE: Proteção da pele contra a ação de produtos químicos em geral.

PROTEÇÃO DOS MEMBROS SUPERIORES: Luvas de proteção, mangas, mangotes, dedeiras - Proteção de mãos, dedos e braços de riscos mecânicos, térmicos e químicos.

PROTEÇÃO DOS MEMBROS INFERIORES: Calçados de segurança, botas e botinas - Proteção de pés contra agentes cortantes e escoriantes; , dedos dos pés e pernas contra riscos de origem térmica, umidade, produtos químicos, quedas; meias de segurança para proteção dos pés contra baixas temperaturas

PROTEÇÃO CONTRA QUEDAS COM DIFERENÇA DE NÍVEL: Cintos de segurança tipo páraquedista e com talabarte, trava quedas, cadeiras suspensas - Uso em trabalhos acima de 2 metros.

PROTEÇÃO RESPIRATÓRIA: Máscaras de proteção respiratória - Proteção do sistema respiratório contra gases, vapores, névoas, poeiras ou partículas tóxicas.

PROTEÇÃO PARA O CORPO EM GERAL: Calças, conjuntos de calça e blusão, aventais, capas - Proteção contra calor, frio, produtos químicos, umidade, intempéries.

Muitos trabalhadores e empresas, que não utilizam o EPI se baseiam em alguns mitos como desculpa que não mais servem como argumento. O mito mais constante, “EPI são desconfortáveis” já está ultrapassado, pois hoje em dia eles são confeccionados com materiais leves e confortáveis, a sensação de desconforto está associada a fatores como a falta de treinamento e ao uso incorreto. Outro comum, “EPI são caros” também não comporta com a não-utilização, estudos comprovam que os gastos relativos a eles representam em média, menos de 0,05% dos investimentos (VICENTE, 2003). O trabalhador recusa-se a usar, somente quando não está consciente do risco e da importância de proteger sua saúde. Assim como na década de 80, quase ninguém usava cinto de segurança nos automóveis, com a divulgação dos benefícios e a conscientização da população, hoje, a maioria dos motoristas usa e reconhece a importância deste dispositivo (NUNES, 2000).

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Usar corretamente os EPIs é um tema em constante evolução, exigindo reciclagem contínua dos profissionais responsáveis, para assim, encontrarem medidas cada vez mais econômicas e eficazes para proteção dos trabalhadores, além de evitar problemas trabalhistas. O desenvolvimento da percepção do risco aliado a um conjunto de informações e regras básicas de segurança são ferramentas fundamentais para evitar à exposição e assegurar o sucesso das medidas individuais de proteção a saúde das pessoas (VICENTE, 2008). Visando, o bem estar do trabalhador através da organização do trabalho, o subitem 17.6 da NR 17 contempla, dentre outras considerações, que: em todos os locais de trabalho deve haver iluminação adequada, deve levar em consideração, o modo operatório; a exigência de tempo; a determinação do conteúdo de tempo; o ritmo de trabalho; entre outros e, em seu item 17.6.3, consta que: nas atividades que exijam sobrecarga muscular a partir da análise ergonômica do trabalho, deve ser observado que devem ser incluídas pausas para descanso; serão exigidas medidas especiais que protejam os trabalhadores contra a insolação excessiva, o calor, o frio, a umidade e os ventos inconvenientes, entre outros. De acordo a NR 9, a utilização de EPI no âmbito do programa deverá considerar as Normas Legais e Administrativas em vigor e envolver no mínimo:

a) seleção do EPI adequado tecnicamente ao risco a que o trabalhador está exposto

e à atividade exercida, considerando-se a eficiência necessária para o controle da exposição ao risco e o conforto oferecido segundo avaliação do trabalhador usuário; b) programa de treinamento dos trabalhadores quanto à sua correta utilização e orientação sobre as limitações de proteção que o EPI oferece;

c) estabelecimento de normas ou procedimento para promover o fornecimento, o

uso, aguarda, a higienização, a conservação, a manutenção e a reposição do EPI, visando garantir as condições de proteção originalmente estabelecidas; d) caracterização das funções ou atividades dos trabalhadores, com a respectiva identificação dos EPI’s utilizados para os riscos ambientais.

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A figura abaixo ilustra alguns dos tipos de EPI’s :

20 A figura abaixo ilustra alguns dos tipos de EPI’s : Figura 1- Equipamento de proteção

Figura 1- Equipamento de proteção Individual (EPI) Fonte: www.rocostabrasil.com.br

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2.3 Uma população exposta a diversos tipos de agentes

Com o crescimento da população nas cidades, os serviços realizados por equipes

de limpeza pública e catadores de lixo tendem a se tornar cada vez mais complexo.

O contato frequente com agentes nocivos à saúde torna o recolhimento do lixo um

trabalho arriscado e insalubre, executado normalmente por pessoas humildes, que recebem pouca consideração por parte da sociedade.

Os catadores de lixo existem em praticamente todos os vazadouros de resíduos. Ao remexerem os resíduos vazados, à procura de materiais que possam ser comercializados ou servir de alimentos, os catadores estão expostos a todos os tipos de contaminação presentes nos resíduos, além dos riscos à sua integridade física por acidentes causados pelo manuseio dos mesmos e pela própria operação do vazadouro. Esta população, que normalmente vive próxima aos vazadouros, serve de vetor para a propagação de doenças originadas dos impactos dos resíduos, uma vez que parte da mesma trabalha em outras localidades, podendo transmitir doenças para pessoas com quem mantém contato.

A exposição da saúde humana e ambiental aos agentes danosos a partir dos lixões

ocorre de duas formas: pelo modo direto, quando há um contato estreito do organismo humano com agentes patogênicos presentes no lixão, e pelo modo indireto, por meio da amplificação de algum fator de risco, que age de forma descontrolada sobre o entorno e por três vias principais, a saber: a ocupacional, a ambiental e a alimentar. A via ocupacional particulariza-se pela contaminação dos catadores, que manipulam substâncias consideradas perigosas sem nenhuma proteção. Embora atinja uma parcela reduzida da população, esta via manifesta a forma mais agressiva de contaminação (Gonçalves, 2005).

A via ambiental caracteriza-se pela dispersão dos agentes contaminadores pelo ar,

advindos da putrefação de restos alimentares e de animais mortos, infestação do chorume nos corpos d'água superficiais ou infiltração no lençol freático em solos permeáveis e pela produção de gás metano em virtude da decomposição dos resíduos ou proliferação de bactérias anaeróbias, o que, "além de contribuir para o efeito estufa, pode criar verdadeiras bombas" (Lima e Ribeiro, 2000). Por fim, há a via alimentar, caracterizada pela contaminação dos catadores ou residentes próximos aos lixões em virtude da ingestão de restos de comida

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encontrados e de animais que freqüentam este espaço e se alimentam dos resíduos in natura em disputa com os humanos. Ao interagirem com a cadeia alimentar, esses animais poderão transmitir doenças, tanto àqueles de sua espécie como ao homem, elo final dessa cadeia (NUNES, 2002).

Os trabalhadores diretamente envolvidos com os processos de manuseio, transporte

e destinação final dos resíduos, formam uma população exposta. A exposição se dá

notadamente: pelos riscos de acidentes de trabalho provocados pela ausência de treinamento, pela falta de condições adequadas de trabalho e pela inadequação da tecnologia utilizada à realidade dos países em desenvolvimento; e pelos riscos de contaminação pelo contato direto e mais próximo do instante da geração do resíduo, com maiores probabilidades da presença ativa de microorganismos infecciosos (An et al.,1999; Ferreira,1997; Sivieri,1995; Velloso et al.,1998). Conforme Corrêa (2009), o conceito legal de insalubridade é dado pelo artigo 189 da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT):

“Serão consideradas atividades ou operações insalubres aquelas que, por sua natureza, condições ou métodos de trabalho, exponham os empregados a agentes

nocivos à saúde, acima dos limites de tolerância fixados em razão da natureza e da intensidade do agente e do tempo de exposição aos seus efeitos”, (CORRÊA, 2009). Conforme o artigo citado, a realidade dos catadores de lixo é contraditória, pois encontram-se em total exposição aos agentes patogênicos, tornando-se desumano

a sua atividade, por não apresentar nenhuma forma de segurança do trabalho para

os mesmos. Os mais frequentes agentes físicos, químicos e biológicos presentes nos resíduos sólidos municipais e nos processos dos sistemas de gerenciamentos, capazes de interferir na saúde humana e no meio ambiente são (Colombi et al., 1995; Ferreira, 1997; Velloso, 1995):

· Agentes físicos, mecânicos e ergonômicos – O odor emanado dos resíduos pode causar mal estar, cefaléias e náuseas em trabalhadores e pessoas que se encontrem proximamente a equipamentos de coleta ou de sistemas de manuseio, transporte e destinação final. Ruídos em excesso, durante as operações de gerenciamento dos resíduos, podem provocar a perda parcial ou permanente da audição, cefaléia, tensão nervosa, estresse, hipertensão arterial. Um grande agente comum nas atividades com resíduos é a poeira, que pode ser responsável por desconforto e perda momentânea da visão, e por problemas respiratórios e

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pulmonares. Em algumas circunstâncias, a vibração de equipamentos, bem como o peso dos lixos recolhidos (na coleta, por exemplo) pode provocar lombalgias e dores no corpo, além de estresse. Responsável por ferimentos e cortes nos trabalhadores da limpeza urbana, os objetos perfurantes e cortantes são sempre apontados entre os principais agentes de riscos nos resíduos sólidos. Nem sempre lembrada, a questão estética é bastante importante, uma vez que a visão desagradável dos resíduos pode causar desconforto e náuseas; · Agentes químicos – Nos resíduos sólidos municipais pode ser encontrada uma variedade muito grande de resíduos químicos, dentre os quais merecem destaque pela presença mais constante: pilhas e baterias; óleos e graxas; pesticidas/herbicidas; solventes; tintas; produtos de limpeza; cosméticos; remédios; aerossóis. Uma significativa parcela destes resíduos é classificada como perigosa e pode ter efeitos deletérios à saúde humana e ao meio ambiente. Metais pesados como chumbo, cádmio e mercúrio, incorporam-se à cadeia biológica, têm efeito acumulativo e podem provocar diversas doenças como saturnismo e distúrbios no sistema nervoso, entre outras. Pesticidas e herbicidas têm elevada solubilidade em gordura que, combinada com a solubilidade química em meio aquoso, pode levar à magnificação biológica e provocar intoxicações agudas no ser humano (são neurotóxicos), assim como efeitos crônicos (Kupchella & Hyland, 1993); · Agentes biológicos – Os agentes biológicos presentes nos resíduos sólidos podem ser responsáveis pela transmissão direta e indireta de doenças. Microorganismos patogênicos ocorrem nos resíduos sólidos municipais mediante a presença de lenços de papel, curativos, fraldas descartáveis, papel higiênico, absorventes, agulhas e seringas descartáveis e camisinhas, originados da população; dos resíduos de pequenas clínicas, farmácias e laboratórios e, na maioria dos casos, dos resíduos hospitalares, misturados aos resíduos domiciliares (Collins & Kenedy, 1992; Ferreira, 1997). Alguns agentes que podem ser ressaltados são: os agentes responsáveis por doenças do trato intestinal (Ascaris lumbricoides; Entamoeba coli; Schistosoma mansoni); o vírus causador da hepatite (principalmente do tipo B), pela sua capacidade de resistir em meio adverso; e o vírus causador da AIDS, mais pela comoção social que desperta do que pelo risco associado aos resíduos,já que apresenta baixíssima resistência em condições adversas. Além desses, devem também ser referidos os microorganismos responsáveis por dermatites. A

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transmissão indireta se dá pelos vetores que encontram nos resíduos condições adequadas de sobrevivência e proliferação;

· Agentes Sociais: que implica no treinamento e orientações adequadas dos

catadores de lixo, bem como a discriminação por parte da sociedade; segundo

Gesser e Zeni (2004), a história de vida dos catadores de materiais recicláveis é marcada pela vergonha, humilhação e exclusão social; sua ocupação é sentida como sendo desqualificada e carente de reconhecimento pela sociedade. A liberdade e o prazer sentidos no trabalho da rua, muitas vezes dão lugar a sentimentos mais confusos, onde a discriminação aparece. Nas casas, é comum descartar os objetos usados por eles. Nos bares e restaurantes, onde eles costumam parar para fazer um lanche, normalmente são servidos pelos fundos ou na rua, e até impedidos de usar o banheiro quando este se situa dentro do estabelecimento. Há casos ainda em que o trabalho na rua revela um outro lado que tem de ser vivenciado pelos trabalhadores que é a insegurança, o medo; o fato de trabalhar num espaço que não é de ninguém, onde o imprevisível e o inesperado fazem parte de seus cotidianos, (NEVES, 2003). Os catadores de lixo se vêem obrigados, diariamente, a ter que lidar com uma realidade tão universalmente adjeta, sem receberem salários condignos, socialmente equitativos, até mesmo quando comparados aos de outras categorias pertencentes ao setor terciário, no qual se inserem. Não existem, portanto, condições em que qualquer negociação social de prestigio profissional pudesse superar ambas as fontes de mal-estar psíquico em relação à vida e identidade profissional dos lixeiros (OLIVEIRA, 2008). Alguns dos acidentes mais frequentes entre trabalhadores que manuseiam diretamente os resíduos municipais (Ferreira, 1997; Velloso et al., 1997) são descritos a seguir:

· Cortes com vidros: caracterizam o acidente mais comum entre trabalhadores da

coleta domiciliar e das esteiras de catação de usinas de reciclagem e compostagem,

e também entre os catadores dos vazadouros de lixo. As estatísticas deste tipo de

acidente são subnotificadas, uma vez que os cortes de pequena gravidade não são, na maioria das vezes, informados pelos colaboradores, que não os consideram acidentes de trabalho. A principal causa destes acidentes é a falta de informação e conscientização da população em geral, que não se preocupa em isolar ou separar vidros quebrados dos resíduos apresentados à coleta domiciliar. A utilização de

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luvas pelo colaborador atenua, mas não impede a maior parte dos acidentes, que não atingem apenas as mãos, mas também braços e pernas; · Cortes e perfurações com outros objetos pontiagudos: espinhos, pregos, agulhas de seringas e espetos. Os motivos são semelhantes aos do item anterior. · Queda de veículo: devido a inadequação dos veículos para tal transporte, onde os trabalhadores são transportados dependurados no estribo traseiro, sem nenhuma proteção; e a elevada presença de alcoolismo entre trabalhadores da limpeza urbana (Robazzi, 1992); · Atropelamentos: além dos riscos inerentes à atividades, contribuem para o atropelamento a sobrecarga e a velocidade de trabalho a que estão sujeitos os trabalhadores e o pouco respeito que os motoristas em geral têm para os limites e regras estabelecidas para o trânsito. Também deve ser lembrada a ausência de uniformes adequados (sapatos resistentes e antiderrapantes e roupas visíveis); e · Outros ferimentos: ferimentos e perdas de membros por prensagem em equipamentos de compactação, mordidas de animais (cães e ratos). Com relação a doenças ocupacionais relacionadas às atividades com resíduos sólidos municipais, as micoses são comuns, aparecendo mais freqüentemente nas mãos e pés, onde as luvas e calçados estabelecem condições favoráveis para o desenvolvimento de microrganismos. Índices relativamente altos de doenças coronarianas e hipertensão arterial têm sido detectadas entre colaboradores da limpeza urbana. Em relação a acidentes de trabalho e condições insalubres ligadas à saúde do trabalhador, especificamente, Porto, Juncá, Gonçalves e Filhote (2004) ressaltam que a forte carga física da catação, somada ao trato com o lixo, e a própria rotina de trabalho são fatores que predispõem a certos tipos de doenças associadas ao trabalho, entre elas: dores corporais, problemas osteo-articulares e hipertensão. Segundo Barbosa Filho (2008), o que diferencia o acidente de trabalho da doença é que enquanto o acidente tem uma resposta abrupta como resultado, à curto prazo, estando geralmente associado a danos pessoais e perdas materiais e, consequentemente, mais visível quando ocorre, a doença, na maioria das vezes, apresenta uma resposta lenta, a médio e longo prazo, podendo resultar, pela ausência de sintomas (inicialmente), em detecção tardia. No que tange às ocorrências de doenças e de acidentes ocupacionais, envolvendo exclusivamente os profissionais da coleta de resíduos, lamentavelmente, segundo

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Ferreira (2001), nos países latino-americanos não existem dados e informações sistematizados sobre acidentes de trabalho. Quanto à doenças relacionadas ao trabalho com resíduos sólidos municipais, as informações praticamente inexistem, (FERREIRA, 1997)*. An et al (1999)* apud Ferreira;

Anjos (2001) complementam ainda, que, “existem poucos estudos epidemiológicos sobre a saúde dos trabalhadores dos sistemas de gerenciamento de resíduos sólidos municipais, mesmo nos países desenvolvidos”. Com relação aos acidentes, segundo Cardozo et al (2005), “os coletores de lixo constituem uma população particularmente vulnerável aos acidentes fatais e não fatais, conforme se constata em diferentes países”. Segundo artigo de KUIJER & FRINGS-DRESEN (2004)* apud Cardozo et al (2005), nos EUA, a atividade de coleta de lixo é a sétima mais perigosa, sendo o risco de morte para o coletor 10 vezes maior em relação às demais ocupações americanas, e o transporte de lixo responde por 70% dessas mortes. Complementam que a coleta de lixo condiciona o trabalhador a um quadro mórbido variado, afetando as condições músculo esqueléticas, o sistema respiratório, o sistema auditivo, o sistema gastrointestinal, além das consequências decorrentes da fadiga. Cardozo et al (2005) relatam também que, nos países europeus, aparentemente, prevalecem os acidentes músculo esqueléticos (p. ex. distensões), enquanto nos EUA, como nos países em desenvolvimento, predominam as lacerações nas mãos e membros superiores e inferiores, além das quedas e fraturas, devendo-se, possivelmente, à forma de acondicionamento, haja vista que, enquanto na Europa são usadas caçambas ou containers, nos EUA (ENGLEHARDT, 2000)* e Canadá (GRATTON, 2001)*, assim como no Brasil (VELLOSO et al, 1997)*, a forma usual é o uso de saco plástico. Os efeitos adversos dos resíduos sólidos municipais no meio ambiente, na saúde

coletiva e na saúde do indivíduo são reconhecidos por diversos autores (

apontam as deficiências nos sistemas de coleta e disposição final e a ausência de uma política de proteção à saúde do trabalhador, como os principais fatores geradores desses efeitos, (FERREIRA; ANJOS, 2001). Os problemas de saúde apontados estão sempre relacionados com a corrida, os movimentos ou até no apanhar os sacos de lixo, nunca com seu conteúdo. No entanto, é exatamente em função do objeto do seu trabalho, o lixo, que a sua função

),

que

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é classificada pelo Ministério do Trabalho como insalubre em grau máximo, (NEVES,

2003).

A rotina diária do catador é exaustiva e realizada em condições precárias, conforme

afirma Magera (2003):

Muitas vezes, ultrapassa doze horas ininterruptas; um trabalho exaustivo, visto as condições a que estes indivíduos se submetem, com seus carrinhos puxados pela tração humana, carregando por dia mais de 200 quilos de lixo (cerca de 4 toneladas por mês), e percorrendo mais de vinte quilômetros por dia, sendo, no final, muitas vezes explorados pelos donos dos depósitos de lixo (sucateiros) que, num gesto de paternalismo, trocam os resíduos coletados do dia por bebida alcoólica ou pagam-lhe um valor simbólico insuficiente para sua própria reprodução como catador de lixo (p.34).

De acordo com estudo realizado por Gorni (1998), em todos os resíduos de lixo, a emanação de odores fétidos, juntamente com a presença de substâncias tóxicas é uma realidade, causando desconforto e graves problemas de saúde, principalmente aos catadores de lixo, que manipulam diretamente o material, estando sujeitos à inalação das substâncias voláteis presentes no lixo em decomposição. O período diário de exposição a estas substâncias, destacam, é suficientemente longo para que, à médio prazo, possa causar danos à integridade da saúde destes trabalhadores, podendo ser seriamente comprometida devido à presença de substâncias altamente tóxicas no lixo em decomposição. Dentre os compostos sintéticos presentes na composição da mistura em que se transforma o lixo, as dioxinas são as substâncias que apresentam o maior grau de toxicidade. Outra substância extremamente tóxica presente no lixo em decomposição são os hidrocarbonetos aromáticos policíclicos (PAHs), pessoas que respiraram ou manusearam por longos períodos de tempo estas substâncias, desenvolveram câncer de pulmão ou de pele (de acordo com dados da “Agency for Toxic Substances and Disease Registry”). Uma das questões mais graves acerca da inalação destas substâncias é que seus efeitos não se manifestam à curto prazo. A manifestação da toxicidade começa de maneira relativamente leve através de irritações na pele e nas mucosas, (GORNI, 1998). O termo toxicidade refere-se ao nível de envenenamento que uma determinada substância pode provocar num organismo, desorganizando o seu equilíbrio interno podendo, inclusive, levar à morte e que a ação das dioxinas no organismo é cumulativa. Os danos que provocam à saúde vão desde leves lesões na pele até o câncer, (GORNI, 1998).

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A figura 2 ilustra os catadores de lixo sem o uso dos Equipamentos de Proteção

Individual (EPI).

lixo sem o uso dos Equipamentos de Proteção Individual (EPI). Figura 2: Catadores de lixo Fonte:

Figura 2: Catadores de lixo Fonte: www.acesso343.com.br

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Na tarefa de coletor de lixo, ele enfrenta algumas barreiras arquitetônicas como buracos, pedras, desnível no solo (aclive e declive), má sinalização e iluminação das vias públicas. Enfrenta também adversidades de cargas (lixo) que transporta. Estas dificuldades afetam a intervenção ergonômica, pois as tarefas desenvolvidas pelo coletor como o levantamento e transporte manual de carga (lixo), resultam em força excessiva. A repetitividade na tarefa e a postura inadequada são fatores que podem ser determinantes para o desenvolvimento de uma DORT (PAVELSKI, 2004).

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5. RESULTADOS E DISCUSSÃO

Dos 30 artigos e livros encontrados, apenas 22 foram selecionados para a realização deste trabalho, sendo que dos 08 excluídos, 04 não disponibilizavam os artigos na integra, apresentando apenas em resumo; 04 faziam parte dos artigos pagos, sem a permissão para os não integrantes/assinantes e também eram apresentados na língua inglesa, dificultando ainda mais o acesso.

O entendimento de saúde limitou-se à esfera biológica, considerando o corpo o

marcador por excelência dos estados de saúde e doença. Embora alguns estudos

tenham apontado alguns agravos à saúde que podem ser adquiridos no contato com

o lixo, não houve avaliação afirmativa, no decorrer da pesquisa, no sentido de

considerar as influências do meio como determinantes incisivos na promoção e manutenção da saúde (CASAS, 2006). Segundo estudo de Rego (2002), os catadores de lixo avaliam as condições de vida e saúde quantitativamente, ou seja, atêm-se à prioridade de ter que assegurar a

sobrevivência e não com base numa medida qualitativa, que diz respeito ao prazer

de viver (REGO, 2002).

Ter saúde está muito vinculado à possibilidade de poder trabalhar, indiferentemente das condições que o trabalho ofereça. Essa concepção denuncia o quanto está distante a noção de salubridade que busca contemplar condições adequadas de trabalho e a separação do lixo, não apenas pelo caráter informal, mas principalmente pelos riscos que oferece, é legalmente considerada insalubre (BENSOUSSAN, 2000). Ampliando o enfoque para além das fronteiras do trabalho, cabe destacar ainda que a saúde é o resultante das necessidades sociais plenamente atendidas, no sentido de obter vida digna e com qualidade (ROSA,

2005).

A informalidade e a pobreza são problemas que persistem e toda essa complexa

rede interage com a saúde do sujeito, pois permeia várias dimensões do bem-estar físico, psíquico e social. Em se tratando da atividade laboral, a reciclagem resolveu alguns problemas, entretanto, trouxe ou manteve outros. A geração de renda sem dúvida representa parte da solução, uma garantia mínima para a própria sobrevivência e de suas famílias (ROSA, 2005; DALL’AGNOL, FERNANDES, 2007). De acordo com Ferreira (2000), a utilização de equipamentos de proteção individual ocorre de maneira indiscriminada e sem serem observados critérios definidos,

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desconsiderando-se a diretriz doutrinária que define o EPI como último recurso a ser utilizado na prevenção de acidentes e doenças, após esgotadas todas as possibilidades de proteção coletiva (FERREIRA, 2000; CONCEIÇÃO; CAVALCANTI,

2001).

Em estudo realizado por Conceição; Cavalcanti (2001), foi questionado aos catadores de lixo sobre a importância do Equipamento de Proteção Individual (EPI), 49 (94,2%) admitiram que reconheciam a importância da utilização do mesmo, enquanto que 03 (5,8%) relataram desconhecimento quanto ao fato. Esses resultados vêm a confirmar que os funcionários estão cientes da importância do EPI

na prevenção de acidentes do trabalho (CONCEIÇÃO; CAVALCANTI, 2001).

O EPI deve proteger contra os riscos dos locais de trabalho e, ao mesmo tempo, deve dar proteção contra as condições de trabalho incômodas e desagradáveis; ademais, deve oferecer a proteção mais completa possível à região do corpo ameaçada diretamente (CONCEIÇÃO; CAVALCANTI, 2001). Um outro aspecto de grande relevância do estudo de Conceição; Cavalcanti 2001, diz respeito à educação e quando abordados sobre a segurança que os EPIs ofereciam, 35 (67,3%) dos funcionários responderam que se sentem protegidos ao usar os EPIs, e 17(32,7%) relataram que, apesar do uso dos mesmos, não se sentiam completamente protegidos no desempenho de suas funções. É importante evidenciar a necessidade da predominância das medidas de proteçao

coletiva - MPC sobre as de proteçao individual, como aquelas que real à preparação prévias do trabalhador no tocante à aceitação do EPI como rotina no trabalho, de modo que o mesmo se torne, psicologicamente, conscientizado, da sua importância

e da necessidade do seu uso, em benefício de sua própria segurança

(CONCEIÇÃO; CAVALCANTI 2001) Ainda relacionado a este mesmo estudo, ao serem questionados sobre a participação em algum curso sobre Segurança do Trabalho, 39 (75%) dos entrevistados responderam que já participaram e 13 (25%) dos funcionários não participaram de nenhum evento sobre segurança do trabalho (CONCEIÇÃO; CAVALCANTI, 2001). Ao abordar sobre os EPIs disponíveis no serviço, verificou-se que 25 (48,1%) dos funcionários utilizavam o fardamento completo acrescido de um outro EPI; 19 (36,5%) faziam uso de avental e mais um outro EPI; 4 (7,7%) usavam outros EPIs; e 4 (7,7%) disseram que não usavam nenhum EPI. Com relação ao recebimento de

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treinamento, quanto ao uso e conservação dos EPIs, 29 (55,7%) ou funcionários tinham recebido treinamento anterior, enquanto que os 33 (44,3%) restantes relataram não ter recebido treinamento referente ao uso e conservação dos EPIs (CONCEIÇÃO; CAVALCANTI, 2001). Problemas como a insalubridade do trabalho e a postura prejudicial ao corpo no ato de catar papel são passíveis de intervenções ergonômicas. Diversos são os problemas de saúde, tais como micoses, encontrados na população de trabalho dessa categoria de profissionais (GRINBERG et al, 2000). De acordo com a Norma Regulamentadora NR-6, a empresa deveriam fornecer aos funcionários Equipamentos de Proteção Individual (EPI) no sentido de evitar danos à saúde do trabalhador. Neste caso, seriam indicados EPI’s para a cabeça e para os membros superiores e inferiores, mesmo ciente do desconforto e do incômodo que venham a provocar (GRINBERG et al, 2000). Na pesquisa realizada por Grinberg et al (2000), problemas de dores na coluna são muito frequentes entre os Catadores de lixo. Isso devido à postura agachada adotada para a separação do material. Ciente deste problema, a administração da Cooperativa adquiriu uma ferramenta que permite o trabalho na posição de pé. Esta ferramenta, conhecida como giral, exige o trabalho em regime de mutirão, o que vem causando discordâncias entre os catadores de lixo. O giral funciona como uma grande mesa, com uma grade ao invés do tampo. Sobre esta grade é despejado o material a ser separado e conforme este é movimentado, as pequenas partes que não interessam caem no chão, restando sobre o giral apenas o material reciclável em condições de ser separado (GRINBERG et al, 2000). Esta iniciativa por parte da administração, do estudo de Coleta, pode contudo ser melhorada. As dimenssões do giral em questão não estão adaptadas às características físicas dos catadores, fato que provoca nestes uma certa aversão à ferramenta. O giral tem uma altura (distância da grade ao chão) constante e as pessoas possuem alturas diferentes. Assim, para alguns o giral é muito alto enquanto para outros, muito baixo (GRINBERG et al, 2000). A NR-17, que trata de Ergonomia, diz: (NR-17.4.1) “Todos os equipamentos que compõem o sistema de trabalho devem estar adequados às características psico- fisiológicas dos trabalhadores e à natureza do trabalho a ser executado.” Uma possível solução para este problema seria trabalhar com mais de um giral, dividindo os de lixo em grupos, de acordo com os seus tipos físicos (altura). Dessa forma,

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poder-se-ia, por exemplo, dividir os trabalhadores em três grupos e utilizar três girais; cada qual com uma altura compatível com o grupo que nele trabalha (GRINBERG et al, 2000). Apesar das suas características exploratórias e qualitativas, o presente estudo

aponta para a existência de problemas comuns entre os catadores de lixo em atividades insalubres e precarizadas. Alguns aspectos, porém, os distinguem, tendo em vista o tipo de trabalho que realizam e as condições em que o mesmo é exercido, acarretando problemas adicionais (PORTO, 2004).

No estudo realizado por Porto (2004), os catadores percebiam o lixo como fonte de

sobrevivência, a saúde como capacidade para o trabalho e, portanto, tendem a negar a relação direta entre o trabalho e problemas de saúde. Se a associação automática entre lixo e doença é pouco reconhecida, não há como se ignorar que

inúmeros são os riscos realmente existentes no trabalho de catação, riscos esses que podem ser exemplificados através dos acidentes relatados durante a pesquisa, podendo gerar lesões permanentes ou mesmo óbitos (PORTO, 2004).

A disponibilidade de equipamentos de proteção adequados, bem como a

conscientização sobre a importância de seu uso talvez pudesse contribuir para minimizar alguns destes acidentes, como cortes, perfurações e contusões diversas. Importantes medidas coletivas de proteção e higiene poderiam também ser adotadas, em especial no caso do trabalho na rampa, como é o caso do uso de sinal sonoro dos tratores quando esses engrenam a marcha a ré, alertando os catadores

da existência de perigo iminente (PORTO, 2004).

Em relação aos problemas de saúde e sintomas geralmente referidos pelos catadores de lixo, enfatiza a forte carga física no trabalho e a própria rotina de serviço, fatores esses que podem estar associados tanto às dores corporais, quanto aos citados problemas osteoarticulares e à hipertensão ou “nervosismo” (PORTO,

2004).

Não deixa de chamar atenção a baixa menção às doenças tipicamente relacionadas com o lixo, como diarréias, parasitoses, doenças de pele e leptospirose, dentre outras (FERREIRA, 2001; SISINNO, 2000, PORTO, 2004). Esse resultado precisaria ser melhor investigado futuramente, embora outros trabalhos também mencionem uma prevalência menor que a esperada de problemas de saúde em trabalhadores que manipulam lixo contrariando as expectativas para um ambiente tão insalubre (PORTO, 2004).

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Sem dúvida as condições de trabalho mais problemáticas se encontram na rampa, onde o trabalho a céu aberto e a circulação permanente no meio do lixo vazado entre caminhões e tratores acarretam riscos sérios para a saúde. Apesar desses riscos mais graves, são justamente os trabalhadores da rampa os mais desprotegidos devido às peculiaridades de sua história e organização. Não existe nenhuma instância coletiva ou institucional responsável por esses trabalhadores, e

qualquer iniciativa nesse sentido é vista como incentivo à sua permanência no local, o que contrariaria as premissas de gerenciamento adequado de um aterro sanitário ou controlado de resíduos (PORTO, 2004). Envolver efetivamente os catadores em qualquer processo de mudança é um dos aspectos que consideramos como fundamental para o alcance de qualquer melhoria em suas condições de saúde, vida e trabalho. E esse envolvimento deve ter como ponto de partida o investimento em discussões relativas à cidadania e à auto-estima, conforme dito por um catador de lixo entrevistado no estudo de Porto (2004): “nós omos tratados como os que precisam de ajuda, de salvação e têm uns que acham

que não somos gente

esperança aqui só existe de dois jeitos: pela força do nosso trabalho com os amigos que tão no mesmo barco ou de Deus” (PORTO, 2004). Se não forem reconhecidos e se reconhecerem como sujeitos com direitos e deveres, bem como se não conseguirem enfrentar os estigmas que cercam a atividade de catador de materiais recicláveis, dificilmente eles se envolverão integralmente em qualquer iniciativa que venha a ser proposta, continuando a apontar dificuldades, sem acreditar em possíveis saídas, ou então esperando que as resoluções sejam promovidas por “terceiros” ou por obra de algum milagre divino. (PORTO, 2004). Com tais considerações, nossa avaliação é a de que propostas que operem com paradigmas isolados, ainda que bem-intencionados, tenderão a reproduzir erros no encaminhamento de políticas e ações que visem resolver o problema. A questão é envolver os catadores com diferentes parceiros, considerando, sobretudo, que a problemática do lixo deve ser vista de forma integrada em suas múltiplas dimensões, não se esquecendo que existe uma cadeia produtiva em movimento e nela o catador tem um papel a desempenhar. Papel que ainda é desvalorizado pela sociedade, aproveitando-se disso os próprios agentes do circuito econômico da reciclagem – comerciantes e atravessadores de sucata, além das próprias indústrias – para

Nossa

Aqui nós somos seres humanos diferentes

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aprofundar as formas de exploração dos catadores em condições extremamente precárias e informais de trabalho e remuneração (FERREIRA, 2001; PORTO, 2004). Contudo, nas fronteiras da exclusão e da precariedade, esse grupo atua de forma silenciosa e vem lentamente se organizando em associações, cooperativas e busca ter seus direitos reconhecidos, o que pode ser constatado pela recente inclusão da ocupação catador de material reciclável na nova Classificação Brasileira de Ocupações de 2002. Tal perspectiva, se compreendida dentro da complexidade que envolve o tema, pode apontar para o resgate da dignidade de tais trabalhadores, inserindo-os no âmbito das políticas públicas abrangentes que integrem simultaneamente necessidades sociais, ambientais e de saúde pública (PORTO,

2004).

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6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este estudo possibilita-nos afirmar que a reciclagem de lixo vem se apresentando como nova modalidade de trabalho que tem atraído número cada vez maior de indivíduos. A cada dia surgem novas cooperativas de separação de lixo reciclável, nas grandes cidades, mas ainda não há uma política social e de saúde específica para atender as necessidades desse grupo expressivo de trabalhadores (VELLOSO, 2005; ROSA, 2005). Portanto, concluímos que a pobreza em que vivem os catadores de lixo faz com que o objetivo primordial seja garantir sua sobrevivência e de suas famílias, ignorando possíveis riscos do ambiente que são apreendidos como “parte” do trabalho e não como conseqüência desse. Ao diluir a capacidade de indignação, culminam em abafar e, por vezes, ignorar os próprios sentimentos que, dessa forma, são incorporados e vão tecendo a banalização da injustiça social. Essa ciranda de problemas sociais, que nada mais é que a subtração de oportunidades que esses sujeitos tiveram que enfrentar, ao longo da vida, possui seu eixo central no aspecto econômico, comprometendo direta e significativamente a saúde dos trabalhadores (ROSA, 2005). No entanto, constatamos com esta pesquisa que apesar das agruras do contexto, muitas vezes, depara-se com saberes manifestos e outros que se apresentam em estado de latência, prontos para serem resgatados e (re)construídos com os próprios sujeitos que vivenciam tal situação. Portanto, concluímos que não há como ignorar que as condições em que os catadores desenvolvem seu trabalho são extremamente precárias. Isso porque são inúmeros os riscos à saúde existentes na atividade de catação no lixo, os catadores são desprovidos de garantias trabalhistas que os amparem, principalmente em condições de acidentes do trabalho, doenças, aposentadoria, décimo terceiro e seguro desemprego. Além disso, são mal remunerados, vítimas de preconceitos e não são reconhecidos. Este estudo possibilita-nos evidenciar a contribuição das ações de saúde para a qualidade de vida de indivíduos ou populações. Da mesma forma, é sabido que muitos componentes da vida social que contribuem para uma vida com qualidade são também fundamentais para que indivíduos e populações alcancem um perfil

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elevado de saúde e bem-estar. É necessário mais do que o acesso a serviços médico-assistenciais de qualidade, é preciso enfrentar os determinantes da saúde em toda a sua amplitude, o que requer políticas públicas saudáveis, uma efetiva articulação intersetorial do poder público e condições de trabalho que propiciem satisfação e valorização pessoal (HELLER, 1997). A revisão de emergência, no momento atual de desenvolvimento, aponta para uma análise centrada em

estratégias de promoção da saúde que indicam, não somente as proposições do setor saúde, mas, também, que privilegie aspectos sociais, econômicos e culturais, e mudanças promissoras para o incremento da qualidade de vida das pessoas que vivem do lixo e em meio ao lixo, por meio de processos educativos populares. Constata-se com este estudo que proporcionar saúde significa, além de evitar doenças e prolongar a vida, assegurar os meios e situações que ampliem a qualidade da vida "vivida", que ampliem a capacidade de autonomia e o padrão de bem-estar que, por sua vez, são valores socialmente definidos, importando em valores e escolhas. Nessa perspectiva, a intervenção sanitária refere-se não apenas

à dimensão objetiva dos agravos e dos fatores de risco, mas aos aspectos

subjetivos, relativos, portanto, às representações sociais de saúde e doença nesse grupo de pessoas em particular, com precárias condições de trabalho para sua sobrevivência. E, nesse meio, no qual a segurança do trabalhador e sua saúde dependem de uma motivação pessoal e conhecimento sobre as circunstâncias de risco, vislumbra-se um modo de educação popular, baseada na experiência individual e coletiva desses trabalhadores.

À guisa das conclusões, evidentemente, é preciso levar em conta que o saber

isolado pouco resolve na prática se a fome é uma necessidade de primeira ordem.

Além da alimentação, outras premissas como habitação, lazer, educação, entre outras, todas evocadas nas teorizações sobre de saúde, necessitam estar

integradas na rede social de assistência. E isso não se limita a tão somente solucionar necessidades mais imediatas. Para o alcance de resultados efetivos é imprescindível mudança na lógica da política social (CASAS, 2006; ROSA, 2005).

A partir do levantamento bibliográfico concluímos que uma alternativa simples são

campanhas educativas direcionadas a todas as camadas da sociedade, esclarecendo sobre a maneira correta do acondicionamento do lixo e suas conseqüências e os problemas que poderiam ser evitados juntamente com a implementação da coleta seletiva do lixo. Os catadores deveriam receber

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orientações e treinamentos referentes à operacionalização do trabalho, evitando problemas ergonômicos por causa do esforço repetitivo, do levantamento de peso e posições incômodas a que ficam sujeitos; orientações e uso adequado de EPI’s e atividades laborais a fim de ter um alongamento e um aquecimento leve antes do trabalho, ministrados diariamente por um profissional qualificado. Sendo assim, os Equipamentos de Proteção Individual não se constituem os defensores dos acidentes para o empregado, porém, se usados adequadamente, podem prevenir a ocorrência de acidentes e doenças ocupacionais que podem se manifestar a médio e em longo prazo.

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