Você está na página 1de 4

Fonte: Die Zeit, 22/03/2007 n.13

Fazendo mágica com as coisas banais

Com Celular, seu livro de contos, o astuto escritor Ingo Schulze atinge novamente o auge de seu talento

Por Ulrich Greiner

“Por toda a parte há maravilhas / Por toda parte há muita vida / Na cinta-liga da vovó / Ou em algum lugar por aí perdidas.” São versos do bom e velho Joachim Ringelnatz, extravagante e frívolo como ele bem era, melancólico e jocoso, vendo o mundo com os olhos curiosos de uma criança e os zombeteiros de um idoso.

Ao ler os novos contos de Ingo Schulze, experimenta-se novamente aquela sensação despertada por Ringelnatz – como já acontecera com as Histórias simples da Alemanha Oriental, de 1998 [tradução brasileira de Simple Stories, 2002, Ed.

Lucerna]. Após seu longo romance Neue Leben [Novas vidas, inédito no Brasil], de 2005, ele volta às suas origens, mas agora causando um efeito ainda mais excêntrico

e que, à primeira vista, realmente “se perde”, porque as “treze histórias à maneira

antiga” (conforme anuncia o subtítulo do livro) raramente têm um desfecho cômico e não se pode dizer que tenham sempre um tema central.

É bem verdade que encontramos entre elas algumas das mais belas histórias de amor

que hoje em dia se possa imaginar, narradas com uma sentimentalidade inteligente e camuflada – e no entanto realista, por destacar que o amor também não consegue estar livre da lei do acaso. A esse acaso Schulze se entrega com alguma ousadia e por vezes beira o atrevimento. “Antes de contar sobre nossos dias em Käsmu, quero mencionar ainda um episódio que na verdade não tem nada a ver com esta história” é

o que lemos num dado momento, e o que vem em seguida é mesmo a mais pura

divagação. É preciso já estar bastante seguro da matéria de que se quer tratar contrariando regras e com aparente imprudência, mas o efeito surpreendente, extraordinário surge: a ilusão de realidade é perfeita. Ouvimos com atenção esse narrador sereno, que parece estar contando as coisas mais eletrizantes. É como se

nos tornássemos testemunhas de acontecimentos reais, palpáveis, como se não fôssemos meros leitores de um conto que alguém pôs no papel lançando mão de seus dons artísticos e intenções.

Essa arte que evita ao máximo ser arte, essa literatura do aparente não-literário, quanto mais tempo ficamos expostos a ela, mais parecemos estar sob o efeito de um

lance de gênio. Tomemos como exemplo o conto “Uma noite com Boris”. É com esse homem já não muito jovem que o narrador, não sabemos como, mantém amizade. Eles se conhecem superficialmente dos tempos de escola e se toparam várias vezes na vida. “Nós nos encontramos pouco antes do Natal perto da máquina de garrafas

recicláveis do mercado Extra, que aliás estava defeituosa. Boris ficou exageradamente

excitado, conforme me pareceu (

defeito

interessante.

)”

A máquina de garrafas recicláveis que apresenta

uma história que começa assim, ou se perde por completo ou fica

Há, então, um convite para o jantar, Boris gosta de cozinhar nas horas vagas, é um hobby seu. A noite começa sem qualquer sinal de descontração – o narrador, sua esposa e os outros quatro convidados pouco ou sequer se conhecem, Boris está atarefado na cozinha, e sua nova namorada, Elvira, uma garota, por assim dizer, assustadoramente jovem, se mantém calada. O grupo consegue vencer o jantar. “Até deixarmos a mesa e nos sentarmos nos sofás de quatro lugares, na verdade não aconteceu nada digno de nota.”

É mais uma daquelas frases atrevidas. De todo modo, até aí já se passaram dez páginas do livro, as quais acompanhamos até com certo interesse. Por quê? Primeiramente porque Schulze é um narrador privilegiado, que sabe descrever de modo sucinto pessoas e situações. Mas também porque todo leitor conhece o constrangimento de noites como aquela. Em certos momentos, a tensão se desfaz – graças aos efeitos do álcool, talvez – e caminha para assumir as dimensões de uma pequena catástrofe.

A catástrofe ali também paira no ar, já que ninguém terá deixado de perceber a crescente agitação entre Boris e Elvira. Ela fica evidente quando a moça pálida finalmente começa a falar e narra, de um modo ingênuo, uma história cotidiana. Quanto mais empolgada ela vai ficando, com mais freqüência Boris se intromete, agindo como um sabe-tudo e tornando-se cada vez mais insuportável. E, como a situação se torna incontrolável, outra personagem começa por sua vez a contar uma história, que então seguirá no diálogo com o marido Pawel (“Do jeito que você está contando ninguém vai entender”); e, nem bem encerrada, outro personagem inicia uma nova, só para que o clima de constrangimento não volte, e assim vão bebendo, contando suas histórias, até de repente perceberem que Elvira adormeceu. Também o leitor é tomado por uma leve sensação de sonambulismo, como se afinal de contas tudo o que acontecesse fosse digno de ser contado e como se, enquanto se contasse algo, nada pudesse acontecer.

No entanto, todas essas histórias internas não se mostram propriamente espetaculares. Tratam de uma viagem de barco nas férias ou de um primeiro encontro amoroso que não dá certo, e somente o narrador – de certo modo, portanto, Ingo

Schulze – confessa: “Eu mesmo não contei nada. Comigo não acontece nada que possa resultar numa espécie de história”. Entretanto, ocorre-lhe uma que ouviu

recentemente no rádio e ele imagina contá-la, sem fazê-lo porém, até onde se lê: “Ines

e Pawel disseram que iriam embora. Boris assentiu, mas nem ele nem os dois se

levantaram”. E qualquer um sabe que agora será tarde demais. O narrador é tomado por um tal cansaço que também ele cai no sono. Na manhã seguinte, fica sabendo por

Boris o porquê da agitação do amigo, mas aquilo não precisa ser recontado ali.

“No que dizia respeito ao sexo, Ute e eu parecíamos feitos um para o outro.”

Ingo Schulze trata o que é banal com toques de mágica. Fazendo-se de mero relator,

o que de todo modo acontece, ele faz banalidades resplandecerem. Num outro conto,

sobre um fato absolutamente curioso do cotidiano, lemos: “Algumas semanas mais tarde eu escrevi essa história. Talvez eu pudesse usá-la em lugar de um artigo de jornal que havia prometido. De qualquer modo, eu até então jamais havia copiado a realidade. Por isso meu propósito me parecia um tanto sinistro”.

Copiar a realidade? Quem quiser, pode ficar refletindo longamente sobre essa frase e provavelmente não chegará a nenhuma conclusão. O que está claro apenas é que Ingo Schulze faz um jogo astuto e no final libertador com as possibilidades do ato de escrever. Faz isso como se o narrador fosse idêntico ao Ingo Schulze real; mas, se observarmos com mais atenção, perceberemos que os diferentes narradores são reproduções de Schulze em grande escala, encarnando os diferentes aspectos de uma personalidade múltipla, com uma capacidade verdadeiramente monstruosa de prestar atenção e registrar o que há torno de si, uma personalidade que ao mesmo tempo é e não é Schulze.

Assim, há por exemplo ali o habilidoso homem de negócios naquele que é praticamente o mais belo conto do livro, “As confusões da noite de ano-novo”. A narrativa começa com a queda da RDA e com a igualmente agonizante história de amor entre o narrador e uma jovem atriz. Os dois são protagonistas daquele despertar entusiasmado, que por um momento traz à terra o paraíso – e ambos são um para o outro, nesse instante, um reflexo do que há de mais paradisíaco.

Mas aí começa a normalidade. O narrador, que havia copiado panfletos para uns manifestantes, abre pouco depois uma loja copiadora e, enquanto sua Julia atua num teatro distante da cidade, quando ele começa a ampliar seus negócios, é auxiliado por uma certa Ute. “No que dizia respeito ao sexo, Ute e eu parecíamos feitos um para o outro. ‘Nós trepamos loucamente’, disse Ute certa vez. Ela o disse como se dissesse ‘Estamos ganhando um dinheiro e tanto.’ Mas ela também poderia ter afirmado o

“Eu ainda tentei enfiar minha mão debaixo da blusa de Julia”

O final do grande amor aproxima-se de modo inevitável, o leitor percebe isso mais rápido que o narrador, que a propósito se prende à sua ex como se vivesse um grande sonho. E quando, dez anos depois, se aproxima a noite de ano-novo de 1999, ele finalmente reencontra Julia. Mas essa noite é na verdade tão confusa, como se o personagem marinheiro de Ringelnatz conhecido como Kuttel Daddeldu aportasse por lá. Pois de um certo modo põe-se de repente entre eles a atraentíssima Claudia e, quando ele finalmente abraça Julia, lemos: “Nós nos segurávamos, dois atores num ensaio, que esperavam pela próxima ordem do diretor. Eu ainda tentei enfiar minha mão debaixo da blusa de Julia, mas logo desisti”. Nesse momento, vemos que o que resta do ex-revolucionário é apenas o pequeno proprietário da loja copiadora, que se dá por satisfeito por ter sua Ute (com quem ele afinal acaba ficando).

Contada assim, a história transmite a sensação de ser direta e rápida, coisa rara em Schulze. Só que ali também são importantes uma escavadeira que topa com uma bomba não detonada no terreno; ou a espiada na janela do apartamento em frente, onde na véspera da virada do milênio um casal faz amor. É como naquele outro conto, em que Kevin, o filho do vizinho, que entra em coma, e uma ratoeira assumem um papel um tanto obscuro, inquietante.

Observando atentamente, nada é trivial, por toda parte há maravilhas, e o que Schulze demonstra em seu livro de contos consolador e belo ao mesmo tempo, ilustra bem aquilo que Kafka certa vez anotou: “A vida toda não passa de uma divagação que não nos permite nem perceber em relação a quê”. A única diferença é que Ingo Schulze nos ensina a adorar as divagações.

[Tradução de Marcelo Rondinelli]