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O Batalhão Sagrado de Tebas: militarismo e homoafetividade na Grécia

Antiga
Fortunato Pastore
1
Resumo: A intenção deste trabalho é compor uma explicação conjunta para a
grande capacidade militar do Batalhão Sagrado de Tebas, unindo atores e
interpretaç!es "ue, geralmente, se apresentam separadas ou com r#gil
$inculação% &s atores principais estão, re"uentemente, associados a "uatro
aspectos' a grande capacidade de liderança pol(tico)militar dos comandantes
do Batalhão, sobretudo de *paminondas+ a in$enção e utili,ação da t#tica da
-&rdem &bl("ua.+ a ligação homoaeti$a dos integrantes do batalhão e a
coesão pol(tica e social deste grupamento dentro da l/gica das p/leis gregas%
As di$ersas interpretaç!es tendem para um ou alguns destes atores e
diicilmente obser$a)se uma abordagem hol(stica da "uestão% A import0ncia
hist/rica deste singular grupamento pol(tico e militar não se redu, ao ato de ter
capacitado a condição de Hegemon grega para a 1idade de Tebas, mas pela
projeção "ue a combinação exitosa dos atores da sua in$encibilidade
combati$a te$e na ormação de unidades militares posteriores como a alange
maced2nica e, dois mil anos depois, as unidades regimentais prussianas de
Frederico, o 3rande%
Palavras-have' *paminondas+ 4omoaeti$idade e &rdem &bl("ua%
The Sacred Thebes Battalion: militarism and homo-affectivit! in Ancient
Greece
Abstract: The intention o this 5or6 is to compose a joint explanation it great
militar7 capacit7 o the Sacred Battalion o Thebes, joining actors and
interpretations that, generall7, i present separate or 5ith little entailing% The
main actors are oten associated 5ith our aspects' the great capacit7 o
leadership politician)militar7 man o the commanders o the Battalion, o$er all o
*paminondas+ the in$ention and use o the tactic o the -&bli"ue &rder.+ the
homoaeti$a lin6ing o the integrant ones o battalion and the cohesion social
and politic o this grouping inside o the logic o the 3ree6s poleis% The di$erse
interpretations tend or one or some o these actors and hardl7 a holistic
boarding o the "uestion is obser$ed% The historical importance o this singular
grouping politician and militar7 man is not scrumbled to the act to ha$e able the
condition o Hegemon 3ree6 or the 1it7 o Thebes, but or the projection that
the successul combination o the actors o its militant in$incibilit7 had in the
ormation o posterior militar7 units as macedonian phalanx and, t5o thousand
7ears later, the prussians regimental units o Frederico, the 3reat%
"e!#ords' *paminondas+ 4omo)aecti$it7 and &bli"ue &rder%
$%TRO&'()O
1
Prof. Adjunto do Curso de História, Campus de Três Lagoas, Universidade Federal de ato !rosso do
"ul.
Revista Trilhas da História. Três Lagoas, v.1, nº1 jun-nov 2011. p.39-51 #$
&s gregos da Antiguidade produ,iram uma "uantidade consider#$el
de literatura sobre a arte da guerra e a homossexualidade, mas os
momentos em "ue os dois temas se cru,am são poucos% As cidades
de 8lia e Tebas exploraram regularmente o ethos homossexual para
ins militares, habitualmente postando pares de namorados, um ao
lado do outro em batalha% Pouco se sabe da pr#tica militar 8liana,
mas o 9Bando Sagrado de Tebas9, organi,ado em :;< a%1%, não s/
oi inteiramente composto por amantes homossexuais, mas ormou o
n=cleo duro do ormid#$el exército tebano, até "ue oi esmagado por
Filipe da >aced2nia na batalha de ?ueronéia em ::< a%1%% &
comandante de Tebas, Pammenes, deendeu o emparelhamento de
amantes no campo de batalha como um princ(pio de organi,ação
militar, e oi uma pr#tica entre seus guerreiros "ue os membros mais
$elhos dos pares romanticamente ligados apresentassem os
conjuntos de armaduras para os membros mais jo$ens "uando eles
chegassem @ idade de luta% ABBC3, DEED, p% EFG%
Foi para tentar suprir essa lacuna entre os dois temas "ue este texto oi
pensado e, assim sendo, ele pretende demonstrar a relação entre a
capacidade militar e a homoaeti$idade na 3récia Antiga ao destacar a atuação
do Batalhão Sagrado de Tebas e, em especial, a sua principal igura,
*paminondas%
& Batalhão Sagrado de Tebas oi uma unidade de elite grega composta
por tre,entos homens, ormando cento e cin"Henta casais de amantes%
Segundo Plutarco, oi criado pelo comandante tebano 3/rgidas em :;< a%1%
APIBTAC1&, 1JJ1, p% E1G%
*m seguida @ sua criação por 3/rgidas, a orça oi organi,ada por
Pel/pidas% 1om a liderança de *paminondas, "ue introdu,iu no$as t#ticas na
guerra hopl(tica, tornou)se a melhor unidade militar grega e a mais ino$adora
até então surgida no ceio das 1idades)*stados helKnicas% 3raças @ existKncia
do batalhão, Tebas conseguiu a hegemonia na 3récia, no começo do século 8L
a%1%
& batalhão era mais conhecido como -Bando Sagrado. e a designação
de sagrado oi explicada, mais tarde, por Plutarco ao airmar "ue mesmo
!lat"o #hama o amor de um amigo #omo inspirado de Deus.9 APIBTAC1&,
1JJ1, p% ED% & grio é do autor%G%
& Batalhão Sagrado era muito temido pela sua bra$ura e enorme
coragem% *ram guerreiros ero,es "ue se mantinham unidos por laços
amorosos% &s hoplitas do Bando Sagrado jura$am "ue nunca dariam $antagem
Revista Trilhas da História. Três Lagoas, v.1, nº1 jun-nov 2011. p.39-51 %&
ao inimigo e nunca iriam ugir de um combate% Iuta$am em ileiras cerradas e
eram bastante disciplinados% As "uest!es da homossexualidade e do
treinamento (sico e militar eram undamentais no contexto das sociedades
erigidas sob a l/gica das póleis%
& proessor Maniel &gden, da Bni$ersidade de *xeter, le$antou
inormaç!es, bastante contundentes, de "ue a relação homoer/tica Aa( incluso
relaç!es sexuaisG esta$a eeti$amente associada @ cont(nua atuação militar e
isso, de maneira mais comum do "ue supostamente se acredita% * ele
estabeleceu esta $inculação não apenas para a cidade de Tebas, mas também
para as regi!es de 1#lcis, 1reta, Nlis, *sparta, >aced2nia e >égara%
D
G'*RRA * P+,*$S: &'AS -%AT'RA,$&A&*S. GR*GAS
& po$o helKnico, apesar de compor uma comunidade cultural coesa
Aidioma e religião, por exemploG, esta$a di$idido em cidades politicamente
aut2nomas, as 1idades)*stados A!óleisG, bastante ciosas de sua
independKncia e de seu territ/rio%
Lernant A1J<F, p% 1EG obser$a "ue a guerra era $ista como parte do agon,
isto é, do esp(rito de conronto "ue presidia não s/ as relaç!es humanas
como @ pr/pria nature,a+ o agon esta$a presente não s/ na ri$alidade "ue
as cidades mantinham entre si, mas nos Oogos Aonde ha$ia competiç!es
esporti$as, musicais e liter#riasG, nos processos do tribunal, nos debates
da assembléia etc%% AAIL8T&, 1J<<, p% 1P% & grio é do autor%G%
*sta coniguração pol(tica estimula$a uma constante situação de
disputa entre as cidades, tornando, dessa orma, a guerra um acontecimento
recorrente e $isto como natural pelos habitantes da antiga região da 3récia%
1l(nias, o cretense' -a"uilo "ue a maioria dos homens chama de pa, é
meramente uma aparKncia+ na realidade todas as cidades estão por
nature,a em um estado permanente de guerra não declarada contra todas
as outras cidades%. APIATQ&, DEEP, p% RDRa%G%
Até hou$e il/soos na AntigHidade "ue consideraram a 3uerra como
um $alor absoluto, "uase di$ino, uma orça dominante na 4ist/ria% 4er#clito
reconhecia "ue a 3uerra $% de todas as #oisas m"e, de todas rainha, e uns ela
revelou deuses, outros, homens& de uns 'e( es#ravos, de outros livres$ e
'
Maniel &3M*S, -4omosexualit7 and Tarare in Ancient 3reece. )n* Alan B% Ilo7d A*dG, +attle
in ,nti-uit.. Iondon' Muc65orth and 1PT, 1JJR% Pp% 1E;)1R<%
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escre$eu "ue $a /uerra e a justi0a s"o #ontraste e por meio do #ontraste todas
as #oisas se geram e #hegam 1 morte$.
:
1omo não ha$ia exército regular e proissional, as lutas eram
condu,idas pelos cidadãos, "ue exerciam outras ati$idades com principal onte
de sustento ) a maioria era composta de pe"uenos produtores rurais% Assim
sendo, as campanhas eram simples e os combates de$eriam ser decididos da
orma mais r#pida poss($el%
A batalha hopl(tica
P
, um decisi$o encontro de duas ormaç!es em
alange, com linhas de ata"ue ombro a ombro e objeti$ando o cho"ue direto e
rontal, nasceu na l/gica desse contexto de camponeses em situação de
soldado)cidadão%
Oohn Ueegan, no li$ro 2ma História da /uerra A1JJFG, le$antou a tese
de "ue o nascimento da orma ocidental de combate ocorreu no seio da alange
hopl(tica grega% 8sto "uer di,er, para Ueegan, "ue a estratégia militar ocidental
é direta, sempre tencionando um cho"ue r#pido e decisi$o, em oposição a um
pensamento militar oriental, "ue ad$oga a estratégia indireta% Portanto, estudar
a arte da guerra dos antigos gregos é entender a constituição da orma de
combate "ue $igora hoje no mundo, uma $e, "ue o &cidente tornou)se
militarmente dominante%
*PA/$%O%&AS * O BA%&O SAGRA&O &* T*BAS
A $it/ria da Iiga do Peloponeso, liderada por *sparta, contra a
1onederação de Melos, sob controle ateniense, na 3uerra do Peloponeso
AP:1)PEP a%1%G condu,iu os espartanos a um per(odo de grande hegemonia na
3récia% Murante a guerra, Tebas oi aliada de *sparta, mas com o crescimento
de *sparta na região tebana ) a Be/cia ) a situação mudou drasticamente
"uando o l(der tebano Amt#lcidas decidiu romper a aliança com *sparta, no
ano de :<R a%1%
Tebas, ao tentar ugir do controle "ue *sparta exercia na sua região,
enrentou a di$isão de sua elite entre oligarcas, $inculados aos espartanos, e
democratas, ligados a Atenas V como era comum na 3récia do per(odo
#
Adaptado de 4*CW1I8T& de Neso, ragmentos F: e <E 8n' S&BXA, Oosé 1a$alcante de
A&rg%G% !r%-3o#r4ti#os. São Paulo, Abril, 1J;:% Pp% JE e J:%
%
& nome $eio do hoplon, o escudo redondo "ue o soldado de inantaria pesada carrega$a%
Revista Trilhas da História. Três Lagoas, v.1, nº1 jun-nov 2011. p.39-51 %'
cl#ssico% &s oligarcas tomaram o poder em :<D a%1% graças @ ação de um
grande exército espartano% Para assegurar o poder oligarca, uma guarnição
espartana icou em Tebas na Cocha 1admea Ao e"ui$alente tebano da
acr/pole ateniense, assim chamada de$ido ao nome do lend#rio undador da
cidade, 1admo, o irmão da *uropa e o marido da 4armonia%G%
*ste ato $ergonhoso para os tebanos pro$ocou a reação dos l(deres
democratas, "ue ha$iam ugido para Atenas% 1om apoio dos atenienses eles
conseguiram expulsar os espartanos de Tebas% *ntre os l(deres dessa reação
esta$am Pel/pidas e *paminondas% A amosa -libertação. ocorreu em :;J a%1%
& ano seguinte $iu o nascimento do Batalhão Sagrado de Tebas, uma
$e, "ue *sparta não aceitou a derrota e en$iou no$as orças para submeter
Tebas no$amente e recuperar o controle sobre a Be/cia% & primeiro embate da
no$a ormação ocorreu na batalha de Tegira Aperto de &rc/menoG, dois anos
depois% *, pela primeira $e, na hist/ria, um exército espartano numericamente
superior oi derrotado em campo aberto%
So in(cio da batalha, o undador da unidade, 3/rgidas, decidiu usar a
tropa de elite de orma dispersa pelas linhas de batalha do exército tebano com
o intuito de ele$ar o moral e o esp(rito de luta de todos os combatentes%
1ontudo, no momento decisi$o, "uando as linhas espartanas abriram, o
comandante geral de Tebas, Pel/pidas, utili,ou o grupo como uma unidade
coesa e como se osse a sua guarda pessoal%
1om a $it/ria conseguida, decidiu)se "ue a unidade de$eria atuar
sempre dessa orma, ou seja, em grupo% * assim ela seguiu pelos seus
"uarenta anos de existKncia%
1om $ista a isso, eles i,eram da 4armonia, a ilha de >arte e LKnus, a
sua di$indade tutelar+ uma $e, "ue, onde a orça e a coragem se unem
com graça se ganha mais capacidade, uma harmonia "ue combina todos
os elementos da sociedade, em conson0ncia com a pereita ordem%
3/rgidas distribu(a o Bando Sagrado por todas as ileiras da inantaria,
assim, e, com "ue sua potKncia icasse menor, por não estarem unidos
em um s/ corpo, mas misturados com tantos outros de resolução inerior,
eles não tinham tido oportunidade de mostrar o "ue eles poderiam a,er%
>as Pel/pidas, tendo $isto suicientemente a sua bra$ura em Tegira, onde
eles lutaram como um bloco e em torno de sua pr/pria pessoa, nunca mais
os di$idiu depois disso, mas os mante$e inteiros, como um homem, e deu)
lhes o primeiro lugar nas maiores batalhas% 1omo ca$alos "ue correm mais
$igorosos em uma carruagem "ue isoladamente, não por"ue a sua orça
conjunta di$ide o ar com maior acilidade, mas por"ue ao serem colocados
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um com o outro, acende)se a emulação e inlama)se a coragem+ assim, ele
acredita$a "ue homens corajosos, pro$ocando um ao outro para aç!es
nobres, iriam se re$elar mais =teis e mais resolutos, com todos unidos%
APIBTAC1&, 1JJ1, YL888, p% 1<%G%
A $it/ria mais importante e amosa do grupamento ocorreu na batalha
de Ieuctras em :;1 a%1% e j# sob o comando geral de *paminondas% Para
reorçar o poder de coesão de sua orça de elite e baseado na sua experiKncia
de batalha e na obser$ação das alanges hopl(ticas, *paminondas criou um
dos pontos mais importantes para o desen$ol$imento da arte da guerra grega
e, portanto, ocidental, ao proceder a introdução da amosa -Ordem Obl01ua.%
*sta consistia na manutenção de uma grande e orte unidade militar,
no caso o Bando Sagrado, na retaguarda es"uerda da linha de batalha tebana
com o prop/sito de utili,#)la de orma integral e em grupo no momento e no
local decisi$o do engajamento%
* por "ue na ala es"uerdaZ A( est# a genialidade e,
concomitantemente, a simplicidade do brilhante arranjo t#tico de *paminondas%
*le obser$ou "ue, durante o conronto das linhas hopl(ticas, existia uma
tendKncia de os soldados deslocarem o mo$imento para a direita, com o intuito
de se proteger do cho"ue das lanças inimigas cobrindo)se também no escudo
do companheiro do lado%
1omo todos a,iam, instinti$amente, o mesmo mo$imento e "uase "ue
ao mesmo tempo, a linha deri$a$a para o lado, deixando o seu lanco direito
mais exposto e, portanto, mais raco e $ulner#$el%
*m suma, esta manobra en$ol$e a concentração de orças contra um
lanco oposto e usa orças secund#rias para distrair e sedu,ir as reser$as
opostas% *sta manobra é uma boa escolha se a orça oposta é superior, como
nas batalhas em "ue os tebanos enrentaram os espartanos%
A $antagem desta manobra é a habilidade de concentrar orça no ponto
mais raco do inimigo, negando seu ponto mais raco para atacar% A
des$antagem desta manobra é "ue o dese"uil(brio de orça pode ser
desastroso se o inimigo or capa, de reorçar, em tempo, o seu ponto mais
raco, ou, ainda, atacar com orça e $elocidade precisas o ponto mais raco da
tropa "ue est# utili,ando a ordem obl("ua%
*m Ieuctras, *paminondas também se utili,ou de outros arti(cios'
primeiramente, ao contr#rio do "ue prega$am as regras t#ticas da época, ele
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colocou o Batalhão Sagrado de Tebas, isto é, os seus melhores hoplitas, em
uma alange com cin"Henta homens de proundidade Ao normal ica$a entre
oito e do,e hoplitasG% 1om isto ele enra"ueceu o seu centro de batalha e a sua
ala direita, porém o lanco es"uerdo icou poderosamente reorçado%
&utro arti(cio oi deslocar as suas tropas em escalão com o objeti$o de
e$itar "ue os setores racos da sua linha de cho"ue ossem esmagados antes
"ue a sua ala es"uerda rompesse a rente espartana% Assim, as suas unidades
tra$ariam contato com o inimigo paulatinamente, iniciando pela sua ort(ssima
es"uerda% & cho"ue rontal da sua raca ala direita seria retardado ao m#ximo,
de preerKncia "uando a situação na ala es"uerda tebana j# esti$esse
resol$ida%
Todos os arti(cios e a disposição da ordem obl("ua uncionaram
conorme o pre$isto no plano de *paminondas% *sparta perdeu a batalha e a
hegemonia sobre a 3récia% Até um dos reis de *sparta, 1leombrotos, oi morto
na batalha%
Apro$eitando o Kxito da $it/ria, *paminondas decidiu rapidamente le$ar
a guerra ao territ/rio espartano e planejou uma campanha oensi$a no
Peloponeso, a ser reali,ada no ano seguinte%
, 5ampanha de 6paminondas em 78097:; tem sido des#rita #omo um
e<emplo da grande estrat%gia de a=ordagem indireta>, "ue $isa$a romper as
ra?(es e#on@mi#as da suprema#ia militar de A6spartaB.> AI8MM*II)4ACT, 1JJ1,
p% :F% & grio é nossoG% *m poucos meses, tinha *paminondas criado, na
>essKnia, dois no$os *stados "ue se opunham a *sparta, abalando os
alicerces da sua economia e, sobretudo, de$astando o prest(gio militar
espartano% 8sto eito, ele condu,iu seu exército de $olta para casa, $itorioso%
>ais outras duas campanhas, entre :RJ e :RR a%1%, oram necess#rias
para "ue o controle tebano osse estabelecido na região% Iiddell)4art, tal$e, o
maior analista militar de todos os tempos, ao estudar as batalhas e campanhas
de *paminondas colocou)o como o primeiro grande mestre da -arte da guerra.%
Apesar da genialidade de *paminondas em n($el t#tico Acondução das
tropas em batalhasG e no campo estratégico Acondução de campanhas
militares, mas também de aç!es pol(ticas e econ2micas, em uma guerraG, o
emaranhado pol(tico das cidades)estados gregas era muito complexo para
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permitir o dom(nio de toda a 4élade, por muito tempo, por apenas uma das
póleis%
Mepois da Batalha de Ieuctras A:;1 a%1%G a hegemonia de *sparta
passou para Tebas% 1ontudo, o dom(nio tebano não sobre$i$eu muito tempo
depois da morte de *paminondas na batalha de >antinéia, ocorrida no$e anos
depois% & Batalhão Sagrado de Tebas, por sua $e, e agora comandado por
Pammenes, oi completamente ani"uilado por Filipe e Alexandre da >aced2nia
na batalha de ?ueronéia em ::< a%1%, exatamente "uatro décadas depois da
sua gKnese%
*m homenagem @ coragem do Bando Sagrado, "ue lutou e resistiu até
o im, mesmo "uando todo o exército tebano j# ha$ia ugido do campo de
batalha, Filipe e o seu jo$em ilho Alexandre, então com de,oito anos e
comandante da ca$alaria maced2nica, ergueram um belo monumento na colina
do cho"ue inal do conronto% & >onumento ainda est# l#%
PEDERASTIA E COMPANHEIRISMO: OUTRAS DUAS “NATURALIDADES”
GREGAS
Se pudéssemos in$entar uma cidade de s#bios ou um exército
composto por amantes e por a"ueles "ue eles amam, eles poderiam
ser os melhores cidadãos do seu pa(s, abstendo)se de toda a
desonra, e emulando um ao outro em matéria de honra+ e homens
como estes, "uando lutando lado a lado, apesar de ser um pe"ueno
bando, poderiam $encer o mundo% Bm homem apaixonado,
certamente não iria escolher, em $e, de ser $isto por todo o resto do
exército "ue por seu amado se abandonasse o seu posto ou jogasse
ora suas armas+ antes disso, ele preere morrer muitas mortes'
en"uanto "ue para deixar a pessoa amada em apuros, ou não o
socorrendo do perigo, ninguém é tão co$arde "ue a inluKncia do
amor não pode inspir#)lo com uma coragem "ue a, dele o mais
bra$o como se assim ti$esse nascido+ e sem d=$ida o "ue 4omero
chama de 9=ria inspirada9 por Meus em certos her/is é o eeito
produ,ido por amantes como um peculiar poder do Amor%
Além disso, somente no amor é "ue est# o consentimento para
morrer pelos outros% APIATQ&, 1JJ<, p% 1;<e%G%
A pederastia, pro$a$elmente surgida na 3récia arcaica com a $inda
dos guerreiros d/rios, é uma relação aristocr#tica de cunho educati$o entre
dois homens de idades dierentes+ o -er/meno. AamadoG, um jo$em, j# entrado
na puberdade, e o -er#stes. AamanteG, um adulto, geralmente de am(lia
aastada da do jo$em%
Revista Trilhas da História. Três Lagoas, v.1, nº1 jun-nov 2011. p.39-51 %)
*sta era uma estrutura socialmente institu(da para ser$ir no controle de
natalidade Aos casamentos heterossexuais eram reali,ados tardiamenteG, na
educação e na pre$enção da delin"HKncia% 1omo uma t(pica relação pederasta
ocorria entre um jo$em e um adulto V a relação entre dois adultos, assim como
a igura do eeminado não eram bem $ista na sociedade helKnica V a pala$ra
pederasta, em grego, signiica -amor ao jo$em.%
A existKncia de casais do mesmo sexo é muito re"Hente na cultura e,
sobretudo, na mitologia helKnica% Podemos citar algumas duplas, das mais
amosas, para exempliicar' entre os deuses aparecem Xeus e 3an(medes,
Mion(sio e Seilinos Arei dos s#tirosG, Apolo e Oacinto Ae, depois da morte tr#gica
de Oacinto, 1iparissoG% Muplas de 4er/is também aparecem como 4eracles
A4érculesG
F
e 8olao, e, pro$a$elmente, A"uiles e P#troclo%
&s mortais também não oram es"uecidos, como os tiranicidas
atenienses Aristogit/n e 4armodio e, nem mesmo, as mortais, como a amosa
poetisa da ilha de Iesbos Ada( o termo l%s=i#aG, Sao e a sua amada, Wtis%
Muplas de guerreiros mortais como os j# citados chees tebanos
Pel/pidas e 3/rgidas, Filipe da >aced2nia e Paus0nias A"ue matou o rei
maced2nio depois de ter sido trocado por outro V um ind(cio da orça "ue a
relação possu(a e de como ela poderia intererir nas demais relaç!es da
sociedadeG e, por im, Alexandre >agno e 4eesti/n, general da alange
principal do grande maced2nio%
Filipe 88 da >aced2nia, pai de Alexandre, "uando ainda era apenas o
irmão do rei da >aced2nia, oi le$ado como reém para Tebas por
*paminondas "uando das negociaç!es entre o reino da >aced2nia e a
Hegemon grega da época A:RJ a%1%G% São de$e ser coincidKncia o ato de
Filipe, e o seu ilho Alexandre, adaptarem dos tebanos as t#ticas militares e os
laços de 5ompanheirismo no exército maced2nico, "ue ir# uniicar a 3récia e
con"uistar todo o 8mpério Persa%
& pr/prio *paminondas te$e $#rios amantes guerreiros como As/pico
e 1apisdoros% 8nclusi$e, *paminondas e 1apisdoros oram enterrados juntos
(
1uriosamente, a cla$a estili,ada de 4eracles tornou)se o s(mbolo ostentado nos escudos
tebanos, ao contr#rio de outras cidades gregas "ue utili,a$am a primeira letra do nome do po$o
ou da cidade como emblema para os escudos% *sparta, por exemplo, era representada pelo
Iambda mai=sculo V reerente ao po$o da região, os lacedem2nios%
Revista Trilhas da História. Três Lagoas, v.1, nº1 jun-nov 2011. p.39-51 %*
depois de morrerem na batalha de >antinéia A:RD a%1%G
R
, algo "ue se
reser$a$a somente aos esposos%
*sta pr#tica de usar um -exército de amantes. contraria$a a tradição
helKnica da di$isão das unidades militares em grupos tribais como o exemplo
de Sestor e 4omero% 1ontudo, Pammenes, o =ltimo comandante do Batalhão
Sagrado de Tebas, critica$a esta disposição e considera$a muito maior a
moti$ação conseguida com a adoção das tropas de casais unidos por amor%
1om relação a este ponto, assim se expressou Plutarco'
Sestor não esta$a muito certo ao organi,ar um exército "uando
aconselhou aos gregos "ue se colocassem por tribos%%% de$eria ter juntado
aos amantes com seus amados% Para homens da mesma tribo ou am(lia
pouco $alor tem o outro "uando o perigo pressiona+ mas um grupo
cimentado sobre os laços da ami,ade baseada no amor nunca se romper#
e é in$enc($el+ j# "ue os amantes, en$ergonhados de não serem dignos
ante a $ista de seus amados e os amados ante a $ista de seus amantes,
desejosos se arrojam ao perigo para o al($io de uns e outros%
APIBTAC1&, 1JJ1, YL888, p% EP%G%
A pr#tica da pederastia era conhecida em toda a 3récia Antiga e
mesmo "ue não possu(sse as mesmas caracter(sticas na H%lade, era
considerada como instituição importante por todos os habitantes de cultura
grega% Apesar das di$ersidades regionais, alguns pontos em comum podem
ser destacados' o adulto torna)se o mentor e, "uase "ue o tutor legal do jo$em,
lhe ensinando os conhecimentos da cultura grega e todas as con$enç!es
sociais aristocr#ticas, inclusi$e a"uelas ligadas ao desporto e as ati$idades
militares%
1ontudo, de$ido ao ato de não se admitirem jo$ens com menos de
de,esseis anos nas batalhas, o ensinamento pr#tico da arte guerreira era
ormali,ado depois da idade em "ue a pederastia se deinia% Portanto, nesta
ase do aprendi,ado, a relação j# ocorre entre dois adultos e, pela deinição
b#sica de pederastia V $inculada @s aixas de idade, não seria conceitualmente
preciso cham#)la de pederastia militar%
N, então, neste contexto "ue aparece a relação "ue, na alta de um
termo melhor, estamos sugerindo a deinição de um no$o conceito, o de
5ompanheirismo% Trata)se de uma relação de aprendi,agem militar na "ual as
)
>esmo assim, Tebas saiu $itoriosa desta batalha contra uma coligação de atenienses e
espartanos% 1ontudo, a perda de um chee militar e de um estadista do porte de *paminondas
selou o destino da hegemonia tebana na 3récia%
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duplas organi,adas do Batalhão Sagrado de Tebas sempre apresenta$am um
membro $eterano em combate Aou de maior experiKncia e idadeG e um menos
experiente e mais jo$em%
& guerreiro mais experiente icou conhecido como -4eniochoi.
A1ondutorG e o -aprendi,. recebeu a designação de -Paraibatai. A1olegaG%
Mesta orma, a relação homoaeti$a de aprendi,agem militar entre 1ondutor e
1olega, ambos em idade adulta, é "ue pode ser deinida pela expressão
5ompanheirismo%
& casal, assim ormado, atua$a de orma parecida com as t#ticas de
a$i!es de combate, "ue também atuam em pares% Sestas aç!es de combate
aéreo, o piloto mais experiente é colocado na unção de -l(der. das operaç!es e
o seu companheiro, menos experiente, atua como protetor das ati$idades do
seu l(der, como -ala. da ormação bin#ria%
O%S$&*RA(2*S 3$%A$S
& curto per(odo da hegemonia de Tebas na hist/ria grega não parece
tão rele$ante "uanto o de suas ri$ais mais importantes, *sparta e Atenas, mas
a aparente transitoriedade do dom(nio tebano esconde o "uão proundo oi o
seu legado para a posteridade+ e por$ir não somente grego, mas também
helen(stico e, mais tarde, para o moderno mundo ocidental%
A hegemonia de Tebas oi ainda menor "ue o pr/prio e curto per(odo
de existKncia de seu Bando Sagrado, mas essa instituição militar pode ser
alçada como uma das mais importantes unidades bélicas da Antiguidade e, de
certa orma, de$ido a suas peculiares e praticamente =nicas caracter(sticas, de
toda a hist/ria da 4umanidade%
A igura (mpar de seu grande l(der, *paminondas, também pode ser
colocada no mesmo pedestal% Ainal as caracter(sticas triunantes do exército
maced2nico são c/pias apereiçoadas das modiicaç!es introdu,idas pelo
chee tebano% A alange maced2nica é maior e mais orte "ue "ual"uer alange
das póleis, mas relete em sua concepção a /tica tebana%
A ca$alaria pesada maced2nica tinha es"uadr!es de aristocratas
chamados de hetairoi ou companheiros, com DFR ca$aleiros Adi$ididas,
taticamente, em de,esseis es"uadras de de,esseis ca$aleirosG% So$e
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es"uadr!es compunham o total da ca$alaria, mais o es"uadrão real, a guarda
pessoal do rei V os )guais, com, sintomaticamente, tre,entos ca$aleiros,
n=mero não di$is($el pelo padrão t#tico de,esseis% *ste grupo possu(a, de
orma integral, a ética militar e s/cio)cultural do Batalhão Sagrado de Tebas%
*m meados do século YL888, Frederico 88 da Pr=ssia, também
alcunhado -& 3rande., ao enrentar tropas muitos superiores numericamente
as suas, ir# ressuscitar a ordem obl("ua de *paminondas, adaptando)a @s
armas de ogo e @ artilharia m/$el da era moderna% *ste oi o seu grande e,
praticamente, =nico instrumento de $it/ria em condiç!es em "ue ela parecia
ser praticamente imposs($el%
Cesta perguntar, por im, se *paminondas e as suas geniais idéias
militares poderia $encer sem o principal instrumento bélico "ue Tebas possu(a
na época, o Bando Sagrado% * este, sem o seu grande condutor, teria sido tão
auspiciosoZ
Acreditamos "ue os dois "uestionamentos possam ser respondidos na
airmati$a% >esmo por"ue a intenção deste trabalho era compor uma
explicação conjunta para a grande capacidade militar do Batalhão Sagrado,
unindo atores e interpretaç!es "ue, geralmente, se apresentam separadas ou
com pouca $inculação%
Me "ual"uer orma, *paminondas e o Bando Sagrado estão tão
associados "uanto @ pr#tica guerreira e a homoaeti$idade oram os pilares do
esp(rito c($ico e bélico de Tebas no auge do seu poder%
A segunda $ertente $ia eros como a$or#$el a homonoia ou 9negação
mental do indi$(duo9, e @ ami,ade c($ica A4hiliaG% & presente estudo
apenas arranhou a super(cie do tema, em "ue o relacionamento amoroso
entre os pares de cidadãos li$res oi pensado para promo$er a conc/rdia e
a solidariedade, em primeiro lugar no casamento heterossexual, mas mais
tarde entre os homens como uma boa pol(tica, como por exemplo, na
criação do Bando Sagrado de Tebas% Sa sua orma mais idealista, os
deensores desta $isão imaginaram uma cidade inteiramente composta por
homens% A cidade em si pode então tornar)se uma associação er/tica
como o casamento, isto é, uma associação em "ue eros é Aou contribuiu
paraG o cimento "ue une seus membros juntos% AIBMT83, DEED, p% 1J%
&s grios são do autor%G%
Por im, pode)se considerar "ue os "uatro grandes atores ormati$os
da enorme capacidade bélica do Batalhão ) a grande capacidade de liderança
pol(tico)militar de seus comandantes, sobretudo de *paminondas+ a in$enção e
utili,ação da t#tica da -&rdem &bl("ua.+ a ligação homoaeti$a dos seus
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integrantes e a coesão pol(tica e social deste grupamento dentro da l/gica das
p/leis gregas V esti$eram tão brilhante e satisatoriamente conjugados em
meados do século 8L a% 1% na cidade de Tebas como diicilmente poder)se)ia
$islumbrar em algum outro momento da 4ist/ria%
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