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Bloco 2: Ficção cavaleiresca e bucólica.

Trânsito para o Barroco

1. Géneros
1.1. Novela de cavalarias
Giram à volta das aventuras dum cavaleiro, com cenas de amor e cenas de
luta. No século XVI continua a ter sucesso Amadis de Gaula ou obras inspiradas nele
(ciclo dos amadises), mas também destaca o herói Palmeirim (ciclo dos palmeiríns).
1.2. Novelas sentimentais e amorosas
Estão baseadas sobre tudo na literatura italiana.
1.3. Novelas pastoris ou bucólicas
Começam neste momento e florescem no Barroco. Têm uma grande
influência da literatura italiana e também da greco-latina (Virgílio, Teócrito).
Misturam a atenção pormenorizada a um cenário primaveril com cenas de amor.
***
O desafio venturoso é uma obra que supõe uma mistura dos três géneros.

1.4. Prosa moralista


1) Cultivadores:
a) Religiosos, em especial pertencentes à Ordem dos Jerónimos.
b) Laicos.
2) Influência da prosa moralista da literatura espanhola: Santa Teresa de
Jesus.
3) Autores:
a) Heitor Pinto: Imagem da vida cristã, obra em que se descreve o modelo de
doutrina a seguir pelos fieis. Teve uma influência considerável.
b) Amador Arrais: Diálogos.
c) Samuel Usque1: Consolação das tribulações de Israel, obra com a
finalidade de consolar os judeus (expulsos de Espanha e de Portugal
naquela altura).
2. Autores
2.1. Francisco Rodrigues Lobo
2.1.1. Vida
É oriundo duma família de cristãos novos e forma-se em direito na
Universidade de Coimbra. Tem escrito dedicações a figuras importantes da politica
portuguesa da altura, mas não tem constância de que desempenhasse nenhum cargo
politico. Tornou-se uma figura mítica por causa da sua morte no Tejo em estranhas
circunstâncias, quando realizava uma viagem de Santarém a Lisboa.

2.1.2. Obra
2.1.2.1. Características gerais
1) Influências que recebe:
a) Camões.

1
Era dono duma imprensa de Ferrara, na que também se editou Menina e moça de Bernardim Ribeiro.

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b) Góngora.
2) É um autor prolífico e muito reapresentativo do Barroco, já que cultiva uma
grande variedade de géneros:
a) Novela pastoril.
b) Poesia bucólica:
 Éclogas.
 Romances.
c) Poesia épica.
d) Prosa didáctica.
3) É uma figura ambigua no que se refere à língua já que por uma parte amostra-
se nacionalista e defensor do uso do português, mas por outra inicia e termina
a sua carreira com obras em castelhano. É preciso não olvidar que escreve
durante a monarquia filipina ou dualista, um momento no que era habitual o
bilinguismo entre os autores portugueses.
a) Obras com elementos nacionalistas: A primavera (crítica a Jorge de
Montemor) ou O condestabre.
b) Obras não nacionalistas: Jornada de Filipe II em Portugal (apologia da
monarquia filipina)
2.1.2.2. Obras
1) Primera y segunda parte de los romances:
c) Contido:
 É uma colecção de romances do gosto da época.
 Abre-se com uma carta aos romancistas portugueses em que os
convida a escreverem romances e publica-los para rivalizarem com os
espanhóis. Nessa carta faz referência a autores que considera os seus
mestres: Sá de Miranda e Camões.
 Composições predominantes:
 Romances mouriscos, ambientados em Al-Andalus, na cultura
moçárabe.
 Romances pastoris, de temática amorosa.
 Personagens: destaca Lereno, um pastor que se considera um alter ego
do autor por várias razões:
 O nome de Lereno procede de Leiria, cidade de origem do autor.
 Evoca Leiria e o rio Lis, da terra natal do autor, em muitas ocasiões.
d) Intertextualidade:
 Pastorelas da literatura galego-portuguesa medieval.
 Serranilhas da literatura castelhana.
e) Difusão: tem várias reedições, é um género que também se cultivava em
Castela na época.
2) A primavera:
a) Estrutura: é uma trilogia:
 A primavera, primeiro volume e o que lhe dá título à trilogia.
 O pastor peregrino.
 O desenganado.
b) Contido:
 Novela muito bucólica.

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Importância da paisagem, em especial da região da Beira litoral e da


Estremadura portuguesa.
 Tema da mudança (amor > desamor), típico do género e simbolizado
com o rio (Tejo, Lis).
c) Língua: abandona o castelhano, um feito que explica por uma razão de
nacionalismo a través da boca de Lereno (outra razão para considera-lo um
alter ego do autor). Mesmo critica os autores portugueses que escrevem
em castelhano (como Jorge de Montemor, autor de La Diana)
d) Forma:
 Prosa com composições poéticas inseridas na novela que são cantadas
por Lereno (Cantor do Lis), ao que lhe é atribuído o status de herói.
 Alternância entre a medida velha (mais popular) e a medida nova
(sonetos, elegias, canções...).
3) Éclogas (10):
a) Influências:
 As bucólicas de Virgílio.
 Camões, a quem chega a parafrasear.
b) Forma: diálogo entre pastores.
c) Contido:
 Temática diversa, mas destaca a amorosa.
 É frequente a aparição duma personagem disfarçada de pastor que
geralmente foge da corte por algum desengano amoroso.
 Compromisso com a vida no campo como modus vivendi. Destaca a
figura do rústico filósofo, quer dizer, a consideração dos pastores como
pessoas sabias por natureza e do seu modo de vida em contacto com a
natureza como uma idade de ouro, longe da ambição e da cobiça.
 Critica ao auto-odio dos portugueses, ligada ao espírito nacionalista.
 Importância da paisagem (bucólica, rural). Aparece reflectido o centro
de Portugal e a sua terra natal.
4) Épica: O condestabre de Portugal Nuno Álvares Pereira:
a) Influências: Camões.
b) Contido:
 Canta as glórias de Nuno Álvares Pereira, o herói da batalha de
Aljubarrota (1385) e fundador da Casa de Bragança2.
 Tem um espírito nacionalista, de reivindicação da independência
nacional (num momento de dominação castelhana3).

2
Nuno Álvares Pereira foi o máximo apoio de D. João (filho ilegítimo de D. Fernando) na batalha de
Aljubarrota.
Naquela altura, após a morte de D. Fernando, a independência de Portugal estava em perigo, já que a filha
do rei, D. Beatriz, casara com o rei castelhano D. Juan I. No trono de Portugal estava a rainha regente
Leonor Teles, mãe de D. Beatriz e viúva de D. Fernando, quem tinha a pretensão (junto com a sua filha e o
seu genro) de unificar os reinos de Castela e Portugal, apoiada pela alta nobreza. Porém, a baixa nobreza e o
povo não aprovavam isto e, liderados por D. João, lutaram pela independência, que conseguem e 1385 ao
ganhar a batalha de Aljubarrota.
Considera-se Nuno Álvares Pereira o fundador da casa de Bragança já que a sua filha, D. Beatriz, casou
com um filho ilegítimo de D. João chamado Afonso, que foi o primeiro duque de Bragança.
3
As dinastias que houve em Portugal foram:
1. Borgonha (Afonso Henriques – D. Fernando)
2. Avis (D. João I [filho de D. Pedro I]).
3. Filipina (Filipe I, Filipe II e Filipe III)
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5) Jornada de Felipe II em Portugal: obra escrita em castelhano com


motivo da visita a Portugal do rei Felipe II em 1619 (data de publicação de
Corte na aldeia).

6) Prosa didáctica: Corte na Aldeia:


a) Dedicatória: está dedicada a um nobre da família de Bragança, D. Duarte,
um destinatário que é considerado um modelo de príncipe que tem a sua
corte na aldeia. Ademais, agradece-se-lhe que não se tenha deslocado para
Castela.
b) Forma dialogada.
c) Contido:
 Aapresenta-se como um manual de cortesia em que se fixam unha série
de regras que devem seguir os verdadeiros cortesãos, já que o autor
perceve que a cortesia está em crise porque se perdem os costumes
portugueses em favor dos castelhanos.
 A cortesia está ligada ao nacionalismo (defesa dos costumes
portugueses), outro dos temas importantes da obra. Faz-se uma
homenagem aos fidalgos portugueses que se mantêm fieis à nação (e
que se mantêm na aldeia).
 Conciliação de dois ideais de vida:
 Vida cortesã. Cortesão tem como sinónimos discreto e avisado.
 Vida no campo, um ideal de vida que o autor já tratar em outras
obras:
 A primavera.
 Éclogas (prólogo sobre o modus vivendi dos pastores).

d) Personagens:
 Características gerais:
 Aparecem ligados por laços de amizade ou de convívio.
 São todos homens, que aproveitam as noites de inverno para
debaterem sobre diversas matérias relacionadas com a cortesania a
partir de certas notas descritivas ou alusivas.
 Personagens da obra:
 Constantes:
 Leonardo: é o anfitrião nos 10 primeiros diálogos (tem-se visto
nele um alter ego do autor). É um antigo cortesão idoso e
experiente considerado uma autoridade em regras de cortesia que
tinha aprendido na corte real. É então uma figura de autoridade que
reapresenta a nobreza tradicional.
 Doutor Lívio:
- As suas intervenções têm uma carga importante de erudição.
- É a personagem com umas intervenções mais didácticas
(argumentos, probas, exemplos, sentenças e provérbios –num
tom mais elevado do que o de Solino–).
- É muito conhecedor da história (reminiscências do Tito Lívio).
 Júlio:
- Também é anfitrião em parte das conversas.

4. Bragança (D. João IV)


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- É um fidalgo muito afeiçoado às coisas da pátria.


- Gosta da caça.
- É a única personagem protagonista duma história amorosa, já
que ele mesmo conta que ficou apaixonado por uma peregrina
que encontra no campo, e torna-se o seu protector.
- Tem a função de motivar o debate aapresentando em cada
reunião um tema sob a forma de pergunta ou fazendo uma
afirmação polémica.
 Píndaro: poeta e estudante com vontade de aprender.
 Solino:
- Personagem singular, já que é um ancião não muito rico que
tinha servido em casas de grandes nobres, pelo que tinha
conhecimentos de cortesania a partir das observações que fiz.
- A sua língua também é diferente à dos demais personagens:
mais coloquial, uso de metáforas, rifões, etc.
- Aapresenta também uma atitude humilde, de covardia para
debater sobre temas que não conhece bem, mas é compensada
pela intuição e a sabedoria popular.
- Também insire un certo grao de humor.
 Ocasionais:
 O estudante.
 O prior, que dá a visão do clero.
 O soldado, Alberto, que dá a visão do âmbito militar. Ademais,
achega o motivo armas – letras, muito importante desde a
Renascença (já presente em Camões: numa mão a pena / noutra a
espada, no Quijote e em O fidalgo aprendiz de F. Manuel de
Melo).
e) Localização: parece que se encontram situados em Sintra, já que é um
lugar que tradicionalmente acolheu os cortesãos quando queriam fugir do
bulício da Corte. Foi residência de verão dos reis, pelo que é a corte na
aldeia por excelência.
f) Intertextualidade: esta obra faz parte duma orientação literária que tem a
ver com o didactismo em relação à cortesania que se estava a desenvolver
em Europa. Exemplos de obras deste tipo são:
 Literatura castelhana: Menosprecio de la corte y alabanza de la aldea
de Frei Antonio de Guevara, um humanista galego (bispo de
Mondonhedo).
 Literatura italiana: Il cortegiano de Baltasar Castiglione, uma obra
muito difundida na época que chegou a Portugal a través da tradução
espanhola de Juan Boscán. Nela descrevem-se normas de
comportamento que devem seguir os verdadeiros cortesãos. Foi dedicada
a Manuel da Silva (bispo de Viseu) e também se desenvolve em noites
sucessivas.
 Literatura portuguesa:
 Francisco Manuel de Melo.
 Padre António Vieira.
g) Recepção: teve grande fortuna na época:
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 Intertextualidade: influencia noutras obras (oratoria do Padre António


Vieira).
 Considerações da crítica:
 Francisco Manuel de Melo é autor de obras de crítica literaria como
Apólogos dialogados ou Hospital das letras. Nesta última analisa-se a
obra Corte na aldeia, considerándoa como uma das melhores.
 Baltasar Gracián, o teorizador do Barroco mais importante da
Península Ibérica, qualifica a obra no seu Criticón como ‘livro
eterno’.
 Comentário de textos: Corte na aldeia
TRECHO COMENTÁRIO
AO SR. D. DUARTE, MARQUES DE FRECHILHA E
DE MALAGAM
Depois que faltou a Portugal a Corte dos Sereníssimos Reis, ascendentes
de V. Excelência (da qual as nações estrangeiras tinham tão grande 1) Elogio de D. Duarte, que implica um
satisfação e as velhinhas tão igual inveja), retirados os títulos pelas vilas
e lugares do Reino e os fidalgos e cortesãos por suas quintas e casais, elogio de toda a Casa de Bragança:
vieram a fazer Corte nas Aldeias, renovando as saudades da passada
com lembranças devida àquela dourada idade dos Portugueses; e até
a) Agrades-lhe o cuidado que faz da
V. Excelência, que, na de Espanha, podia avantajar toda sua grandeza, cidade de Évora (restaurando
escolheu para morada essa cidade de Évora, que já el-rei D. João, com o
Infante D. Duarte, avó de V. Excelência, e os mais príncipes seus irmãos edifícios e construindo outros
habitaram; cujos caídos muros e edifícios, desamparados paços e
incultos jardins parece que, agradecidos à assistência e favores de V. novos).
Excelência, ressuscitam agora; e não somente os mosteiros antigos, a
que faltava aquela grandeza que os enobrecia, se reedificaram à sua
b) Agrades-lhe que não se tenha
sombra, mas ainda, encostados ao amparo dela, se fabricaram outros de deslocado para Castela, embora
novo, com maior perfeição. Com a mesma confiança busca a V.
Excelência esta Corte na Aldeia, composta dos riscos e sombras que tenha muitos títulos.
ficaram dos cortesãos antigos e tradições suas, para que V. Excelência a
ampare como protector da língua e nação Portuguesa, honre como
c) Coloca-o como modelo de
relíquia do sangue Real deste Reino e a acredite como espelho e cortesão.
exemplo da virtude e partes soberanas dos Príncipes passados. Aqui
ofereço a V. Excelência uma conversação de amigos bem 2) Nacionalismo:
acostumados, umas noites de Inverno melhor gastadas que as que se
passam em outros exercícios prejudiciais à vida e consciência; a) Com o elogio à Casa de
finalmente, uma Corte que, como bonina do mato, a que falta o cheiro e
a brandura das dos jardins, ainda que na aparência e cores a queira
Bragança reivindida a
contrafazer, é contudo diferente. Se os ditos destes aldeãos cheirarem independência de Portugal.
a Corte, acreditarão o título do livro, e, se souberem ao monte,
também nele se confessa por Corte de Aldeia; e com muito maior b) Elogio dos costumes portugueses.
razão o será quando chegar à vista de V. Excelência, em que se podem
reformar de polícia as que são na Espanha mais apuradas. V. Excelência
c) Queixa pela anterior grandeza de
a ampare com a sua humanidade, lembrando-se que, como não pode Portugal e a situação actual.
haver Corte sem Príncipe, que esta o não podia parecer sem que tivesse
por si a V. Excelência, e que, como em noite de Inverno, ficara muito às d) Certo nacionalismo linguístico.
escuras este livro sem a luz e graça que espera comunicar de sua clareza.
E se alguém me julgar por atrevido em tratar de cousas de Corte 3) Aapresentação do argumento da
nascendo em idade em que já a de Portugal era acabada, sabendo que na
de V. Excelência fui muitas vezes favorecido de mercês suas, e honrado
obra.
com elas na do Excelentíssimo Senhor Duque D. Teodósio, irmão de V. 4) Explicação do título (2 ideais de
Excelência, não condenará minha ousadia com justa razão e achará
algumas com que dê a estes Diálogos merecimento, que posto que lhes vida).
faltem muitos para serem ofertas dignas de tão grande Príncipe, nesse
pouco que pode dar por fruto o meu engenho pago com a vontade o em
5) Recursos retóricos: humilitas,
que para outras obras faltaram a natureza, a arte e a ventura. E ante captatio benevolentiae.
quem em tudo é tão grande, nada o pode parecer senão esta confiança,
fundada na benignidade com que V. Excelência sempre autorizou 6) Origem em Leiria: cantor do Lis,
minhas obras, que me assegura que assim aceitará agora este pequeno
serviço, pois não é menor grandeza obrigar-se dos humildes que fazer a Lereno.
todos grandes mercês. Nosso Senhor guarde a V. Excelência muitos
anos.
De Leiria, o 1 de Dezembro de 1618.
FRANCISCO RODRIGUES LOBO

Diálogo I
1. Aapresenta-se o argumento da obra.
2. Mostra-se a intenção nacionalista, já que se faz um elogio patriótico da língua
portuguesa e censura-se a quem não a respeita (põe-se em boca do Dr. Lívio).
3. Referências espaciais que podem remitir a Sintra.
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4. Aapresentação dos personagens.


5. Aapresentação de temas a debater: natureza e qualidades dos livros.

TRECHO 1
– A isto (respondeu Solino) atègora estive calado contra minha natureza; porque me houve por incapaz de fazer terço com o Doutor e
Leonardo; mas, pois o voto é que se jogue com toda a baralha, digo que é esta a melhor matéria que se podia escolher para passar o
tempo. E já pode ser que algum dos que aqui estão, que deseja deixar no mundo memória de seu engenho, saiba nesta ocasião o em que o
pode empregar melhor.

– Pelo que a mim toca (disse o Doutor) comecemos logo; e a vós, Senhor D. Júlio, é bem que dêmos a mão a troco do alvitre; e, não
tratando dos livros Divinos, nem dos necessários, dos de recreação nos podeis dizer quais e por que razões vos contentam.

– A minha inclinação em matéria de livros (disse ele), de todos os que estão presentes é bem conhecida; somente poderei dar agora de
novo a razão dela. Sou particularmente afeiçoado a livros de história verdadeira, e, mais que às outras, às do reino em que vivo e da terra
onde nasci; dos Reis e Príncipes que teve; das mudanças que nele fez o tempo e a fortuna; das guerras, batalhas e ocasiões que nele houve;
dos homens insignes, que, pelo discurso dos anos, floresceram; das nobrezas e brasões que por armas, letras, ou privança se adquiriram. O
que me inclinou à escolha desta lição que tive alguma de um homem muito douto em o que o deve desejar de ser e parecer o que é
nascido; ao qual ele dizia que o que mais convinha que soubesse era o apelido que tinha, donde lhe veio, quem foram seus passados, que
armas lhe deixaram, a significação e fundamento da figura delas, como se adquiriram ou acrescentaram, os Reis que reinaram na sua
pátria, as crónicas deles, os princípios, as conquistas, as empresas e o esforço dos seus naturais; porque, falando deles nas terras estranhas,
ou na sua com estrangeiros, saiba dar verdadeira informação de suas cousas. E, alcançadas estas, lhe estará bem tudo o que mais puder
saber das alheias. E, na verdade, nenhuma lição pode haver que mais recreie e aproveite que a que sei que é verdadeira, e, por natural, ao
desejo dos homens deleitosa.

– Não é essa a minha opinião (disse Solino) porque contra o gosto me assombram muito cousas passadas, e andar abrindo sepulturas de
gente morta. E, no que toca à verdade, certo que à conta dos enterrados se escrevem algumas vezes tão grandes mentiras que lhes não
levam vantagem os fingimentos de histórias imaginadas. E havendo um homem de ler o que não é, ou o que sai tão caldeado e tão batido
da forja dos autores que mudado traz o metal, a cor e a natureza, estou melhor com os livros de cavalarias e histórias fingidas, que, se não
são verdadeiros, não os vendem por esses; e são tão bem inventados que levam após si os olhos e os desejos dos que os lêem. E não
estima um autor matar mais dois mil homens com a pena para fazer valente o seu cavaleiro com a espada, sem estar receando os ditos das
testemunhas que ficaram da batalha, que por iguais respeitos pende cada uma para seu cabo. Pois se é caso em que um historiador queira
passar adiante, como Ariosto, não matou mais gente a peste grande em Lisboa que Rodamonte nos muros de Paris.

– Essa é uma das razões por que eu os reprovo (tornou o Doutor); porque a fábula é uma cousa falsa, que podia contudo ser verdadeira
e acontecer assim como se fingiu. Porém a isto não dão lugar os livros de cavalarias como esses excessos e outros encantamentos, fazendo
casas e torres de cristal, edifícios, lagos e colunas impossíveis, pirâmides de alabastro e casas de pedraria, cuja riqueza podia empobrecer
a fortuna. E em nossos tempos, na Índia Oriental, sabemos que o Rei Mogor andou muitos anos fabricando uma casa de esmeraldas, por
cujo respeito se passavam deste Reino à nossa Índia as da Ocidental. E enfim morreu sem a acabar; e não há livro de cavalarias em que
qualquer cavaleiro de um castelo não acabe cousas maiores. E, deixando isto, é graça e galantaria comparar histórias verdadeiras com
patranhas desproporcionadas, que gastam o tempo mal a quem nelas se ocupa, quando as outras servem de exemplo para imitar, de
lembrança para engrandecer e de recreação para divertir. A quem não anima ler as histórias de seus passados? A quem não move o desejo
de igualar a fama que lê de suas obras? O governo da paz, a ordem da guerra, o trato dos homens, o comércio das províncias, donde se
conserva, alcança e sabe senão pelas histórias verdadeiras? Porque nelas sabe cada um felizmente pelos sucessos alheios o que se deve
seguir. Donde Marco Túlio chamou à história mestra da vida.

– Vós, senhor Doutor (disse Solino) achareis isso nos vossos cartapácios; mas eu ainda estou contumaz. Primeiramente, nas histórias a
que chamam verdadeiras, cada um mente segundo lhe convém, ou a quem o informou, ou favoreceu para mentir; porque se não forem
estas tintas, é tudo tão misturado que não há pano sem nódoa, nem légua sem mau caminho. No livro fingido contam-se as cousas como
era bem que fossem e não como sucederam, e assim são mais aperfeiçoadas. Descreve o cavaleiro como era bem que os houvesse, as
damas quão castas, os reis quão justos, os amores quão verdadeiros, os extremos quão grandes, as leis, as cortesias, o trato tão conforme
com a razão. E assim não lereis livro em o qual se não destruam soberbos, favoreçam humildes, amparem fracos, sirvam donzelas, se
cumpram palavras, guardem juramentos e satisfaçam boas obras. Vereis que as damas andam pelas estradas sem haver quem as ofenda,
seguras na sua virtude própria e na cortesia dos cavaleiros andantes. E, quanto ao retrato e exemplo da vida, melhor se colhe no que um
bom entendimento traçou e seguiu com muito tempo de estudo que no sucesso que às vezes se alcançou por mão da ventura, sem a
diligência e engenho meterem nenhum cabedal. Não digo que os livros tenham excessos desatinados que não sejam semelhantes à
verdade, nem os encantamentos tão escuros e disconformes que não tenham alguma maneira de enganar o juízo; porém os livros bem
fingidos, como verdadeiros obrigam. Um curioso em Itália (segundo um autor de crédito conta) estando com sua mulher ao fogo lendo o
Ariosto, prantearam a morte de Zerbino com tanto sentimento que lhe acudiu a vizinhança a saber o que era. E, no que toca ao exemplo,
um Capitão valoroso houve em Portugal, que o não teve melhor o Império Romano, que, com a imitação de um cavaleiro fingindo, foi o
maior dos seus tempos, imitando as virtudes que dele se escreveram. Muitas donzelas guardaram extremos de firmeza e fidelidade,
costumadas a ler outros semelhantes nos livros de cavalarias. Na milícia da Índia, tendo um Capitão nosso cercado uma cidade de
inimigos, certos soldados camaradas, que albergavam juntos, – A isto (respondeu Solino) atègora estive calado contra minha natureza;
porque me houve por incapaz de fazer terço com o Doutor e Leonardo; mas, pois o voto é que se jogue com toda a baralha, digo que é esta
a melhor matéria que se podia escolher para passar o tempo. E já pode ser que algum dos que aqui estão, que deseja deixar no mundo
memória de seu engenho, saiba nesta ocasião o em que o pode empregar melhor.

– Pelo que a mim toca (disse o Doutor) comecemos logo; e a vós, Senhor D. Júlio, é bem que dêmos a mão a troco do alvitre; e, não
tratando dos livros Divinos, nem dos necessários, dos de recreação nos podeis dizer quais e por que razões vos contentam.

– A minha inclinação em matéria de livros (disse ele), de todos os que estão presentes é bem conhecida; somente poderei dar agora de
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TRECHO 1
novo a razão dela. Sou particularmente afeiçoado a livros de história verdadeira, e, mais que às outras, às do reino em que vivo e da terra
onde nasci; dos Reis e Príncipes que teve; das mudanças que nele fez o tempo e a fortuna; das guerras, batalhas e ocasiões que nele houve;
dos homens insignes, que, pelo discurso dos anos, floresceram; das nobrezas e brasões que por armas, letras, ou privança se adquiriram. O
que me inclinou à escolha desta lição que tive alguma de um homem muito douto em o que o deve desejar de ser e parecer o que é
nascido; ao qual ele dizia que o que mais convinha que soubesse era o apelido que tinha, donde lhe veio, quem foram seus passados, que
armas lhe deixaram, a significação e fundamento da figura delas, como se adquiriram ou acrescentaram, os Reis que reinaram na sua
pátria, as crónicas deles, os princípios, as conquistas, as empresas e o esforço dos seus naturais; porque, falando deles nas terras estranhas,
ou na sua com estrangeiros, saiba dar verdadeira informação de suas cousas. E, alcançadas estas, lhe estará bem tudo o que mais puder
saber das alheias. E, na verdade, nenhuma lição pode haver que mais recreie e aproveite que a que sei que é verdadeira, e, por natural, ao
desejo dos homens deleitosa.

– Não é essa a minha opinião (disse Solino) porque contra o gosto me assombram muito cousas passadas, e andar abrindo sepulturas de
gente morta. E, no que toca à verdade, certo que à conta dos enterrados se escrevem algumas vezes tão grandes mentiras que lhes não
levam vantagem os fingimentos de histórias imaginadas. E havendo um homem de ler o que não é, ou o que sai tão caldeado e tão batido
da forja dos autores que mudado traz o metal, a cor e a natureza, estou melhor com os livros de cavalarias e histórias fingidas, que, se não
são verdadeiros, não os vendem por esses; e são tão bem inventados que levam após si os olhos e os desejos dos que os lêem. E não
estima um autor matar mais dois mil homens com a pena para fazer valente o seu cavaleiro com a espada, sem estar receando os ditos das
testemunhas que ficaram da batalha, que por iguais respeitos pende cada uma para seu cabo. Pois se é caso em que um historiador queira
passar adiante, como Ariosto, não matou mais gente a peste grande em Lisboa que Rodamonte nos muros de Paris.

– Essa é uma das razões por que eu os reprovo (tornou o Doutor); porque a fábula é uma cousa falsa, que podia contudo ser verdadeira
e acontecer assim como se fingiu. Porém a isto não dão lugar os livros de cavalarias como esses excessos e outros encantamentos, fazendo
casas e torres de cristal, edifícios, lagos e colunas impossíveis, pirâmides de alabastro e casas de pedraria, cuja riqueza podia empobrecer
a fortuna. E em nossos tempos, na Índia Oriental, sabemos que o Rei Mogor andou muitos anos fabricando uma casa de esmeraldas, por
cujo respeito se passavam deste Reino à nossa Índia as da Ocidental. E enfim morreu sem a acabar; e não há livro de cavalarias em que
qualquer cavaleiro de um castelo não acabe cousas maiores. E, deixando isto, é graça e galantaria comparar histórias verdadeiras com
patranhas desproporcionadas, que gastam o tempo mal a quem nelas se ocupa, quando as outras servem de exemplo para imitar, de
lembrança para engrandecer e de recreação para divertir. A quem não anima ler as histórias de seus passados? A quem não move o desejo
de igualar a fama que lê de suas obras? O governo da paz, a ordem da guerra, o trato dos homens, o comércio das províncias, donde se
conserva, alcança e sabe senão pelas histórias verdadeiras? Porque nelas sabe cada um felizmente pelos sucessos alheios o que se deve
seguir. Donde Marco Túlio chamou à história mestra da vida.

– Vós, senhor Doutor (disse Solino) achareis isso nos vossos cartapácios; mas eu ainda estou contumaz. Primeiramente, nas histórias a
que chamam verdadeiras, cada um mente segundo lhe convém, ou a quem o informou, ou favoreceu para mentir; porque se não forem
estas tintas, é tudo tão misturado que não há pano sem nódoa, nem légua sem mau caminho. No livro fingido contam-se as cousas como
era bem que fossem e não como sucederam, e assim são mais aperfeiçoadas. Descreve o cavaleiro como era bem que os houvesse, as
damas quão castas, os reis quão justos, os amores quão verdadeiros, os extremos quão grandes, as leis, as cortesias, o trato tão conforme
com a razão. E assim não lereis livro em o qual se não destruam soberbos, favoreçam humildes, amparem fracos, sirvam donzelas, se
cumpram palavras, guardem juramentos e satisfaçam boas obras. Vereis que as damas andam pelas estradas sem haver quem as ofenda,
seguras na sua virtude própria e na cortesia dos cavaleiros andantes. E, quanto ao retrato e exemplo da vida, melhor se colhe no que um
bom entendimento traçou e seguiu com muito tempo de estudo que no sucesso que às vezes se alcançou por mão da ventura, sem a
diligência e engenho meterem nenhum cabedal. Não digo que os livros tenham excessos desatinados que não sejam semelhantes à
verdade, nem os encantamentos tão escuros e disconformes que não tenham alguma maneira de enganar o juízo; porém os livros bem
fingidos, como verdadeiros obrigam. Um curioso em Itália (segundo um autor de crédito conta) estando com sua mulher ao fogo lendo o
Ariosto, prantearam a morte de Zerbino com tanto sentimento que lhe acudiu a vizinhança a saber o que era. E, no que toca ao exemplo,
um Capitão valoroso houve em Portugal, que o não teve melhor o Império Romano, que, com a imitação de um cavaleiro fingindo, foi o
maior dos seus tempos, imitando as virtudes que dele se escreveram. Muitas donzelas guardaram extremos de firmeza e fidelidade,
costumadas a ler outros semelhantes nos livros de cavalarias. Na milícia da Índia, tendo um Capitão nosso cercado uma cidade de
inimigos, certos soldados camaradas, que albergavam juntos, traziam entre as armas um livro de cavalarias, com que passavam o tempo.
Um deles, que sabia menos que os mais daquela leitura, tinham tudo o que ouvia ler por verdadeiro (e assim há alguns inocentes que
cuidam que se não pode mentir em letra redonda); os outros, ajudando a sua simpreza, lhe diziam que assim era. Veio ocasião de um
assalto em que o bom soldado, invejoso e animado do que ouvia ler, lhe apareceu ensejo de mostrar seu valor e fazer uma cavalaria de que
ficasse memória: e assim se meteu entre os contrários com tanta fúria e os começou a ferir tão rijamente com a espada que em pouco
espaço se empenhou de sorte que, com muito trabalho e perigo dos companheiros e de outros muitos soldados, lhe ampararam a vida,
recolhendo-o com muita honra e poucas feridas. E repreendendo-o os amigos daquela temeridade, respondeu: Ah! deixai-me, que não fiz
a metade do que cada noite ledes de qualquer cavaleiro do nosso livro. E ele dali adiante o foi mui valeroso.

Muito festejaram todos o conto, e logo prosseguiu o Doutor:

– Tão bem fingidas podem ser as histórias que merecem mais louvor que as verdadeiras; mas há poucas que o sejam; que a fábula bem
escrita (como diz Santo Ambrósio), ainda que não tenha força de verdade, tem uma ordem de razão, em que se podem manifestar as
cousas verdadeiras.

Debate sobre dois géneros em auge no momento:


1. Júlio: defende os livros de história porque neles estão as origens verdadeiras
das linhagens e, ademais, tem a utilidade de permitir-nos conhecer erros do
passado para não os repetir.
2. Solino: defende os livros de cavalarias, já que são histórias fictícias
aapresentadas como tales e têm um aspecto lúdico, mentes que a história se
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aapresenta como verdadeira mas pode intervir a subjectividade do historiador


ou os erros nas fontes.
3. Dr Lívio: critica que os livros de ficção são muito exagerados.

TRECHO 2 COMENTÁRIO
1. Defesa dos livros de cavalarias.
– Vós, senhor Doutor (disse Solino) achareis isso nos 2. Vantagem da forma dialogada, já
vossos cartapácios; mas eu ainda estou contumaz.
Primeiramente, nas histórias a que chamam verdadeiras, que para aprender é melhor a
cada um mente segundo lhe convém, ou a quem o oralidade e, na escrita, é a forma
informou, ou favoreceu para mentir; porque se não forem
estas tintas, é tudo tão misturado que não há pano sem
mais próxima.
nódoa, nem légua sem mau caminho. No livro fingido 3. Debate sobre as línguas:
contam-se as cousas como era bem que fossem e não superioridade das línguas, qual é a
como sucederam, e assim são mais aperfeiçoadas. que se deve usar em Portugal, etc. É
Descreve o cavaleiro como era bem que os houvesse, as
damas quão castas, os reis quão justos, os amores quão um debate que se dá em toda
verdadeiros, os extremos quão grandes, as leis, as Europa na época, achegando sempre
cortesias, o trato tão conforme com a razão. E assim não
lereis livro em o qual se não destruam soberbos,
os argumentos da proximidade com
favoreçam humildes, amparem fracos, sirvam donzelas, se o latim e o grego, e outros como a
cumpram palavras, guardem juramentos e satisfaçam boas melodia, etc.
obras. Vereis que as damas andam pelas estradas sem
haver quem as ofenda, seguras na sua virtude própria e na
4. Crítica aos que falam mal
cortesia dos cavaleiros andantes. português ou falam mal dele, que
implica um espírito nacionalista.

Diálogo II (utilidade das cartas)


TRECHO 1 COMENTÁRIO
DIÁLOGO II
Da polícia e estilo das cartas missivas
Ficaram os amigos tão afeiçoados à conversação daquela noite,
que, por fazerem a do outro dia mais comprida, acudiram a
ajuntar-se logo depois de se pôr o Sol; porém, cada um com pejo
de ser o primeiro, passeavam em dois postos, o Doutor com D.
Júlio, e Píndaro com Solino, à vista da casa de Leonardo, até que 1. Preâmbulo do debate.
ele chegou à janela e, mostrando o mesmo desejo que os quatro
traziam, facilitou o receio e aprovou as horas. Subiram todos, e 2. D. Leonardo actua como:
disse o Doutor: a) Anfitrião.
– Pareceu-me este dia tão comprido, na esperança da noite, como
os trabalhadores que devem o jornal. b) Moderador: elogia os
– E a mim (tornou Leonardo) a noite, depois que me deixastes, companheiros, reconhece-lhes a
tão importuna como quem espera a manhã para cousa de seu
gosto; e assim não é muito que vós viésseis tão cedo e que a mim categoria de cortesãos,
me pareça que já era tarde. aapresenta resumos dos temas
– Todas as cousas que se desejam muito (tornou D. Júlio), por
pouco que se dilatem, tardam mais. que se têm debatido, etc
– E as que se temem (prosseguiu Solino) por muito que tardem,
parece que se antecipam. Donde um disse maravilhosamente que
o que queria que a Quaresma lhe parecesse breve, devesse
pagamentos para a Páscoa. Enfim, chegou mais cedo este prazo
que todos desejávamos; e se o senhor da casa dormiu pouco, eu
apostarei que há algum na companhia que se desvelou mais.

TRECHO 2
– Essas (disse então D. Júlio) hei-de eu partir porque desejava muito alçar por elas; e, pois o Doutor falou ontem em cartas
missivas, e aprovou para elas a língua Portuguesa, nos há-de declarar o que há-de ter uma carta para ser cortesã e bem escrita. –
Esse cargo (tornou o Doutor) convém mais ao senhor da casa, porque ainda que a carta consta de letras, não é profissão de
letrados o fazê-las cortesã e quem sabe tanto do estilo da Corte, como Leonardo, pode dar lei para elas.
– Vós (respondeu ele) sois Doutor em tudo, e meu superior em todas as matérias, e como tal me podeis dar o grau de cortesão. Eu
o quisera parecer na confiança e em obedecer ao gosto destes amigos, mas para eu prosseguir com autoridade é bem que vós
comeceis a principiar a matéria, dizendo que nome é carta e o seu princípio, pois me dais o cargo antes de estar apercebido para
ele.
– Bem sei (lhe respondeu o Doutor) que por me honrardes a mim tomais tudo à vossa conta; folgarei de a dar boa do que me
encomendais. Este nome carta é genérico, e teve origem de uma cidade do mesmo nome, donde foi natural a rainha Dido, que, por
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TRECHO 2
o amor que tinha à sua pátria, pôs à que edificou por nome Cartago. E porque em Carta se inventou primeiramente a maneira em
que se escrevia (ou fosse papel, ou outra cousa semelhante a ele) tomou dela o nome, como de Pérgamo o pergaminho. É para
saber que nos primeiros tempos quando se inventaram as letras, escreviam os homens nas folhas das árvores, como ainda hoje nas
de palmeiras escrevem os gentios de algumas partes do Oriente; as Sibilas nelas escreveram suas profecias, e assim se chamaram
a seus escritos folhas sibilinas; e ainda na linguagem Portuguesa se conserva alguma cousa desta antiguidade, pois dizemos folhas
de papel sem o papel ter folhas, mas é em lembrança das primeiras que se usaram na escritura. Depois se escreveu em uma casca
tenra de árvores, que é o entreforro da cortiça. E porque a esta chamavam livro, conservam ainda agora eles o nome e a divisão
que agora fazem os escritores de livro primeiro, segundo, e daí adiante é o número por que então deviam contar aquelas cascas.
Também se escreveu em miolo de uma madeira de juncos a que chamaram papiros, donde aos Latinos ficou o nome para o papel.
Depois se escreveu em tábuas, nas quais, sobre cera, com um instrumento de ferro ou de latão, a que chamavam estilo, se
assinavam as letras, e do ferro com que se escreveram se veio a derivar o que agora dizemos bom ou mau, humilde ou altivo
estilo de escrever, passando-se por translação a perfeição do instrumento ao concerto e polícia das palavras. Deste próprio modo
se usa o nome de carta, que alcança em género a todo o género de papel escrito e ainda pintado. Os Portugueses fazemos este
nome particular tomando carta missiva por a principal de todas, e assim basta dizermos carta, sem mais declaração, para se
entender que é esta; porém nas especiais delas usam o nome com seus atributos. E nos instrumentos judiciais, que testemunham
antiguidade, se diz carta precatória, demissória, citatória, de liberdade e de venda, e outras muitas; e ainda as de jogar, sem terem
letras, se chamam comummente cartas. E a gente aldeã, conservando alguma cousa da antiguidade, a qualquer estampa ou
pintura em papel chamam carta. Os Latinos puseram nome às cartas missivas epístola, do verbo grego que quer dizer mandar; e
letras, porque a carta consta delas. Os Italianos deram singular e plural a este nome segundo. E na nossa língua, a que chamam
limitada, não faltou nenhuma destas diferenças, antes houve maior perfeição porque a umas chamaram cartas mandadeiras; às que
tinham menos de papel, escritos; e às cartas de Itália letras, que são as de Roma e as de câmbio, porque deviam ter o mesmo
principio; porque logo nos de Portugal mandavam os Reis dele, por letras, copiosas doações à Sé Apostólica do que
conquistavam. De maneira que o nome de carta, quanto à sua origem, é geral e comum; e, entre nós, particular das cartas
missivas; e pois lhe descobri o nome, é necessário, senhor Leonardo, que lhe deis agora o ser.
– Parece-me (respondeu ele) que estou já no meio da minha obrigação (conforme ao dito do poeta): que quem começou, também
tem feita a maior parte. E passando do nome da carta aos exteriores dela, digo que há-de ter: cortesia comum, regras direitas,
letras juntas, razões apartadas, papel limpo, dobras iguais, chancela subtil e selo claro; e com estas condições será carta de homem
de Corte.
– E, falando da cortesia (disse Solino), que entendeis nela?
– A cortesia (lhe respondeu ele), não falando na leitura da carta, é o sobrescrito, o apartado da cruz té à primeira regra, e do
primeiro do papel té o começo de todas; e o final e nome de quem escreve, abaixo da data da carta. E porque nisto há diferentes
costumes e erros, me parece bem fazer de tudo lembrança.
– Nos sobrescritos temos pouco que tratar (tornou Solino) que, depois que com a premática os cercearam, não há prezados,
magníficos, honrados e ilustríssimos, nem os senhores. Ainda ficaram alguns de rodeio que são muito para ver, e assim o dizem
eles, a cujo propósito vos hei-de contar uma história. Eu (como todos sabeis) vejo com óculos e (conforme a opinião de alguns)
com eles muito menos. Os dias atrás, sendo eu ainda inocente deste costume, me deram uma carta de um amigo que dizia: Para
ver o senhor Solino; aberta ela, a letra tal, tão miúda e embaraçada, que desmentia o sobrescrito e por nenhuma via pude ver o que
dizia. Mas respondi noutra letra muito pior e pus no sobrescrito: Para cegar o senhor Fuão; ao que ele depois me respondeu que
estava pelo costume dos presentes.
– Nem todos se hão-de seguir (disse o Doutor) que, como escreve o filósofo Favorino, cada um deve usar de palavras presentes e
costumes antigos; e mais quando o uso é abusão, que no primeiro, por ser tal, o defenderam as leis, e no segundo o repreendem
os mesmos que o usam. Contudo Leonardo dirá o que lhe parece.

1. D. Júlio propõe falar das cartas missivas e é seguido pelos seus companheiros.
2. Dr. Lívio: erudição (explica a etimologia de carta, os tipos de letra e os
suportes.)
3. Solino: humor.
4. Organização do diálogo: do geral ao concreto (etimologia de carta > sobrescrito
> corpo > parte final da carta)

Diálogo IX
TRECHO 1
DIÁLOGO IX
Da prática e disposição das palavras

Ia crescendo o gosto daqueles amigos como exercício de tão proveitosa conversação, de tal maneira que nenhum perdia o sentido
das matérias que ficavam tocadas, para se armarem de razões, contos e exemplos com que cada um mostrasse aos outros sua
suficiência. Naquela, porém, da prática vulgar ficou Leonardo mui atalhado, assim por ser cousa em que tudo pende de opiniões
incertas, como porque o Doutor lhe cortara a urdidura com que havia de ir tecendo o seu discurso; desejava mudar o propósito a
outra cousa que viesse mais ao seu, mas como aquele era o de todos, não via caminho de o desviar. Veio, pois, a noite do outro
dia, e, com ela, os companheiros mui alvoroçados, aos quais ele festejou com a mesma alegria; e logo, depois que se assentaram,
lhes disse:
– Se hei-de falar verdade, eu estou tão carregado com o ofício que de novo me destes que me não atrevo a dar boa conta dele;
porque todas as que fiz para me dispor a isso me saíram erradas, e me parece tão dificultoso falar de cuidado e ordenadamente na
matéria em que se há-de praticar na língua Portuguesa, que me hei-de chamar ao engano, e o maior de todos foi darem-me espaço
para temer, quando eu cuidei que o tomava para me prevenir.

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TRECHO 1
– Em vós (disse D. Júlio) é gentileza esse receio; e, ainda que fosse fingido, eu o tenho por a primeira regra de falar bem, pois
ensinais aos discretos a não falarem com sobeja confiança, e, pela que eu tenho de vossa discrição, só em uma cousa achara
dificuldades, que é pordes em regras e preceitos o que tendes por natural e por costume; que servíeis mais para exemplo de quem
vos ouve que para mestre dos que não podem compreender a vossa doutrina.
– Se com título de me fazerdes mercê (respondeu ele) quereis que desconfie, mais fácil vos será isso que a mim o acertar; mas,
para que não erre no principal, digo que não posso fazer escola de falar bem, mormente entre cortesãos tão discretos que cada um
me poderá dar preceitos para o ser; mas se disser em algumas cousas a minha opinião, faço-o para com as razões dos que a
contradisserem aprender a acertar.
– Parece-me (disse Solino) que as melhores duas lições para os discretos são essas primeiras: receio e humildade. E, passando
adiante, começai já a descobrir essa retórica nova à língua Portuguesa.
– Por escusar (tomou ele) uma muito comprida e dilatada em preceitos e limites, que à força se hão-de misturar com os da latina,
e por evitar a largueza da arte e poupar a paciência dos ouvintes para outras noites, acudirei brevemente a alguns vícios da língua
Portuguesa, não fugindo dos termos da latina, nem levando-os a eles por fundamento, mas fazendo-o nestas cinco advertências:
Falar vulgarmente com propriedade.
Fugir da prolixidade
Não confundir as razões com brevidade.
Não enfeitar com brevidade as palavras.
Não descuidar com a confiança.
– Certo (disse o Doutor) que me parece essa uma retórica abreviada que podia servir a todas as línguas; porque a confusão dos
muitos preceitos e figuras, que lhe atribuem os mestres desta arte, se podem compreender debaixo desses cinco muito bem
achados. E pois Solino chamou aos meus vícios sete pecados contra a discrição, podia chamar a estes preceitos os cinco sentidos
dela. E, tratando do primeiro, como entendeis falar vulgarmente com propriedade, que em parte me parece que o vulgar não
guarda muitas vezes o respeito ao próprio?
– Falar vulgarmente (respondeu Leonardo) é qual os melhores falem e todos entendam: sem vocábulos estrangeiros, nem
esquisitos, nem inovados, nem antigos e desusados, senão comuns e correntes, sem respeitar origens, derivações, nem
etimologias; que a linguagem mais pende do uso que da razão e por isso se chama língua materna, porque nas mulheres, que
menos saem da pátria, se corrompe menos o uso do falar comum, posto que elas saibam pouco da razão de seus princípios. E
disto, e do falar com propriedade, tenho dito na prática que tivemos sobre as cartas missivas o que não será necessário repetir
agora de novo, mas somente dar mostra de que esses dois termos se não encontram: que se o falar próprio é com palavras naturais
e menos figuras da retórica para ornamento delas, e não usar dos tropos de alegorias, metáforas, translações, antonomásias,
antífrases, ironias, enigmas, e outras muitas, isso se usa na prática vulgar para se tratarem livremente as palavras próprias, pois
somente algumas translações, antonomásias e ironias se acham nela e muito raramente outras figuras. E posto que nisto me
detenha mais do que determinava, me hei-de embaraçar com estas três figuras: Translação é figura quando passamos as palavras
de uma cousa a outra, porém com uma semelhança conveniente, como quando dizemos: uma fonte de sabedoria, um poço de
letras, um raio de ouro, um tesouro de partes ou de graças. Esta figura se costuma usar para um de quatro efeitos: ou para evitar
palavras desonestas, ou para abreviar razões compridas, ou por acudir à pobreza da linguagem, ou por aformosear e enfeitar a
prática. No primeiro modo faz ofício mui necessário, que é dar a entender, por palavras alheias, cousas que soam mal por o seu
nome próprio, como dizer: uma mulher que usa mal de sua formosura; que se vende a preço, que se entrega a Vénus; que serve a
seu gosto. Um homem afeiçoado a ramos; perdido por Baco; esquecido de si. Também, para abreviar razões, é de muita utilidade
na prática, como quando dizemos: ficou em seco, deitou azar, torceu a orelha, deu cinco. Os outros dois modos me parecem na
prática sobejos e culpáveis: o primeiro, porque sempre se há-de fugir nela o enfeite e ornamento de palavras; e o outro porque
não faltam na língua Portuguesa as necessárias para cada um declarar o que lhe convém dizer.

1. Tratamento da questão da língua.


2. Crítica aos exageros do Barroco, um tema recorrente em toda a literatura
barroca (Sermão da Sexagésima do Padre António Vieira)

Diálogo XII
1. Tema: tratamento das cortesias sob diferentes pontos de vista: recebimento
por parte do anfitrião, comportamento dos hóspedes, etc.
2. Intervenção duma nova personagem, o Prior, que reapresenta a Igreja e é
inserido sob o pretexto de familiaridade com um dos intervenientes nos
diálogos. Ele tinha sido cortesão, pelo que é uma voz com autoridade.

TRECHO 1
– Todos esses lanços e outros semelhantes são estratagemas e finezas de cortesia (respondeu o Prior) das quais eu me não
esquecerei no seu lugar. E, prosseguindo a matéria, a visita tem três termos de cortesia, que são: o recebimento, o assento e o
acompanhamento da despedida. O recebimento é sair o visitado fora da casa aonde há-de tomar a visita, até à sala, para na entrada
dar a dianteira e melhoria ao que o vem visitar, o assento, dar o seu ao hóspede e tomar outro igual à sua mão esquerda, sem ser o
primeiro que se assente. O acompanhamento da despedida é sair com ele até à casa aonde o recebeu, tomando sempre a sua mão
esquerda, dando-lhe deste modo a melhoria na entrada, lugar e passeio.
– O descuido dos ignorantes (respondeu Leonardo) tem pervertido essas regras tão verdadeiras, ou, ao menos, embaraçadas pela
sua má correspondência; porque no receber das visitas há alguns que são como pesos de lagar, que se levantam devagar e se
assentam depressa; e a um dos tais disse um cortesão que era bom para testemunho falso, porque o não levantariam. Outro disse a

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Bloco 2: Ficção cavaleiresca e bucólica. Trânsito para o Barroco

TRECHO 1
um titular: que menos era para o senhor que para vassalo, porque nunca se levantaria. Já no recebimento há muitos que se ficam
atrás dos paus, por não deixarem a casa só, e assim dão cinco, e fazem o mesmo no acompanhamento da despedida; a cujo
propósito cabe aquele dito excelente de um senhor tão ilustre pôr sangue como por entendimento neste Reino, que, visitando a um
Legado do Papa vindo de pouco a Lisboa, na despedida deu com ele mui poucos passos ao sair da casa; e ele, tomando-o pela
mão, o trouxe adiante, dizendo: Para Italiano faz V. S. muito pouco exercício.
– Porém declarai-me se, nas visitas, falais também das que se costumam a fazer a enojados e enfermos, porque serão necessárias
outras regras muito diferentes.
– Não podia eu (disse o Prior) fazer essa mistura sem grande confusão e enleio. Mas delas, e das que se fazem a donas e donzelas
e outras semelhantes, determino particularmente dar meu voto debaixo da censura de vosso entendimento. E agora seguindo a
minha determinação: a terceira escola da cortesia é a mesa, em a qual as regras são muitas, porém muito ordinárias e conhecidas.
A primeira é do assento; a segunda, do serviço; a terceira, das iguarias; a quarta, das graças depois de comer. O assento, em mesa
de muitos, é o primeiro lugar o topo, a que chamam cabeceira, que fica à mão direita dos outros, entendendo que há-de ficar uma
das partes da mesa livre para o serviço dos ministros dela; e, quando é de menos gente, sempre o que agasalha toma por cortesia
o lugar da mão esquerda. No serviço, o primeiro é dar água às mãos, em que sempre se há-de preferir o hóspede, e andam nisto já
os servidores tão apurados que não fica aos convidados lugar mais que de algum leve cumprimento. O segundo (entre os amigos)
é o fazer o senhor da casa para cada um dos outros os pratos que se hão-de dividir na mesa, melhorando ao hóspede na escolha de
cada cousa, a que podem chamar cortesia mimosa. O comer há-de ser sem sofreguidão, sem mostra de gula, nem demasiado
apetite; e também não mostrar uma frieza cheia de fastio, que é desagradecer a comida e a vontade do que lha oferece. O beber
seja sem pressa e com tento, não levantando o copo nem o púcaro quando outrem o tem na boca, salvo aonde se usar a diferente
cortesia dos estrangeiros, que se convidam a beber em um mesmo tempo. O que está à mesa não há-de falar sempre enquanto os
outros comem, nem comer enquanto os outros falam. E, de uma maneira e outra, o que se disser não seja cousa que possa enojar o
estômago ou diminuir o gosto dos convidados. Também deve cada um acabar de comer quando os mais, ainda que lhe tivessem
vantagem na brevidade. As graças pertencem primeiro ao dono da casa, e os hóspedes a cortesia depois delas; que é uma maneira
de agradecimento cortesão. E, posto que pudera calar estas miudezas por mui sabidas (como outras que deixo pela mesma razão),
tenho alguma de falar nelas enquanto me servem para ao diante.
– Antes dessoutras (acudiu Solino) me quero eu meter como cebolinha em réstia; que, se até agora não pescava em tanto fundo,
porque a conversação obriga aos costumes e eu estou há tantos anos pelos desta Aldeia, para as cousas da mesa tenho feito outro
aranzel de cortesia; e, posto que nela e na humildade dizem que abaixo fica quem se não adianta, como as cousas de comer e de
proveito se atravessam com a vaidade deste estilo, tenho outra regra mui diferente por que me rejo, registada nos livros dos rifães
e provérbios das velhas e encomendadas à memória do meu moço, com muito cuidado, distinta por itens, muito importantes à
quietação e sossego da vida de uma Aldeia. Primeiramente: melhorar o hóspede no assento, e a mim no mantimento; dar-lhe nas
cortesias o que a mim nas iguarias; ele o primeiro no prato e a mim o melhor bocado. Se for pouco o vinho, beba eu diante, que
quem leva a primeira não fica sem ela. Se for pouco o pão, tê-lo eu na mão, por não pôr nas da cortesia o que folgo de ter na
minha. Não tirar prato de diante sem vir outro que mo alevante. Enquanto outrem apara, fingir que não vejo a faca. Se os outros
falarem muito, dizer os améns, porque ovelha que bala, bocado perde. Enquanto tiver fome, zombar de quem não come. E quando
tiver sede, lembrá-la a quem não bebe. E quanto em todas as mais entradas e saídas, como são o lavar das mãos, mesuras e
prolfaças, liberal como nas eiras. E a verdade é que o verdadeiro cumprimento em que se declaram os demais, e que serve de lei
mental a todos, é: todo sou vosso, tirando fazenda e corpo. E, passando da mesa, seguem logo outras regras não menos
respeitosas, como são: No acudir ao perigo, fingir-se manco. Na cama pequena, deitar no meio. No lugar estreito, correr diante,
que, quem vem tarde, mal se agasalha. Ribeiro grande, saltar de trás, que a verdadeira discrição é experimentar em cabeça alheia,
e a mais trilhada parvoíce é não cuidei.

1. Intertextualidade:
a) Il Cortegiano de Baltasar de Castiglione, que chega a Portugal a través da
tradução castelhana de Juan Boscán.
b) Menosprecio de la corte y alabanza de la aldea de Frei Antonio de
Guevara.
2. Personagens:
a) Prior: reapresenta uma visão mais completa da cortesia.
b) Solino: expõe uma teoria da cortesia às avessas lançando mão de
provérbios e ditos populares em contra da gentileza com os convidados.

TRECHO 2
– Essa inclinação (disse o Prior) de inclinar a cabeça, dobrar os joelhos ou pô-los em terra, e estendendo o braço para a pessoa a
que queremos venerar, beijar a mão própria, é cerimónia antiquíssima, que só a Deus se fazia, e assim se colhe de muitos lugares
da Escritura, como é no livro V. dos Reis, capitulo XIX; no de Job, capítulo XXXI; e no Deuteronómio, capítulo XVII; o que
também alguns gentios usaram, como lemos em Plínio, livro XXVIII, capítulo II. E daqui creio que se derivou este uso, que entre
nós há, do beijo as mãos de V. M.
– O costume de beijar a mão (respondeu o Doutor) entre os Romanos antigos foi dos escravos a seus senhores. Mas Plutarco
conta que, depois que Catão deu fim à sua milícia, despedindo-se dele os soldados com muitas lágrimas, e estendendo-lhe as
capas e os vestidos por onde passava, lhe beijavam a mão; e daqui começaram os livres a usar esta cortesia, de que logo lançaram
mão os pretendentes para granjearem ânimos e vontades alheias, como Séneca diz na Epístola CXVIII, e logo os Imperadores
modernos mandaram que seus vassalos lhes beijassem a mão, como escreve Pompónio Leto; e os Reis da Espanha o puseram por
ordenação, como se vê nas leis de El-Rei D. Afonso, nas leis de Castela, livro V, título XXV, pág. IV. E daqui se derivou o beijo
as mãos de V. M., que é confessar-se por escravo ou vassalo daquele a quem se faz a cortesia.

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TRECHO 2
– Essa (acudiu Solino) me custa a mim bem pouco; porque não gasto nela mais que palavras, e essas, com as abreviaturas de
agora, são já muito menos, O que me a mim cansa é o tirar o chapéu, que me fazem de despesa as boas correspondências de
forros e cairéis, afora os danos do feltro, o que Deus sabe e eu sinto; e não me pesara saber onde teve o princípio este mal que
padeço.
– O chapéu (respondeu o Doutor) era entre os Romanos sinal de nobreza e símbolo da liberdade; e, quando a queriam significar,
pintavam um chapéu, como se vê nas moedas de Cláudio, de Antonino e de Galba. E assim, quando libertavam aos escravos, lhes
davam chapéu, como refere Piério Valeriano nos seus hieroglíficos, livro XL, aonde também afirma que os escravos, que se
vendiam por maus costumes e ruins partes que tinham, os punham na almoeda com chapéu na cabeça, em sinal que seu senhor o
não queria por escravo, nem se obrigava a fiar sua má natureza. De sorte que o descobrir um homem a cabeça e tirar o chapéu ao
outro, é confessar-se por seu escravo; e a esta cortesia responde a de chamarmos senhores aos iguais e maiores com que tratamos,
e ainda aos inferiores.

1. Tema: como se deve cumprimentar.


2. Personagens:
a) Prior: erudição (referência a autores)
b) Doutor: erudição (referência aos romanos e às monarquias peninsulares).
c) Solino: humor.

TRECHO 3
Dizendo isto se levantou, e os mais o vieram acompanhando, feita primeiro cortesia ao senhor da casa e aos hóspedes que
ficaram nela. Enquanto com a falta daqueles assistentes a houve também na conversação das noites que se seguiram, será justo
que descansemos um pouco da continuação deste estilo, que, se ao gosto dos curiosos leitores for bem aceito, sairá brevemente à
luz outro volume de Diálogos, que espera ver o sucesso dos primeiros; pois esta virtude de escrever não tem no autor deles outro
fruto mais que a satisfação dos ânimos afeiçoados a seus escritos, aos quais com o trabalho de suas obras deseja pagar a vontade e
opinião com que as acreditam.

1. Despedida em que se promete uma segunda parte, se esta tiver sucesso, que
nunca se publicaria.

2.2. António Barbosa Bacelar (s. XVII)


2.2.1. Obra
1) Poesia: não a publicou em vida, mas era conhecida a partir de cópias
manuscritas que circulavas sobre tudo em bibliotecas particulares (registos de
bibliotecas e dicionários bibliográficos). Teve certo sucesso na altura.
a) A poesia barroca publicou-se em duas antologias do s. XVIII:
 Postilhão de Apolo, em que se publicam composições de Barbosa
Bacelar.
 Fénix Renascida.
b) Academias: eram assembleias literárias com regulamentos. As mais
conhecidas do Barroco foram:
 Academia dos Generosos, à que pertenceu Barbosa Bacelar.
 Academia dos Particulares.

2) Prosa:
a) Escritos comemorativos de acontecimentos do momento.
b) Escritos históricos.
c) Ficção:
 Lise mudable, em castelhano.
 Desafio venturoso, novela breve em português.

13 Literatura portuguesa II
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USC
Bloco 2: Ficção cavaleiresca e bucólica. Trânsito para o Barroco

2.2.1.1. Desafio venturoso


1) Género: é uma novela amatória, mas apresenta hibridismo com outros
géneros:
a) Novela cavaleiresca (aventuras).
b) Novela pastoril ou bucólica (situação no campo, igual que Corte na aldeia,
mas neste caso na Serra da Estrela, um lugar considerado afastado).
2) Argumento:
a) A obra inicia-se com o protagonista, Felício (um nome simbólico),
deambulando pela Serra da Estrela por mor do abandono duma mulher:
Lisarda.
b) Felício encontra a Carlos, em muito mal estado físico e psíquico, que
quando se recupera lhe conta que ele também sofria de desamor.
c) Quando Carlos lhe conta a história a Felício, este dá-se conta de que os dois
sofriam pela mesma mulher, já que Carlos ajuda-lhe a Lisarda a escapar
do matrimónio forçado com Felício. Com tudo, para Felício prevalece a
amizade e não toma vingança.
d) Mais tarde o destino leva a Felício a uma casa em que um homem quer
matar uma mulher, para a que já tem cavada a sepultura. Felício reconhece a
Félix, o pai de Lisarda, e a Lucinda, a criada que actuara como alcoviteira
entre Lisarda e Carlos. Ao final Félix não toma vingança já que se descobre
que Lucinda se tinha enganado ao lhe dar a Carlos uma nota que era para
Felício, pelo que este recupera a ilusão de volver com a sua amada.
e) Felício vê dois homens que se enfrentam em duelo, e reconhece um deles:
Carlos. O outro tinha uma máscara que lhe quita, e resulta ser Lisarda, que
defendia a sua honra.
f) Os três conversam e resolve-se o triângulo amoroso, que se converte num
quadrado: Felício e Lisarda, por uma parte, e Carlos e Ángela por outra.
Ángela era a irmã de Lisarda, a quem Carlos buscava o dia que recebeu a
nota equivocada de Lisarda.

3) Comentário de trechos:
a) Dedicatória:
 Obra dedicada a um religioso da Sé de Lisboa.
 Intertextualidade com Corte na aldeia:
 Afastamento da Corte.
 Alusão muito leve à perda da independência.
 Captatio benevolentiae e humilitas.

b) Romance inserido:
 A mistura de verso e prosa é normal na altura.
 Intertextualidade com A primavera de F. Rodrigues Lobo.
 Pastoril, temática amorosa.
 Alusões mitológicas: Vénus, Menino Cego (cupido)

c) Início:
 Forasteiro errante.
 Natureza hostil e personificada.
 Fortuna.
 Simbolismo dos nomes.

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Bloco 2: Ficção cavaleiresca e bucólica. Trânsito para o Barroco

 Conceito.
 Referências metaliterárias.
 Discurso disfórico.

2.2.2. Conceitos que serão recorrentes no Barroco


1) Amor e desamor:
d) Equívoco.
e) A terceira (alcoviteira, geralmente uma criada).
f) Triângulo amoroso.
2) Inconstância das damas.
3) Destino / Fortuna / (des)ventura / fado / sino / estrelas: determinante
para o desenvolvimento da história.
4) Simbolismo:
a) Dos nomes (Felício).
b) Da natureza, que serve para enfatizar a tragédia de dois modos:
 Por contraste do estado de animo da personagem com uma natureza
alegre.
 Por paralelismo entre o estado de animo do personagem e uma natureza
hostil.
5) Reconhecimento (Felício reconhece a Carlos e Lisarda).
6) A honra.
7) O disfarce varonil das damas.
8) Decoro poético: concepção segundo a qual as pessoas de classe nobre só
realizam acções nobres (Felício não toma vingança contra Carlos; Félix não
mata a Lucinda) e as não nobres são as que levam a cabo acções negativas
(Lucinda).
9) Conceito: exploração ao máximo do significado e o significante das
palavras. A capacidade para fazer isto denomina-se agudeza.
10) Referencias metaliterárias ou metadiscursivas.

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