O jornal oficial da exposição

Millôr, 90 anos de nós mesmos
daily
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Eu trabalhava na Paginação da
revista O Cruzeiro. Eu ficava
num canto, cuidando da parte
de cores. Millôr ia lá toda sema-
na, trazendo as duas páginas da
seção “O Pif-Paf”. Eu o recebia
e, enquanto me desobrigava da
tarefa de encaminhar a colabo-
ração à oficina (andares abaixo,
onde acontecia o mistério da
produção e impressão), ele tro-
cava ideias comigo. Ou melhor,
eu o ouvia atentamente.
O Cruzeiro tinha, na época,
um timaço de desenhistas de
humor: Millôr, Péricles, Carlos
Estêvão, Fortuna, Ziraldo e o re-
cém-contratado Borjalo, craque
do traço, que ganhara notorieda-
de assinando a última página da
concorrente Manchete.
As coisas mais malucas acon-
tecem na vida da gente, e não
é que eu – euzinho – acabei
publicando uma página naquela
revista, no lugar do Borjalo?
De manhã, quando cheguei na
Faculdade de Arquitetura fui
recebido aos gritos pelos meus
colegas. Era a glória! Depois
do almoço, quando entrei na
sala da Paginação, fez-se um
estranho silêncio. As pessoas
evitavam me dirigir a palavra.
Aí chega o Millôr e me diz “Vi a
tua página. Você acha que leva
jeito?”. Respondi ousadamente
que sim, que iria me esforçar
para ser original, fugindo de
influências.
“Mas não exagera!...”, me disse
o Millôr. Fui chamado à mesa do
meu chefe, Milton Dávila, que
me disse: “Você tem noção do
que fez? Publicou uma colabora-
ção na revista inimiga!”.
Fui demitido e passei a fazer
parte do folclore da casa: “Viram
só? Mandaram o rapaz embora
e ele ficou famoso!”. Nem tanto,
nem tanto... O melhor mesmo
foi ganhar a amizade do Millôr,
que durou a vida toda.
CLAUDIUS
Páginas viradas
CLAUDIUS, QUE FALA AMANHÃ NA TENDA DOS AUTORES, CONTA COMO PERDEU O EMPREGO,
MAS NÃO PERDEU A PIADA – E FICOU AMIGO DE MILLÔR
Daily Míllor analisa uma piada
Evidentemente isso aí é um
desenho de humor que também
poderia ser chamado de “car-
tum” ou até mesmo de “charge”,
mas que aqui será chamado
simplesmente de desenho. O
fato de incluir um texto e ser
engraçado é apenas, como
diz o outro, um “plus” a mais.
Ninguém chama Dom Quixote
ou Memórias póstumas de Brás
Cubas de romances de humor.
Mas, no fundo, é isso que eles
são. Esse é um desenho atem-
poral. Poderia ser publicado nos
séculos 19, 20, 21 ou 22. Poderia
ser usado em qualquer época
como “charge diária”. Usamos
aqui a expressão “charge diária”
no sentido de que poderia – e
deveria – ser publicada todos
os dias do ano, no mesmo jor-
nal, indefinidamente, até o final
dos tempos.
REINALDO
Paraty, quinta-feira
31 de julho de 2014
hai-kai Busca a poesia, ansiosa,
E descobre, já tarde,
Que a vida é em prosa.
Millôr Fernandes/Arquivo IMS
AUTOR
HOMENAGEADO
DA FLIP 2014
CLÁssIcOS dO
em NOVA eDIçÃO
9h30 | mesa zé kleber
Da cidade à cidadania
Jailson de Souza e Silva
Rene Uren
Paula Miraglia
21h30 | mesa bônus
Porque era ele, porque era eu
Mathieu Lindon
Silviano Santiago
12h | mesa 1
Poesia & Prosa
Charles Peixoto
Eliane Brum
Gregorio Duvivier
Poesia é um milésimo do que
se publica como poesia.
Me deem algum céu em fogo
Neve em dia de verão
Me deem vidas em jogo
Rastros de morte no chão
Amantes em rebeldia
Frisson de risco de giz
Que eu faço uma poesia.
Ué, já fiz.
17h15 | mesa 3
Fabulação e mistério
Eleanor Catton
Joël Dicker
Para escrever bem não é preciso
muitas palavras, só saber como
combiná-las melhor. Pense
no xadrez.
Não ligo se o escritor
É leviano ou denso,
Nem me importa se o livro
É pequeno ou imenso
Eu gosto é de autor
Que só pensa o que eu penso.
Best-seller – o melhor vendedor.
(Traduções televisivas)
19h30 | mesa 4
Paraty, Veneza no Atlântico Sul
Francesco Dal Co
Paulo Mendes da Rocha
A velocidade dos ventos julga
os arquitetos.
Se você tem que segurar a tam-
pa do vaso enquanto faz pipi,
está num banheiro de arquitetu-
ra pós-moderna.
Enfim, em vez de CONCRETO
ARMADO o urbanismo deve
utilizar apenas a BICICLETA!
Amizade é um amor que ainda
não foi pra cama. (Isto é, até
que algumas vezes vai.)
15h | mesa 2
Os possessos
Elif Batuman
Vladímir Sorókin
O que me impressionou quando
levantaram o pano, quer dizer,
derrubaram o Muro, que encobria
a gloriosa União Soviética, foi
embaixo daquilo não haver nada
novo. Estava lá a velha babushka,
o mesmo bêbado de sempre
batendo na mesma mulher hu-
milhada e conformada, o mesmo
mafioso rasputiniano perto do,
ou dominando o, poder.
Em O jardim das cerejeiras,
Tchekhov escreve uma cena
melancólica, no campo, quando
se ouve, no céu, o vibrar de uma
corda, como uma harpa, que se
rompe. Ao traduzir a peça, des-
cobri, através de uma biografia
do escritor, que esse som, na
memória de Tchekhov, vinha de
uma caçamba metálica caindo
no fundo de uma mina de car-
vão, nas vastidões da estepe do
Donetz. Lugar absolutamente
primitivo, onde Tchekhov passa-
va férias na infância.
Jamais converse com um
policial a não ser em legítima
defesa. (1957)
Cidadão, neste país em que não
há qualquer cidadania, passou a
significar só cidade grande.
Millôr comenta a programação
quinta-feira

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