O jornal oficial da exposição

Millôr, 90 anos de nós mesmos
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O MUNDO TEM MUITOS IDIOTAS
MAS, FELIZMENTE, ESTÃO
TODOS NAS OUTRAS MESAS
Encontrá-lo era sempre
um acontecimento
Paraty, sábado
2 de agosto de 2014
Ele podia ser moleque, no bom
sentido. Já contei mais de uma
vez que vi o Millôr ser ovaciona-
do pela plateia numa Jornada
de Literatura de Passo Fundo de-
pois de ler um discurso que era
um candente hino à democracia
e uma entusiasmante defesa
dos direitos humanos.
Ele esperou que cessassem os
aplausos e então revelou que
tinha acabado de ler o discurso
de posse do general Garrastazu
Medici na Presidência da Repú-
blica, quando foi inaugurado o
pior período da ditadura militar.
Com um só golpe de teatro o
Millôr tinha demonstrado como
era fácil levantar uma plateia,
enganando-a, como as palavras
pouco significam fora de um
contexto que as legitime e como
a retórica pode ser uma arma de
engabelação.
MILLÔR AMAVA AS PALAVRAS E AO MESMO TEMPO DESCONFIAVA
ABSOLUTAMENTE DELAS, LEMBRA O AMIGO VERISSIMO
O episódio também mostrava
não só a genialidade do homem
como sua característica defini-
dora, que era um total ceticis-
mo em relação às melhores
intenções da humanidade, in-
cluindo aí as do general Medici.
E um paradoxo: Millôr vivia das
palavras, amava as palavras,
manejava as palavras como
ninguém e até inventava pala-
vras novas, e ao mesmo tempo
desconfiava absolutamente
das palavras e alertava para o
mal que elas podiam causar,
quando usadas com descuido
ou desrespeito.
Outro paradoxo: apesar do
seu ceticismo chegar à beira
de uma descrença niilista com
tudo, o Millôr era uma pessoa
extremamente afetiva, para
quem a humanidade não valia
nada, com a exceção de todos
os seus amigos. Tive o privilégio
de ser seu amigo, apesar de
morarmos em países diferentes,
ele na República de Ipanema e
eu no Rio Grande do Sul, uma
das repúblicas do Prata, e por
isto nos vermos menos do que
eu gostaria.
Mas encontrá-lo era sempre um
acontecimento, uma alegria pes-
soal e um banquete intelectual.
Ele era uma raridade: um humo-
rista brilhante que também era
brilhante falando – na vida civil,
por assim dizer – e um pensador
em tempo integral.
Acho que faltou esta definição
nos seus necrológios: pensador.
Talvez o pensador mais original
que o Brasil já teve. Ou terá.
LUIS FERNANDO VERISSIMO
Na pena – ou na esferográfica – de CHICO CARUSO,
Millôr, o cartunista argentino Sábat e amigos em
almoço no Fuad’s, em Niterói
“Millôr esteve aqui”,
por Daniel Kondo,
convidado da Flipinha
Millôr Fernandes/Arquivo IMS
AUTOR
HOMENAGEADO
DA FLIP 2014
CLÁssIcOS dO
em NOVA eDIçÃO
12h | mesa 12
Memórias do cárcere:
50 anos do golpe
Bernardo Kucinski
Marcelo Rubens Paiva
Persio Arida
10h | mesa 11
Liberdade liberdade
Charles Ferguson
Glenn Greenwald
21h30 | mesa 16
Narradores do poder
David Carr
Graciela Mochkofsky
15h | mesa 13
A verdadeira história do Paraíso
Etgar Keret
Juan Villoro
17h15 | mesa14
Tristes trópicos
Eduardo Viveiros de Castro
Beto Ricardo
19h30 | mesa 15
Encontro com
Jhumpa Lahiri
Liberdade, quantos nomes se
oferecem aos teus crimes!
A liberdade é apenas uma
lamentável negligência das
autoridades.
Em nome de cobertura certos
jornalistas aceitariam até entrar
em Troia no cavalo dos gregos.
O economista é um ficcionista
que venceu na vida.
Mídia – eu sou do tempo em
que chamava média e era com
pão e manteiga.
Imprensa é oposição. O resto é
armazém de secos & molhados.
Em qualquer roda é fácil reco-
nhecer um jornalista: é o que
está falando mal do jornalismo.
Como dizia o torturador: “Eu
arranco os olhos do infame que
ousar repetir que fui respon-
sável por qualquer forma de
tortura.”
Quando os militares falam que
não vão se meter em política, já
estão se metendo.
O Oriente Médio só é Médio
para quem não vive lá.
Ao lembrarmos a história do
Paraíso vem-nos o sentimento
de frustração pelo sexo que
perdemos. Sim, pois se a maçã,
tão insossa, corresponde ao
sexo que temos, vocês já ima-
ginaram o sexo que teríamos
se a primeira-dama nos tivesse
tentado com um tamarindo
bem maduro, daqueles de dar
água na boca? Ou se a serpente
lhe tivesse indicado, em vez da
macieira, uma belíssima árvore
de morango com creme?
Está bem que Israel é a terra
prometida. Mas por que Deus
não prometeu logo os Estados
Unidos?
Bons tempos em que o Oriente
Médio era apenas um barril de
pólvora!
As florestas estão desaparecen-
do porque as árvores são todas
vegetarianas. (Falsa cultura)
O grupo de indígenas caminha-
va por dentro da selva virgem,
em plena Amazônia, quando um
deles, olhando entre as árvores,
recuou, horrorizado: “Deus do
céu! Antropólogos!”.
Livro não enguiça.
A beleza é a inteligência
à flor da pele
Millôr comenta a programação
sábado

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