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Copyright

by Presses Universitaires

de France,

1981

Traduzido

do original em franc•s

L' état, le pouvoir, le socialisme

-

ler édition -

1978

P894e

CIP-Brasil.

Catalogaç‹o-na-fonte

Nacional dos Editores de Livros, RJ.

Sindicato

ISBN-85-7038-017-8

Poulantzas, Nicos

O Estado, o poder, o socialismo

Nicos Poulantzas.

-

S‹o Paulo:

Paz e Terra. 2000

(Biblioteca

de Ci•ncias

sociais;

v. n.

I. Socialismo

I. T’tulo II. Série

19)

80-0769

CDD-335

CDU-330.342.1S

EDI‚ Í ES

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2000

no Brasil I Printed in Brazil

êNDICE

Advert•ncia

,

7

IN'I'RODU‚ Ì O

 

9

I.

Sobre a Teoria do Estado

9

n.

Os Aparelhos

Ideol› gicos:

 

o

Estado, repress‹o

+ ideologia?

26

m.

O Estado, os poderes e as lutas

 

33

 

PRIMEIRA PARTE

A MATERIALIDADE

INSTIrUCIONAL

DO ESTADO

47

I.

O trabalho intelectual

e o trabalho manual:

o

saber e o poder

51

n.

A individualizaç‹o

 

60

1 A ossatura do Estado e as técnicas do poder

-

60

2 As ra’zes do totalitarismo

-

 

67

m.

A Lei

74

 

1 -

Lei e Terror

74

2 -

A Lei Moderna

84

IV.

A Naç‹o

 

91

1

-

A matriz espacial:

o Territ—rio

98

PRIMEIRA

PARTE

A MATERIALIDADE INSTITUCIONAL DOESTADO

Podemos agora voltar ao nosso problema inicial: a materiali- dade institucional do Estado como aparelho "especial" n‹o pode ser reduzida a seu papel na dominaç‹o pol’tica. Deve ser, antes de mais nada, procurada na relaç‹o do Estado com as relaç› es de produç‹o e a divis‹o social do trabalho que elas implicam. Mas esta relaç‹o 'n‹o é de ordem epistemol—gica diferente da relaç‹o do Estado com as classes sociais e a luta de classes. Colocar o Estado em relaç‹o com as relaç› es de produç‹o e a divis‹o social do trabalho nada mais é que o primeiro momento, certamente diferenciado, de um único e mesmo processo: o de relacionar o Estado com o conjunto do campo das lutas. ƒ isso que tentarei mostrar aqui com refer•ncia, mais particularmente, ao Estado capitalista, sem reportar-me, de maneira exaustiva, a an‡lises feitas em meus textos precedentes. Contentar-me-ei em aprofundar e completar determinados pontos, retificar outros, ˆ luz de an‡lises que somos, agora, capazes de fazer. A questão que tentei responder j‡ em Poder politico e classes sociais era a seguinte: Por que a burguesia disp› e, para sua domina- ç‹o polí tica,deste aparelho de Estado absolutamente espec’fico que é o Estado capitalista, este Estado representativo moderno, este Es- tado nacional-popular de classe? De onde provém a ossatura mate- rial primeira deste Estado? Minhas an‡lises j‡ se situavam na se-

guinte direç‹o: esta materialidade baseia-se na separaç‹o relativa do . Estado e das relaç› es de produç‹o sob o capitalismo. O fundamen- to desta separaç‹o, princí pio organizador das instituiç› es pr—prias do Estado capitalista e de seus aparelhos (justiça, exército, adminis- traç‹o, polí cia etc.), de seu centralismo, de sua burocracia, de suas instituiç› es representativas (sufr‡gio universal, parlamento etc.), de seu sistema jurí dico, consiste na especificidade das relaç› es de pro- duç‹o capitalistas e na divis‹o social do trabalho a que induzem: se- paraç‹o radical do trabalhador direto de seus meios e objeto do tra- balho, na relaç‹o de posse no pr—prio processo de trabalho. O que me parecera caracterí stico, então, é um traço permanen- te da teoria marxista do Estado que persiste ainda hoje e que est‡ relacionado, ali‡s, ˆs profundas ambigüidades do pensamento do pr—- prio Marx a esse respeito. A esmagadora maioria dos autores mar- ,

xistas que

(ˆ "ditadura"

tinente quest‹o:

que corresponda ˆ dominaç‹o polí tica burguesa?", tentou encontrar

n‹o reduziam o Estado capitalista ˆ dominaç‹o polí tica

de uma burguesia-sujeito),

e colocavam

ent‹o a per-

"Por que este Estado precisamente

e n‹o um outro

deste Estado no dominio da circulaç‹ o do capital e

nas trocas mercantis "generalizadas". A linha geral dessas an‡lises

é suficientemente conhecida: trocas de mercadorias entre proprietá- rios "privados" - esta propriedade privada considerada apenas a

de compra

troca equivalente e valor de troca abstrato etc. Este seria o terreno de emerg•ncia da igualdade e da liberdade "formais" e "abstratas", part’culas isoladas da sociedade de troca - o indiv’duo genérico-' instauradas como "indiv’duos-pessoas" jurí dico-polí ticos, da lei e da, regra jurí dica formal e abstrata como sistema de coes‹o dos comer- ciantes que trocam. A separaç‹o relativa do Estado e da economia é tomada como separaç‹o do Estado e da famosa "sociedade civil". Esta sociedade civil, palco de necessidades e trocas entre indiv’duos isolados seria representada em si como uma associaç‹o contratual de sujeitos jurí dicos individualizados, sendo a separaç‹o da sociedade civil e do Estado reduzida a um mecanismo ideol—gico localizado no ‰mago das relaç› es mercantis, ˆ fetichizaç‹o-reificaç‹o do Estado a partir do famoso fetichismo da mercadoria. As variantes desta con- cepç‹o s‹o numerosas, porém a trama continua sempre a mesma. Esta concepç‹o foi tematizada principalmente pela escola marxista

o fundamento

n’vel jurí dico

-,

contrato

e venda

da força-trabalho,

italiana (Galvanno della Volpe, U. Cerroni etc.), Ela permanece ex-

traordinariamente

maispr—ximos,

Procurei demonstrar que esta concepç‹o é insuficiente e par-

cialmente falsa, porque ela procura o fundamento do Estado nas re-

laç› es de circulaç‹o e

forma uma posiç‹o pré-marxista) e n‹o nas relaç› es de produç‹o, que t•m um lugar determinante no conjunto do ciclo de reproduç‹o ampliada do capital. Esta concepç‹o empobrece consideravelmente as pesquisas sobre o Estado. E o que é mais, ao levantar a quest‹o

da especificidade institucional do Estado capitalista, torna imposs’- vel a articulaç‹o entre esse Estado-sociedade civil e o Estado-luta de classes: as classes sociais t•m elas mesmas seu fundamento nas re- laç› es de produç‹o. N‹o que esta concepç‹o n‹o encerre certos me- canismos institucionais importantes do Estado, pois o espaço de cir- culaç‹o do capital tem ele pr—prio efeitos sobre o Estado: mas ela omite o essencial. Ela tem assim uma conseqü•ncia suplementar:

n‹o deixa perceber certas caracterí sticas do Estado nos paí ses do Leste que se assemelham ˆs do Estado capitalista, ainda que as rela-

ç› es

Ora. esta semelhança é devida, entre outras coisas, aos "aspectos ca-

pitalistas" que marcam o Estado nesses paí ses, pois marcam igual- mente suas relaç› es de produç‹o e sua divis‹o social do trabalho. Os

viva: basta mencionar

os recentes trabalhos,

a n—s

de Henri Lefebvre

sobre o Estado. I

nas trocas mercantis (o que é de qualquer

mercantis aí tenham sofrido consider‡veis transformaç› es.

~ trabalhadores

n‹o det•m nem o controle nem o dom’nio dos proces-

sos de trabalho (relaç‹o de posse), nem o poder econômico real . sobre os meios de trabalho (relaç‹o de propriedade econômica, di-

ferente de propriedade jurí dica): trata-se de uma estatizaç‹o e n‹o de

uma verdadeira socializaç‹o da produç‹o.

se de uma ditadura sobre o proletariado. Seja como for, a discuss‹o e pesquisa sobre o Estado e o poder,

na França e no estrangeiro t•m, desde então, avançado consideravel-

mente, de maneira tal que a conjuntura

cialmente. Porém certas an‡lises recentes, me parece, reproduzem os inconvenientes e as defici•ncias daquelas que ataquei ˆ época. Criti- cou-se muitas vezes minhas an‡lises sob a pecha de politicismo: ten- tando estabelecer o espaço polí tico pr—prio do Estado e do poder ca- pitalistas a partir "exclusivamente" das relaç› es de produç‹o, eu n‹o teria dado suficiente atenç‹o ˆs relaç› es do Estado e da economia.

No plano polí tico, trata-

ideol—gico-te—rica mudou par-

A quest‹o seria ent‹o relacionar

o Estado com o que alguns de-

signam como a l—gica do capital, ou seja, sua acumulaç‹o e repro- duç‹o ampliada. Problem‡tica que desenvolveu-se particularmente na Alemanha Federal sob a denominaç‹o de Ableitung, na Grã-Bre- tanha e nos Estados Unidos sob a denominaç‹o de Derivation, e sobre a qual atualmente se disp› e de determinados textos em fran-

c•s. Trata-se de fazer "derivar", digamos deduzir, as instituiç› es pr—prias do Estado capitalista das "categorias econômicas" da acu- mulaç‹o do capital. Ora, essa problem‡tica recai numa concepç‹o assaz tradicional do capital como entidade abstrata com l—gica in- trí nseca- as categorias econômicas -, e culmina em duas linhas de pesquisa, insuficientes tanto uma como outra, para explicar a es- pecificidade material desse Estado. Ora recai, como J. Hisrch de- monstrou, precisamente no espaço das trocas e da circulaç‹o do ca-:

pital (troca equivalente, moeda, valor abstrato etc.), e deduz essa especificidade dessas "categoriasv.? Ora ainda tenta deduzir esta es- pecificidade e as transformaç› es hist—ricas desse Estado, de suas funç› es econômicas em benefí cioda acumulaç‹ o ampliada do ca- pital. Tend•ncia retomada igualmente na França e que se traduz, particularmente para o atual Estado, em deduzir o conjunto de suas transformaç› es institucionais de seu novo papel na superacumula- ç‹o-desvalorizaç‹o do capital. Aqui também, esta linha de pesquisa omite o essencial: certamente, ao me posicionar essencialmente con- tra o economicismo, na época, eu desviara o bastão noutro sentido. As funç› es econômicas (é preciso que se explique ainda o sentido exato desse termo) t•m importantes efeitos em favor da acumulaç‹o do capital, da acumulaç‹o primitiva ao capitalismo concorrencial e

o capitalismo monopolista atual, sobre a estruturaç‹o do Estado.

Isso ser‡ amplamente retomado na terceira parte deste texto, onde mostrarei que elas s‹o essenciais para explicar a forma atual do

Estado, o estatismo autorit‡rio. Por ora, contudo, digo simplesmen-

te que essas funç› es n‹o s‹o principais e n‹o permitem explicar, de

maneira exaustiva, as instituiç› es polí ticas.N‹o respondem ˆ ques-

t‹o fundamental: por que s‹o elas preenchidas precisamente por esse Estado muito particular que é o Estado representativo nacional- popular, moderno e n‹o por um outro? Para colocar uma questão aparentemente paradoxal: por que esse Estado n‹o se reproduz sob sua forma de monarquia absolutista?

, Da. mesma

maneira

que n‹o se pode responder

a esta quest‹o

pela referência exclusiva ˆ dominaç‹o pol’tica (ˆ natureza da bur- guesia ou ˆ luta apenas polí tica burguesia/classe oper‡ria), n‹o se

pode responder pela refer•ncia ˆ s funç› es econômicas do Estado ou

a uma conjunç‹o das duas (funç› es econômicas + luta polí tica).

Mais exatamente, essas funç› es econômicas s‹o articuladas e basea- das nas' relaç› es de produç‹o e em sua especificidade capitalista. Estas constituem a base primeira da materialidade institucional do Estado e de sua separaç‹o relativa da economia, que marca sua os-

satura como aparelho: s‹o a única base de partida poss’vel de uma an‡lise das relaç› es do Estado com as classes e a luta de classes. As transformaç› es do Estado estão ligadas, principalmente, ˆs transfor-

maç› es

das relaç› es de produç‹o

capitalistas

que induzem transfor-

maç› es

desta separaç‹o e, da’, ˆs lutas de classes. ƒ a’ que se ins-

crevem as modificaç› es do papel e das

Estado que t•m, certamente, seus efeitos pr—prios sobre ele.

atividades econômicas do

Linha de pesquisa que me orientara em Poder polí ticoe classes sociais porém que eu apontava os limites: esse texto, escrito antes de maio de 1968 (publicado em maio de 68), enfatizando o papel da di- vis‹o social - capitalista - do trabalho na medida precisamente em

.que tomava como base de partida duzia ainda o alcance consider‡vel

e as

particularidades do movimento oper‡rio que se seguiu que far‹o sal- tar toda uma série de bloqueios. Expus minhas deduç› es em As clas- ses sociais no capitalismo hoje?quanto ˆ importância da divis‹o so- dai do trabalho na constituiç‹o das classes. Tentarei fazer aqui o mesmo em relaç‹o ao Estado, tomando certos casos t’picos a tí tulo de exemplo. Feito isso, cuidarei de tratar de quest› es te—ricas funda- mentais: centrar a perspectiva e o eixo da pesquisa para esta divis‹o coloca novos problemas, porque considerar o Estado com esta divi- s‹o n‹o é uma coisa simples, como sempre se vem acreditando.

as relaç› es de produç‹o, n‹o tra-

desta divis‹o. ƒ o maio de 68

I, O TRABALHO INTELEcruAL E O TRABALHO MANUAL:

O SABER E O PODER

Comecemos pela criaç‹o e o funcionamento do Estado bur- gu•s na sua materialidade de aparelho. Aparelho especializado, cen-

tralizado, de natureza especificamente polí tica, consistindo num agrupamento de funç› es anônimas, impessoais e formalmente dis- tintas do poder econômico, cujo agenciamento ap—ia-se numa axio- matizaç‹o de leis-regras que distribuem os domí nios da atividade, de compet•ncia, e numa legitimidade baseada nesse corpo que é esse povo-naç‹o. Elementos que, todos eles, est‹o incorporados na organizaç‹o dos aparelhos do Estado moderno. Estes se distinguem dos aparelhos de Estado feudais, baseados em elos pessoais, na pro-

jeç‹o de todo poder sobre o poder econômico (o senhor desempe- nhando ele mesmo o papel de juiz, de administrador, de chefe mili- . tar ao mesmo tempo que proprietário fundi‡rio), numa hierarquia. composta de poderes estanques (a pir‰mide senhorial), cuja legiti- midade decorre da soberania do corpo do chefe (rei-senhor) traçada no corpo social. Especificidade portanto do Estado moderno que est‡ ligado precisamente a esta separaç‹o relativa do polí tico e do econômico, e a toda uma reorganizaç‹o de seus espaços e respecti-

vos campos,

relaç› es

Essas relaç› es s‹o o solo de uma reorganizaç‹ o prodigiosa da divis‹ o social do trabalho da qual elas s‹o consubstanciais, reorga- nizaç‹o que distingue a mais-valia relativa e a reproduç‹o ampliada do capital no est‡gio do "maquinismo" e da "grande indústria". Esta divis‹o propriamente capitalista, sob todas as formas, representa' a condiç‹o de possibilidade do Estado moderno. Estado que surge

assim em toda sua originalidade hist—rica: esse Estado constitui uma efetiva ruptura em relaç‹o aos tipos de Estado pré-capitalistas (asi‡- tico, escrav’sta, feudal), que n‹o basta para compreender exatamen-

te as concepç› es

ç›

implicada

na total espoliaç‹o capitalistas.

do trabalhador

direto nas

de produç‹o

que fundamentam

as relaç› es

mercantis

(concep-

es estas que sempre existiram).

. N‹o tomo aqui n‹o mais que um caso dessa divis‹o, qual seja

o da divis‹o entre trabalho manual e trabalho intelectual. Esta divi- s‹o n‹o pode ser concebida de maneira emp’rico-naturalista, c0!D0 uma cis‹o entre os que trabalham com suas m‹os e os que trabalham

com sua cabeça: ela remete diretamente ˆs relaç› es polí tico-ideol—- gicas tais como ocorrem em determinadas relaç› es de produç‹o. Ora, como Marx muito bem mostrou, h‡ uma especificidade desta

divis‹o no capitalismo,

direto de seus meios de trabalho.

ligada ˆ espoliaç‹o

completa do trabalhador

O que tem como efeito:" a) a sepa-

raç‹o caracterí stica dos elementos intelectuais e do trabalho realiza- do pelo trabalhador direto, trabalho que, nesta distinç‹o do trabalho intelectual (o saber) recobre assim a forma capitalista de trabalho manual; b) a separaç‹o da ci•ncia do trabalho manual enquanto, a "serviço do capital", tende a tomar-se força produtiva direta; c) as

relaç› es

ou seja a ideologia dominante, n‹o apenas no sentido de um saber mais "ideologizado" que antes, nem simplesmente no sentido de uma' utilizaç‹o polí tico-ideol—gica do saber pelo poder (isso sempre aconteceu), mas no sentido de uma legitimaç‹o ideol—gica do poder

institu’do na modalidade da técnica cient’fica, ou seja, a legitimaç‹o de um poder como decorrente de uma pr‡tica cient’fica racional; d) as relaç› es org‰nicas estabelecidas doravante entre o trabalho inte- lectual assim separado do trabalho manual e as relaç› es de domina- ç‹o polí ticas, em suma entre o saber e o poder capitalistas. O que Marx demonstrara a respeito do despotismo da f‡brica e do papel da

ci•ncia

da’ em diante org‰nicas entre saber e poder, entre trabalho intelec- tual (saber-ci•ncia investido na ideologia) e as relaç› es pol’ticas de

dominaç‹o,

no processo de ex-

tors‹o da mais-valia.

Se esta separaç‹o capitalista, totalmente caracterí stica, entre trabalho manual e trabalho intelectual é apenas um aspecto de uma divis‹o social do trabalho mais geral, ela é decisiva no caso do Es-

particulares entre a ci•ncia-saber e as relaç› es ideol—gicas,

no processo de produç‹o capitalista, ao analisar as relaç› es

tais como existem e se reproduzem

átado. Uma das intuiç› es

fundamentais

dos cl‡ssicos

do marxismo

é

que o aspecto

mais interessante,

sem dúvida,

da divis‹o

social

do

. trabalho

em relaç‹o

ˆ emerg•ncia

do Estado como aparelho

"espe-

cial" consiste na divis‹o' entre trabalho manual e trabalho intelec-

tual. O Estado encarna no conjunto de seus aparelhos. isto é, n‹o

apenas em seus aparelhos ideol—gicos mas igualmente em seus apa- relhos repressivos ou econômicos, o trabalho intelectual enquanto afastado do trabalho manual: o que se torna evidente quando se sai da distinç‹o naturalista-positivista trabalho manual/trabalho inte- lectual. E é no Estado capitalista que a relaç‹o org‰nica entre traba- lho intelectual e dominaç‹o polí tica, entre saber e poder, se efetua de maneira mais acabada. Esse Estado, afastado das relaç› es de produç‹o, situa-se precisamente ao lado do trabalho intelectual ele mesmo separado do trabalho manual: ele é o corol‡rio e o produto

desta divis‹o,

reproduç‹o. Isso se traduz na pr—pria materialidade

ao deter um papel pr—prio em sua constituiç‹o

e sua

do Estado. Inicialmen-

te em sua especializaç‹o-separaç‹o dos aparelhos de Estado em re- laç‹o aos processos de produç‹o: é principalmente por uma crista-

lizaç‹o do trabalho intelectual que esses aparelhos se afastam desse processo. Esses aparelhos, em sua forma capitalista (exército, justi- ça, administraç‹o, polí cia etc.), para n‹o citar os aparelhos ideol—- gicos, implicam exatamente a efetivaç‹o e o domí nio de um saber e de um discurso (diretamente investidos na ideologia dominante ou

constitu’dos a partir de formaç› es ideol—gicas dominantes)

as massas populares estão exclu’das. Aparelhos baseados em sua. ossatura numa exclus‹o espec’fica e permanente das massas popu- lares situadas ao lado do trabalho manual, que s‹o subjugadas in-

em que

diretamente pelo Estado. ƒ a monopolizaç‹o permanente do saber por parte do Estado-s‡bio-Iocutor, por parte de seus aparelhos e de seus agentes, que determina igualmente as funç› es de organizaç‹o e de direç‹o do Estado, funç› es centralizadas em sua separaç‹o es- pec’fica das massas: imagem do trabalho intelectual (saber-poder) materializada em aparelhos, em face do trabalho manual tendencial- mente polarizado em massas populares separadas e exclu’das des- sas funç› es organizacionais. ƒ igualmente evidente que uma série de instituiç› es da democracia representativa, dita indireta (partidos polí ticos, parlamento etc.), em suma da relaç‹o Estado-massas, de- pendem do mesmo mecanismo. Isto Gramsci pressentira, quando via no papel geral de organizaç‹o do Estado capitalista a realizaç‹o por excel•ncia de um trabalho intelectual separado de maneira ca- racterí stica do trabalho manual. ƒ assim que Gramsci inclu’a os agentes dos aparelhos de Estado, inclu’dos os aparelhos repressi- vos (policiais, guardas, militares), entre os intelectuais (org‰nicos e tradicionais) em amplo sentido? Esta relaç‹o saber-poder n‹o é mais que a ideologia e n‹o re- presenta apenas a simples funç‹o de legitimaç‹o do Estado se bem que a assegure, notadamente no terreno do pensamento polí ticoofi- cial. Mesmo durante a transiç‹o do feudalismo para o capitalismo, depois ao est‡gio do capitalismo concorrencial, ambos marcados pela constituiç‹o do Estado burgu•s e pela domin‰ncia, no seio da ideologia burguesa, da ‡rea jurí dico-polí tica,esta (a polí tica,o direi-

to), de Machiavel a Th. Morus até em suas conceitualizaç› es ulte- riores, é explicitamente legitimada, na forma da técnica cient’fica e sobre o modelo das eptstemes apod’dicas, como detentora de um

saber

que ela op› e ˆquilo que designa como utopia. Isto ultrapassa,

ali‡s, o simples discurso oficial e estende-se a essas formas primei- ras de ideologia produzidas pelo Estado, que garantem as relaç› es

internas ao aparelho (autolegitimaç‹o interna) e a legitimaç‹o de suas pr‡ticas para o exterior: legitimaç‹o das pr‡ticas do Estado e de seus agentes como portadores de um saber particular, de uma racio- nalidade intrí nseca. Tudo isto, ali‡s, n‹o faz mais que reforçar-se atualmente, sob as formas particulares da relaç‹o ideologia-saber-

ci•ncia 'que implica

a

transformaç‹o

da ideologia

jurí dico-polí tica

em ideologia tecnocr‡tica. Mas reafmno exatamente que essa relaç‹o saber-poder n‹o é apenas de ordem da legitimaç‹o ideol—gica: a separaç‹o capitalista do trabalho intelectual e do trabalho manual concerne também ˆ ci•ncia em si, e a engloba. A apropriaç‹o da ci•ncia pelo capital se faz certamente na f‡brica, mas igualmente pelo Estado. Esse Estado apresenta isso de particular quando tende a incorporar a pr—pria ci•ncia organizando seu discurso, o que atualrnente é n’tido. N‹o se trata de uma simples instrumentalizaç‹o da ci•ncia e de sua manipu- laç‹o ao serviço do capital. O Estado capitalista arregimenta a pro- duç‹o da ci•ncia que se toma assim uma ci•ncia de Estado imbrica- da, em sua textura intrí nseca, nos mecanismos de poder; o que, é sabido, n‹o vale tão-somente para as chamadas "ci•ncias humanas", Mais genericamente, esse Estado reparte o trabalho intelectual por toda uma série de circuitos e redes graças aos quais ele se substitui ˆ Igreja, submete-se e confí rma o corpo de intelectuais-savants, en- quanto, na Idade Média, isso s—existia de maneira proteiforme. Os intelectuais como corpo especializado e profissionalizado s‹o cons- titu’dos em sua funcionalizaç‹o-mercenarizaç‹o pelo Estado moder- no. Esses intelectuais portadores de saber-ci•ncia tomam-se funcio- n‡rios (universidades, institutos, academias, diversas sociedades de estudo) do Estado pelo pr—prio mecanismo que fez dos funcion‡rios deste Estado intelectuais.

Se a relaç‹o saber-poder n‹o é de ordem apenas da legitima- ç‹o, é igualmente, lembro, porque o discurso do Estado, cristaliza

em si essa relaç‹o;

discurso

que é, aqui,

inteiramente

espec’fico.

N‹o se trata como para os Estados pré-capitalistas, de um discurso de revelaç‹o, baseado na palavra (efetiva ou suposta) do Prí ncipe, repetindo a inscriç‹o do corpo soberano no corpo social. Discurso m’tico de sentido pr—prio, e que tende indevidamente a suprimir pela narrativa a dist‰ncia entre os começos do poder soberano e as origens do mundo. O Estado capitalista n‹o funda sua legitimidade em sua origem: ele comporta uma série de fundaç› es sucessivas na soberania, constantemente renovada, do povo-naç‹o. Esse Estado

afirma assim um papel organizacional

ses dominantes e um papel de regulaç‹o em face do conjunto da for- ,

particular em relaç‹o ˆs clas-

maç‹o social: seu discurso é um discurso da aç‹o. Um discurso da estratégia e da t‡tica, imbricadas certamente ˆ ideologia dominante. mas alimentada igualmente de uma ci•ncia-saber açambarcada pelo Estado (os conhecimentos econômicos, polí ticos,hist—ricos). Esse discurso, se efetua por excel•ncia a junç‹o saber-poder, n‹o tem unidade pr—pria e intrí nseca.Trata-se de um discurso seg- ment‡rio e fragmentado segundo os objetivos estratégicos do poder

e as diversas classes ˆs quais ele se dirige. Tive oportunidade de ob- servar que mesmo essa "linguagem totalitária" por excel•ncia, que

é o discurso fascista, apresenta uma série de deslocamentos, de tor-

ç‹o de sentido, de f—rmulas id•nticas (do termo corporativismo, por exemplo) segundo a diversidade dos objetivos ou das classes visa- das. Esse discurso deve sempre ser compreendido e entendido, mesmo que n‹o deva ser de maneira uní vocae por todos: n‹o basta que seja pronunciado de maneira encantat—ria. O que sup› e, através dos diversos c—digos discursivos, uma sobrecodificaç‹o do Estado, quadro referencial de homogeneizaç‹o de segmentos discursivos e dos aparelhos que os cont•m, terreno de seu funcionamento diferen- cial. Essa sobrecodificaç‹o est‡ inculcada, por destilaç‹o calculada, no conjunto dos suspeitos. ƒ a unificaç‹o da lí nguaque instaura o Estado capitalista ao produzir a lingua nacional e ao extinguir as ou- tras. L’ngua nacional certamente necess‡ria para a criaç‹o de uma economia e de um mercado nacional, porém, muito mais ainda, para a funç‹o polí ticado Estado. Miss‹o portanto do Estado nacional de organizar os procedimentos discursivos modelando a materialidade do povo-naç‹o e criar a l’ngua, criaç‹o certamente situada nas trans- formaç› es ideol—gicas, mas que n‹o se reduz meramente a uma ope- raç‹o ideol—gica.

Essa relaç‹o saber-poder, fundamentada no trabalho intelec- tual que o Estado cristaliza separando-o do trabalho manual, situa- se na ossatura organizacional do Estado. O Estado retraça e repro- duz em seu pr—prio corpo a divis‹o social do trabalho: ele é portanto

o decalque das relaç› es entre poder e saber tais como elas se repro-

duzem no

centralizadas e disciplinares para relaç› es de escal› es e núcleos de decis‹o/execuç‹o, de escal› es de delegaç‹o de autoridade para for- mas de repartiç‹o-ocultamento do saber conforme esses escal› es (segredo burocr‡tico) e para formas de qualificaç‹o e recrutamento de agentes do Estado (qualificaç‹o escolar e recrutamento por con- curso), a ossatura do Estado capitalista encarna, nos m’nimos deta- lhes, a reproduç‹o induzida e interiorizada, no pr—prio seio do tra-

balho intelectual, da divis‹o capitalista entre o trabalho intelectual e

o trabalho manual. Nos seus menores detalhes: isso se propaga, por

exemplo, em toda a ritualidade material do Estado, por exemplo e por mais que seja um detalhe, no caso da escrita. N‹o h‡ dúvida de que sempre houve uma estreita relaç‹o entre

o Estado e a escrita, todo Estado representa uma certa forma de di-

vis‹o entre trabalho intelectual e trabalho manual. Mas o papel da escrita é inteiramente particular no Estado capitalista, escrita que, mais ainda que o discurso-fala representa aqui a articulaç‹o e a ven- tilaç‹o saber-poder em seu seio. Do traço escrito, da nota, das rela- ç› es com os arquivos, nada existe, sob certos aspectos, para esse Es- tado, que n‹o seja escrita, e tudo que nele se faça deixa s~mpre uma marca escrita em alguma parte. Ora, a escrita aqui é ’nte’ramente diferente daquela nos Estados pré-capitalistas: n‹o é mais uma es- crita de retranscriç‹o, puro decalque da fala (real ou suposta) do so- berano, escrita de revelaç‹o e de memorializaç‹o, escrita monumen- tal. Trata-se de uma escrita anônima, que n‹o repete um discurso mas torna-se trajeto de um percurso, que traça os lugares e os dispo- sitivos burocr‡ticos, percorre e figura o espaço centralizado-hier‡r- quico deste Estado. Escrita que ao mesmo tempo espacializa e cria espaços lineares e revers’veis nesta cadeia consecutiva e segmenta- rizada que é a burocratizaç‹o. Papelada da organizaç‹o estatal mo- dema que n‹o é simples detalhe pitoresco mas um traço material es- sencial ˆ sua existência e funcionamento, cimento interno de seus intelectuais-funcion‡rios, encarnando a relaç‹o deste Estado e do

seio do trabalho intelectual. De relaç› es hier‡rquicas,

trabalho intelectual. Esse Estado n‹o monopoliza, n‹o retém para si a escrita como no caso dos Estados pré-capitalistas ou da Igreja:

propaga-a (escolas) por necessidades muito concretas de formaç‹o da força de trabalho. Mas, ao fazer isso, ele desdobra-a, tanto mais

que o discurso-fala do Estado deve ser compreendido e entendido. Tudo se passa como se nesse Estado de fala aberta e lí nguanacional unificada, o segredo em relaç‹o ˆs massas populares e a cristaliza- ç‹o do saber-poder estivessem passados inteiramente na escrita do Estado, cujo hermetismo com refer•ncia ˆs massas populares, ex- clu’das dessa escrita, é assaz conhecido. Foi esse Estado que siste- matizou, quando n‹o descobriu, a gram‡tica e a ortografia montan- do-as em redes de poder. Enfim, essa relaç‹o poder-saber se traduz por técnicas particu- lares de exerc’cio do poder, por dispositivos precisos, inscritos na trama do Estado, de distanciamento permanente das massas popula- res dos centros de decis‹o: por uma série de rituais, de formas de discurso, de modos estruturais de tematizaç‹o, de formulaç‹o e tra- tamento dos problemas pelos aparelhos de Estado de maneira tal (monopolizaç‹o do saber) que as massas populares (nesse sentido trabalho manual) ficam de fato ˆ parte disso. Certamente, n‹o se trata de reduzir a relaç‹o do Estado e das relaç› es de produç‹o ˆ divis‹o trabalho intelectual/trabalho manual. N‹o pretendo mais que ilustrar a direç‹o de pesquisa que nos faz abandonar a esfera das relaç› es mercantis como fundamento do Es- tado capitalista (nesse caso, pela burocracia como instância centra- lizadora necess‡ria diante da anarquia concorrencial da sociedade civil). Acrescento que, também nesse caso, o Estado n‹o é o simples resultado -da divis‹o trabalho intelectual e trabalho manual funda- mentada nas relaç› es de produç‹o. Ele trabalha ativamente para a reproduç‹o desta divis‹o no pr—prio seio do processo de produç‹o e, para além disso, no conjunto da sociedade, ao mesmo tempo por aparelhos especiais que interv•m na qualificaç‹o-formaç‹o da força de trabalho (escola, fam’lia, redes diversas de formaç‹o profissio- nal) e pelo conjunto de seus aparelhos (partidos polí ticosburgueses e pequeno-burgueses, sistema parlamentar, aparelhos culturais, im- prensa, m’dias). Ele est‡ de antem‹o presente na constituiç‹o desta divis‹o no seio das relaç› es de produç‹o: a divis‹o trabalho ma- nuaVintelectual encarnada no despotismo de f‡brica remete ˆ s rela-

ç› es polúicas de dominaç‹o/subordinaç‹o

tais como existem nas re-

laç› es de exploraç‹o e dessa maneira, ˆ presença do Estado nesses

últimos. Observa-se também agora que essa relaç‹o saber-poder diz respeito igualmente, por alguns de seus aspectos capitalistas, ao Es- tado nos paí sesditos de socialismo real, apesar das transformaç› es que neles sofreram as relaç› es mercantis. A divis‹o do trabalho in- telectual e do trabalho manual, fundamentada nos "aspectos capita- listas" de suas relaç› es de produç‹o, para além mesmo de uma esta- tizaç‹o (distinta de uma verdadeira socializaç‹o) da economia, se reproduz aí sob uma nova forma. Destaco apenas, ˆ guisa de indica- ç‹o, pois então tudo isso se reveste de formas particulares e consi- deravelmente diferentes que em nossas sociedades, por inúmeras ra- z› es, inclusive pelas particularidades das classes sociais e da luta de classes que distinguem esses paí ses. Este relacionamento do Estado com a divis‹o trabalho intelec- tual/trabalho manual, tal como est‡ implicada nas relaç› es de pro- duç‹o capitalistas, n‹o é portanto sen‹o um primeiro passo para es- tabelecer a relaç‹o do Estado com as classes e a luta de classes sob o capitalismo. Este Estado, que representa o poder da burguesia, re- mete ˆs particularidades da constituiç‹o desta classe como classe dominante. Baseada num campo que implica a especializaç‹o carac- terí stica das funç› es e do trabalho intelectual, a burguesia é a pri- meira classe da hist—ria que tem necessidade, para se firmar como classe dominante, de um corpo de intelectuais org‰nicos. Estes, for- malmente distintos dela embora arregimentados pelo Estado, n‹o t•m um papel simplesmente instrumental (como foi o caso dos pa- dres para a feudalidade) mas um papel de organizaç‹o de sua hege- monia. N‹o é por acaso que a forma original da revoluç‹o burguesa fosse, primeiramente, a de urna revoluç‹o ideol—gica: basta imagi- nar o papel da ftlosofia das Luzes e o do aparelho ideol—gico-cultu- ral da ediç‹o e da imprensa na organizaç‹o da burguesia. Mais que isso: se todo Estado capitalista apresenta a mesma ossatura material, essa se singulariza conforme as particularidades da luta de classes, da organizaç‹o da burguesia e do corpo dos inte- lectuais em cada Estado e paí scapitalista concretas. Nada mais claro que '0 caso franc•s: a burguesia francesa, na trajet6ria do Estado ab- solutista e através das formas da Revoluç‹o de 1789, conseguiu es-

pecialmente sua organizaç‹o hegemônica e a criaç‹o, sob sua égide,

da

unidade nacional, ao estabelecer estreitas ligaç› es com o corpo

de intelectuais de destaque. Ela garantiu seus préstimos permanen- tes integrando-os estreitamente nos nichos institucionais do Estado jacobinos e sabendo recompens‡-los, por v‡rias modalidades de pa- gamento, pelos serviços prestados. ƒ isso que caracteriza n‹o ape-

nas as instituiç› es culturais e os aparelhos ideol—gicos deste Estado, mas igualmente as not‡veis particularidades da "intelligentsia" fran- cesa. Ligada ˆs instituiç› es do Estado republicano que s‹o as redes de seu poder delegado pela burguesia, ela foi, e continua a ser, ao mesmo tempo uma "intelligentsia" refratária ˆ ideologia e ˆs formas de Estado facistas, e uma "’ntell’gentsia" maciçamente distanciada das lutas populares, quando estas assumem formas radicais que podem vir a colocar em questão seu pr—prio poder. Ela oscila per- manentemente entre o antifacismo radical-republicano e a s’ndrome dos Versalheses. Em nenhum outro lugar se pode encontrar, encar- nados a tal ponto nos aparelhos de Estado, os fantasmas da "intell’- gentsia": ora no conselho dos prí ncipes, ora, ou ao mesmo tempo, influenciando as massas pelo alto, por cima de suas pr—prias organi- zaç› es e via aparelhos de Estado (imprensa, instituiç› es culturais, m’dias), em suma a tentaç‹o do populismo elitista. A esta sede de poder intelectual, estimulada pelo lugar destinado ˆ "intelligentsia" no Estado franc•s, corresponde, por justo motivo (se é tentado a dizer), o antiinteletualismo assaz conhecido do movimento oper‡rio franc•s e de suas organizaç› es que, ele também, por sua vez, marca com seu selo esse Estado, e a caracterí stica desconfiança das mas- sas populares com relaç‹o aos aparelhos ideol—gicos.

II. A INDIVIDUALIZA‚ Ì O

], A Ossatura do Estado e as Técnicas do Poder

A especializaç‹o e centralizaç‹o do Estado capitalista, seu fun- cionamento hier‡rquico-burocr‡tico e suas instituiç› es eletivas im- plicam uma atomizaç‹o e parcelarizaç‹o do corpo pol’tico nisso que se designa de "indiv’duos", pessoas jurí dico-polí ticas,e de sujeitos das liberdades. Esse Estado sup› e necessariamente uma organiza-

ç‹o particular do espaço polí tico sobre o qual exerce o poder. O Es- tado (centralizado, burocratizado etc.) instaura essa atomizaç‹o e representa (Estado representativo) a unidade do corpo (povo- naç‹o), fracionando-o em mônadas formalmente equivalentes (so- berania nacional, vontade popular). A materialidade desse Estado é, sob certos aspectos, constitu’da como se devendo aplicar-se, atuar e agir sobre um corpo social fracionado, homog•neo em sua divis‹o, uniforme no isolamento de seus elementos, cont’nuo em sua atomi- zaç‹o, desde o exército moderno ˆ administraç‹o, ˆ justiça, ˆ pris‹o,

ˆ escola, aos mí dias etc. - a lista

seria imensa.

Também nesse caso, esses fracionamentos n‹o surgem primei- ramente das relaç› es entre possuidores de mercadorias na sociedade civil em que as figuras primeiras seriam os indiv’duos-sujeitos das relaç› es contratuais. Embora esse mecanismo de individualizaç‹o esteja presente nas trocas mercantis generalizadas, sua base está em outro ponto. ƒ preciso prevenir-se contra uma outra concepç‹o igualmente falsa que emprega os mesmos pressupostos da ,primeira, .embora chegue a resultados opostos. Ela também situa esse proces- so unicamente nas relaç› es mercantis, e n‹o nas relaç› es de produ- ç‹o-relaç› es de classe; evitando, porém, fundamentar o Estado nes- sas relaç› es, termina por negar toda pertin•ncia da individualizaç‹o na organizaç‹o do Estado capitalista, considerando-a como simples apar•ncia mistificadora ligada ao fetichismo da mercadoria. Ora, a individualizaç‹o é terrivelmente real; contudo, o fundamento dessa instauraç‹o das mônadas sociais em indiv’duos-sujeitos na esfera da circulaç‹o mercantil e da relaç‹o primeira do Estado com seus fra- cionamentos encontra-se nas relaç› es de produç‹o e na divis‹o so- cial do trabalho que estabelecem. O total desapossamento do traba- lhador direto de seus meios de trabalho d‡ lugar ˆ emerg•ncia do trabalhador "livre" e "nu", desligado da rede de laços (pessoais, es- tatutários, territoriais) que antes o formavam na sociedade medieval.

Esse desapossamento imprime ao processo de trabalho uma estru-

tura determinada: "Objetos de utilidade s—se transformam em mer- cadorias porque s‹o o produto de trabalhos privados executados in- dependentemente uns dos outros." Trata-se de um modo de articulaç‹o dos processos de trabalho que imp› e limites estruturais ˆ depend•ncia real dos produtores introduzida pela socializaç‹o do trabalho. Os trabalhos, num quadro imposto pelas relaç› es de produ-

ç‹o, s‹o executados

independentemente

uns dos outros

-

trabalhos

privados -,

quer

dizer,

sem

que os produtores

tenham

de organizar

previamente

sua cooperaç‹o;

é ent‹o

que predomina

a lei

do valor.

Evidentemente,

 

essa

estrutura

das

relaç› es

de produç‹o

 

e

do

processo de trabalho n‹o cria diretamente

as formas

precisas

-

in-

dividualizaç‹o

-

que

recobrem

esse

fracionamento.

Ela

induz

 

um

quadro material

referencial,

das matrizes

espaciais e temporais que

s‹o os pressupostos da divis‹o social capitalista do trabalho, primei- ramente no processo de produç‹o, no est‡gio que Marx chama de mecanizaç‹o e da grande indústria. Esse quadro material primeiro é o molde da atomizaç‹o e do fracionamento sociais incorporados nas pr‡ticas do processo de trabalho. Ao mesmo tempo que pressuposto das relaç› es de produç‹o e encarnaç‹o da divis‹o do trabalho, esse quadro consiste na organizaç‹o de um espaço-tempo simultanea- mente cont’nuo, homog•neo e parcelarizado, que é a base do taylo- rismo. Um espaço esquadrinhado, segmentarizado e celular onde cada parcela (indiv’duo) tem seu lugar, onde cada localizaç‹o corres- ponde a uma parcela (indiv’duo), mas que deve apresentar-se como homog•neo e uniforme. Um tempo linear, serial, repetitivo e cumu- lativo, em que os diversos momentos integram-se uns aos outros, orientando-se para um produto acabado - espaço-tempo materiali- zado por excel•ncia na cadeia de produç‹o. Em suma, o indiv’duo, bem mais que criaç‹o da ideologia polí tico-jurí dica engendrada pe-

las relaç› es mercantis, aparece aqui

como o ponto de cristalizaç‹o

material, ponto focalizado no pr—prio corpo humano, de uma série de pr‡ticas na divis‹o social do trabalho. A diferença da organizaç‹o na Idade Média e no Capitalismo (individualizac‹o) corresponde a cor- poreidades diferenciais. O desapossamento d—trabalhador de seus

meios de produç‹o no capitalismo, criando a força de trabalho como base da mais-valia, desencadeia um processo pelo qual o corpo, como j‡ mostrava Marx, torna-se simples "ap•ndice da m‡quina", decomposto em "pequena quantidade de formas fundamentais nas

todo mo-

vimento produtivo do corpo humano deve realizar-se ƒ nessa individualizaç‹o que se escora a materialidade insti- tucional do Estado capitalista. Ele inscreve em sua ossatura a re- presentaç‹o da unidade (Estado representativo nacional) e a orga- nizaç‹o-regulagem (centralismo hier‡rquico e burocr‡tico) dos

quais, apesar da diversidade

dos instrumentos

empregados,

"7

fracionamentos constitutivos da realidade que é o povo-naç‹ o. Ao mesmo tempo, os aparelhos do Estado s‹o moldados de rnaneira

que exerçam o poder sobre esse conjunto assim constitu’do: reali- zam o mesmo quadro material referencial, ii mesma matriz espaço-

de produç‹o. A organizaç‹o interna

esse quadro que torna

poss’vel o encadeamento de seus elementos, mesmo que esse qua-

dro se concretize de forma diferente na administraç‹o burocr‡tica

e no despotismo das f‡bricas, no taylorismo e cadeia de produç‹o:

reestruturaç‹o do espaço polí tico e substituiç‹o de estatutos, privi- légios e outros laços pessoais pelo anonimato de uma organizaç‹o de laços ao mesmo tempo cont’nuos, hornog•neos, lineares, eqüi- distantes e segmentados, fracionados e compartimentados. Ora, o Estado n‹o é mero anotador dessa realidade econômi- co-social; é fator constitutivo da organizaç‹o da divis‹o social do

trabalho, produzindo permanentemente fracionamento-individuali- zaç‹o social. Isso faz-se também pelos procedimentos ideol—gicos:

o Estado consagra e institucionaliza a individualizaç‹o pela consti-

tuiç‹o das mônadas econômico-sociais em indlv’duos-pessoas-su- jeitos jurí dicos e polí ticos. N‹o me refiro aqui ao discurso oficial da

filosofia polí tica, nem ao simples sistema jurí dico, mas ao conjunto das pr‡ticas materiais do Estado (a ideologia n‹o est‡ apenas nas idéias) e suas conseqü•ncias na esfera econômico-social. Ideologia de individualizaç‹o que n‹o tem por flnal’dade apenas mascarar e

tempo implicada nas

relaç› es

das redes e dispositivos burocr‡ticos sup› e

ocultar as relaç› es de classe (o Estado capitalista jamais se apresen-

mas também

para as divis› es

res. N‹o se trata apenas da ideologia constitu’da, sistematizada e formulada pelos intelectuais org‰nicos da burguesia, que nunca passa de ideologia de segunda categoria, porém, muito mais, trata-

ta como Estado de classe),

a de contribuir

ativamente

e isolamento (individualizaç‹o) das massas popula-

se de formas primeiras e "espontâneas" de ideologia secretadas pela

divis‹o

de Estado e ˆ s pr‡ticas do poder. O papel do Estado, porém, n‹o é o de inculcar a ideologia do- minante, mesmo materializada em pr‡ticas; n‹o se trata simples- mente da concretizaç‹o dos direitos e obrigaç› es, da distinç‹o pri- vado e público etc. na vida cotidiana. O Estado contribui para fabricar essa individualidade por um conjunto de técnicas de saber

social do trabalho,

diretamente

incorporadas

aos aparelhos

(ci•ncia) e de pr‡ticas de poder, a que Foucault chamou de disci- plinas ("que se pode caracterizar em poucas palavras dizendo que s‹o uma modalidade do poder para o qual a diferença individual é pertinente"), procedimento designado pelo termo normalizaç‹ o:

"Como a vigil‰ncia, a normalizaç‹o toma-se um dos maiores instru- mentos do poder no fim da era cl‡ssica. As marcas que significavam status, privilégios, filiaç› es - tendem a ser substitu’das ou pelo menos acrescidas, de um conjunto de graus de normalidade que s‹o sinais de filiaç‹o em um corpo social homog•neo, mas que t•m em si um papel de classificaç‹o, de hierarquizaç‹o e de distribuiç‹o de lugares. De certa forma, o poder de normalizaç‹o obriga a homoge- neidade, porém individualiza permitindo medir os desvios, determi- nar os n’veis, fixar as especialidades e tomar úteis as diferenças, ajustando-as umas ˆs outras". Momento de normalizaç‹o "em que nova tecnologia do poder e uma outra anatomia do corpo foram ela- boradas", e que se cristaliza nessa forma modema do poder que Fou- cault chama de panoptismo+ Processo no qual interv•m as formas

primeiras da ideologia dominante, j‡ materializadas em pr‡ticas es- tatais; e ao contr‡rio do que pensa Foucault, que distingue radical-

mente inculcaç‹o ideol—gica e normalizaç‹o,

modo que a ideologia n‹o est‡ nas idéias e que todas as vezes que

ou de técnicas, n‹o pode ser mera quest‹o de

se tratar de pr‡ticas

ideologia. Portanto, esse mecanismo suplanta amplamente a inculcaç‹o ideol—gica e também a simples repress‹o fí sica. Esse relacionamen- to do Estado-poder e do corpo atesta a individualizaç‹o do corpo social. ƒ certo que as relaç› es entre o Estado-poder e o corpo, ins-á tituiç‹o polí tica investida pelo poder, cobrem um campo bem amplo. Porém as relaç› es de constituiç‹o entre o Estado e as for- mas precisas de coporeidade capitalista, em princ’pio, n‹o se ba- seiam, conforme afirmam as an‡lises mil vezes repetidas com mais ou menos sutilezas, sobre as relaç› es mercantis, sobre o corpo-mer- cadoria da sociedade de consumo, sobre o corpo-espet‡culo inves- tido pelos signos da troca, em suma, no fetichismo mercantil do cor- po. A tecnologia pol’tica do corpo tem como base primeira o quadro referencial das relaç› es de produç‹o e da divis‹o social do trabalho. ƒ por esse caminho que se pode resolver com segurança o proble- ma essencial para a teoria do Estado que é a individualizaç‹o do

considerando de certo

corpo social, solo origin‡rio talista. Essa individualizaç‹o

concreto", que surge na sociedade civil da mercadoria generalizada ,e que propicia a formaç‹o de um Estado com base nesses indiv’- duos, Estado nacional popular que se torna Estado de classe. Tam- bém n‹o é a realidade genérica de um indiv’duo biol—gico sede

natural de desejos e alienado-reificado pelo Estado. Essa individua- lizaç‹o constitui a figura material das relaç› es de produç‹o e da divis‹o social do trabalho nos corpos capitalistas, e igualmente con- seqü•ncia material das pr‡ticas e técnicas do Estado, criando e sub-

capi-

das classes em sua especificidade

n‹o é a realidade

de um "indiv’duo

jugando

o corpo (polí tico).

Nesse ponto as an‡lises de Foucault t•m grande import‰ncia, constituem an‡lise materialista de certas instituiç› es do poder.

pois

Elas tanto confirmam as an‡lises marxistas, o que Foucault evita ver ou dizer, como também enriquecem-nas em inúmeros pontos. Sabe-se, certamente, que Foucault rejeita uma interpretaç‹o que viria basear essa materialidade do poder, e por conseguinte do Estado, especificamente nas relaç› es de produç‹o e na divis‹o so- cial do trabalho. Foi Deleuze,? sobretudo, quem se encarregou de explicar a diferença entre o pensamento de Foucault e o marxismo. O quadro referencial do poder seria anterior a cada campo particu- lar que o concretiza, constituiria um "diagrama" (o "panoptismo" no caso), uma "m‡quina abstrata" imanente a cada campo particular.

N‹o se basearia no "econômico" pois é "toda a economia,

por exem-

plo a oficina ou a f‡brica, que pressup› e esses mecanismos do

Observaç› es que o pr—prio Foucault retomou a seu favor

em A Vontade de Saber. ƒ evidente que n‹o se pode atribuir grande importância a esse aspecto do pensamento de Foucault, essas observaç› es pendem para o idealismo. Seria f‡cil inferir que esses diagramas ou m‡quinas (de onde e como aparecem?) assemelham-se estranhamente ˆs v‡rias es- truturas mentais e outras categorias do mesmo g•nero, essa "causa comum imanente" que seria o diagrama, e que n‹o passa, por mais que se queira e apesar da heterogeneidade dos campos sobre os quais insiste, da velha homologia estrutural do estruturalismo, fato h‡ muito verificado por Derrida.'? Poder-se-ia, e com justiça, repro- var Foucault, que, com sua posiç‹o, desemboca frequentemente em an‡lises puramente descritivas e, com mais freqü•ncia ainda, em um

poder

neofuncionalismo que retoma os pressupostos epistemol—gicos do mais tradicional funcionalismo: "O dispositivo pan6ptico n‹o é so- mente uma v‡lvula, um intermediador entre um mecanismo de po-

der e uma funç‹o, é um

numa funç‹o, e uma funç‹o por suas relaç› es de poder"." J‡ havia observado que Malinovski e Parsons j‡ falavam disso.

modo de fazer funcionar relaç› es de poder

acho que n‹o se deve atribuir grande impor-

t‰ncia ao discurso epistemol—gico de segundo grau de Foucault. Muitas de suas an‡lises s‹o n‹o somente compatí veis com o marxis- mo, como, mais ainda, s—a partir dele podem ser compreendidas.

Porém sob duas condiç› es:

A meu entender,

A primeira: ter uma concepç‹o justa do "econômico", no qual se fundamenta a especificidade institucional do poder moderno, quer dizer, abdicar da idéia de Foucault, que lhe permite relacionar (isso lhe acontece) essa especificidade ˆ economia, ou seja, freqüen- temente, rejeitar o marxismo e o fundamento material das institui-

ç› es na economia, Nos dois casos, ele n‹o trata nunca das relaç› es de produç‹o e da divis‹o social do trabalho nelas implí citas. No pri- meiro caso (refer•ncia ˆ economia para fundamentar as institui- ç› es), Foucault busca o essencial em dados como o crescimento de- mogr‡fico do século xvm, ou as necessidades utilitárias da "produç‹o modema" para "maximizar o rendimento". No segundo caso (refer•ncia ˆ economia para refutar o marxismo), Foucault volta justamente, é interessante notar, ˆ sociedade mercantil das re- laç› es de troca e de circulaç‹o: "Diz-se freqüentemente que o mo- delo de uma soc’edade que tivesse indiv’duos como seus elementos constitutivos seria inspirada nas formas jurí dicas abstratas do con- trato e da troca. A sociedade seria representada como associaç‹o

contratual de sujeitos jurí dicos isolados. Talvez

quecer que existiu na mesma época uma técnica para constituir os indiv’duos efetivamente como elementos correlativos de um poder e de um saber". t2 Ora, é evidente que n‹o se pode, de modo 'algum, relacionar a materialidade dos aparelhos de Estado e o "econômi- cc", e Foucault erra quando tenta faz•-lo dessa maneira, se por isso

entendermos a demografia ou a simples revoluç‹o industrial, quer dizer, a técnica produtiva. Também n‹o se pode faz•-lo, e Fou- cault est‡ totalmente certo, se tomamos somente ou principalmente

N‹o se deve es-

a esfera de circulaç‹o e das trocas mercantis, o que um certo mar- xismo tentou fazer durante muito tempo.

a relaç‹o do Estado com as

a sua

complexidade, isto é, pelo dado fundamental que s‹o as matrizes es-

paciais e temporais cuja an‡lise desenvolverei quando tratar da

naç‹o. Essas matrizes primeiras, presentes na organizaç‹o material e nas técnicas de exerc’cio do poder, ter‹o ent‹o uma explicaç‹o di- ferente daquela do diagrama misterioso e quase metaf’sico de Fou- cault, sobretudo na vers‹o apresentada por Deleuze-Guattari: a de uma m‡quina original. Urstaat, Estado-Déspota ideal - abstrato

de

que acossa

sua encarnaç‹o

A segunda condiç‹ o: compreender

de produç‹o

e a divis‹o

relaç› es

social do trabalho

em toda

a hist—ria

dos diversos

Estados

e poderes

ˆ procura

perfeita, na mais pura tradiç‹o espiritualista.

2. As Ra’zes do Totalitarismo

De qualquer forma, a individualizaç‹o do corpo social sobre o qual se exerce o poder do Estado moderno conduz ˆs relaç› es de produç‹o e ˆ divis‹o social do trabalho capitalistas. O Estado de- sempenha aqui um papel decisivo, que eu tinha chamado em Poder polí tico e classes sociais, de "efeito de isolamento", Porém, embo- ra assinalando que o efeito é "terrivelmente real", tendia a limitá-lo, 'no essencial, aos mecanismos da ideologia jurí dico-polí tica e ao papel ideol—gico do Estado, ƒ agora que se pode ver (e a’ est‡ a con- tribuiç‹o original de Foucault) que o papel do Estado traduz-se na materialidade de suas técnicas de exercí cio do poder, consubstancial ˆ sua estrutura pr—pria: técnicas que moldam os sujeitos sobre os quais se exerce o poder até mesmo em sua corporeidade. Aproveito a ocasi‹o para adiantar um primeiro posicionamento do problema do fenômeno inédito do totalitarismo moderno em que o fascismo é apenas uma das faces. Esse problema s—pode ser elucidado por uma série de abordagens sucessivas, que j‡ fiz em Poder politico em ter- mos que ainda me parecem v‡lidos, embora restritivos. O que eu bem apreendia era que, no duplo movimento pelo qual o Estado mo- derno cria individualizaç› es e privatizaç› es auto-representando-se corno sua unidade e homogeneizaç‹o, em suma, no duplo movimen- ta' de criaç‹o dos isolamentos (de que se comp› em o povo-naç‹o) e

de representaç‹o

de sua unidade

(Estado

nacional

popular

moder-

no), n‹ o pode, pela primeira vez na hist—ria, existir nenhum limite de direito e de princí pio ˆ atividade e ˆ invas‹ o do Estado na esfe-

ra do individual-privado. O individual-privado é uma criaç‹o do Es- tado, concomitante ˆ sua separaç‹o relativa da sociedade como es- paço público, o que n‹o somente indica que essa separaç‹o é aperias uma forma espec’fica da presença do Estado nas relaç› es econômi- co-sociais, como também uma onipresença do Estado jamais igua- lada em suas relaç› es. Porém eu sempre via apenas a conseqü•ncia material dos mecanismos ideol—gicos. Apresentarei como exemplo duas passagens, significativas porque mostram o problema porém de maneira nitidamente limitativa. O primeiro refere-se exatamente ao relacionamento desse fenô- meno totalit‡rio com o princí pio de legitimidade do Estado moderno:

"O Estado capitalista, em especial, retira, na verdade, seu prin-

c’pio de legitimidade do princ’pio de que se considera unidade do povo-naç‹o tomado como conjunto de entidades id•nticas, hom› ge- nas e disparatadas, estabelecidas pelo Estado como indiv’duos-cida- d‹os polí ticos. ƒ nisso que ele difere radicalmente de outras formas de despotismo, do poder polí tico "absoluto", por exemplo, formal- mente semelhante, exercidos por formas de tirania baseadas na legi- timidade divino-sagrada. Essas formas, tais quais apresentavam-se no Estado escravagista ou feudal, encerravam contudo o poder em, limites rigorosamente regulados. Dizendo de outra maneira, é exa- tamente o tipo de legitimidade do Estado capitalista, representando.

a unidade do povo-naç‹o, que permite um funcionamento espec’fi-

co do Estado considerado

sob o termo de totalitarismo"."

O segundo

no relacionamento

ideologia

pol’tica burguesa:

do fenômeno

totalit‡rio

com a

"A funç‹o particular

de isolamento

e coes‹o da ideologia polí -

tica burguesa conduz a uma not‡vel contradiç‹o interna, que foi por

vezes tematizada nas teorias do contrato social, pela distinç‹o e pela relaç‹o entre o pacto de associaç‹o civil e o pacto de dominaç‹o po-

lí tica. Essa ideologia estabelece os agentes como indiv’duos - su-

jeitos, livres e iguais, que de certa forma ela imagina em estado pré-

social, assim determinando

ç› es sociais. Esse aspecto designado por "individualismo burgu•s"

o isolamento

espec’fico

sobre

as rela-

é súficientemente conhecido. Esses indiv’duos-pessoas, assim indi- vidualizados, num mesmo movimento te—rico, parecem s—poder uni- ficarem-se e alcançar exist•ncia social na interpretaç‹o de sua exis- t•ncia polí ticano Estado. O resultado é que a liberdade do'indiv’duo parece logo evaporar-se diante da autoridade do Estado, que encar- na a vontade de todos. Pode-se dizer que para a ideologia polí tica burguesa n‹o pode haver nenhum limite de direito e de princ’pio ˆ atividade e ˆ usurpaç‹o do Estado na assim chamada esfera do indi- vidual-privado. Enfim, essa esfera parece apenas desempenhar a funç‹o de constituir um ponto de refer•ncia, que é também um ponto de fuga, ˆ onipresença e onisci•ncia da inst‰ncia polí tica. Bem que isso é verdade, pois 'Hobbes aparece como a verdade ante- cipada das teorias do contrato social, e em resumo, Hegel como o ponto de chegada - nesse caso o assunto é bem complexo, porém todos os assuntos te—ricos o s‹o. Lembremo-nos do caso caracterí s- tico de Rousseau para quem "o homem ser o mais independente pos- s’vel de todos os outros homens e o mais dependente poss’vel do Estado". O caso é ainda mais n’tido no exemplo cl‡ssico dos fisio- cratas adeptos fervorosos da n‹o-intervenç‹o na economia e tam- bém adeptos fervorosos do autoritarismo polí tico,pedindo realmen- te o monarca absoluto, que representaria o interesse e a vontade de todos. Isso é igualmente caracterí stico da ideologia polí tica liberal:

nada de mais exemplar a esse respeito do que a n’tida influ•ncia, e tão mal conhecida, de Hobbes em Locke, na corrente cl‡ssica do li- beralismo polí ticoingl•s, o "utilitarismo" em J. Bentham, J. Mills e sobretudo em J. Stuart Mill"."

Embora a meu ver os dados do problema permaneçam v‡lidos, as raí zesde sua soluç‹o, no essencial, est‹o longe. A individualiza- ç‹o e a privatizaç‹o do corpo social residem nas pr‡ticas e técnicas de exerc’cio do poder de um Estado, que num mesmo movimento totaliza essas mônadas divididas e incorpora em sua ossatura insti- tucional a unidade. O privado é apenas a réplica do público, pois se h‡ desdobramento, inscrito no Estado e j‡ presente nas relaç› es de produç‹o e na divis‹o social do trabalho, é porque o Estado traça os contornos. O individual-privado n‹o é um obst‡culo intrí nseco ˆ

aç‹o do Estado, mas um espaço que o Estado moderno constr—i ao percorr•-lo: é o que se transforma em horizonte infinitamente retr‡ til, e passo a passo, ao longo da caminhada estatal. O individual-pri- vado é parte integrante do campo estratégico do Estado moderno, é

o alvo que o Estado se d‡ como ponto de impacto de seu poder; em

suma, s—existe para esse Estado. O que é claro nessa visada, inatin-

g’vel em si, é que o indiv’duo privado, sujeito que tem supostamen-

te liberdades inalien‡veis, direitos do homem, um habeas corpus em

que justamente o corpo é inteiramente modelado pelo Estado e tam- bém pelo conjunto dos centros de privatizaç‹o. Tomando como exemplo a famllia moderna, t’pico lugar privado, ela se estabelece somente em concomit‰ncia absoluta do público, que é o Estado mo- derno; n‹o como o exterior intrí nsecode um espaço público de fron- teiras rí gidas,porém como conjunto de pr‡ticas materiais do Estado que molda o pai de fam’lia (trabalhador, educador, soldado ou fun- cion‡rio), a criança-estudante no sentido moderno, e, é claro, sobre- tudo a m‹e. A fam’lia e o Estado modernos n‹o formam dois espa- ços (o privado e o público) eqüidistantes e distintos, limitando-se mutuamente, em que um seria, segundo as an‡lises agora cl‡ssicas da Escola de Frankfurt (Adorno, Marcuse etc.), a base da outra (a fa- m’lia, do Estado). Embora essas duas instituiç› es n‹o sejam isomor- fas e também n‹o mantenham relaç› es de homologia, nem por isso deixam de fazer parte de uma única e mesma configuraç‹o, pois n‹o é o espaço "exterior" da fam’lia que se fecha em face do Estado, e, sim, o Estado, que, ao mesmo tempo que se constr—i em público, marca, por meio de divis› es m—veis que ele mesmo desloca, o lugar designado ˆ fam’lia, O Estado n‹o comporta nenhum limite de princ’pio e de direi- to a suas usurpaç› es no privado: por mais paradoxal que pareça, é a separaç‹o público-privado, por ele institu’da, que lhe abre perspec- tiva ilimitada de poder. A’ est‹o as premissas do fenômeno totalit‡- rio no sentido moderno, n‹o somente para as sociedades ocidentais, mas. igualmente para os pa’ses do Leste. O Estado nesses pa’ses toma as formas que se conhece, sem que, porém, tenha abolido o in- div’duo como último obst‡culo em face do poder. Baseado nos "as- pectos capitalistas" de suas relaç› es de produç‹o e divis‹o social do trabalho, o processo de individualizaç‹o-isolamento desenvolve-se plenamente, embora n‹o tome, longe disso, as mesmas formas (es-

pecialmente jurfdico-pol’ticas) e n‹o ocorra segundo os processos que conhecemos nas sociedades ocidentais. A distinç‹o que o Esta-

do cria entre o público e o privado (os trabalhadores estando sepa-

rados da esfera pública

embora a estatizaç‹o atinja proporç› es consider‡veis. Ora, também nesse caso, isso n‹o significa invas‹o pelo Estado de uma esfera pri- vada de fronteiras intrinsecas que o Estado teria rompido, mas cor- responde a um deslocamento mais amplo desse Estado no caminho do Estado moderno e de sua materialidade pr—pria. Claro que essas observaç› es s‹o apenas premissas; pois o in- dividual-privado n‹o é um limite e sim o canal do poder do Estado

moderno, embora isso n‹o queira dizer que o poder n‹o tenha limi- tes reais, mas, sim, que esses limites n‹o se prendem a qualquer na- turalidade do individual-privado: dependem das lutas populares e das relaç› es de força entre as classes, pois o Estado também é a con- densaç‹o material e espec’fica de uma relaç‹o de força, que é uma relaç‹o de classe. Esse individual-privado aparece igualmente como

e do poder polí tico) também se desenvolve,

, resultante

dessa relaç‹o

de força

e de sua condensaç‹o no Estado.

Embora

o individual-privado n‹o tenha ess•ncia intrí nseca e, como

tal, crie barreiras exteriores absolutas ao poder do Estado, limita o

poder como uma das figuras privilegiadas da relaç‹o de classe no Estado nas sociedades modernas. Esse limite é conhecido: chama-se democracia representativa, que, por mais mutilada que seja pelas classes dominantes e pela materialidade do Estado, n‹o deixa de ser , uma marca no seio dessa materialidade das lutas e resist•ncias po- pulares. N‹o sendo o único limite ao poder do Estado nem por isso é menos importante. Provavelmente n‹o tem significaç‹o absoluta, na medida em que nasce em terreno capitalista, porém permanece uma barreira ao poder que sem dúvida conta enquanto o Estado e as classes durarem. O mesmo ocorre quanto aos direitos do homem e do cidad‹o, que n‹o s‹o uma conquista do indiv’duo em face do Es- tado e, sim, conquista das classes oprimidas. O individual-privado exprime em sua extens‹o ou diminuiç‹o os avanços e recuos de suas lutas e resist•ncias quando tomam essa forma polí tica. N‹o porque se autoformulem e assim fazendo um do- mí nio fora do Estado, (individual-privado), mas porque situam-se no pr—prio campo estratégico do Estado, que, em sua forma moderna, existe como espaço público-privado. Esses direitos, tanto aqui como

no Leste, podem servir de barragem a um poder, cujas raí zes totali- t‡rias j‡ se encontram no processo de individualizaç‹o e na separa-

ç‹o instaurada

entre o público e o privado pelo Estado moderno.

Da’ decorrem

outras conseqü•ncias:

a) O totalitarismo moderno, na forma fascista ou outra qual- quer, n‹o é mero "fenômeno" que se prende unicamente ˆ conjuntu- ra da luta das classes. Tais conjunturas podem propiciar o apareci- mento dos totalitarismos modernos, porque as raí zes do mal s‹o

mais profundas, instaladas no seio das relaç› es de produç‹o, da di-

vis‹o social do trabalho, b) Contrariamente

da ossatura material do Estado.

a todas as ideologias

antigas

ou novas do

totalitarismo, a emerg•ncia efetiva das formas totalitárias do Esta-

do n‹o é um mero desabrochar desses germes e n‹o pode de modo

algum ser explicada dessa maneira, pois depende da luta de classes em toda sua complexidade. De minha parte, é o que tentei explicar em Fascisme et Dlctature'? e em La crise des dictatures.w mostran- do que essas formas totalit‡rias, quer se trate de fascismo, ditadu- ras militares ou bonapartismo, constituem nas sociedades ociden- tais formas espec’ficas que designei por formas de Estado de

exceç‹o,

bem diferentes

das formas

de Estado

democr‡tico-parla-

mentares.

Essas

observaç› es valem igualmente, mutatis mutandis, para

os aspectos

totalit‡rios

do poder nos paí ses do Leste, os quais tam-

bém n‹o podem ser explicados

reportando-se

unicamente

ˆs raí zes

do totalitarismo, que entretanto existem plenamente, e aos aspectos capitalistas desses Estados. Somente uma an‡lise hist—rica minucio- sa poderia faz•-lo, pois essa forma de Estado apresenta consider‡- veis particularidades, o que ali‡s n‹o constitui exceç‹o, mas regra. Sabe-se que essa an‡lise hist—rica começa a aparecer até mesmo na França, e devo assinalar de Jean Ellenstein e de Charles Bettelheim, embora de perspectivas diferentes, além das an‡lises tradicionais das correntes trotskistas, que, a meu ver, embora insatisfat—rias, muito nos ajudaram. Cito-as em conjunto, porque tratam-se de an‡- lises que se referem especificamente ao método marxista. ƒ claro que o marxismo sozinho n‹o pode tudo explicar, porém gostaria que nos mostrassem, entre os "antimarxistas" prim‡rios que atualmente

defendem a idéia de que o marxismo n‹o pode explicar o que se passa nos pa’ses do Leste, um único que tenha feito, ou mesmo ten- tado, essa an‡lise hist—rica indispens‡vel. Essa an‡lise que fundamenta a materialidade do Estado nas relaç› es de produç‹o e na divis‹o social do trabalho, n‹o é hetero- gena ou complementar a uma an‡lise dessa materialidade em ter- mos de classes e luta de classes. No que concerne ˆ individualiza-

ç‹o do corpo social sobre o qual se exerce o poder, n‹o se trata de "deduzir" a estrutura organizadora do Estado no processamento da individualizaç‹o e de relacion‡-la em seguida com a luta de classes

e a dominaç‹o polí tica. Esse processamento, relacionado

te ao processo e ˆ divis‹o de trabalho capitalistas, é apenas a con-

justamen-

figuraç‹o do terreno no qual se formam as classes sociais e a luta de classes em sua especificidade capitalista. Contrariamente ˆs classes-castas ou estados escravagistas e medievais, classes fecha- das em que os agentes pertencem unicamente pela sua natureza - no capitalismo, as classes s‹o "abertas", fundamentadas na reparti- ç‹o e na circulaç‹o de agentes individualizados em seu meio, quer se trate da burguesia, da classe oper‡ria ou das classes no campo. , Essas classes provocam um papel do Estado até ent‹o inédito, o de

distribuir-repartir os agentes individualizados através das classes, de formar e preparar, de qualificar e subjugar os agentes, de tal forma que possam ocupar talou qual lugar de classe ˆ qual n‹o estão ligados por natureza ou nascimento; papel pr—prio da escola

e também do exército, da pris‹o ou da administraç‹o. O mecanismo

de individualizaç‹o j‡ é uma marca, na materialidade do Estado, da especificidade das classes no capitalismo, pois as técnicas de exercí -

cio do poder na escola ou no exército (disciplinas de normalizaç‹o- individualizaç‹o) s‹o consubstartciais a seu papel de preparaç‹o-dis- tribuiç‹o-repartiç‹o dos agentes-indiv’duos entre as classes. Enfim, essa individualizaç‹o traçada na corporeidade capitalista apresenta sentido e modalidades diferentes segundo as diversas classes so- ciais. Existe uma individualizaç‹o burguesa e uma individualizaç‹o oper‡ria, um corpo burgu•s e um corpo oper‡rio, modalidades da individualizaç‹o e da corporeidade capitalistas, assim como existe uma fam’lia burguesa e uma fam’lia oper‡ria, modalidades da fam’- lia capitalista fundamentada no processo de individualizaç‹o.

ill.ALEI

1. Lei e Terror

o terceiro exemplo ao qual chamo a atenç‹o refere-se ao papel da lei., pois ele nos interessa por v‡rias raz› es: permite especialmen- ' te apresentar com precis‹o a questão da repress‹o no exerc’cio do poder, Ora, também deste ponto de vista o Estado capitalista repre- senta uma verdadeira ruptura em relaç‹o aos Estados pré-capitalistas. Primeiramente porque a lei s—tardiamente, com o Estado ca- pitalista e sua constituiç‹o hist—rica, apresentou-se como limitaç‹o do arb’trio estatal, até mesmo como barreira a uma certa forma de exerc’cio da viol•ncia. ƒ esse "Estado de direito" que foi concebido como oposto ao poder ilimitado, criando a ilus‹o do binômio Lei- Terror. A lei e a regra estiveram sempre presentes na constituiç‹o do poder: o Estado asi‡tico ou despótico, o Estado escravagista (Roma, Atenas), o Estado feudal foram sempre fundamentados no direito e na lei, desde o direito babilônico e ass’rio ao direito grego e roma- no até as formas jurí dicas medievais. Toda forma estatal, mesmo a mais sanguin‡ria, edificou-se sempre como organizaç‹o jurí dica,re- presentou-se no direito e funcionou sob forma jurí dica: sabe-se muito bem que assim foi com St‡lin e sua constituiç‹o de 1937, re- putada como a "mais democr‡tica do mundo". Portanto nada mais falso que uma presum’vel oposiç‹o entre o arb’trio, os abusos, a boa vontade do pr’ncipe e o reino da lei. Essa vis‹o corresponde ˆ ' con- cepç‹o jurí dico-legalista do Estado, a da filosofia polí tica do Esta- do burgu•s estabelecido, contra a qual levantaram-se Marx e Max Weber, e que n‹o passou desapercebida pelos te—ricos da gestaç‹o sangrenta do Estado, Maquiavel e Hobbes. De qualquer forma esta suposta cis‹o entre lei e viol•ncia é falsa, sobretudo para o Estado moderno. ƒ este Estado de direito, o Estado da lei por excel•ncia que detém, ao contr‡rio dos Estados pré-capitalistas, o monop—lio da viol•ncia e do terror supremo, o monop—lio da guerra. A lei é parte integrante da ordem repressiva e da organizaç‹o

exercida por todo Estado. O Estado edita a regra, pro-

nuncia 'a lei, e por instaura um primeiro campo de injunç› es, de interditos, de censura, assim criando o terreno para a aplicaç‹o e o objeto da viol•ncia. E mais, a lei organiza as leis de funcionamento

da vjol•nc’a

da repress‹o

f’sica, designa

e gradua

as modalidades,

enquadra

os

dispositivos

que a exercem.

A lei é, neste sentido,

o c—digo da vio-

l•ncia pública organizada. A neglig•ncia do papel da lei na organi-

zaç‹o do poder é constante naqueles que ignoram o papel da repres- s‹o fí sica no funcionamento do Estado; Foucault especialmente, como se v• em sua última obra, A vontade de saber, seqü•ncia l—gi-

ca de Peregrinaç› es em Vigiar e Punir. Esquematizando, pode-se estabelecer a cadeia do racioc’nio de Foucault da seguinte maneira: a) o binômio legalidade-terror é erra- do, pois a lei sempre acompanhou o exerc’cio da viol•ncia e da re- press‹o fí sica;b) o exercí ciodo poder nas sociedades modernas ba- seia-se muito menos na viol•ncia-repress‹o aberta do que nos mecanismos, mais sutis e considerados "heter—genos" ˆ viol•ncia, das disciplinas: "E se é verdade que o jurí dico pode servir para re- presentar de maneira sem dúvida n‹o exaustiva um poder essencial- mente baseado na antecipaç‹o e na morte, é totalmente heter—geno aos novos processos de poder, que funcionam n‹o para o direito mas para a técnica, n‹o para a lei mas para a normalizaç‹o, n‹o para o castigo e sim para o controle, e que se exercem em n’veis e formas .que ultrapassam o Estado e seus aparelhos". J7 Exercí cio do poder que implicaria, como o disse depois de Foucault. R. Castel, na pas- sagem da autoridade-coerç‹o ˆ manipulaç‹o-persuas‹o," em uma palavra, ˆ famosa "interiorizaç‹o" da repress‹o nas classes domina- das. Daí se deduz inelutavelmente que h‡ em Foucault a subestima- ç‹o do papel da lei, ao menos no exerc’cio do poder no seio das so-

, . ciedades modernas, e também

subestimaç‹o do

papel do Estado,

acompanhada de desconhecimento do lugar, no Estado moderno, dos aparelhos repressivos (exército, pol’cia, justiça etc.) enquanto dispositivos de exerc’cio da viol•ncia f’sica. S‹o considerados so- mente como peças do dispositivo disciplinar que molda a interiori- zaç‹o da repress‹o pela normalizaç‹o. O primeiro racioc’nio referente ˆ relaç‹o constitutiva entre a lei e o exercí cio da viol•ncia é correto, porém o segundo est‡ erra-

do. Ali‡s, n‹o é exclusivo de Foucault, caracteriza igualmente uma corrente de pensamento mais ampla, por sinal bem diferente de Fou- cault. Esse racioc’nio tem raiz no par viol•ncia-consentimento, re- press‹o-ideologia, que por muito tempo marcou as an‡lises do poder. O leitmotiv é simples: o poder moderno n‹o se basearia na

viol•ncia f’sica organizada mas na manipulaç‹ o ideol—gico-simb—-

lica, na organizaç‹o do consentimento, na interiorizaç‹o da repres- s‹o (o "tira" na cabeça). As origens dessa concepç‹o encontram-se

primeiras an‡lises da filosofia polí tico-jurí dica burguesa, que

justamente opunha viol•ncia e lei, por ver no Estado de direito e no reino da lei a limitaç‹o intrí nseca da viol•ncia. Essa concepç‹o teve, sob formas variadas, prolongamentos atuais: as an‡lises da escola de

Frankfurt - as famosas an‡lises de substituiç‹o da famí lia ˆ polí cia como inst‰ncia autorit‡ria - e de Marcuse e de P. Bourdieu sobre a chamada viol•ncia simb—lica, o tema da interiorizaç‹o da repress‹o, e em geral de uma "diminuiç‹o", digamos assim, da viol•ncia f’sica no exerc’cio do poder tomaram-se lugar-comum. O que é essencial aqui, é ao mesmo tempo a subestimaç‹o do papel da repress‹o, da sujeiç‹o mort’fera e armada sobre o corpo, e a concepç‹o do poder como binômio repress‹o-ideologia, constituindo esses dois termos componentes-quantidades de soma zero. Diminuiç‹o ou retraç‹o da viol•ncia f’sica s—poderia corresponder, no funcionamento e manu- '

tenç‹o do poder, a uma acentuaç‹o

l—gica (viol•ncia simb—lica-interiorizaç‹o

nas

ou aumento da inculcaç‹o

da repress‹o).

ideo-

Basicamente

é uma concepç‹o

do poder

pouco

diferente, da

que prevalece em incont‡veis an‡lises, muito em voga atualmente, que fundamenta o consenso no desejo das massas (as massas 'teriam desejado o fascismo) ou no amor do Senhor. 19 T•m em comum.com

o fato de ignorar o papel da viol•ncia f’sica or-

ganizada, reduzindo o poder ˆ repress‹o-interdito. Daí se deduz uma subjetivaç‹o do exerc’cio do poder sob a forma de busca das "raz› es de obedecer" no desejo ou no amor do Poder, que substituem o papel, suprimido nas correntes precedentes, da ideologia como fator de interiorizaç‹o da repress‹o. A lei nunca intervém aqui sob a

forma de codificadora da viol•ncia f’sica, mas como figura do Se- nhor, que, s—por sua presença, enunciaç‹o ou discurso, induz o de-

sejo e o amor dos sujeitos. O binômio repress‹o-viol•ncia substitui-

se

viol•ncia na base do poder é sempre subestimado: s‰se consideram

as raz› es do consenso.

a corrente precedente

pelo

binômio

lei-amor,

interdito-desejo,

porém

o

papel

da

O que é inquietante

nessas an‡lises n‹o é exatamente

o fato de

apresentarem o problema do consenso ao poder, e sim que n‹o con- siderem o papel da viol•ncia f’sica organizada na repress‹o, e que

reduzam o poder ˆ repress‹o simb—lica ou interiorizada e ao interdi- to. Assim n‹o podem apreender as raz› es materiais positivas (entre outras concess› es do poder ˆs massas) desse consenso e o funda- mentam no amor-desejo da repress‹o, enquanto essas raz› es, além da ideologia dominante, desempenham um papel decisivo. Por outro lado, insistir na positividade do poder n‹o poderia significar ocultar e a questão da repress‹o e o papel da ideologia que intervém no con- sentimento. ƒ o que acontece com Foucault, que, diferenciando-se das correntes precedentes ao demonstrar - e é esse seu mérito - um dos aspectos das técnicas do poder que organizam materialmen- te a submiss‹o dos dominados (as disciplinas de normalizaç‹o) como outros, subestima constantemente, em suas an‡lises, o papel da viol•ncia f’sica aberta, sendo a subestimaç‹o do papel da lei (n‹o como indutora de amor-desejo mas justamente como codificadora dessa viol•ncia) apenas um 'sintoma. Onifuncionalidade das técnicas do poder que, em Foucault, ab- sorve de imediato n‹o apenas o problema da viol•ncia f’sica, mas também o do consentimento, que se toma um n‹o-problema, isto é, um problema n‹o tratado teoricamente, ou que cai nas an‡lises do tipo "interiorizaç‹o da repress‹o". Quais s‹o, além das disciplinas de normalizaç‹o, as "raz› es" do consentimento, que, entretanto n‹o impedem que sempre haja lutas? Se essas disciplinas bastassem para explicar a submiss‹o, por que permitiriam a exist•ncia das lutas? Chega-se ˆ aporia nodal das an‡lises de Foucault, da qual voltarei a falar: a aus•ncia de fundamento de suas famosas "resist•ncias" ao poder que tanto lhe apraz. De fato, se deve haver viol•ncia f’sica or- ganizada é pela mesma raz‹o que deve haver consentimento: porque h‡ de iní cioe sempre lutas baseadas em primeiro lugar na explora- ç‹o. Se essa realidade primeira e incontorn‡vel, que faz que as lutas sejam sempre o fundamento do poder, for esquecida em favor de uma vis‹o que faz do poder (a Lei, o Senhor) o fundamento das lu- tas, ou de uma relaç‹o entre termos puramente equivalentes "poder- resist•ncias", somos levados, ora a derivar o consentimento do amor ou do desejo do poder, ora a ocultar o consentimento como proble- ma. Nos dois casos escamoteia-se o papel da viol•ncia. Na realidade qual é o papel da viol•ncia? O Estado capitalista, ao contr‡rio dos Estados pré-capitalistas, detém o monop—lio da vio- l•ncia fisica leg’tima. Cabe a Max. Weber o mérito de ter esclareci-

do este ponto, mostrando que a legitimidade do Estado, que concen- tra a força organizada, é a legitimidade "racional-legal" fundamen-

tada na lei: a acumulaç‹o prodigiosa de meios de coaç‹o corporal pelo Estado capitalista acompanha seu car‡ter de Estado de direito.

O grau de viol•ncia

f’sica aberta exercida

nas diversas situaç› es de

poder "privado" exteriores ao Estado, da f‡brica ˆs famosas micros- situaç› es de poder. est‡ em regress‹o na exata medida em que o Es- tado se reserva o monop—lio da força f’sica leg’tima. Os Estados ca- pitalistas europeus formaram-se quase sempre pela pacificaç‹o de territ—rios devastados pelas guerras feudais. Com o poder polí tico institucionalizado, que contudo detém o monop—lio da viol•ncia. nas circunst‰ncias normais de dominaç‹o ela é menos usada do que nos Estados pré-capitalistas. Se pusermos de lado: a) as formas, que n‹o se pode esquecer, com a mem—ria curta e a leviandade europo-

centrista de nossos te—ricos, de Estados capitalistas de exceç‹o (fas- cismos, ditaduras militares etc.) que hoje infestam nosso mundo (os

te—ricos s—se lembram

de terror supremo da guerra (Primeira Guerra Mundial, Segunda

Guerra Mundial, as outras

em dizer que o poder moderno n‹o mais funciona para a morte?); c) a conjuntura de exacerbaç‹o das lutas de classe, o emprego efetivo da viol•ncia aberta fica relativamente limitado ao passado. Tudo' se

passa como se o Estado precisasse usar menos a força na medida em que detém o monop—lio leg’timo.

da viol•ncia nos paí ses do Leste): b) os casos,

e agora a nuclear: quem se preocupava

Concluir

que o poder e o dom’nio

modernos

n‹o mais se ba-

seiam na viol•ncia f’sica é a ilus‹o atual. Mesmo que essa viol•ncia n‹o transpareça no exercí cio cotidiano do poder, como no passado,

ela é mais do que nunca determinante. Sua monopolizaç‹o pelo Es- tado induz as formas de dom’nio nas quais os múltiplos procedimen- tos de criaç‹o do consentimento desempenham o papel principal. Para apreend•-lo devemos nos distanciar da metáfora anal—gica de mera complementaridade entre viol•ncia e consentimento, calcada na imagem do Centauro (metade-fera, metade-homem), de Maquia- vel. A viol•ncia f’sica n‹o existe somente lado a lado com consenti- mento, como duas grandezas mensur‡veis e homog•neas que man- t•m relaç› es invertidas, de tal como que maior consentimento corresponderia a menos viol•ncia. Se a viol•ncia-terror tem sempre um lugar determinante, isso n‹o se deve ao fato dela se manter cons-

tantemente retraí da e s—se manifestar

abertamente

'--------------------

em situaç› es

crí -

ticas. A viol•ncia fí sica monopolizada pelo Estado sustenta perma- nentemente as técnicas do poder e os mecanismos do consentimento, est‡ inscrita na trama dos dispositivos disciplinares e ideol—gicos, e molda a materialidade do corpo social sobre o qual age o dom’nio, mesmo quando essa viol•ncia não se exerce diretamente,

Também n‹o se trata de substituir o binômio lei-terror, repres- s‹o-ideologia, por um trinômio repress‹o-normalizaç‹o disciplinar- ideologia, substituindo um terceiro termo numa relaç‹o de funciona- mento inalterado: grandezas heterog•neas e distintas de uni poder quantific‡vel ou modalidades de exerc’cio de um poder-ess•ncia. Trata-se de apreender a organizaç‹o material do poder como relaç‹o de classe em que a viol•ncia f’sica organizada é a condiç‹o de exis- t•ncia e garantia de reproduç‹o. A colocaç‹o das técnicas do poder

capitalista, a constituiç‹o dos dispositivos disciplinares (o grande "internamento"), a emerg•ncia das instituiç› es ideol—gico-culturais (do Parlamento ao sufr‡gio universal e ˆ escola) pressup› em a mo- nopolizaç‹o da viol•ncia pelo Estado, recoberta precisamente pelo deslocamento da legitimidade para a legalidade e pelo reino da lei.

Esses te—ricos a pressup› em tanto em

em sua exist•ncia e reproduç‹o. Para citar apenas um exemplo, o

exército nacional é consubstancial ao Parlamento e ˆ escola capita- lista. Essa consubstancialidade repousa na materialidade institucio- nal comum decorrente da divis‹o social do trabalho que seus apare-

lhos

f’sica

leg’tima, induz as formas de exist•ncia e de funcionamento de ins-

tituiç› es - parlamento, escola - nas quais a viol•ncia n‹o precisa

se atualizar como tal. A exist•ncia

Parlamento como editor de leis é impens‡vel sem a instituiç‹o do exército nacional moderno.

sua genealogia hist—rica como

encarnam

e

também

no

fato

de

que

o

exército

nacional,

justamente

como peça do monop—lio pelo Estado da viol•ncia

regular, a pr—pria constituiç‹o

do

Enfim, falemos precisamente da morte. Como n‹o fazer con-

vergir as transformaç› es

mente no leito, o verdadeiro

dernas, a morte e a perda pelos cidad‹os "privados" de sua pr—pria morte.P com o monop—lio pelo Estado do terror público leg’timo?

O Estado n‹o funcionaria mais para a morte? Mesmo quando n‹o

mo-

da maneira como se morre, mais prosaica-

interdito que choca nas sociedades

executa (pena de morte), n‹o mata ou n‹o ameaça faz•-lo, mesmo

quando impede de morrer, o Estado moderno gere a morte pois o poder médico est‡ inscrito na lei modema.

A monopolizaç‹o pelo Estado da viol•ncia leg’tima permane- ce o elemento determinante do poder, mesmo quando essa viol•ncia n‹o é exercida direta e abertamente. Essa monopolizaç‹o est‡ na base das novas formas de lutas sob o capitalismo, ˆs quais corres- ponde o papel dos dispositivos de organizaç‹o do consentimento, pois poder e lutas se atraem e se condicionam mutuamente. A con- centraç‹o da força armada pelo Estado, o desarmamento e a desmi- litarizaç‹o dos setores privados - condiç‹o para estabelecimento da exploraç‹o capitalista - contribuem para deslocar a luta das classes, de uma guerra civil permanente de conflitos armados peri—- dicos e regulares, para as novas formas de organizaç‹o polí tica e sindical das massas populares, contra as quais a viol•ncia f’sica aberta é, sabe-se, de efici•ncia relativa. Um povo "privado" da força "pública" j‡ é um povo que n‹o vive mais o dom’nio polí tico sob a forma de fatalidade natural e sagrada, um povo para o qual o mono- p—lio da viol•ncia pelo Estado s—é leg’timo na medida em que a re- gulamentaç‹o jurí dica e a legalidade lhe permite esperar, e mesmo permite formalmente e em princ’pio, o acesso ao poder. Enfim, o Es- tado concentra a viol•ncia em seus corpos especializados, enquanto ela cada vez mais é insuficiente para a reproduç‹o do dom’nio. Às guerras privadas e aos conflitos armados sob forma de teodicéias re- petitivas - incansavelmente colocadas na ordem do dia, catarse da fatalidade do poder, guerras pacificadas pela concentraç‹o da-força armada no Estado - sucede a permanente contestaç‹o polí tica ao poder, conseqü•ncia da monopolizaç‹o da força f’sica pelo Estado. Os mecanismos de organizaç‹o do consentimento instalam-se nos postos avançados do poder: é o reino da lei capitalista que designa este lugar aos mecanismos de consentimento, inclusive sob a forma de inculcaç‹o ideol—gica, na exata medida em que encobre a mono- polizaç‹o da força fí sica pelo Estado.

Embora

o papel da lei (pois no ní vel geral em que me coloco

aqui n‹o faço distinç‹o

entre lei e direito)

mostre

ser essencial

no

exerc’cio

do poder como organizador

da repress‹o,

da viol•ncia

f’-

sica organizada,

lei seja puramente

n‹o significa

negativa,

contudo

que, nessa aç‹o, a l—gica da

ou de obriga- é exclusiva-

de rejeiç‹o, de barragem

O poder jamais

ç‹o de n‹o-manifestaç‹o

e mutismo.

mente negativo, pois é algo mais que a lei. A lei em seu papel repres- sivo comporta um aspecto de positividade elevado, pois a repress‹ o

jamais se identifica ˆ pura negatividade. A lei n‹o passa de um con-

glomerado de interditos e de censura. Também é a lei, desde o direi- to greco-romano, que emite injunç› es positivas, que pro’be ou deixa fazer segundo a m‡xima de que é permitido o que n‹o é proibido pela lei, mas que faz fazer, obriga a aç› es positivas em vista do poder, obriga também a discursos dirigidos ao poder. A lei imp› e o sil•ncio ou deixa dizer, é ela que freqüentemente obriga a dizer (a prestar juramento, a denunciar etc.). No geral, a lei institucionaliza- da nunca foi pura injunç‹o de abstenç‹o ou pura censura, de tal modo que terí amos na organizaç‹o do Estado, de um lado a lei-cen- sura-negatividade, e de outro lado "outra coisa" - aç‹o-positivi- dade. Essa oposiç‹o é parcialmente errada na medida em que a lei organiza o campo repressivo como repress‹o daquilo que se faz quan- do a lei pro’be e também como repress‹o daquilo que n‹o se faz quando a rei obriga que se faça. A lei sempre esteve na ordem so- cial, no sentido em que aparece depois para pôr ordem num estado natural preexistente, porque é constitutiva do campo pol’tico-social como codificaç‹o de interditos e injunç› es positivas. Portanto, a repress‹o jamais é pura negatividade: n‹o se esgo- ta nem no exerc’cio efetivo da viol•ncia fí sica, nem em sua interio- rizaç‹o. H‡ na repress‹o outra coisa da qual raramente se fala: os 'mecanismos do medo. Mecanismos materiais e nada subjetivados; chamei-os de teatralidade do Estado moderno, verdadeiro Castelo de Kafka. Teatralidade inscrita na lei modema, nos dédalos e labi- rintos onde essa lei se materializa: que isso se baseie no monop—lio

, da viol•ncia leg’tima, é do lado Colônia Penal, sempre Kafka, que

, devemos procurar como compreender. Enfim, a lei detém um papel importante (positivo e negativo) na organizaç‹o da repress‹o ao qual n‹o se limita; é igualmente efi- caz nos dispositivos de criaç‹o do consentimento. Materializa a ideologia dominante que a’ intervém mesmo que n‹o esgote as ra- z› es do consentimento. A lei-regra, por meio de sua discursividade e textura, oculta as realidades pol’tico-econômicas, comporta lacu- nas e vazios estruturais, transp› e essas realidades para a cena polí - tica por meio de um mecanismo pr—prio de ocultaç‹o-invers‹o. Tra- duz assim a representaç‹o imagin‡ria da sociedade e do poder da

classe dominante. A lei é. sob esse aspecto, e paralelamente a seu lugar no dispositivo repressivo, um dos fatores importantes da orga- nizaç‹o do consentimento das classes dominadas, embora a legitimi- dade (o consentimento) n‹o se identifique nem se limite ˆ legalida- de. As classes dominadas encontram na lei uma barreira de exclus‹o e igualmente a designaç‹o do lugar que devem ocupar. Lugar que é

também lugar de inserç‹o na rede polí tico-social, criadora de deve-

res-obrigaç› es e também de direitos, lugar cuja

tem conseqü•ncias

posse imagin‡ria

reais sobre os agentes.

Muitas das aç› es do Estado que ultrapassam seu papel repres- sivo e ideol—gico, suas intervenç› es econômicas e sobretudo os com- promissos materiais impostos pelas classes dominadas ˆs classes do- minantes, uma das raz› es do consentimento, v•m inscrever-se, no corpo da lei, fazendo parte de sua estrutura interna. A lei apenas en- gana ou encobre, reprime, obrigando a fazer ou proibindo. Também organiza e sanciona direitos reais das classes dominadas (claro' que investidos na ideologia dominante e que est‹o longe de corresponder em sua aplicaç‹o ˆ sua forma jurí dica) e comporta os compromissos materiais impostos pelas lutas populares ˆs classes dominantes. N‹o é menos evidente, em oposiç‹o a toda concepç‹o jurí di- co-legalista, e psicanal’tica também, tal como aparece em obras in- teressantes como a de P. Legendre'" que a ação, o papel do Estado

em muito ultrapassam

a lei ou a regulamentaç‹ o jur’dica.

a) A aç‹o do Estado, seu funcionamento concreto nem sempre

toma a forma de lei-regra: existe sempre um conjunto de pr‡ticas e técnicas estatais que escapa ˆ sistematizaç‹o e ˆ ordem jurí dicas. Isso n‹o quer dizer que sejam "anômicas", arbitr‡rias, mas que obe-

decem a uma l—gica diferente da ordem jurí dica, ˆ l—gica da relaç‹o

de forças entre classes em luta cuja lei é apenas investimento t‰ncia e em registro espec’fico.

a dis-

b) Frequentemente o Estado age transgredindo a lei-regra que

edita, desviando-se da lei ou agindo contra a pr—pria lei. Todo siste- ma autoriza, em sua discursividade, delineado como vari‡vel da

regra do jogo que organiza, o n‹o-respeito pelo Estado-poder de sua pr—pria lei. Chama-se a isso raz‹ o de Estado, que significa que a legalidade é compensada por "ap•ndices" de ilegalidade, e que a ile- galidade do Estado est‡ sempre inscrita na legalidade que institui: o

stalinismo e os aspectos totalitários do poder nos pa’ses do Leste n‹o se devem especialmente ˆs "violaç› es da legalidade socialista". Todo sistema jurí dico inclui a ilegalidade assim como comporta, como parte integrante de seu discurso, vazios e brancos, "lacunas da lei": n‹o se trata de simples descuidos ou cegueira causados pela operaç‹o ideol—gica de ocultaç‹o que sustenta o direito, porém de dispositivos expressamente previstos, brechas para permitir ir além da lei, sem falar das violaç› es puras e simples que o Estado faz de sua lei, que embora pareçam transgress› es selvagens, pois n‹o foram previstas na lei, assim mesmo fazem parte do funcionamento

estrutural do Estado. Todo Estado é organizado em sua ossatura ins- titucional de modo a funcionar (e de modo a que as classes domi- nantes funcionem) segundo a lei e contra a lei. Inúmeras leis n‹o te- riam existido em sua forma precisa se, com o apoio do conjunto de dispositivos estatais, uma taxa de violaç‹o das classes dominantes n‹o houvesse sido descontada, isto é, inscrita nos dispositivos do Estado. A ilegalidade é freqüentemente parte da lei, e mesmo quan- do ilegalidade e legalidade s‹o distintas, n‹o englobam duas organi- zaç› es separadas, espécie de Estado paralelo (ilegalidade) e de Es- tado de direito (legalidade), e menos ainda uma distinç‹o entre Estado ca—tico, um n‹o-Estado (ilegalidade) e um Estado (legalida-

de). Ilegalidade

trutura institucional.

de Marx.

de que todo Estado é uma "ditadura"

entendemos habitualmente

e legalidade

fazem parte de uma única e mesma es-

a express‹o

No fundo, é assim que se deve entender

de classe. N‹o no sentido que

de poder acima da lei, onde lei é consi-

derada como oposta ˆ viol•ncia e ˆ força: n‹o h‡ Estado, por mais ditatorial que seja, sem lei, e a exist•ncia de lei e de legalidade ja- mais impediu qualquer barb‡rie ou despotismo. H‡ que compreen- der a express‹o na acepç‹o exata em que "ditadura" designa a orga- nizaç‹o de todo Estado como ordem funcional única de legalidade e de ilegalidade, de uma legalidade vazada por ilegalidade. e) Enfim, a aç‹o do Estado sempre ultrapassa a lei pois o Esta- do pode, dentro de certos limites, modificar sua pr—pria lei. O Es- tado n‹o é a simples figura de alguma lei eterna, seja ela origin‡ria de algum interdito universal ou de uma lei natural. Primado suposto e, é o caso de se dizer, de direito da lei sobre o Estado que, :10 fundo, é a pr—pria base da concepç‹o jurí dica do Estado pela qual se expli-

ca a coniv•ncia

atual com a concepç‹o

anal’tica

(psicanal’tica)

das

instituiç› es. Ora, se todo Estado é consubstancial a uma lei, se ent‹o

na verdade a lei n‹o é uma criaç‹o utilit‡ria de um Estado pura força prévia, é o Estado, numa sociedade dividida em classes e no seu as- pecto de viol•ncia leg’tima, em suma, como detentor da força e da re- press‹o f’sica, que sempre domina a lei. Pois se é verdade que a lei organiza essa viol•ncia, n‹o h‡ nessa sociedade lei ou direito sem aparelhagem que obrigue sua aplicaç‹o e assegure a efici•ncia, em resumo, a exist•ncia social: a eficacidade da lei jamais é a do puro discurso, da palavra e da regra emitida. Se n‹o h‡ viol•ncia sem lei, a lei pressup› e sempre a força organizada a serviço do legiferante (o braço secular). Mais prosaicamente: a força permanece na lei.

2, A Lei Moderna

Embora toda lei ou todo direito apresentem certas caracterí sti- cas comuns, o direito capitalista é espec’fico no que forma um sis- tema axiomatizado, composto de conjunto de normas abstratas, ge- rais.formais e estritamente regulamentadas. Também um certo marxismo fundamentou essa especificidade do sistema jurí dico capitalista na esfera de circulaç‹o do capital e das trocas mercantis: sujeitos jurí dicos "abstratos" quando livre tro- cadores de mercadorias, indiv’duos "formalmente" livres e iguais, troca equivalente e valor de troca "abstrato" etc.22 Ora, n‹o é no in- terior dessa esfera que se pode apreender a especificidade da lei e do direito capitalistas. A especificidade (abstraç‹o, universalidade, for- malidade), que ali‡s encobre a monopolizaç‹o da viol•ncia leg’tima pelo Estado, que se op› e ao particularismo jurí dico que dissimula a difus‹o dessa viol•ncia entre v‡rios portadores, deve ser procurada na divis‹o social do trabalho e nas relaç› es de produç‹o. S‹o eles que d‹o ˆ viol•ncia o lugar e o papel que desempenham no capita- lismo, onde, em vista do desapossamento dos trabalhadores duetos de seus meios de trabalho, a viol•ncia n‹o est‡ diretamente presente como tal (como raz‹o "extra-econ—mica") no processo de produç‹o. Esse sistema jurí dicoaxiomatizado constitui o quadro de coes‹ ofor- ma/ de agentes totalmente despojados de seus meios de produç‹o. desenhando assim os contornos de um espaço estatal relativamente separado das relaç› es de produç‹o. A formalidade e a abstraç‹o da

lei est‹o em relaç‹o primeira com os fracionamentos reais do corpo social, ,na divis‹o social do trabalho, com a individualizaç‹o dos agentes em andamento no processo de trabalho capitalista.

, A lei modema encarna assim o espaço-tempo, o quadro refe-

rencial material do processo de trabalho: espaço/tempo serial, cumu-

lativo, cont’nuo e homog•neo. Essa lei transforma os indiv’duos em sujeitos-pessoas jurí dico-polí ticas ao representar a unidade como povo-naç‹o. Ela consagra e participa também em sua instauraç‹o,

nas fragmentaç› es diferenciadas dos agentes (individualizaç‹o), tra- çando o c—digo no qual essas diferenciaç› es se inscrevem, e a partir

do qual as diferenciaç› es

existem

sem colocar

em jogo

a unidade

polí tica da formaç‹o social. Todos os sujeitos s‹o iguais e livres pe- rante a lei: o que j‡ quer dizer, no discurso da lei (e, n‹o escondido nele), que s‹o realmente diferentes (como sujeitos-indiv’duos), mas na medida em que essa diferença pode se inscrever num quadro de homogeneidade. A lei capitalista n‹o oculta apenas, como se diz fre- qüentemente, as diferenças reais sob um formalismo universal; ela contribui para instaurar e sancionar a diferença (individual e de clas-

se) em sua pr—pria estrutura; erigindo como sistema de coes‹o e como organizador da unidade-homogeneizaç‹o dessas diferenças. Aí a fonte das caracterí sticas de universalidade, formalidade e abs- traç‹o da axiom‡tica jurí dica. Sup› em agentes liberados de seus "elos" territoriais-pessoaisdas sociedades pré-capitalistas, ou mesmo escravocratas, na base de um direito constitu’do, no essencial, de es- tatutos, de privilégios 'e de costumes de castas-Estados onde o polí - tico e o econômico estariam estreitamente ligados. N‹o é a lei que libera esses agentes: ela intervém num processo de desconex‹o e de separaç‹o dos agentes dos elos que os diferenciavam por castas-Es- tados, classes fechadas nas quais estavam originariamente encastra- dos, fontes de signos, de s’mbolos, de significaç› es. A lei nisso se empenha, contribuindo para instaurar e sancionar a nova grande di- ferença: a individualizaç‹ o. Ali‡s o direito moderno trabalha para que essa individualizaç‹o seja paralelamente (e em relativa contra- diç‹o com) a outras técnicas e pr‡ticas do Estado (as disciplinas de normalizaç‹o), seja encobrindo-as e nelas se moldando, A lei e o sistema jurí dico capitalistas apresentam igualmente, porém, particularidades no seu aspecto de materializaç‹o da ideo- logia dominante. A legitimidade desloca-se em direç‹o ˆ legalida-

de, o que a distingue da legalidade organizada com base no sagra- do. A lei, j‡ encarnaç‹o do povo-naç‹o, toma-se a categoria funda- mental da soberania do Estado: a ideologia jurí dico-polí tica insta- la-se em regi‹o dominante da ideologia e suplanta a ideologia religiosa. Se essas modificaç› es englobam a monopolizaç‹o da força leg’tima por parte do Estado, t•m contudo raí zes bem mais profundas, A funç‹o de legitimidade desloca-se em direç‹o ˆ lei, inst‰ncia impessoal e abstrata, ao mesmo tempo em que, no seio das relaç› es de produç‹o, os agentes "desatam" e se liberam de

seus elos territoriais-pessoais.

ças a sua abstraç‹o, formalidade e generalidade, se tomasse aqui o dispositivo mais apto a preencher a funç‹o-m—r de toda ideologia

dominante:

égide da classe dominante).

Tudo se passa como se essa lei, gra-

social (sob a

a de cimentar

a unidade de uma formaç‹o

ƒ especialmente

a lei que, em suas caracterí sticas capitalistas,

pode, além do quadro formal de coes‹o que imp› e aos agentes, re-

presentar

sua unidade,

investindo-a

no imagin‡rio

social, e cimen-

tar os processos de individualizaç‹o. Tudo se passa como se a lei,

que se organiza no modo do puro signo (abstraç‹o, universalidade, formalidade), pegasse um lugar privilegiado no mecanismo ideol—- gico de representaç‹o imagin‡ria, a partir do momento em que os agentes s‹o atomizados e separados de seus meios naturais de traba- lho. Enquanto nas formaç› es pré-capitalistas era o modo de simbo- lizaç‹o pr—prio ˆ religi‹o (a religi‹o une) que permitia sancionar as ligaç› es de agentes j‡ encastrados na terra, na fam’lia, nas castas e nos estados. Ligaç‹o que originavam uma série de simbolizaç› es primeiras do tipo sagrado, as quais eram registradas pelo Estado que da’ tirava sua legitimidade como encarnaç‹o, no topo da pir‰mide significante, da palavra e do corpo soberano. Era a esses modos de produç‹o que correspondia, segundo Marx, o papel dominante da ideologia, enquanto no modo de produç‹o capitalista o econômico, em raz‹o de suas relaç› es de produç‹o espec’ficas, tem ao mesmo tempo o papel determinante e o papel dominante. ƒ necess‡rio com- preend•-lo no sentido de que a lei, em sua forma capitalista, toma- se a encarnaç‹o do mecanismo ideol—gico fundamental, a partir do momento em que o ciclo de reproduç‹o do capital e n‹o das "raz› es

extra-econômicas"

mais valia), a partir do momento

que aceleram a extraç‹o do sobre trabalho (a

em que s‹o esmagadas

as subsim-

-

------

---,_-------

bolizaç› es que cimentam os elos territoriais pessoais dos agentes. O reino da -lei capitalista está fundamentado no vazio do significante que a envolve. Esta especificidade da lei e do sistema jurí dico est‡ inscrita na ossatura institucional pr—pria do Estado capitalista. O arcabouço centralizador-burocr‡tico-hier‡rquico desse Estado s—é poss’vel em si porque se calca num sistema de normas gerais, abstratas, formais e axiomatizadas, sistema esse que organiza e regula as relaç› es entre os escal› es e aparelhos impessoais de exerc’cio do poder. O que se designa sob o termo "direito administrativo" corresponde exatamen- te a esta lei em seus efeitos de estruturaç‹o do Estado. A lei e o re- gulamento estão na base do recrutamento dos agentes do Estado (concursos e exames impessoais), do funcionamento do texto escri- to e da dogm‡tica do discurso interno ao Estado. Discurso que n‹o encarna, nem revela, nem interpreta a Palavra Divina (real, senho- rial) por uma relaç‹o m’stica mais ou menos direta e pessoal de todo servidor de Deus (do Rei, do Senhor): ele pretende concretizar por segmentos e patamares a lei abstrata e formal para sua aplicaç‹o concreta, num encadeamento l—gico-dedutivo (a "l—gica-jur’dica") que n‹o passa do percurso de uma ordem de dominaç‹o-subordina- ç‹o, de um trajeto de decis‹o-execuç‹o interna ao Estado. Se ent‹o se pensar que essa ossatura do Estado est‡ em relaç‹o com a divis‹o capitalista trabalho intelectual/trabalho manual, e que ela reproduz o trabalho intelectual, vai se compreender a relaç‹o entre essa divis‹o e a lei capitalista, Na legitimidade do sagrado, to- do sujeito do poder é tido como detentor, em si, de uma parte da ver- dade (divina), um limite intrí nsecoao poder terrestre (uma alma): a , inscriç‹o do corpo do Rei (divino) que ele traz gravada em si n‹o se apaga nunca. Os estatutos e os privilégios s‹o de direito natural. A lei moderna realiza a relaç‹o capitalista do poder e do saber, con- densada no trabalho intelectual capitalista: nenhum saber nem ver- dade nos indiv’duos-sujeitos fora da lei. A lei torna-se a encarnaç‹o da Raz‹o: é nas formas do direito e da ideologia jur’dica que se con- duz a luta contra a Religi‹o, e nas categorias jurí dicas é que se pen- sam as ci•ncias f’sicas da Idade da Luz. A lei abstrata, formal, uni- versal, é a verdade dos sujeitos, é o saber (a serviço do capital) que constitui os sujeitos jurí dico-polí ticose que instaura a diferença en- tre o privado e o público. A lei capitalista traduz assim o despoja-

mento total dos agentes da produç‹o

proveito

de seu "poder intelectual"

em

das classes dominantes

e de seu Estado. se pode igualmente

ver na relaç‹o da

lei e da sistematizaç‹o jurí dica com a especializaç‹o dos aparelhos

de Estado, relaç‹o que se manifesta na emerg•ncia do corpo de ju-

ristas especializados. Quando se trata de entender esse corpo em amplo sentido, v•-se que provavelmente é ele que melhor repre- senta, como rede "separada" da sociedade, o trabalho intelectual incorporado no Estado, Todo agente do Estado em amplo sentido,

Ali‡s, que tal aconteça,

advogado, funcion‡rio,

assistente social etc. é um intelectual na medida em que é um homem da lei. que legisla, que conhece a lei e o regulamento, que concretiza-os, que aplica-os. Ninguém é considerado ignorante da lei, m‡xima fundamental de um sistema jurí dico moderno onde nin- guém, salvo os representantes do Estado, pode conhec•-la. Este co- nhecimento requisitado a todo cidad‹o n‹o é objeto de uma discipli- na particular na escola, como se, ao se pretender exigir que ele conheça a lei, tudo se fizesse para que ele a ignore. Esta m‡xima ex- pressa assim a depend•nCia-subordinaç‹o em face dos funcion‡rios do Estado, ou seja, aos fazedores, os guardi‹es e os aplicadores da lei, das massas populares cuja ignor‰ncia (o segredo) da lei é uma caracterí sticadesta lei e da pr—pria linguagem jurí dica.A lei moder- na é um segredo de Estado, fundadora de um saber açambarcado pela raz‹o de Estado. Esta especificidade da lei e do sistema jurí dico capitalista tem portanto seus fundamentos nas relaç› es de produç‹o e na divis‹o so- cial capitalista do trabalho: ela se relaciona assim com as classes so- ciais e com a luta de classes, tais como elas existem sob o capitalis- rno.> Classes abertas e n‹o mais castas fechadas, o que é da maior import‰ncia quanto ˆ sua reproduç‹o: reproduç‹o ao mesmo tempo de seus lugares (extens‹o, diminuiç‹o, extinç‹o) e de seus agentes (qualificaç‹o-adestramento espec’fico dos agentes para que eles ocupem talou qual posiç‹o de classe). ƒ evidente que o sistema ju- r’dico-capitalista (abstrato, formal, geral) é aquele que pode regula- mentar a relaç‹o entre os lugares de classes sociais (capital, trabalho assalariado) e dos agentes que n‹o lhe s‹o formalmente "ligados". ƒ ele que pode regular ao mesmo tempo a ventilaç‹o permanente de agentes das classes dominadas entre os lugares de classes sociais

parlamentar, polí tico, policial, oficial, juiz,

(campesinato, classe oper‡ria, pequena burguesia), que n‹o é mais que o papel da lei na submiss‹ o real ampliada do Trabalho ao Capi- tal, e a separaç‹o relativa desses lugares, e de seus agentes, na rela- ç‹o classes dominantes/classes dominadas. No fundo, para esta axiom‡tica jurí dico-burguesa, efetivo direito nacional-popular de classe, todos s‹o livres e iguais diante da lei sob a condiç‹o de que todos sejam e tomem-se burgueses, o que a lei ao mesmo tempo per- mite e interdita,

. Mas esse sistema jur’dico

corresponde

igualmente

nadas espec’ficas das lutas polittcas

sob o capitalismo:

ˆs coorde-

a) A sistematizaç‹o axiom‡tica do direito como quadro de coe-

s‹o formal recobre uma funç‹o estratégica: o capitalismo apresenta uma reproduç‹o ampliada. Enquanto as sociedades pré-capitalistas apresentavam apenas uma reproduç‹o simples, repetitiva e, por assim dizer, cega, esta reproduç‹o ampliada implica aqui, j‡ ao n’vel do processo de produç‹o, um c‡lculo estratégico por parte de diver- sas fraç› es do capital e seus portadores. Esse c‡lculo exige, por sua vez, a possibilidade de uma determinada previs‹ o fundada num m’- nimo de estabilidade das regras do jogo. ƒ isso que permite a axio- matizaç‹o do direito: seu car‡ter sistem‡tico, com base em normas abstratas, gerais, formais e estritamente regulamentarizadas, consis-

te entre outras coisas em comportar suas pr—prias regras de transfor- maç‹o, fazendo assim com que suas modificaç› es se tomem trans- formaç› es reguladas no seio de seu sistema (papel notadamente da Constituiç‹o).

de

Estado e o acesso a esses aparelhos por meio precisamente desse sistema de normas gerais, abstratas, formais. Em relaç‹o a uma do- minaç‹o espec’fica, ou seja a um bloco de poder composto de v‡- rias classes e principalmente de v‡rias fraç› es da burguesia, esse di-

reito controla uma certa ventilaç‹o do poder entre elas e regulariza

suas relaç› es no seio do Estado. Ele permite

ç‹o das relaç› es de força no seio da aliança no poder se traduza no Estado sem a’ provocar reviravoltas, A lei capitalista é de qualquer maneira o amortizador e o canalizador de crises polí ticas, de tal modo que elas n‹o provocam efetivas crises do Estado. De manei- ra mais geral, a lei capitalista surge como a forma necess‡ria de um

b) A lei regula o exercí cio do poder polí tico pelos aparelhos

assim que a modifica-

Estado que deve ter uma autonomia relativa em relaç‹o ˆ essa ou ˆquela fraç‹o do bloco no poder para que possa organizar sua uni- dade sob a hegemonia de uma classe ou de uma fraç‹o. Isso est‡ li-

gado ˆ separaç‹o relativa do Estado e das relaç› es de produç‹o, ou seja ao fato de que os agentes da classe economicamente dominan-

te (a burguesia) res e agentes

n‹o se confundam do Estado.

diretamente

com os mantenedo-

ƒ ali‡s assim que a lei modema

se constituiu

historicamente.

Suas origens remontam

ao Estado absolutista.

ou seja ˆs monarquias

européias a partir do século xvn. Estado absolutista que constitui

nem mais nem menos que um Estado com dominante capitalista, verdadeiro Estado de transiç‹o para o capitalismo. Estado absolutis- ta que devia, ent‹o, fazer face a problemas espec’ficos de organiza- ç‹o referentes ˆs relaç› es entre a nobreza rural e a burguesia. A mo- nopolizaç‹o da guerra pelo Estado que corresponde aqui ˆ pacificaç‹o que ele opera entre as forças sociais em quest‹o C'guer- ras privadas") a partir do século XVI, que lhe serve de preparaç‹o para bem conduzir esta primeira grande guerra que ele travou com

suas fontes batismais:

o sangrento

processo

de acumulaç‹o

primiti-

va do capital em favor da burguesia. Mas o direito capitalista regula igualmente o exerc’cio do po- der frente ˆs classes dominadas. Em face da luta da classe oper‡ria no plano polí tico, esse direito organiza o quadro de um equil’brio permanente de compromisso imposto ˆs classes dominantes -pelas classes dominadas. Esse direito regula também as formas de exerc’- cio da repress‹o f’sica: esse sistema jurí dico, essas liberdades "for- mais" e "abstratas" s‹o também, cumpre destacar, conquistas das massas populares. ƒ nesse sentido, e apenas nesse sentido, que a lei modema coloca os limites do exerc’cio do poder e da intervenç‹o dos aparelhos de Estado. Esse papel da lei depende da relaç‹o de força entre as classes, e esboça também uma barreira ao poder das classes dominantes imposta pelas classes dominadas, o que se ob- serva claramente no caso da aboliç‹o desse papel do direito nas for- mas de Estado capitalista de exceç‹o (fascismo, ditaduras militares). ƒ assim que a lei no sentido moderno interveio n‹o contra a viol•n- cia de Estado (lei contra terror), mas por um papel organizador, no seu pr—prio texto, do exerc’cio da viol•ncia, considerando-se a resis-

tência das massas populares. A axiom‡tica jurí dica permite a previ-

s‹o polí tica das classes dominantes, eu afirmara, quando

uma relaç‹o de força entre classes, ela constitui igualmente o supor- te de um c‡lculo estratégico pois inclui, nas vari‡veis de seu siste- ma, o fator resist•ncia e luta das classes dominadas. Afinal, por parte das classes e fraç› es dominantes, o direito como posiç‹o de limites expressa as relaç› es de força no seio do bloco no poder. Ele se concretiza particularmente ao delimitar os campos de competência e de intervenç‹o de diversos aparelhos onde

dominam as classes e diferentes fraç› es

exprime

desse bloco.

IV. A NA‚ Ì O

o último caso ao qual vou me referir é o da naç‹o. Caso com- plexo esse, que concentra de toda maneira, o conjunto das aporias de um certo marxismo tradicional. ƒ necess‡rio se ater a essa evi- d•ncia: n‹o existe teoria marxista da naç‹o, Dizer que existe n‹o obstante os apaixonados debates a esse respeito no seio do movi- mento oper‡rio, subestimaç‹o pelo marxismo da realidade nacional é' ainda muito pouco.

1. Uma primeira indicaç‹o parece se destacar da reflex‹o mar- xista e do debate no seio do movimento oper‡rio em tomo da , naç‹o:" a naç‹o n‹o se identifica com a Naç‹o moderna e com o Es- tado nacional, tal como se observa na emerg•ncia do capitalismo no Ocidente. Existe "alguma coisa" designada sob o termo naç‹o, ou . seja, uma unidade particular de reproduç‹o do conjunto de relaç› es sociais, bem antes do capitalismo. Sua constituiç‹o coincide com a passagem das sociedades sem classes (de linhagem) para sociedades classistas, quando ela desenha novas fronteiras, novos laços e tem- poralidades de reproduç‹o social. Mas esta questão das origens é, nesse caso também, a menos interessante. O que é mais significativo é que os cl‡ssicos do mar- xismo, por insistirem sempre nas relaç› es entre a naç‹o e as classes sociais, admitem clara e explicitamente a perman•ncia da naç‹o mesmo ap—s a extinç‹o do Estado na sociedade "comunista" sem classes. Um problema de vulto: eis uma realidade, a naç‹o, exami-

nada como objeto econômico-polí tico e cultural em sua relaç‹o fun-

damental com as classes sociais, que remete permanentemente ˆ quest‹o polí tico-estratégica essencial do internacionalismo proletá- rio, e da qual se admite a perrnan•ncia mesmo ap—s o desapareci- mento do Estado e o fim da divis‹o de classes. Problema tanto mais espinhoso que se poderia usar, a seu prop—sito, do mesmo modo que para o Estado, do argumento da reversibilidade hist—rica, mas se procura evitar referir-se a ele. A naç‹o, como o Estado, n‹o existiu nas sociedades sem classes mas se evita apresentar assim, diferente- mente do que se faz a prop—sito do Estado, por pretender que ela n‹o

mais existiria

ap—s o fim da divis‹o em classes.

enfatiza-se o fato de que n‹o se trataria mais então

da mesma naç‹o, mas isso n‹o tem nada que se possa comparar aqui

ˆs an‡lises referentes ˆ extinç‹o do Estado: o internacionalismo pro- letário ap—s o fim da divis‹o de classes n‹o podendo se empenhar para a extinç‹o da naç‹o como a "substituiç‹o do governo dos homens pela administraç‹o das coisas" se empenha para o desaparecimento do Es- tado. Como compreender esse objeto, te—rico e real, que é a naç‹o,

de quem se admite a irredutibilidade

tamento passa, de toda maneira, pela an‡lise da naç‹o moderna,

Certamente

transist—rica?

Questão cujo tra-

2. A segunda indicaç‹o, relacionada ˆ primeira, diz respeito ˆ dissociaç‹o, no pr—prio quadro do capitalismo, entre o EStado e a naç‹ o. A idéia que se firma progressivamente, sobretudo com as discuss› es referentes ˆs an‡lises do austro-marxismo (O. Bauer, K. Renner erc.), é de que, mesmo no quadro do Estado nacional, o Estado n‹o poderia encobrir exaustivamente a naç‹o: um único e mesmo Estado capitalista pode compreender em seu seio v‡rias na- ç› es (era o caso do Estado multinacional austro-húngaro). Inversa- mente, uma naç‹o que n‹o conseguiu ainda (sob o capitalismo) for- jar seu pr—prio Estado n‹o é no entanto uma naç‹o enfraquec’da, e

n‹o deixa por isso de ter menos direitos que uma outra possa dispor. Isso é o que funda a originalidade e a radicalidade do princ’pio leni- nista dos povos e naç› es se autodeterminaram. Esse direito de auto- determinaç‹o n‹o se reduz para Lenin, como para os austro-marxis- tas, a um simples direito ˆ "autonomia cultural", porém estende-se

ao direito

tado pr—prio e distinto n‹o é necess‡rio para que uma naç‹o exista e

que essas naç› es t•m de fundar seu pr—prio Estado. O Es-

seja reconhecida como tal, porém, por sua pr—pria exist•ncia, ela tem direito a um Estado pr—prio (autodeterminaç‹o). Decerto, os problemas começam a partir do momento em que a aplicaç‹o desse princ’pio, para o pr—prio Lenin, mas principalmente depois dele, est‡ subordinada aos "interesses da revoluç‹o mundial", em suma a partir do momento em que "o direito ao div—rcio" de uma -naç‹o com o Estado que o engloba n‹o significa "obrigaç‹o de divorciar"

e que, reconhecendo o princ’pio desse direito, s—se deveria l.utar por

ele quando estivesse em conformidade aos interesses da classe ope- r‡ria e do "proletariado internacional". Sabe-se o que foi nesse as- pecto a polí tica stalinista, ocasi‹o da ruptura dram‡tica entre Lení n,

ˆ s vésperas de sua morte (1923), e Stálin. Mas o que nos importa aqui, é o princ’pio reconhecido e a dissociaç‹o relativa que ele esta- belece entre a naç‹o e o Estado.

3. Dito isso, a terceira indicaç‹o diz respeito ˆ an‡lise da naç‹o modema. Admite-se, ao mesmo tempo. a especificidade da naç‹o

nas formaç› es sociais capitalistas

esta naç‹o e o Estado. Mesmo se a naç‹o n‹o reafirma exatamente o Estado, o Estado capitalista apresenta a particularidade de ser um Es-

tado nacional: a modalidade nacional vem a ser pela primeira vez

pertinente quanto ˆ materialidade do Estado. Este Estado apresenta

a tendencialidade histôrica de açambarcar uma e mesma naç‹o, no

sentido moderno do termo, de se empenhar ativamente para o esta- belecimento da unidade nacional: as naç› es modernas apresentam a tendencialidade hist—rica de formar seus pr—prios Estados. Os luga- res e os elos de reproduç‹o ampliada das relaç› es sociais, as forma- ç› es sociais tendem a recortar os limites do Estado-naç‹o ao se tor-

narem formaç› es sociais nacionais. O desenvolvimento desigual, caracterí stica do capitalismo desde seus in’cios, tende a ter como pontos de sustentaç‹o os Estados-naç› es dos quais precisamente ele fundamenta a relaç‹o.

ƒ esta última série de indicaç› es, ali‡s, confirmadas, como se

sabe, pelo conjunto da pesquisa econômica, polí tica. hist—rica atual, que vai me ocupar logo de in’cio. A explicaç‹o dessa tendencial ida- de (englobando do Estado e da naç‹o) remete ˆ quest‹o da especifi-

cidade da naç‹o no sentido moderno. ƒ precisamente a’ que as ca- r•ncias da pesquisa marxista j‡ desenvolvida tomam-se patentes.

e a estreita relaç‹o que existe entre

E principalmente no que concerne aos denominados funda- mentos econômicos dessas realidades hist—ricas. A principal ex- plicaç‹o a que se chegou, e que permanece ainda, remete sempre ˆ famosa esfera de circulaç‹o do capital e ˆs trocas mercantis. A uni- dade econ› m’ca, elemento essencial da naç‹o modema, visaria ba- sicamente ˆ unificaç‹o do mercado dito interno. A generalizaç‹o

das trocas mercantis, o valor de troca tal como se realiza na circu- laç‹o da moeda necessitam da aboliç‹o de entraves internos, adua- neiros e outros, para a circulaç‹o das mercadorias e para a unidade monet‡ria. O Estado cuida ele mesmo da constituiç‹o da naç‹o mo- dema em sua dimens‹o econômica ao homogeneizar. sob a égide do capital mercantil, o espaço de circulaç‹o das mercadorias e do capital, o que constitui o essencial de sua aç‹o no estabelecimento

da unidade nacional.

das, de maneira

e o

Estado, conforme as particularidades do Estado nacional. A mate-

ƒ ali‡s nessa mesma linha que s‹o encaminha-

entre a naç‹o modema

a mais sutil, as relaç› es

rialidade pr—pria do Estado, considera-se que resida no fato de que ele instaura os intercambiadores de mercadoria e os possu’do, res de, capital como indiv’duos-sujeitos polí ticos formalmente li- vres e iguais, e de que ele representa-cristaliza a unidade desses indiv’duos. A naç‹o modema é tida como proveniente no essencial,

e pelo menos em sua dimens‹o

econôrn’ca,

de uma homogeneiza-

ç‹o do espaço no qual se movem esses indiv’duos concorrenciado- res-trocadores de mercadorias, o "povo-naç‹o". A an‡lise que se d‡ disso em termos de classe est‡ calcada sobre essa explicaç‹o: a

naç‹o,

assim

como

o Estado

moderno.

seria

a criaç‹o

do capital

mercantil.

remontando

ˆ burguesia

mercantil

desde o in’cio do ca-

pitalismo.

Embora forçosamente, eu esquematizo: trata-se de uma tradi- ç‹o dominante, extremamente tenaz, no marxismo. Ora, n‹o s—esta explicaç‹o é muito parcial, mas também funciona como obstáculo para uma verdadeira an‡lise da naç‹o modema, e apresenta uma série de conseqü•ncias graves:

a) A generalizaç‹o

das trocas mercantis

n‹o pode ser respon-

s‡vel pela criaç‹o da naç‹o modema:

de unificaç‹o

se ela acentua a necessidade

e a supress‹o dos entraves

do mercado

dito "interno"

para a circulaç‹o

das mercadorias

e do capital, e/a não explica em

nada por que esta unificaç‹ o

se localiza precisamente

ao n’vel da

naç‹ o. Unificaç‹o do mercado interno certamente, mas o que é que defme esta noç‹o de "interno". o que torna poss’vel a emerg•ncia de um espaço pr—prio cujos contornos designam um exterior e um in- terior? Por que esses limites-fronteiras obedecem a esse recorte (a naç‹o) e n‹o um outro, e ainda, por que e como esta designaç‹o de limites, esse traçado de um campo no interior do qual vai se assen- tar o problema da unificaç‹o? Tanto é verdade que a homogeneiza- ç‹o do mercado interno sup› e o fechamento de um espaço que trata- se precisamente de unificar. b) Esta refer•ncia-fuga ˆs coordenadas das trocas mercantis traduz. no geral, uma concepç‹o profundamente emp’rica e positi- vista relativa ao conjunto de elementos considerados como consti- tuidores da naç‹o: o territ—rio comum. a lí ngua comum, a tradiç‹o hist—rica e cultural comuns. N‹o entrarei aqui na disputa que consis- te em saber quais elementos devem ser considerados exatamente como constitutivos da naç‹o, disputa que dividiu o movimento ope- r‡rio. O que me importa aqui é mostrar claramente a concepç‹o que subentende o conjunto de elementos enunciados no geral. Eles s‹o considerados alguma coisa como essenciais. transist—ricos, de na- tureza imutável: o territ—rio, a lí ngua, a tradiç‹o. A emerg•ncia na naç‹o modema, sua relaç‹o espec’fica com o Estado s‹o entendidas ainda como resultante de .um princ’pio (generalizaç‹o das trocas mercantis) que teria por efeito a adiç‹o-acumulaç‹o desses diversos elementos detentores de uma ess•ncia intr’nseca (o territ—rio. a lí n- gua. a tradiç‹o): acumulaç‹o configurada pelo Estado-naç‹o que dela seria o efeito. Explicaç‹o que. sem dúvida, omite a quest‹o es- sencial j‡ colocada pelo mercado interno. Por que e como o territ—- rio, a tradiç‹o hist—rica, a l’ngua designam através do Estado esta nova configuraç‹o que éa naç‹o moderna? O que é que torna pos- s’vel a articulaç‹o desses elementos, aparentemente transist—ricos, nesse n—focal que é a naç‹o modema? Por que esses elementos fun- cionam de maneira diferente ao se tornarem as balizas dessa paliça- da que é a naç‹o modema? N‹o colocar essas quest› es leva forçosamente a subestimar-se o peso atual da naç‹o. Se o territ—rio, a l’ngua, a tradiç‹o apresen- tassem sempre uma mesma ess•ncia como no passado, onde o papel da naç‹o era menos importante, se a tend•ncia do capitalismo é na

verdade a de uma internacionalizaç‹o do mercado do capital, se pode deduzir facilmente um afastamento do papel da naç‹o na atual fase do capitalismo (o que fazem muitos autores contempor‰neos), assim como uma subestimaç‹o de seu peso espec’fico na transiç‹o

(como foi pensado pela corrente dominante no

seio do marxismo). A atual internacionalizaç‹o do mercado e do capital, como j‡ demonstrei, n‹o modifica em nada a import‰ncia espec’fica da naç‹o. Isso acontece porque os elementos que entram em jogo na constituiç‹o da naç‹o modema t•m uma significaç‹o inteiramente diferente da que tinham no passado. Para ater-se apenas ao territ—rio e ˆ tradiç‹o hist—rico-cultural, dois elementos aparentemente muito "naturais", eles encerram, sob o capitalismo, um sentido totalmente diferente que no passado. Diferença que situa precisamente a ques- t‹o do mercado como problema de unidade do mercado "interno", e que ali‡s produz o desenvolvimento desigual do capitalismo como

desigualdade entre momentos hist—ricos e espaços diferenciados, di- vididos e distintos - as naç› es, as formaç› es sociais nacionais. Di-

ferença que aparece como um pressuposto pitalista.

para o socialismo

do desenvolvimento

ca-

A tese que tentarei desenvolver é que se esses elementos _ o territ—rio, a tradiç‹o - t•m aqui um sentido inteiramente diferen- te do que tinha no passado, é porque eles se inscrevem em modi- ficaç› es mais fundamentais ainda: as das matrizes de espaço. é tempo que os subentendem. O espaço e o tempo capitalista n‹o s‹o ab- solutamente os mesmos que tinham no passado. Isso implica modi- ficaç› es consider‡veis na realidade e no sentido do territ—rio e da historicidade, que ao mesmo tempo permitem e implicam a consti-

tuiç‹o da naç‹o modema. Essas modificaç› es

organizaç‹o da lí ngua e uma nova relaç‹o do Estado com o rerrit—-

rio e com a historicidade, tado nacional.

delineiam uma nova

e induzem assim a naç‹o modema e o Es-

Poderia

me referir

nesta pesquisa

a algumas

indicaç› es

que

podem ser encontradas em alguns historiadores franceses da ƒcole des Annales: Febvre, Vidal-Naquet, Vernant, Lév•que, Braudel, Mandrou, Le GOff.25 Mas essas indicaç› es concernem no essencial ao espaço e principalmente ao tempo na Antiguidade e na feudalida- de medieval: n‹o se estendem ao capitalismo e n‹o se relacionam

com a constituiç‹o da naç‹o. Por outro lado elas abordam problemas te—ricos mais gerais. Primeiramente, a maioria desses historiadores pretendem pes- quisar no mais das vezes a produç‹o do espaço-tempo, quer (eles também) no estado das trocas mercantis (sociedades de auto-subsis- t•ncia e "fechadas" medievais), quer nas coordenadas tecnol—gicas (situaç‹o das técnicas, invenç› es, instrumentos) ou demogr‡ficas. As refer•ncias ˆs relaç› es de produç‹o e ˆ divis‹o social do traba- lho (salvo sob sua forma mais simples, entre cidade e campo) de- sempenham na maioria das vezes um papel marginal. Depois, e isso é ainda mais importante, suas an‡lises se situam freqüentemente na linha designada como hist—ria das mentalidades. A produç‹o social do espaço 'e do tempo é apreendida como simples transformaç‹o dos "quadros mentais", da "vis‹o do mundo", das "estruturas mentais", e é colocada no mesmo plano que as coorde- nadas culturais, como por exemplo a religi‹o. Algumas dessas an‡- lises aparentam-se assim ˆ corrente culturalista, e ˆquelas, famosas, de M. Weber sobre o capitalismo e a ética protestante. A pesqui- sa marxista tem ali‡s considerado (ela também), até agora, que as transformaç› es do espaçoe do tempo referem-se no essencial ˆs mentalidades, designando-lhes, no que lhe diz respeito, um papel marginal, sob o pretexto de que procedem do dom’nio ideol—gico- cultural, ou seja da maneira pela qual as sociedades ou as classes se

representam o espaço e o tempo, Portanto as transformaç› es das

matrizes espaço-temporais relacionam-se ˆ materialidade da divi-

s‹o social do trabalho, da ossatura do Estado, das pr‡ticas e técni-

r. cas de poder econôrnico, pol’tico e ideol—gico capitalistas, e s‹o o substrato real das representaç› es, da ordem do mito, da religi‹o, da filosofia, ou do "vivido" do espaço-tempo. Transformaç› es que, n‹o se reduzindo ˆs representaç› es que possibilitam, n‹o se identi- ficam com os conceitos cient’ficos de espaço e de tempo 9ue per- mitem compreend•-las. Por outro lado, essas matrizes espaciais e temporais, quadro material primeiro das instituiç› es e das pr‡ticas de poder, distin- guem-se do "diagrama" de Foucault que se aparenta, em sua funç‹o

l

~

I

t

t

I

I

epistemol—gica,

mo (diagrama imanente a cada situaç‹o de poder). Elas se distin- guem dele na medida em que t•m seu fundamento, j‡ assinalei, nas

ao conceito

de estrutura

utilizado

pelo estruturalis-

relaç› es de produç‹o e na divis‹o social do trabalho. Esse funda- mento n‹o deve ser entendido segundo uma causalidade mec‰nica designando relaç› es de produç‹o j‡ dadas, dando lugar, em seguida,

a

essas matrizes espaciais e temporais. Essas, implicadas pelas rela-

ç›

es de produç‹o e pela divis‹o social do trabalho, aparecem ao

mesmo tempo como seus pressupostos, no sentido que Marx dava ao termo prius l—gico (Voraussetzung) distinguindo-o do termo "condiç› es hist—ricas" (historische Bendingungen). As transforma-

ç› es dessas matrizes sublinham assim as transformaç› es de diversos

por isso mesmo, na ossa-

(deste ou daquele Estado) e traçam as mo-

dalidades de exerc’cio de seu poder. N‹o se trata então, pois, nesta presença de matrizes espaço-temporais no Estado, de simples rela- ç‹o de homologia estrutural entre o Estado e as relaç› es de pro- duç‹o, O Estado capitalista tem a especificidade de açambarcar o tempo e o espaço social, intervir na organizaç‹o dessas matrizes, uma vez que ele tende a monopolizar os procedimentos de organi- zaç‹o do espaço e do tempo que se constituem, para ele, em rede de dominaç‹o e de poder. A naç‹o moderna surge assim como um pro- duto do Estado: os elementos constitutivos da naç‹o (a unidade eco- nômica, o territ—rio, a tradiç‹o) modificam-se pela aç‹o d’reta do Estado na organizaç‹o material do espaço e do tempo. A naç‹o mo- dema tende a coincidir com o Estado no sentido em que o Estado in- corpora a naç‹o, e a naç‹o se corporifica nos aparelhos de Estado:

tomam-se o sustent‡culo de seu poder na sociedade, designando-lhe seus contornos. O Estado capitalista funciona como naç‹o

modos de produç‹o.

tura material

Elas estão presentes,

do Estado

1. A Matriz Espacial:

o Territ—rio

Para começar com o espaço, por qualquer ‰ngulo que se abor- de O problema, observa-se que existe, segundo os diferentes mo- dos de produç‹o, matrizes diferenciais do espaço, pressupostas exata- mente pelas formas de apropriaç‹o e de consumaç‹o hist—rico-social do espaço. Mostrar a exist•ncia dessas matrizes n‹o pode se reduzir a retraçar o encadeamento das formas de apropriaç‹o hist—rica do espaço social. Desde as cidades e a urbanizaç‹o até as fronteiras, aos limites e o territ—rio, passando pelas comunicaç› es, o transporte, o aparelho e a estratégia militar, todos t•m sua funç‹o enquanto dis-

positivos de organizaç‹o do espaço social. Ora, toda vez que se tenta

fazer

a hist—ria desses dispositivos e de suas transformaç› es trope-

ça-se sempre com o mesmo problema: esses dispositivos n‹o pos- suem natureza intrí nseca, suas transformaç› es hist—ricas n‹o s‹o simples variaç› es dessa natureza. As descontinuidades s‹o decisi- vas: as cidades, as fronteiras, o territ—rio n‹o se at•m absolutamen- te ˆ mesma realidade e ao mesmo sentido nos modos de produç‹o pré-capitalista e sob o capitalismo. Mesmo supondo-se que se evite a inconveni•ncia de uma historiografia linear e emp’rica, que con- siste em retraçar o desenvolvimento desses dispositivos em seu pr—- prio n’vel (a evoluç‹o das cidades, das fronteiras e dos territ—rios), permanece a questão: como resolver as descontinuidades? Conhece-se a tend•ncia atual da pesquisa mais avançada nesse dom’nio: é a de colocar em relaç‹o direta esses dispositivos de apro- priaç‹o e de consumo do espaço social com as particularidades dos diferentes modos de produç‹o, ainda que o verdadeiro problema seja outro; essa transformaç‹o de dispositivos se inscreve numa trama, mais profunda. O caso n‹o é simplesmente de modos diferen- ciados de organizaç‹o, de apropriaç‹o e de consumaç‹o de alguma coisa que teria uma natureza intrí nseca, o "espaço", nem de percur- sos e enquadramentos diferentes de um mesmo espaço. A distinç‹o, decisiva aqui, entre cidades e campo, é inteiramente diferente se- gundo os diversos modos de produç‹o, n‹o apenas porque as coor- denadas hist—ricas modifiquem os dois termos da relaç‹o (modifica- ç‹o das cidades - antiga, medieval, modema - e do campo - antigos, feudais, comunais, modernos), porém, mais profundamen- te, porque sua pr—pria relaç‹o se inscreve num lugar diferente de acordo com esses modos. Se esses dispositivos produzem o espaço, n‹o é porque enquadrem ou esquadrinhem diferentemente um mes- mo espaço que consomem socialmente, mas porque materializam essas matrizes primeiras e diferenciais de espaço, j‡ presentes em sua ossatura. A genealogia da produç‹o do espaço é principal em re- laç‹o ˆ hist—ria de sua apropriaç‹o. Se existem importantes diferenças entre as matrizes espaciais das sociedades antigas e sociedades feudais, elas apresentam, ao ní vel mais geral onde me coloco aqui, pontos comuns em sua rela- ç‹o com a matriz espacial do capitalismo. N‹o repisarei a particula- ridade das relaç› es de produç‹o e da divis‹o social do trabalho pré-

capitalistas,

relaç› es de posse, de seus meios de produç‹o,

trabalho n‹o induz as dissociaç› es pr—prias ˆ divis‹o capitalista,

nem a particularidade

tas. Mas isso implica um espaço espec’fico:

onde o trabalhador

direto n‹o está ainda separado,

nas

e em que a divis‹o do

do poder polí tico e dos Estados pré-capitalis-

um espaço continuo,

homog•neo, simétrico, reversivel e aberto. O espaço antigo no Oci- dente é um espaço que tem um centro, a polis (que tem ela mesma um centro, a ‡gora) mas n‹o tem fronteiras no sentido moderno do termo. ƒ um espaço conc•ntrico mas aberto no sentido que ele n‹o tem, a bem dizer, exterior. Esse centro (a polis e a sede desta) se ins- creve num espaço cujas caracterí sticas essenciais s‹o a homogenei- dade e a simetria, e n‹o a diferenciaç‹o e a hierarquia. Orientaç‹o geométrica que se reproduz por outro lado na organizaç‹o polí tica da cidade e na estrutura de "isonomia" entre os cidad‹os. Esses pontos (as cidades) disseminados no espaço n‹o s‹o me- ramente separados porque fechados para o exterior, e sim porque se voltam para seu pr—prio centro, n‹o como elos de uma série, e sim como dispers› es de um elo üní co.>Esse centro, seu foco, "os ho- mens, escreve ainda L. Gernet, ordenam-no a seu modo, arranjo ma- tem‡tico de um territ—rio que pode ser qualquer um: o centro é arbi- tr‡rio, sen‹o te—rico". Nesse espaço (representado por Euclides e pelos pitag—ricos) n‹o se desloca, mas circula-se nele. Sempre se vai ao mesmo local, cada ponto do espaço é a repetiç‹o exata do prece- dente: coloniza-se somente para fundar réplicas de Atenas ou Roma, toda trajet—ria n‹o passa nunca de um retorno ao centro original, e n‹o existe percurso poss’vel. As cidades s‹o "abertas" aos campos, n‹o existe territ—rio cujos limites possam se estender ou se retrair em relaç‹o a outros segmentos. Os gregos e os romanos s› se esten- dem ao recuar suas fronteiras e incluindo nelas pedaços ou fatias de espaço, pois n‹o se trata de assimilar segmentos heterog•neos: eles se propagam sobre um campo homog•neo, pois se existe delimita- ç› es, n‹o existe restriç‹o no sentido moderno. Esse ordenamento topogr‡fico demarca, até nos menores meandros, os lugares de ex- ploraç‹o e as formas de direç‹o pol’tica: espaço homog•neo e indi- ferenciado pois o espaço do escravo é também o do senhor; os pon- tos de exerc’cio de poder s‹o as réplicas do corpo do soberano. ƒ

esse corpo que unifica o espaço e que aloja o homem público no homem privado: esse corpo n‹o tem em si nem lugar nem frontei-

raso Todos os caminhos levam ˆ Roma no sentido em que Roma est‡ em todo o lugar aonde o soberano circula: cidades, campos; frotas, exércitos. Certamente se esse lugar n‹o tem exterior, tem confins que n‹o s‹o mais que seu oposto absoluto: os b‡rbaros. Embora pre- cisamente esses b‡rbaros s‹o um n‹o lugar: n‹o apenas n‹o s‹o um segmento, ainda que distinto, do mesmo espaço, mas s‹o o fim ra- dical de todo espaço poss’vel, n‹o uma divis‹o do espaço, mas um fora-do-espaço, n‹o um no man's IaM mas um no-land. Chegamos assim ˆ feudalidade medieval: apesar das not‡veis diferenças entre as matrizes espaciais da Antiguidade e da feudali- dade, elas apresentam pontos em comum. ƒ o que se pode constatar, desde que se precavenha do binômio simplista, atualmente muito em moda na escola Deleuze-Guattari.•? da territorializaç‹o-desterri- torializaç‹o: os elos pessoais feudais, a "ligaç‹o" dos camponeses

ao "solo" provocariam, segundo eles, uma territorializaç‹o do espa- ço e das relaç› es sociais, e a "liberaç‹o" do trabalhador direto des- ses elos, uma desterritorializaç‹o do espaço sob o capitalismo. Na verdade, esses termos n‹o podem ser referenciais invariantes das transformaç› es, pois eles mudam de sentido conforme as matrizes espaciais: é também o caso do solo que, tanto como os outros meios

e objetos de produç‹o. n‹o possui uma natureza intr’nseca. Certa-

mente, esses elos econômico-polí ticos-pessoais-feudais nos cam- pos, as franquias e liberdades pr—prias da cidade concentram esses lugares em si mesmo. As muralhas das cidades medievais (cidades

fechadas segundo Braudel) delimitam as liberdades. os elos feudais do campo fixam ao solo, mas trata-se a’ de contornos esboçados

que, relacionadas com as relaç› es de pro-

duç‹o e com a divis‹o do trabalho, simples, da feudalidade, modifi-

sobre uma matriz espacial

ca-se relativamente

cont’nuo, re-

vers’vel e aberto. Na realidade, nunca se peregrinou tanto.corno na Idade Média: individual ou coletiva, a emigraç‹o camponesa é um

dos grandes fenômenos da demografia da sociedade medieval. Cava- leiros camponeses entre duas rotaç› es de culturas e de campos, mer- cadores, clérigos em viagem regular em rompimento com o conven- to, estudantes, peregrinos de todos os tipos, cruzadas, cruzam-se pelos caminhos: é a grande vagabundagem. As cidades, os dom’nios

e feudos feudais s‹o abertos e voltados, por uma série de epicentros,

pouco. Aqui também trata-se de um espaço homog•neo,

para este centro umbilical que é Jerusalém. As relaç› es de produç‹o

fazem com que a religi‹o detenha, nas forma-

ç› es sociais feudais, o papel dominante: diretamente presente nas formas de exerc’cio do poder, ela regula por sua posiç‹o o espaço ao marc‡-lo com o selo da cristandade. Mas trata-se desde j‡ da matriz de um espaço cont’nuo e homog•neo. Aqui também n‹o se desloca:

entre o feudo, o burgo, as cidades de Jerusalém e suas diversas en- carnaç› es terrestres, entre a Queda e a Salvaç‹o, n‹o h‡ fratura, nem fissura, nem percurso. As fronteiras e os entre-lugares que separam

feudais, dizia Marx,

as muralhas, as florestas, os desertos n‹o s‹o brechas que se atraves- sa para passar de um segmento para outro (de uma cidade para outra),

mas encruzilhadas

de um único e mesmo caminho. O peregrino ou o

cruzado, e todos os viajantes o s‹o ˆ sua maneira, n‹o v‹o aos luga-

res santos ou a Jerusalém, pois esses lugares j‡ estão traçados em seu corpo (isso vale também para o Islam). O corpo polí tico de cada so- berano encarna a unidade desse espaço como corpo do Cristo-Rei e

o

espaço

é balizado

pelos caminhos

do Senhor. As delimitaç› es

se

entrecruzam, se sobrep› em, desviam-se e movimentam-se constante- mente: os sujeitos se deslocalizam, mesmo permanecendo no mesmo

lugar, ao sabor da vontade dos senhores e soberanos aos quais eles est‹o pessoalmente ligados. A pir‰mide do poder polí tico medieval tem um solo movediço como a luz de um farol ele mesmo m—vel, e toda ;essa suserania efetiva-se numa superf’cie com orientaç› es re- vers’veis: as cartografias antigas e medievais n‹o s‹o ali‡s funda- mentalmente diferentes. Aqui também o que faz as vezes de territ—- rio é definido pela relaç‹o com um n‹o-lugar, ainda que o sentido deste n‹o seja o mesmo que na Antiguidade: os descrentes, os infiéis.

As diferenças se quer aqui retraçar

talista. O problema continua a ser sempre o das relaç› es entre a ma-

triz espacial propriamente capitalista e as relaç› es de produç‹o, a di-

vis‹o social do trabalho "propriamente

ent‹o é o papel do territ—rio na constituiç‹o

O trabalhador direto, o oper‡rio, é aqui totalmente separado dos meios de trabalho, o que est‡ na base da divis‹o social do traba-

s‹o n’tidas em relaç‹o ao capitalismo.

a constituiç‹o

hist—rica

Mas n‹o

do espaço social capi-

o que importa

capitalista":

da naç‹o modema.

lho no maquinismo espacial totalmente

e na grande indústria. Isso implica uma matriz

diferente

que surge algo assim como um pressu-

posto: um espaço serial, fracionado, desconttnuo, parcel‡rio, celu-

lar e irrevers’vel, que é especí fico da divis‹o taylorista

do trabalho

em cadeia na f‡brica. Se esse espaço acaba por tomar-se ele também homog•neo, s—secundariamente isso acontece, no sentido em que sua homogeneizaç‹o traz problemas e constitui-se a partir de seccio- namentos e distâncias que ele comporta. J‡ a esse n’vel, este espaço matricial tem uma dupla dimens‹o: ele é feito de dist‰ncias, de bre- chas, de fracionamentos em série, de paliçadas e fronteiras, mas n‹o tem fim: o processo de trabalho capitalista é tendencialmente mun-

dializ‡vel (cooperaç‹o ampliada). A separaç‹o do trabalhador dire- to de seus meios de trabalho e sua liberaç‹o de laços pessoais que o liguem ao solo se desterritorializam, se poderia dizer, mas a’ tam- bém a imagem naturalista apregoada por esse termo é inexata. Esse processo se inscreve num espaço novo que, precisamente, implica as segmentaç› es seriais e balizamentos. O espaço moderno nasce: um espaço no qual desloca-se infinitamente ao se transpor as separa-

ç› es, em que

paço sobre o qual expande-se ao assimilar-se novos segmentos que

ele homogeneiza deslocando as fronteiras. Ora, o que é importante, n‹o é esse deslocamento de frontei- ras, mas o surgimento de fronteiras no sentido moderno, ou seja de limites desloc‡veis numa trama serial e descont’nua que fixa em

todo

vem os movimentos do capital e sua reproduç‹o ampliada, a gene-

ralizaç‹o das trocas e os fluxos monet‡rios. Se esses se expandem

desde o iní cio para fora, devem

serial e descontí nuo ancorado na divis‹o social dos processos de tra- balho. Espaço implicado nas relaç› es de produç‹o capitalistas, na

propriedade econômica e na posse pelo capital dos meios de produ- ç‹o como decupagem do processo de trabalho em unidades de pro- duç‹o e reproduç‹o capitalistas. O desenvolvimento desigual do ca- pitalismo é em si mesmo consubstancial, em sua dimens‹o especializada, a esta morfologia descont’nua, a expans‹o do capital consubstancial a esta topologia com orientaç‹o irrevers’vel, o impe- rialismo no sentido moderno consubstancial a essas fronteiras. As

primicias do territ—rio como elemento constitutivo da naç‹ o moder- na est‹ o inscritas nesta matriz espacial capitalista.

de precisar

cada lugar e define 'por seu isolamento dos outros, es-

lugar o dentro e o fora, ƒ o pr—prio espaço no qual se inscre-

atravessar fronteiras de um espaço

Porém sob a condiç‹o

que esse territ—rio

nacional

n‹o tem assim nada a ver com a naturalidade

do solo,

que

ele

é es-

sencialmente pol’tico no sentido em que o Estado tende a monopo- lizar os procedimentos de organizaç‹o do espaço. O Estado moder- no materializa nesses aparelhos (exército, escola, burocracia cen- tralizada, pris› es) esta matriz espacial. Ela adapta por sua vez os

sujeitos sobre os quais exerce seu poder: a individualizaç‹o do cor- po polí tico em mônadas id•nticas, porém separadas diante do Es- tado, releva da ossatura do Estado inscrita na matriz espacial im- plicada pelo processo de trabalho. Os indiv’duos modernos s‹o os componentes do Estado-naç‹o moderno: o povo-naç‹o do Estado capitalista é o ponto de converg•ncia de um espaço cujas fronteiras s‹o os contornos pertinentes das tomadas de poder materiais e de seus sustent‡culos. A cadeia segmentada desses elos individualiza- dos esboça o interior do territ—rio nacional como decupagem estatal de exerc’cio do poder. O territ—rio nacional n‹o passa da figura po- lí tica do balizamento ao n’vel do Estado total e as cidades tornam- se cidades "dominadas" e "disciplinadas" pelo Estado de que fala Braudel. Os trabalhadores diretos s‹o liberados do solo apenas para serem certamente enquadrados nas f‡bricas, mas também pelas fa- m’lias no sentido moderno, escolas, pris› es, cidades, enfim pelos territ—rios das naç› es. O que se verifica até nas modalidades de exercí cio de poder do Estado capitalista de exercer: os campos de

concentraç‹ o s‹o uma

invenç‹o moderna, no sentido em que mate-

rializam a mesma matriz espacial de poder que o territ—rio nacio- nal. Esses campos s‹o a forma de reclus‹o dos fora-das-naç› es, "antinacionais" exatamente,no seio do pr—prio territ—rio nacional, a interiorizaç‹o das fronteiras no seio do espaço nacional: é isso que permite a noç‹o moderna de inimigo "interno". Se esse territ—- rio acompanha talou qual configuraç‹o e topografia exatas, isso depende de toda uma série de fatores hist—ricos (econômicos, polí - ticos, lingü’sticos etc.): mas o que importa aqui, é o surgimento des-

ses territ—rios e dessas fronteiras no sentido moderno. Esse territ—rio

toma-se

nacional

e constitui

assim um elemento

da naç‹o modema

sob o ‰ngulo do Estado. Para compreender essa última proposiç‹o, é preciso levar em conta o fato de que esse territ—rio é apenas um dos elementos da naç‹o modema e a relaç‹o do Estado capitalista com a tradiç‹o his- t—rica e com a lí ngua. Consideremos por hora que esse espaço-terri- t—rio serial, descont’nuo e segmentado, se implica as fronteiras, le-

vanta também

de sua homogeneizaç‹ o e de sua

unificaç‹ o: seria também o papel do Estado na unidade nacional.

As fronteiras e o territ—rio nacional n‹o s‹o anteriores ˆ unificaç‹o disso que lhes enquadram: n‹o existe previamente alguma coisa que esteja dentro e que é preciso unificar depois. O Estado capitalista n‹o se limita a aperfeiçoar a unidade nacional, ele se constitui quan- do fundamenta essa unidade, ou seja a naç‹o modema. O estado es- tabelece as fronteiras desse espaço serial no pr—prio movimento que unifica e homogeneiza o que essas fronteiras delimitam. ƒ dessa maneira que esse territ—rio toma-se nacional, que ele tende a se con- fundir com o Estado-naç‹o e que a naç‹o modema tende a encobrir

o novo problema

ou

instituindo-se como Estado autônomo e constituir-se como naç‹o modema ao criar seu pr—prio Estado (jacobinismo e separatismo, dois aspectos do mesmo fenômeno, da relaç‹o espec’fica da naç‹o

modema com o Estado). O Estado nacional realiza a unidade dos indiv’duos do povo-naç‹o no mesmo movimento pelo qual forja

sua individualizaç‹o. Ele institui a homogeneizaç‹o polí tico-pública

(o Estado-naç‹o) de dissociaç› es "privadas" no mesmo movimento

pelo qual contribui para sua instauraç‹o, e a lei torna-se a express‹o

da vontade e da soberania nacionais, Esse Estado n‹o acontece para unificar um mercado "interno" prévio, mas instaura um mercado na- cional unificado ao estabelecer as fronteiras disso que toma-se um dentro em relaç‹o a um fora. Processo que se pode acompanhar no conjunto dos aparelhos de Estado (econômico, militar, escolar etc.)

e que j‡ permite uma primeira resposta, embora parcial, a um pro-

blema talvez incontorn‡vel, que Pierre Vilar, melhor que ninguém formulara: por que o desenvolvimento desigual do capitalismo tem

exatamente como pontos de sustentaç‹o e núcleos principais as for- maç› es sociais nac’onais?"

o Estado,

e isso em duplo sentido:

encobrir

o Estado

existente

Se pelo mesmo movimento

que o Estado estabelece

as frontei-

ras nacionais e unifica o interior, é também por esse movimento que ele se volta para o exterior dessas fronteiras neste espaço irrevers’- vel, delimitado embora sem fim, sem horizonte último: extens‹o de mercados, do capital, dos territ—rios. Estabelecer fronteiras equivale a poder desloc‡-las: nesta matriz espacial s—h‡ avanço poss’vel pela homogeneizaç‹o, assimilaç‹o e unificaç‹o, apenas pela delimitaç‹o de um interior que continua no entanto tendencialmente em condi-

ç› es de estender-se ao infmito. Essas fronteiras s—s‹o portanto es-

tabelecidas

de

em que se trata exatamente

franque‡-las. S— se pode deslocar-se neste espaço atravessando

fronteiras:

como as de um territ—rio

nacional

a partir do momento

(para o capital, para as mercadorias)

é consubstancial

ˆ naç‹o modema

o imperialismo

na me-

dida em que ele n‹o é mais que inter, ou antes transnacionalizaç‹o de processos de trabalho e do capital. Esta matriz espacial est‡ an- corada no processo e na divis‹o social do trabalho: o capital é uma relaç‹o (capital-trabalho), dizia Marx, e se, por mais desterritoriali- zado e a-nacional que possa parecer sob suas diversas formas, ele s— pode se reproduzir ao se transnacionalizar,é porque move-se sobre

a matriz espacial dos processos de trabalho e de exploraç‹o que é em si mesma intemacional. Assim, a extens‹o tendencialmente infmita do Estado moder-

no, que se confirma com a posiç‹o das fronteiras nacionais, s—pode recobrir um deslocamento de fronteiras que significa a assimilaç‹o

e homogeneizaç‹o. As conquistas modernas tomaram um sentido

inteiramente diferente do que no passado: n‹o mais propagaç› es num espaço cont’nuo e homog•neo que se agrega, mas expans› es através de brechas que se preenche. Sabe-se o que esse preenchi- mento quer dizer: homogeneizaç‹o, pelo Estado nacional; de dife- renças, supress‹o das nacionalidades "no interior" das fronteiras do Estado-naç‹o, eliminaç‹o das asperezas materiais do terrenoinseri- do no territ—rio nacional. Os genocfdios s‹o, eles também, uma in- venç‹o modema ligada ˆ espacializaç‹o espec’fica dos Estados- naç› es: forma de exterminaç‹o pr—pria ˆ constituiç‹o-limpeza do territ—rio nacional que se homogeneiza quando se delimita. As ex- pans› es e conquistas pré-capitalistas n‹o assimilam nem digerem:

os Gregos e os Romanos, o Islam e as Cruzadas, Átila e Tamerl‹o matam para abrir caminho num espaço aberto, cont’nuo e j‡ homo- g•neo, e s‹o assim os massacres indiferenciados pr—prios ao exercí - cio do poder dos grandes impérios ambulantes. O genoc’dio s—se toma poss’vel pelo fechamento dos espaços nacionais para aqueles que se tomaram ent‹o corpos estrangeiros no interior das frontei- ras. S’mbolo? O primeiro genoc’dio da hist—ria moderna, o dos Ar- m•nios, acompanha a fundaç‹o do jovem Estado-naç‹o turco por Kemal Ataturk, a constituiç‹o de um territ—rio nacional sobre os destroços do império otomano, a obstruç‹o da Porta Sublime, exa-

tamente.

paço concentracion‡rio.

Os genoc’dios

e os campos

se inscrevem

num mesmo

es-

V•-se, aqui também,

o esboçar-se

das ra’zes desse fenômeno

propriamente moderno que é o totalitarismo. Separar e dividir para unificar, fracionar para enquadrar, celularizar para englobar, seg- mentar para totalizar, estabelecer balizas para homogeneizar, indivi- dualizar para suprimir as alteridades e as diferenças, as ra’zes do to- talitarismo estão inscritas na matriz espacial materializada pelo Estado-naç‹o moderna, j‡ presente nas suas relaç› es de produç‹o e na divis‹o social capitalista do trabalho.

2. A Matriz Temporal e a Historicidade: a Tradiç‹ o

o segundo elemento que entra em linha de conta na constitui- ç‹o da naç‹o modema diz respeito ao que se designa geralmente sob o termo "tradiç‹o hist—rica comum". Aqui serei mais breve. Dispo- mos, ˆ respeito da matriz temporal e da noç‹o de historicidade, de an‡lises bem mais desenvolvidas por parte dos historiadores. Aqui também, a questão é a do elo entre essas transformaç› es e as das re-

, laç› es de produç‹o e da divis‹o social do trabalho. A tradiç‹o n‹o é absolutamente a mesma, nem tem o mesmo sentido nem a mesma funç‹o, nas sociedades pré-capitalistas e nas sociedades capitalistas. A matriz temporal antiga difere certamente daquela da feuda- lidade medieval, mas elas apresentam pontos fundamentalmente co- muns. Essas sociedades, nas quais a posse dos meios de produç‹o pertence sempre ao trabalhador direto e nas quais n‹o ocorre a divi- s‹o propriamente capitalista do trabalho, cristalizam modos de pro- duç‹o (escravistas, servil) que apresentam uma reproduç‹ o simples e n‹ o uma reproduç‹ o ampliada, espec’fica do modo de produç‹o capitalista. Suas matrizes temporais s‹o certamente de tempos plu- rais e singulares: mas cada um desses tempos é continuo, homog•- neo, reverstvel e repetitivo. Tempo agrí cola, cí vico e polí tico, mili- tar, senhorial ou clerical, esses tempos múltiplos apresentam as mesmas caracterí sticas matriciais: fluidos e correntes, sua medida n‹o é universaliz‡vel pois eles n‹o s‹o, estritamente falando, men- sur‡veis, sendo a medida n‹o mais que a codificaç‹o das irregulari- dades entre segmentos. Nesse continuum temporal homog•neo, se as seqü•ncias se dividem e se surgem momentos privilegiados (n‹o

é no

essencial ao sabor do "acaso" (sociedades antigas) ou de presença da eternidade (cristandade medieval). N‹o existe nem sucess‹o, nem conex› es, nem acontecimentos. ƒ o tempo presente que atribui seu sentido ao antes e ao depois. Tempo plenamente circular do eterno retorno do mesmo nas sociedades antigas: o passado se reproduz sempre no presente que n‹o é mais que seu eco, e o decorrer ao

longo do tempo n‹o é um percurso que se afasta do presente porque

se tratam de sociedades

primitivas

com filiaç‹o de linhagem),

o

passado é parte integrante do Cosmos. Memorizar pela anamnesis

é

reencontrar outras regi› es do ser, a ess•ncia que manifesta o atual,

O

presente aqui, nesse tempo homog•neo, revers’vel e contí nuo,

est‡ inserido nas origens, em que a cronologia continua ainda, sen‹o um decalque geneal—gico, uma repetiç‹o da g•nese. Retomar, as ori- gens n‹o é retraçar o hist—rico de uma acumulaç‹o (de experi•ncias, saberes, acontecimentos) ou de um progresso que levam ao presen- te, mas atingir a omnisci•ncia primeira. Isso n‹o porque a dimens‹o

de um futuro esteja ausente, mas se esse te/os dos pitag6ricos, se ele

d‡ fim ˆ espiral de ciclos sempre recomeçados, os elos e reúne os começos.

é sim porque ele une

As coisas n‹o se mostram fundamentalmente diferentes na feudalidade medieval: mais que a depend•ncia de temporalidades do "tempo natural" pr—prio das sociedades essencialmente agrí colas (as estaç› es, os trabalhos nos campos etc.) o que importa é a matriz es- pacial subjacente aos diversos tempos, agrí cola, artesanal, militar, clerical, que surgem concomitantemente ao tempo singular. Se cada um desses tempos comporta dataç› es, essas cronologias n‹o s‹o or- denadas ao longo do tempo divis’vel como segmentos iguais e o quadro de refer•ncia de diversos momentos n‹o é o do número. Tra- tam-se de cronologias significantes de um tempo cont’nuo que é, sob a égide da religi‹o, um tempo da eternidade esc‰ndido pelas sig- nificaç› es sagradas, pelos atos de piedade e pelo som dos sinos das

missas. Por certo, ancorada nessa matriz temporal,

parecedestacar,

se uma materialidade linear do tempo, diferente daquela, c’clica, do tempo antigo: a hist—ria tem um iní cio e um fim, situados entre a Criaç‹o e O Julgamento final. Mas trata-se sempre de um tempo presente: o in’cio e o fim, o antes e o depois estão inteiramente co-

presentes na ess•ncia

sempre atual do divino. Verdade imut‡vel ou

verdade progressivamente

revelada, predeterminaç‹o

ou n‹o da sal-

vaç‹o individual, trata-se apenas sempre de uma repetiç‹o ou atua-

lizaç‹o das origens. Atingir o fim, é sempre reunir o in’cio e a ir-

reversibilidade

do tempo,

o que n‹o é mais que uma perspectiva

ilus—ria. Matrizes temporais presentes nas formas e técnicas do poder polí tico pré-capitalistas calcadas no corpo do soberano. Esse corpo polí tico n‹o faz hist—ria, ele est‡ imerso numa hist—ria cont’nua e homog•nea na qual os sujeitos do poder se identificam ao decalc‡- la. N‹o existe, propriamente falando, sucess‹o desses soberanos da mesma maneira que acontecimentos encadeados, mas uma circula- ç‹o por transferência de um poderio ininterrupto, por constante rea- tualizaç‹o do passado: é a translatio imperii. Esta hist—ria-rememo- raç‹o n‹o é nunca mais que um desenrolar de genealogias, de divindades, her—is, dinastias e a representaç‹o, desta feita, da hist—-

ria se faz sobre o modo da crônica. Entre o passado e o presente n‹o existe percurso mas propagaç‹o por eco, esse presente n‹o passa do perpétuo anúncio de um futuro que reunir‡ os in’cios. Esta hist—ria n‹o se faz, mas comemora-se. Historicidade polí tica que n‹o pode ter relaç› es constitutivas com um territ—rio no sentido moderno, na medida em que esse territ—rio-fronteiras n‹o existe ainda em que as matrizes espaciais pré-capitalistas t•m o mesmo fundamento que as matrizes temporais pré-capitalistas: esta historicidade polí tica está calcada no corpo do soberano que n‹o é, em si, soberano de um ter- rit—rio-fronteiras. N‹o existe historicidade nem territ—rio no sentido moderno: os territ—rios pré-capitalistas n‹o t•m historicidade pr—- pria pois o tempo polí tico é o do corpo principesco extens’vel por si mesmo, retratável e m—vel num espaço cont’nuo e homog•neo. Em outros termos os caracteres pr—prios da matriz espacial e da matriz temporal de um modo de produç‹o, implicados por suas relaç› es de produç‹o e por sua divis‹o social do trabalho, determinam as rela-

ç› es que essas matrizes entret•m entre si, o que se

termo cuja conjunç‹o n‹o é uma soluç‹o mas um problema, o do "espaço-tempo". A matriz temporal capitalista é inteiramente diferente, pressu- posto de novas relaç› es de produç‹o e consubstancial da divis‹o so- cial capitalista do trabalho. O maquinismo e a grande indústria, o trabalho em série implicam um tempo segmentado, serial, dividido

em momentos iguais, cumulativo e irreversivel pois orientado para

designa por um

o produto e, através dele, para a reproduç‹o ampliada, a acumulaç‹o capital: em suma, um processo de produç‹o e de reproduç‹o que tem uma orientaç‹o e uma finalidade, mas n‹o tem fim. Um tempo men- sur‡vel e estritamente control‡vel pelos rel—gios, cronômetros dos contramestres, pelos rel—gios de ponto e calend‡rios precisos. Tempo que, aqui também, estabelece, por sua segmentaç‹o e seria- Iizaç‹o, um problema novo, o de sua unificaç‹o e sua universaliza- ç‹o: dominar o tempo ao relacionar as temporalidades múltiplas como uma medida homog•nea e única, que n‹o reduz as temporali- dades singulares (tempo oper‡rio e tempo burgu•s, tempo do econô-

polí tico) salvo se codifica seus intervalos. Mas

cada temporalidade traduz as caracterí sticasde uma mesma matriz:

e mais ainda (e é isso que escapa a inúmeros autores que insistem na "universalizaç‹o" do tempo capitalista), é esta matriz temporal que estabelece, pela primeira vez, as temporalidades singulares como temporalidades diferenciais, ou seja como variaç› es de ritmo e de escans‹o de um tempo serial, segmentado, irrevers’vel e cumulati- vo. Tempo cujos momentos se encadeiam e se sucedem, se totalizam num resultado, sendo o presente uma transiç‹o do antes para o de- pois. A historicidade modema é assim de tipo evolutivo e progressi- vo, a de um tempo que transcorre na medida em que ele se percor- re, cada momento produzindo o outro num sentido irrevers’vel, num encadeamento de acontecimentos voltados para um futuro sempre renovado. Antes de chegar ao Estado-naç‹o nesse contexto, abrirei um par•ntesis. O que est‡ em questão aqui é a matriz material do tempo capitalista, e n‹o de sua representaç‹o. Esta matriz d‡ lugar a repre- sentaç› es te—rico-ideol—gicas do tempo e da hist—ria, mais particu- larinente ˆ teorizaç‹o do tempo na filosofia da hist—ria (que nasce, no sentido exato, na sociedade burguesa) e nas ditas ci•ncias huma- nas. O que levanta por seu lado um duplo problema.

mico, do social, do

1. Se essa matriz temporal do capitalismo engendra diversas representaç› es ideol—gicas da Hist—ria, a historicidade unilinear, evolucionista, progressiva e teleol—gica da filosofia burguesa da his- t—ria, ela permite também, pela primeira vez, a construç‹ o de um conceito cientifico da hist—ria, o que foi pr—prio do pensamento de Marx e, também, de inúmeros historiadores modernos. J‡ observa-

se o conhecid’ssimo problema que surge aqui: um campo epistemo- l—gico fundado numa materialidade hist—rico-social determinada, que é aqui a matriz temporal implicada nas relaç› es de produç‹o ca- pitalistas, permite a emerg•ncia de elementos cient’ficos de conhe- cimento que, como tais, transcendem esse campo. O capitalismo permitiu a constituiç‹o de uma ci•ncia da hist—ria que n‹o se limita ao conhecimento exclusivo do capitalismo. O marxismo n‹o é ex-

clusivamente teoria do capitalismo, assim como a psican‡lise n‹o é exclusivamente teoria do inconsciente na sociedade capitalista, pois os elementos e o objeto da ci•ncia n‹o se reduzem ˆs suas condi- ç› es, quaisquer que sejam, de possibilidade e de constituiç‹o. Por que precisamente o capitalismo, fundamentado na extraç‹o da mais- valia, permitiu a construç‹o do conceito cient’fico da hist—ria, é uma questão exaustivamente abordada e que n‹o tratarei aqui. embora me pareça que ela exige mais atenç‹o quanto ao papel da matriz temporal do capitalismo, no sentido aqui entendido, como condi- ç‹o de possibilidade da ci•ncia da hist—ria. Ora, da mesma maneira que n‹o abordo aqui as representaç› es te—rico-ideol—gicas da Hist—- ria, n‹o trato do conceito cient’fico da hist—ria, mas da materialida- de desta matriz temporal. 2. Se o conceito e o objeto da hist—ria como ci•ncia, logo do marxismo, n‹o é, da mesma maneira que qualquer outra ci•ncia, um campo de validade estritamente circunscrito por suas condiç› es de emerg•ncia hist—ricas, é porque eles n‹o se reduzem ˆs representa- ç› es ideol—gicas ambientes - ˆ filosofia da Hist—ria, Das Luzes ˆ Hegel - que t•m no entanto, também elas, as mesmas condiç› es, e fazem parte, portanto, da mesma configuraç‹o epistemol—gica. Po- rém, sabe-se também hoje em dia, o corte ci•ncia-ideologia est‡ longe de possuir a natureza radical que lhe tEnhamosatribuido h‡ alguns anos. A teoria da hist—ria mesmo no Marx da "maturidade" apresenta certos elementos comuns com a representaç‹o ideol—gico- filos—fica da Hist—ria de sua época. O investimento da matriz tem- poral capitalista como evolucionismo escatol—gico. como progressi- vismo racionalizante, como linearidade un’voca, como historicismo humanista, e fico por aqui, n‹o est‡ simplesmente presente nos arre- dores do "núcleo" da teoria da hist—ria de Marx, e n‹o s‹o por outro lado simples desvios e pervers› es desta teoria pelos ep’gonos (a 2' e a 31 Internacional) : elas estão presentes na teoria de Marx.

A quest‹o

vai mais além: n‹o apenas como Marx conseguiu

construir sua teoria da hist—ria a partir do campo epistemol—gico de

sua época, mas como distinguir,

mentos

ideol—gicas.

Pois problema, e de monta, há: contra a tend•ncia atual que, ora (com os "novos fil—sofos") n‹o v• em Marx mais que uma répli- ca do racionalismo e do positivismo das Luzes; ora, ainda, com Fou- cault, reduz a validade, o objeto e o campo de toda ci•ncia ˆs suas condiç› es, quaisquer que sejam, de emerg•ncia; no caso do marxis- mo a determinadas modalidades de exerc’cio de poder - as disci- plinas - que, para Foucault, é o que substitui as "condiç› es". Con- tra, em seguida, os pretendidos guardi‹es do dogma marxista que se recusam a ver o problema na pr—pria teoria de Marx.

no seio de sua teoria, os funciona-

da hist—ria

e das representaç› es

e a articulaç‹o

da ci•ncia

Retomemos o nosso problema: a matriz temporal capitalista, esse tempo segmentado, serial e dividido, está j‡ implicado na ossa- tura institucional especí fica do Estado e seus diversos aparelhos (exército, escola, burocracia, pris› es). O Estado moderno materiali- za igualmente essa matriz na adaptaç‹o dos sujeitos sobre os quais seu poder se exerce e nas técnicas de exerc’cio de poder, notada- mente nos procedimentos de individualizaç‹o do povo-naç‹o. Ora, esse tempo segmentado, serial e dividido levanta o novo proble- ma de sua unificaç‹o: aqui ainda, esse ser‡ o papel do Estado. O Estado moderno deve assegurar o domí nio e o controle do: tempo ao estabeiecer a norma e a medida, em suma o quadro referencial das variaç› es das temporalidades singulares: ele regulaos diversos avanços e recuos e enquadra seus desvios. O desenvolvimento desi- gual pr—prio a cada formaç‹o (no econômico, na polí tica,no ideol—- gico, e entre elas) do Estado. O Estado unifica os setores da forma- ç‹o capitalista no sentido de que também é o c—digo' de suas medidas decaladas. A formaç‹o social capitalista, o Estado-naç‹o, é também um processo homogeneizado pelo Estado. Pode-se compreender assim o sentido novo da tradiç‹o hist—- rica na constituiç‹o da naç‹o moderna, a relaç‹o desta tradiç‹o com o Estado e o fato de que esta naç‹o tende a coincidir com o Estado moderno sempre em duplo sentido: coincidir com o Estado existen- te ou organizar-se como Estado autônomo e constituir-se como na-

ç‹o modema ao criar seu pr—prio Estado, sendo o jacobinismo e se- paratismo, aqui também, dois aspectos de uma mesma realidade, da

relaç‹o particular da naç‹o moderna com o Estado, A "tradiç‹o" n‹o tem absolutamente o mesmo sentido que no pré-capitalismo, pois

o antes e o depois situam-se em matrizes inteiramente diferentes. Aqui, o presente hist—rico n‹o passa de transiç‹o entre o antes e o depois, o passado n‹o est‡ copresente no atual mas pedaços reuni- d—s que v•m a ter um sentido novo no futuro. A tradiç‹o n‹o é mais que a comemoraç‹o de um passado que inclui o depois. verdade de uma historicidade revers’vel e orientada para o grande começo, re- petiç‹o e recomeço das origens. A tradiç‹o torna-se ora o que acele- ra, ora o que freia: ela recobre uma sucess‹o de momentos que pro- duzem uma hist—ria irrevers’vel escandida pelo Estado. A unidade desses momentos hist—ricos, a orientaç‹o de sua sucess‹o, s‹o açambarcados pelo Estado moderno que n‹o tem legitimaç‹o de ori- gem no corpo soberano, mas uma série de fundaç› es sucessivas no povo-naç‹o cujo destino ele representa. Esse Estado realiza um tra- balho de individualizaç‹o e unificaç‹o, constitui o povo-naç‹o no sentido também em que representa sua orientaç‹o hist—rica, desig- na-lhe objetivo e traça o que vem a ser uma via. Nessa historicida- de orientada embora sem termo, o Estado representa uma eternida- de que ele produz por auto-engendrarnento. Esse Estado organiza a naç‹o em marcha e tende assim a monopolizar a tradiç‹o nacional quando cria o momento de um futuro que ele designa, e ao estocar

.a mem—ria do povo-naç‹o. Uma naç‹o na era capitalista sem Esta- . do pr—prio é uma naç‹o dissipada de sua tradiç‹o e de sua hist—ria, pois o Estado-naç‹o 'moderno significa também diluiç‹o das tradi-

ç› es, hist—rias e mem—rias das naç› es dominadas inclu’das em seu

processo. ƒ dessa maneira que se tem de entender as observaç› es (sem dúvida amb’guas) de Engels, segundo as quais as naç› es que n‹o t•m Estado pr—prio tomam-se, na era capitalista, "povos sem

hí st› ria"." Esse Estado instaura a naç‹o modema ao eliminar os ou-

tros passados nacionais e ao fazer variaç› es de sua pr—pria hist—ria:

o imperialismo moderno é igualmente homogeneizaç‹o de seqü•n-

cias temporais, assimilaç‹o de hist—rias pelo Estado-naç‹o. As rei- vindicaç› es de autonomia nacional e de Estado pr—prio da era mo- dema significam, na historicidade capitalista, reivindicaç› es de uma

hist—ria pr—pria.

Certamente,

n‹ o é o Estado que é o sujeito da hist—ria real:

esta é um processo sem sujeito, o processo da luta de classes. Mas o que se pode compreender disso é por que essa hist—ria real, no en- tanto universaliz‡vel e mundializ‡vel sob o capitalismo, tem preci- samente como núcleos e como momentos .fundamentaí s os Estados- naç› es modernas, por que a hist—ria do proletariado internacional é segmentada e escandida pelas hist—rias das classes oper‡rias nacio- nais. O que n‹o se depreende de mecanismos ideol—gicos mas do papel desses Estados-naç› es na organizaç‹o material da historicida- de capitalista. ƒ poss’vel assim retraçar as raí zes desse fenômeno propriamente moderno que é o totalitarismo. Dominar e unificar o tempo ao constitu’-lo como instrumento de poder, totalizar as his- toricidades ao apagar as diferenças, serializar e segmentar os mo- mentos para orient‡-los e reuni-los, dessacralizar a hist—ria para englob‡-Ia, homogeneizar o povo-naç‹o ao forjar e ao apagar seus pr—prios passados: as premissas do totalitarismo moderno existem na matriz temporal inscrita no Estado moderno, j‡ implicada pelas relaç› es de produç‹o e pela divis‹o social capitalista do trabalho. Isso se toma mais n’tido se se constata que é esse Estado que instaura a relaç‹o particular entre a hist—ria e o territ—rio, que opera uma relaç‹o particular entre a matriz espacial e a matriz temporal em que a naç‹o modema permite a interseç‹o e é também sua en- cruzilhada. O Estado capitalista estabelece as fronteiras ao constituir o que est‡ dentro, o povo naç‹o, quando homogeneiza o antes e o depois do conteúdo desse enclave. A unidade nacional, a naç‹o mo- dema, toma-se assim a historicidade de um territ—rio e territorializa- ç‹o de uma hist—ria, em suma a tradiç‹o nacional de um territ—rio materializado no Estado-naç‹o: as balizas do territ—rio tomam-se re- ferenciais da hist—ria traçadas no Estado. As limitaç› es implicadas na constituiç‹o do povo-naç‹o moderno n‹o s‹o tão terrí veis porque s‹o ao mesmo tempo fragmentos de uma hist—ria totalizada e capi- talizada pelo Estado. Os genoc’dios s‹o eliminaç› es do que vem a

ser "corpos estranhos" no territ—rio e na hist—ria nacional, exclus› es fora do espaço e fora do tempo. O grande conf'mamento s—se toma assim porque ele é também divis‹o e unificaç‹o de um tempo serial e segmentado: os campos de concentraç‹o s‹o uma invenç‹o moder- na no sentido também que a capa-fronteira se fecha sobre os "anti-

nacionais"

que est‹o suspensos no tempo, suspensos

da historicida-

de nacional. As reivindicaç› es nacionais, na era moderna, tado pr—prio, s‹o reivindicaç› es de um territ—rio pr—prio

reivindicaç› es de uma hist—ria pr—pria. As premissas do

totalitarismo moderno existem n‹o apenas na matriz espacial e na matriz temporal que se consolidam no Estado moderno, mas tam- bém, e principalmente, em sua relaç‹o concentrada pelo Estado.

ficam assim

de um Es- que signi-

A constituiç‹o da naç‹o modema reside enfim na relaç‹o entre

o Estado moderno e a lingua. Basta indicar simplesmente que a construç‹o, pelo Estado moderno, de uma l’ngua nacional, n‹o se reduz nem ao problema da utilizaç‹o social e polí tica desta lí ngua nem ao problema de sua normatizaçao e regulamentaç‹o, pelo Esta- do, nem ao da destruiç‹o que ela implica ˆs lí nguas dominadas no seio do Estado-naç‹o. A l’ngua nacional é uma l’ngua profundamen- te reorganizada pelo Estado em sua pr—pria estrutura. Lí nguarearti- culada pela relaç‹o com as matrizes espaciais e temporais capitalis- tas vazadas do molde institucional do Estado que cristaliza o trabalho intelectual em sua divis‹o capitalista com o trabalho ma- nual. Em suma, a lí ngua comum como elemento constitutivo da naç‹o moderna n‹o é uma simples decis‹o pelo Estado de uma l’n- gua que sofre, por isso, simples distorç› es instrumentais. mas signi- fica uma recriaç‹ o da l’ngua pelo Estado. O imperialismo lingü’sti- co pr—prio da l’ngua oficializada de uma naç‹o modema n‹o reside apenas nas formas de sua 'utilizaç‹o, porém j‡ est‡ presente na sua estruturaç‹o.

3. A Naç‹ o e as Classes

o que se trata de considerar agora, como nos casos preceden- tes, é a articulaç‹o dessas an‡lises com uma an‡lise da naç‹o em ter- mos de luta de classes. Ora, n‹o se trata, nesse caso também, de duas perspectivas dis- tintas pois trata-se de objetos realmente heterog•neos. As matrizes espacial e temporal s‹o pressupostos de relaç› es de produç‹o ape- nas porque elas se materializam a’ como luta de classes: surgem his- toricamente como produto desta luta. Mas, sob esse aspecto, elas n‹o s‹o o produto de uma classe-sujeito da hist—ria, elas s‹o a re- sultante de um processo: a hist—ria é o processo da luta de classes. A naç‹o modema n‹o é portanto a criaç‹o da burguesia, mas a re-

sultante de uma relaç‹ o de forças entre as classes sociais "moder- nas", na qual est‹o igualmente emjogo diversas classes. Aqui surge um segundo problema: a configuraç‹o hist—rica concreta de talou qual naç‹o e de tal ou qual Estado modernos, as formas de sua relaç‹o dependem das particularidades hist—ricas de talou qual processo de luta de classes e relaç‹o de forças. Elas sur- gem do mesmo modo como variantes do Estado e da naç‹o moder- nas, logo também de suas matrizes espacial e temporal, sob a condi- ç‹o entretanto de precisar que n‹o se trata, em todos esses casos, de uma ess•ncia realmente preexistente e simplesmente diversificada em suas manifestaç› es singulares, de um tipo ideal diversamente concretizado. Essas matrizes, assim como o Estado e a naç‹o mo- dernas, s—existem materializadas nas formaç› es sociais concretas. Mas se essas formaç› es e processos de luta de classes apresentam alguma coisa em comum (a mesma matriz espaço-temporal), é por- que se situam, até o ponto de ruptura, no terreno de um .mesmo modo de produç‹o cujas modificaç› es s‹o igualmente momentos de sua reproduç‹o ampliada. Assim, n‹o apenas essas matrizes espacial e temporal reco- brem, como no caso da naç‹o modema, uma significaç‹ o diferente conforme as diferentes classes em luta, mas existem da mesma ma- neira como variantes nas pr‡ticas diferenciadas dessas classes. Exis- te uma espacialidade e uma historicidade burguesas, uma espaciali- dade e uma historicidade oper‡rias. No entanto elas s‹o variantes de uma mesma matriz no sentido, desta vez, que surge como a resultan- te hist—rica do processo de luta de classes e da relaç‹o de forças, e que esse processo é (e como é) um processo de luta numa socieda- de capitalista. Certamente, isso é bastante conhecido, as relaç› es de produç‹o e a divis‹o social do trabalho fazem da classe oper‡ria isso que comumente se designa como classe "portadora" da positivida- de, do futuro hist—rico. Suas pr‡ticas, j‡ no capitalismo, trazem isso que se apresentam como "germes" de outras relaç› es sociais, de ou- tras matrizes espacial e temporal, de uma outra naç‹o, e a hist—ria caminha sempre ao lado da classe oper‡ria. Mas o que importa aqui, é um problema diferente: a luta da classe oper‡ria n‹o é um autode- senvolvimento de um circuito fechado, mas existe somente como termo de uma relaç‹o, a de sua relaç‹o com a burguesia. A hist—ria da classe oper‡ria, é a hist—ria de sua luta contra burguesia: colocar-

se do ponto de vista da classe oper‡ria é colocar-se de sua luta contra a burguesia.

do ponto de vista

Tudo isso permite explicar

inicialmente

a relaç‹o constitutiva

de cada burguesia com a naç‹o, relaç‹o que segue ao mesmo tempo os ritmos e as fases da acumulaç‹o e da reproduç‹o ampliada do ca-

pital, e as grandes linhas de modificaç‹o da polí tica da burguesia.

A naç‹o moderna porta o selo e a marca do desenvolvimento da bur-

guesia e das relaç› es entre suas fraç› es. Isso se liga ao mesmo tem-

po ˆ transiç‹o do capitalismo na acumulaç‹o primitiva do capital e

ao papel da burguesia mercantil na formaç‹o da naç‹o, o, est‡gio do capitalismo concorrencial e o est‡gio do imperialismo inclusive em

sua

fase atual de internacionalizaç‹o

do

capital. As transformaç› es

das

relaç› es de produç‹o capitalistas marcam as transformaç› es da

naç‹o, e igualmente as do nacionalismo burgu•s. Ora, mesmo na

fase atual caracterizada entretanto pela internacionalizaç‹o do capi- tal, a naç‹o modema, decerto transformada, continua contudo, para

a burguesia, a focalizaç‹o de sua reproduç‹o que toma ex atam ente

a forma de uma inter ou transnacionalizaç‹o do capital. Esse núcleo s—lido da naç‹o moderna reside no núcleo invari‡vel das relaç› es de produç‹o capitalistas exatamente. A relaç‹o da burguesia com a naç‹o difere segundo suas diver-

sas fraç› es (burguesia nacional, burguesia internacionalizada e bur-

Esse

Estado não é um Estado qualquer: é um Estado que possui uma na-

tureza de classe, um Estado burgu•s que constitui a burguesia como classe dominante. Porém, também nesse caso. n‹o existem dois Es- tados, um primeiro Estado antes de sua natureza de classe, que or- ganiza uma naç‹o modema prévia ˆ relaç‹o desta naç‹o com a bur-

guesia, sobre o qual viria enxertar-se um segundo Estado de classe.

o Estado burgu•s, açambarcando esta naç‹o em proveito da burgue- sia. Situar os fundamentos desse Estado e da naç‹o modema nas

social do trabalho, é mostrar que

esse Estado possui uma materialidade pr—pria e que é por isso que ele tem uma natureza de classe. ƒ precisamente um Estado na- cional que é um Estado burgu•s, n‹o simplesmente, nem somente, porque a burguesia usa-o a fim de instrumentalizar a naç‹o a seu proveito, mas porque a naç‹o modema, o Estado nacional, a burgue- sia t•m o mesmo solo de constituiç‹o que determina suas relaç› es.

relaç› es de produç‹o e na divis‹o

guesia

interior)

e estabelece-se

pela

perspectiva

do Estado,

N‹o h‡ dúvida de que a polí tica burguesa com respeito ˆ naç‹o n‹o seja submetida aos acasos de tais ou quais de seus interesses preci- sos: a hist—ria da burguesia oscila permanentemente entre a identifi- caç‹o com, e a traiç‹o da, naç‹o, pois esta naç‹o n‹o tem o mesmo sentido para ela que tem para a classe oper‡ria e as massas popula- res. Mas a naç‹o modema n‹o é alguma coisa que a burguesia possa. a seu bel-prazer. recuperar ou deixar abandonar por "seu" Estado. Esta naç‹o est‡ inscrita nesse Estado. e é esse Estado nacional que organiza a burguesia como classe dominante. Mas. seguramente, o verdadeiro problema é o da relaç‹o da

classe oper‡ria com a naç‹o modema: relaç‹o profunda, largamente subestimada, pelo marxismo, que tendeu permanentemente a exa- min‡-la ora sob o ‰ngulo da simples dominaç‹o ideol—gica da bur- guesia (esse foi particularmente o caso da 31 Internacional), ora sob o ‰ngulo da participaç‹o de cada classe oper‡ria na cultura nacional (austro-marxismo). Ora, n‹o é o caso de se colocar em dúvida os efeitos ideol—gicos do nacionalismo burgu•s sobre a classe oper‡ria, mas de considerar que eles n‹o s‹o mais que um dos aspectos, muito parcial, do problema. Se a exist•ncia e as pr‡ticas da classe oper‡ria trazem j‡ em si um defasamento hist—rico da naç‹o em seu sentido moderno, elas s—podem se materializar sob o capitalismo como va- riante oper‡ria desta naç‹o. A especialidade e a historicidade de cada classe oper‡ria s‹o uma variante de sua pr—pria naç‹o, igual- mente porque compreendidas em suas matrizes espacial e temporal, e porque s‹o parte integrante desta naç‹o como resultante da relaç‹o de força entre a classe oper‡ria e a burguesia. ƒ na medida em que existem classes oper‡rias que ocorre a internacionalizaç‹o da classe oper‡ria e, também, internacionalismo oper‡rio: começa-se a com- preender isso, e h‡ que entender essa proposiç‹o num sentido radi- cal. N‹o porque haja um internacionalismo-internacionalizaç‹o ope- r‡rios primeiros que revestem em seguida formas nacionais. uma ess•ncia supra- ou a-nacional que se manifesta num quadro nacional ou que simplesmente se concretiza em singularidades nacionais. O processo de trabalho capitalista que implica a cooperaç‹o ampliada (a internacionalizaç‹o da classe oper‡ria) pressup› e a materialida- de nacional e estabelece assim as bases objetivas desta cooperaç‹o como internacionalismo oper‡rio. A tend•ncia atual ˆ mundializa- . ç‹o dos processos e da divis‹o social do trabalho é sempre, como é

também o caso para o capital que transnacionalizaç‹o. S—pode haver

a’ se articula,

apenas

inter- ou

apenas transiç‹ o nacional para

o socialismo, n‹o apenas no sentido de um modelo universal adap- tado ˆs singularidades nacionais, mas no sentido de uma pluralida-

de de vias originais para o socialismo, cujos princ’pios gerais tira-

dos da teoria e da experi•ncia passam de painéis indicadores. Aqui chega-se a problemas

oper‡rio mundial n‹o

do movimento

e, portanto, pe-

rigosos. Eles dizem respeito ˆs formas de organizaç‹o que revesti- ram por muito tempo o movimento oper‡rio, as das internacionais oper‡rias fundamentadas na subestimaç‹o consider‡vel da realidade nacional e que, todas, fizeram levar a reproduç› es das opress› es e dominaç› es nacionais no pr—prio seio do movimento oper‡rio. Mas eles concernem também a posiç‹o polí tica da 311 Internacional e, por- tanto, do "marxismo ortodoxo"em face da quest‹o nacional: no me- lhor dos casos (Lenin), o direito ˆ autodeterminaç‹o nacional deve

ser sempre reconhecido, mas s—deve ser defendido caso ele seja con- forme aos interesses do "proletariado internacional". ƒ a concepç‹o profundamente instrumental da naç‹o, neglig•ncia ˆ materialidade nacional, que contribuiu para todos os abusos que se conhece: ela

sup› e a exist•ncia primeira de

,tancializado e estabelece assim a quest‹o de quem define seus inte- resses, de quem manifesta melhor sua ess•ncia e pode falar em seu nome (sua parcela de vanguarda que realizou essa ess•ncia; a "Revo-

luç‹o). Quest‹o que s—pode levar a abusos, em primeiro

polí ticos profundos

um proletariado internacional subs-

lugar por-

, que

os termos

nos quais ela é colocada

s‹o falsos.

Mas h‡ mais: o Estado, que desempenha um papel decisivo na

organizaç‹o da naç‹o moderna, n‹o é, ele também, uma ess•ncia;

nem sujeito da hist—ria,

dominante,

nem simples

objeto

instrumento

da classe

con-

densaç‹o de uma relaç‹o de força que é uma relaç‹o de classe. Esse territ—rio e essa hist—ria que o Estado cristaliza ratifica a dominaç‹o da variante burguesa da matriz espaço-temporal sobre sua variante oper‡ria, a dominaç‹o da historicidade burguesa sobre a historicida- de oper‡ria. Mas, a hist—ria oper‡ria, sem se trair, marca com seu selo precisamente o Estado em seu aspecto nacional. Esse Estado é também, em sua ossatura institucional, a resultante do processo na- cional de luta de classes, ou seja a da luta da burguesia contra a elas-

mas, do ponto de vista de sua natureza

de classe,

se oper‡ria, mas também da classe oper‡ria contra a burguesia. Assim como a cultura, a l’ngua ou a hist—ria nacionais, o Estado é um campo estratégico revolvido, de lado a lado, por lutas e resist•n- cias oper‡rias e populares que nele est‹o inscritas, ainda que de ma- neira deformada, e que irrompem sempre a capa de sil•ncio que o Estado coloca sobre a mem—ria oper‡ria. O Estado nacional como meio e objetivo das lutas oper‡rias, é também reapropriaç‹o pela classe oper‡ria de sua pr—pria hist—ria. O que certamente n‹o pode ser feito sem a transformaç‹o do Estado, mas que coloca a quest‹o de uma determinada perman•ncia desse Estado, sob seu aspecto na- cional, na transiç‹o para o socialismo; perman•ncia n‹o apenas no sentido de uma sobreviv•ncia lamentável, mas no sentido também de uma necessidade positiva para uma transiç‹o para o socialismo. Essas observaç› es est‹o longe de esgotar as quest› es, e restam ainda inúmeras, particularmente: a) a relaç‹o, muito particular, com

a naç‹o das outras classes sociais de uma formaç‹o capitalista (a pe- quena burguesia antiga e nova, as classes do campesinato) e catego- rias sociais tais como a burocracia de Estado; b) o sentido polí tico concreto que, conforme as fases do capitalismo e est‡gios, confor- me as diversas conjunturas também, reveste a naç‹o para a classe oper‡ria, e sua luta, especialmente o papel crucial que encobre, na fase atual do imperialismo, a luta pela independ•ncia nacional nos pa’ses dominantes, a luta de libertaç‹o nacional nos pa’ses domina- dos; c) a ideologia nacional oper‡ria como express‹o justa do inter- nacionalismo e como efeito sobre a classe oper‡ria do nacionalismo burgu•s: esse nacionalismo burgu•s n‹o poderia ter no entanto sobre a classe oper‡ria os maciços e terrí veisefeitos ocorridos, conduzin- do-a aos massacres das guerras nacionais-imperialistas, se n‹o re- pousasse na materialidade da constituiç‹o e da luta da classe oper‡- ria, e se n‹o se articulasse no aspecto autenticamente oper‡rio da ideologia nacional. N‹o entrarei no exame dessas quest› es: as observaç› es prece- dentes indicam o caminho a seguir para seu tratamento. Elas permi- tem explicar a extraordin‡ria perman•ncia e resist•ncia da naç‹o modema, através de todas as modificaç› es de diversos sistemas de organizaç‹o do espaço polí tico.A naç‹o modema s—pode, devido a seu alicerce nas matrizes materiais, ser superada pela subvers‹o ra- dical das relaç› es de produç‹o e da divis‹o social do trabalho que

120

induzem essas matrizes. O que ajuda a explicar as formas pelas quais se reveste a questão nacional nos pa’ses do Leste: n‹o que a naç‹o possa, ou deva, ser abolida sob o socialismo, mas porque as

fabulosas formas de opress‹ o nacional que caracterizam tanto as re- laç› es entre esses paí ses (a URSS e as outras democracias popula- res) e cada um desses paí ses(opress‹o de suas minorias nacionais), apenas remeteriam, por um lado embora indubitavelmente funda- mental, aos "aspectos capitalistas" de suas relaç› es de produç‹o, de sua divis‹o social de trabalho, de seus Estados.

121

NOTAS

1. E. Pashukanis, La théorie générale du droit et le marxisme, 1970

(ed. franc.); G. Della Volpe, Rousseau

diritto moderno, 1963; H. Lefêbvre, Dei I' Etat, obra em

editados a partir de 1976. Certamente, n‹o pretendo com isso subestimar o

valor da obra de Lefêbvre: seu último livro, especialmente, comporta an‡-

lises not‡veis.

e Marx, 1964; U. Cerroni, Marx e ii

diversos volumes

Enfim. esta linha de pesquisa

é também a dos trabalhos de

J. Baudril/ard.

2. J. H’rsch, Staatsapparat und Reproduktion des Kapitals, 1974, e

sua contribuiç‹o

na obra coletiva, A crise do Estado, Graal, 1978, editado

sob minha direç‹o. A problem‡tica da Ableitung na Alemanha Federal é bastante antiga e encontra-se alguns de seus representantes na obra coleti- va L' Etat contemporaine et le marxisme, 1975, editado sob a orientaç‹o de J.M. Vincent. ƒ mais recente na Inglaterra e nos Estados Unidos: ver a

quantidade de contribuiç› es para as revistas Kapitalistate, Insurgent Sacio-

logist (Estados Unidos), Capital and Class (Inglaterra),

e também os recen-

tes trabalhos de Holloway, Piccioto, Hindess, Hirst etc. Observo, afinal, que, na França, as crí ticas de "politicismo" com refer•ncia a minhas obras

prov•m principalmente da parte dos autores agrupados em tomo da revis- ta Economie Politique.

3. Le Seuil,

1974.

4. Reafirmo o que disse na Advert•ncia: n‹o farei, a menos que o cite

expressamente, refer•ncias precisas aos cl‡ssicos do marxismo. A esse res- peito. elas est‹o presentes em meu texto, Classes Sociais

5.

Principalmente

1966,

ra, Einaudi,

em Gli lntellettuali e l' organizzazione

de//a Cultu-

6. K. Marx, Le capital, Ed. Sociales,

7. Ibid,liv. I, p. 990. Destaco, entre outras, as not‡veis obras de J. M.

1. I, p.

8.5.

Brohrn, Corps et politique, 1975, e Sociologte politique

du sport.

8. M. Foucault,

Vigiar e Punir,

Editora

Vozes, Surveiller

et Punir,

1975, pp. 194, 195 et passim,

 

9. Artigo citado in Critique,

p. 1.210.

 

,. 10.

Em

sua cr’tica da Hist—ria

da loucura,

in L' écriture

et