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1- Lyssa

Talvez você me odeie por isso, mas acho melhor dizer logo: sou bonita.
Pronto, falei. Na certa você vai pensar que sou metida, que me acho o máximo, mas não
é nada disso. Sério! Pensando bem, a culpa de eu ser assim é da minha mãe - ela é que é
linda. Mas ser bonita não é grande coisa - não quando isso é tudo aquilo que se tem.
Quando eu tinha treze anos, achava que as modelos nas revistas eram as pessoas mais
felizes do mundo. Achava que, se também virasse modelo, minha vida ficaria mais
emocionante e todos os meus problemas estariam resolvidos. É que no ano passado
meus pais se divorciaram, e meu pai foi morar em Houston.
Eu tinha que fazer alguma coisa pra compensar a perda.
Então, minha mãe me levou a uma agência de modelos em Dallas, e fui contratada para
fazer a propaganda de uma pizzaria.
Depois disso veio um desfile, vieram outras propagandas e, num piscar de olhos, minha
carreira tinha decolado. Minha carreira e a minha vida.
Agora vamos avançar cinco anos. Eu tinha dezoito anos, estava terminando o colegial e
não tinha tempo pra nada. Nos últimos semestres minha vida tinha sido uma loucura:
desfiles, fotos e comerciais. Daquele tempo só me lembro do estresse que passei. Só
tinha duas coisas que me faziam ficar feliz: desenhar e fazer minhas roupas, passatempo
que eu havia iniciado nos últimos dois anos, e reunir minhas amigas no final das tardes
de sábado, quando a gente se arrumava pra ir pra balada (se eu não tivesse que
trabalhar).
Minhas amigas adoravam quando eu dava "consultas" sobre moda. Eu dava palpite em
tudo: no cabelo, no batom, nas roupas. Aqueles sábados eram tudo de bom!
Num sábado à noite, dia da festa do colégio, Betsy Weddington, Ruth Kwan e Heather
Tamblin, minhas três melhores amigas, estavam no meu quarto, testando tipos de
maquiagem e penteado.
- Todos os problemas do mundo podem ser resolvidos com o batom da cor certa - eu
disse, segurando o queixo de Ruth. Contornei sua boca com um lápis, deixando-a
aparentemente
maior. Ruth mexeu um pouco a boca pra relaxar, depois voltou a fazer beicinho e
franziu as sobrancelhas, dizendo:
- Será que tem algum batom pra chamar a atenção do meu namorado?
- Pensei que você não fosse perguntar nunca. Morro de vontade de experimentar outras
cores, mas você sempre fala pra passar bem longe do vermelho! - Abri a gaveta da
penteadeira e procurei entre dúzias de embalagens de metal e de plástico. - Aqui está,
Fogo Intenso. Sexy, porém doce. A cor certa pra dar um recado do tipo: "Tô muito a
fim, gato, mas cuidado, senão a fila anda".
- Uau! A Ruth usando batom vermelho! Que máximo! - Heather saiu da frente do
espelho da minha penteadeira e apontou o frasco do rímel na direção dela. - O que foi
que Hank aprontou dessa vez? Desmarcou o cinema?
O rosto de Ruth ficou da cor do batom.
- Olha só quem fala! - disse Betsy, sentada na minha cama com as pernas cruzadas,
esperando a unha secar. - Justo você, que já cancelou tanto encontro com Stephen que o
coitado não desgruda mais do celular, esperando você ligar? Lyssa, você tem algum
batom que ajude uma menina a se decidir?
- Pode ser. - Com ar pensativo, fiquei estudando o rosto de Heather, que olhou para
Betsy com cara de quem ia matá-la.
Cabelo loiro claro. Pele branca. Olhos verdes. Ela tinha uma tendência para cores fúteis,
como rosinha cintilante e pêssego. Talvez fosse hora de fazê-la descer das nuvens e usar
cores um pouco mais neutras.
_ Poxa, Lyssa, eu só estava brincando! Você não acredita que a maquiagem possa
mudar a pessoa por dentro, né? – Betsy perguntou.
_ Claro que não! - eu disse, tentando parecer indiferente, mas me achando uma idiota.
Betsy era a mais inteligente de nós, e, das três, provavelmente era a minha melhor
amiga. Mas às
vezes conseguia me fazer sentir uma estúpida!
_ E aí, Lys, me conta: como foi o teste pro comercial hoje de manhã? - Heather
perguntou. - Rolou?
_ Ainda não sei - respondi, feliz em mudar de assunto. - Achei que ia ter que falar
alguma coisa, mas só precisei entregar uma foto e responder duas ou três perguntas.
Mas não existe a menor chance ... eu nunca fiz nada pra TV na minha vida.
_ Bom, sempre tem uma primeira vez - disse Ruth. – Essa pode ser a sua grande chance.
Quem sabe algum diretor famoso te vê e chama pra fazer um filme!
_ Não viaja! É só o comercial de uma loja de produtos eletrônicos.
No máximo vai ser a minha "chance" de conseguir um Mega desconto numa TV de tela
plana de 42 polegadas.
_ Mais um motivo pros gatos darem em cima de você - Betsy deu risada. - Por falar
nisso, com quem você vai à festa hoje? Com o Todd Bannister?
_ Não. Você não o conhece. O nome dele é Byron Westmoreland III, mas todo mundo o
chama de West. Eu o conheci na semana passada, quando fui fazer as fotos daquele
catálogo.
_ Aposto que ele é o maior gato! - disse Heather. – Me conta: ele é bonito ou não?
_ Com certeza. Ele é alto, sarado, tem o rosto bem desenhado - falei, sorrindo, enquanto
a imagem de West me vinha. À cabeça. - E tem o cabelo bem curto, com costeletas. Eu
adoro
homens com esse tipo de cabelo!
Betsy ficou olhando pra mim por alguns minutos.
_ Humm, vocês viram como os olhos da Lyssa brilharam quando ela descreveu o gato?
Será que vai ser hoje? Será que a Lyssa finalmente encontrou alguém digno de ser seu
namorado?
_ Uaaauuu - fizeram minhas duas outras amigas, em uma só voz.
- Fala sério, Betsy! - exclamei, olhando pro teto. – Eu nem conheço ele direito.
Ruth apontou o dedo pra mim e disse, em tom de censura:
- Não se esqueça de que você vai ter que engatar um relacionamento sério com alguém
logo, logo, dona Alyssa Naylor!
Faltam apenas seis semanas para a festa à fantasia do colégio.
- É isso aí, Lys. E então, quem é que você vai convidar?
Dei de ombros.
- Não - sei. Vamos ver.
Decididamente eu não estava a fim de começar de novo aquele papo sobre o meu
pretenso namorado. Já me sentia um peixe fora d'água por causa da minha agenda
profissional, e piorava ainda mais quando alguém me lembrava de que era a única que
não tinha um relacionamento pra valer.
Eu tentava me convencer de que não precisava de um namorado, de que um
relacionamento apenas complicaria minha vida, mas tinha a sensação de estar perdendo
algo, sobretudo quando via Ruth sorrir ao olhar pro Hank, ou Heather e Stephen
conversando empolgados. Mas quem eu mais invejava mesmo era Betsy.
Toda vez que ela olhava para Cliff, com quem namorava havia três anos, seu rosto
adquiria um brilho que maquiagem nenhuma poderia proporcionar.
Após um pouco de mousse pra cabelo e uma leve camada de pó, Heather e Ruth
passaram pelo meu crivo e saíram para se encontrar com os respectivos gatos. Betsy
continuava sentada na minha cama com toda a paciência do mundo. Seu cabelo
castanho- avermelhado, em que ela havia acabado de fazer babyliss, estava todo
cacheado.
- Desculpe, Bets - falei, procurando o spray de cabelo. - Termino de arrumar você num
segundo.
- Fica fria. Ainda falta meia hora pra eu me encontrar com o Cliff.
Fiquei observando o rosto da minha amiga enquanto ela dizia o nome do namorado. Era
uma felicidade só.
- Betsy... - comecei a dizer enquanto colocava spray no cabelo dela. - Como foi que
você soube que o Cliff era o cara certo?
_ Um dia eu o peguei lendo um romance de Thomas Hardy no clube. Quem resiste a um
gato que sabe que existem coisas mais interessantes do que a Playboy? - Betsy riu.
Larguei o spray e sentei-me à sua frente.
_ Eu estou falando sério. Como é que você soube?
_ Sei lá, entende? Só sei que, na hora, eu soube. Assim que o conheci, me deu um frio
na barriga. Era como se houvesse borboletas no meu estômago. Conforme a gente foi se
conhecendo, as borboletas começaram a voar mais e mais. Sabe o que quero dizer?
Infelizmente não, pensei, com o coração apertado. Qual era o meu problema? Por que
eu ainda não tinha conhecido ninguém que me fizesse sentir daquele jeito?
Betsy me olhou de sobrancelha erguida.
_ O que é que tá pegando, Lys? O que você quer saber?
_ Nada - falei, sentando ao lado dela. - É que às vezes fico pensando se algum dia vou
encontrar o cara da minha vida, alguém com quem eu possa ser eu mesma, que me ame
de verdade ...
_ Claro que vai, Lys. Eu te juro! - Betsy me consolou com um abraço. - A gente nunca
sabe ... E se o tal West for esse cara?
Ouvir o nome dele me fez abrir um sorriso. Senti uma coisa boa. Talvez aquela fosse a
grande noite. Talvez West fosse o cara da minha vida!
Mas não me sentia muito empolgada ali no saguão da escola.
Enquanto Cliff, Hank e Stephen conversavam sobre futebol, as meninas comiam West
com os olhos, enquanto ele bebia um pouco de água. Já eu não conseguia me
entusiasmar. Comecei a me perguntar, de novo: Qual é o meu problema?
_ Os dentes dele são lindos! São de verdade? - Ruth perguntou.
_ Talvez não - Betsy respondeu. - Quase todos os modelos fazem tratamento estético
nos dentes, não é, Lys?
_ Bota estético nisso! Esse gato merece no mínimo nota 99 numa escala de um a cem! -
Heather exclamou.
Betsy chegou mais perto de mim e perguntou:
- E então? Está gostando dele?
- É ele é legal...
_ Eu perguntei se você está gostando dele - Betsy repetiu.
Não consegui responder e dei de ombros, meio sem jeito.
Bem que eu gostaria de mostrar mais entusiasmo. Afinal, minhas amigas pareciam
achá-lo o mais gato dos gatos! Mas, como sempre, a aberração era eu. Não conseguia
me sentir à vontade ao lado de West.
- Vamos mudar de assunto! Ele está vindo! – Heather anunciou.
Nós nos viramos bem na hora em que West atravessava o corredor, consciente dos
olhares que provocava.
- Sentiu muito a minha falta? - West me perguntou. Heather soltou um suspiro atrás de
mim.
- Ahn... é claro.
- Vamos dançar? - ele convidou.
- Vamos.
West me puxou para a pista e começamos a dançar ao som de Black Eyed Peas. Ele era
bastante desajeitado. Eu não sabia de que assunto falar, o que não tinha a menor
importância, porque só ele falava... e quase o tempo todo dele mesmo. Nada do que
dizia me interessava. Por isso, depois de um tempo, parei de escutar. Eu esperava uma
pausa no discurso e tentava improvisar uma resposta.
- ... E o pessoal queria que a gente se vestisse como os fãs do Dallas Stars - West dizia. -
No começo tentaram me convencer a pintar o peito com uma tinta amarela nojenta, mas
eu
disse: "Nem pensar. Logo agora, que vou fotografar com roupa de banho? E se me der
alergia?". Só sei que no fim, quando eu já estava pensando em largar todo mundo ali,
eles piraram.
-Ahan...
- Mandaram buscar um monte de mostarda e me lambuzaram com aquilo! É mole?
- Ahn ... não. Que doideira!
- Bota doideira nisso! Sabe o que eu disse? Virei pro cabeleireiro e perguntei: "Não tem
maionese e catchup?". Ele quase morreu de rir! - West caiu na gargalhada.
- Foi engraçado mesmo - eu disse a ele, embora não tivesse achado a menor graça na
história.
Depois de vinte minutos, eu já não agüentava mais. Sabia que deveria gostar de West,
mas não conseguia, e estava cansada de fazer força pra isso. Entre uma música e outra,
pedi licença e disse que precisava ir ao banheiro.
Havia uma fila enorme no banheiro, e um bando de meninas estava na frente do
espelho. Assim que entrei, elas pararam de conversar.
- Oi - eu falei.
- Oi - disse Caitlyn Verlaine, que me deu um sorriso falso e se virou para suas amigas.
Em segundos, estavam todas cochichando, dando risadinhas e me olhando pelo espelho.
Disseram algumas frases em um tom alto o bastante para que eu ouvisse:
"Se acha o máximo" e "se veste como se fosse a noite da entrega do Oscar". Fiz que não
era comigo e fiquei na fila, esperando minha vez de ir ao banheiro e fazendo o possível
para não me deixar abalar.
Por que não chamei a Betsy ou a Ruth para virem comigo?, pensei, mas já era tarde.
Detestava ter de encarar aquele tipo de situação sozinha. Engraçado: mesmo
acostumada com um monte de gente me olhando quando estou na passarela ou posando
pra uma foto, me sentia muito constrangida nas festas da escola. Pelo menos nos
desfiles e nas sessões de fotos eu sabia o que fazer; ali, não tinha a menor idéia.
Caitlyn resmungou algo e as outras meninas caíram na gargalhada.
Mesmo não indo com a cara dela, no fundo eu a invejava, pois meninas como Caitlyn
sempre se sentiam à vontade em qualquer atividade da escola. Eu, ao contrário, nunca
tive tempo
de participar de grupinhos. Por causa do meu trabalho, não conseguia me entrosar, então
ia ao colégio só para assistir aula. Só não me sentia mais deslocada naquele ambiente
por causa da minha amizade com Betsy, Heather e Ruth.
Quando saí do banheiro, ainda não me sentia bem para voltar à festa. Precisava respirar
mais alguns minutos. Queria me sentar em algum canto escuro e recuperar a calma.
Olhei ao meu redor e vi a escada que dava pro andar de cima. Lá havia um cantinho
escuro com um banco e uma planta artificial. Seria o refúgio ideal por um tempo.
Subi a escada, sentei-me no banco e dei um suspiro de alívio.
- Também está se escondendo? - perguntou uma voz atrás de mim.
- O quê? - Virei-me e vi um vulto encostado à parede. - Ahn ... não. Eu... eu me perdi.
Por quê? Você está se escondendo?
- Eu? Não. É que esta planta artificial tem um papo mais agradável do que o das pessoas
com quem conversei hoje.
Então, eu o reconheci. Era Dante Michaels, que tinha feito Inglês Avançado comigo no
ano anterior. Era um cara rebelde, mas não do tipo que andava de moto, usava roupas de
couro e não dizia coisa com coisa. Ele discutia assuntos como o valor da mensalidade, a
proibição de acesso a certos livros e o motivo de a lanchonete não servir refeições
preparadas com ovos de galinha caipira criada em liberdade. No início do verão, a
Diretoria proibiu os meninos de usar camiseta regata, sob a alegação de que os pêlos
debaixo do braço "distraíam" as meninas. Em protesto, Dante convenceu vários colegas,
inclusive todo o time de basquete, a raspar as axilas.
Além de ser famoso por seu comportamento rebelde, Dante era muito conhecido por seu
"estranho" senso estético. Não dava pra prever sua próxima esquisitice. Naquela noite,
usava uma camisa tipo havaiana toda colorida, calça jeans preta e tênis de cano alto
roxo. Ou seja, em termos de moda, fala sério: o cara era um pesadelo! Acho que era por
isso que nunca tinha falado com ele: Dante era, digamos, muito "excêntrico".
Ele apalpou um objeto retangular no bolso da camisa.
- Se importa se eu...
- Por favor, não! Me embrulha o estômago.
Era o fim! Tinha acabado de encontrar um lugar tranqüilo e aparecia alguém querendo
me sufocar com fumaça de cigarro.
- Ahn... eu ia perguntar se você se importaria se eu citasse algumas palavras suas no
jornal da escola. - Então tirou do bolso um bloquinho de notas e o sacudiu na minha
frente. - Sei que a imprensa tem péssima reputação, mas eu não fazia idéia de que
causava ânsia de vômito nas pessoas.
- Desculpe - falei com humildade. - Pensei que você ia...
- Eu sei - Dante disse, dando um sorriso que iluminou a escuridão. E que sorriso...
Ele se encostou no corrimão da escada, chegando mais perto de mim. As luzes que
vinham da pista de dança brincavam em seu rosto.
Minha respiração ficou mais rápida.
Jamais tinha visto um cara de olhos tão lindos ou intensos.
Como é que eu nunca reparei nele? Perguntei a mim mesma.
- E então, posso fazer duas ou três perguntas? Tenho esse péssimo hábito. Já tentei
mudar, mas o meu orientador não pára de me dar tarefas. Cada vez ele me arranja mais
trabalho... – Ele me lançou outro sorriso maravilhoso. - Na verdade, é só por isso que
estou aqui hoje. Vim cobrir a festa para o jornal. Vai ser a primeira edição deste ano.
Mais uma entrevista e já posso ir pra casa. Você não quer me ajudar?
Aqueles olhos enormes imploraram de um jeito irresistível.
Não tinha como recusar.
- Claro. Por que não?
- Então vamos lá. - Ele pegou a caneta e abriu o bloco. - Está gostando da festa?
Respirei fundo e olhei para a pista de dança. Betsy e Cliff estavam rindo de alguma
coisa engraçada. Ruth fingia ler um cartaz pregado na parede, enquanto Hank
conversava animado com alguns amigos, provavelmente sobre esportes. Stephen não
estava à vista, mas Heather havia puxado West para dançar um hip-hop e estava
tentando chamar a atenção dele com seus passos.
- Puxa, eu não sabia que a pergunta era tão difícil... Não está se divertindo nem um
pouquinho?
Deixei de lado a pista de dança e virei-me para ele.
- Posso responder algo do tipo "sem comentários"? - falei meio na brincadeira.
Dante guardou a caneta e o bloco de notas.
- Ah, pelo que vejo estou falando com uma mulher que tem cérebro e bom gosto. Até
agora só haviam me respondido coisas como: "Os bailes a rigor são melhores", "por que
não vendem cerveja?" e "deviam tocar mais Backstreet Boys".
Eu comecei a rir.

- Quer dizer que você também está achando isso aqui uma chatice? - ele perguntou.
- Eu... eu não disse isso - respondi indignada. - Disse:"Sem comentários".
- Ah, fala sério! Por que não diz a verdade? Esse tipo de festa não tem nada de
divertido. Só serve pra você ser visto com a roupa e a pessoa "certas". Tirando o fato de
contar pontos na avaliação social, essa festa não tem nada de interessante.
Fiquei olhando pra ele por alguns minutos. Seu olhar doce,quase o de um menino, não
combinava com aquele discurso.
- Alguém já disse que você é muito inconveniente?
Ele deu de ombros.
- De quinta-feira pra cá ainda não. Mas não venha me dizer que você não está curtindo a
festa. Sem dúvida já passou no teste de aparência com nota máxima. Você é linda!
Dante disse aquilo como se soubesse quantos pontos eu ganharia na avaliação, e não
como se fizesse um elogio. Fiquei em dúvida se devia agradecer ou não, mas tenho de
admitir que gostei do que ele disse.
- E aí, com quem você veio? - ele perguntou.
Apontei para West.
- Com aquele cara de camisa azul-clara.
- Você está com ele?
- Estou. Por quê? - perguntei, me sentindo ofendida. Talvez ele não me achasse bonita o
bastante para acompanhar West.
- Por nada. É que ... bom, olha pra ele: parece que o cara tem dois pés esquerdos! Ele é
de carne e osso ou tem uma cordinha nas costas daquela camisa de boyzinho?
Fui obrigada a rir. West parecia um fantoche.
- Você não podia estar se divertindo mesmo - Dante resmungou,sacudindo a cabeça e
rindo.
- Eu não disse isso! - quase gritei.
- Desculpe. Quer dizer, então, que você costuma se esconder atrás de plantas artificiais?
Abri a boca para protestar de novo, mas logo vi que não ia conseguir enganá-lo.
Dante sentou-se ao meu lado e deu um sorriso enviesado.
- Não se preocupe - falou, tocando o meu braço de leve.
- Isso não vai entrar no meu artigo.
Meu coração bateu mais forte. De repente, me dei conta de como ele estava perto de
mim. Dava até para sentir o calor de sua respiração.
Havia um clima! Eu estava sentada ao lado de um cara lindo, num cantinho escuro e
tranqüilo, ouvindo uma música da Beyoncé.
Todos os ingredientes estavam ali.
Enquanto a gente se olhava como se estivesse perdido no tempo, me senti à vontade. O
que estaria acontecendo comigo?
Será que aquilo era paixão?
- Então, conta pra mim ... - ele sussurrou. - O que você faz para se divertir?
A pergunta me acordou do transe. Precisei pensar alguns instantes.
O que eu faço para me divertir? Tentei me lembrar da última vez em que havia me
divertido de verdade, mas não consegui.
Não me lembrava de nada, a não ser da minha agenda de trabalho,da escola, de uma
gaveta cheia de croquis de roupas que ainda precisava terminar e dos lugares de sempre
aonde ia nas noites de sábado. Tinha de haver algo ...
- Ah você está aí - disse , uma voz vinda da escuridão. West estava subindo a escada. -
Eu estava te procurando. Está tudo bem?
Uma decepção enorme tomou conta de mim, como se tivessem me despertado de um
sonho lindo. West olhou pra mim, depois para o Dante e voltou a me olhar, perplexo.
Percebi quando
ele mediu Dante de cima a baixo.
- Ahn ... claro, está tudo bem - gaguejei. - Eu estava só ...
- Ela estava só me dando uma entrevista para o jornal da escola - Dante terminou a frase
por mim.
_ Ah, legal. Bom, acho melhor a gente voltar pra lá, Lys. Vou tentar fazer o DJ tocar
mais Backstreet Boys.
Levantei-me bem devagar, sem muita vontade, e fui me juntar a West na escada.
- Boa sorte! - Dante gritou.
- Obrigado - West respondeu, virando-se para descer.
No entanto, Dante estava olhando pra mim no momento em que disse aquilo.

2-Dante
- o que é isso? Uma escola ou um quartel? Tenho os meus direitos, sabia? - E saí em
disparada pelo corredor, falando por cima do ombro com Jamal Carter, enquanto ele
corria pra não me perder de vista. Jamal era o melhor fotógrafo do jornal da escola e um
dos meus melhores amigos. E de novo havia sido testemunha involuntária de um dos
meus acessos de indignação.
- Calma aí, Dante! - ele gritou. A mochila e a bolsa da máquina fotográfica estavam
penduradas nas costas de Iamal e ele corria atrás de mim feito um camelo com duas
corcovas.
- Quando é que as pessoas vão acordar e perceber que isso que elas chamam de sistema
educacional não passa de uma ditadura? - continuei furioso.
O trajeto da sala de jornalismo até a de orientação vocacional era longo, por isso havia
tempo e distância de sobra para eu me acalmar. Tudo começou quando o Sr. Edwards,
nosso orientador de jornalismo, me disse, num tom quase de raiva, que eu devia
reescrever as legendas das fotos da festa do último sábado
ou enfrentar as conseqüências, as quais não seriam poucas. Pelo visto, ele não tinha
dado o devido valor às tentativas do repórter de usar suas aguçadas habilidades de
observação para relatar o que havia observado nas imagens. Coisas como: Totalmente
ciente da presença da câmera, Lance Kirkenheim, do último ano, encolhe a barriga e
tenta parecer à vontade. Ou: Sonia Powell, primeiranista
paquera abertamente Todd Bannister, do último ano, mesmo sua acompanhante sendo
ninguém menos que Caitlyn Verlaine, também do último ano.
Se eu não redigisse as baboseiras de sempre, falando bem da festa e de todos os
presentes, e não colocasse meu artigo na mesa do Sr. Edwards até as oito horas da
manhã seguinte, seria transferido para as aulas de marcenaria do Sr. "Enrolão"
Mackowitz.
Embora eu fosse do tipo que gostava de lutar pela liberdade de expressão, a idéia de
passar horas e mais horas serrando relógios com o formato do Texas na aula de um cara
que usava canivete para palitar os dentes era o suficiente pra me manter na linha.
- Peço perdão por não achar que as festas da escola sejam a melhor maneira de aplicar
minhas habilidades jornalísticas! Sei que a gente tem que fazer o que ele mandar, mas
cara... Eu odeio aqueles artigos bobocas que não dizem nada!
Àquela altura, minha ira já havia diminuído bastante e minha voz mais parecia um
choro.
- Será que agora eu posso fazer uma pergunta? – Iarnal indagou, meio sem fôlego.
-Manda.
- O que há de tão mau e sacrificante em redigir três ou quatro linhas sobre a festa da
escola?
- Não é só a festa - expliquei, diminuindo o passo para continuar do lado dele. - É todo o
condicionamento social. Eu não quero tomar parte nele... pelo menos não de livre e
espontânea
vontade.
Jamal revirou os olhos.
- Cara, se algum dia você deixar a sua opinião de lado e levar uma garota a uma festa,
vai acabar mudando de idéia.
- Isso nunca vai acontecer. As festas são um jeito dissimulado de mostrar onde cada um
se encaixa na ordem social das coisas. Veja o baile de formatura, por exemplo.
- Ah, não, esse assunto de novo não - gemeu o meu amigo.
- Nesse caso, a sociedade nos pressiona pra gastarmos centenas, às vezes milhares de
dólares, por causa de uma única noite. Roupas finas, flores, jantares, limusines ...
- Alguém já lhe disse que às vezes você é muito cínico?
- Eu estou falando sério. Você sabe que a festa à fantasia está chegando. Eu devia
escrever um editorial para a edição seguinte, me posicionando contra esse tipo de festa.
Jamal respirou fundo e sacudiu a cabeça.
- Bom, quem vai assinar é você; então, faça o que achar melhor. Agora uma coisa é
certa: eu vou chegar lá "chegando". Vou alugar um carro esporte que combine com o
vestido da Shawna e comprar pra ela as flores mais bonitas que achar. Vou arrebentar,
cara!
- Você está passando pro outro lado, meu amigo.
- Não estou, não. Quando a gente entra com a namorada numa festa e vê a menina
arrasando, tudo vale a pena. – Iamal sorriu, oferecendo o braço a uma namorada
invisível.
- Por que tudo tem que girar em torno de aparência e moda? - resmunguei. - Você não
namora a Shawna por causa das roupas dela, namora? Se vocês se gostam tanto assim,
por que não botam uma bermuda e uma sandália e vão ao McDonalds? Por que gastar
tanto dinheiro para ter uma sensação passageira?
- Você não entende mesmo, né? É muito mais que isso, cara.
Entortei a boca.
- Você é um romântico incurável, Jamal.
- E você é um tremendo desmancha-prazeres, Dante! - Jamal disse num desabafo. - Mas
quer saber? Qualquer dia desses vai encontrar uma menina e ficar tão apaixonado por
ela quanto por essas causas que vive defendendo. Aí nós vamos ver quem é o romântico
incurável.
- Vai esperando, cara - falei, dando risada só de imaginar algo do tipo. - Acho melhor a
gente apertar o passo, ou vamos chegar atrasados.
Entramos na sala um minuto antes de a aula começar. Eu ainda ria baixinho do que
Iamal havia me dito. Imagine: eu, ir a um baile?! Só se fosse pra pegar o microfone do
DJ e fazer um discurso em prol da libertação do Tibete. Pensando bem, até que não
seria má idéia ...
Os meninos da escola precisavam de alguém como eu para acordá-los. Eles não estavam
nem um pouco preocupados com o meio ambiente, com as conspirações políticas, nem
com os direitos dos trabalhadores. Pareciam vir empacotados em sacolas da Neiman
Marcus, junto com suas roupas.
Era muito constrangedor. Meus heróis - gente como Malcolm X e Langston Hughes -
foram criados em cortiços urbanos.
Eu não. Meus pais se mudaram para os arredores de Dallas por causa do excelente
sistema de ensino. Que tipo de ativista em prol dos direitos humanos cresce em
condições como essas?
Sentei-me em uma escrivaninha, e Iamal na carteira de trás.
De repente, tive uma visão: era Lyssa Naylor, que surgia como um arco-íris na porta de
nossa escura sala de aula. Parecia um anjo naquele vestido longo e de cores vivas.
Não era exagero dizer que ela era a garota mais bonita da escola. Lyssa tinha cabelos
escuros cacheados, cílios bem compridos e um rosto tão perfeito que alguém poderia
pensar que era uma boneca.
Só que ela era real. Em geral, eu desconfiava de gente assim, "perfeita". Pra mim,
quando as maiores qualidades de uma pessoa são externas, provavelmente ela tem
falhas de caráter terríveis.
Lyssa, contudo, me parecia ser linda também por dentro. Apesar de tudo o que as outras
meninas diziam sobre ela - entre outras coisas, que ela se achava o máximo -, eu sabia
que não era nem um pouco convencida. No dia da festa, ela deu a impressão de ser
delicada e sensível. No fundo, até um pouco tímida. De repente, percebi que havia
ficado fascinado por ela.
Depois que Lyssa se sentou, ouvi os cochichos que sempre surgiam quando ela entrava.
- Alguém está querendo "causar" hoje - comentou Caitlyn Verlaine, mal-humorada.
Caitlyn era a "rainha" das festas da escola. Nunca consegui entender por que meninas
como ela eram tão populares. No geral,ela até era bonita: tinha pele lisa, cabelos
brilhantes como aqueles de comercial de xampu e dentes brancos e perfeitos que deviam
ter custado muito dinheiro. Mas o interior de Caitlyn deixava muito a desejar.
Nunca tinha nada de bom para dizer de ninguém. Lyssa era um de seus alvos prediletos.
Desde que as aulas tinham começado,havia uma semana, Caitlyn recebia Lyssa com um
comentário maldoso. Sempre se referia a ela em voz alta como "alguém".Eu, por outro
lado, não me cansava de admirar a elegância com que Lyssa reagia às provocações: ela
nunca dizia nada, nem sequer olhava para Caitlyn.
- Ninguém vai contar pra ela que os anos 60 já eram? - Caitlyn alfinetou.
Lyssa permaneceu como se não tivesse ouvido nada. Mas algo em seus movimentos - o
modo como inclinava a cabeça, a tensão de seus ombros - me dizia que, no fundo, tinha
ficado magoada com os comentários.
Inclinei-me na direção de Caitlyn, sorri pra ela e perguntei:
- Nunca disseram que sua voz é idêntica à da Marge Simpson?
A classe inteira riu. Nem mesmo suas discípulas agüentaram e acabaram caindo na
gargalhada. Caitlyn me fuzilou com o olhar e se mexeu na carteira como uma cobra
raivosa.
- Essa foi da hora! - Jamal me cumprimentou.
Lyssa olhou para trás e sorriu pra mim. Meu sangue parecia querer sair das veias. Como
eu disse, estava fascinado por ela, ainda mais depois do nosso papo durante a festa.
Desde aquele dia, eu vinha me sentindo diferente, estranho. Minhas pernas ficavam
moles quando a via. Mas eu achava que uma menina
como ela nunca me daria mole. Então, não fazia sentido ficar me torturando à toa! Ou
fazia?
Fiquei observando cada movimento dela com muito cuidado: seu rosto transparecia
gratidão, surpresa e uma certa satisfação.
Mas senti que havia algo mais. Um calafrio percorreu o meu corpo e bagunçou tudo
dentro de mim. Na festa, eu percebi que havia uma química entre nós, mas achei melhor
deixar pra lá. Só que era impossível deixar aquela sensação de lado outra vez. O que era
aquilo? O que estava acontecendo comigo?
Sorri de volta e desviei os olhos, com medo que ela percebesse o que eu estava
sentindo.
- Boa tarde! - disse a Sra. Doherty ao entrar na sala. Sem dúvida, aquela mulher tinha
errado de classe. Devia estar dando aula pra pré-escola! Ela tinha aquele jeito meio
cantado de falar, como as professoras que davam aula pra criancinhas.
- Meninos e meninas, por favor, peguem as canetas - anunciou ela. - Teremos muito
trabalho hoje.
A Sra. Doherty escreveu "portfólio" no quadro.
- Hoje vamos começar a organizar nossos portfólios – e pronunciou a última palavra
com imenso cuidado, como se ninguém soubesse o que era.
- Por que será que todo professor diz "nós", como se fosse fazer a lição com a gente? -
Jamal resmungou atrás de mim.
- Portfólios são pastas que contêm informações detalhadas sobre uma pessoa. Essas
informações são utilizadas quando alguém vai se matricular numa faculdade ou se
candidatar a um emprego- continuou a Sra. Doherty.
- Informações do tipo "não é da sua conta"? – perguntou Caitlyn. E olhou para as
amigas, que a apoiaram rindo em coro.
- Srta. Verlaine lembre-se de que, para se formarem, todos terão de fazer estágio. A
escola firmou parceria com várias empresas da região para oferecer oportunidades de
colocação no mercado de trabalho, mas as instituições não são obrigadas a contratar
nossos alunos automaticamente. Vocês precisarão mostrar que estão qualificados para
ocupar a vaga. É isso o que acontece lá fora.
Lá fora? A maioria dos meus colegas tinha uma carreira garantida nos negócios da
família. Ou amigos influentes que ajudariam bastante na política ou na magistratura. Já
eu teria de cavar minhas oportunidades com muita determinação e garra.
Dei uma olhada rápida para Lyssa. Ela olhava fixamente para a folha de papel à sua
frente e roia as unhas. Fiquei curioso para saber por que tanta preocupação. Afinal, seu
futuro também já estava garantido - e era brilhante.
- Mas não precisam ficar preocupados - prosseguiu a Sra. Doherty, com um sorriso
compreensivo -, porque vocês vão trabalhar em duplas escolhidas por mim. O objetivo é
que um ajude o outro no projeto. Vamos somar nossas habilidades.
Houve um gemido em uníssono. A professora não tomou conhecimento do protesto e
foi em frente.
- Cada parceiro terá de rever toda a documentação do outro, verificar se as coisas estão
em ordem e treinar o que dizer na entrevista. Os portfólios são individuais e cada aluno
receberá uma nota, mas a nota final será a média das notas obtidas pelos integrantes da
dupla.
- o quê? - alguns alunos berraram. - Isso não é justo!
- Mas é a vida - disse a Sra. Doherty. - No mundo dos negócios, vocês vão depender dos
colegas de trabalho, por isso é melhor irem se acostumando. Quero que este seja um
trabalho de cooperação! Quanto mais alta a nota do portfólio do colega, mais alta será
sua própria nota.
- Detesto trabalho em grupo! - resmunguei para Jamal - Sempre acabo fazendo tudo e o
outro ficando na minha cola. Se o meu parceiro não for você, juro que vou pedir à
professora para me deixar fazer o trabalho sozinho.
Jamal sorriu e sacudiu a cabeça.
- Nem precisa jurar. Eu sabia que era só uma questão de tempo até você fazer algum
tipo de protesto neste curso.
A Sra. Doherty pegou uma lista e começou a formar os pares.
Toda vez que ela anunciava uma dupla, ouvia-se algum tipo de reação.
- Abernathy e Wallace...
- Legal!
- Brazelton e Tubbs...
- Fala sério!
- Carter e Sipowitz...
- PÔ, cara! - exclamei. Jamal também protestou, mas não me pareceu zangado de ter
Arnold Sipowitz como parceiro. Sipowitz vinha se esforçando para ser o melhor aluno
da classe desde a pré-escola. Era do tipo que ficava com os olhos cheios d'água quando
tirava 9,8 numa prova. Havia rumores de que sua média final era 10,4, embora
matematicamente tal nota fosse impossível.
Era provável que insistisse em fazer o portfólio de Jamal pra ele.
Talvez até carregasse meu amigo com ele para Harvard.
- Se liga na parada, Jamal - cochichei pra ele. - Assim que a Mary Poppins aí disser o
meu nome e o do idiota que vai fazer dupla comigo, eu me levanto e protesto em alto e
bom som.
- Iohanson e Petrie... Lyttle e Nussbaum... Michaels e Naylor...
Abri a boca para protestar, mas a fechei em seguida. Ela tinha dito Naylor?
Olhei para Lyssa. De novo, ela sorria para mim. Seu rosto tinha uma expressão de
surpresa e seus olhos pareciam mostrar alívio. Trabalho em grupo? De repente, essa
idéia não me pareceu tão má.
- E aí, cara? Quando é que você vai começar o protesto?- Jamal me perguntou.
- Bom... Eu, ahn... Quer dizer, eu pensei bem e...
- Ahan, sei. - Ele me deu um sorriso malandro. - Eu achei mesmo que você fosse mudar
de idéia.
- Por quê? - eu perguntei, tentando parecer inocente.
- Pode abrir o jogo, Michaels. Virou a casaca só porque a professora botou você
trabalhando com uma gata, né?
- Shhhh! - disse, com medo de que alguém ouvisse. – Tá bom, tá bom. Eu admito -
continuei, baixando bem a voz. - Mas não pense que vou abrir mão das minhas
convicções ... Ao contrário de alguém que eu conheço, consigo trabalhar muito bem
com mulheres bonitas.
- Claro que consegue! - Jamal me respondeu, dando uma risadinha.
- Ei, não viaja! Eu sei bem dos meus limites. E não sou louco de tentar ganhar alguém
como ela.
- Cara, se você não tentar - Jarnal disse em tom sério-, vou começar a acreditar que é
louco mesmo.

3- Lyssa
Voltando pra casa, baixei a capota do meu carro, e comecei a cantar bem alto uma
música da Beyoncé. Aquele tinha sido o meu melhor dia na escola, desde o início das
aulas. Pra começar, havia vestido uma roupa feita por mim. Tinha medo de que minhas
amigas achassem o vestido esquisito, feio ou algo do tipo, mas assim que Betsy me viu,
exclamou:
- Uau, Lys, que vestido legal!
- Você acha mesmo? Fui eu que fiz.
Betsy me olhou pasmada.
- Não acredito! Você está brincando?!
Eu ri.
- Você estava junto comigo quando comprei o tecido naquela liquidação da Sewing
Barn, lembra?
- E você criou um vestido com aquele pedaço de pano? -Betsy perguntou. Balancei a
cabeça,confirmando, e ela sorriu. - Você é tudo!
- Menos, Betsy, menos. - Fiquei roxa de vergonha, mas muito feliz com o comentário da
minha amiga. - Foi super fácil.
- Não seja modesta, Lyssa. Você tem muito talento. Poderia ser uma designer de moda
profissional, se quisesse.
Senti um comichão percorrer o corpo. Como profissional? Eu sabia que tinha gente que
trabalhava com design de moda, mas eu? As pessoas pareciam me ver como alguém que
só sabia desfilar e tirar fotos. Nunca havia pensado na possibilidade de fazer uma coisa
que me atraísse mais. As palavras de Betsy ficaram na minha cabeça o dia todo. A idéia
de me tornar uma designer de moda foi tomando forma. Eu
sabia que naquele momento seria impossível - o trabalho de modelo ocupava todo o
meu tempo e meus pais teriam um ataque se eu abandonasse a carreira. Além disso,
talvez eu não fosse boa o suficiente para fazer um trabalho criativo. Entretanto, nada me
impedia de sonhar, Quando a Sra. Doherty mandou a gente montar um portfólio, a
primeira coisa que passou pela minha cabeça foi que eu devia tentar fazer um para a
minha carreira de designer de moda, e não para a de modelo. Tinha uma pasta velha
cheia de croquis de trajes que eu. mesma havia feito, além de algumas fotos Polaroid
minhas ou das minhas amigas vestindo alguns modelos que eu havia costurado. Eu
estava guardando aquilo como lembrança do
meu passatempo, mas talvez pudesse incluí-los no tal portfólio.
Eu desconfiava que minha mãe jamais me deixaria escolher aquela profissão, mas pelo
menos uma das minhas fantasias tinha virado realidade: a Sra. Doherty havia escolhido
Dante para ser meu parceiro no trabalho do portfólio.
Eu não parava de pensar em Dante desde o dia da festa.
Conversar com ele aqueles poucos minutos tinha sido a parte mais gostosa da: noite. Ele
falava comigo como se visse uma pessoa por trás da modelo. Dante tinha a fama de ser
um cara brilhante. E o pessoal mais inteligente, tirando a Betsy, dificilmente conversava
comigo. Mas o Dante não me esnobou. Na verdade, nós parecíamos estar na mesma
sintonia. Se não fosse assim, como se poderia explicar .ele
ter percebido o meu tédio? No resto da semana, fiquei pensando nos lindos olhos dele e
na maneira como tinha franzido a testa pra perguntar: "O que você faz para se divertir?".
Seu tom de voz deu a entender que não estava a fim só de papo furado. Ele queria
mesmo saber. Eu nem cheguei a responder, por causa do West. E depois me perguntei
se algum dia voltaria a falar com Dante.
De repente, veio a Sra. Doherty e disse nossos nomes como se fosse a Beyoncé
cantando: "Michaels e Naylor!". Pelo visto, eu ia ter de passar um tempinho perto dele.

Parei o carro na frente de casa e respirei um pouco antes de abrir a porta. Fique calma,
pensei com os meus botões. Não deixe mamãe perceber sua agitação.
Mamãe era perita em perceber o meu estado de espírito. Só de ver o tamanho do meu
sorriso ou os meus olhos, ela já sabia como eu estava me sentindo. Se suspeitasse que
eu estava pensando em alguma coisa diferente, ia me interrogar como se fosse da
polícia! Ela já administrava a minha carreira. Não queria que
fizesse a mesma coisa com os meus sentimentos.
Quando entrei em casa, mamãe estava na sala de jantar tomando chá gelado e folheando
a última edição de uma revista chique sobre decoração.
- Olá, minha flor - disse ela, sem erguer os olhos.
-Oi, mamãe.
- A Betsy ligou agora há pouco. Ela pediu pra eu lhe dizer... o que era mesmo que ela
queria? Ah, sim, que ela pegou Rochelle Godfrey no trabalho do portfólio. E alguma
coisa sobre se você tem tampões de ouvido para emprestar e uma meia bem grande.
Caí na gargalhada. Rochelle era uma dessas meninas que não param de falar um
segundo, daquelas que você acaba achando que respiram pelo olho, de tão tagarelas.
Coitada da Betsy! Pelo visto não tinha tido a mesma sorte que eu.
- Ela quer saber com quem você ficou. Pediu pra você ligar pra ela.
-Tá bom.
- E então? Com quem você ficou? - mamãe perguntou distraída, virando uma página da
revista.
- Ah, um carinha. - Tentei ao máximo parecer indiferente.
- Que trabalho é esse?
- Portfólios - respondi, pegando uma garrafa de água mineral do bar. - Vamos ter que
montar pastas com todos os nossos dados para depois mostrá-las a empresas,
faculdades, essas coisas.
- Ah, é? - Mamãe olhou para mim com cara de espanto. - Mas você não precisa fazer.
Você já tem seu portfólio de modelo.
Por que será que ela só se importa com a carreira de modelo? Perguntei a mim mesma,
sentindo uma dor na boca do estômago.
Respondi:
- Mas esse portfólio tem mais coisas. É do tipo currículo e tal. Nós vamos ter de usá-lo
na hora de arrumar um estágio.
Mamãe largou a revista e se ajeitou na cadeira.
- Mas será que eles estão achando que você precisa fazer estágio? Você já está
empregada em seu ramo de trabalho e não terá tempo pra isso.
Qualquer esperança de conseguir um estágio como designer de moda, por mais remota,
foi por água abaixo ali mesmo. Mamãe jamais concordaria com os meus planos.
- Acho que eles não pedem estágio quando a pessoa já trabalha em algum lugar - falei. -
O que eles querem é que a gente tenha alguma experiência profissional antes da
formatura. Na escola tem pouca gente que trabalha.
- Então pronto! - Mamãe balançou a cabeça. - Eles não podem exigir que você participe
desse projeto. Acho que vou dar uma ligada para a Dra. Mekker e pedir que ela abra
uma exceção pra você.
- Não! Não faça isso. Por favor!
Eu tinha ficado tão contente porque ia fazer dupla com Dante e lá vinha minha mãe
querendo botar tudo a perder! Como ela era amiga da diretora da escola, vivia pedindo
para ela me dar um prazo maior para entregar trabalhos, para eu faltar mais dias do que
era permitido por causa da carreira de modelo e coisas do tipo. Como se meus colegas já
não me odiassem o suficiente!
Mamãe franziu a testa, confusa por causa da minha atitude.
- O fato é que - comecei a dizer, tentando inventar uma explicação decente - eu quero
participar desse trabalho. Vai ser super fácil tirar um A, por causa da minha experiência.
- É verdade - concordou mamãe. - Podemos usar umas fotos bem interessantes das
propagandas que você já fez. E teve também aquele artigo sobre você que saiu na
Parkridge Picayune.
Soltei um suspiro de alívio.
- Viu? Assim eu garanto uma boa média final.
- Tudo bem... Então. Desde que você tenha certeza de que consegue dar conta do
recado.
Mamãe olhou o relógio.

- Acho melhor você se apressar, meu bem. Tem menos de duas horas para malhar e
tomar banho, antes de jantar.
- Certo. Obrigada, mamãe.
Corri para o meu quarto, louca para retomar minhas fantasias com Dante.
Esquerda, direita, esquerda, direita, esquerda, direita.
Antigamente, toda vez que eu subia na Stair Master, ficava me imaginando subindo as
escadarias da Torre Eiffel, com Paris toda aos meus pés! Mas, nos últimos dias, eu não
conseguia imaginar nada. Não conseguia mais me enganar e pensar que não estava na
minha sala de ginástica, em cima de uma máquina, sozinha, subindo sem chegar a parte
alguma.
- Malhando muito? - mamãe perguntou, ao entrar na sala.
- Com certeza - respondi, aumentando a velocidade.
Ela se aproximou e me deu um tapinha no braço, como sinal de incentivo.
- Pondo pra fora o estresse da volta às aulas?
- Pois é.
- Ótimo. Bom, vou tomar um banho antes que você tome conta do banheiro - ela disse,
dando um puxão de leve no meu cabelo. - Preciso me arrumar para o banquete de hoje à
noite.
- Posso ajudar? - perguntei, cheia de esperança. Eu faria qualquer coisa pra sair daquela
máquina! Seria legal conversar com mamãe sobre outra coisa que não fosse a minha
carreira, só pra variar. - Eu posso pintar suas unhas, ou pentear o seu cabelo.
- Obrigada, minha querida, mas pode deixar que eu me viro sozinha. Você já tem muito
o que fazer.
Estava quase na porta quando se virou de repente.
- Ah, e fique atenta ao telefone. Seu pai ficou de ligar. Ele está doido para saber como
foi o teste praquele comercial.
- Tudo bem, mamãe.
Olhei o relógio quando ela saiu da sala de ginástica. Fazia só trinta minutos que eu
estava ali, subindo degraus, mas parecia uma eternidade. E eu ainda precisava fazer os
abdominais e alongar as pernas.
Lembrei-me de quando estava no primeiro grau. Quando eu voltava pra casa depois das
aulas, mamãe estava me esperando com biscoitos de chocolate e um copo de leite. Ela
se sentava na mesa da cozinha e ficava escutando as minhas aventuras – num dia era um
adesivo dourado que eu havia ganhado por uma lição bem-feita; no outro era uma troca
de lanches com Betsy, ou o nojento do Arnie Hammond que tinha puxado minhas
tranças.
Depois, quando papai chegava do trabalho, eu me sentava no colo dele e ficávamos
assistindo a um monte de desenhos animados antes do jornal. Nosso preferido era o do
Papa-Léguas.
Toda vez que o coitado do Coiote despencava do alto de um morro ou estava prestes a
ser achatado por uma pedra, nós dizíamos "ui, ai!" e morríamos de rir.
As coisas mudaram muito depois que eles se divorciaram e eu virei modelo. Agora,
quando entro em casa, mal tenho tempo de dizer "oi" pra minha mãe e já preciso
começar a malhar. Os biscoitos
de chocolate foram substituídos por barrinhas de cereais, e papai não vem mais pra casa.
Esquerda, direita, esquerda, direita, esquerda, direita. Mal tinha começado a malhar e
já me sentia exausta.
Assim que escutei mamãe fechar a porta do banheiro e ligar o chuveiro, desliguei a
StairMaster e fui pé ante pé para o meu quarto. Tirei os tênis, as meias, as lentes de
contato e me joguei na cama. Queria cochilar um pouquinho e, depois, se tivesse ânimo,
ligar para a Betsy.
Betsy! - dei um salto, me sentando no mesmo instante. Estava quase me esquecendo! O
aniversário dela ia ser no fim de semana, e eu ainda precisava terminar o presente que
estava fazendo.
Apurei os ouvidos para ver se o chuveiro continuava ligado, fui até o meu guarda-roupa
e peguei o vestido de cetim que eu estava costurando fazia um mês. Só faltava pregar
alguns botões.
Ergui o vestido e tentei imaginar Betsy dentro dele. Queria que ficasse perfeito. Era da
sua cor preferida: verde-esmeralda. O modelo ia realçar o corpo esbelto de Betsy. Tinha
um decote que acentuava os ombros e cintura bem marcada.
Pus os óculos e comecei a pregar os botões no vestido.
- Lyssa? O que está fazendo, filha?
Era mamãe, que tinha aparecido na porta do meu quarto.
Estava com um roupão de capuz e parecia a Morte. A única diferença é que o roupão era
branco e felpudo e que, em vez de uma foice, mamãe segurava um secador de cabelo.
- Nada - respondi, sem muita convicção.
- Você não devia estar malhando?
- Parei um pouquinho antes para poder terminar o vestido que estou fazendo pra Betsy.
- Que vestido?
- Aquele que eu desenhei pra dar a ela de presente de aniversário, lembra? O aniversário
dela é no sábado.
Mamãe franziu a testa, preocupada.
- Querida - ela começou a dizer, com a voz cansada -, eu não acho muito prudente você
ir a essa festa justamente agora que vai começar a fotografar de maiô. A agência disse
que você não pode se arriscar a ficar com o bronzeado desigual.
Por que ela não deixava eu me divertir pelo menos uma tarde?
Por que a carreira de modelo estava sempre em primeiro lugar?
- Mas, mamãe, ela vai fazer dezoito anos! - choraminguei.
- E se eu me lambuzar de bloqueador solar?
- Mesmo assim é muito arriscado.
Respirei fundo e contei até dez, tentando controlar a minha frustração.
- Por favor, me deixe ir - falei bem baixinho. – Prometo que não entro na piscina e que
fico na sombra o dia inteiro. Por favor... Só dessa vez!
-Bom ...
Enquanto mamãe pesava os prós e os contras, comecei a roer a unha do meu polegar.
Sabia que estava me comportando como uma menina de cinco anos de idade, mas não
dava a mínima.
Debaixo do solou não, eu tinha de estar lá no sábado. Se a festa fosse da Heather ou da
Ruth, elas iam entender. As duas achavam minha carreira tão legal que me deixariam
botar fogo na casa, se
eu dissesse que era a trabalho. Mas Betsy era diferente. Ela ficaria magoada se eu não
fosse à festa.
- Está bem, então - mamãe acabou dizendo, sacudindo a cabeça e sorrindo. - Mas tem de
me prometer que vai voltar pra casa antes que o sol fique muito forte.
- Eu prometo. Obrigada, mamãe.
- Está combinado, então.
Ela deu um passo para sair, mas antes perguntou:
- Por que você está de óculos? Perdeu as lentes de contato?
- Não. Só tirei um pouquinho. Estavam me incomodando.
- Você nunca vai se acostumar com elas se não usar. E não roa as unhas! Ninguém vai
contratar você se aparecer com as unhas roídas.
Só então mamãe saiu do quarto e fechou a porta.
Baixei os olhos para examinar a unha do polegar e me perguntei por que mamãe parecia
dar mais valor à minha aparência do que a qualquer outra coisa.
De repente, me lembrei do rosto de Dante, as sobrancelhas dele sobre seus olhos tristes
quando perguntou: "0 que você faz para se divertir?".
- Pouca coisa - sussurrei, jogando o vestido de Betsy sobre a cama. - Pouca coisa
mesmo.

4-Dante
Folha da Manhã de Dallas procura estagiário
Procura-se jovem responsável e dedicado para trabalhar como assistente de copidesque,
de pesquisa e, caso necessário, de redação. Imprescindível ter bons conhecimentos da
língua, capacidade de edição, aparência e atitude profissionais, além de vontade de
aprender. Os candidatos devem apresentar histórico escolar, três redações e três
referências profissionais. Todos serão entrevistados pelo editor assistente. Horário: de
segunda a sábado, das 17h às 20h.

O anúncio estava no quadro de avisos ao lado da sala do centro de orientação


vocacional e me chamava como se fosse uma janela aberta para o futuro. Parei diante
dele e fiquei lendo e relendo o que estava escrito, como se as palavras fossem sumir se
eu me afastasse.
A Folha da Manhã de Dallas! Vibrei por dentro: um jornal de verdade!
Aquela era a chance que eu tanto esperava: poder escrever para um periódico
importante, de grande circulação. Tudo bem que o anúncio falava em copidesque e
pesquisa, o que provavelmente significava carregar pastas pra lá e pra cá, e cortar o
excesso de gerúndios de um ou outro jornalista mais desavisado. Mas ali dizia que,
"caso necessário", o estagiário também faria trabalhos "de redação". O planeta que se
cuidasse, porque eu estava a caminho!
Apesar do entusiasmo, uma coisa me preocupava. Eu tinha redações excelentes e várias
pessoas dispostas a me servir de referência (até o Sr. Edwards, depois de eu ter refeito
as legendas e rastejado, como manda o protocolo), mas a expressão "aparência e atitude
profissionais" cortava o meu barato. Eu já tinha sido chamado de várias coisas, como
inteligente, honesto, confiável e maduro, mas ninguém havia me associado à expressão
"boa aparência profissional".
Eu não me vestia para impressionar as pessoas e, nas raras vezes em que tentei dar um
tapa no visual, como no casamento do meu tio Caleb ou no batizado da minha prima
Letitia, o resultado foi desastroso. Deve ter sido por causa do meu jeito de andar - todo
mundo diz que pareço meio arrogante. Meu rosto tem sempre uma "mancha" de barba -
bom, acho que só uns oito caras com uma serra elétrica conseguiriam raspar aquilo
direito! Não bastasse tudo isso - a verdade tem de ser dita -, eu tinha sérios problemas
com relação à moda. A palavra acessório não fazia parte do meu vocabulário. E Gap,
pra mim, queria dizer "brecha", "fenda" ou "hiato", no máximo. No batizado da minha
prima Letitia, minha tia Rena ficou me tirando porque, em pleno inverno, eu estava
usando um terno de tecido fino, meias grossas e sapatos sociais. Seis meses depois, no
casamento do tio Caleb escolhi o terno certo, mas, na pressa, vesti uma camiseta dos
Simpsons por baixo da camisa. Em todas as fotos em que eu apareço, dá pra ver os
cabelos azuis da Marge!
Encostei a cabeça no quadro de avisos e bufei. Por que tudo acabava girando em torno
da aparência das pessoas?
- É isso que eles chamam de "dormir no trabalho"? – perguntou uma voz atrás de mim. -
Quer dizer, "sobre a oferta de trabalho"?
Virei e deparei com Lyssa sorrindo pra mim. Cara, que sorriso tinha aquela menina! Ela
parecia realmente feliz em me ver.
Antes que eu começasse a me "sentir", resolvi lembrar a mim mesmo que ela ganhava
uma nota e por isso tinha motivos de sobra para parecer tão feliz.
- Na verdade eu estava anotando umas coisas - respondi.
- Descobri que posso economizar um bocado de esforço e tinta colocando a testa sobre o
papel. Dessa forma, o texto é absorvido diretamente pelo cérebro ou fica impresso na
minha cara, para ser lido depois.
Ela inclinou a cabeça e deu uma risadinha tímida, que mal dava pra escutar. Só senti seu
hálito no meu braço. Fiquei todo arrepiado e com um nó no estômago.
Qual é o problema comigo? Pensei com os meus botões.
Nunca tinha me ligado em alguém antes. Não era do tipo que ficava de quatro por uma
menina bonita, mas Lyssa tinha algo que me transformava num idiota. Era como se eu
estivesse regredindo!
Lyssa me olhou e roeu a unha do dedão, mas parou de repente, meio constrangida.
- E aí? Como fica essa coisa do portfólio? - ela perguntou.
- Vamos nos reunir uma hora dessas para decidir como fazer o trabalho?
Meu coração disparou. Eu sabia que Lyssa só estava interessada em estudar comigo,
mas bastou ouvi-Ia dizer aquilo para eu arder por dentro.
- É claro. O que me diz de hoje à noite?
- Tudo bem. Por que você não dá uma passada na minha casa depois da aula?
- Legal! - tentei dizer em tom banal, mas acho que não me saí muito bem. - Posso
chegar lá pelas dezenove horas.
- Perfeito. Toma. - Lyssa me deu um cartão de visitas lilás. - Aí tem o meu endereço e o
número do meu telefone.
Como escritor, tenho uma imaginação incrível, mas jamais poderia pensar que Lyssa
Naylor me daria seu endereço e telefone e me convidaria para ir à sua casa. Era tão
inacreditável que achei que tinha perdido a noção.
- Então tá... - comecei, percebendo que por ora a conversa havia terminado. - Até mais.
- Até. - Lyssa me deu outro daqueles sorrisos e foi embora.
- Até - repeti, feito um idiota.
Às dezoito e cinqüenta e cinco parei meu Fusca amarelo na frente da casa dos Naylors,
bem atrás de um carro conversível e de um Mercedes dourado.
A casa de Lyssa era tão grande que devia ter um CEP só seu.
Era uma daquelas construções em estilo colonial. Eu já estava esperando que um
mordomo viesse abrir a porta, mas quem apareceu foi uma senhora, que devia ser a mãe
de Lyssa.
Tinha os mesmos dentes perfeitos da filha. Ela me cumprimentou com uma versão mais
madura do sorriso lindo de Lyssa, mas entortou um pouco a boca quando me mediu de
cima a baixo. Repassei minhas roupas: a camiseta, velha companheira de luta, parecia
mais furada do que nunca.
- Olá. Eu sou Rita Naylor - disse-me, estendendo a mão cheia de anéis de brilhante. -
Lyssa me disse que vocês vão estudar juntos hoje. Você deve ser o Donny, certo?
- Dante - corrigi, apertando a mão dela. - Dante Michaels.
- Michaels... Michaels... - ela repetiu. - Acho que conheço uma família com esse
sobrenome. Você é parente dos Michaels que moram em Bellevue?
- Ahn... não. Sou parente dos Michaels que moram no condomínio Argosy. Meu pai
apareceu no noticiário outro dia. Ele é professor de ciências políticas na Cedar Valley.
Eles fizeram um enorme protesto contra as novas diretrizes para o ingresso na
Universidade, que não levam mais em conta a cota para minorias raciais. Talvez a
senhora tenha visto.
- É talvez sim - disse a mãe de Lyssa, de um modo que me deu certeza de que não tinha
visto notícia nenhuma. - Bem, venha comigo.
Ela abriu a porta e me fez um gesto para entrar. Meus tênis rangeram no assoalho
brilhante do hall. Mesmo tendo um metro e oitenta e sete centímetros de altura, senti-
me minúsculo debaixo daquele pé-direito colossal e daquele candelabro gigantesco.
- Por favor, sente-se. - A Sra. Naylor mostrou com um gesto a sala de estar. - Lyssa
ficou malhando um pouco mais e foi tomar uma ducha rápida. Ela desce já, já.
- Obrigado - respondi, reparando que minha voz ecoava entre aquelas paredes.
Andei lentamente na direção do sofá, com medo de esbarrarem alguma coisa no
caminho. Os tapetes altos e a mobília de luxo eram brancos como neve, e tudo ali
parecia fácil de quebrar.
Depois de checar se meus tênis não estavam sujando o chão, sentei-me em uma poltrona
enorme.
A Sra. Naylor montou guarda na porta e ficou me olhando como se eu tivesse acabado
de chegar de Marte. Ficamos um bom tempo acenando um para o outro com a cabeça,
os dois sem graça. Finalmente, ela decidiu chegar um pouco mais perto.
Muito educada, sorriu e disse:
- Tem chá de menta gelado no bar, bem aí do seu lado. Por favor, sirva-se à vontade.
- Obrigado - eu disse, aliviado por ter algo pra fazer.
Quando me levantei, reparei que havia algumas fotos na parede atrás do bar. Pareciam
ser todas de revistas e catálogos e mostravam Lyssa em poses de tirar o fôlego: sentada
num balanço, usando um vestido branco e flores no cabelo; de patins, fazendo gracinhas
junto com três outras adolescentes; deitada numa praia com um biquíni violeta
minúsculo.
- Uau - falei, meio sem pensar.
- É o meu maior tesouro. - A Sra. Naylor me deu o maior susto. - Desde que ela
começou a carreira, cinco anos atrás, fez tantas fotos maravilhosas que já nem tenho
espaço aqui embaixo.
Tive de começar a pendurá-las no hall lá de cima, no quarto de hóspedes, na sala de
ginástica. Lyssa diz que está cansada de ver o próprio rosto por toda parte, mas eu não.
Quem pode me culpar?
- Realmente, ninguém - respondi com a maior honestidade.
A Sra. Naylor sorriu amigavelmente pra mim. Percebi que o fato de eu achar sua filha
bonita havia me feito subir um ponto em seu conceito.
- Quer ver o álbum de Lyssa? - ela me perguntou, com um sorriso tímido e baixando um
pouco a voz, como se estivesse se preparando para divulgar segredos de Estado.
- Claro.
Por mais embaraçosa que fosse a idéia de ficar vendo fotos de Lyssa na frente da mãe
dela, a curiosidade foi maior. Além disso, eu não queria ofender a Sra. Naylor
recusando sua oferta.
Ela pegou um álbum grosso, de encadernação de couro, e me entregou como se fosse a
Bíblia Sagrada. Acomodei-me na poltrona e mergulhei num mar de fotos de Lyssa.
_ Você e a Lyssa se conhecem faz tempo? - a Sra. Naylor me perguntou, sentando-se no
sofá em frente.
_ No ano passado eu fiz Inglês na mesma classe que ela, mas não chegamos a nos
conhecer muito bem. Eu me lembro de que ela foi uma das melhores alunas do curso e
fez o melhor seminário sobre O Retrato de Dorian Gray. Poucos alunos entenderam o
romance de verdade, e Lyssa foi uma delas.
_ Sei, sei - respondeu-me a Sra. Naylor, um tanto distraída.
_ Aquela professora vivia exigindo trabalhos complicadíssimos. Foi muito difícil
convencê-la de que minha Lyssa tinha de ter uma folga na temporada dos desfiles.
- Ahn... é verdade, aquele curso foi puxado.
A atitude da mãe de Lyssa me confundiu um pouco. A maioria dos pais ficava inchada
ao ouvir algum elogio à inteligência dos filhos. Os meus, por exemplo, iam até as
nuvens e voltavam sempre que alguém falava bem de mim. Entretanto, a Sra. Naylor
parecia sentir mais orgulho da beleza e da carreira da filha. Era como se achasse a
escola uma chateação a ser superada ou coisa parecida.
_ Ai, mamãe! Por favor, não vá me dizer que está aborrecendo o Dante com meu
álbum ... - Parada no topo da escada, Lyssa estava tudo de bom dentro de um short cor-
de-rosa e um top
de malha branco.
_ Eu não estou aborrecendo ninguém, estou, Dante? – perguntou a Sra. Naylor,
levantando-se do sofá.
_ Não, senhora - respondi, me levantando também.
A Sra. Naylor aproximou-se da filha e ajeitou seus cabelos.
_ Todo mundo adora ver suas fotos, minha flor! - sorriu, toda orgulhosa. - Você já devia
saber disso.
Lyssa revirou os olhos.
- Que bom que você veio, Dante.
- Pois é.
_ Não acha melhor irmos estudar no meu quarto? - perguntou, olhando de canto para a
mãe. - Lá é mais sossegado...
-Tudo bem.
_ Lembre-se de que amanhã à tarde você tem ensaio para o desfile - disse a Sra. Naylor,
tirando um fiapinho do ombro de Lyssa. - Não vá dormir muito tarde.
- Tá bom, mamãe - ela respondeu, em tom cansado.
Subi as escadas atrás de Lyssa, passando por mais fotos dela.
- Minha mãe também é uma espécie de agente, o que lhe dá direito a pelo menos umas
cem implicâncias a mais do que a maioria das mães.
- Não esquenta. Já os meus pais são o oposto. Eles acham que impor muitas restrições é
o mesmo que violar meus direitos civis. Tive de aprender um monte de coisas do jeito
mais difícil.
- Verdade? O quê, por exemplo?
- Bom, uma vez eu gastei toda a minha mesada num programa de computador e eles não
disseram nada. Depois fiquei sem ter como pagar o almoço na lanchonete da escola o
mês inteiro, mas eles não me ajudaram. Eu tinha duas opções: ou passava fome ou
comia as batatas fritas que sobravam do prato do Jamal.
Lyssa sorriu e sacudiu a cabeça, fingindo piedade.
- Coitadinho de você! Parece que foi uma lição duríssima de administração financeira.
- E nutricional- acrescentei.
Ela entrou no quarto e apontou a cadeira da escrivaninha.
- Sente-se - disse, acomodando-se na cama.
O quarto de Lyssa era completamente diferente do térreo. Os móveis eram de madeira
clara. Havia um carpete bege no chão e as paredes eram verde-pistache. As únicas
outras cores lá dentro vinham da estampa do acolchoado e de um imenso coelho de
pelúcia cor-de-rosa largado num canto.
Parecia ser o único lugar da casa onde quase não havia fotografias suas. Na verdade,
havia uma foto só: na mesinha de cabeceira, tinha uma antiga foto da família. Lyssa
parecia ter uns dez anos, toda dentes e tranças. Estava entre o pai e a mãe, dando um
sorriso imenso.
- Bom, e aí, como é que a gente começa esse trabalho? _ ela perguntou, abrindo o
caderno.
Tirei da mochila a folha entregue pela professora e li.
- Pelo jeito, ela quer um pouco de tudo, menos amostra de sangue. Vejamos: relação de
todos os empregos até o momento, três cartas de recomendação, histórico escolar,
objetivos gerais e dados pessoais. São os documentos de praxe.
- Se você está dizendo... - Lyssa me olhou com cara de dúvida. - Eu nunca fiz um
currículo. Você já?
- Milhões de vezes. Todo ano eu tenho de procurar emprego em uma lanchonete
qualquer, pra ganhar um salário mínimo.
- Você já teve muitos empregos?
- Alguns. Fiz um pouco de tudo, desde fritar hambúrguer até cortar grama. No ano
passado, ajudei a organizar a biblioteca do bairro.
- Meu currículo é tão ralinho... - Lyssa continuou, desanimada. - Meu único trabalho até
agora foi o de modelo.
- Não basta? Tem um monte de gente na escola que nunca trabalhou na vida. Você está
um passo a frente.
- É verdade. - A voz saiu bem baixinha.
De uma hora pra outra, Lyssa me pareceu muito pensativa.
Vi quando ela olhou pro acolchoado e contornou, bem devagar, uma folha de papel com
o dedo. Ela era tão delicada, tão feminina e bonita, que despertou em mim um lado meio
"homem das cavernas", que eu nem sabia que tinha: queria protegê-la de todos os males,
provar meu valor com algum gesto ousado e heróico. Mas, a não ser que um bando de
criminosos invadisse a casa dos Naylors, ia ser meio difícil. Além disso, a julgar pelo
corpo malhado de Lyssa (no qual eu andava pensando um bocado nos últimos dias), era
muito provável que ela se saísse melhor do que eu na briga.
- E então... - ela disse, olhando pra mim. - Quais são os seus planos para o futuro?
- Meu objetivo é bastante simples: eu quero salvar o mundo.
Ela arregalou os olhos.
- É mesmo? E como espera fazer uma coisa dessas?
- Com palavras. - Ajeitei-me na cadeira e pus as mãos atrás da cabeça. - Quero escrever
para um jornal de grande circulação, ter uma coluna só minha que informe os cidadãos
sobre as injustiças que nos cercam. Então todos poderão se unir para combater o poder.
- Uau! - ela deixou escapar surpresa. - Isso parece ser algo muito... nobre.
Ponto pra mim! Consegui parecer um herói sem ter que dar um soco sequer.
- Agora me diga: o que a gente tem de fazer pra se transformar no "salvador do
mundo?" - ela perguntou, sorrindo.
- Bom, no meu ramo de negócio não existe atalho para o topo. Depois que eu me
formar, é possível que tenha de trabalhar como freelancer por alguns anos e viver de
miojo. Com o tempo, talvez eu consiga me tornar um colunista, quer dizer, isso se
gostarem do meu trabalho.
- Ah, mas é claro que vão gostar ... - Lyssa tinha certeza do que estava dizendo. Inclinou
a cabeça e abriu um sorriso, me fazendo queimar por dentro.
Sabe aquele lance do tempo dos filmes de ficção científica?
Pois é! Até aquele momento eu ainda não tinha entendido direito o conceito.
Quando o olhar de Lyssa cruzou com o meu, perdi completamente a noção de tempo.
Eu só conseguia perceber a presença dela e o monte de sensações que ferviam dentro de
mim. Era como se houvesse uma realidade diferente - uma realidade melhor.
Depois de algum tempo, desviamos o olhar. Mas o ar continuava cheio de eletricidade.
- Bom... ahn ... - comecei a dizer, sem jeito. - Para qual faculdade você vai?
Ela deu de ombros.
- Ainda não sei. Talvez eu adie a faculdade por alguns anos. Minha agente diz que agora
que minha carreira deslanchou, preciso me manter na ativa. Ela quer que eu me mude
para Nova York depois da formatura.
- Adiar a faculdade? Não faça isso! Talvez você nunca mais tenha chance de voltar.
Você ... - Calei a boca para não recomeçar aquele meu discurso de "sua mente é algo
precioso demais
para ser desperdiçado". - É uma pena que alguém tão inteligente como você não vá
direto para a universidade depois do colégio.
Ela me lançou um olhar espantado.
- Eu? Você me acha mesmo inteligente?
- Claro que sim! Você me passou pra trás em Inglês o tempo todo no ano passado.
Lyssa parecia não estar entendendo nada. Ela franziu a testa e começou a roer a unha de
novo. Tive medo de ela ter ficado ofendida de algum modo.
_ Olha, me desculpe. Não devia me meter onde não sou chamado - falei, me debruçando
no encosto da cadeira. - Quem sou eu para lhe dizer o que fazer? Se ser modelo é sua
vida, se não tem mais nada que queira fazer, então ...
-Não.
A resposta dela me deixou curioso.
-Não o quê?
_ Ser modelo não é minha vida - ela disse, com um olhar intenso. - Quer dizer, é. Mas
eu não quero que seja. Não mais.
E então Lyssa me deu um sorriso triste, e, de novo, o tempo pareceu parar.

5- Lyssa
Sentada à sombra, na área perto da piscina da casa de Betsy, usando um enorme chapéu
de palha e óculos escuros e inteirinha lambuzada de bloqueador solar, eu me sentia uma
total idiota. O resto da galera estava na água, se divertindo, nadando, jogando bola e
dando notas para os mergulhos uns dos outros.
Pelo visto, quando expliquei que marcas de bronzeado,mesmo muito leves, podiam
impedir uma modelo de ser contratada para fotos em trajes de banho, todo mundo
entendeu. E entendeu tão bem que a festa continuou sem mim! Muito de vez em
quando, uma das meninas saía da piscina e vinha se sentar perto de mim alguns
minutos, mas a maior parte do tempo eu ficava sozinha vendo o pessoal se divertir.
Bem, eu já devia ter me acostumado ...
O que mais me intrigava era que ninguém sentia pena de mim, só eu mesma. Vai ver
achavam que não me importava de fazer aquele tipo de sacrifício em nome da "minha
carreira". E eu nunca fiz nada pra que mudassem de idéia.
Fiquei me lembrando das coisas que Dante havia me dito na noite em que foi estudar
em casa.
- Se você não se sente mais feliz sendo modelo, por que continuar?
- É complicado - respondi. - Você não entenderia.
Foi então que ele colocou a cadeira mais perto e olhou pra mim, na verdade pra dentro
de mim. Com certeza estava apenas querendo ser meu amigo, mas seus enormes e doces
olhos castanhos pareciam me envolver toda.
_ Talvez eu consiga entender melhor do que você imagina. Experimente me contar.
E então, antes que eu me desse conta do que estava fazendo , contei que sonhava ser
designer de moda. E olhe que eu mal havia admitido aquilo pra mim mesma, que dirá
pra outra pessoa. Acho que havia alguma coisa em Dante que me deixava à vontade. Era
como se eu pudesse lhe contar todos os meus segredos. Contudo, assim que as palavras
me escaparam, senti um constrangimento enorme. Tinha certeza de que ele ia rir de
mim, ou então que ia me dizer que eu não tinha cacife pra chegar lá.
. Mas, para meu imenso alívio e espanto, Dante me olhou com uma expressão sincera e
me deu aquele seu sorriso lindo.
_ E o que você está esperando? Vá em frente! Peça pra fazer um estágio no setor de
moda. Você é inteligente e talentosa. Tenho certeza de que será uma designer de
primeira.
Não houve outro jeito senão corresponder com um sorriso maior ainda. Mesmo sem
conhecê-lo direito, eu me sentia nas nuvens por ele acreditar em mim - sei lá por quê.
Quer dizer, eu não me lembrava de ter ouvido alguém me achar "inteligente" antes.
Bonita, sim, mas inteligente nunca.
De qualquer modo, nem o elogio dele me fez perder todo o senso de realidade.
Expliquei que, por causa do meu trabalho, não sobraria tempo pra fazer um estágio em
moda. Foi quando ele me sugeriu que eu abandonasse a carreira de modelo. Eu lhe
disse que aquilo estava fora de cogitação, que eu não
podia simplesmente largar tudo, que muita gente, sobretudo a minha mãe, dependia de
mim.
_ Mas Lyssa - ele disse, olhando fixamente nos meus olhos -, é a sua vida!
_ Lyssa? - A mãe de Betsy apareceu e interrompeu meus pensamentos. - Você quer
limonada?
- Quero sim, obrigada - respondi.
Instantes depois, ela reapareceu com o refresco.
- Você teve de ficar longe do sol? - ela perguntou. – Ordens da agência? - E me olhou
com tanto dó que tive de fazer um esforço enorme pra não cair no choro.
Fiz que sim com a cabeça.
- E da Sociedade Norte-Americana do Câncer – acrescentei brincando, pra tentar
disfarçar a pena que sentia de mim mesma.
- Acho que você é uma das adolescentes mais disciplinadas e corajosas que já vi. Mas
seria bom se, de vez em quando, se permitisse fazer uma farra, se divertisse um pouco
mais!
- Mas não é a senhora que vive dizendo que os jovens de hoje têm uma vida fácil
demais? Como foi mesmo aquela frase, no dia da assembléia? "Os jovens deveriam
passar menos tempo pensando em se divertir e mais tempo planejando o futuro." Não
foi isso? - Ergui o queixo e tentei imitar o tom autoritário da Sra. Weddington, que por
sinal Betsy tinha herdado.
A mãe de Betsy trabalhava na área de educação. Era a coordenadora do programa de
estágios e outras oportunidades de trabalho da comarca. Tinha a impressão de que ela ia
à escola toda semana fazer palestra pra alguma classe. Muitas vezes nos visitava na hora
do almoço, o que não contribuía muito pra popularidade de Betsy. Apesar disso, sempre
gostei da mãe dela, que me tratava como filha.
- Tenho certeza de que foi algo nessa linha - ela respondeu, dando risada. - Sabe de uma
coisa: na minha próxima palestra, vou usar você como exemplo.
Era só o que faltava pro meu não-entrosamento social na escola!
- Nossa! Veja só que horas são! - a Sra. Weddington exclamou, olhando o relógio. -
Está na hora de alimentar esse povo. Acho que todo mundo já deve estar cansado da
água, não é?
- É a senhora quem manda - respondi sorrindo.
A Sra. Weddington gritou:
- Betsy, por que vocês não fazem uma pausa agora? Vou trazer o bolo daqui a pouco e
aí você poderá abrir os presentes.
- Tá bom - Betsy respondeu. Todos começaram a nadar pra borda da piscina.
- Bom, acho melhor eu ir ajeitando as coisas - disse a Sra. Weddington, entrando na
casa.
- Precisa de ajuda? - ofereci.
- Não, obrigada, meu bem - ela respondeu, me dispensando. - Fique por aqui mesmo e
divirta-se.
Divertir-me? Tá bom...
Alguns minutos depois, as meninas se reuniram no pátio. Os meninos ficaram pra trás,
admirando a mountain bike de dezoito marchas do pai de Betsy.
Heather sentou-se na cadeira de ferro ao meu lado e disse:
- Estou tão feliz porque não está de maiô, Lys. Assim nós não sentimos complexo de
inferioridade e os meninos não fazem papel de bobos.
- O pior é que fazem - Ruth resmungou, revirando os olhos e sentando-se do lado oposto
de Heather. - Não agüento mais vê-los apostando corrida na piscina. Por que precisam
competir o tempo todo?
Betsy deu de ombros.
- Sei lá. É típico do sexo masculino. Coloque alguns meninos juntos e eles inventam um
esporte.
- E, por falar em meninos, por que não trouxe o West com você, Lyssa? - Heather
perguntou.
- Pois é, a Heather estava louca para ver West de calção de banho - Ruth acrescentou.
- Estava nada! Só acho que ele podia fazer companhia pra ela.
- Você o convidou, Lys? - Betsy perguntou, enquanto se enxugava com uma toalha.
Sacudi a cabeça, numa negativa.
- Não. Ele deve estar ocupado com os desfiles. Eu não queria admitir que nosso
relacionamento havia acabado antes mesmo de começar. Se eu contasse que não tinha
gostado de West, que ele não fazia o meu tipo, elas teriam ficado me tirando, dizendo
que sou muito chata.
- A Betsy me contou que você pegou o Dante Michaels de parceiro no projeto dos
portfólios - Ruth comentou.
- É verdade? - Heather perguntou. - Mas que azar, hein? Quer dizer, o cara até que é
legalzinho, mas aquelas roupas meio grunge dele não estão com nada.
- Ele é um intelectual - expliquei, me sentindo ofendida.
- Não me diga. Mas será que um cara tão inteligente não sabe usar o ferro de passar
roupa? - Heather perguntou.
- Vocês por acaso já leram a coluna que ele escreve no jornal da escola? - Betsy
perguntou. - É radical!
- Se é - Ruth concordou. - Ele vive falando coisas do tipo"não use casaco de pele", "não
utilize o posto de gasolina tal" etc.
Vocês se lembram de um artigo que ele escreveu no começo do ano? "As dez melhores
maneiras de calar a boca das Spice Girls"?
- Ah, aquele eu achei muito bom! - Betsy falou. - Ele fez uns trocadilhos bem
engraçados com o significado da palavra spice, como "junte um pouco de mostarda no
pó delas; assim elas
ficam mais picantes".
- Aquele cara é bem doido - Heather comentou, abanando a cabeça.
Meu rosto esquentou.
- Pois eu acho incrível que ele tenha força pra enfrentar todo mundo e defender o que
acredita. Ele é tão ... engatado.
- Sabe, Lys - disse Betsy, estreitando os olhos -, você ainda não me contou como foram
as coisas quando ele foi estudar na sua casa. Como é que ele é?
De repente, senti um pânico enorme. Será que minhas amigas entenderiam se eu
dissesse o quanto gostava do Dante?
Fala sério! Era mais provável que rissem de mim por gostar de um menino intelectual e
tão "fora de moda". No fundo, eu não queria revelar meu segredo porque sabia que não
tinha a menor chance com Dante. Alguém com a inteligência dele jamais se apaixonaria
por uma menina como eu. Éramos parceiros no trabalho do portfólio, no máximo
colegas, mas só isso.
, Comecei a roer a unha e tentei pensar num modo de responder a pergunta de Betsy.
Felizmente, bem nessa hora, os pais dela apareceram, trazendo um bolo de chocolate de
três andares, com
dezoito velas no alto.
/ - Venham todos para cá! - chamou a Sra. Weddington. _Esta na hora de cantar os
parabéns!
Os dois levaram Betsy até a ponta da mesa e todos se reuniram em volta, cantando uma
versão desafinada de "Parabéns a você". Ela fingiu que estava envergonhada, mas
percebi que adorou.
Em seguida, a mãe de Betsy começou a servir o bolo e seu pai a puxou para lhe dar um
abraço.
- Não acredito que a minha menininha já está fazendo dezoito anos - ouvi-o dizer. Os
olhos do pai de Betsy pareciam meio molhados e senti que os meus também
começavam a se encher de lágrimas.
Eu havia passado meu último aniversário, no mês de junho, fazendo uma propaganda
para o Sea World, em San Antonio. Foi divertido assistir a todos aqueles espetáculos e
ver os animais, mas, como a produção das fotos se prolongou por dois dias, tivemos de
cancelar a festa em família. Meu pai foi obrigado a me desejar feliz aniversário pelo
celular da mamãe.
- Lyssa, aceita uma fatia de bolo? - a Sra. Weddington perguntou.
- Não, obrigada - respondi, dando um tapinha nos quadris.
- Preciso me comportar.
A mãe de Betsy sorriu e balançou a cabeça, como se entendesse a questão, mas em seus
olhos havia aquele mesmo dó de antes.
Enquanto todo mundo devorava seu pedaço de bolo, tomei mais alguns goles de
limonada, roí as unhas e fugi do sol feito um vampiro. Vi a hora em que Betsy, com
muito carinho, limpou a mancha de chocolate no rosto de Cliff. Minha amiga estava
feliz pra caramba - ou talvez fosse o efeito do sol. Mas, por mais contente que me
sentisse por ela, não consegui deixar de sentir uma certa inveja. Quem me dera ser filha
de pais tão compreensivos quanto os dela, ter um namorado apaixonado e poder comer,
sem sentimento de culpa, uma bela fatia de bolo de chocolate ...
Resolvi ir embora antes que começasse a choramingar como um bebê.
- Betsy - falei bem baixinho -, acho melhor eu ir pra casa agora. Prometi pra mamãe sair
antes de o sol ficar muito forte.
- Ah, não, Lyssa! Já? Nós ainda nem começamos a abrir os presentes! Deixa pelo menos
eu abrir o seu, bem rapidinho.
Ela foi até a mesinha dos presentes, ali perto, e apanhou o grande pacote retangular que
eu havia levado.
- Puxa, Lys! O que tem aqui? Um carro novo?
- Surpresa - respondi, toda agitada.
E dei alguns pulinhos, impaciente, enquanto minha amiga ,com enorme cuidado,
desfazia o laço de fita, soltava as laterais do pacote e retirava o papel. A minha filosofia
é de que presentes devem ser abertos na velocidade da luz. Betsy, entretanto, era
metódica demais para fazer isso. Ela chegava inclusive a guardar o papel de presente
para usá-lo de novo.
Por fim, Betsy tirou a tampa da caixa.
- Nooossa! - ela exclamou, pegando o vestido. - Lys, mas é... é tão ... é perfeito!
- Obrigada - eu falei, corando, toda contente. - Fico feliz que você tenha gostado.
- Não! Quem diz obrigada sou eu! - Betsy encostou o vestido no corpo e rodopiou pra lá
e pra cá, vendo o efeito que fazia, enquanto a saia farfalhava. Na hora em que me lançou
um olhar de gratidão, vi que o vestido combinava direitinho com a cor dos olhos dela.
Àquela altura, estava todo mundo em volta, olhando.
- É lindo! - Ruth elogiou, entusiasmada.
- Betsy! - Heather exclamou. - Você está parecendo a Kate Winslet em Titanic!
Cliff aproximou-se e soltou um assobio de aprovação. _
Minha nossa! Onde foi que você comprou esse vestido, Lyssa?
- Eu não comprei. Eu fiz.
- Foi você que fez? - O queixo de Cliff caiu. - Puxa!
- Parece trabalho de profissional - comentou a sra. Weddington.
- De onde você tirou? Algum molde da Vogue?
- Não. Eu mesma desenhei o modelo.
- Você desenhou?
- Mamãe, a Lyssa é capaz de costurar qualquer coisa – Betsy falou. - Não se lembra
daquele vestido amarelo que ela fez pra mim?
- Lembro, claro que lembro. Mas eu não fazia a menor idéia de que ela mesma
desenhava os modelos. - A Sra. Weddington ínclínou a cabeça para o lado e me olhou
por uns segundos.
- Lyssa, eu quero lhe dar uma coisa. Não vá embora já, espere um pouco.
- Tudo bem - falei, imaginando o que seria.
A Sra. Weddington entrou em casa e voltou momentos depois, sacudindo um cartão.
- Esse estágio apareceu não faz nem dois dias e ainda não tive tempo de colocá-lo no
quadro de avisos. Acho que seria perfeito pra você.
Assim que ela me entregou o cartão, li o que estava escrito.

Estágio - Savra Modas


Confecção sediada em Dallas procura estudante responsável,
com muita vontade de trabalhar, para auxiliar na
criação da coleção de primavera. O(a) Candidato(a) escolhido(a)
ficará encarregado(a) de pequenos serviços externos, da
organização do estoque e deverá atender o telefone.
Os(As) candidatos(as) precisam saber costurar e ter
conhecimentos sólidos sobre uma ampla variedade de
tecidos. Por favor, entregar pedido de estágio acompanhado
de três referências.

Pisquei e prendi a respiração, mal conseguindo acreditar. Ela está certa, pensei. Eu
podia me candidatar.
As meninas se juntaram ao meu redor, tentando ler o cartão.
- Você vai se candidatar, Lyssa? - A voz de Ruth vinha do meu ombro esquerdo.
- Vai lá, menina! - Betsy falou à minha direita.
- De que jeito, gente?! - Heather esganiçou. - Ela já tem uma carreira. Já está com a vida
totalmente feita.
Eu sabia que eram as minhas amigas que estavam falando, mas as vozes bem poderiam
ter vindo da minha consciência. Por um lado, era sensacional ter uma oportunidade
como aquela. Era o tipo de coisa que, em silêncio, eu esperava que acontecesse comigo.
Por outro, não tinha muita certeza se conseguiria lidar com o estresse familiar que tal
decisão provocaria. Será que eu poderia largar a carreira de modelo? Será que arrumaria
coragem suficiente para comunicar minha decisão a mamãe?
- Como é que você iria conseguir trabalhar como modelo, freqüentar as aulas e fazer
esse estágio? - Ruth perguntou.
- Eu teria de parar de desfilar e de fazer fotos - respondi.
- Você ficou louca? - Heather gritou. - Desistir da fama e da fortuna pra ser peão numa
confecção fedorenta?
- Pois eu acho que você aprenderia um bocado num emprego desses - disse a sra.
Weddington, me olhando seriamente. - Espero que pelo menos reflita a respeito.
Pode ficar descansada que eu vou refletir, sim, pensei com os meus botões.
Na volta pra casa, lembrei-me de tudo o que havia acontecido nos últimos tempos. Eu
não era uma pessoa muito religiosa, nem gastava dinheiro com coisas fúteis, como
Heather. De repente minha vida parecia corresponder aos meus sonhos mais secretos.
Primeiro foi Dante, que surgiu das sombras durante a festa e entrou direto no meu
coração, despertando em mim sentimentos que jamais imaginei ter por alguém. Depois
foi a sra. Doherty, que nos escolheu pra formar uma dupla de trabalho. De repente, lá
estava eu, dividindo com ele desejos que não teria admitido pra ninguém, e ele me
incentivando a torná-los realidade. E agora a mãe de Betsy vinha com aquele estágio
fantástico.
Talvez tudo isso estivesse escrito nas estrelas. Talvez o destino estivesse me enviando
sinais para indicar novas direções. Mas eu também podia estar redondamente enganada.
O destino não facilitaria a conversa que precisaria ter com mamãe.
Ela jamais me perdoaria se eu largasse a carreira de modelo. E, mesmo que eu me
candidatasse àquele estágio, não havia a menor garantia de que fosse conseguir a vaga.
Por que nadar tanto para morrer na praia?
- Mande só mais um sinal - falei, enquanto entrava na minha rua. - Se acontecer mais
alguma coisa que aponte o design de moda, eu me candidatarei ao estágio. Caso
contrário, não é pra ser.
Estacionei o carro, guardei o cartão do estágio na bolsa e entrei em casa.
Mamãe estava sentada à mesa, chorando.
- O que foi? - perguntei, correndo na direção dela. – Você está bem?
- A Pam acabou de ligar - ela respondeu fungando. - Você não vai acreditar no que
aconteceu ...
- A Pam? A minha agente? O que foi que ela disse?
Senti a ponta dos dedos amortecer. É agora ou nunca! Mais um sinal! Talvez eu não
tenha de largar a carreira - talvez eu esteja sendo despedida. Seria possível que
tivessem descoberto que eu havia me exposto ao sol do meio-dia? Ei, espere um pouco.
Eles não podem me despedir! Não depois de tanto trabalho. Quem eles pensam que
são?
Eu estava muito confusa. Não sabia a qual das sensações que me invadiam o peito
reagir primeiro.
_ Ah, minha flor - disse mamãe, com um soluço que partiu a frase ao meio. Depois se
levantou e me abraçou. - Você conseguiu. Você foi aprovada pra fazer o comercial.
Estou tão orgulhosa de você!
-O quê?
Mamãe me soltou e enxugou os olhos com um lenço.
_ Eu sabia que você ia conseguir. Eu disse a Pam que estava com esse pressentimento,
mas ela não quis me escutar. Você tem tanto talento, meu bem. Seu pai vai ficar feliz
quando você contar pra ele. Muito feliz mesmo!
Calando-se por alguns momentos pra recuperar o fôlego, ela tornou a me olhar e
começou a rir.
_ Olha só pra você! Parece que está em estado de choque.
_ Eu estou bem - falei, tentando forçar um sorriso.
Não havia como ignorar o fato de que ali estava o meu sinal.
6- Dante

No domingo à tarde, peguei-me paralisado diante da porta da casa de Lyssa, mais ou


menos como se estivesse contemplando uma peça rara em algum museu. Meu coração
havia disparado e meu dedo hesitava em tocar a campainha. O que eu vim fazer aqui,
afinal?
Minutos antes, eu estava rodando pela cidade tentando clarear as idéias. Quando dei por
mim, o Fusca já estava parado na frente da casa dela, como se tivesse sido programado
pra isso.
Lyssa não me saía da cabeça. Eu tinha pensado nela a semana toda. Fiquei olhando pra
ela do começo ao fim da aula de orientação vocacional e, o que é mais surpreendente,
todas as vezes que tentei anotar qualquer coisa o que saiu na folha do caderno foi o
nome dela. Eu estava ficando apavorado com aquela situação. Eu já havia sentido
paixões avassaladoras por causas sociais, mas jamais por uma menina. E aquela minha
nova obsessão não podia ser resolvida com passeatas de protesto, discursos ou artigos
mordazes na imprensa. Pela primeira vez na vida, eu não fazia a menor idéia de como
canalizar minhas emoções. Lyssa tinha todas as qualidades que eu lutava para que o
mundo preservasse: era inteligente, bonita, natural e possuía um coração de ouro. Eu
não teria a menor dificuldade em dedicar toda a minha vida a ela.
- Sai logo dessa, seu trouxa! - disse a mim mesmo. – Você está delirando.
Suspirei num desânimo de dar dó e virei-me para ir embora.
Quando eu encarava a situação racionalmente, minha causa parecia perdida. Pra
começar, nós não tínhamos muita coisa em comum. A bem da verdade éramos pólos
opostos: a bela e o beatnik. A princesa e o plebeu. Mas meus hormônios estavam
atrapalhando o meu raciocínio. Será que o rosto perfeito de Lyssa tinha me
enlouquecido? A literatura estava cheia de casos assim: Helena de Tróia, ]ulieta,
Guinevere, Lois Lane. Entretanto, não havia como negar certas coisas, por mais
incríveis que pudessem parecer. Uma delas era que Lyssa dava a impressão de gostar de
mim, mesmo que apenas como amigo. Ela ria das minhas piadas infames, se interessava
por minhas opiniões e tinha inclusive se aberto comigo e contado que não queria mais
ser modelo.
Será que não valeria a pena tentar?
Estanquei na frente da porta e me encostei numa das colunas da fachada. Eu precisava
fazer alguma coisa. Talvez pudesse enxergar as coisas com mais clareza, se nos
encontrássemos de novo. Então eu saberia se havia mesmo alguma química entre nós ou
se era só imaginação minha.
Respirando bem fundo, dei mais alguns passos até a porta e apertei a campainha. Um
minuto depois Lyssa abriu a porta, viu que era eu e soltou um grito. Não era lá um bom
sinal.
- Ai, minha nossa! Eu estou um horror - ela exclamou, virando a cabeça e tentando
esconder o rosto com a mão. – Eu não estava esperando ver ninguém hoje!
Ela estava de agasalho, camiseta branca e óculos. Seus cabelos tinham sido puxados
para trás e presos com algumas presilhas coloridas. Não havia nenhum sinal de
maquiagem em seu rosto.
Lyssa estava linda!
Quer dizer, não era aquela menina arrumadinha e glamorosa de sempre; estava mais
natural. Gotas de suor brilhavam sobre sua pele como se fosse purpurina. Seus olhos
pareciam enormes e inocentes. E, sem a costumeira camada de batom cheio de brilho,
seus lábios estavam rosados e extremamente beijáveis. Ela dava a impressão de ser mais
jovem - e mais real.
- Você está o máximo! - declarei como se fosse algum especialista no assunto. Bem...
talvez de certa forma até fosse, já que havia dedicado todas as horas dos últimos dias ao
estudo daquele rosto.
Lyssa baixou a mão e sorriu timidamente pra mim.
- Obrigada - sussurrou. - E então... o que o trouxe até aqui?
Rum... Eu não tinha pensado no que dizer. É culpa do meu raio rastreador de beleza?
Uma fortíssima dependência física da sua presença?
- Eu... ahn ... eu me esqueci de anotar a tarefa que a Sra. Doherty passou na última aula
e achei que talvez você pudesse me dizer qual é - gaguejei. - Eu ia ligar, mas... mas eu
estava aqui por perto.
A gola da enorme camiseta que Lyssa estava usando tinha escorregado um pouco e seu
ombro brilhava, liso e redondo, sob as luzes do candelabro. Olhei pra baixo e comecei a
raspar o pé no chão, tentando lutar contra o impulso de acariciar a pele exposta.
- Por coincidência eu estava trabalhando nisso - ela respondeu -, mas ainda não saiu
nada. - Ela arrumou a camiseta e cobriu o ombro. - Vamos lá pra cima que eu passo pra
você.
Como um cão leal ao seu dono, eu a segui até o seu quarto.
A tela do computador faiscava, rodeada por várias pilhas de papéis. Pelo visto, ela
estava trabalhando em algum projeto, mas a tela continuava em branco.
- A Sra. Doherty quer que a gente entregue um rascunho do nosso currículo amanhã.
Não pode ultrapassar uma página. Claro que, pra mim, isso não é problema nenhum -
ela resmungou, remexendo na miscelânea de papéis sobre a mesa. - Minha lista de
atividades escolares não ocuparia nem uma embalagem de chiclete, que dirá uma folha
de papel.
Soltando um suspiro, Lyssa se deixou cair na cadeira da escrivaninha, fazendo que a
camiseta escorregasse de novo. Minha mão tremeu louca pra tocar aquele ombro.
- Ahn... Olha... Eu tenho um pouco de experiência com essas bobagens - falei, fazendo
um esforço enorme pra parecer calmo. - Você quer que eu ajude?
Lyssa girou na cadeira e me olhou cheia de gratidão.
- Você faria isso? - ela perguntou. - Seria o máximo!
- É pra isso que servem os colegas, não é?
E, sem conseguir me conter, estendi a mão e dei um tapinha de leve em seu ombro nu.
O movimento foi rápido e natural, como um reflexo involuntário, mas aquele simples
toque pareceu ter ligado todo o meu corpo. Não sei se Lyssa sentiu a mesma coisa. Ela
passou os dedos no ombro que eu havia tocado e me olhou com uma expressão
indecifrável. Achei que o gesto era de aprovação, mas também podia ser que meus
dedos estivessem frios, só isso.
Lyssa baixou os olhos, timidamente, e fixou-os na camiseta.
Eu olhei para o teto, tentando recuperar a sanidade.
- Então... Quer me mostrar o que você tem? Quer dizer... no seu currículo - falei com
voz trêmula.
- Não tem quase nada, na verdade. Escuta só. - Ela pegou um caderno espiral e começou
a ler em voz alta. - "Modelo da Agência de Talentos Turner. Atribuições: sorrir, posar
para a câmera, desfilar pra lá e pra cá numa passarela, usar roupas e saber ficar bem
quietinha." Viu? Eu pareço mais um brinquedo do que alguém que trabalha.
- O truque está na forma de usar as palavras. Você deveria dizer "demonstrar produtos"
em vez de "usar roupas". Ou então "auxiliar no trabalho de publicidade e de
marketing”. Lyssa riu.
- Taí! Gostei dessa! - Ela se virou na cadeira e começou a digitar. - Ahn... Em vez de
"shows de moda e fotos publicitárias" será que eu não podia dizer. .. "vários trabalhos
para a mídia"?
- Você pegou a manha! - respondi, olhando por cima do ombro dela. - Não fez mais
nenhum trabalho? Nunca vendeu biscoitos para angariar fundos para uma instituição ou
algo do tipo?
- Bom, eu cuidei dos três filhos de uma vizinha durante uma semana, enquanto a babá
tirava férias.
- Já é alguma coisa - falei, coçando o queixo. – Poderíamos chamar de "engenharia
doméstica". Que tipo de tarefa você teve de fazer?
- Vejamos... eu preparava o almoço.
- Põe aí "consultoria dietética" - falei.
-Levei o mais velho para treinar futebol- ela continuou.
- "Assistência em deslocamentos geográficos."
- Providenciei pra que eles não se matassem...
- "Negociação e resolução de conflitos."
- E troquei fraldas.
- Essa é um pouco mais difícil. O que você acha de "manutenção sanitária"?
Lyssa inclinou a cabeça pra trás e riu. Seus cabelos lisos roçaram o encosto da cadeira.
- Perfeito!
Também acho...
Ela terminou de digitar, salvou o texto e o leu de novo.
- Ei, sabia que você fez isto aqui ficar apresentável? Quase profissional, eu diria. Você
acha que a sra. Doherty vai engolir?
Dei de ombros.
- Mentindo você não está. Você apenas... maquiou um pouco as coisas. Não há nada de
errado nisso.
Lyssa voltou ao topo da página e digitou a palavra objetivo em negrito. 'Fitou-a alguns
segundos, suspirou e tornou a afundar na cadeira, tirando as mãos do teclado.
- Você vai pôr aí que está pensando numa carreira em design de moda? - perguntei,
hesitando um pouco.
- É, fiquei sabendo de um estágio que seria ideal pra mim - ela começou a dizer, ainda
de olho na tela.
- Uau! Que dez! Quer dizer, então, que você vai se candidatar à vaga?
Ela roeu a unha, depois parou e sussurrou:
-Não.
- E por que não? Eu achava que era isso que você queria fazer.
Lyssa soltou um suspiro mais profundo e me encarou com os olhos cheios d'água.
- E é. Só que não posso. Não enquanto eu for modelo. Sei que você acha que eu' deveria
largar tudo, mas no momento ... - Desviou seu olhar para o chão. - Está complicado.
Não dá.
Minha vontade era protestar e dizer a Lyssa que ela tinha o direito de fazer o que
quisesse com seu futuro, mas algo me segurou e me disse pra calar a boca. Ela devia
estar sofrendo uma pressão enorme. Na verdade, dava a impressão de se sentir
esmagada por um grande peso. De repente ficou tão triste, parecendo tão frágil... Quis
me ajoelhar ao seu lado, tirar o cabelo que havia caído em seu rosto e lhe dizer que no
fim tudo daria certo.
- Dante... - ela falou, me olhando de novo. Era a primeira vez que dizia meu nome e, por
alguma razão, fiquei todo arrepiado.
- Hein?
- Você já se candidatou a algum estágio?
Era a minha vez de suspirar e mirar o chão.
- Ainda não. Tem um que eu vi pregado no quadro de avisos. É perfeito pra mim, uma
vaga de assistente na Folha da Manhã de Dallas. Mas... - Dei um sorriso meio triste. -
Pra que alimentar falsas ilusões? Eles nunca me contratariam.
- Por que não?
Mostrei minhas roupas com um gesto.
- Ora, por quê?! Eu não sou o tipo "certinho" que anda com uma pasta e usa gravata.
- Mas que bobagem! - exclamou Lyssa, levantando-se em um salto. Ela me examinou
de alto a baixo, com a mão no queixo, como se fosse uma artista estudando seu modelo.
- Você consegue, sim. Só precisa de um corte de cabelo e de uma calça nova.
Então, antes que eu tivesse a chance de protestar, Lyssa virou a cadeira giratória, me fez
sentar e colocou um lençol em cima de mim. Um minuto depois estava borrifando água
no meu cabelo e passando nele um pente de dentes largos.
- O que você vai fazer? - perguntei, feito um bobo.
- Não se preocupe. Pode confiar em mim - ela sussurrou,enquanto virava minha cabeça
para a direita. - Eu faço isso o tempo todo. Você vai ficar com uma cara ótima.
Ao sentir o hálito dela na minha orelha e uma leve pressão no meu couro cabeludo,
estremeci inteiro várias vezes. Fechei os olhos e me entreguei ao momento, tentando
imaginar a cena. Eu me via na cadeira, paralisado, Lyssa trabalhando com afinco, e,
embaixo, uma legenda que dizia: Garoto da comarca pega fogo ao ter o cabelo cortado
por jovem modelo.
Lyssa pegou um cortador elétrico e pôs mãos à obra.
- Agora, por favor, não se mexa - ela pediu. - Não vai doer nem um pouquinho.
- Certo... - Minha voz saiu trêmula.
Fiquei absolutamente imóvel enquanto o cortador elétrico ia tosando o cabelo atrás da
orelha, fazendo cócegas na pele e vibrando no crânio. Enquanto cortava, Lyssa ia me
aconselhando sobre o que usar na entrevista da Folha da Manhã de Dallas.
- Não vá de temo nem nada do tipo – instruiu ela. – Fica muito nerd. O ideal é uma
calça de sarja cáqui e uma camisa pólo abotoada até em cima.
Tentei lembrar se tinha algo parecido no meu guarda-roupa.
Eu achava que tinha uma calça cáqui, mas não me lembrava da camisa pólo.
- Você não pode ir de tênis, mas acho melhor também não usar nada com muito brilho -
Lyssa continuou. - Você tem mocassins marrons?
- Não, mas tenho umas botas marrons super-resistentes, dessas pra caminhadas longas.
- Sei... Mas não servem.
- E se eu pegar emprestado do meu pai? Nós calçamos o mesmo número. E não se
preocupe: eu sei que meia grossa não combina.
- Ótimo - ela disse, achando graça. Depois desligou o cortador de cabelo e colocou-o
sobre a penteadeira. - Agora deixa eu ver se ficou direito. - Lyssa inclinou um pouco o
corpo pra frente, inspecionando o topo da minha cabeça. Tê-la assim tão perto de mim
me fez engolir em seco. Estudei seu rosto como se fosse uma paisagem e reparei que
não tinha nenhuma mancha ou marca. Fiquei fascinado com a curva de seu queixo.
Estava louco para tocá-lo.
- Parece ótimo - ela murmurou, examinando o corte.
Também estou achando...
Ela baixou os olhos até encontrar os meus e sorriu tímida.
Meu corpo começou a pegar fogo. Eu tinha razão. Não havia mais dúvidas de que tinha
uma química entre a gente.
Após alguns arrepios na espinha, Lyssa endireitou o corpo e quebrou o encanto.
- Dê uma olhada. - E puxou o lençol, apontando para o espelho. - Gostou?
- Uau! - exclamei. Um simples corte havia feito uma diferença enorme. Era como se ela
tivesse modificado o meu rosto, e não o meu cabelo. Meu maxilar parecia mais largo e
mais forte, e meus olhos davam a impressão de serem maiores. - Você é capaz de fazer
milagres!
Ela sorriu e começou a espanar os fios cortados dos meus ombros e do meu pescoço.
- Bem, Sr, Michaels - disse ela, com voz profissional -, creio que achamos o que
estávamos procurando. - Depois sorriu com ar travesso e me estendeu a mão. - Quando
podemos começar?
Segurei a mão de Lyssa entre as minhas, respirei bem fundo e disse muito sério:
- Que tal no sábado à noite? Lá pelas oito horas?

7- Lyssa
Ele me chamou pra sair! Ele me chamou pra sair!
Depois que Dante foi embora, dancei com meu coelhinho de pelúcia pelo quarto. Eu
não me sentia tão feliz e empolgada desde ... desde antes de nascer, eu acho.
Mal podia acreditar. Eu lá, de óculos, sem nem um pouquinho de maquiagem no rosto, e
mesmo assim ele tinha me chamado pra sair. Quando abri a porta e o vi, minha vontade
foi de sumir debaixo do capacho. Você me entende, né? Eu tinha passado a semana
inteira pensando nele. Bem na hora em que parecia uma criatura saída dos livros de
mistério de R. L. Stine, ele surgiu na minha frente. É sempre assim ... Dante não
demonstrou estar preocupado com meu estado deplorável. Aliás, disse que eu estava o
máximo. Você quer mais que isso? Tudo bem que havia a possibilidade de ele ser
totalmente míope, mas fiquei com a impressão de que tudo o que me disse foi pra valer.
- Ele gosta de mim, Boo-Boo! Ele gosta de mim como eu sou.
E ficou com um jeitinho tão feliz, tão bonitinho, depois que eu cortei o cabelo dele! Foi
como se pela primeira vez na vida tivesse percebido a própria beleza. Quem sabe eu
podia lhe dar mais algumas dicas de moda, ajudá-lo a se sentir melhor consigo mesmo.
Aí talvez ele parasse de ser tão pessimista o tempo todo.
- Ele me convidou pra sair! - repeti pela milésima vez, esmagando de tal forma o pobre
Boo-Boo que seus olhinhos de botão quase saltaram fora.
O protetor de tela do meu computador me chamou a atenção: era uma explosão colorida
de fogos de artifício, o que me pareceu bastante apropriado, tendo em vista meu grau de
felicidade.
Dante tinha feito com que eu me sentisse melhor, havia me ajudado com o currículo e
tornado uma enorme frustração num momento de pura diversão. Tinha conseguido fazer
que eu me sentisse inteligente e capaz de fazer qualquer coisa nesse mundo.
Toquei no mouse e o protetor de tela sumiu, revelando de novo o meu currículo. Estava
tudo ali, menos o objetivo. Será que eu podia mesmo fazer qualquer coisa?, perguntei
em voz baixa. Será que eu devia pôr que pretendia ser designer de moda?
O telefone tocou.
_ Alô? - atendi meio zonza, na esperança de que pudesse, ser Dante.
- Oi, princesa! - Era papai.
- Oi, papai. Como vai o senhor?
- Tudo bem. Você está com uma vozinha muito feliz.
Sorri pra mim mesma no espelho da penteadeira.
- Eu estou feliz.
- E eu sei o porquê - papai falou em tom brincalhão.
_ Sabe? - engoli em seco. Como é que ele poderia saber?
Será que mamãe tinha percebido algo entre Dante e mim e contado pro papai?
_ Sim, senhora. Aposto como você está pisando nas nuvens por causa daquele
comercial, certo?
- Ah. Ahn... É. - Me pegou de surpresa.
Eu tinha me esquecido do assunto. É claro que continuava animada por ter conseguido
o papel, mas meus sentimentos em relação a Dante haviam apagado o comercial da
minha cabeça.
_ Você mereceu. Vem trabalhando tanto... - Papai se calou por alguns instantes, depois
falou com uma voz mais grave e trêmula.
- Eu tenho muito orgulho de você, filhota.
As lágrimas me vieram aos olhos. Eu não sabia por que estava me sentindo triste, mas
sabia de uma coisa: jamais poderia abandonar a carreira de modelo, se aquilo deixava
papai tão orgulhoso.
- Obrigada, papai - respondi baixinho
. - Bom, mas como eu ia dizendo... - papai pigarreou e continuou.
- Sua mãe me disse que o comercial vai ser rodado daqui a duas semanas, durante o fim
de semana que eu tinha reservado pra ir visitá-la.
- Não brinca! - Senti um aperto no coração. - Ah, papai, me desculpe. Eu não sabia.
- Sem problema, princesa. Eu entendo como isso é importante pra você. Sua mãe me
falou que, depois desse comercial, os fins de semana seguintes também vão estar
tomados com outras fotos publicitárias. Pelo visto nós só vamos nos ver no Dia de Ação
de Graças!
- No Dia de Ação de Graças?!
Eu não estava crendo! Tinha visto meu pai pela última vez no feriado da independência.
Durante o resto do ano, trabalhei direto. Mamãe tinha dado um jeito de eu ter o máximo
de compromissos possível antes do início das aulas. E agora só ia rever meu pai no fim
do ano!
- Papai, olha, eu não preciso participar de todas as propagandas.
Talvez desse pra eu... Um bipe no telefone me avisou que havia uma outra chamada
na linha.
- Vou deixá-la atender, filha. Você sabe que é sempre bem-vinda.
Converse com sua mãe e veja se consegue arrumar um tempinho, certo?
- Tá bom. Um beijo, papai.
- Outro pra você.
Ele desligou e eu fiquei ali parada durante alguns segundos antes de atender a outra
linha. Instantes antes eu me sentia tão feliz, era como se estivesse voando. Agora todos
os meus problemas haviam me trazido de volta à terra. Passou pela minha cabeça que
talvez a sensação de praticar bungee jump fosse bem parecida.
Respirei fundo e atendi a segunda ligação.
- Alô? - eu falei.
- Alô? - Era uma voz masculina e grave. - Lyssa? É você?
Dante!
_ E então, meu senhor? - falei num tom de óbvia paquera.
- Cadê a minha gorjeta?
- Não entendi.
De repente, a voz não parecia mais com a de Dante.
- Quem é? - perguntei cautelosa.
- Lyssa, sou eu.
-Eu quem?
-O West!
- Ah... - Nem tentei disfarçar o desapontamento.
_ Estava esperando outra pessoa? - E West riu, como se aquela tivesse sido a pergunta
mais absurda de todos os tempos.
- E aí, West, como vão às coisas?
Ele parou de dar risada e pigarreou. Quando voltou a falar, sua voz estava toda melosa.
_ Só queria ouvir sua voz um pouco, gata. Já faz um tempo.
Quem ele pensava que era? Barry White?
- É, pois é. Andei meio ocupada.
_ Eu logo imaginei que fosse isso. Eu também estou com a agenda lotada. Meu agente
tem recebido chamadas de tudo quanto é lugar, me procurando pra fazer comerciais. Na
semana passada eu trabalhei na mostra de carros da feira estadual. Mas fazer o quê, se
todo mundo me procura?
- Ahan. - Socorro, pensei.
_ Bom, tem uma coisa que você vai adorar. O que você quer primeiro: a boa notícia ou
a notícia boa?
- Você decide.
_ Então tá. Bem, parece que estarei com a agenda livre no próximo sábado. - West
calou-se, esperando algum tipo de reação, talvez uma salva de palmas ou o rufar de
tambores.
- Certo. E...?
_ E nós podemos sair - ele completou, num tom já meio impaciente.
_ Ahn... West, não vai dar pra sair com você nesse sábado
- Ah, que pena. Você está com trabalho marcado?
- Não. Mas já fiz planos de sair com uma pessoa.
- O quê? Fala sério!
Foi minha vez de ficar irritada.
- E por que eu haveria de inventar uma coisa dessas?
- Eu sei lá. Pra dar o troco, porque eu não liguei pra você a semana toda?
- Não ligou, é? - Tentei me lembrar. - Acho que eu nem reparei.
- Muito engraçadinha. Olha só, eu andei ocupado. – O tom era de sedução. - Pára com
isso, Lyssa. Não faz assim.
- Eu não estou mentindo pra você, West. Vou sair com uma pessoa no sábado.
- Posso saber com quem? - ele perguntou ofendido.
- Com o Dante Michaels. Você o conheceu. Aquele repórter da festa.
- Repórter... - ele repetiu baixinho. Depois começou a se lembrar. - Aquele cafona sem
graça? Tá bom, gata. Fala sério! Ufa, você quase me pegou!
Minhas entranhas deram um nó e tive a nítida sensação de que o topo da cabeça iria
explodir.
- Eu não estou brincando, West! - falei alto, com os dentes cerrados. - Nós vamos sair.
A gargalhada que estava presa saiu toda de uma vez da boca de West.
- Você tá me tirando? Vai sair com aquele cara?
- Qual o problema?
- Ora, Lys. O panaca deve comprar as roupas dele no brechó do Exército da Salvação.
Você não viu o jeito como ele estava vestido?
- Tchauzinho, West! - berrei.
Eu estava prestes a desligar quando o escutei dizendo:
- Ei, espera um pouco. Deixa eu falar.
Pensando que ele fosse pedir desculpas, esperei.
- Eu ainda não contei a outra boa notícia.
- Bem... e qual é?
- Ouvi dizer que você foi escolhida pra fazer aquele comercial da Cutter Electronics pra
televisão. É verdade?
-É.
- Eu também. Pelo visto, a gente ainda vai se encontrar.
Numa explosão de raiva, desliguei o telefone e o atirei longe.
Ele bateu na cama, pulou e foi cair numa pilha de catálogos.
Cafona sem graça? A voz antipática de West ecoava na minha cabeça. Quem foi que
lhe deu o direito de falar mal de Dante?, pensei.
O Dante é maravilhoso, engraçado, inteligente, simpático, gentil. E daí que ele não
sabe se vestir direito? Ele só precisa de uma ajudazinha.Mais nada.
Peguei do chão uma mecha do cabelo dele e a esfreguei entre os dedos.
_ Eu vou ajudá-lo - sussurrei baixinho. - Vou mostrar ao Dante e a todo mundo que ele
pode mudar. E muito. Ele vai ficar o maior gato!
Sorri com os meus botões, lembrando-me de como ele havia ficado impressionado com
o corte de cabelo. Imagine quando percebesse o que algumas roupas legais podiam fazer
por uma pessoa.
Aposto como o Dante nunca se deu conta de que é lindo, pensei.
Sentada no chão, peguei o telefone e tirei debaixo dele um catálogo da Spiegel. Depois
procurei a seção de acessórios masculinos no índice.

8-Dante
Quando as aulas começaram, achei que o curso de orientação vocacional representaria
cinqüenta e cinco minutos jogados no lixo. A Sra. Doherty era irritante, os filmes que
ela mostrava eram inúteis, e as tarefas beiravam a imbecilidade. E eu não estou
exagerando. Um dia fizemos um teste que devia revelar qual a melhor carreira pra cada
um. De acordo com os resultados, eu estava destinado a subir aos palcos de Nova York,
e Jamal era um cientista nato com ingresso garantido na Nasa. Por aí já dá pra ter uma
boa idéia do que eram as aulas dela.
Mas tudo mudou de figura de uma hora pra outra. De repente, comecei a amar as aulas
de orientação vocacional e não queria que elas terminassem nunca, porque eram minha
única oportunidade de ver Lyssa, já que ela vivia trabalhando.
Cinco dias depois de ela ter concordado em sair comigo, a Sra. Doherty nos mandou
sentar- com o parceiro de trabalho e começar a montar os portfólios.
- Lembrem-se, meninos e meninas - começou ela -, de que vocês só têm duas semanas
até a data de entrega. Tentem fazer bom uso do tempo que lhes resta.
Ao ouvir isso, as duplas se reuniram, pegaram os portfólios e se puseram a tagarelar.
Um dos fatos indiscutíveis desta vida, que professor nenhum parece entender direito, é o
seguinte: tendo a oportunidade e a liberdade de conversar em sala de aula, o aluno vai
falar sobre qualquer coisa, menos sobre o tópico em discussão. Tirando Arnold
Sipowitz, que estava ocupado em colar etiquetas do tipo profissional e impressas a laser
no portfólio dele e no de Jamal, os demais alunos falavam de esportes, comentavam os
programas da MTV e fofocavam sobre a peruca do vice-diretor. Só quando a Sra.
Doherty se aproximava de alguma mesa é que o pessoal se punha a discutir os objetivos
de carreira ou os planos para a faculdade.
Lyssa e eu, lado a lado, trocávamos sorrisos secretos.
_ Sabe que seu corte ficou super legal? - ela falou, estudando a minha cabeça com ar de
aprovação. - Você até parece mais velho.
Estalei os dedos.
_ Ahá! Bem que eu desconfiava que houvesse um motivo para eu estar tomando aqueles
energéticos!
Ela riu e revirou os olhos.
_ Mas, falando sério, muito obrigado - cochichei, inclinando- me pra frente, na direção
dela. - Eu tenho mesmo um cabelo fantástico!
Nossos olhares se encontraram e Lyssa iluminou a sala inteira com seu sorriso. Quando
finalmente consegui desviar os olhos do rosto dela, vi Jamal à direita. Ele deu um
sorriso e colocou o polegar pra cima.
Na segunda-feira, quando lhe contei que havia convidado Lyssa pra sair e que ela tinha
aceitado, o seu espanto foi visível.
Primeiro caiu o queixo e depois os joelhos se dobraram.
_ Você... é o meu herói! - Ele deve ter repetido essa frase umas mil vezes. Eu disse que
era só um encontro e que tínhamos ficado amigos por causa daquela besteira de
portfólio, mas ele insistiu em fazer um grande estardalhaço em torno do sábado. - Ouça
o que estou lhe dizendo, Dante. Essa menina ainda vai ser a sua salvação.
Cheguei a me perguntar se a Sra. Doherty não teria trocado meu teste com o de Jamal.
Não havia dúvida de que a coisa do drama era com ele! .
_ Quer saber de uma coisa? - Lyssa falou, estendendo o braço e mexendo na manga da
minha camiseta verde. - Essa cor fica muito bem em você. Devia usar sempre.
_ Mas... Será que não ia começar a cheirar mal depois de uns dias? - retruquei na lata.
Ela bateu na minha testa com a caneta.
- Estou falando do tom de verde, não da camiseta!
- Ah, entendi.
- E aquele jeans que você usou ontem, o de corte clássico?
Também ficou muito bem em você. Ela não fez aquele comentário em tom de paquera -
na verdade, parecia quase uma profissional -, mas suas palavras fizeram meu corpo
formigar da raiz do cabelo até a ponta dos pés.
- Bom... - engoli em seco e endireitei a gola da camiseta.
- O jeito é achar uma calça como aquela neste tom de verde!
Meu consolo é que, de onde estava Jarnal não podia nos escutar. Se me ouvisse falando
sobre coisas como cores e cortes de calça, eu não teria mais sossego. Na verdade, eu
estava bastante surpreso comigo mesmo. Antes de começar a me dar bem com Lyssa, eu
teria tido um troço se alguém mencionasse algo do tipo, mas me peguei curtindo os
elogios dela.
Lyssa fizera questão de elogiar vários itens do meu guarda roupa a semana inteira e,
com isso, eu descobrira qual par de tênis era legal e que óculos escuros ela achava o
máximo.
Até então eu havia escutado pouquíssimos comentários a respeito da minha aparência.
Não que isso me incomodasse. Eu vivia dizendo aos quatro ventos que as aparências
não tinham a menor importância, e continuava acreditando nisso. No entanto, por mais
que relutasse em admitir, estava adorando as atenções que Lyssa vinha me dando.
- Eu estou louca pra que o sábado chegue logo - ela me disse.
- É. Eu também - respondi, sentindo-me um pouco nervoso, sem atinar com o motivo. -
Eu passo pra te pegar as oito, ta? Está tudo certo?
- Claro. Eu só preciso... de três cartas de recomendação.
Meu coração parou de bater por alguns segundos, até perceber que a Sra. Doherty estava
por perto, levando Lyssa a mudar de assunto no meio da frase.
- Como estamos indo aqui? - a professora perguntou.
- Muito bem - respondemos os dois juntos.
- Hummm... Deixa eu dar uma olhada. - Ela folheou meu portfólio, balançando a cabeça
e soltando uns gemidos diante dos recortes de jornal, do histórico escolar, dos prêmios
literários e do meu currículo. Depois folheou o portfólio de Lyssa, examinando as fotos
tiradas para catálogos e revistas. - Bem, vocês dois estão fazendo um bom trabalho. Está
tudo muito bom mesmo!
Lyssa e eu agradecemos em uníssono.
- Mas eu receio que estejamos precisando de um pouco mais de equilíbrio. Olhem só:
temos aqui uma amostra detalhada e excelente da carreira de modelo iniciada pela Srta.
Naylor e uma seleção considerável de artigos escritos pelo Sr. Michaels. Entretanto,
ambos precisam demonstrar melhor como são em classe.
- Ahn... mas como podemos demonstrar isso? - perguntei, sem saber ao certo se deveria
ter incluído ali registros das minhas suspensões, causadas por protestos não-autorizados
na escola.
- Tirem algumas fotos! - respondeu alegremente a Sra. Doherty. - Incluam alguns
instantâneos que mostrem os alunos diligentes que são. Deixem que o futuro
empregador veja o que todos vêem aqui no colégio.
Será que ela existia mesmo? Por que cargas d'água um futuro empregador se interessaria
em ver fotos minhas? Pela expressão de Lyssa, nem ela tinha se animado com a idéia.
Entretanto, como de hábito, a Sra. Doherty nem deu bola pra nossa opinião. E eu sabia
que não haveria como convencê-la do contrário. Ela era uma daquelas professoras que
faziam questão de que suas instruções idiotas fossem cumpridas à risca.
- Então estamos combinados! - O tom era de felicidade celestial. - Continuem
trabalhando direitinho!
- E então? Quer tirar umas fotos minhas no ambiente escolar? - perguntei a Lyssa depois
que a professora se afastou. – Por exemplo, uma foto minha estrangulando a professora
de orientação vocacional?
- Ah, você não vai me querer pra fazer esse trabalho. Eu sou uma péssima fotógrafa.
Vivo cortando a cabeça das pessoas e fazendo os olhos de todo mundo saírem
vermelhos.
- Nossa, que violência! Pra ser sincero, eu também não dou muito pra coisa.
Olhei de novo pro Iamal. Ele estava afundado na carteira, agitando a caneta como se
fosse uma batuta, enquanto Arnold media com extremo cuidado as margens das folhas
do portfólio.
- Mas acho que conheço a pessoa certa pra nos ajudar. Se ele conseguir ficar de bico
calado...
- Bem, cá estou - anunciou Jarnal, entrando na classe de jornalismo como se fosse um
astro de rock pisando no palco. _ Ela já chegou?
- Ainda não - falei de olho grudado no corredor atrás do meu amigo. Depois, andei até
uma cadeira, me sentei, levantei de novo e fui olhar o corredor outra vez.
Jamal apontou pra mim e riu.
- Olha só isso! O cara tá nervoso!
- Para de me tirar, Jamal!
- Qual é cara? Pode se abrir comigo. Você tá mesmo a fim da menina, não é?
- Cala a boca! Ela pode chegar a qualquer minuto!
Jamal ergueu as mãos em sinal de rendição.
- Tá bom, tá bom. Fica frio, cara. É que é meio esquisito ver Dante Michaels, o grande
defensor das causas nobres, virar um colegial emotivo, de mãos suadas.
- Tudo bem. Pode continuar se divertindo à minha custa _ resmunguei, cruzando os
braços. - Não sei por que eu conto as coisas pra você.
- Calma cara! Só estou feliz por você. A Lyssa me parece muito melhor do que as outras
meninas com quem você já saiu essas calouras piradas que usam túnica africana e vivem
citando Maya Angelou.
- Ah, é? E eu posso saber por que a Lyssa parece ser melhor pra mim?
Jamal deu de ombros e arriou numa cadeira.
- Porque você desceu do palanque e veio fazer companhia pra nós, míseros mortais.
Quem sabe se você tiver uma super modelo como namorada vai perceber que a vida não
é tão má...
Sacudi a cabeça, impaciente.
- Em primeiro lugar, ela não é minha "namorada". Nós ainda nem saímos. Em segundo
lugar, se você pensa que eu vou abandonar minhas causas por um rostinho bonito, está...
- Credo, não foi isso que eu falei! - Iamal ergueu a mão, numa tentativa de me acalmar.
- Mas que tem uma coisa meio diferente em você, tem. Não leve a mala que eu vou
dizer agora, mas nos últimos dias você ficou mais bacana.
- É, tá bom - retruquei, lançando-lhe um olhar de poucos amigos.
Porém, ao me virar, vi minha imagem de corpo inteiro no espelho que havia na entrada
da câmara escura. Jamal tinha razão. De fato, eu parecia diferente. E não era só por
causa do corte de cabelo.
Nos últimos dias, pela manhã, andava gastando um pouco mais de tempo com a minha
aparência. Tudo havia começado no domingo à noite, depois de Lyssa me dizer que
sairia comigo.
Estava pondo minha roupa pra lavar e de repente reparei que tinha muita coisa
desbotada ou rasgada. Dei uma geral no fundo do guarda-roupa e descobri algumas
camisas e calças que havia ganhado de Natal e de aniversário. Eram meio cheias de
frescura pro meu gosto (justamente por isso estavam no fundo do guarda roupa), mas
cheguei à conclusão de que teriam de servir até eu poder comprar umas peças que
fizessem mais o meu tipo. Na manhã seguinte, recarreguei meu barbeador elétrico não
deixei sobrar nem um fio de barba no rosto. Até coloquei um cinto! Dali em diante,
comecei a me vestir com mais cuidado.
O engraçado é que, durante a semana, todo mundo reparou em mim mais do que o
normal. Os professores sorriam e me cumprimentavam; gente que eu achava que nem
sabia que eu existia passou a dizer "oi" nos corredores. Comecei a me perguntar se, por
trás daquele súbito aumento de popularidade, estava a minha nova aparência, ou se era
apenas um reflexo da emoção que tomava conta de mim porque minha grande noite
com Lyssa estava chegando.
Fosse o que fosse Jamal tinha razão. Eu estava diferente, me sentia diferente, e o mundo
realmente parecia um lugar melhor pra se viver.
-Oi, meninos. - Lyssa entrou na sala com um sorriso que me iluminou como um farol. -
Desculpem o atraso. Tive de ligar pra minha mãe antes.
- Sem problemas - falei. - Eu sabia que você viria.
]amal deu uma tossida e se levantou.
- Ah, Lyssa, este é ]amal, o fotógrafo. Você já o viu na classe.
- Claro que sim. Oi ]amal-o-fotógrafo". Achei super legal você ter concordado em
ajudar a gente nesse trabalho idiota.
- O prazer é meu. - A língua dele devia ter ficado duas vezes maior, porque me pareceu
que ele disse algo como "paemeu".
- Então... por onde começamos? - Lyssa perguntou, olhando pra nós dois.
- Bom... - comecei -, a Sra. Doherty quer fotos nossas num ambiente acadêmico. Então
achei que o ]amal poderia tirar fotos da gente fazendo o que normalmente fazemos na
escola:lendo, escrevendo, assistindo às aulas ...
- Organizando protestos contra a imposição de um horário de recolher - ]amal
acrescentou, com um sorrisinho bobo.
Olhei feio pra ele e continuei a falar.
- Como eu ia dizendo... aquelas coisas de sempre. Na verdade não vai levar muito
tempo.
- Tá bom. - Lyssa deu de ombros. - Por que você não vai primeiro, Dante?
- Eu? - perguntei tolamente. Nunca gostei de tirar fotografia. Sempre saio com a boca
aberta ou com alguma expressão idiota no rosto. Só de pensar em Lyssa me olhando
fazer pose, fiquei sem graça.
- Não, acho melhor não. Por que você não vai primeiro? - sugeri. - Quer dizer, eu sei
que você tem que ir àquele ensaio, e coisa e tal.
- Tenho mesmo. Virando-se pro ]amal, ela perguntou:
- Tudo pronto?
Jamal deu um sorriso gigantesco, que achei que fosse partir seu crânio ao meio.
- Tá. Tudo prontinho!
Lyssa sabia exatamente o que fazer. Primeiro tirou um livro da bolsa, sentou-se perto da
escrivaninha e fingiu estar estudando.
Ela franzia a testa, inclinava a cabeça pro lado e pro outro, colocava a mão na testa ...
Jamal ia batendo as fotos e dizendo coisas como: Ótimo. Segura essa. Fantástico!
Ele fez algumas fotos de Lyssa rabiscando um papel, depois trabalhando num problema
de cálculo no quadro e então o filme acabou.
- Agora é a sua vez, Dante - Lyssa anunciou, depois que ]amal recarregou a máquina.
- Mas eu... Quer dizer, como... Eu não sei...
- É fácil. - E Lyssa me puxou até um terminal de computador ali perto. - Aqui, ó. Senta
e finge que está escrevendo um daqueles seus artigos arrasadores.
Ergui os olhos para Jamal, em busca de apoio.
- Ouça os conselhos dela - ele ordenou.
Suspirando derrotado, virei-me pro computador e comecei a digitar no teclado.
- É assim que você escreve? - Lyssa me perguntou. – Todo duro e reto feito uma tábua?
- Estou fazendo o que sempre faço - retruquei. - Há algo de errado?
- Aja com naturalidade. Tente relaxar - ela explicou.
-Como?
Lyssa e Jamal trocaram um olhar. E então, antes que eu me desse conta do que estava
acontecendo, Lyssa pulou em cima de mim e começou a me fazer cócegas nas costas.
Eu me retorcia inteiro, rindo, tentando escapar e, ao mesmo tempo, suando frio por tê-la
assim tão perto de mim. Enquanto isso, ouvia a objetiva de Jamal fazer "clique" várias
vezes.
- Pare! - berrei, entre as risadas. - Isso é golpe baixo total!
- Pronto! Assim você se solta um pouco. - Lyssa suspendeu o ataque, rindo também.
Meu coração havia disparado e o perfume dela continuava no ar.
- Foi golpe baixo - repeti, sorrindo e sacudindo a cabeça.
Depois respirei devagar, me virei pro monitor e apoiei o queixo na mão.
Clique.
- Excelente! Bem melhor! - Lyssa exclamou. - Essa ficou bem mais real.
, - É isso aí, cara - interveio Jarnal, - Segura essa pose.
-Ótimo. Agora digite alguma coisa. Isso mesmo. Assim.Em seguida, Jamal tirou
algumas fotos minhas junto ao quadro de atribuição de tarefas da redação, depois
fazendo a diagramação de uma matéria falsa. Além disso, sugeriu que fôssemos até a
biblioteca, mas ela já estava fechada. Havia um laboratório aberto e nós entramos para
tirar mais algumas fotos. Lyssa e eu mexemos com tubos de ensaio, fingimos examinar
qualquer coisa ao microscópio e chegamos até a dançar com um esqueleto que estava
pendurado num canto da sala.
Aos poucos, aquilo foi virando uma grande brincadeira.
Tirando alguns poucos funcionários, quase todo mundo já tinha ido embora, por isso
nos sentimos à vontade pra ensaiar algumas poses bem cretinas, só de farra: eu
apontando pra mim mesmo com uma das mãos e, com a outra, mostrando a imensa
estante de troféus da escola; ambos sentados na frente do gabinete da diretora, com ar de
culpados; Lyssa desfalecida em meus braços diante da enfermaria.
- Ei, já sei! - Iamal exclamou quando passamos pelas máquinas de refrigerantes. - E se a
gente achasse uns aventais e umas redinhas de cabelo e vocês dois ficassem atrás do
balcão da lanchonete?
- Vamos nessa - respondi, achando hilário.
- Ai, não! - Lyssa gritou, apontando pra um relógio na parede. - Eu tenho de ir! Tenho
de estar no ensaio do desfile em vinte minutos. Se eu me atrasar, mamãe me põe de
castigo até eu me aposentar.
- Eu sinto muito. Espero que não tenha entrado numa fria.
- Não se preocupe. Dá pra chegar a tempo, se eu correr.
Lyssa tirou as chaves do carro da bolsa e sacudiu-as para mim.
- Até mais, pessoal! Tenho de voar! Obrigada pela ajuda, Jamal.
- O prazer foi todo meu.
Lyssa cutucou minhas costas e disse:
- A gente se vê amanhã à noite.
Depois, atravessou correndo o centro acadêmico cruzou as portas de vidro e sumiu no
estacionamento.
Fiquei ali parado, vendo Lyssa ir embora: suas pernas compridas, os cabelos balançando
ao vento... Não pude evitar um suspiro.
A atmosfera parecia mais pesada sem ela por perto.
- Pelo visto ela foi com a sua cara, meu bom homem. Jamal cochichou perto de mim,
interrompendo o meu transe.
- Escuta o que estou te dizendo. Vocês dois vão ser o grande barato do ano.
Em algum lugar dentro de mim, eu acreditava no que o meu amigo dizia. Ou pelo
menos queria acreditar. Mas estava tão acostumado a ver o lado negativo da vida que
era difícil aceitar que aquele sonho incrível pudesse virar realidade.
- Não sei, não - falei, dando de ombros. - Acho muito cedo dizer que fomos feitos um
pro outro. Como todo bom jornalista, ainda preciso reunir mais provas.
- Que nada, cara. Você não precisa sair fuçando por aí pra entender as pessoas. - Jamal
ergueu a máquina e procurou o foco. - Está tudo na superfície. Você só precisa saber
onde olhar.

9- Lyssa
No sábado à noite, recebi minhas amigas em casa para nossa costumeira "maratona de
beleza".
- Então, eu falei pro Stephen que ele tinha só um mês pra alugar a limusine - Heather
contava, lixando as unhas. – Ele que não pense que vai me levar à festa à fantasia
naquele carro horroroso! Toda vez que subo no monstrengo quase preciso de uma
escada de bombeiro. Já imaginou fazer isso de vestido longo e salto alto?
- Isso não é nada - Ruth respondeu pro reflexo de Heather no espelho, enquanto passava
pó no rosto. - Lembra daquela vez em que eu fui a um baile de formatura com o Ken
Overby? Deve fazer uns dois anos. Eu estava com um vestido enorme que tinha várias
camadas de tule por baixo.
- Sei, eu me lembro. - Heather girou os olhos. - A Lyssa até tentou fazer você mudar de
idéia.
Ruth fuzilou Heather com o olhar e continuou a história.
- Como eu ia dizendo, o Ken tinha um carro esporte italiano minúsculo. Quase não tinha
espaço pra pôr as pernas ... Assim que eu sentei no banco, minha saia armou e veio
parar no queixo. Eu passei a maior vergonha!
- E eu então? - Betsy interveio, enquanto eu trançava seu cabelo. - Vocês se lembram de
quando o Cliff me deu aquele ramalhete enorme pra pôr no vestido e, bem na hora em
que estávamos na pista de dança, começou a sair inseto que não acabava mais de dentro
dele? Eu fiquei coberta de bichinhos!
- É verdade! - ri, sem afrouxar a trança. - Ninguém conseguia entender por que você
estava dançando hip-hop com a música da Celine Dion de fundo!
Todas nós caímos na gargalhada.
- E você, Lyssa? - Ruth perguntou quando paramos de rir.
- Agora é a sua vez.
Franzi a testa.
- Eu não tinha percebido que era um concurso, mas já que tocaram no assunto: ninguém
se lembra da festa do Dia dos Namorados no ano passado? Vocês se esqueceram que eu
apareci com um vestido idêntico ao da Wanda Snodgrass?
- Ah, Lyssa, isso não conta! - Heather reclamou.
- Não mesmo - Betsy concordou. - Na verdade, essa história deveria ser contada pela
Wanda, pois foi ela quem saiu feito um foguete da festa.
- Pode ser, mas quem ficou com a cara no chão fui eu - falei, dando de ombros.
- O que você vai usar na festa à fantasia, Lyssa? - Ruth perguntou.
- Estou quase acabando o meu vestido. Querem ver?
- Claro! - as três responderam ao mesmo tempo.
Eu estava super orgulhosa do meu trabalho, e queria muito mostrá-lo. Prendi a trança de
Betsy e fui até o guarda-roupa pegar o vestido. Ele tinha corte reto, e decote e barra
bordados com contas. Mas o grande destaque era o tecido: um lindíssimo pedaço de
veludo na cor cobre.
As meninas soltavam uma exclamação atrás da outra, enquanto examinavam minha
obra.
- Lyssa, é magnífico!
-Uau!
- Você vai arrasar!
- Vocês gostaram mesmo? - perguntei. - Chegou uma hora em que eu fiquei com medo
de acabar parecendo um enfeite gigante de chaminé, ou algo do tipo.
- Não! O vestido é perfeito. - Betsy estava encantada.
- É mesmo! O West não vai acreditar quando você aparecer na frente dele - Heather
acrescentou, fazendo coro. - Agora conte pra nos, Lys. Aonde e que o Sr. Perfeição vai
levar você esta noite?
Hesitei de olhos fixos nos rostos curiosos das minhas amigas.
Fazia dias que eu aguardava aquele momento com um certo receio.
- Ahn... Eu não vou sair com o West. Vou sair com o Dante. - ouve um breve momento
de absoluto silêncio, enquanto elas digeriam a noticia. Depois vieram os gritos de
indignação.
- Está falando sério?
- Não é possível!
- Com aquele cara esquisito?
- Estou falando sério, sim - eu disse, com o tom mais normal do mundo.
- E quando foi que isso aconteceu? - Betsy indagou, com os olhos do tamanho de um
CD. - Por que não contou nada pra nós?
- Eu queria contar pra vocês há algum tempo, juro - falei, muito sem graça. - Mas andei
tão ocupada com os ensaios...
- Você ia sair com o Dante Michaels - Heather resmungou baixinho, mais pra si mesma
do que pra mim.
- Foi o que eu disse - retruquei, começando a me cansar daquilo. - E saibam que ele é
muito, mas muito legal mesmo.
- Você vai sair com o Dante Michaels. - Heather tornou a repetir.
- Vou! - respondi irritada. - Por que tanto espanto?
Heather abanou a cabeça, em aturdimento total.
- Você vai sair com o Dante Michaels.
- Heather! - berrei. - Será que dá pra parar de ficar repetindo isso, por favor?
Betsy levantou-se em um salto e ergueu as mãos pedindo silêncio. '
- Eu acho que o que a Heather está tentando dizer sem muito sucesso, é que ficamos um
pouco surpresas com a notícia.
- E que eu nunca imaginei que você fosse sair com alguém como ele - Heather explicou.
- Alguém tão... diferente.
- Pois é. Principalmente porque você e o West pareciam formar o par perfeito - Ruth
acrescentou. - O que aconteceu com ele?
Soltei um suspiro frustrado.
_ O Dante é dez vezes melhor que o West. É delicado comigo. E gosta de mim de
verdade. O West só gosta de si mesmo!
_ Mas, Lyssa, pense um pouco. - Heather estava falando comigo como se eu tivesse
quatro anos de idade. - Você tem tanto glamour, tanto estilo, e o Dante... bom, ele até
que é bonitinho. Pra falar a verdade, ficou muito melhor depois que cortou o cabelo de
um jeito mais decente, mas você precisa reconhecer que ele é meio... bom ... Meio
esculachado. Vocês dois juntos é uma coisa muito estranha!
Uma parte de mim não conseguia acreditar que alguém pudesse dizer aquelas coisas do
Dante, o único cara do planeta que tinha me tratado com respeito, a única pessoa neste
mundo que me achava inteligente. Quer dizer, só porque ele não era modelo e eu não
era nenhuma grande intelectual não significava que não servíssemos um pro outro,
certo?
Outra parte de mim, contudo, não se surpreendeu com a reação delas. Detesto ter de
admitir, mas, se não o conhecesse e uma das minhas amigas de repente decidisse sair
com ele, eu poderia ter dito palavras muito parecidas.
_ Olha só, eu acho que vocês estão sendo meio duras com ele. O Dante é maravilhoso.
E não há nada de errado com ele que um novo guarda-roupa não consiga consertar. -
Calei-me por alguns instantes, percebendo uma incerteza no meu tom de voz.
Depois, num acesso, peguei a escova de cabelo e atirei-a no chão.
_ Querem saber de uma coisa? Não me aborreçam! - gritei, lutando para conter as
lágrimas de raiva.
_ Olha só, meninas - Betsy começou, calmamente -, o que nós temos a fazer agora é
fechar a boca e cuidar da nossa vida. Os nossos namorados também não são perfeitos,
vocês sabem disso. - Ela sentou do meu lado e encarou Heather e Ruth, como se
estivesse tentando me proteger.
_ Desculpe, Lyssa - Ruth sussurrou cheia de remorso.
_ Não ligue pro que eu disse, tá? - Heather completou. - Eu não entendo de nada. Se não
fosse por você, eu seria um desastre total, igualzinha ao Dante.

Depois dessa conversa, nós nos arrumamos praticamente em silêncio, já que elas
fizeram questão de não discutir meu encontro com Dante.
Nesse meio-tempo, a voz de Heather ecoava dentro de mim.
Se não fosse por você, eu seria um desastre total, igualzinha ao Dante.
Uma decisão cada vez mais firme foi tomando conta de mim. Eu sabia que poderia
ajudá-lo, Cabia a mim a tarefa de despertar a fagulha mágica que havia dentro dele.
Então, todos o veriam da maneira como eu o via.
Como sempre, eu estava atrasada. Depois que as meninas saíram para encontrar seus
respectivos namorados, restaram apenas quinze minutos até a campainha tocar.
- Você está um arraso! - Dante comentou, logo ao entrar.
- Ah, mas eu não vou sair assim - falei, dando um puxão no moletom que estava usando.
- Você se importa de esperar no meu quarto, enquanto eu me visto? Pode jogar no
computador.
Ele abanou a cabeça, indicando que não.
- Não me importo, não. Mas não se troque por minha causa. Eu continuo achando que
você está linda.
- Obrigada... você também.
Na verdade, as roupas dele não combinavam em nada, sem falar que o conjunto dava a
impressão de desleixo. Não havia como ignorar aquele rosto adorável, nem como não
notar o esforço que Dante devia ter feito pra conseguir se vestir direito. Só que ele não
tinha tido muito sucesso: estava vestindo uma camisa cinza-chumbo, enfiada meio torta
dentro de uma calça cáqui, com um cinto marrom e um Nike preto de corrida.
Eu sei que é horrível o que vou dizer, mas era quase doloroso vê-Ia vestido daquele
jeito, assim como doía ver uma casa magnífica mal pintada ou um carro bacana coberto
de lama. A beleza está lá, só que ninguém enxerga. Acontecia a mesma coisa com
Dante. Ele poderia ofuscar o brilho das estrelas e me parecia uma pena desperdiçar tanto
potencial.
- Sabe de uma coisa? - ele me disse, olhando-me de frente.
- Eu acho que esta noite vai ser ótima.
-Eu também.
Dante me deu um sorriso carinhoso e eu senti aquele fogo queimar de novo dentro de
mim. Eu não me importava com a roupa dele; estava feliz em vê-lo, Levei-o até o meu
quarto e liguei o computador.
- Desculpe pela bagunça - falei, afastando os batons e as latas de spray de cabelo. - Se
quiser entrar na internet, fique à vontade. Prometo que não demoro.
- Não se preocupe comigo. Eu só vou invadir o site do Pentágono, mais nada.
Sentando-se na minha escrivaninha, Dante me deu um sorriso maroto.
Peguei as roupas, as sandálias e o estojo de maquiagem, atravessei o hall, entrei no
banheiro e fechei a porta. Durante alguns minutos, fiquei imóvel na frente do espelho,
franzindo a testa. De repente, fiquei um pouco nervosa.
- Seja inteligente! - ordenei a mim mesma. - Não deixe que ele perceba que você não
passa de uma modelo burralda.
Pus o meu vestido vermelho curtinho e examinei com todo o cuidado a minha imagem
no espelho. Era exatamente o look que eu estava procurando: prático, mas sofisticado,
exótico, porém não em excesso. Retoquei o batom e o pó, dei uma escovada no cabelo e
voltei pro quarto.
- Seja inteligente - sussurrei baixinho enquanto cruzava o hall. Tentei me lembrar de
assuntos interessantes sobre os quais pudéssemos conversar, mas não me ocorreu nada.
Parei na porta do quarto e respirei bem fundo. Aqui vamos nós.
- Estou pronta - anunciei, entrando no quarto.
- Uau! - Dante exclamou. Só que ele não estava olhando pra mim, mas pra alguma coisa
em cima da minha mesa. Que ótimo!
Algum jogo imbecil tinha arruinado a minha entrada triunfal.
Dante levantou e virou-se pra mim.
- São incríveis. Foi você mesma que desenhou? - ele perguntou.
Ele estava segurando vários dos meus croquis de moda. Eu me esqueci de que tinha
largado tudo em cima da mesa, debaixo dos produtos pra cabelo.
- Foi sim - falei baixinho, mais nervosa que nunca.
- São muito bons! Você copiou de alguma revista?
- Não, são criações minhas. - Sorri com humildade. - Acha mesmo que eles parecem
assim tão profissionais?
- Bom, eu não entendo muito bem do assunto, mas acho que sim.
- Obrigada. - Deu pra perceber a hesitação em minha voz.
Talvez ele estivesse apenas sendo gentil. Ou seria verdade que tinha achado os desenhos
bons?
- E aquele estágio em design de moda de que você falou outro dia? - ele perguntou,
folheando meus modelos. - Sei que você disse que não ia se candidatar, mas acho que
não deveria desperdiçar seu talento. .Talento? Ele me acha talentosa! Vindo de quem
vinha, era o melhor elogio que eu já tinha recebido na vida.
- Querer eu quero, mas... - A voz saiu embargada enquanto o cérebro se perdia numa
onda de sentimentos conflitantes.
-- Mas o quê? - Seus grandes olhos castanhos irradiavam ternura. Senti-me hipnotizada
pela intensidade daquele olhar. - Se você quer, Lyssa, então tente.
A voz era suave, porém firme.
- Não é tão simples assim. Minha mãe ... a carreira de modelo ... - gaguejei, tentando
pôr alguma ordem nos pensamentos tumultuados. - Não dá pra jogar fora os últimos
anos da minha vida.
Dante me estendeu os desenhos e ficou segurando minhas mãos nas dele.
- Você não vai jogar nada fora. Você vai realizar seus sonhos.
Vinte minutos depois, ele parou o fusquinha num estacionamento de terra batida de um
lugar chamado Carroça da Vera.
Quando cruzamos a divisa do município, imaginei que estivéssemos indo a algum
restaurante chiquérrimos no centro de Dallas, Mas aquele lugar não era chique - era uma
espelunca.
A estrutura quadradona parecia ter bem uns cinqüenta anos de idade. A parte de madeira
já estava toda podre, e a pintura descascada. Debaixo da janela, havia um ar-
condicionado do arco - da- velha, que estava cai-não-cai. Na entrada brilhavam duas
lâmpadas antiinsetos arroxeadas.
Eu esperava que Dante virasse pra mim, dissesse "pegadinha!" e tornasse a ligar o carro.
Só que ele não fez nada disso. Saltou do carro, deu a volta e abriu a porta pra mim.
_ O que você achou? - ele perguntou, indicando com um gesto a birosca caindo aos
pedaços. - Legal, né?
Seus olhos pareciam cintilar de alegria, ou talvez fosse reflexo da lâmpada antiinseto.
Então era sério? Por que ele iria me levar a um lugar como aquele?
_ Bom, parece simplório... quer dizer, simpático.
_ Vamos entrar. - Agarrando meu braço, Dante me conduziu até a entrada. - Você vai
adorar os hambúrgueres que eles fazem aqui! . '
Quando chegamos mais perto, reparei num cartaz pintado a mão, que dizia: "O Melhor
Xbúrguer do Mundo - Não é Mentira!". De lá de dentro, saía um cheiro estranho e eu
comecei a me perguntar há quanto tempo a Vigilância Sanitária não fazia uma visitinha
ao lugar.
Nós não vamos jantar aqui, né, pensei com os meus botões, muito preocupada.
_ Ei, olha só quem chegou! O "Garoto Maravilha" – saudou um senhor de idade, assim
que nós entramos. Ele estava numa das mesas de canto, jogando damas com outro
senhor.
_ Olá, Sr. Gephardt - Dante retrucou. - Olá, Sr. Martinez.
_ Hola, Dante - disse o outro homem.
_ Quem está na frente hoje? - Dante perguntou.
O Sr. Gephardt enfiou o polegar no próprio peito.
_ Eu estou - falou todo orgulhoso.
_ Sí _ concordou o Sr. Martinez. - Mas você sabe como é, ele rouba sempre.
_ E quem é essa moça bonita? - O Sr. Gephardt sorriu e tocou de leve no chapéu de
cowboy.
_ Senhores, quero que conheçam Lyssa Naylor. – Dante acenou na minha direção com
um floreio rebuscado, como se ele fosse um apresentador de televisão recebendo um
convidado famoso.
- Olá. Prazer em conhecê-los - falei, apertando a mão de ambos.
- Igualmente - os dois retrucaram. O Sr. Gephardt me deu uma piscada.
- Ei, me avise se esse sujeito não tratar você direito – disse com um sorriso enorme.
Dante desejou-lhes sorte no jogo e me levou até o balcão da lanchonete. Sentou-se
numa das banquetas de vinil e fez um gesto pra que eu o imitasse. Por um segundo,
cheguei a pensar em cobrir o assento da banqueta com alguns guardanapos de papel, só
pra garantir, mas depois achei melhor não fazer aquilo.
- Sujeitos simpáticos - falei, me acomodando.
- Muito. Eles não saem daqui. Freqüentam este lugar já faz muitos anos.
O que é um bom sinal pensei. Afinal, ambos parecem gozar de boa saúde.
- Ora, ora, se não é o nosso Dante! Como tem passado meu querido?
Uma loira magricela saíra da cozinha e se debruçara no balcão. Seu penteado era
colossal, duro de spray; seu rosto estava coberto por grossas camadas de maquiagem;
suas unhas, bem compridas, estavam pintadas de rosa. No entanto, fui obrigada a
reconhecer que, pra uma mulher da idade dela (eu imaginava que ela devia ter uns
cinqüenta e poucos anos), ela estava em ótima forma. Adorei seu sotaque,
principalmente a maneira como ela pronunciou o nome de Dante, meio arrastado, como
se tivesse
três sílabas: Da-an-te.
- Oi, Vera - ele respondeu, tamborilando os dedos na fórmica.
- Eu vou muito bem. E você?
- Ah, velha e feia como sempre. - Depois ela me deu uma olhada, franzindo os olhos
debaixo dos cílios postiços. – Vejo que você nos trouxe uma nova freguesa. Olá, meu
bem. Eu sou a Vera - ela disse, com um sorriso.
- Lyssa - respondi.
- Você, sem dúvida, é uma gracinha - ela disse, dando uma risadinha. - Já estava mais
do que na hora de esse menino largar o laptop e arranjar uma namorada.
Pelo canto do olho, vi Dante baixar a cabeça, sem jeito. Tentei achar uma boa resposta
pra situação.
_ Ahn ... eu não sou ... quer dizer, a gente é só ... Este é apenas nosso primeiro...
Vera sacudiu a cabeça e riu.
- Olha só pra vocês. Estão mais nervosos que elefantes numa loja de cristais!
Dante e eu trocamos sorrisos tímidos.
- E então, o que vão querer comer? - Vera puxou uma caneta de algum lugar do
penteado e tirou um bloquinho do bolso do avental. - Nosso especial de sábado é chili
con carne. O Elroy acabou de fazer mais um tacho, não faz nem uma hora.
Ai, ai, ai. Comida apimentada? Um cozinheiro chamado Elroy?
Meu estômago contorceu-se só de pensar.
- Eu quero o de sempre - Dante disse.
Dei uma olhada no cardápio pendurado do teto.
- Ahn... acho que vou querer... um sanduíche de frango grelhado sem maionese.
A caneta parou no ar. Vera me olhou como quem espera mais alguma coisa e depois
perguntou:
- Só isso?
-Só.
- Você é o quê, meu bem? Algum tipo de passarinho?
Dante cochichou:
- Eu acho que você deveria experimentar os hambúrgueres. São muito bons, uma
especialidade da casa.
Minha vontade era dizer que não tinha a menor condição de ingerir algo com aquele
teor de gordura poucos dias antes de fotografar com a nova coleção de maiôs (sem falar
no meu medo de que a cozinha de Vera fosse um criadouro de bactérias!). Mas bastou a
visão daqueles olhos melancólicos, cor de chocolate, pra me fazer mudar de idéia. Eu
queria tanto que ele gostasse de mim... Além do mais, já estava cansada de contar
calorias o tempo todo!
- Tá bom. - Dei de ombros. - Então me traz um hambúrguer.
- Com maionese? - Vera arqueou a sobrancelha cuidadosamente desenhada a lápis.
- Sim. E batata frita. E uma Coca Light... Não, espere... uma Coca de verdade! - Eu me
sentia uma rebelde, uma traidora do mais alto grau. E estava amando cada segundo
daquela revolução.
- É pra já. - E Vera voltou pra cozinha.
- E aí? - perguntei curiosa a Dante. - O que é esse seu lide sempre"?
- Um Xbúrguer com mostarda, uma porção extra de picles, onion rings e uma Dr.
Pepper.
- E ela lembra disso tudo? Você deve ser freqüentador assíduo!
Dante fez um gesto com os ombros.
- Eu venho uma vez por semana. Ou mais, quando estou prestes a entregar alguma
matéria. Tem algo neste lugar que me inspira. As pessoas são reais, o chão sempre
precisa de uma boa limpeza, a comida engorda, ninguém se incomoda com o que você
veste...
Resisti à vontade de começar a cantarolar o tema musical de Cheers, um seriado
passado quase todo dentro de um bar.
- Mas como é que essas coisas inspiram você?
- Eu não sei. Só sei que não me deixam esquecer que o mundo ainda não é perfeito. Que
ainda precisamos lutar por mudanças. Por acaso reparou nos calos nas mãos do Sr.
Martinez quando o cumprimentou?
Tentei me lembrar.
- É. Reparei, sim.
- Ele passou a infância toda indo de lá pra cá, sem moradia fixa, colhendo as safras da
estação. Era um trabalhador migrante e ganhava uns poucos centavos por dia, mas isso
ajudava a alimentar sua família. E você reparou que o Sr. Gephardt anda todo curvado?
Dante fez um gesto com a cabeça por cima do ombro. Bem naquele momento, o velho
homem atravessava a sala lentamente, na direção do jukebox, arrastando de leve a perna
esquerda.
- Foi ferido durante a Segunda Guerra Mundial – Dante explicou. - E a Vera perdeu um
irmão na Guerra do Vietnã.
- Que horror! - falei sem pensar, pra depois me sentir uma idiota pela ingenuidade do
comentário.
Olhei em volta, vi o papel de parede velho e todo manchado, a mobília gasta, as
fisionomias apagadas das pessoas e tentei enxergar aquilo tudo através dos olhos de
Dante. Não era à toa que o lugar o inspirava. Também em mim provocava uma série de
sentimentos que eu raramente experimentava: piedade culpa indignação, admiração. De
repente, me senti honrada por Dante ter me levado lá, por ele ter achado que eu seria
capaz de gostar do lugar. Ele me via mesmo como alguém por detrás do rostinho bonito.
- Têm horas - ele continuou, passando o indicador em uma fenda no balcão - em que eu
preciso sair um pouco daquela perfeição toda que nos cerca em Parkridge. Faz bem pra
minha alma.
Eu nunca havia sentido tamanho respeito por alguém. Ao vê-la ali, todo encurvado
sobre o balcão, preocupado em ter idéias pra mudar o mundo, pude imaginá-lo diante do
teclado do computador, escrevendo uma de suas colunas filosóficas cheias de conteúdo.
Senti um forte impulso de beijá-lo.
Bem naquela hora, ele ergueu a cabeça e olhou pra mim. De início levei um susto, me
perguntando se ele havia pressentido a minha intenção. Dante piscou e estremeceu de
leve, como se estivesse saindo de um transe.
- Desculpe - disse ele, com um sorriso humilde. – Desconfio que minha tendência é
entrar em "modo de pregação" neste lugar.
- Tudo bem. Eu não me importo. Você... - Minha voz foi sumindo aos poucos. Eu
queria dizer algo brilhante, algo comovente e dramático, mas não sabia o quê. - Você
me inspira.
O sorriso de Dante se alargou e o brilho maroto do seu olhar apareceu novamente.
- Vem cá - ele falou, pegando minha mão e me tirando da banqueta. - Vamos dançar.
E me puxou pra uma área aberta do salão.
- SI. Gephardt? - O velho homem continuava junto do jukebox, examinando as opções. -
Importa-se de colocar algo bem lento e romântico?
- Deixa comigo! - respondeu ele, com uma risadinha. - Sei direitinho o que você quer
garoto.
Segundos depois, algumas notas de piano saíram da máquina iluminada a neon, e ]
ohnny Mathis começou a cantar "Chances Are". Reconheci na hora. Era uma das
músicas prediletas de papai.
Dante me pegou pela cintura e encostou seu rosto no meu.
Pra minha surpresa, ele dançava como gente grande: me puxou pra dentro dos seus
braços, movimentando o corpo pra frente e pra trás num ritmo suave, me fazendo girar
por todo o salão. Era estranho que alguém que carregava o fardo do mundo nos ombros
tivesse tanta leveza.
Era como se eu estivesse numa terra encantada. Nada, nem mesmo um monte de
baratas, teria conseguido estragar aquela deliciosa sensação de desmaio que me invadiu.
- Opa! - Bem na hora em que Dante estava me girando, trancei os pés e a sala virou de
lado.
Ele me pegou antes que eu me esparramasse no chão empoeirado.
- Puxa, desculpe! - Depois de me ajudar a ficar de pé, ele apertou meus braços e
ombros, pra ver se eu não tinha quebrado. Uma expressão de surpresa cobriu seu rosto. -
Acho que acertei...
Senti o coração dar um salto de felicidade. Parei de respirar um instante. Nunca
ninguém tinha me dito algo assim tão doce!
- Eu também ... eu também acho que acertei.
Os olhos dele se arregalaram e ele gaguejou.
- N-não, eu ia dizer que acho que sem querer acertei o seu joelho.
Ai, minha nossa. Menina, você é tão idiota. Puxa vida! Onde estão os fenômenos
naturais na hora em que mais precisamos deles?
- Mas - ele acrescentou baixinho - eu também acertei a parceira.
De repente, lá estava eu de novo nos braços dele. Dante sorriu com doçura e inclinou a
cabeça, me prendendo com o olhar, até que meus lábios se ergueram pra encontrar os
dele.
Em seguida, foi como se um monte de borboletas começasse a voar dentro do meu
peito.

10- Dante
Eu tinha dito a mim mesmo que jamais, em tempo algum, poria os pés ali. Aquilo era a
concretização de tudo o que eu mais odiava. Entretanto, em plena tarde de sábado,
peguei-me vagando pela meca do consumo, pelo Valhala dos cartões Visa, pela capital
do capital: o shopping center Gallery.
O meu corpo todo repelia o cheiro de cobiça que pairava no ar, os inúmeros tipos de
badulaques inúteis espalhados por toda parte, a horrenda versão de uma música dos
Rolling Stones que saía de um sistema de som do elevador, o ar frio do ar-condicionado
e os consumidores yuppies que me mediam de alto a baixo.
Imagino que eu devia estar um pouco fora do padrão dominante.
Meu jeans rasgado e minha túnica africana feita à mão não combinavam muito bem
com as roupas expostas nas vitrines da Saks e da Marshall Field. Mesmo assim, fui em
frente, como um soldado perdido na selva.
O que os homens não fazem por amor...
Lyssa havia me pedido para encontrá-la numa determinada loja onde estava sendo
realizado um desfile de moda. Claro que eu disse que sim. Eu teria cruzado um oceano a
nado pra vê-la de novo. Pela primeira vez na vida, eu me sentia irremediavelmente
preso a alguém em vez de a uma causa - e a sensação era muito mais forte do que de
hábito.
O encontro da semana anterior superara todas as minhas expectativas e sonhos. Eu
havia me preocupado tanto com a possibilidade de a noite fracassar... Imaginei que,
assim que Lyssa tivesse urna dose considerável do verdadeiro Dante, sempre
matraqueando sobre uma causa ou outra, jamais se deixando
levar pelo "sonho teen" da maioria, ela perderia de vez o inexplicável interesse por mim.
Ao mesmo tempo, sabia que se tentasse dar uma de gostoso, fingindo estar por dentro
das futilidades, sairíamos
ambos arrasados. Então resolvi agir como sempre ajo.
Curiosamente, tudo correu às mil maravilhas!
Mal podia acreditar na pessoa doce que ela era, até mesmo nas horas em que não
conseguia resistir e subia num palanque para defender isso ou aquilo. Ela me olhava
com aqueles imensos olhos castanhos, cheios de preocupação, e dava pra sacar que
estava de fato me escutando. Em geral, meus papos com as pessoas terminavam sempre
do mesmo jeito: ou eu descobria que elas estavam cochilando e funcionando no piloto
automático ou que estavam fingindo interesse. Com Lyssa era diferente.
Quando estávamos dançando, que beijo! Foi suave, mas me pegou em cheio. Parecia
um choque em alta voltagem.
Só de lembrar, acelerei o passo. Passei na frente da Tiffany, subi um lance de escada e
entrei numa grande e elegante loja de departamentos chamada Dolans. Nos fundos, ao
longo de um corredor central, tinha sido montada uma passarela provisória, rodeada de
cadeiras. O lugar já estava lotado, por isso tive de ficar em pé entre as araras de
lingerie.
Um minuto depois, começou o desfile. Uma sósia muito sorridente de Melanie Griffith
apareceu para nos dar as boas-vindas. Depois, foi pro canto da passarela e começou a
descrever as roupas, enquanto as modelos entravam, quatro por vez, e se revezavam.
A primeira parte do desfile foi dedicada a roupas pra executivas, e eu fiquei curioso em
saber que tipos de carreira poderiam exigir o uso daqueles trajes. As quatro modelos
vestiam tailleur, de saia curtíssima, nada prática pra se trabalhar numa escrivaninha. -
Vocês já devem ter ouvido a expressão lia primavera avança e o outono recua" - o clone
de Melanie dizia. - Pois bem, a roupa que Lyssa veste nos remete às linhas clássicas e
aos tecidos opulentos do início dos anos 60.
Levei um minuto pra reconhecê-la. Lyssa vinha andando pela longa passarela com um
tailleur rosa - claro, uma estola branca jogada nos ombros e um daqueles chapéus
pillbox que Jackie Kennedy usava. Parecia uns cinco anos mais velha. Seu cabelo estava
todo puxado pra trás e sua expressão era séria.
Observei quando ela girou de um lado pro outro, atirou a ponta mais comprida da estola
por cima do ombro e colocou as mãos nos quadris, como se estivesse brava com todo
mundo.
Depois deu um giro completo sobre os saltos de sete centímetros e meio, e marchou
passarela afora. E eu que achava que tinha um andar meio arrogante! Meu jeito não era
nada comparado com a altivez com que ela caminhava. Como eu disse, Lyssa parecia
uma pessoa totalmente diferente.
Na segunda parte do desfile, ela apareceu vestindo um casaco longo, uva, com o batom
combinando. As outras três modelos usavam paletós com gola de pele. Precisei me
conter pra não tirar o microfone das mãos da sósia de Melanie Griffith e fazer um
discurso em prol dos direitos dos animais.
Lyssa marchou pela passarela, deu uns dois giros e sumiu nos bastidores. Cinco minutos
mais tarde, surgiu de novo, dessa vez vestindo calça comprida de boca larga verde-clara
e uma camiseta de mangas compridas brilhante. Seu cabelo estava todo preso em
rabinhos de cavalo retorcidos pela cabeça, e todo aquele batom brilhante sumira da
boca. Era difícil acreditar na rapidez com que ela se transformava.
- Este ano nossa coleção esportiva está mais leve e sensual - continuou a narradora. -
Reparem nos tecidos e nas linhas mais fluidas.
Coleção esportiva? E eu que achava que roupa esporte era algo que servia para acampar,
jogar golfe ou rolar na terra! Aqueles trajes pareciam chiques demais para qualquer
atividade atlética.
Eu mal podia acreditar em mim mesmo. Antes de conhecer Lyssa, comparecer a um
desfile de moda estaria logo abaixo de cirurgia experimental do cérebro em minha lista
de coisas a fazer na vida. No entanto, me peguei acompanhando atentamente o evento.
Tudo bem, tudo bem. Admito que ver mulheres maravilhosas desfilando não chegava a
ferir os meus olhos; sou radical, não anormal.
Também me, dei conta de como era difícil ser modelo. Quando Lyssa sumia por trás de
uma das divisórias, eu cronometrava o tempo que levava pra ela surgir de novo. Em
geral, ela conseguia
trocar de roupa, penteado, maquiagem e sapatos em questão de minutos, sem nunca
parecer atrapalhada ou afobada. Era tão graciosa, tão bonita que eu não conseguiria
parar de olhar pra ela nem que, por algum motivo bizarro, eu quisesse.
- E agora, senhoras e senhores - a narradora baixou a voz, dando uma ênfase dramática
ao desfile -, para encerrarmos a noite, apresentamos uma prévia de nossa coleção de
inverno de trajes a rigor.
As luzes se apagaram e soaram os primeiros acordes de uma música de Celine Dion.
Quando me dei conta, lá estava Lyssa, parada sob a luz dos holofotes, usando um
vestido longo, todo bordado de contas. Os flashes estouraram como fogos de artifício.
Algumas pessoas aplaudiram e assobiaram. Eu fiquei petrificado.
Ela estava sensacional! Enquanto meus olhos seguiam cada passo seu, meu coração não
parava de acelerar, como se eu estivesse prestes a morrer. De início - tenho um pouco de
vergonha de admitir -, senti um orgulho enorme só de pensar que aquela belíssima
criatura ali em cima da passarela ia sair comigo. De repente, fui inundado por incertezas
e dúvidas, e me pus a perguntar o que levaria alguém como ela a querer sair com
alguém como eu. Por fim, me senti apenas frustrado. Eu não tinha nada a ver com
aquele mundo - isso era óbvio. Eu queria muito que as coisas dessem certo entre mim e
Lyssa, mas não sabia ao certo se algum dia conseguiria me encaixar no mundo dela.
O desfile terminou e, enquanto eu andava pelo local, à espera de Lyssa, percebi que
alguém estava me vigiando. Olhei por cima do ombro, como quem não quer nada, e vi o
chato com quem Lyssa tinha ido à festa da escola.
O que ele veio fazer aqui? Será que Lyssa o convidou? Por que ele não para de me
olhar?
- Dante! - alguém chamou. Virei-me e vi Lyssa correndo pra mim. Tinha voltado a ser a
Lyssa de sempre: jeans, blusa de manga curta e um sorriso enorme. - Você veio!
- Claro que eu vim - falei, devolvendo o sorriso.
Lyssa pôs no chão uma grande sacola de compras e me estendeu os braços. Eu a
abracei, lhe dei um beijo suave e, de viés, vi a cara do panaca cair. O show já terminou
pateta! Senti vontade de gritar.
Nossos lábios se separaram e Lyssa tornou a sorrir pra mim.
- E aí, o que você achou do desfile?
Antes que eu pudesse responder, fomos interrompidos.
- Querida! - Uma senhora de meia-idade, usando um vestido vermelho-sangue, correu
pra nós, arrancando Lyssa dos meus braços. - Você estava uma verdadeira deusa lá em
cima! Uma verdadeira deusa! Estão todos prevendo uma temporada excelente pra loja, e
tudo graças às minhas meninas!
- Obrigada, Sra. Turner. - Lyssa agradeceu, com um sorriso acanhado. Depois virou-se
para mim:
- Dante, esta é a Sra. Turner, chefe da nossa agência. Sra. Turner, gostaria de lhe
apresentar o Dante.
Ela franziu a testa. - Ah... Você está me trazendo um Novo recruta, Lyssa? Ou ele
trabalha pra concorrência?
Pisquei.
-Quem? Eu?
- Ahn... vejamos - resmungou ela, me olhando de cima a baixo. - A camisa, é claro, terá
de ir pro lixo. Mas esses olhos!
Esses olhos podem deixar você rico.
- Mas eu não sou modelo - respondi, mais que depressa.
- O Dante vai ser escritor - Lyssa interveio. - Ele é ótimo.
- Um escritor? É mesmo? - A Sra. Turner balançou a cabeça, num gesto de aprovação. -
Vocês sabem que outro dia eu conversava com o Sr. Lowell, o chefe da agência de
publicidade A&D Advertising, e ele me disse que estavam procurando alguns
estagiários pra contratar. É uma firma de muito prestígio. Muito prestígio. Quer que eu
lhe passe o telefone deles?
- A A&D Advertising! - Lyssa exclamou. - Dante, eles são de primeira linha!
Sorri educadamente e balancei a cabeça, em sinal de recusa.
- Parece uma oportunidade excelente, mas não faz meu gênero.
De qualquer modo, muito obrigado.
- Não tem de quê - respondeu ela. Depois avistou alguém mais atrás de mim e começou
a sacudir o braço. - Olha só quem está aí. O West. Oh, West! West, querido! Venha cá.
Virei-me e vi o idiota todo cheio de panca caminhando na nossa direção. West? Que
raio de nome era aquele?
- O que você veio fazer aqui, West? - perguntou a sra. Turner, quando ele se uniu ao
grupo. - O desfile da coleção masculina é amanhã.
- É que eu queria dar uma passada hoje e verificar a ... concorrência - ele respondeu, me
olhando no olho. É claro que era uma indireta pra mim, mas eu não estava entendendo
bem qual.
Só sabia que minha vontade era arrebentar aquela cara arrogante e aqueles dentes
brilhantes um por um.
- Bom, já que você está aqui, tem umas coisas que precisamos discutir. - A sra. Turner
pegou o braço de West e puxou-o para um canto. - Até logo, então, Lyssa. Muito prazer
em conhecê-lo, Dante.
- É, até logo, Lyssa - West fez coro. Depois apontou para mim. - Muito bacana essa sua
camisa, cara.
Como Lyssa estava com sede, fomos para o térreo comprar refrigerantes. Nós nos
sentamos num banco perto de uma fonte e apoiamos nossos corpos um no outro,
formando nosso reino particular.
- Sabe que eu acho incrível o que você faz na passarela? - falei com doçura,
concentrando-me em seus olhos luminosos. - Fiquei realmente impressionado.
- Obrigada - ela respondeu, erguendo um ombro com timidez.
- Falo sério. Você é profissional mesmo. Ontem o Jamal revelou uma parte das fotos
que tirou da gente e qualquer um vê a diferença na hora. Todas as suas saíram
fantásticas, totalmente naturais. Já as minhas ficaram um horror.
Ela bateu de leve no meu braço.
- Pára com isso! Aposto como você ficou ótimo. Quando vou poder ver?
- Logo, logo. Provavelmente ele vai demorar o resto do semestre pra conseguir revelar
todos aqueles filmes, mas eu vou entregando as fotos pra você à medida que forem
ficando prontas.
Quer dizer, aquelas que eu aprovar, claro.
Ela me bateu de novo, só que dessa vez deixou a mão perto da minha. Mais que
depressa, apropriei-me dela.
_ Bom, fico contente que você não tenha achado tudo muito chato hoje.
_ Está brincando? - exclamei. - Olhar pra você durante uma hora nunca é chato. Eu só
tenho uma queixa.
Lyssa endireitou o corpo e retirou a mão que estava presa na minha.
_ E qual é? - perguntou, com uma expressão preocupada no rosto.
_ As roupas. Não sou nenhum especialista no assunto, mas achei seus modelos muito
melhores.
- É mesmo? - O rosto dela se iluminou.
_ É. Quer dizer, aquelas roupas até que eram legais, mas eu achei que faltou um pouco,
bom ... faltou um tchan. Suas roupas têm mais cor, mais personalidade.
- Você acha mesmo?
_ Nem se comparam. Eu me lembro de uma túnica que tinha um desenho super legal na
frente. Parecia alguma coisa da Jamaica ou da Guatemala. Era um desenho tão...
energético.
_ Puxa vida! Você até parece um crítico de moda falando.
_ Lyssa inclinou a cabeça na minha direção. - Sabe de uma coisa: acho que deveria
reconsiderar aquele estágio em publicidade. Você seria incrível.
_ Tô fora! - Sacudi a cabeça, rindo. - Como se alguém fosse confiar na minha opinião
pra coisas assim ...
Lyssa debruçou-se pra frente, com uma expressão suave mas firme no rosto.
_ Eu confiaria - ela sussurrou. - Eu falei sério quando disse que você me inspirava.
Você me fez ver muitas coisas de uma perspectiva diferente, inclusive eu mesma. -
Depois olhou pra fonte e respirou fundo. - E sabe o que mais? Andei pensando... e
talvez devesse incluir meus desenhos no portfólio.
_ Claro que sim! Manda ver, Lyssa! Mostre ao mundo do que você é capaz!
Lyssa abriu um sorriso enorme. Ela parecia tão linda, tão feliz. Num gesto instintivo,
estendi a mão e lhe fiz um carinho no rosto, depois me inclinei pra lhe dar um beijo. Os
lábios dela estavam gelados por causa do refrigerante, mas o que me fez estremecer foi
a onda de emoções que me invadiu. Depois de um
tempo, nós nos encostamos no banco, ainda com os bracos entrelaçados, pra escutar a
melodia da água na fonte. >
- Vai se candidatar àquele estágio?
Seu rosto entristeceu.
- Ainda não sei. É muito provável que eu não tenha a menor chance. E, mesmo que eu
consiga, tenho vários compromissos agendados como modelo. Não posso abandonar
todo mundo.
- Pra mim, Lys - eu falei, pondo minha mão sobre a dela -, se essas pessoas se importam
de fato com você, vão querer que faça aquilo que a deixar feliz.
Ela suspirou e encostou a cabeça no meu ombro.
- Por que será que você sempre sabe o que dizer? Você tem um jeitinho todo especial de
me deixar em paz comigo mesma.
O comentário dela me deixou ao mesmo tempo feliz e confuso.
Como é que alguém como ela poderia precisar de uma massagem no ego?
Antes que eu pudesse pensar sobre o assunto, Lyssa endireitou o corpo e disse:
- Ah! Já ia me esquecendo! Eu comprei um presente pra você. - E tirou da sacola de
compras uma caixa retangular e achatada. - Olha aqui - ela disse me dando o pacote. - É
uma coisinha de nada. Eu tenho desconto em todas as lojas do shopping.
Abri a caixa e tirei dela um cardigã muito "certinho", do tipo usado por alguns
professores, só que parecendo ter custado bem mais caro.
- Ahn ... puxa. Obrigado. Mas você não devia ter feito isso.
- Me deu vontade - ela disse, emocionada. - Você me ajudou tanto nesse trabalho sobre
orientação vocacional. Além disso, assim que eu vi o cardigã, pensei em você.
Não entendi como aquilo podia ter ocorrido. Havia duas excelentes razões para eu
nunca ter tido uma malha como aquela em toda a minha vida. Para começo de conversa,
eu não possuía "meios" pra comprar uma coisa tão cara. Em segundo lugar, não fazia o
meu tipo de jeito nenhum. Entretanto, vendo a expressão de felicidade no rosto de
Lyssa, eu sabia que não poderia lhe dizer isso.
_ É super legal, Lys. Eu... eu não tenho como lhe dizer o quanto isso significa pra mim.
_ Estou tão contente que você tenha gostado! Sei que vai ficar bárbaro em você. Essa
cor cinza-chumbo, que está super na moda agora. Não vai experimentar?
Rezei para que não servisse, mas, assim que coloquei o cardigã por cima da minha
túnica, deu pra ver que era do tamanho exato. Depois, rezei pra que ela reparasse no
meu ar de imbecil dentro daquilo.
_ Uau! - Lyssa estava encantada. - Ficou perfeito! Você não acha? - Seus olhos
reluziam de afeto. Senti minha enorme relutância virar poeira.
_ Acho, claro - menti. Com todo o cuidado, tirei a malha e coloquei-a de volta na caixa.
Depois rezei pra que o frio não atingisse a região de Dallas por muitos e muitos anos.

11- Lyssa
Suspirei e larguei o livro em cima do sofá, em dúvida quanto ao significado de "um
sonho preterido". O poema que eu estava lendo repetia a frase algumas vezes. Amei a
sonoridade das palavras, mas não tinha certeza de estar compreendendo o sentido da
poesia.
Eu tinha comprado o livro no sábado, enquanto passeava de mãos dadas com Dante no
shopping. Ele havia me levado a uma imensa livraria e me arrastado de uma seção a
outra, soltando exclamações de prazer e espanto diante de publicações com ar
importante, como se fossem jóias preciosas. Era quase do mesmo
jeito como eu perdia a cabeça numa fábrica de tecidos.
Foi tão bonitinho vê-lo feito um menino pequeno, todo animado, correndo da seção de
biografia pra de política, e de lá pra de poesia. Minha maior vontade era conversar sobre
tudo o que era mais importante para ele, mas não movi um músculo e fiquei lá feito uma
tonta, escutando com a maior atenção enquanto ele
falava sobre gente como Cesar Chavez, Stephen Biko, Ralph Bunche e Thurgood
Marshall.
Numa certa altura, ele mostrou uma coletânea das obras de Langston Hughes e me disse
que era seu poeta predileto. Então tirei o volume das mãos dele, fui até o caixa e paguei.
Falei que havia acabado de ler uma coisa (não contei que essa "coisa" era o último
número da Glamour) e que estava procurando um bom livro para ler nas horas vagas.
Além de mostrar a ele que eu também podia ser uma intelectual, minha esperança era
que, lendo os mesmos poemas, ficasse mais fácil entender de que maneira trabalhava
aquela sua mente brilhante.
- Minha flor, será que podemos conversar um instante?- mamãe perguntou, caminhando
na minha direção. Estava de braços cruzados e cara feia.
- O que foi?
- Eu fui até o banheiro do hall pra ver se achava um pouco de algodão e reparei numa
porção de produtos na lixeira. Uma parte ainda nem acabou, e a maquiagem também
não está vencida. O que houve?
- Mas, mamãe, são todos produtos Jinesse. Eu não posso mais usar nada daquilo.
- E por que não?
- Porque o Dante falou que eles fazem testes em animais.
Mamãe me olhou como se de repente eu tivesse criado presas e garras.
- Meu bem, você acabou de jogar fora produtos em excelente estado. Por que
desperdiçar dinheiro dessa forma?
- Porque não quero apoiar uma empresa que faz uma coisa dessas. Além do mais, os
produtos eram meus e eu comprei com o meu dinheiro, ganho com o meu trabalho.
Então posso fazer aquilo que eu quiser com eles, certo?
Nossa! Minhas palavras pegaram até a mim mesma de surpresa. Eu jamais tinha
desafiado minha mãe daquela maneira.
Mamãe soltou um suspiro e sentou-se na poltrona ao lado.
- Lyssa, ultimamente eu ando meio preocupada com você - ela disse, numa voz calma e
controlada. - Desde que começou a sair com esse rapaz, o Dante, você mudou muito.
Passa o tempo todo lendo, fica acordada até tarde pra assistir a noticiários como
Nightline ou Frontline.
E não faço tudo do jeito como você quer que eu faça, pensei irada.
- E daí? Estou aprendendo um monte de coisas importantes. O que tem de errado nisso?
- Eu sabia que meu tom estava um tanto petulante, mas me sentia bem em estar
defendendo minhas opiniões.
- O que estou tentando lhe dizer é que não gosto da maneira como esse rapaz parece
dominar você. Todas essas mudanças tão repentinas me assustam. - Mamãe se inclinou
pra frente e me olhou com um ar solene. - Meu bem, talvez fosse melhor você não
passar tanto tempo com o Dante.
Se eu já estava brava antes, dali em diante passei a soltar fogo pelas ventas. Era típico
da minha mãe tentar controlar todo e qualquer aspecto da minha vida.
- Você só não gosta dele porque o Dante é diferente, porque ele não se veste direito nem
tem um monte de dinheiro. Você acha que ele não é bom o suficiente!
- Não. Isso não é verdade. - Mamãe se levantou e foi até o sofá, onde tentou pôr a mão
em meu ombro. Eu evitei o contato.
- Só acho que você devia ir um pouco mais devagar. Não quero vê-Ia magoada, nem
quero que ponha a perder tudo aquilo pelo que lutou por causa de um sujeito qualquer.
O Dante não é um sujeito qualquer, tive vontade de dizer. Ele é a melhor coisa que me
aconteceu em muito tempo! Mas estava tão paralisada de raiva que não conseguia abrir
a minha boca. Tudo o que consegui fazer foi ficar ali sentada, trincando os dentes,
enquanto anos de ressentimentos reprimidos vinham à tona.
Ela não se importa comigo, eu repetia em silêncio, furiosa. Pra ela, tanto faz que eu
esteja me sentindo feliz. Ela só se preocupa com a minha carreira, mais nada.
- Bem, espero que pelo menos você pense um pouco sobre o que acabei de dizer - falou
mamãe, virando-se e saindo da sala. Imagino que ela tenha percebido que não adiantaria
mais ficar por ali, já que eu havia me transformado numa pedra.
Depois que ela saiu da sala, dei uma olhada no monte de fotos penduradas atrás do bar.
Lyssa posando aos treze anos. Lyssa posando aos quinze anos. Lyssa posando... Lyssa
posando. Era só o que importava pra ela.
Sem pensar, atirei o livro de poesias sobre as fotos. Uma delas, em que eu estava de
vestido branco sentada num balanço, amorteceu o impacto. O vidro rachou bem no
meio, a moldura balançou violentamente por alguns segundos e despencou no chão num
estrondo.
Mais tarde, naquele mesmo dia, fui até a casa de Dante assistir a um vídeo. Eu nunca
tinha entrado no apartamento dele, nem sido apresentada a seus pais, por isso levei uma
eternidade pra achar a roupa certa. No fim, resolvi pôr uma calça capri preta e uma
blusa azul-clara justinha. Uma roupa clássica, porém graciosa.
Enquanto passava com o carro por um monte de ruas desconhecidas, ia relembrando a
discussão com mamãe.
Mesmo mamãe estando totalmente enganada a respeito de Dante, ela havia acertado
numa coisa: eu estava diferente. Eu sentia que estava.
Depois que papai saiu de casa, eu passei a sentir um medo louco de irritar as pessoas.
Não suportava a idéia de que alguém pudesse ter uma opinião negativa sobre mim. Mas
nos últimos tempos, eu vinha me sentindo capaz de enfrentar as pessoas, tinha
defendido Dante do ataque das meninas e, por fim, da minha própria mãe. Graças a
Dante e à sua confiança em mim, eu me tornara mais forte, mais segura de mim.
Então, lembrei que minhas amigas diziam que, depois das sessões de maquiagem dos
sábados, sempre ficavam mais confiantes. Bom, era isso que Dante estava fazendo por
mim. E eu tinha decidido fazer o mesmo por ele.
De vez em quando ele ficava muito quieto, e eu achava que, se conseguisse ajudá-lo a
melhorar sua aparência, mudaria o modo de ele enxergar as coisas. Se o mundo o visse
como eu, talvez Dante passasse a ver tudo de um novo prisma. Talvez se sentisse mais
feliz.
Eu precisava ajudá-lo. Ele merecia isso, depois de tudo o que havia feito por mim. Só
mais alguns empurrões na direção correta e Dante seria um outro homem.
_ Será que estou no lugar certo? - estava me perguntando na hora em que vi a placa
indicando o condomínio Argosy.
Segui pela entrada principal e vi dezenas de apartamentos amontoados uns sobre os
outros. Mal dava pra acreditar. Eu tinha uma casinha de bonecas, a Casa de Sonhos da
Barbie, que era maior do que aquelas moradias. As construções não eram mambembes
como a Carroça da Vera, mas, pra ser sincera, eu não
entendia como é que alguém conseguia viver de modo confortável num espaço tão
pequeno. De repente, me senti culpada por ter tanto enquanto Dante tinha tão pouco.
o apartamento dos Michaels ficava no segundo andar do primeiro prédio. Havia um
tapetinho florido de boas-vindas na entrada e várias plantas muito bem cuidadas numa
sacada ao lado. Passei a mão no cabelo e bati na porta.
A porta se abriu e vi um homem alto, de barba, vestindo calça esporte e camisa bordada,
que sorria pra mim.
- Olá. Você deve ser a Lyssa. Por favor, entre.
Ultrapassei a porta e já estava na sala deles. O lugar era minúsculo, mas aconchegante.
Havia duas poltronas largas, um sofá muito confortável coberto por uma manta bem
antiga, trabalhos em batik pendurados nas paredes, um monte de máscaras africanas e
livros por toda parte - em prateleiras, sobre as mesas e até
no chão. A impressão era de que eles moravam dentro de uma biblioteca.
- Muito prazer. Sou Lawrence, pai do Dante - ele disse, apertando a minha mão. - E esta
é a minha mulher, Helene. - Com um gesto, mostrou uma mulher alta, graciosa, saindo
da área da cozinha. Ela usava um vestido de algodão longo e largo, com estampa em
ziguezague, e muitas bijuterias de aparência exótica.
Enquanto ela vinha na minha direção, com a mão estendida, reparei que no andar dela
havia o mesmo gingado orgulhoso que caracterizava o andar de Dante.
- Nossa, ouvimos falar tanto de você! - a mãe dele me disse, apertando minha mão,
enquanto os braceletes tilintavam em seu braço. - Que bom poder finalmente conhecê-
la!
- Igualmente - respondi, balançando a cabeça com força demais. Bem que eu gostaria de
saber o que Dante tinha dito a meu respeito.
- Por favor, fique à vontade - ela disse.
- Obrigada. - Acomodei-me então na ponta do sofá, bem ao lado de uma pilha de livros
de arte.
Bem nesse momento, Dante apareceu na porta, do outro lado da sala. Estava de jeans e
com aquela camiseta verde-clara da qual eu tinha gostado tanto. Seu rosto bonito
brilhou sob a luz da luminária, como se ele tivesse acabado de se barbear.
- Oi, Lyssa - ele disse, com uma certa timidez.
_ Dante nos contou a boa notícia hoje - Lawrence falou, dando um imenso sorriso pro
filho.
_ Pai! - Dante gemeu. - A Lyssa ainda não sabe. Era pra ser uma surpresa.
_ Que boa notícia? - perguntei, olhando para ambos.
Dante baixou os olhos e mexeu um pouco os pés, nervoso.
_ Eu... Ahn... eu recebi um telegrama da Folha da Manhã de Dallas hoje. Eles querem
me entrevistar na semana que vem.
_ Mas que maravilha! - Eu estava elétrica. - Eu sabia que ia dar certo!
_ Estamos tão orgulhosos de você, meu querido! - a mãe exclamou, correndo pra dar um
abraço no filho.
_ Ah, mãe, fala sério! - ele disse, com o rosto iluminado por um sorriso modesto. .
_ Dante nos contou que você o incentivou muito - o pai cochichou pra mim. - Gostaria
de lhe agradecer por isso.
_ O prazer foi todo meu. Ele merece. Tem muito talento.
O pai sorriu e balançou a cabeça, concordando.
- Nós também achamos.
_ Lawrence, agora precisamos ir mesmo - disse a mãe de Dante, checando as horas.
Depois, me lançou um olhar de desculpas.
- Desculpe não podermos ficar pra conversar um pouco mais, temos de dar aulas agora à
noite.
- Tudo bem. Eu entendo.
_ Divirtam-se! - ela disse, dando um beijo no rosto de Dante.
Ambos se despediram, lamentaram mais uma vez terem de sair, me convidaram a
aparecer mais vezes e, por fim, se foram:
_ Puxa, ainda bem - disse Dante, com um enorme suspiro, assim que o ruído dos passos
dos pais sumiu no corredor. - Desculpe o jeito deles.
_ Desculpar o quê? Eu achei os dois super legais. Eu daria qualquer coisa pra ter pais
como eles. Eles parecem ser tão tranqüilos, apóiam você o tempo todo... Bem diferente
do jeito controlador da minha mãe.
Dante deu de ombros.
_ É, imagino que seja. Mas eles têm o péssimo hábito de demonstrar afeto demais.
- Não há nada de errado nisso. - Sorri com um ar maroto e dei um tapinha na almofada a
meu lado. - Eu também bem que estou precisando de um pouco.
Dante veio até onde eu estava e sentou-se do meu lado, me envolvendo em seus braços.
- É tão bom ver você - ele sussurrou, antes de me beijar com ternura.
De repente, a porta abriu e o pai de Dante entrou feito uma bala. Dante e eu nos
separamos em um salto, como se uma bomba tivesse sido detonada entre nós.
- Esqueci a pasta - o pai explicou, pondo a mão na frente do rosto. - Eu não vi nada.
Podem voltar a fazer o que eu não vi vocês fazendo. - Depois pegou uma pasta de
couro, virou-se e saiu correndo.
Dante e eu nos entreolhamos e caímos na risada.
- Bom taí um bom jeito de acabar com o clima. - E sacudiu a cabeça. - Que tal se a
gente fizesse pipoca?
Enquanto Dante colocava a pipoca no microondas e pegava refrigerantes pra nós, fui
ver a coleção de vídeos que havia numa prateleira perto da televisão.
- Escolha o que você quiser - ele me disse da cozinha.
- Ahn ... Está bem.
Eu não fazia a menor idéia do que escolher. Eram quase todos filmes sérios e
vencedores de vários prêmios, como A Lista de Schindler. Eu não conhecia muitos
deles, e de alguns nunca nem tinha ouvido falar! Eu queria pôr alguma fita que criasse
um clima romântico, mas que também mostrasse que eu conhecia bons filmes. Se pelo
menos eu tivesse alguma dica ...
- Diga uma coisa: qual é o seu filme predileto, aquele de que você mais gostou? - eu
gritei na direção da cozinha.
- Essa é fácil - ele respondeu, saindo da cozinha pra me dar o refrigerante. - É Malcolm
X. E você? Qual é o seu filme preferido?
- As Patricinhas de Beverly Hills.
Nem bem tinha respondido e já tinha me arrependido. Dante parecia estar reprimindo
algum comentário cínico. Burra, censurei a mim mesma. Por que não inventou qualquer
outra coisa?
_ Mas... Ahn... eu sempre quis ver Malcolm X -, acrescentei depressa. - É que a
oportunidade nunca surgiu. E se a gente assistisse agora?
-Hoje?
_ Claro. Eu vi que você tem uma cópia.
_ Mas o filme tem mais de três horas.
_ Tudo bem. Nós temos tempo.
Ele me deu uma olhada rápida e foi abrindo um sorriso.
_ Ótimo, então. Você vai adorar. - Ele se curvou e tirou uma caixa da prateleira. - Me dê
só uns minutos.
Enquanto Dante, sentado de pernas cruzadas no chão, voltava as duas fitas, li a sinopse
no verso da caixa. O maxilar forte de Denzel Washington e seu olhar decidido me
faziam pensar em Dante, sempre tão pensativo. Eu queria iluminar um pouco sua vida,
tornar todos os sonhos dele realidade, como se eu fosse sua fada madrinha.
Pronto! Era isso! A festa! Eu podia dar uma melhorada geral nele e levá-I o comigo na
festa à fantasia. Então todos teriam a oportunidade de ver o homem maravilhoso que ele
era. E talvez, quem sabe, Dante parasse de salvar o universo por uns tempos e
aprendesse a curtir bons momentos. Seria mágico! Nosso próprio conto de fadas com
final fehz.
_ Dante? - comecei a falar, me sentando ao lado dele. - Posso lhe perguntar uma coisa?
Ele virou-se e sorriu.
- Claro. O quê?
Aproximei-me ainda mais, até que estivéssemos ombro com ombro, coxa com coxa,
meu hálito misturado ao dele. Eu queria que aquele momento fosse absolutamente
romântico, uma lembrança a ser guardada pra sempre.
_ Você sabe, não sabe - falei, olhando dentro de seus olhos-, que eu fiquei muito feliz
de ter você como parceiro de trabalho.
_ Eu também fiquei - ele sussurrou.
_ Essas últimas semanas têm sido incríveis. Eu me sinto tão ... tão próxima de você. . .
_ Eu também - ele repetiu, com o olhar mais intenso.
_ E as coisas seriam tão perfeitas se ...
- Se? - ele murmurou se movendo na direção do meu rosto pra me dar um beijo.
-... Se você me acompanhasse na festa à fantasia.
Dante recuou com um gesto brusco, com os olhos arregalados.
Por uns instantes, ficou ali sentado, olhando pra mim, enquanto a fita voltava ao
começo. Por fim, engoliu em seco e disse:
- Lyssa, eu não posso.
- O quê? - Senti uma pontada no coração. - Por que não?
- Simplesmente não posso - ele repetiu, com um dar de ombros. - Esse tipo de festa,
com todas as roupas caras que ela exige, aquela atmosfera pomposa ... aquilo não é pra
mim.
Claro, pensei, sentindo-me mais aliviada. Ele está com medo de que seu dinheiro não
seja suficiente.
- Ah, mas não precisa se preocupar com os custos – eu disse, toda animada. - Eu
consigo uns descontos fantásticos no shopping. Nós podíamos dar um pulo na Macy e...
- Não, Lyssa. Isso não tem nada que ver com dinheiro.
- E tem a ver com o quê?
Ele deu um suspiro e colocou a mão sobre a minha.
- Eu boicoto essas festas por uma questão de princípios. Ir a qualquer uma delas
significaria abrir mão das minhas crenças.
- Ah - respondi, sem entender direito o que ele tinha dito.
- Mas estou muito lisonjeado por você ter me convidado - ele continuou, com um
sorriso satisfeito. - Só que acho que não precisamos pôr traje a rigor para nos divertir.
Ou precisamos?
- Não. Acho que não.
- Podemos ficar por aqui mesmo ou ir até a Carroça da Vera. Estando juntos, qualquer
coisa serve.
- Claro. - Lancei-lhe um sorriso de modelo, todo cheio de dentes, pra disfarçar a
tremenda decepção que tinha me invadido a alma.
Lá se vai o meu conto de fadas, pensei tristonha. Cinderela boicota a festa por questões
morais e leva o Príncipe Encantado para comer um hambúrguer.
Não era exatamente o final feliz que eu buscava.

12- Dante
Lyssa tinha me convidado para uma festa "informal" que sua agência ia oferecer na
sexta-feira à noite. Ela me disse que tinha prometido ir, que não podia furar, mas que só
conseguiria se divertir se eu fosse junto.
_ Não precisa se preocupar - ela me garantiu. - Não vai dar pra ficarmos muito tempo
mesmo. Eu tenho que rodar aquele comercial no sábado, bem cedo, e você tem a sua
entrevista de estágio. Vamos só dar uma passada e ir embora, certo? Por favor, diga que
aceita!
Circular no mundo da moda não era exatamente o meu programa predileto, mas
concordei em ir só pra poder ficar com ela. Eu estava tão ligado em Lyssa que quase já
tinha virado doença. Sempre que nós nos víamos, eu me sentia meio intoxicado, de
emoções. Quando nos separávamos, batia uma saudade horrível dela. Por isso, preferia
agüentar uma festinha chata de agência do que ficar sentado no quarto, suspirando e
enlouquecendo aos poucos de tanto pensar nela.
Na quinta-feira à tarde, Lyssa ligou pra combinarmos tudo e me perguntou o que eu ia
vestir. Quando disse que não fazia a menor idéia, ela me falou pra usar uma calça cáqui
que eu tinha, meio largona, a camiseta preta e as botas de couro. Acho que ela devia ter
decorado cada peça que havia no meu guarda-roupa. Eu
sabia que ela só estava tentando me ajudar, mas me senti meio como uma boneca sendo
vestida em alguma brincadeira.
- Ah, e não se esqueça de levar aquele cardigã que eu te dei - ela acrescentou, antes de
desligar. - Ouvi dizer que pode esfriar um pouco.
E lá estava eu, na sexta-feira à noite, rodando pela região, dos bares e clubes de Dallas
com a menina dos meus sonhos, me perguntando até que ponto os meus ideais
resistiriam.
Eu me sentia sem jeito, quase preso, dentro daquela malha novinha em folha. Parecia
que estava tudo coçando. Lyssa usava um micro vestido de renda preto que lhe caía bem
como um abraço apaixonado. Estava tão maravilhosa que meus olhos até incharam.
Mas, sentado ao seu lado, não conseguia deixar de me
sentir um idiota. Se é assim que ela se veste para uma ocasião informal, pensei, imagine
numa festa a rigor!
Quando entramos no barzinho elegante onde a festa estava rolando, reparei que todos
estavam tão chiques quanto ela. O lugar estava latada de gente alta, magra e impecável.
Lyssa misturou-se com a maior facilidade àquele mar de tecidos caros. Eu me senti uma
fraude.
- Engraçado eles fazerem a festa num bar - Lyssa comentou, enquanto abríamos
caminho entre as pessoas pra achar uma mesa vazia. - Mais da metade do pessoal que
trabalha para a agência Turner ainda não tem idade pra beber.
- E pra que é essa festa toda? - perguntei.
- Pra comemorar o lançamento do novo álbum da agência.
- E pra que serve o álbum?
Lyssa riu.
- É como um portfólio ou um book, só que mostra todo mundo. Na verdade, é um livrão
enorme com a foto e os dados de todos os modelos que trabalham pra Turner. Clientes
em potencial usam esse livro pra encontrar o que estão procurando.
Rosnei com um certo desdém.
- Até parece um rebanho ou algo do tipo. Eles não pedem pra examinar os dentes de
vocês, pedem?
Lyssa me lançou um olhar de surpresa.
- Não - ela disse, magoada.
Meu coração ficou apertado. Senti-me um brutamonte.
- Desculpe Lys. Não foi minha intenção ser cruel com você. É que... - calei-me,
puxando a gola que coçava -... não estou me sentindo muito bem hoje.
- O que foi que houve? Está doente, algo assim?
- Não. O que eu quero dizer é que você pode até me botar dentro de roupas elegantes,
mas eu nunca serei como, essa gente. - E fiz um gesto que abrangia todos os
convidados.
- Relaxe! Você está ótimo. - E, estendendo a mão, ela endireitou os ombros da malha.
- E você está fantástica, como sempre - falei, deslizando meu indicador pelo seu braço.
Percebi o leve tremor que ela sentiu ao ser tacada.
Inclinando-me pra frente, beijei-a com suavidade, demoradamente, deixando que o
barulho e a movimentação em volta desaparecessem. Havia apenas ela e eu. Só nós
dois.
Nossos lábios se separaram, mas continuamos juntinhas, testa com testa, dizendo mil
coisas em silêncio.
- Confesse... - Lyssa falou então, com um sorrisinho maroto, acariciando de leve o meu
rosto. - Até que de vez em quando essa produção toda é divertida, não é? Você não se
sente novo em folha?
- Bom... - Minha voz não queria sair. - É eu sinto algo diferente em mim. Mas é você
que me faz sentir novo. Não são esses caras aí.
De repente, fomos interrompidos por uma voz aguda e que eu já conhecia.
- Lyssa, meu bem! - Era a Sra. Turner, vestindo uma saia preta muito justa e uma blusa
dourada brilhante, que avançava para a nossa mesa de braços estendidos.
- Sra. Turner! - Lyssa respondeu, levantando-se rapidamente para cumprimentá-la. No
mesmo instante, passou para o "modo modelo": queixo erguido, olhar concentrado,
lábios se abrindo num enorme sorriso gelado.
- Estive procurando você por toda parte! - disse ela, num tom sedutor. Depois
acrescentou, de relance:
- Olá de novo, Dante.
-Oi.
A Sra. Turner voltou a se concentrar em Lyssa.
- Meu bem tem alguém aqui que eu quero que você conheça. Você não se importa, não
é mesmo, Dante?
-Ahn...
- Eu sabia que não. Venha, meu bem. - E, agarrando o braço de Lyssa, afastou-a da
mesa.
Lyssa ainda se virou pra me olhar e encolheu os ombros, numa espécie de pedido de
desculpas, antes de ser engolida pela massa.
Suspirei, melancólico, e cocei a nuca. Por que será que essas roupas coçam tanto? Será
que eram feitas de urtiga?
Durante cinco longos minutos, fiquei ali largado, me sentindo invisível e
desconfortável. Aproveitei pra observar as pessoas ao meu redor, falando e tomando
refrigerante diet. Todos tinham dentes perfeitos, postura perfeita, feições precisamente
simétricas. Era quase assustador: pareciam clones feitos sob encomenda
ou uma raça superior de criaturas sorridentes.
De vez em quando, fiapos de conversa chegavam até mim, e comecei a reparar como
aqueles seres tinham uma linguagem própria.
- Sapatilhas rasas de balé, bordadas com strass, ou quem sabe uma babouche ...
- ... o decote funil está por toda parte agora ...
- Não. Não Versace. Versus ...
Mais um minuto e eu iria enlouquecer. Minha pele pinicava, meus pés doíam e minhas
axilas estavam começando a ficar úmidas. Eu precisava tomar alguma providência.
Procurei Lyssa pelo salão, mas não consegui vê-Ia. Então decidi ir até o bar e pegar um
refrigerante. Assim que o garçom me estendeu um copo de Dr. Pepper, uma voz
feminina esganiçou no meu ouvido.
- É você!
Virei-me e vi uma sósia da Julia Roberts sorrindo pra mim.
- Ahn... é... sou eu mesmo - respondi, sem fazer a mínima idéia de quem era ela.
Ela deve ter reparado que eu estava meio confuso, porque pôs os dedos no peito e falou:
- Eu sou a Jeannette. Não se lembra mais? Nós nos conhecemos no show Escada.
- Escada?
- É, seu bobo. - Ela soltou uma risadinha e revirou os olhos, na certa achando que eu
estava brincando. - Você sabe ... Jeannette.
Sacudi a cabeça.
- Desculpe. Acho que você me confundiu com alguém.
- Imagine só. Eu me lembro bem. Você é... não, não me diga ... você é Rusty, certo?
Trabalha pra aquela grande firma de marketing.
Não acreditei. Será que a moça achava mesmo que eu mexia com marketing? Só podia
ser obra do cardigã.
- Na verdade não. Meu nome é Dante - expliquei, estendendo a mão. Ela foi educada e a
apertou.
- Mil desculpas. É que você me pareceu tão familiar... Foi contratado faz pouco tempo?
- Ela franziu a vista com um ar cético, na certa pouco convencida do meu potencial de
modelo.
- Não. Eu vim com Lyssa Naylor. Você a conhece?
- Lyssa? Mas é claro. - Jeannette inclinou-se para um lado e apontou. - Não é ela ali,
conversando com o West?
Virei mais que depressa. E não deu outra: lá estava Lyssa, sorrindo e balançando a
cabeça como se estivesse se divertindo à beça. À esquerda estavam a Sra. Turner e um
sujeito mais velho, de terno azul. E à direita, West. Ele também sorria, olhando direto
para Lyssa. Alguém tentou passar por eles e vi quando West colocou a mão nas costas
de Lyssa e, delicadamente, tirou-a do caminho.
Um ciúme doentio amorteceu meus sentidos.
- Estou surpresa que o West tenha conseguido aparecer hoje aqui - Jeannette continuou.
- Ele tem estado bem ocupado todos os dias nas últimas semanas.
Pois é, e eu bem que gostaria de ocupá-la mais ainda.
- Bom, acho melhor eu ir ver por onde anda meu namorado.
- Jeannette apanhou dois refrigerantes do balcão e virou-se pro salão. - Prazer em
conhecê-lo, Dante. Divirta-se.
- Obrigado. Você também - respondi, sem acreditar que conseguiria.
Acomodei-me no balcão do bar e tomei meu refrigerante de olho nas mãos de West. O
cara estava flertando abertamente com Lyssa. Na verdade, dava a impressão de achar
que ela era propriedade sua. A todo momento espetava Lyssa com o cotovelo, apoiava-
se nela enquanto escutava a Sra. Turner falar e, sempre que
Lyssa dizia alguma coisa, ria muito e lhe dava um empurrãozinho no ombro, de
brincadeira.
Nesse meio-tempo, minhas roupas pareciam pinicar mais e mais, como se milhares de
agulhas minúsculas estivessem se enterrando em minhas costas. Só podia ser a malha.
Colocando o copo sobre o balcão, tirei o cardigã e pus na banqueta ao lado. Melhorou
muito. Pra mim era inconcebível que alguém conseguisse
usar aquelas roupas. Ainda bem que eu tinha escolhido uma carreira que não exigia um
guarda-roupa sofisticado.
Engolindo a última gota de Dr. Pepper, tentei pensar em uma forma de "acidentalmente"
jogar West escada abaixo. O panaca estava aprontando alguma, isso era óbvio. E, se ele
chegasse um milímetro mais perto de Lyssa, ela seria engolfada pelo paletó esporte
nojento dele.
Naquele exato momento, West tirou os olhos de Lyssa, percorreu o salão com os olhos,
me viu parado no bar olhando pra ele, e me lançou um enorme e triunfante sorriso.
Seguindo o olhar dele, Lyssa me pegou observando o grupo todo sorriu com doçura e
me fez um aceno. Incapaz de resistir, fui andando na direção deles.
Enquanto me aproximava, escutei o chilreado da Sra. Turner, mais animado que nunca.
- Ah! Vocês dois são os melhores! - E deu um tapinha de leve no rosto de ambos. - Olha
só pra vocês. São tão perfeitos juntos! - E depois, com as mãos ainda erguidas e a
cabeça ainda balançando, girou nos saltos altos e se foi seguida pelo homem de terno
azul.
Suas palavras ficaram ecoando em meu cérebro, saltando de um ouvido ao outro.
Perfeitos juntos. Por mais que doesse ter de admitir, era impossível ignorar os fatos. Ela
tinha razão. Esteticamente falando, West e Lyssa de fato faziam um par belíssimo.
- Dante! - Lyssa chamou, estendendo os braços pra mim.
- Me desculpe ter saído assim, sem mais nem menos, e largado você. Mas sabe como
é... - Franzindo a testa, ela revirou os olhos.
- Ossos do ofício.
- É, eu sei - falei distraído.
- Bom, Lyssa, a gente se vê.
Virando-se, West se afastou, mas antes acrescentou, com um sorriso de satisfação
dirigido a mim:
- Logo, logo.
Ah, cara, vá fazer escova no cabelo!, zombei com meus botões.
Lyssa simplesmente o ignorou.
- Está com fome? - ela perguntou, passando o braço no meu. - Quer uns biscoitinhos
salgados com caviar?
- Na verdade... você se importaria se fôssemos embora?
- Bom, não - ela disse, com um ar meio surpreso. – Acho que já cumpri minha
obrigação.
- Ótimo - resmunguei, puxando Lyssa pra saída. – Vamos dar o fora daqui.
Dirigi em silêncio quase até a casa dela, tentando pôr as idéias em ordem e formar uma
imagem mais clara da situação. Por algum motivo, minha sensação era de catástrofe
iminente. Não era só West que me preocupava, embora, sem sombra de dúvida, o
posudo fosse um dos vilões da história. Era mais que isso. Lyssa parecia tão à vontade
naquele ambiente ... por outro lado, eu me sobressaía como uma erva daninha. Nosso
namoro não tinha futuro.
Lyssa deve ter sentido que eu precisava de um pouco de paz, porque também não falou
muito. Ao meu lado, cruzava e descruzava as pernas morenas e longas, brincando com
um pedaço de papel que tinha nas mãos.
Por fim, quando entramos na avenida central de Parkridge, a ansiedade dela levou a
melhor.
- Dante, eu tenho uma surpresa pra você - ela disse, com os olhos brilhantes iluminando
o interior do carro. - Você nunca vai adivinhar o que aconteceu.
- O quê? - perguntei, com o coração aos pulos. Meu receio era de que West a tivesse
pedido em casamento ou algo parecido.
- Bom, a Sra. Turner me apresentou para o Sr. Lowell, aquele executivo da agência
A&D Advertising. A conta da loja pra quem eu vou fazer o comercial amanhã é deles.
- Aquele de terno azul?
- Esse mesmo. Bom, mas deixa eu contar logo. - E Lyssa deu alguns pulinhos
emocionados no banco. - Nós estávamos conversando e a Sra. Turner perguntou pra ele
sobre aquele estágio.
E é incrível, as atribuições incluem participação na redação dos comerciais e das
campanhas publicitárias, já imaginou? As contas deles são todas de gente graúda, do
tipo Planet Hollywood e daí pra mais.
- Não me diga - falei, mas só por falar, porque aquele assunto não tinha o menor
interesse pra mim.
- Pois é! Só que ele me disse que ainda não tinham conseguido encontrar a pessoa certa.
Pelo que falou, estão procurando alguém que, além de inteligente e confiável, seja capaz
de "pensar grande". Sei que você disse que não estava interessado, mas achei que era
uma daquelas oportunidades que surgem pouquíssimas vezes na vida.
Então, comecei a falar de você pra ele, contei que você queria mudar o mundo, que era
brilhante etc. E
ele gostou, então dei seu nome a ele. E estou com o cartão da agência aqui comigo.
- Você fez o quê? - Eu não conseguia acreditar no que estava ouvindo. - Lyssa, eu já
tinha dito pra você que não estava interessado! Eu vou fazer entrevista com a Folha da
Manhã de Dallas amanhã cedo.
- Eu sei. Mas esse estágio na agência de propaganda paga um salário de dez dólares por
hora! - E agitou as mãos, elétrica, como se esperasse que eu a tomasse nos braços e
saíssemos saltitando mundo afora. - Além de você ganhar uma tonelada de experiência.
- Trabalhando na indústria da propaganda ...
- Bom ... é ... - Aquela energia de segundos antes parecia estar morrendo. Lyssa inclinou
a cabeça e me encarou. - Eu sei que não é a mesma coisa que redigir uma coluna
opinativa, mas também é um trabalho criativo. Meio que a mesma coisa, no fim.
Olhei-a aturdido.
- Não, não é. É completamente diferente - falei com toda a ênfase. - Será que você não
percebe? Meu desejo é escrever coisas que abram os olhos das pessoas para as injustiças
ao redor, e não tentar enganar as pessoas e convencê-las a comprar um monte de coisas
inúteis.
Os olhos de Lyssa se arregalaram.
- Desculpe. Eu só quis ...
- Você não faz a menor idéia de quem eu sou. - E, de repente, me dei conta de uma
verdade arrasadora. - Ou talvez até me conheça, mas ache que não sou bom o bastante
do jeito que eu sou.
- Isso não é verdade - ela me respondeu baixinho.
- Não mesmo? Então por que está me empurrando pra esse emprego de publicitário? Por
que você passou a noite toda conversando com o West? Você obviamente prefere a
companhia dele! - Minha voz aumentou de volume. Todas aquelas inseguranças vagas
de antes adquiriram um formato horrendo e me levaram a uma explosão de desespero.
Já estávamos na rua onde Lyssa morava. Minhas mãos seguravam a direção com tanta
força que a pele parecia estar se fundindo com o volante. Parei na frente da casa dela,
pus o carro em ponto morto e aguardei, emburrado.
- Eu prefiro o West? - Lyssa me olhou como se não soubesse que língua eu estava
falando. - E o que significa isso, posso saber?
- Sem essa, Lyssa. Você conversou com ele a noite toda.
- Não conversei, não, senhor. Eu estava conversando com a Sra. Turner. O West é um
grude e eu só não falei pra ele dar o fora porque nosso patrão estava bem ali do lado.
- Pode ser. Escute, eu não quero falar sobre ele. Eu não quero mais ir a nenhuma festa
metida à besta, não quero mais ir a nenhum desfile de modas e, acima de tudo, não
quero virar um executivo escravo da propaganda! - O ressentimento em minha voz
surpreendeu até mesmo a mim. - Eu não preciso de caridade, Lyssa.
Foram palavras duras que ficaram pairando no ar como nuvens de chuva. Estávamos os
dois paralisados dentro do carro.
Momentos depois, o silêncio tenso foi quebrado ... pelo som dos soluços de Lyssa.
- Você não está sendo justo comigo - ela sussurrou. – Eu só estava tentando ajudar. -
Seu queixo tremia e as lágrimas molhavam seu rosto.
No mesmo instante, todo o meu azedume se foi e me senti como um grande pateta.
Minha vontade era de abraçá-la, pedir perdão pelo meu destempero e tentar lhe explicar
o estado caótico em que estava minha mente. Mas, antes que eu pudesse dizer alguma
coisa, ela saiu do carro, bateu a porta e sumiu na escuridão.
Lyssa se foi, a raiva passou e, de repente, o interior do meu Volkswagen ficou gelado.
Só então percebi que havia esquecido a malha no bar.
13- Lyssa
Eu deveria estar dormindo pra ficar bem pra rodar o comercial no dia seguinte. Em vez
disso, estava grudada no meu coelhinho, chorando feito um bebê. Fazia muito tempo
que eu não soluçava tanto.
Minha briga com Dante tinha me deixado muito confusa.
Eu estava magoada, brava e não fazia idéia do que havia acontecido.
Ele não devia ter berrado comigo daquele jeito, principalmente porque eu só estava
tentando ajudar. E de onde tinha saído aquele absurdo a respeito do West?
Devia haver algo de muito errado comigo! Eu tentava fazer o melhor possível o tempo
todo, deixar todo mundo feliz, mas por algum motivo as coisas sempre acabavam dando
errado.
Quando papai me contou que ia se separar de mamãe e sair de casa, eu fiz de tudo pra
ele mudar de idéia. Mantinha meu quarto impecável, comia todas as verduras, dizia que
ele era o melhor pai do mundo, não me cansava de elogiar a beleza de mamãe e coisas
do tipo. Mas não funcionou.
Depois, quando ele foi embora, tentei ser uma filha perfeita pra mamãe, pra que ela não
me largasse também. Fazia tudo o que ela mandava, nunca me rebelava e jamais a
amolava com meus problemas. Mamãe não me largou, é verdade, mas minha impressão
era a de que havíamos nos afastado muito. Nos últimos anos, ela era mais minha agente
e gerente do que minha mãe.
E agora o Dante.
Eu já devia ter adivinhado que aquilo ia acontecer mais cedo ou mais tarde. Eu não era
tão inteligente quanto ele imaginara; caso contrário teria ao menos uma noção do
motivo de tanta irritação.
Como ele podia ser tão cruel? E eu achando que ficaria grato quando soubesse do
estágio... Que nada! a sr. Cínico estava de olho na carreira jornalística ... mesmo que
aquilo significasse morrer de fome. Parecia até que escrever pra um jornal era sua única
razão de viver. Um sonho preterido...
Parei de chorar e me sentei na cama, me lembrando de repente do poema de Langston
Hughes. Por vários minutos, as palavras zumbiram em volta da minha cabeça, e os
versos se repetiram diversas vezes até tomar forma e cor próprias. No final das contas,
as coisas começaram a fazer sentido. A poesia. E Dante.
De acordo com Langston Hughes, quando você adia um sonho, ele morre ... assim como
uma parte de você.
Dante sabia o que queria da vida. E perseguia seus ideais sem fazer acordos com
ninguém, sem pedir licença nem desculpas. De certa forma, talvez sua missão de
consertar o mundo fosse sua razão de viver. Era algo muito mais importante que
dinheiro, mais até que a felicidade. Certamente, mais importante que eu. Dante tinha
coragem pra seguir seu coração, independentemente dos obstáculos. Era eu que estava
"preterindo meu sonho".
É a sua vida, Lyssa.
Saí da cama, fui até a escrivaninha e revirei a papelada da gaveta até encontrar o
anúncio de estágio que a sra. Weddington havia me passado no dia do aniversário de
Betsy. A descrição do cargo, com as atribuições, ainda estava presa por um clipe no
canto esquerdo.
Eu sabia o que tinha de fazer.
- Ai, boneca. Você está um horror! Por que seus olhos estão tão inchados? - Foi assim
que West me cumprimentou quando entrei no estúdio, na manhã seguinte.
- Muito obrigada. Bom dia pra você também - respondi.
Agüentar a brancura esfuziante dos dentes de West logo às oito da manhã foi um pouco
demais pra mim, sobretudo depois de poucas horas de sono. Eu estava me sentindo
cansada e rabugenta, e prestes a chorar a qualquer minuto. Por causa da briga com
Dante, eu parecia oca por dentro, uma sensação estranha que eu me perguntava se
algum dia ia passar.
Entretanto tinha feito uma coisa que aliviava um pouco a minha dor. A caminho do
estúdio, passei pelo Correio e postei meu pedido de estágio para a Savra Modas.
Finalmente, estava fazendo algo pra mim mesma, não pra minha família, nem pras
minhas amigas, nem mesmo pro Dante. Quando coloquei o envelope na caixa, foi como
se estivesse me livrando de toda a pressão que vinha sofrendo havia anos e anos. Eu
tinha tomado uma decisão importante: ia abandonar a carreira de modelo mesmo que
não conseguisse o estágio. Agora só faltava coragem pra contar a todos.
_ Ei eu tenho uma coisa pra você - West falou. Aproximando-se, entregou-me um
volume macio. Era a malha que eu havia dado pro Dante.
_ Cinderela saiu do baile muito rápido e acabou deixando pra trás - West explicou, com
um sorriso cínico. - Um Ralph Lauren, hein? Só pode ter sido obra sua. a nosso Grande
Repórter" jamais seria capaz de distinguir um artigo de luxo de um artigo do lixo. .. .
_ Ele ... largou a malha lá? - perguntei mais pra mim mesma do que pro West. Eu me
senti engasgada. Parecia que havia arrancado um pedaço do meu coração. Tudo me
parecia simbólico: era como se eu tivesse sido largada, e não a malha. E talvez fosse
isso mesmo.
Com um suspiro triste, ergui o cardigã e deixei que caísse aberto, estudando o modelo.
Era uma malha linda, super macia,de cashmere. Elegante, porém conservadora, perfeita
pra usar num clube pra fumantes de charuto ou num iate.
Quanto mais eu examinava a peça, mais me dava conta de que não combinava com
Dante de jeito nenhum. No que eu estava pensando no dia em que comprei aquilo?
Dante merecia algo com mais charme e personalidade. Aquela malha era mais adequada
pra ... pra um estagiário de publicidade. .
_ Você não devia ter desperdiçado seu dinheiro com ele -West murmurou, colocando a
mão no meu ombro, como se tentasse me consolar. Mas o gesto parecia falso.
- Tire a mão de mim, West! - falei, fugindo daquele toque. - Você não sabe de nada.
- Ele não merece você. O cara não sabe reconhecer o que é bom, nem que você lhe
ofereça numa bandeja. Agora eu, por outro lado ... - e West aproximou-se de mim outra
vez, pra me afagar o rosto - ... eu sei como apreciar as melhores coisas da vida.
- Mas que ótimo! -exclamei, lançando-lhe um enorme sorriso falso. Ergui o braço,
afastei a mão dele do meu rosto e dei-lhe a malha. - Porque pode ficar com isto.
- Corta! - berrou o diretor pela vigésima vez. - Essa ficou pior ainda!
Não sei por que achei que fazer a propaganda da Cutter Electronics seria fácil e
excitante. Quando me disseram que não seria preciso decorar nenhum texto, imaginei
que iríamos perambular em volta de alguns estéreos e microondas e dar um baita
sorriso. Infelizmente, o trabalho exigia um pouco mais que isso. Muito mais. E, no
estado em que me encontrava, exausta e de coração partido, eu não conseguia dar conta
do recado.
No roteiro, West e eu fazíamos o casal de namorados.
Enquanto ficávamos sentados num sofá, diante de uma televisão enorme, a voz do
narrador dizia: "Home theaters tão potentes que você nem lembra que não está no
cinema". Em seguida, a idéia era que nós nos beijássemos apaixonadamente, até sermos
interrompidos por um pai muito severo.
O problema era o beijo. Pelo visto, ele não estava convencendo, o que pra mim não era
surpresa nenhuma. Eu não sentia a menor atração por West, e a cada segundo ele me
parecia ainda mais tedioso.
Nossas tentativas lembravam uma comédia. Toda vez que recebíamos a deixa e nos
aproximávamos pra dar o tal beijo, batíamos a cabeça um no outro, ou o nariz. O cheiro
de café no hálito de West estava me dando enjôo e, entre uma tomada e outra, ele tinha
a audácia de tirar do bolso um lenço com um monograma bordado pra enxugar a boca.
Porém, a culpa não era só dele. Eu não estava conseguindo me desvencilhar do choque
da noite anterior e interpretar o meu papel.
_ Vamos lá, crianças - o diretor implorou. - Tempo é dinheiro. Se não conseguirmos
acertar isso na próxima, vamos ter que fazer algumas mudanças. Entenderam o que
estou querendo dizer?
West cruzou os braços, indignado.
_ Não sei por que vocês estão me criticando. Não é culpa minha se ela não sabe fazer a
cena.
- Ei! Pra beijar são necessárias duas pessoas – retruquei brava. - Eu posso nunca ter
rodado um comercial pra televisão, mas a sua técnica também deixa muito a desejar.
_ Deixa muito a desejar? Não faz nem dois meses eu estava em Los Angeles fazendo
um comercial pra um anti-séptico bucal e eles disseram que ...
_ Já chega! - berrou o diretor. - Quero que vocês façam um intervalo agora. Estiquem as
pernas, retoquem a maquiagem e se acertem. Se as coisas não se resolverem em quinze
minutos, a agência Turner vai escutar poucas e boas.
Com isso, o set se dissolveu em ruídos e atividades, à medida que a equipe e o ator que
fazia o "pai severo" se dispersavam em diferentes direções.
- Eu vou pegar um pouco de água - falei para West.
Deus, me ajude a chegar ao fim deste dia, pedi enquanto ia até o bebedouro. Eu havia
me sentido tensa e inquieta a manhã toda, como se estivesse na linha de partida de
alguma corrida, à espera do tiro de largada. Talvez por causa da minha briga com Dante.
Ou por falta de sono. De um jeito ou de outro, eu sabia que meu lugar não era naquele
set.
_ Lyssa? - West chamou, aproximando-se por trás.
- O quê? - respondi com frieza.
_ Olha só, me desculpe por ter ficado bravo com você. - Ele baixou a voz e olhou em
volta, todo nervoso. - Será que não tem um jeito de a gente resolver esse negócio do
beijo? Afinal, ninguém aqui quer ser despedido por uma bobagem dessas.
Soltei um suspiro frustrado.
- Eu também quero que funcione. Vamos estabelecer uma trégua, rodar a tomada e dar o
fora daqui.
- Mas eu não estou entendendo qual é o problema – West gemeu. - Quer dizer, tudo o
que temos de fazer é juntar nossas bocas. Não pode ser tão difícil assim, né?
- Mas também não é assim tão simples, West. Envolve mais do que duas bocas se
tocando. Tem que haver uma química. E nós dois não temos essa química.
- Bom, mas nós temos de fazer alguma coisa. - E West começou a andar em círculos,
agitando as mãos com impaciência.
- Se o boato vazar, minha reputação estará arruinada.
Apertei os olhos para enxergá-lo melhor. Como é que um dia eu podia ter achado que
ele era um cara sexy? Ele era um esnobe chorão, isso sim. Por isso é que o beijo não
emplacava de jeito nenhum. Agora, se eu estivesse rodando o comercial com o Dante,
haveria mais faíscas no ar do que em volta de uma máquina de solda.
Espere um pouco! Claro!
- Olha só, West. Acho que tive uma idéia.
Ele parou de andar em círculos e olhou pra mim.
- Qual? O quê?
- Shh. Não fale nada. Feche os olhos e fique quieto.
West seguiu as instruções e eu cheguei mais perto. E então, usando toda a minha
imaginação, tentei sobrepor o rosto de Dante ao de West.
Uma onda de emoções arrasadoras me invadiu o peito enquanto eu me transportava
mentalmente no tempo. Lembrei da expressão de Dante na noite do nosso primeiro
beijo, quando dançávamos na Carroça da Vera. Luzes de neon brincando em sua testa,
olhar melancólico, pálpebras semicerradas, lábios entreabertos ...
Inclinei-me e dei um longo e romântico beijo naquela imagem. Claro que não chegou
nem aos pés da sensação mágica que eu tive com Dante. Estava mais para aqueles
momentos em que a gente tenta se convencer de que espinafre é torta de frango.
Mesmo assim, o espectador médio muito provavelmente iria achar a cena convincente.
Depois afastei-me e apaguei aquela imagem da cabeça. Porém, eu continuava vendo o
Dante. Por cima do ombro de West, eu o vi parado na entrada.
_ Isso é o que eu chamo de beijo! - West exclamou, recuando um passo e bloqueando
minha visão. - Parece que nossos problemas acabaram. Quando o diretor vir...
_ Com licença. - Empurrei West pro lado e me desviei dos acessórios cênicos e
integrantes da equipe de filmagem pra conseguir chegar até o lugar onde achava que
tinha visto Dante. Mas, quando cheguei lá, ele havia sumido.
Será que ele tinha mesmo estado ali? Talvez a minha imaginação estivesse muito fértil.
Será que eu estava vendo coisas por causa da dor de tê-lo perdido?
O diretor se aproximou e cutucou o meu ombro.
- E aí, vocês resolveram as diferenças?
_ Hein? O quê? - Por um segundo, pensei que ele estivesse se referindo à minha briga
com Dante. Só depois percebi que falava de West. - Ah, claro. Está tudo ótimo agora.
_ Então vamos lá, pessoal! - ele berrou, para encobrir a balbúrdia.
- Fim do intervalo! Vamos refazer a cena. Quanto antes terminarmos, mais cedo
chegaremos em casa.
Olhei de novo pra entrada, onde eu achava ter visto Dante.
Imaginação minha ou não, considerei aquilo um sinal.
Eu tinha de vê-lo - de verdade - pra tentar consertar as coisas. A vida era curta demais
pra preterir um sonho como aquele.

14- Dante
Pisei no acelerador, virei à esquerda e disparei pela Via 75 em velocidade máxima, o
que não era grande coisa, considerando o trânsito do meio-dia e o motor minúsculo do
meu carro. Se raiva fosse combustível, porém, eu teria voado.
- Você é um idiota de marca maior! - gritei pra mim mesmo, enquanto entrava na pista
pra ultrapassagem.
Eu não estava apenas descontando minha decepção no acelerador de modo impensado e
machista (embora isso fosse parte da reação). Eu estava também tentando pôr o máximo
de distância possível entre mim e a cena horrível que eu tinha acabado de testemunhar.
Alguma vez na vida, você já viu algo tão desagradável que acabou impresso na sua
mente feito ferro em brasa? E não importava o quanto você se esforçasse pra apagar a
imagem, ela não saía da sua cabeça? Foi o que aconteceu comigo.
Depois da briga com Lyssa, eu não consegui pegar no sono.
Virei e revirei na cama durante horas e horas, analisando a noite inteirinha nos mínimos
detalhes. Por fim, após três horas patéticas de sono agitado, acordei me sentindo
exausto, irritado e muito, muito culpado.
Sabia que nunca deveria ter gritado com ela. Mesmo que Lyssa não tivesse o direito de
se intrometer nos meus planos, ela não merecia ser tratada com aquela violência toda.
Mas é que eu devia estar me sentindo muito ansioso e esquecido, depois de ver aquele
manequim ambulante grudado nela a noite toda.
A idéia de perdê-la era horrível demais e rezei pra não ter estragado de vez as coisas
entre nós.
Liguei pra casa dela, mas sua mãe me lembrou que aquele era o dia do comercial. Lyssa
tinha me dito onde ficava o estúdio, não muito longe do prédio da Folha da Manhã de
Dallas. Repentinamente, decidi ir até lá depois da entrevista e rastejar diante dela. Sabia
que não seria o lugar mais adequado pra fazer as pazes, mas não consegui esperar. Eu já
estava sentindo falta dela. Além disso, esperava poder ficar por lá, sapeando a
filmagem... e talvez levá-la pra comemorar, quando tivesse acabado. Se eu conseguisse
apoiar um pouco mais a carreira dela, talvez ela pudesse apoiar a minha também.
Minha entrevista com os editores do jornal tinha sido fantástica - pelo visto minha
atitude os deixou impressionados, meus artigos agradaram em cheio e (graças a bons
conselhos) minha aparência passara pela inspeção. Eu mal podia esperar pra contar a
Lyssa.
Quando cheguei ao portão de entrada do estúdio, mencionei o nome de Lyssa pro cara
sentado numa guarita e perguntei onde estava sendo rodado o comercial para a Cutter
Electronics.
Ele me deu uma olhada de lado e perguntou, entre dentes:
- É um dos atores?
_ Não. Eu sou... - Enquanto pensava em uma explicação plausível, vi o cartão de visitas
que Lyssa havia deixado no banco do carro, na noite anterior. - Sou estagiário da A&D
Advertising _ falei, entregando-lhe o cartão.
Depois de examiná-l o devidamente, o guarda deu de ombros e levantou a barra de
segurança do portão.
_ Estúdio doze - falou, apontando por cima do ombro.
Que ironia, pensei, enquanto parava diante de um prédio todo branco, sem janelas. No
fim das contas, aquele cartão serviu pra alguma coisa.
Fechei o carro e fui entrando devagar pra não atrapalhar, caso estivessem gravando.
Mas quando cheguei lá dentro, estavam todos à toa, batendo papo. Ninguém nem
reparou em mim.
Passei em revista todos os rostos, à procura de Lyssa, mas só vi um punhado de
funcionários entediados e um casal namorando nos fundos.
Gelei ao olhar de novo pra dupla de pombinhos atracados num beijo. Algo neles me
pareceu familiar. Só dava pra ver as costas do cara, ombros largos, a camisa impecável,
e as mãos da garota, longas e esguias, com a unha de um dos polegares levemente roída.
Lyssa? E West? Dando um beijo? Um no outro? Os pensamentos explodiam
desordenados, quase corno um motor enguiçado.
Não! Não podia ser.
No momento em que pensei isso, eles se separaram e deu pra ver o rosto da menina
nitidamente. Era Lyssa! Ver o fato consumado me despedaçou o coração.
Uma fração de segundo depois eu estava do lado de fora cantando pneu no
estacionamento. Vi o suficiente pra saber que tinha feito papel de bobo. Por nada neste
mundo eu conseguiria encarar as explicações gaguejadas de Lyssa e os olhares
zombeteiros de West. Depois de levar urna facada no peito, ninguém fica para receber o
próximo golpe.
Quando entrei em Parkridge, já tinha chegado a uma terrível e inegável explicação pra
tudo aquilo: Lyssa nunca me viu corno namorado. Ela me viu como urna causa. Mas,
quando percebeu que a tentativa de me transformar num "usuário de roupas de grife
louco por dinheiro" não ia funcionar, resolveu voltar com o West.
- Eu estava certo! - gritei pro pára-brisa. - Era com ele que ela queria ficar.
Depois de um tempo parei o carro na frente de casa. Nem sei por quanto tempo
continuei atrás do volante, trincando os dentes e tentando continuar furioso. Eu
precisava continuar louco da vida. Queria odiar Lyssa! Assim seria mais fácil abrir mão
dela.
Só que, enquanto as imagens daquele rosto lindo dançavam na minha frente, fui
invadido por urna nova sensação: uma dor fria, aguda, cortante.
No final da tarde, bateram na porta de casa. Quando abri, vi Lyssa sorrindo pra mim.
Minha cabeça ainda estava explodindo de raiva, mas o imbecil do meu coração deu um
salto de alegria.
_ O que você veio fazer aqui? - perguntei, tentando adotar um tom frio e distante. É
claro que eu sabia exatamente por que ela estava ali. Tinha chegado a hora daquela
velha conversa de "vamos ser bons amigos”.
O sorriso desapareceu do rosto dela e foi substituído por uma expressão de mágoa.
_ Olha, eu sei que você ainda deve estar irritado comigo - ela disse. - Eu vim pedir
desculpas.
- Veio, é?
_ É. Eu... Ahn... eu sinto muito, Dante. Não devia ter me intrometido naquela história
do estágio.
Ela ficou quieta, esperando uma resposta minha, mas eu não sabia o que dizer. Por que
ela estava perdendo tempo tentando desfazer o mal-entendido da outra noite? Não seria
melhor arrancar meu coração logo e ir embora?
_ E... ahn ... me desculpe se você não se divertiu muito na festa - ela continuou. - Que
tal se a gente passasse urna borracha na noite de ontem? O que você acha? Olha só, eu
trouxe urna coisa pra você, um tipo de cachimbo da paz. - Os olhos de Lyssa brilharam
e ela me entregou urna caixa comprida e achatada
que estava escondendo atrás dela.
Eu já tinha ouvido falar de separações "amigáveis", mas aquele presente me deixou
bastante curioso.
Em vez de estender a mão para recebê-lo, cruzei os braços e me encostei na porta.
_ Não seria melhor você dar isso ao West? - perguntei em tom desdenhoso, pra ver a
reação dela.
_ Como assim? O que você quer dizer com isso?
_ Olha só, Lyssa, eu não quero mais nenhuma roupa cara de presente. Eu não gostei de
bancar a cobaia dos seus projetos.
Lyssa parecia ter sido esbofeteada.
_ Por que você está fazendo tudo de novo? Eu só estava tentando... - Sua voz tremeu e
ela sacudiu de leve a cabeça, incapaz de prosseguir.
Foi horrível, pra mim, vê-la tão desesperada, mas afastei aquela sensação me lembrando
da imagem pavorosa do beijo que ela e West tinham trocado.
- Tentando o quê? - perguntei, me forçando a encarar aqueles olhos cheios de lágrimas.
- Me ajudar? Foi isso que você falou ontem à noite. Como acha que eu me sinto quando
você diz isso, Lyssa? Que você precisa me mudar pra poder sair comigo?
- Mas isso não é verdade! - ela exclamou.
- Claro que é. Não me acha rico ou elegante o bastante pra você. Então resolveu mudar
meu guarda-roupa e me arrumar um emprego.
, Por aí, já deu pra perceber que não consegui manter a calma. Aquela altura, eu
gesticulava feito um doido e a voz saía alta indignada, como se eu estivesse fazendo um
discurso de protesto' sem tirar nem pôr. Só que dessa vez, eu estava tentando salvar a
mim mesmo.
. Mesmo sabendo que tudo tinha acabado eu ainda gostava muito de Lyssa. Mas achava
que, me antecipando, evitaria a dor de levar um fora. Era mais ou menos como sair de
uma estrada pra evitar uma batida de frente. Eu sabia que teria tempos difíceis pela
frente, mas aquele caminho me parecia o mais simples. Nesse meio-tempo, a boca de
Lyssa abria e fechava, tentando formar palavras que não conseguia deixar sair.
- Você não me quer - continuei falando. - Não do jeito que eu sou. Tudo que você quer
é... um menino bonito pra lhe servir de acessório. Foi por isso que você voltou pra ele!
- Mas do que é que você está falando? - ela gritou.
Soltei um suspiro cansado e encostei de novo na porta.
Pronto, eu tinha colocado pra fora a terrível realidade do nosso caso. Não tinha mais
sentido ficar usando meias palavras.
- Eu vi você, Lyssa - respondi, com voz débil. - Eu estive no estúdio hoje e vi vocês
dois se beijando.
Quando disse aquilo, olhei bem pra ela, esperando que desmoronasse e confessasse
tudo, envergonhada. Em vez disso, um olhar de compreensão lhe passou pelo rosto.
- Quer dizer então que era você - ela sussurrou mais pra si mesma. Depois olhou pra
mim com uma expressão de urgência.
- Dante, eu posso explicar...
- Não se dê a esse trabalho - falei, levantando a mão. - Nada do que você disser vai
mudar as coisas. já é hora de percebermos que somos muito diferentes um do outro.
Vamos deixar as coisas como estão.
Não tinha a intenção de falar de um jeito tão frio, mas eu tinha passado o dia ruminando
minha raiva e minha humilhação.
Estava cansado e não queria sofrer mais ainda. Por isso, ergui uma muralha ao meu
redor.
_ Você não quer nem me ouvir? - ela perguntou, com a voz trêmula.
Respondi-lhe apenas com o olhar, com medo de abrir a boca.
_ Estranho! Achei que todo bom jornalista checava todos os fatos antes de julgar! - ela
berrou, soluçando. Depois jogou a caixa aos meus pés e foi embora.
Debrucei-me na sacada e, com os olhos enevoados pela escuridão e pelas lágrimas
quentes que brotavam, vi quando Lyssa atravessou o estacionamento correndo.

15- Lyssa
Fazia duas semanas que Dante tinha me dado o fora. Quatorze dias ocupados com uma
série de desfiles, fotos pra vários catálogos e muita malhação. Pela primeira vez na vida,
aquela rotina de trabalho interminável era um consolo, pois me ajudava a esquecê-lo
pelo menos um pouquinho. Porém, era mais ou menos como pôr um band-aid numa
ferida sangrando: a dor continuava tão aguda quanto no dia em que terminamos. Tentei
ver Dante como um idiota, procurando me lembrar dos seus pontos negativos: seu tom
de voz frio, o jeito como ele olhava" de cima" qualquer um que não tivesse os mesmos
valores que ele, suas acusações de que eu havia ficado com West e o modo como se
recusou a escutar as minhas explicações. Contudo, por mais que eu tentasse me
concentrar em seus defeitos, não adiantava muito. Nada conseguia diminuir a minha
sensação de perda. Eu gostava dele de verdade, apesar de todos os seus defeitos. Pela
primeira vez, eu tinha conhecido alguém que realmente me compreendia, que era capaz
de ver além da minha maquiagem e das minhas roupas, e enxergar uma pessoa de carne
e osso. Agora que ele tinha deixado de fazer parte da minha vida, eu estava mais
sozinha que nunca. E sentia saudades dele. Na tarde da festa à fantasia, meu quarto
recebeu as "clientes" de sempre. Enquanto Betsy e Ruth se maquiavam, eu fazia
babyliss no cabelo de Heather.
Estavam lindas, principalmente Betsy, que estava usando o vestido que eu tinha feito
pra ela. Já eu me sentia a própria Gata Borralheira, de agasalho de moletom e óculos.
_ Tomara que eles tenham contratado um novo DJ. – Betsy soltou um suspiro. - O cara
da última vez tocou Puff Daddy tantas vezes que eu quase enlouqueci!
_ Sem contar que eles enceraram demais o chão. Todo mundo escorregou um monte de
vezes na pista. Meu bumbum ainda está doendo dos tombos - Ruth resmungou.
_ Meninas, acho melhor pararmos de reclamar. – Era Heather quem falava. -Esta será
nossa última festa à fantasia na escola e todas nós vamos ter uma noite maravilhosa!
Certo?
Betsy e Ruth olharam pra ela com ar de censura.
Heather virou pra mim e ficou mortificada.
_ Ahn... quero dizer ... nem todas. Não que haja algo errado em... eu tinha esquecido
que você ... ahn ...
_ Que eu não vou à festa? - completei a frase de Heather com a maior calma. - Tudo
bem. Eu não vou mesmo!
Eu mesma fiquei surpresa com a convicção da minha resposta.
Na verdade, estava fazendo um enorme esforço pra fingir que tinha voltado a ser a
mesma de antes e empurrando minha dor bem pro fundo do peito.
_ Bom... - Heather recomeçou. - Fico muito triste que você não esteja vindo com a
gente, mas não vou negar que estou satisfeitíssima que tenha terminado tudo entre
vocês. Você está muito acima de alguém como o Dante.
_ Nem me fale. Vocês leram a coluna dele na edição de hoje? - Ruth perguntou. - Ele
acabou com as festas a rigor.
Disse que todas giram em torno de dinheiro e prestígio, mais nada.
Heather soltou uma exclamação de desdém.
_ Isso está mais praquela história da raposa e das uvas.
Provavelmente ficou enfezado porque ele não foi convidado por nenhuma menina ...
Ai!
Escutar os comentários das minhas amigas estava me deixando ainda mais perturbada,
apesar do esforço que fazia pra parecer calma. Sem querer, eu tinha enrolado demais o
cabelo de Heather no babyliss e arrancado alguns fios.
- Ai, desculpe Heather.
_ Tudo bem, não foi nada. - Ela me lançou um olhar preocupado.
- Não esquenta.
- Sabe, Lys, só porque você não está mais namorando com o Dante não significa que
não poderia ter convidado outro cara pra ir à festa - Betsy falou. - Assim você viria com
a gente e se
divertiria um pouco.
- Pois é! Você poderia ter chamado quem quisesse – disse Ruth, com admiração. -
Ainda mais agora, que é uma estrela de televisão!
A propaganda da Cutter Electronics tinha ido ao ar havia três dias e todo mundo estava
comentando. Eu não podia nem ver. Sempre que aparecia, eu desligava a TV. Aquilo só
me fazia lembrar do Dante e do dia em que havíamos terminado.
- Agora o West é outro papo - Heather comentou. - Ele, sim, seria um ótimo par pra
você ... ai!
- Desculpe - eu disse de novo, tirando três fios de cabelo torrados do babyliss.
- E aquele seu vestido, Lyssa? Aquele que você desenhou pra festa de hoje. Quando é
que vai usá-lo? - Ruth perguntou.
- Não sei - respondi, tentando afugentar do peito a pena que sentia por mim mesma. Eu
me lembrei do desejo estúpido que eu tinha tido de ir à festa com Dante, de transformá-
lo num Príncipe Encantado. Bastava de idéias brilhantes!
- E por falar em vestidos, e aquele estágio na Savra, Lyssa?
- Betsy perguntou. Percebi que estava mudando de assunto de propósito. Minha atitude
de "não estou nem aí como fim do namoro" podia enganar todo mundo, menos ela. -
Afinal, você se candidatou ou não?
- Cai na real, Bets! - Heather falou, em tom zombeteiro.
- Como se a Lys fosse parar de desfilar e trabalhar na televisão pra passar o dia
costurando roupa!
- Pra ser sincera... eu me candidatei, sim. Mas ainda não recebi nenhuma resposta.
- Puxa! - Ruth exclamou. - Você se interessou mesmo pela coisa? Mas o que vai fazer
se te escolherem? Largar a carreira de modelo?
Balancei a cabeça.
- Isso mesmo. Resolvi deixar de ser modelo mesmo que não seja escolhida pra fazer o
estágio.
Ao ouvir isso, Betsy, Heather e Ruth soltaram exclamações horrorizadas.
Lá vamos nós, pensei. Chegou a hora de todo mundo se chocar e vir me dizer que sou
uma burra.
Suspirei e me sentei na cama, ao lado de Heather.
_ Sim, é verdade - continuei. - Claro que eu vou cumprir todos os compromissos já
agendados, mas depois disso vou cair fora... pelo menos por uns tempos.
_ Mas... por quê? - Heather perguntou. ,
_ Porque eu me cansei. Porque não é mais o meu sonho. E o sonho dos outros. -
Levantei da cama e comecei a andar pelo quarto, gesticulando. - Tenho dezoito anos de
idade e nunca pude ser uma adolescente normal. Por causa dessa carreira, tudo o que eu
quis fazer teve de ser... preterido. Vocês entendem?
Olhei pro rosto das minhas amigas e deparei com olhares vazios.
Depois de um tempo, Betsy resolveu dizer alguma coisa.
_ Sua mãe já está sabendo? - ela perguntou baixinho.
_ Não - respondi sussurrando. - Ainda não. Estou esperando o momento certo pra contar
a ela.
Mais um silêncio constrangedor pairou sobre o quarto. Tive medo de que dali em diante
fosse sempre assim. Eu sabia que as meninas ficariam decepcionadas com a minha
decisão e não esperava que me entendessem, mas não queria acreditar que desistir da
minha carreira significava ter de desistir delas.
Betsy me abraçou.
_ Bom, fico muito feliz por você - ela disse emocionada.
_ Eu também! - Ruth acrescentou, se juntando ao nosso abraço.
_ Muito obrigada, gente - sussurrei. Não consegui dizer nada, mas me senti bastante
aliviada.
Betsy e Ruth aplaudiram a minha coragem e disseram pra eu não me preocupar. Depois
olharam pra Heather, esperando a mesma reação.
_ Pois eu continuo achando que ela ficou doida! – Heather exclamou, erguendo as mãos
num gesto dramático.
Betsy lançou-lhe um olhar de censura.
- Mas uma coisa é certa - Heather acrescentou, vindo em nossa direção. - Não importa o
que você resolva fazer, Lyssa... sei que vai fazer como se deve ... - Ela também me deu
um abraço tranqüilizador. - ... e deixar todas nós pasmadas!
Depois que minhas amigas foram embora, sentei na escrivaninha e comecei a desenhar
alguns modelos de roupa, esperando que novas idéias tirassem Dante e a festa da minha
cabeça. Só que não funcionou. Nos últimos tempos, tudo me fazia lembrar dele.
Inclusive meus próprios desenhos.
Estava começando a ficar com medo de que nunca mais conseguisse tirar aquele amor
do meu peito. Era muito ruim ficar em casa sentindo pena de mim mesma, mas
encontrá-lo nas aulas de orientação vocacional era uma agonia! Ainda bem que os
projetos já tinham terminado, assim não éramos forçados a conversar. Eu tentava olhar
sempre pra frente, ou enterrar minha cabeça em algum livro. Mas, de vez em quando,
arriscava olhar pra ele. Uma vez, peguei ele me olhando com uma expressão confusa.
Meu coração bateu tão forte que parecia um tambor, mas ele desviou o olhar rapidinho.
Dois dias antes, a Sra. Doherty tinha devolvido os trabalhos. Dante e eu tiramos a
segunda nota mais alta da classe: nove e meio. Só perdemos pra Jamal Carter e Arnold
Sipowitz: ambos tiraram dez. Dentro da capa do meu portfólio havia um bilhete da Sra.
Doherty, preso com clipe, com detalhes sobre o estágio na
Savra Modas e palavras de incentivo pra que eu me candidatasse, se ainda não tivesse
feito isso. Depois ela me perguntava se eu poderia fazer um vestido azul de crepe como
o do desenho pra ela.
Eu queria tanto dividir tudo isso com Dante... Se não fosse por ele, meu sonho de ser
designer de moda teria continuado no fundo da gaveta da minha escrivaninha. Mas eu
continuava muito magoada, e ele também não parecia estar a fim de papo.
- Não é justo! - falei em voz alta, deixando cair no chão um desenho semi terminado. -
Por que as coisas deram errado logo de cara?
Como uma resposta à pergunta, o telefone começou a tocar.
- Alô? - falei, tentando permanecer calma.
_ Boa tarde - disse uma voz feminina e muitíssimo profissional.
- Por favor, eu gostaria de falar com Alyssa Naylor.
_ É ela - respondi um tanto hesitante, me perguntando quem poderia ser.
_ Alyssa, aqui é Barbara Holden, da Savra Modas. Espero não estar atrapalhando.
Savra Modas!
_ Não! De jeito nenhum - respondi animada. - Em que posso ajudá-la? . .
_ Eu liguei pra dizer que nossa diretoria se reuniu hoje de manhã pra escolher o
estagiário que ficará conosco no próximo ano. E que nossa empresa terá enorme
satisfação em tê-la no nosso quadro de funcionários. .
_ Eu? _ Meus dedos ficaram dormentes e, para evitar que o telefone caísse, eu o segurei
com as duas mãos.,.
_ Você mesma - ela respondeu rindo. - Nos ficamos bastante impressionados com os
desenhos que você mandou, e a Sra. Doherty, sua professora de orientação vocacional,
nos enviou o relatório falando muito bem do seu trabalho. Achamos que você é a
candidata perfeita pra trabalhar na nossa equipe.
_ Obrigada - consegui dizer com voz fraquinha. Eu estava tão emocionada que era
difícil até respirar.
_ E então? Você pode começar no dia primeiro?
- Sem problema. ._
_ Ótimo. Estou lhe mandando mais algumas informações pelo correio. Quando vier,
traga tudo com você. Nós nos veremos em breve, Alyssa. Até logo.
- Até logo. . .
Ela desligou e eu continuei onde estava atordoada. Primeiro, Betsy, Ruth e Heather, e
agora Barbara Holden, da Savra Modas. Era inacreditável. As pessoas gostavam de
mim, e não da Lyssa modelo.
Meus pensamentos foram interrompidos pelo barulho do telefone, que estava fora do
gancho. Dei um pulo de susto e pus o fone no gancho. .
_ Lyssa? Que barulho foi esse? Alguém ligou?- A voz de mamãe foi chegando cada vez
mais perto, ate que ela apareceu na porta.
Fiquei olhando pra ela sem saber direito o que responder. Sabia que precisava lhe contar
a respeito do estágio. Só não sabia como.
- O que foi meu bem? Você parece meio atordoada.
- Mamãe, eu preciso lhe contar uma coisa - falei, levantando-me para encará-la. - É
importante.
- O que foi filha? - Mamãe se aproximou hesitante. - Fale.
Engoli em seco e respirei bem fundo.
- Resolvi abandonar a carreira de modelo - eu disse bem rapidinho.
- O quê? Por acaso isso é alguma piada? - Ela riu sem jeito.
- Não. A ligação foi de alguém da Savra Modas. Eles me ofereceram um estágio em
design e eu ... eu aceitei.
Durante alguns segundos mamãe me olhou atônita.
- Mas eu não estou entendendo. Eu sabia que você gostava de fazer roupas, mas... -
Calou-se de repente e seu semblante foi ficando mais claro, como se tivesse entendido
tudo. - Essa decisão tem algo a ver com o Dante? - ela perguntou, sem rodeios.
- Com o Dante? Não. Por quê?
- Você mudou tanto desde que conheceu aquele menino. E ficou ainda mais mudada
depois que pararam de se ver.
Fiquei besta! Eu não tinha dito nada pra ela, nem contado sobre nossas brigas recentes.
Se bem que não era preciso ser nenhum Sherlock pra notar o sumiço de Dante.
Mamãe passou a mão no meu ombro, querendo me consolar.
- Sei que, com tantos compromissos, é difícil ter um namorado. E sei que você ficou
muito chateada porque as coisas não deram certo. Você até tentou esconder, mas eu
percebi logo. - Mamãe inclinou-se pra frente, pra me olhar nos olhos. – Essa conversa
toda sobre largar à carreira... Você está apenas tentando reconquistá-lo, não é isso, meu
bem?
Sentei-me na beira da cama.
- Não, não é nada disso.
- Então por que está sendo tão impulsiva? - Mamãe cruzou os braços.
- Não estou sendo impulsiva! - respondi irritada. Depois respirei bem devagar e baixei o
tom de voz até quase sussurrar. - Mamãe, estou cansada de ser modelo, e não é de hoje.
As sobrancelhas dela se arquearam. Mamãe não estava entendendo.
_ E por que você nunca me disse nada?
_ Porque eu não conseguia. Eu não queria decepcionar você.
_ Decepcionar a mim? - ela repetiu.
_ Exatamente. Você só quer saber da minha carreira de modelo. Nós não fazemos nada
gostoso ou divertido desde que eu tinha... Sei lá, uns doze anos! Só conversamos sobre
compromissos, desfiles, fotos. Achava que se eu parasse você... Ia deixar de gostar de
mim. .
A voz saiu engasgada e eu me calei, admirada com minhas próprias palavras. Agora as
cartas estavam todas na mesa. .
Mamãe ficou em silêncio por um bom tempo. Quando finalmente falou, tinha um nó na
garganta.
_ Meu bem, eu jamais deixaria de amar você!
Ergui os olhos e vi o rosto de mamãe inundado de lágrimas.
_ Então, por que você força tanto a barra? Por que minha carreira é tão importante pra
você?
_ Porque eu te amo. E porque achei que era o que você queria fazer. - Mamãe se sentou
ao meu lado e me abraçou. - Eu achei que era meu dever mantê-la concentrada no seu
trabalho, que era minha obrigação não deixar que outras coisas interferissem... Como
namorados, por exemplo. Lembre-se de que, há muito tempo, eu também já fui
adolescente...
Dei uma risadinha. Fazia anos que não conversávamos daquele jeito. E, pela primeira
vez, eu começava a entender minha mãe.
_ E também porque - continuou ela - eu achava que ser modelo era bom pra você. -
Mamãe suspirou e deitou no meu ombro. _ Quando seu pai foi embora, você ficou tão
triste! Eu não sabia o que fazer... Então você descobriu que queria ser modelo. Foi à
única coisa capaz de preencher um pouco aquele vazio. E você dava a impressão de
gostar tanto daquilo... Nunca reclamou de nada. Eu quis apoiá-la ao máximo.
_ E apoiou - eu falei, balançando a cabeça. - Tanto que eu fiquei com medo de você
entrar em parafuso se eu largasse à carreira. É por isso que nunca reclamei de nada.
Mamãe pegou meu queixo e me fez encará-la.
- Você tem que acreditar quando digo que nunca tive a intenção de forçá-la a fazer algo
que não queria. - Seu tom de voz era solene. - Eu pensei que estivesse ajudando você a
concretizar seus sonhos.
- Só que esse não é o meu sonho, mamãe. Não mais.
Mamãe inclinou a cabeça pro lado e me olhou atentamente como se quisesse ter certeza
de que eu não estava mentindo. Por fim, sorriu.
. - Então, eu apóio a sua decisão. Qualquer coisa que a faça feliz, querida, me faz feliz
também. -Fechando os olhos, ela me puxou e me deu um abraço apertado. - Mas não se
queixe se eu reclamar que você ainda não terminou suas costuras, certo?
Dei risada.
- Combinado.
Continuamos mais um pouco abraçadas, chorando. Meu maior medo tinha caído por
terra e eu me sentia livre como nunca. Se pelo menos conseguisse suportar o vazio de
ter perdido Dante ... Então tudo seria perfeito.

16- Dante
Empurrei a porta de casa com o ombro e entrei, tentando não derrubar a pilha de jornais
que estava carregando. Jamal entrou atrás de mim, equilibrando um volume quase do
mesmo tamanho.
- A gente pode guardar tudo no meu quarto, por enquanto - gritei pra ele, enquanto
cruzava a sala. - Amanhã eu distribuo nas outras lojas.
Tínhamos passado a tarde toda entregando o jornal da escola nas lojas das redondezas.
Só paramos porque Jamal precisava se arrumar pra festa à fantasia. Eu estava cansado e
de péssimo humor, então nem protestei. Todo o 1/ auê" em torno daquela festa idiota
fazia eu me lembrar de Lyssa, e me deixava com mais pena de mim mesmo.
Duas semanas angustiantes haviam passado, mas nenhum sinal de alívio. Lyssa tinha
saído da minha vida, mas não de mim. Eu a via na escola, na TV e nos meus sonhos.
Não havia como escapar. Não conseguia nem ir ao Carroça da Vera, meu refúgio
predileto, sem a lembrança de Lyssa me atormentar. Mas, apesar de estar me sentindo
mutilado, eu tentava continuar agindo normalmente, ou do jeito mais normal que
conseguia.
- Onde você quer que eu coloque esses troços? - Jamal perguntou, entrando no meu
quarto.
- Qualquer lugar. Tanto faz.
Jamal colocou a pilha de jornais num canto, e eu larguei a minha perto da cama.
- Pô, cara. Você se lembrou! -Jamal exclamou de repente.
Dei uma olhada e vi o presente que Lyssa havia me dado nas mãos dele. O pacote
estava em cima da minha mesa fazia mais de uma semana. Eu estava arrasado demais
pra abri-lo e nostálgico demais pra jogá-lo fora. - Meu aniversário foi em abril, mas ...
antes tarde do que nunca. - E enxugou uma lágrima imaginária.
- Corta essa! - resmunguei, batendo nele com um jornal enrolado.
- O que tem aí dentro, afinal?
- É um presente da Lyssa.
- Ahhh! - Ele exclamou demoradamente e franziu a testa como quem sabe das coisas. -
E por que você ainda não abriu?
- Porque nós terminamos.
- Como é que é? Quando foi isso?
- Na semana retrasada.
- Cara, e eu aqui me perguntando por que você tinha voltado a ser o velho chato de
sempre ... - Jamal resmungou, sacudindo a cabeça. - E por que estava entrando e saindo
da aula de orientação vocacional cuspindo fogo. Puxa, eu sinto muito, cara. Ela pelo
menos lhe deu algum motivo?
- Na verdade quem terminou com ela fui eu.
- O quê? Você endoidou de vez? - Os olhos de Jamal quase saltaram das órbitas. - E
por quê, posso saber?
Suspirei pesadamente e me joguei na cama.
- Porque, na verdade, não era a mim que ela queria ... não do jeito que eu sou. Eu fui
apenas um tipo de experimento.
- Ahan. - Iamal parecia pasmado. Jogou o presente na escrivaninha e se sentou no meu
pufe vermelho. - Você não quer me explicar isso melhor?
- Não - resmunguei, sentindo o medo tomar conta do meu peito. - Quer dizer, quero.
Não sei. - Cobri a testa com os braços, me perguntando se um cérebro podia explodir de
tão confuso.
Depois, respirando fundo, comecei a contar aquela história horrorosa, desde quando as
coisas entre nós pareciam bem, passando pelas tentativas sutis de Lyssa de mudar minha
maneira de vestir e pela outra, não tão sutil, de me enfiar no ramo da publicidade, até a
descoberta do beijo entre ela e West.
Pra minha surpresa, me abrir e contar tudo aquilo me deixou mais aliviado, como se
trazer a história à tona diminuísse o peso do fardo.
Enquanto eu falava, Jamal esfregava seu queixo e balançava a cabeça.
- Você tem certeza de que ela voltou pra esse tal de West?
Rosnei com desdém.
_ Você devia ter visto os dois, Jamal. A única coisa que faltou foi um padre, pra dizer:
"E agora eu vos declaro Sr. e Sra. Mais Que Perfeitos Juntos".
_ Você não pode ter se enganado? Quero dizer, isso não faz muito sentido. Se ela já
estava com ele, por que não continuar com ele? Por que ia sair com você?
Isso eu não saberia responder.
_ Talvez ela só quisesse mudar de ares um pouco. Ver como vivem os pobres.
Jamal sacudiu a cabeça.
_ Essa não dá pra engolir, cara! A menina estava super a fim de você. Deu pra notar.
_ De qualquer modo, a gente não combinava. Não fomos feitos um pro outro. A Lyssa
vivia me condenando. Minhas roupas não eram boas o suficiente, a carreira que eu
escolhi não era boa o suficiente ... Não adianta, não dá. - Saltei da cama e comecei a
andar pelo quarto, raivoso. - Eu não me importo mais. Ela e o West que vivam sua
vidinha rasa e tenham suas carreiras rasas e passem o resto dos dias fazendo a
maquiagem um do outro!
Jamal esperou eu acabar meu desabafo, depois se levantou e me olhou bem nos olhos.
_ Quer saber? Pelo que me contou, quem condenou a Lyssa foi você.
_ Eu? - Não dava pra acreditar no que eu tinha acabado de ouvir. Afinal, de que lado
Jamal estava?
- É, você. Foi você que inventou todas essas teorias, sem ter a menor prova. Talvez não
seja ela quem não te acha bom o suficiente. Acho que é você quem acha isso.
Fiquei boquiaberto e minhas mãos se fecharam num gesto involuntário, mas, bem
quando estava prestes a mergulhar num protesto monumental, parei. Toda a minha raiva
sumiu e uma sensação estranha e perturbadora me invadiu. Sentei-me de novo na cama.
Jamal ficou me olhando alguns minutos e depois disse:
- Não saia daqui. Eu volto já.
Inconscientemente, eu me dei conta de que ele tinha saído do apartamento e voltado
pouco tempo depois. Mas, enquanto Jamal esteve fora, entrei em transe e comecei a
processar lentamente o que ele havia me dito. Será que ele tinha razão? Que a minha
insegurança tinha me feito descontar tudo em Lyssa? Era
terrível pensar naquilo.
- Quero que fique com isso. - Jamal me entregou um envelope pardo e grande.
Dentro do envelope, havia uma foto de Lyssa e de mim. Era uma daquelas que ele havia
tirado na sala de jornalismo, quando ela me fez cócegas. Na foto, estou com a cadeira
inclinada pra trás, morrendo de rir. Lyssa está debruçada sobre mim, com os dedos
enterrados debaixo dos meus braços, com um enorme sorriso estampado no rosto.
Fiquei pasmado de ver a exatidão com que a câmara tinha conseguido captar aquele
momento de descontração.
- Foi uma das minhas melhores fotos - Jamal comentou, me olhando nos olhos. - Bom,
agora tenho que me mandar. Fiquei de apanhar a Shawna para irmos à festa daqui a uma
hora .
Quanto a mim, continuei ali plantado, de olhos grudados na nossa foto.
- Bom, a gente se vê por aí, cara. Tomara que as coisas melhorem pra você. - Iamal
hesitou alguns segundos e então saiu do quarto. Escutei a porta fechar instantes depois.
Pela primeira vez na vida, eu estava sem rumo. Um agitador de multidões sem fala. Um
escritor sem palavras. Eu havia construído um argumento tão elaborado pra terminar
com Lyssa... Só agora sentia que tudo havia caído por terra.
Lembrei-me do rosto de Lyssa na noite em que terminamos o namoro: seus olhos
brilhavam de raiva e seus lábios estavam trêmulos de emoção. Bem que ela me disse
que eu não conhecia todos os fatos! Será que eu tinha jogado fora a melhor coisa que
havia acontecido na minha vida?
Bem naquele momento, o telefone tocou, interrompendo meus pensamentos.
- Alô? - Minha voz soou curiosamente distante.
- Alô. Por favor, eu poderia falar com Dante Michaels?
- É ele.
- Dante, aqui quem fala é Herbert Fulsome, do Departamento de Recursos Humanos da
Folha da Manhã de Dallas. É sobre o' estágio ao qual você se candidatou.
- Sim, pois não. - Estágio? Com todos aqueles conflitos, havia me esquecido totalmente
do assunto.
- É com grande prazer que comunico que você foi escolhido para ser o nosso novo
estagiário - anunciou ele, com cerimônia. - Você tem as qualificações que estávamos
procurando.
- Tenho? Ahn ... obrigado! - Respirei fundo, pra não sair gritando. - Quer dizer que ...
vocês gostaram dos meus artigos?
- Bastante. E não foi só isso. Você também se mostrou bastante profissional e seguro de
si durante a entrevista. A maioria dos candidatos deixou a desejar nesse aspecto. Nós
achamos muito importante que nossos repórteres transmitam profissionalismo sempre
que estiverem representando o jornal.
- Claro - respondi distraído.
- Você começa na próxima segunda-feira, às dezessete horas. Estamos combinados?
- Eu estarei aí. Muito obrigado de novo. - Desliguei o telefone e respirei bem devagar.
Quer dizer, então, que minha vantagem tinha sido a minha aparência na entrevista? A
vida estava se mostrando muito irônica ultimamente. Se não fosse pelo incentivo de
Lyssa...
Olhei pra foto e fiquei acompanhando o contorno sorridente do rosto de Lyssa com a
ponta do dedo. Ela era tão linda! E parecia tão feliz naquele momento ...
Então, meus olhos foram parar no presente que ela havia me dado, que continuava em
cima da mesa. Num gesto rápido e decidido, peguei o pacote e abri. Dentro havia uma
túnica linda, estampada com um desenho todo colorido, em estilo africano, com
acabamento em vermelho e um forro preto brilhante. Em
cima, ela havia posto um bilhete.

UM DIA VOCÊ ME FALAOU QUE TINHA GOSTADO


DAS TÚNICAS QUE EU DESENHEI. POR ISSO CRIEI
UMA PRA VOCÊ, UMA LYSSA NAYLOR ORIGINAL!
COMO EU JÁ DISSE VOCÊ ME INSPIRA. EU QUERIA
LHE DAR ISSO LOGO, POR ISSO FIZ ISSO COM UMA
CERTA PRESSA. POR FAVOR, ME DESCULPE SE EU
TIVER ESQUECIDO ALGUM ALFINETE.
OBRIGADA POR ACREDITAR EM MIM MESMO
QUANDO EU NÃO ACREDITAVA.

EU AMO VOCÊ

LYSSA.
17- Lyssa
"Os educadores deveriam ter em mente, ao organizar essas festas supostamente
tradicionais, que nem todos têm uma fada madrinha capaz de lhes fornecer roupas caras,
presentes e um meio de transporte."
Assim terminava o artigo mordaz que Dante tinha escrito pro jornal da escola. Eu havia
enfiado um na mochila, no dia anterior, e estava lendo-o na sala. A casa estava escura e
vazia.
Como eu.
Mamãe tinha saído para buscar uma pizza, uma festa de calorias que eu não
experimentava há meses. Conversar com ela e esclarecer as coisas havia me deixado em
paz. Na verdade, fazia tempo que eu não me sentia tão bem, mas isso não afugentava a
saudade que sentia de Dante. Chorar, desenhar, chorar mais um pouco ou ler sua coluna
também não faziam muito efeito.
Depois da conversa com mamãe, comecei a ver tudo com mais clareza, inclusive meus
problemas com Dante. Ele havia cometido uma tremenda injustiça ao me acusar de
traição, sem nem sequer me dar a chance de explicar. Mas, com toda certeza, foram as
minhas tentativas equivocadas de ajudá-lo que o deixaram tão magoado comigo.
Mamãe tinha me pressionado daquele jeito porque achava que seria para o meu próprio
bem, e eu havia ficado ressentida com ela. Mas a minha mágoa não me impediu de fazer
a mesma coisa com Dante. Eu me meti na vida dele e o afastei totalmente de mim.
Sem dúvida, o amor complicava muito as coisas.
De repente, a campainha tocou. Com certeza era mamãe trazendo um monte de pizzas
engorduradas.
- Espero que não tenha esquecido da porção extra de parmesão - falei, abrindo a porta.
Não era mamãe, mas Dante, encostado no batente da porta, sorrindo timidamente. Por
alguns instantes, tive medo de estar tendo uma alucinação. Muitas lágrimas e falta de
comida deviam provocar isso nas pessoas. Prendi o ar e examinei melhor a figura na
porta. Ele estava usando um terno escuro, de corte clássico, a túnica que eu havia lhe
dado, e tênis de cano alto roxo. Era mesmo o Dante!
- Não deu pra trazer o parmesão - ele disse, como quem pedia desculpas. - Mas eu lhe
trouxe isto. - E, tirando as mãos das costas, entregou-me uma flor. Uma gérbera cor de
pêssego, ainda no vaso.
Peguei-a e olhei curiosa pra ele, ainda aturdida demais para conseguir falar.
- Eu afanei da nossa sacada na hora de sair - ele explicou. - Imaginei que todas as
floriculturas já estivessem fechadas a essa hora. É só pra dizer que eu sinto muito ...
Uma espécie de cachimbo
da paz, como diz você.
- Dante, eu ... - falei com voz embargada e lágrimas escorrendo pelo rosto.
- O que foi? - ele perguntou bem baixinho, com o semblante preocupado. - Foi esta flor
barata?
-Não.
- Meus tênis? O terno?
- Não - repeti, sorrindo através das lágrimas. - Você está ótimo assim.
- Então o que é? - Ele entrou em casa, fechou a porta e pôs as mãos nos meus ombros. -
Fala comigo, Lys.
- Eu... eu estou tão feliz de te ver. Pensei que você nunca mais fosse falar comigo! -
Mais uma vez fui sufocada pelos soluços.
Meu corpo todo tremia.
Dante tirou o vaso da minha mão e o colocou numa mesinha.
Depois, me pegou nos braços e me abraçou bem apertado.
- Calma - ele sussurrou, afagando meu cabelo. – Está tudo bem agora.
- Não, não está. Eu sei que o deixei furioso. Fiquei pressionando você pra fazer isso e
aquilo sem nem sequer pensar no que você queria. - Afastei-me dele e olhei-o nos olhos.
- Eu achava, sinceramente, que estava ajudando você. Era meu jeito de demonstrar
carinho.
- Eu sei. Só agora eu entendi isso - ele disse, afagando de leve o meu rosto. - Desculpe a
minha reação. Meu comportamento foi um horror. Todo esquentado, inseguro como
ninguém. Alguém deveria ter organizado um protesto contra mim.
Eu dei.risada, encostando a cabeça no ombro dele. Depois comecei a chorar de novo ...
de puro alívio. Meu Deus! Olha só o estado em que estou. Naquele momento, achei que
nunca mais fosse parar de chorar.
No fim, as lágrimas foram secando. Ergui a cabeça, olhei para o rosto meigo de Dante e,
de leve, passei a ponta dos dedos em sua testa, em seu nariz, no contorno de seus lábios.
- Eu preciso de você, Lyssa. Sem você, o mundo é imperfeito demais.
Cutuquei-o nas costelas, com um sorriso maroto.
- Alguém já lhe disse que você é muito cínico?
- Só que não dá mais pra mudar - ele disse, abrindo os braços. - Agora é pegar ou largar.
- Acho que vou pegar.
Fechei os olhos e o abracei, sentindo o calor de sua presença.
Pela primeira vez, depois de muitos dias, eu me sentia inteira de novo. Estava no lugar
ao qual pertencia... nos braços de Dante.
Ficamos abraçados por um bom tempo. Depois, Dante recuou um passo e olhou o
relógio.
- Não é melhor você ir se trocar? - Ele deu um sorrisinho dissimulado. - A festa já
começou.
E foi assim que acabei tendo o meu final feliz. Depois de dar uma explicação apressada
pra minha mãe e de comer uma fatia de pizza de pepperoni, chegamos ao salão
elegantérrimo do hotel onde estava sendo realizada a festa.
Eu estava com o meu vestido cor de cobre, uma gérbera no cabelo e óculos. Dante, com
uma mancha de molho de tomate no colarinho. Tudo como deveria ser.
- Você sabia que está todo mundo olhando pra nós? - falei, enquanto ele me puxava pra
pista de dança.
- Que se danem! - Dante me respondeu, sem dar muita bola. Enlaçou a minha cintura e
lá fomos nós, nos movimentando pra lá e pra cá, ao som da música. - Estão olhando
porque você é a mulher mais bonita desta festa.
- Na verdade, acho que está todo mundo chocado de ver você por aqui. E você, não
sente que está abrindo mão de seus valores vindo a um evento "elitista" como este?
Dante ergueu os ombros.
- No fundo, eu tenho de admitir, estou feliz por termos vindo. Existe um certo quê de
mágica numa festa à fantasia. Principalmente - os olhos deles brilharam - quando você
está com a menina dos seus sonhos.
Erguendo minha mão, ele me fez dar um giro com graça.
Depois, me puxou de volta pros seus braços, me inclinou pra trás e colou seus lábios
nos meus, num beijo longo e romântico. Senti várias borboletas voando dentro de mim
outra vez.
À nossa volta, as pessoas aplaudiam e assobiavam. Nossos lábios se separaram e Dante
revirou os olhos.
- Puxa esse pessoal não tem educação mesmo! - ele resmungou, me ajudando a ficar de
pé. - Preciso escrever um editorial sobre o assunto.
Dei risada e dei-lhe outro beijo. Dante, como todo mundo, não era perfeito. Mas era
perfeito pra mim.

FIM

Comunidade Orkut:
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cmm=34725232#Community.aspx?cmm=34725232