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A Cultura Humanística na formação profissional

Prof. Dr. Luiz Vénere Decourt


Na coluna desta edição analisamos um aspecto que, embora óbvio, merece ser
acentuado. A cultura humanística é desejável para todos, mas é requisito importante
para os que, como nós médicos, ocupam posições de responsabilidade social e
participam da dor e do sofrimento.
Esse atributo não é habitual nas atividades de hoje. Em geral o aluno dirige todo o
interesse a estudos especializados e torna-se o médico que é essencialmente um
técnico.
Desejo expor, então, como vejo a cultura: base importante para a formação
profissional e que contribui para elevar nosso tipo de vida. Em seu amplo campo de
ação certas conquistas devem ser analisadas.
Em primeiro lugar ela estabelece necessáriahierarquia de valores. No fim do século
passado e no início deste, mantinha-se viva a crença de que o futuro do mundo
estava nas aplicações da ciência. Esta nos traria não apenas a saúde, mas também a
paz, a harmonia, o bem-estar. Ela não trouxe e não trará esse paraíso. Essa limitação
não reduz seu grande valor, mas não é o mais elevado dentre os valores.
O grande médico, teólogo e músico Albert Schweitzer já insistia sobre a desproporção
entre a evolução da ciência e a evolução da moral. E o médico culto alcança com
maior precisão as ocorrências desfavoráveis de uma crença que quase suprime as
outras.
Outro aspecto significativo é o do interesse pelo impacto das descobertas
científicas sobre a sociedade. Não apenas as relacionadas à medicina, mas as que,
oriundas de qualquer setor, podem modificar o futuro.
Tenho observado que nossos pesquisadores isolam-se em seus campos de trabalho e,
com esse comportamento, distanciam-se da atitude de outros cientistas que, como os
físicos, por exemplo, preocupam-se com as aplicações das conquistas. A ocorrência
pode ser explicada pela influência algo "restrita"das nossas descobertas, mas a
palavra e a advertência dos mestres são sempre orientadoras.
É verdade que atualmente determinadas cogitações médicas já são mais amplas, com
elogiável preocupação pela expectativa do que há de vir. É o que ocorre, por exemplo,
diante das técnicas de fecundação artificial, das várias modalidades de manipulação
do feto, das possibilidades de manutenção da vida em condições extremas e,
particularmente, das progressivas conquistas da engenharia genética.
A ciência não é moral ou imoral, mas suas aplicações podem ser nocivas ou
indesejáveis. Os exemplos são múltiplos e podem afetar nossa rotina de vida.
Em contato pessoal com vários pesquisadores pude comprovar, quase
constantemente, que as interrogações sobre o futuro gerado por trabalhos científicos
são privilégios dos homens cultos.
Outra manifestação de interesse é o conhecimento da história da ciência, que
pode ser exemplo e norma de conduta. Logo de início avulta a influência do poder de
observação. Em nosso campo de trabalho, lembremos apenas de dois exemplos que
transformaram radicalmente todas as atividades médicas: a descoberta dos Raiox X e
a obtenção da penicilina.
Quando, em 1895, Roentgen defrontou-se com peculiaridades na passagem de
corrente elétrica em tubos de Crookes estava diante de fenômeno conhecido, mas seu
poder de observação estimulou novas verificações. Por isso, a um repórter que o
interrogou sobre o que pensava diante dos fatos respondeu: "Não pensei, apenas
observei".
E também Fleming, ao estudar colônias de estafilococos e verificar a contaminação
destuidora por fungos, estava em presença da "antibiose", ocorrência já conhecida,
mas seu poder de observação, exigiu novos ensaios que trouxeram o gigantesco
passo da conquista dos antibióticos. Hoje discute-se o real mérito de Fleming perante
os trabalhos ulteriores da Escola de Oxford, mas ele permanece como um criador e
essa posição nasceu da observação atenta e fecunda.
O conhecimento da história nos informa ainda sobre as características do método e
trabalho. E elas devem ser acompanhadas com atenção para o ensino ou para crítica.
Seria impossível a citação de tantas em tantos campos de investigação e, assim,
menciono apenas uma visão pessoal. Em meu percurso científico impressionaram-me,
de modo particular, as buscas do casal Curie que forneceram o reconhecimento da
radioatividade natural. Ocorreu uma longa permanência de sonhos e objetivos, apesar
das condições muito precárias do ambiente de trabalho. Uma lição de fé e de vontade.
Ao lado dessas fontes de interesse devemos reconhecer que a vida enriquecida pela
presença das artes é uma dádiva da cultura, embora raramente o impacto artístico
favoreça também os menos aquinhoados. A música, a literatura, a pintura, a escultura
não são meros refinamentos a preencher momentos de lazer, mas respostas a
exigências íntimas de nosso ser. Elas trazem algo que nos eleva, mesmo
inconscientemente, e que transfigura os momentos e os dias. Contribuem mesmo
para afastar eventuais estados de depressão ou de cansaço, não excepcionais em
nossa vida profissional.
Recordo-me que o professor Weisskopf, físico e professor no Massachusetss Institute
of Technology recomendava aos alunos em fase de desânimo que se voltassem para a
teoria dos quanta e ouvissem a música de Mozart. Esta última recomendação merece
integral apoio.
Não é necessário que sejamos artistas, embora o grande clínico Trousseau tenha
afirmado no prefácio de seu livro de Clínica Médica que "toda a ciência toca a arte
em algum ponto" e ainda que"o pior sábio é o que jamais é artista".
O meu desejo é que nossos colegas não se mantenham indiferentes ao mundo das
artes, e então, afastados da elevação espiritual que elas podem fornecer.
Finalmente, o aspecto mais objetivo de nossa análise: a influência da cultura sobre
a própria atividade profissional.
É evidente que ela não nos torna melhores, mas favorece a visão do homem doente e,
assim, a compreensão de seus problemas. Facilita o êxito da atividade clínica porque
aproxima o terapeuta da mente sofredora.
Há anos surgiu um livro de Penfield com o nome de "A Segunda profissão" no qual
adverte que o médico, também guardião do espírito, entrará em contato com as
pessoas cultas e não saberá orientá-las se carente de cultura. E afirmava, em frase
jocosa que a Faculdade que não fornecesse aos seus alunos uma base
humanística "antes de mergulhá-los nas águas da biologia" os manteria em
desvantagem profissional.
Como é evidente, o médico que trata de homens, que conhece seus problemas, suas
tendências e suas preocupações, deve também ter presente suas obras e suas
criações. Se estas iluminam o mundo, aperfeiçoam também os que combatem o
sofrimento.
Devo lembrar que em vários textos literários encontramos manifestações
impressionantes sobre o estado mental de um enfermo em face da morte. Recordo,
por exemplo, o conto "A morte de Ivan Ilitch, de Tolstoi , obra de extraordinária
penetração sobre a perspectiva do inevitável. Uma lição inesquecível. E, ainda,
embora menos expressivo e menos conhecido, o volume sobre "A morte do pai", da
ampla obra de Martin Du Gard, "Les Thibaults".
Creio, portanto, na alta significação da cultura para os médicos de hoje,
necessariamente solicitados e atraídos pelas conquistas técnicas que os auxiliam Ela
enriquece a vida e aperfeiçoa o trabalho.

O profissional de marketing e a cultura

Por Silvio Lefèvre


Sociólogo, diretor da Livraria Resposta
Artigo publicado no jornal Propaganda & Marketing de 21/05/2007

Em recente artigo, sob o título “Aprender a Aprender”, o colega colunista José Roberto
Whitaker Penteadodestacou a importância de uma sólida cultura geral para os
profissionais de marketing e da propaganda. Escreveu então que ambos os tipos de
profissionais lidam com os consumidores – que são pessoas – e com os fatores do que
o professor Kotler chamou de “ambiente externo”. O ambiente externo é o mundo. E o
mundo é feito de geografia, história, política, economia, biologia, química, engenharia,
arte, arquitetura, música, cinema, teatro, esporte – em uma palavra: cultura. Mas as
pessoas são ainda maiores do que o mundo: cada uma detentora do seu universo
interior, que a sociologia, a antropologia e a psicologia tentam abraçar e
compreender.
Relembrei este oportuno texto do colega por estar cada vez mais abismado com a
indigência cultural de certos colegas publicitários e marqueteiros, que se reflete no
simplismo e por vezes no baixo nível de tantas campanhas e mensagens publicitárias
que vemos por aí. Em vez de abrir cada vez mais os olhos para o mundo, sempre
mais complexo e merecedor de estudo, tornou-se moda entre muitos marqueteiros
virar "especialista" em alguma coisa, arrotar sabedoria a partir de regrinhas óbvias
ditadas pela “experiência” e achar que, em função disto, não precisam aprender mais
nada, porque já sabem tudo.
Tenho um indicador disso no retorno aos informativos da livraria virtual que dirijo, a
Livraria Respósta, que oferece uma selecionadíssima bibliografia de ciências humanas,
de algumas editoras selecionadas (que posiciono como "o melhor das melhores").
Quando envio o informativo à lista dos assinantes desta colunaDerrapadas, o retorno
é excelente, demonstrando que meus leitores são profissionais de cabeça aberta,
interessados em ler e aprender e com uma ampla gama de interesses culturais. Porém
quando envio a listas genéricas de gente de empresa, alguns profissionais (felizmente
uma minoria) pedem para serem excluídos do mailing, por vezes até de forma
agressiva ou, mais freqüentemente, com um educado "eu não sou desta área, sou de
marketing” ou "sou de empresa"...
Gente, o que isso? Desde quando ser de marketing, de propaganda ou de empresa
exclui a cultura? Desde quando um profissional de marketing pode se dar ao luxo de
não ler Dostoievski e Kafka, não saber em que século e a que movimento musical
pertenceu Brahms, não se interessar por psicologia e achar que Chiang-Kai-Check era
um chinês que passava cheques sem fundo?
Fiel à minha curiosidade de sociólogo e ex-pesquiseiro, sempre questiono essas
pessoas sobre os porquês do desinteresse pelos livros e a maioria das respostas
invariavelmente aponta para a “falta de tempo”. Indo mais a fundo, descubro que a
falta de tempo destes executivos é bem genérica, pois eles também não lêem livro
algum sobre a sua “especialidade”, freqüentemente não lêem nem mesmo os jornais
diários, raramente revistas de interesse geral ou especializadas, ignorando tudo o que
chega pela palavra escrita (salvo as notícias de futebol, as fofocas do BBB e os
badalos de Caras).
Como eles não deixam de ir às baladas e acompanhar o “Brasileirão”, deduzo que esta
falta de tempo é apenas uma desculpa para outra coisa: acomodação, preguiça
mental, aliada a uma inacreditável (e injustificável) pretensão ao saber profissional. E
aí me pergunto: Como podem então, tais “alienados”, sem estudar e entender o
mundo, pretender montar estratégias vencedoras para empresas competirem no tão
complexo mercado global que, como lembra o nosso JRWP, é formado por interesses,
mentes e almas extremamente diversificados? Não me espanta que, para isso, apelem
apenas para a “criatividade”, a “inspiração” e muito freqüentemente, até rejeitem
fazer pesquisas para definir estratégias. Pesquisas exigem que se pense, que se
estude, que se ouça outras vozes, e que se tenha capacidade de interpretá-las à luz
de uma cultura que eles não têm nem querem ter. Melhor então serem apenas
geninhos “criativos”. Afinal, acham eles, o que um “artista” faz não se discute, é arte!
(como se arte não pudesse ser discutida e entendida como inserida na sociedade e na
cultura).
Corremos hoje o enorme perigo da hiper especialização, em que legiões de jovens
incultos, nada curiosos, mas auto-confiantes em sua própria ignorância, que
aprenderam meia dúzia de regrinhas em aulas ou palestras que assistiram (já que
têm preguiça de ler o que os palestrantes escreveram antes) começam a fazer
carreira nas empresas e agências como grandes “especialistas” ou geniais “criativos”.
O resultado depois nós vemos em campanhas formuladas “no joelho”, sem conceito
lógico, sem diferenciais tangíveis, ou tão absurdas que parecem terem sido feitas pelo
concorrente para desmoralizar aquele anunciante – e também nos comerciais TV com
piadinhas bobas ou grosseiras, rimas pueris e jogos de palavras que poucos no
público entendem e todos logo esquecem, geralmente nem percebendo qual era o
produto anunciado.