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PREFÁCIO

Todos aqueles que leem quadrinhos, ou em algum momento da vida leram,


devem ter uma experiência mais ou menos comum que, normalmente, não envolve uma
problematização sobre o que sejam os quadrinhos ou o quadro dentro da sequência de
quadrinhos. Pensando em alguém que tenha nascido, por exemplo, na segunda metade
do século passado, e que já fosse alfabetizado, o que muito provavelmente aconteceu é
que em dado momento ele teve em mãos uma revista de histórias em quadrinhos, ou
uma tira, ou uma página de jornal com quadrinhos e deixou-se fisgar pela sequência
narrativa que, quadro a quadro, conta uma história. É possível que este alguém tenha
gostado da experiência, talvez tenha se apaixonado por aquele jeito, ao mesmo tempo
visual e verbal, de contar uma história e tenha se tornado um leitor habitual de histórias
em quadrinhos ou de gibis, como ainda se diz em terras brasileiras.

Se continuarmos a imaginar o nosso hipotético leitor de histórias em quadrinhos,


podemos vê-lo assimilando, cada vez com maior profundidade, as diferentes
possibilidades comunicativas, sempre gráficas, apresentadas pela linguagem dos
quadrinhos. Como a utilização da linguagem depende dos criadores das histórias, então
vemos o nosso leitor experimentando a leitura de autores diferentes: alguns que
constroem as páginas sempre com o mesmo número de quadros e sempre com quadros
no mesmo formato; outros que fazem de uma página seu único quadro; outros ainda
que, numa mesma página, usam quadros de diferentes tamanhos e diferentes posições,
que, às vezes, fazem com que aquele leitor sinta uma vertigem e um forte impacto
emocional. Com o formato, o número e a posição dos quadros mudam-se também os
diferentes ângulos de visualidade com que este leitor vê as cenas da história em que está
‘viajando’: visões de cima, de baixo, de dentro; visões panorâmicas, abertas; visões em
close e fechadas; visões em alta velocidade; visões em queda; visões em vôos; visões
estáticas. Com certeza este leitor está, inconscientemente e desde a visualidade própria
que ele constituiu lendo diferentes histórias em quadrinhos de diferentes autores,
desenvolvendo dentro de si várias maneiras de ‘ler’ o mundo visual, material, social,
histórico, cultural, objetivo e subjetivo no qual vive. Esta sua construção de visualidade,
unida a tantas outras que, como ser social, ele vem fazendo em diferentes campos das
culturas humanas, ajudam-no a tomar decisões a partir daquilo que vê e do modo como
vê e lê.

É possível que este leitor nunca tenha parado para pensar, apesar de ser um leitor
habitual de histórias em quadrinhos, sobre o lugar do quadro, nas sequências de
quadrinhos que sempre frequentou, neste processo de construção de sua visão de
mundo. Ele conhece, de forma vivencial e intuitiva, a dinâmica dos quadros, mas talvez
não saiba explicá-la desde uma perspectiva mais crítica e reflexiva.

Talvez este leitor não queira conhecer os quadrinhos sob este aspecto. Talvez ele
não necessite desta forma de leitura e compreensão. E talvez haja aqueles outros
leitores, desenhistas, roteiristas, editores e admiradores que desejem uma leitura mais
analítica das histórias em quadrinhos. Talvez muitos cheguem mesmo a necessitar dela.
Para todos estes, eu diria, o trabalho de Fabio Luiz Carneiro Mourilhe Silva pode ser
uma contribuição rica e bastante significativa.

Pesquisador com interesse nas histórias em quadrinhos, Fabio faz um mergulho


profundo no quadro dos quadrinhos. Seu mergulho é, ao mesmo tempo, apaixonado,
técnico, histórico, minucioso, crítico e aberto às novidades que o inacabamento humano
sempre produz.

Partindo da origem histórica dos quadros faz um estudo sobre os formatos que
têm sido utilizados pelos diferentes artistas, sem descuidar da influência dos mesmos
nos aspectos gestálticos da leitura visual da página e da história como um todo. Estuda
também o lugar dos quadros no processo de construção da narrativa visual e diferentes
técnicas de disposição dos mesmos para as diferentes intencionalidades narrativas. Em
todos estes pontos sempre trazendo muitas referências visuais e, consequentemente,
fontes para pesquisa.

Com certeza é um trabalho que interessa a desenhistas, roteiristas e editores que


precisam compreender com maior propriedade, a partir do fundamento básico do
quadro, as técnicas narrativas da linguagem dos quadrinhos e, assim, melhor elaborar
aquilo que talvez tenham assimilado intuitivamente como leitores. Interessa também aos
pesquisadores e críticos das histórias em quadrinhos porque a compreensão da origem
histórica do quadro, assim como um exame analítico de suas diferentes possibilidades,
será uma rica contribuição aos seus processos de leitura, pesquisa e reflexão.
Finalmente, quero dizer que Fábio, com este trabalho, evidenciou, desde uma
perspectiva estética e técnica, um aspecto fundamental de nossa condição humana: o
fato de sermos seres imagéticos e de necessitarmos, cada vez mais, saber lidar com esta
realidade.

Assim, compreendo que este trabalho venha ajudar a examinar, de forma


profunda, o lugar do quadro na arte sequencial, mas talvez, mais do que isto, venha
também auxiliar a compreender o modo como, enquanto seres imagéticos, estamos
sendo e nos fazendo no mundo.
Àqueles que se aventurarem neste mergulho: boa viagem!

Elydio dos Santos Neto


Docente-pesquisador do Mestrado em Educação da UMESP
Pesquisador do Observatório de Quadrinhos da USP

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