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ISSN 1413-389X Temas em Psicologia da SBP—2004, Vol.

12, no 21, 119– 126

Sexismo hostil e benevolente: inter-relações e diferenças de gênero

Maria Cristina Ferreira


Universidade Gama Filho

Resumo
Foi objetivo do presente trabalho replicar a estrutura bi-fatorial do sexismo (hostil e benevolente), proposta
por Glick e Fiske (1996), bem como verificar as relações entre esses fatores e as diferenças de gênero no
endosso a tal ideologia. A avaliação das atitudes sexistas hostis e benevolentes deu-se através do Inventário
de Sexismo Ambivalente, composto de 22 afirmativas, com opções de resposta Likert de seis pontos, o qual
foi respondido por uma amostra de 540 estudantes universitários de ambos os sexos. A análise dos resulta-
dos confirmou a estrutura bidimensional do sexismo, evidenciou a presença de uma correlação positiva sig-
nificativa entre as escalas de sexismo hostil e benevolente e demonstrou que os homens apresentaram atitu-
des sexistas significativamente mais hostis que as mulheres. Os dados obtidos ofereceram suporte à teoria
do sexismo ambivalente, que concebe o sexismo benevolente como uma forma de se legitimar o seximo
hostil e perpetuar as desigualdades de gênero.
Palavras-chave: sexismo; relações de gênero; atitudes sobre a mulher.

Hostile and benevolent sexism: Interrelations and gender differences


Abstract
The present work aimed at replicating the bi-factorial structure of sexism (benevolent and hostile sexism),
as proposed by Glick and Fiske (1996), as well as verifying the relations between these factors and the gen-
der differences concerning this ideology. The hostile and benevolent sexist attitudes were evaluated by the
Ambivalent Sexist Inventory, composed by 22 questions in a 6-point Likert response format. It was an-
swered by 540 university students from both sexes. The results supported the bi-dimensional structure of
sexism and showed that the benevolent and hostile sexism scales were correlated. Moreover, it was ob-
served that men had attitudes significantly more hostile than women. The data confirmed the ambivalent
sexism theory that sees the benevolent sexism as a tool for legitimating the hostile sexism and perpetuating
gender inequalities.
Key words: sexism; gender relations; attitudes toward women

A vida em sociedade leva os indivíduos a se defrontarem com várias manifestações de preconceito


declaradas ou sutis, motivadas por diferenças de raça, gênero, orientação sexual, religião, nacionalidade,
etnia, ideologia etc., as quais podem gerar sofrimento físico e psíquico, assim como graves conseqüências
sociais e econômicas.

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Trabalho foi apresentada no Simpósio Relações sociais de gênero: Possibilidades e perspectivas de análise psicosso-
cial na XXXI Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Psicologia.
Endereço para correspondência: Rua Marquês de Valença, 80 apto. 602, CEP. 20550-030 Rio de Janeiro – RJ, E-
mail: mcris@centroin.com.br.
120 M. C. Ferreira

O interesse pelo estudo científico do pre- tumam receber salários menores que os dos
conceito, sob a perspectiva psicossocial, surgiu homens, nos mesmos cargos, além de serem
a partir da clássica publicação da obra intitula- excluídas de certas posições consideradas
da “A natureza do preconceito”, por Gordon mais apropriadas ao sexo masculino. Já o se-
Allport, em 1954, na qual foram lançadas as xismo interpessoal relaciona-se às atitudes e
bases para as investigações a respeito da natu- condutas negativas que os homens dirigem às
reza de tal fenômeno, assim como dos métodos mulheres nas relações interpessoais.
para a sua redução. Nessa obra, Allport (1954) Na explicação do sexismo, as teorias
conceituou o preconceito como uma antipatia feministas (Méndez, 1995, Zurutuza, 1993)
ou hostilidade dirigida a grupos ou a membros partem do pressuposto de que a dicotomia
específicos desses grupos, devido a generaliza- público versus privado característica da socie-
ções incorretas. dade patriarcal, na qual coube ao homem o
Atualmente, porém, tornou-se consenso controle das instituições econômicas, legais e
na literatura a tendência de se considerar o pre- políticas e, à mulher, o cuidado da casa e dos
conceito como uma atitude negativa dirigida filhos e a satisfação da sexualidade do marido,
aos membros de determinados grupos sociais, dotou o homem com um poder estrutural que
em função de sua pertença ao grupo (Smith e lhe concedeu a primazia de grupo dominante e
Mackie, 1995). Desse modo, o preconceito, fez com que a família se constituísse em lócus
enquanto um tipo particular de atitude, apre- privilegiado de reprodução dos valores patri-
senta um componente cognitivo, um afetivo e arcais referentes à superioridade masculina e à
um comportamental (Fiske, 1998). inferioridade feminina.
O componente cognitivo expressa-se Esses valores, constantemente reforça-
através de estereótipos, isto é, de crenças e re- dos durante o processo de socialização, é que
presentações a respeito dos atributos negativos levam os meninos a desenvolverem represen-
que caracterizam os membros de determinados tações de masculinidade associadas à figura
grupos sociais. Já o componente afetivo mani- do homem como forte, dominador e responsá-
festa-se através de sentimentos e avaliações vel pelo sustento da família e representações
negativas dirigidas a certos grupos e configura de feminilidade relacionadas à mulher como
o preconceito propriamente dito. O aspecto uma pessoa dócil, submissa e responsável pe-
comportamental, por fim, associa-se à discri- lo lar e pela prole. Tais representações sobre a
minação, ou seja, à tendência à prática de atos supremacia masculina compõem, portanto, o
hostis e persecutórios aos membros de determi- substrato psicológico que justifica as atitudes
nados grupos sociais, devido a sua pertença ao de discriminação, opressão e dominação femi-
grupo. nina.
Entre as diferentes possibilidades de ex- Em síntese, para as teorias feministas, o
pressão do preconceito encontra-se o sexismo, sexismo pode ser entendido como um resquí-
que compreende avaliações negativas e atos cio da cultura patriarcal, isto é, como um ins-
discriminatórios dirigidos às mulheres, em fun- trumento utilizado pelo homem para garantir
ção de sua condição de gênero (Lips, 1993), e as diferenças de gênero, que se legitima atra-
pode se manifestar sob a forma institucional ou vés das atitudes de desvalorização do sexo
interpessoal, muito embora a primeira propicie feminino que vão se estruturando ao longo do
o contexto cultural adequado à segunda (Lott e curso do desenvolvimento, apoiadas por ins-
Maluso, 1995). trumentos legais, médicos e sociais que as
Nesse sentido, o sexismo institucional normatizam.
associa-se às práticas de exclusão promovidas A literatura mais recente tem mostrado,
por entidades, organizações e comunidades que contudo, que as atitudes tradicionais a respeito
impõem às mulheres certas barreiras, impedin- da mulher vêm sendo substituídas por novas
do-lhes assim de ter as mesmas oportunidades formas de sexismo, nas quais a antipatia a elas
que os homens em situações de trabalho, na dirigida tem se expressado de forma simbólica
política, etc. Assim, por exemplo, no Brasil ou indireta. Assim é que Swim, Aikin, Hall e
(Bruschini, 1994), bem como nos Estados Uni- Hunter (1995), tomando por base o tipo de
dos (Glick, 1991; Lott, 1997), as mulheres cos- diferenciação que vem sendo adotada na área
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do racismo (McConahay, 1986; Sears, 1988), contra a mulher apresentam maior probabili-
distinguiram entre uma forma de sexismo anti- dade de aderir, também, às atitudes mais tradi-
go (old-fashioned) e uma forma de sexismo cionais. Por outro lado, foi observado que os
moderno. O sexismo antigo define-se pelo en- homens apresentaram resultados significativa-
dosso a papéis de gênero tradicionais, trata- mente mais altos que as mulheres em ambas
mento diferencial entre mulheres e homens e as formas de sexismo.
estereótipos sobre a menor competência femi- De modo semelhante, Tougas, Brown,
nina, enquanto o sexismo moderno associa-se à Beaton e Joly (1995) encontraram uma alta
negação de que a discriminação contra a mu- correlação entre uma medida de neo-sexismo
lher ainda exista e a um antagonismo contra as por eles desenvolvida e uma outra medida de
atuais lutas da mulher por maior inserção na sexismo antigo, embora tenham constatado
sociedade e contra o suporte governamental a que apenas o neo-sexismo constituía um bom
políticas destinadas a apoiar a população femi- preditor das atitudes a respeito da ação afir-
nina. O sexismo moderno, portanto, baseia-se, mativa. Nesse sentido, concluíram que a exis-
também, em sentimentos negativos sobre as tência de uma norma social geral contra o se-
mulheres, muito embora eles sejam mais enco- xismo faz com que as pessoas camuflem suas
bertos e relacionados a práticas mais contem- crenças negativas sobre a mulher através de
porâneas (Deaux e LaFrance, 1998). um discurso de igualdade, razão pela qual as
A literatura mais recente tem mostrado, escalas de sexismo moderno seriam mais ade-
contudo, que as atitudes tradicionais a respeito quadas à identificação dos sentimentos negati-
da mulher vêm sendo substituídas por novas vos contra a mulher prevalentes na sociedade
formas de sexismo, nas quais a antipatia a elas contemporânea.
dirigida tem se expressado de forma simbólica Glick e Fiske (1996) ofereceram uma
ou indireta. Assim é que Swim, Aikin, Hall e significativa contribuição ao estudo dessas
Hunter (1995), tomando por base o tipo de di- novas formas de sexismo, ao se deterem na
ferenciação que vem sendo adotada na área do análise da ambivalência a elas associada. Des-
racismo (McConahay, 1986; Sears, 1988), dis- se modo, propõem que esse tipo de preconcei-
tinguiram entre uma forma de sexismo antigo to expressa-se através de duas diferentes face-
(old-fashioned) e uma forma de sexismo mo- tas – sexismo hostil e sexismo benevolente –,
derno. O sexismo antigo define-se pelo endos- com a primeira manifestando-se através de
so a papéis de gênero tradicionais, tratamento grande antipatia contra a mulher e, a segunda,
diferencial entre mulheres e homens e estereó- por meio de sentimentos e condutas positivas
tipos sobre a menor competência feminina, em relação a mulher (como, por exemplo, a
enquanto o sexismo moderno associa-se à ne- afirmação de que “o homem não pode viver
gação de que a discriminação contra a mulher sem a mulher”).
ainda exista e a um antagonismo contra as atu- Na explicação das origens do sexismo
ais lutas da mulher por maior inserção na soci- hostil, os autores (Glick e Fiske, 1996) con-
edade e contra o suporte governamental a polí- cordam com as teorias feministas, ao defende-
ticas destinadas a apoiar a população feminina. rem a idéia de que a supremacia e a domina-
O sexismo moderno, portanto, baseia-se, ção masculinas que caracterizam a ideologia
também, em sentimentos negativos sobre as patriarcal, ao reforçarem os papéis sociais as-
mulheres, muito embora eles sejam mais enco- sinalados aos gêneros e, conseqüentemente, os
bertos e relacionados a práticas mais contem- estereótipos associados a tais papéis, constitu-
porâneas (Deaux e LaFrance, 1998). em a base dessa modalidade de preconceito
Os autores (Swim e cols., 1995) verifica- que, nos dias de hoje, dirige-se particularmen-
ram, ainda, que as duas formas de sexismo, te às mulheres que desafiam o poder masculi-
operacionalizadas através de uma escala desen- no (feministas), brigam por ele (mulheres em
volvida para esse fim, apresentaram-se como altos cargos) ou procuram controlá-lo
duas dimensões independentes, porém correla- (mulheres que seduzem os homens).
cionadas, numa indicação de que as pessoas Em contrapartida, o fato de caber às
que endossam atitudes sexistas mais modernas mulheres a função biológica da reprodução e a
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função social de cuidar da casa e dos filhos, gênero. Assim, por exemplo, o fato de um ho-
assim como satisfazer as necessidades masculi- mem elogiar uma colega de trabalho por sua
nas de intimidade e satisfação sexual, levou ao beleza, mas não por sua competência, pode
desenvolvimento de uma outra forma de ideo- encobrir a crença de que os homens são superi-
logia social que se expressa na superioridade ores às mulheres no que diz respeito à compe-
feminina nas relações diádicas, na visão ideali- tência profissional.
zada da mulher como objeto romântico e nas Fundamentando-se nessas concepções
atitudes de reverência e proteção a seu papel de teóricas, Glick e Fiske (1996) desenvolveram
mãe e esposa que configuram o sexismo bene- o Inventário de Sexismo Ambivalente e valida-
volente. ram-no através de seis diferentes estudos en-
Desse modo, Fiske e Glick (1995) assi- volvendo estudantes universitários e pessoas
nalam que tanto o sexismo hostil quanto o be- adultas, em que se verificou a presença de dois
nevolente são compostos de três diferentes diferentes fatores associados à estrutura bi-
componentes: o paternalismo, a diferenciação dimensional que norteou a construção do ins-
de gênero e o heterossexualismo. O paternalis- trumento, os quais mantinham forte correlação
mo diz respeito à tendência do homem intera- positiva entre si. Os autores constataram, ain-
gir com a mulher como um pai, o que implica da, que a escala de sexismo hostil apresentou
tanto a expressão de uma figura de autoridade correlações com a escala de sexismo moderno
(paternalismo dominador ou hostil) quanto a de Swim e cols. (1995), o mesmo não aconte-
manifestação da figura do provedor e protetor cendo, entretanto, com a escala de sexismo
(paternalismo benevolente). A diferenciação de benevolente. No que diz respeito às diferenças
gênero compreende um pólo competitivo, no de gênero, observou-se que os homens tende-
qual o homem, ao se identificar com seu pró- ram a apresentar resultados significativamente
prio gênero, passa a desenvolver atitudes com- mais altos que as mulheres em ambas as esca-
petitivas em relação às mulheres como forma las, embora tais diferenças tenham sido mais
de manter sua auto-estima elevada, e um pólo acentuadas no caso da escala de sexismo hostil.
complementar, expresso em atitudes positivas A análise dos estudos que vêm sendo
suscitadas pelas representações a respeito dos realizados com o Inventário de Sexismo Ambi-
papéis de mãe e esposa. Por fim, os homens se valente revela que tal instrumento tem demons-
alternam entre o desejo de manter relações ínti- trado boas características psicométricas, no que
mas e prazerosas com as mulheres (intimidade se refere à identificação e comparação de atitu-
heterossexual) e o desejo de dominá-las, em des sexistas hostis e benevolentes, não apenas
virtude de se sentirem ressentidos com a vulne- em amostras norte-americanas, mas também
rabilidade que demonstram nas relações ínti- em amostras chilenas (Mladinic, Saiz, Diaz,
mas (hostilidade heterossexual). Ortega e Oyarce, 1998), mexicanas (Expósito,
Cumpre registrar, entretanto, que para Moya e Glick, 1998), coreanas (Kim, 1998) e
Glick e Fiske (1996), o sexismo benevolente, alemãs (Eckes e Six-Materna, 1999) Conside-
apesar de se manifestar através de atitudes de rando-se entretanto a inexistência de estudos
proteção, idealização e afeto dirigidas às mu- brasileiros direcionados à abordagem de tais
lheres e, em conseqüência, ser por vezes até questões, o presente estudo pretendeu verificar
aceito por elas, é apenas subjetivamente positi- a estrutura fatorial do referido inventário em
vo (“a mulher não é explorada, mas ao contrá- amostras brasileiras, bem como as interrelações
rio é protegida e amada”), já que ele se encon- entre seus fatores e as diferenças de gênero
tra permeado pela mesma ideologia subjacente manifestas no endosso a eles.
ao sexismo hostil (“a mulher pertence ao grupo
mais fraco e inferior, e por isso precisa ser cui- Método
dada e protegida”). Amostra
Em outras palavras, o sexismo benevo- A amostra foi composta por 540 estu-
lente, ao se apoiar em crenças sobre a inferiori- dantes universitários pertencentes a vários cur-
dade feminina, típicas da ideologia patriarcal, sos das áreas humanas e tecnológicas de dife-
serve apenas para justificar o poder masculino rentes instituições de ensino públicas e priva-
e reforçar, desse modo, as desigualdades de das localizadas na cidade do Rio de Janeiro.
123 Sexismo hostil e benevolente

Suas idades variaram de 17 a 28 anos, responsáveis por 52% da variância total do


com média de 21,83. Desse total, 50% eram do instrumento. Contudo, o teste gráfico (scree
sexo masculino e os outros 50% do sexo femi- test) revelou que o número ideal de fatores a
nino. serem extraídos era de no máximo quatro.
Instrumento Nesse sentido, foram realizadas, em
Atendendo às recomendações de Brislin seguida, análises fatoriais dos eixos principais
(1986), as 22 afirmativas que compõem a ver- com soluções antecipadas de dois a quatro
são original do Inventário de Seximo Ambiva- fatores, através dos métodos de rotação orto-
lente (Glick e Fiske, 1996) foram inicialmente gonal (Varimax) e oblíqua (Oblimin), separa-
traduzidas para o português por duas pessoas damente nas amostras masculina e feminina,
bilíngües que trabalharam independentemente. assim como na amostra total.
Em seguida, duas outras pessoas bilíngües re- A solução de dois fatores com rotação
traduziram os itens para o idioma inglês. Poste- oblíqua foi a que forneceu a melhor represen-
riormente, a autora do estudo avaliou as tradu- tação da estrutura interna da escala, em todos
ções e retraduções e resolveu as discrepâncias os tipos de amostras. Por essa razão, a Tabela
entre elas, mantendo a preocupação de dar mai- 1 apresenta apenas as cargas fatoriais deriva-
or destaque ao significado conotativo dos itens. das da amostra total, sendo possível observar
Embora a versão original do instrumento que a estrutura fatorial obtida reproduziu fiel-
fosse composta de itens fraseados positiva e mente a estrutura original, com os itens apre-
negativamente, alguns pesquisadores sentando cargas fatoriais elevadas (iguais ou
(Expósito, Moya e Glick, 1998; Mladinic, Saiz, acima de 0,30) em um fator associado ao se-
Diaz, Ortega e Oyarce, 1998) constataram que xismo hostil ou em um outro fator relacionado
os itens negativamente fraseados não se mos- ao sexismo benevolente.
traram muito adequados à tradução, razão pela Tais fatores foram responsáveis por
qual optaram por trabalhar com todos os itens 29% da variância do instrumento, obtiveram
fraseados no sentido positivo. eigenvalues iguais a 4,33 e 1,95 e sua consis-
Desse modo, a adaptação brasileira do tência interna, calculada através do coeficiente
Inventário de Sexismo Ambivalente também Alfa de Cronbach, revelou resultados de 0,84
utilizou as 22 afirmativas fraseadas positiva- e 0,75, respectivamente.
mente. Em seguida, foi calculado o coeficiente
de correlação de Pearson entre os escores ob-
Procedimento tidos nos dois diferentes fatores da escala,
A aplicação dos questionários ocorreu de separadamente nas amostras masculina e fe-
forma individual ou coletiva, nas próprias salas minina, tendo-se verificado a presença de cor-
de aula. Os participantes foram solicitados a relações positivas significativas (rxy = 0,19; p<
participar de uma pesquisa destinada a investi- 0,001, na amostra masculina e rxy = 0,39,
gar a percepção das pessoas a respeito das rela- p<0,000, na amostra feminina) em ambas as
ções mantidas por diferentes grupos sociais. amostras, muito embora a correlação obtida
Aos que concordaram em participar, foi na amostra feminina tenha sido superior à ob-
pedido que dessem sua opinião sobre cada uma servada na amostra masculina.
das frases constantes no questionário, em esca- Para se verificar a existência ou não de
las Likert de 6 pontos, variando de “discordo diferenças de gênero no endosso às duas dife-
fortemente” (1) a “concordo fortemente” (6). rentes formas de sexismo, foram calculados
testes t entre os escores obtidos pelas amostras
Resultados feminina e masculina nas escalas de seximo
Com o intuito de se verificar a estrutura hostil e benevolente, tendo-se constatado que
fatorial da versão brasileira do Inventário de os homens (Média = 41,76) apresentaram es-
Sexismo Ambivalente, a matriz de intercorrela- cores significativamente mais altos que as
ções obtida com os dados da aplicação do mulheres (Média = 30,77) na escala de sexis-
questionário foi submetida à analise dos com- mo hostil (t = 13,13; p< 0,000), o mesmo não
ponentes principais, que extraiu cinco fatores acontecendo com a escala de sexismo benevo-
com eigenvalues acima de 1, os quais foram lente, que não diferenciou entre os dois sexos.
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Tabela 1. Cargas fatoriais das escalas de sexismo


Itens Benev. Hostil
1. Não importa o quanto seja realizado, o homem não é verdadeiramente homem se não tiver o amor 0,58 -----
de uma mulher
3. Num desastre, as mulheres devem ser salvas antes dos homens 0,30 -----
6. As pessoas não conseguem ser totalmente felizes na vida se não estiverem envolvidas romantica- 0,41 -----
mente com uma pessoa do sexo oposto
8. Muitas mulheres têm uma pureza que poucos homens possuem 0,45 -----
9. As mulheres devem ser amadas e protegidas pelos homens 0,46 -----
12. Todo homem deve ter uma mulher que ele adore 0,60 -----
13. Os homens não são totalmente completos sem as mulheres 0,60 -----
17. Uma boa mulher deve ser colocada num pedestal pelo seu homem 0,42 -----
19. As mulheres costumam ter mais sensibilidade moral que os homens 0,49 -----
20. O homem deve estar disposto a fazer sacrifícios para satisfazer as necessidades financeiras de 0,35 -----
sua mulher
22. As mulheres costumam ter mais bom gosto e uma cultura mais refinada que os homens 0,38 -----
2. Muitas mulheres , com a desculpa de buscarem igualdade, estão é querendo favores especiais ----- 0,55
4. A maioria das mulheres interpreta observações ou atos inocentes como discriminatórios ----- 0,61
5. As mulheres se ofendem muito facilmente ----- 0,63
7. As feministas estão querendo que as mulheres tenham mais poder que os homens ----- 0,55
10. A maioria das mulheres não avalia plenamente tudo que os homens fazem por elas ----- 0,61
11. As mulheres querem obter poder para exercer controle sobre os homens ----- 0,62
14. As mulheres exageram os problemas que têm no trabalho ----- 0,69
15. Quando uma mulher conquista um homem ela costuma mantê-lo sob rédea curta ----- 0,48
16. Quando as mulheres perdem para os homens numa competição justa, elas em geral se queixam ----- 0,61
de ter sido discriminadas
18. As mulheres gostam de provocar os homens, parecendo estar disponíveis para depois recusar os ----- 0,41
convites masculinos
21. As exigências que as feministas fazem aos homens costumam ser absurdas ----- 0,47

Discussão se apresentaram, entretanto, positivamente cor-


Foi objetivo do presente trabalho investi- relacionados, o que se mostra coerente com
gar se a estrutura bi-fatorial do Inventário de resultados anteriores obtidos por Glick e Fiske
Sexismo Ambivalente poderia ser replicada em (1996) e denota que essas duas formas de se-
amostras brasileiras, bem como avaliar as in- xismo consistem em facetas ideológicas de um
terrelações entre suas dimensões e as diferen- mesmo sistema de recompensas e punições que
ças de gênero manifestas no endosso a tais ati- se aplica diferencialmente a homens e mulhe-
tudes sexistas. res em função da posição que ocupam na hie-
A análise dos resultados evidenciou que rarquia de poder determinada pelo gênero.
estrutura bi-dimensional obtida com a análise A existência dessas duas formas de se-
fatorial da versão brasileira do Inventário de xismo mostra-se também congruente com re-
Sexismo Ambivalente reproduziu integralmen- sultados anteriores (Eagly & Mladinic, 1989;
te as duas formas de sexismo – hostil e benevo- Eagly & Mladinic, 1994; Eagly, Mladinic &
lente – reveladas no estudo original com a es- Otto, 1991) reportados na literatura sobre este-
cala, numa indicação de que essas duas formas reótipos de gênero, segundo os quais as mulhe-
de sexismo constituem construtos independen- res são avaliadas mais favoravelmente que os
tes. Por outro lado, os índices psicométricos homens em traços expressivos, que as qualifi-
obtidos com o referido instrumento no estudo cam para o desempenho de papéis domésticos,
atual atestam que ele constitui um instrumento sendo, ao contrário, avaliadas mais desfavora-
válido e fidedigno à mensuração de tais cons- velmente em traços instrumentais, associados
trutos em amostras brasileiras. ao exercício de funções de liderança típicas de
Apesar de o sexismo hostil e benevolen- um domínio masculino. Nesse sentido, é pos-
te constituírem construtos independentes, eles sível supor que os estereótipos negativos estari-
125 Sexismo hostil e benevolente

am associados ao sexismo hostil, enquanto os Tais evidências de caráter transcultural


estereótipos positivos estariam associados ao indicam, portanto, que as desigualdades de
sexismo benevolente. gênero continuam sendo legitimadas por ho-
Apesar de os homens terem se mostrado mens e mulheres pertencentes a diferentes
mais sexistas que as mulheres, no que diz res- grupos nacionais. Neste sentido, é possível
peito ao endosso ao sexismo hostil, o mesmo que as diferentes políticas e estratégias de in-
não aconteceu nas comparações realizadas com tervenção destinadas a reduzir essas desigual-
a escala de sexismo benevolente, na qual não dades estejam esbarrando não apenas na resis-
ocorreram diferenças de gênero. Em outras tência explícita dos homens, mas na resistên-
palavras, as mulheres rejeitam o seximo hostil, cia simbólica das próprias mulheres que, ao
mas aceitam o sexismo benevolente na mesma mesmo tempo em que almejam conquistar
proporção em que os homens, talvez porque o maior autonomia e independência no espaço
primeiro esteja associado a punições, ofensas e público, desejam também continuar mantendo
opressões, enquanto o segundo lhes garante uma certa dependência em relação aos ho-
proteção, admiração e afeto masculino. O se- mens, sobretudo no que diz respeito ao espaço
xismo benevolente seria, portanto, uma forma privado. Parece, assim, que as mulheres ainda
de levar a mulher a aceitar o maior poder estru- não tomaram consciência do modo sutil atra-
tural dos homens e ainda se sentir recompensa- vés do qual o sexismo benevolente perpetua
da por isso, já que esse poder estaria servindo os valores patriarcais que lhes limitam as o-
para lhe proteger. portunidades e lhes impedem o alcance de
Considerando-se, por outro lado, que o determinadas metas.
sexismo benevolente encontra-se permeado Referências bibliográficas
pela mesmo tipo de ideologia patriarcal que Allport, G. W. (1954). The nature of preju-
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Enviado em Março / 2004


Aceite final Agosto / 2005