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FRAUDE EM CONCURSO PÚBLICO

Enquadramento legal e análise probatória

Rogério Roberto Gonçalves de Abreu

Juiz federal substituto

2ª Vara da Seção Judiciária da Paraíba

Na presente sentença, analisamos o seguinte fato: um sujeito se submeteu


às provas de um concurso público federal em lugar de outro, logrando aprovação. O
beneficiário da fraude foi nomeado e regulamente empossado no cargo. Ao
denunciá-los, o MPF classificou a conduta como estelionato contra entidade de
direito público (CP, 171, §3º). Um dos poucos documentos importantes à resolução
do caso que constava dos autos era a folha de presença assinada pelo executor das
provas com o nome do beneficiário empossado, falsidade comprovada em exame
pericial grafotécnico que comparou as assinaturas na referida folha e nos termos de
declarações prestadas perante a polícia federal.

Nesse momento, levanto as seguintes questões: trata-se realmente de


estelionato? O fato preenche todas as elementares desse delito? Em caso negativo,
como seria o enquadramento? A conclusão a que cheguei levou em conta a
ausência da natureza patrimonial do fato comprovado, bem como a necessária
prática de pelos menos três falsidades materiais em documento público como meio
necessário à consumação do objetivo criminoso. O problema é: seria possível
condenar alguém por crimes de falsidade material de documentos que não constam
dos autos e sobre os quais não houve exame pericial?

É exatamente a situação de fato que tive de resolver.


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PROCESSO N. 96.0004704-9

AÇÃO PENAL PÚBLICA

AUTOR: Ministério Público Federal

RÉUS: Nelcijone da Costa Monteiro e Humberto César Monteiro de Farias

Juiz Federal Substituto ROGÉRIO ROBERTO GONÇALVES DE ABREU

SENTENÇA

PENAL. FRAUDE EM CONCURSO PÚBLICO FEDERAL.


Utilização de terceiro que, usando documento falsificado, logra
aprovação para o candidato. Falsidade de documentos
públicos (CP, art. 297) e uso de documentos falsificados (CP,
art. 304) como meios necessários à obtenção da fraude. Fatos
devidamente comprovados. Aplicação do princípio da
consunção. Condenação pelos crimes de falsidade.

PENAL. DENÚNCIA QUE ENQUADRA O FATO COMO


ESTELIONATO QUALIFICADO (CP, ART. 171, § 3º). Não
configuração. Ausência da natureza patrimonial do delito,
assim como da precisa identificação das vítimas e da
existência de prejuízo patrimonial. Enquadramento legal no
crime de falsidade material (CP, art. 297).

PENAL. SUBSTITUIÇÃO DA PENA, SUSPENSÃO


CONDICIONAL DA PENA E CONTINUIDADE DELITIVA.
Praticados três crimes de falsidade em circunstâncias de
tempo, espaço e finalidade absolutamente similares e conexas,
aplica-se a regra da continuidade delitiva (CP, art. 71). Os
requisitos objetivos da quantidade de pena para obtenção da
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substituição e da suspensão condicional da pena privativa de


liberdade devem ser analisados levando em conta a pena
resultante do acréscimo decorrente da continuidade. Benefícios
indeferidos (CP, art. 44, I).

1. RELATÓRIO

Tratam os presentes autos de AÇÃO PENAL PÚBLICA promovida pelo


MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL contra NELCIJONE DA COSTA MONTEIRO e
HUMBERTO CÉSAR MONTEIRO DE FARIAS, ambos devidamente qualificados
nos autos do processo em epígrafe, dando-os a peça denunciativa como incursos no
art. 171, § 3º, do Código Penal, imputando-lhes a conduta de haverem fraudado
concurso público federal.

Consta da denúncia (fls. 02/04) que Nelcijone da Costa Monteiro inscreveu-


se no concurso público para Técnico de Finanças e Controle promovido pela ESAF
em 22/03/1993, não tendo sido, contudo, o autor da assinatura aposta na lista de
presença. Teria ocorrido que, no dia do exame, Humberto César Monteiro de Farias
comparecera ao local de prova e, utilizando uma falsificação do documento de
identidade do primeiro denunciado, submeteu-se ao exame em seu lugar, logrando-
lhe a aprovação. Em razão disso, Nelcijone da Costa Monteiro fora empossado no
referido cargo em 27/08/1993, apresentando 2ª via de seu documento de identidade,
alegando que teria perdido a 1ª via.

Denúncia recebida em 03/04/1997 (fl. 189).

Interrogatório de Nelcijone da Costa Monteiro (fls. 204/205).

O acusado Nelcijone da Costa Monteiro apresentou defesa prévia,


requerendo a ouvida das testemunhas Paulo Farias, Paulo Armando del Castello,
Márcio Rodrigues Vieira, Luiz Costa, José Alves de Siqueira, José Wellington
Diógenes e Aldemir Neves Lima (fls. 236/237).
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O denunciado Humberto César Monteiro de Farias não compareceu à


audiência de interrogatório, apesar de haver sido devidamente citado (fls. 261/262).
Contudo, apresentou defesa prévia onde requereu a ouvida das testemunhas
Marcos Cirilo Barbosa Félix, Luiz Paiva de Pontes, Juvaldo Figueiredo de Pinho
Júnior, Judas Tadeu Costa de Lima e Esdon Aguiar Amâncio (fls. 303/304).

Decretação da revelia do acusado Nelcijone da Costa Monteiro que,


regularmente intimado, não compareceu à audiência de inquirição das testemunhas
arroladas na denúncia (fls. 374/375).

Inquirição das testemunhas arroladas na denúncia: Marcony Edson da


Costa e Ana Maria Araújo Freire (fls. 376/378).

Promoção ministerial prescindindo do depoimento da testemunha José Alípio


Monteiro, bem como requerendo a determinação de prazo para o cumprimento das
cartas precatórias relativas à inquirição das testemunhas arroladas na defesa, bem
como para que a expedição das cartas se realizasse a um só tempo (fl. 464). A fls.
466/467 a promoção foi acolhida pelo juízo.

Inquirição das testemunhas arroladas pela defesa: Marcos Cirilo Barbosa


Félix e Paulo Armando del Castello (fls. 530/531); Aldemir Lemos Neves (fls.
557/558); Paulo Augusto de Farias (fls. 636/637).

Decisão proferida pelo juízo, determinando o prosseguimento do feito sem a


presença do acusado Humberto César Monteiro de Farias, tendo em vista sua não
localização no endereço fornecido pelos advogados do acusado, como também
determinando que os acusados, por seus advogados, se pronunciassem sobre as
testemunhas não localizadas (fls. 727/732).

O acusado Nelcijone da Costa Monteiro desistiu da inquirição das


testemunhas Márcio Rodrigues Vieira e Juvaldo Figueiredo de Pinho Júnior, e
insistiu na tomada do depoimento das testemunhas Luiz Costa e José Alves de
Siqueira, comprometendo-se a levá-las à audiência, nos respectivos domicílios,
independentemente de intimação (fl. 784).
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O MM Juiz Federal Alexandre Costa de Luna Freire determinou a dispensa


das testemunhas Márcio Rodrigues Vieira, José Wellington Diógenes, Juvaldo
Figueiredo de Pinho Júnior e Edson Aguiar Amâncio. (fls. 790/792).

Determinada a intimação dos advogados do réu Humberto César Monteiro


de Farias para se pronunciarem sobre o falecimento da testemunha Luiz Paiva de
Pontes e da não localização da testemunha Judas Tadeu Costa de Lima, a qual se
encontraria trabalhando no estado do Amapá (fl. 815). Em petição, o acusado
insistiu na inquirição da segunda testemunha, alegando seu retorno do estado do
Amapá, e requereu a substituição da testemunha falecida por Regina Maria
Peregrino Pimentel de Oliveira (fls. 899/900).

Decisão deferindo a substituição da testemunha, como requerido pelo réu


Humberto César Monteiro de Farias, como também determinando a dispensa da
testemunha José Alves de Siqueira (fls. 903).

Tendo em vista a não manifestação dos advogados do réu Nelcijone da


Costa Monteiro sobre a testemunha Luiz Costa, sua oitiva foi dispensada por
decisão do MM Juiz Federal Alexandre Costa de Luna Freire (fl. 950).

Inquirição das testemunhas indicadas pela defesa: Regina Maria Peregrino


Pimentel de Oliveira (fls. 961/962); Judas Tadeu Costa de Lima (fl. 963).

Na fase de diligências (CPP, art. 499), o MPF requereu que fosse oficiado
o Ministério da Fazenda no estado da Paraíba para enviar informações sobre o
procedimento administrativo de sindicância instaurado para a apuração dos fatos
sobre que versam os presentes autos, bem como a juntada das certidões
atualizadas dos cartórios distribuidores criminais das justiças federal e estadual
nesta capital, além da folha de antecedentes atualizada do INI/DPF em relação aos
denunciados (fls. 970/971).

Devidamente intimados para os fins do CPP, art. 499, os denunciados nada


requereram (fl. 976).
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Em resposta ao ofício acima mencionado, o Ministério da Fazenda enviou o


relatório da Comissão de Sindicância acerca das irregularidades envolvendo o
servidor Nelcijone da Costa Monteiro (fls. 1004/1018).

Em alegações finais (CPP, art. 500), o MPF requereu a condenação dos


denunciados Nelcijone da Costa Monteiro e Humberto César Monteiro de Farias nas
penas do art. 171, § 3º, do Código Penal, como também requereu, quanto ao
denunciado Nelcijone da Costa Monteiro, a decretação da perda do cargo (fls.
1024/1027).

Em suas alegações finais, os denunciados Humberto César Monteiro de


Farias (fls. 1096/1101) e Nelcijone da Costa Monteiro (fls. 1109/1111) sustentaram a
ausência de prova dos fatos narrados pelo MPF e alegaram a impossibilidade da
configuração do fato narrado como estelionato, ausentes seus requisitos.
Requereram, por fim, a improcedência da denúncia com sua conseqüente
absolvição.

É o relatório.

DECIDO.

2. FUNDAMENTAÇÃO

Não havendo preliminares ou prejudiciais de mérito a resolver, passo


imediatamente ao exame do mérito.

Conforme se apura dos autos, o Ministério Público Federal denunciou


Nelcijone da Costa Monteiro e Humberto César Monteiro de Farias como incursos no
art. 171, § 3º, do Código Penal brasileiro, alegando que o segundo denunciado teria
comparecido em lugar do primeiro às provas do concurso público para Técnico de
Finanças e Controle, logrando-lhe a aprovação. O fato teria sido objeto de uma
denúncia anônima, resultando em apuração administrativa e policial.
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Para a obtenção de tal resultado, segundo o MPF, Humberto César Monteiro


de Farias teria utilizado documento de identidade falsificado em nome de Nelcijone
da Costa Monteiro, bem como assinado em nome deste a lista de presença,
submetendo-se, pois, às provas do concurso.

Humberto César Monteiro de Farias (fl. 27), ouvido pela autoridade policial,
afirmou que não conhecia Nelcijone da Costa Monteiro e recusou-se a fornecer
material gráfico para o exame grafotécnico.

Nelcijone da Costa Monteiro forneceu material gráfico para o exame (fls.


29/32) e, ouvido pela autoridade policial (fl. 33), declarou que não conhecia
Humberto César Monteiro de Farias, bem como que teria se submetido aos exames
do concurso pessoalmente, sem a intersecção de terceiro. Afirmou ainda que perdeu
sua carteira de identidade entre a realização da prova e a data de sua posse (fl. 33).

Não obstante a recusa de Humberto César Monteiro de Farias em fornecer


material gráfico para os exames, estes foram realizados a partir de suas assinaturas
nos termos de declaração (fls. 27/28), bem como com os elementos gráficos
fornecidos por Nelcijone da Costa Monteiro. Os peritos se puseram a investigar se a
assinatura aposta na folha de presença do concurso para Técnico de Finanças e
Controle (fl. 39) teria partido do punho de algum dos acusados.

Realizados os exames grafotécnicos, registraram os peritos no respectivo


laudo pericial (fls. 40/44) suas conclusões no sentido de que a assinatura constante
da folha de presença do concurso NÃO teria partido do punho escritor de Nelcijone
da Costa Monteiro (quesito 1), mas do punho de Humberto César Monteiro de Farias
(quesito 2), ficando comprovada, dessa forma, a falsidade documental alegada pelo
MPF na denúncia.

O próprio iter da falsidade se tornou mais claro a partir do depoimento


prestado, ainda na fase inquisitorial, por Lúcia Maria Freire, corroborado
integralmente pelo depoimento em juízo de Marcony Edson da Costa. Ouvida
perante a autoridade policial, ela afirmou ter participado como executora do
concurso para Técnico de Finanças e Controle realizado em 1993, descrevendo
dessa forma o procedimento de fiscalização (fls. 71/71v.):
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“(...) que a mecânica do concurso seguia mais ou menos os


seguintes passos: um fiscal se postava na entrada da sala,
organizando os candidatos, verificando se esses portavam a Carteira
de Identidade e o Cartão de inscrição, verificando a fisionomia
para ver se se tratava da mesma pessoa; que em seguida o
candidato adentrava a sala de aula, onde ali registrava sua presença
perante um fiscal, assinando a folha de presença, ocasião em que
a sua C. I. e o cartão de inscrição eram conferidos com a
assinatura, ficando retida a Carteira de Identidade até o final da
prova;” (grifei).

Pode-se ver que a “mecânica do concurso” exigia, em um primeiro momento,


a identificação visual do candidato conforme seu documento de identidade, donde
constatamos que o documento (C.I.) apresentado por Humberto César Monteiro de
Farias (embora em nome de Nelcijone da Costa Monteiro) continha sua fotografia.
Fora, portanto, contrafeito.

Em um segundo momento, ainda de acordo com a “mecânica do concurso”,


fazia-se a conferência da assinatura do candidato com a constante do mesmo
documento de identidade e do respectivo cartão de inscrição, de forma que as
assinaturas nesses dois documentos teriam de ser a mesma a ser aposta na folha
de presença. Aqui vemos que a assinatura constante do documento em nome de
Nelcijone da Costa Monteiro, apresentado por Humberto César Monteiro de Farias,
proveio do punho escritor deste último, embora o documento apresentasse o nome
do primeiro: mais uma contrafação.

A conclusão a que podemos chegar em vista de tudo isso é que o


documento de identidade apresentado por Humberto César Monteiro de Farias
continha sua fotografia e uma assinatura de seu punho, mas com o nome e o
número de RG de Nelcijone da Costa Monteiro, tratando-se de uma falsificação de
documento público, utilizada na fraude ao concurso público para Técnico de
Finanças e Controle do Ministério da Fazenda, realizado pela ESAF no ano de 1993.

Em seu interrogatório judicial, o acusado Nelcijone da Costa Monteiro negou


peremptoriamente a acusação, relembrando que, embora citado regularmente, o
acusado Humberto César Monteiro de Farias não compareceu à audiência de
interrogatório, fez uso do direito ao silêncio na fase inquisitorial e, no curso do
processo, embora assim pudesse fazer, em momento algum requereu, através de
seu advogado, designação de nova audiência para sua oitiva. Considerando que o
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interrogatório, hoje, se trata de meio de defesa, entendo que não cabe ao juiz
obrigar o réu a prestar interrogatório. Nessa linha, adoto a tese de que a própria
ausência do acusado pode traduzir parte da estratégia de defesa, o que deve ser
aceito em razão da garantia constitucional da amplitude de tal direito.

Examinando a prova testemunhal colhida ao longo da instrução processual,


podemos constatar o seguinte.

Marcony Edson da Costa, que trabalhou como fiscal no questionado


concurso para TFC, inquirido em juízo, corroborou as declarações de Lúcia Maria
Freire sobre a “mecânica do concurso”, salientando que os fiscais, antes dos
exames, conferiam a assinatura do candidato aposta na lista de presença, bem
como sua própria identidade visual, com os respectivos documentos de identidade
apresentados naquele momento pelo candidato.

Na mesma linha foi o depoimento de Ana Maria de Araújo Freire.

Quanto às testemunhas indicadas pela defesa dos acusados, a testemunha


Marcos Cirilo Barbosa Félix afirmou que trabalhou como fiscal em concurso da ESAF
promovido em 1993. Contudo, não declarou ter visto ou tido contado com qualquer
dos acusados por ocasião das provas.

Paulo Armando del Castello declarou conhecer o primeiro acusado do


Partido dos Trabalhadores, de onde seriam colegas desde longo tempo. Esse
depoimento confirma o vínculo de Nelcijone da Costa Monteiro com a militância do
Partido dos Trabalhadores, o qual seria o ponto de convergência (além do concurso
objeto da denúncia) entre os dois acusados.

Aldemir Lemos Neves declarou que conhecia o acusado Nelcijone da Costa


Monteiro desde 1984, achando-o um “rapaz honesto e trabalhador”. Disse que
soube dos fatos pelo próprio acusado, a quem teria dito estar “pronto para ajudá-lo”.
A par disso, não manifestou qualquer conhecimento pessoal sobre os fatos em
apuração no processo.
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Paulo Augusto de Faria, na mesma linha que Aldemir Lemos Neves,


declarou conhecer o acusado Nelcijone da Costa Monteiro como uma pessoa boa e
honesta, bem como que tivera conhecimento dos fatos através do próprio acusado.

Regina Maria Peregrino Pimentel de Oliveira afirmou ter tido conhecimento


dos fatos apenas através dos comentários de pessoas em seu local de trabalho.
Registrou que nunca tivera contato com Nelcijone da Costa Monteiro e que nunca
viu Humberto César Monteiro de Farias.

Judas Tadeu Costa de Lima declarou estranhar o fato de haver sido indicado
como testemunha, pois teria participado de uma comissão disciplinar para apuração
desses fatos, recordando-se que o posicionamento da comissão foi pela aplicação
da pena de demissão, não sabendo se houve alguma falha ou se haveria sido
designada outra comissão.

Em resumo, as testemunhas apresentadas pelos acusados para inquirição


em juízo não trouxeram uma única informação que viesse a infirmar ou mesmo
fragilizar a tese de fato sustentada pelo MPF em sua denúncia.

Como resultado do requerimento do MPF na fase de diligência, veio aos


autos o documento de fls. 1004/1018, donde podemos ver que o procedimento
administrativo disciplinar instaurado para apurar a fraude no ingresso do acusado
Nelcijone da Costa Monteiro no cargo de TFC resultou na proposta, pela comissão,
da declaração de nulidade da nomeação e da posse do acusado pelo Coordenador-
Geral de Recursos Humanos do Ministério da Fazenda.

No relatório apresentado, a comissão considerou totalmente comprovada a


fraude praticada pelo acusado no concurso de ingresso no cargo, mas deixaram de
lhe aplicar qualquer punição disciplinar considerando que, ao tempo da prática, o
acusado não era servidor, bem como que o fato se amoldaria a um delito que não se
enquadraria como falta disciplinar (art. 171 do CP, na ótica da comissão). Em ofício,
o Secretário Federal de Controle Interno informa que o processo foi encaminhado à
Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional e que, até aquele momento (08/05/2006),
não teria havido qualquer comunicação sobre o pronunciamento da PGFN a respeito
do processo.
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Em termos de fatos e provas, levando em conta todo o acervo probatório já


colhido, considero ter ficado absolutamente comprovado o seguinte quadro fático:
Nelcijone da Costa Monteiro se inscreveu para o concurso público do cargo de
Técnico de Finanças e Controle do Ministério da Fazenda, realizado pela ESAF em
1993, mas não se submeteu às provas. Utilizando-se de um documento de
identidade falsificado (fotografia e assinatura), Humberto César Monteiro de Farias
submeteu-se às provas, assinando em nome do primeiro o livro de presença,
realizando os exames e preenchendo folhas de respostas, logrando, ao fim,
aprovação no concurso. Nelcijone, em vista disso, é nomeado e empossado no
cargo.

Falando em termos de materialidade e autoria, começando pela primeira,


tenho como demonstrada a falsificação material de 03 (três) documentos públicos:

1) A carteira de identidade (C.I.) de Nelcijone da Costa Monteiro, utilizada


por Humberto César Monteiro de Farias para submissão aos exames do concurso. O
referido documento continha todos os dados de Nelcijone e a fotografia de
Humberto, tendo sido assinado pelo último com o nome do primeiro;

2) O cartão de inscrição do concurso para TFC. Da mesma forma que o


item anterior, referido documento continha todos os dados de Nelcijone, exceto a
fotografia e a assinatura, que seriam de Humberto;

3) A folha de presença na prova do concurso, que teve a assinatura de


Nelcijone falsificada por Humberto.

O fato de tal assinatura ter sido conferida pelos fiscais – segundo relatos da
“mecânica do concurso”, já comentados acima – nos diz que a assinatura constante
da folha de presença era a mesma que constava da carteira de identidade (item 1) e
do cartão de inscrição (item 2), relembrando-se que o candidato somente poderia
fazer a prova se apresentasse os dois documentos e se as assinaturas coincidissem
“entre si”, bem como a conferência visual do sujeito com a fotografia constante da C.
I. e do cartão de inscrição.

Daí porque, não obstante a inexistência nos autos dos referidos documentos
(carteira de identidade e cartão de inscrição utilizados por Humberto para fazer as
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provas em lugar de Nelcijone), sua falsificação material é incontestável. A certeza da


falsidade advém do exame conjunto da seguinte sucessão de provas:

a) Comprovação da falsificação da folha de presença (comprovada pelo


laudo grafotécnico) pela pessoa de Humberto, que a teria assinado em nome de
Nelcijone com a mesma assinatura constante da carteira de identidade e do cartão
de inscrição apresentados no momento;

b) A identidade de assinaturas entre esses três documentos advém do


incontroverso relato da “mecânica do concurso”, pois os fiscais comparavam as três
assinaturas. Concluímos assim que, no momento da prova, Humberto apresentou
aos fiscais uma carteira de identidade e um cartão de inscrição que continha os
dados de Nelcijone, mas que foi por si assinada;

c) A “mecânica do concurso” conduziu à falsificação da carteira de


identidade no tocante à fotografia ali constante. Como os fiscais faziam uma
conferência visual do candidato com o sujeito da fotografia, é óbvio que o
documento apresentado em nome de Nelcijone, além de assinado por Humberto,
continha a fotografia deste último.

A questão que se poderia colocar no presente momento é a seguinte: dos


três documentos falsificados, consta apenas um deles dos autos, qual seja, a folha
de presença. Sua falsidade foi comprovada através de laudo grafotécnico e, quanto
a isso, não pode haver questionamento. Mas quanto aos outros dois documentos,
seria indispensável que estivessem nos autos e fossem submetidos a um exame de
corpo de delito?

No caso dos autos, a resposta é negativa.

Havendo disponibilidade dos documentos contrafeitos, sua juntada aos


autos e o correspondente exame pericial seriam providências indispensáveis.
Contudo, no caso em tela, mostrou-se absolutamente impossível ter acesso a tais
documentos, exatamente porque, consumado o fato, jamais deixaram de estar em
poder dos acusados. Para ilustrar, basta relembrar que o acusado Nelcijone afirmou
ter perdido sua carteira de identidade, motivo pelo qual teria providenciado uma
segunda via para tomar posse no concurso.
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O acesso aos referidos documentos, portanto, tornou-se absolutamente


impossível, mas isso não afasta a possibilidade de demonstração do corpo de delito.
Ocorre que, sendo impossível o exame de corpo de delito direto, a prova do crime
não transeunte poderá ser feita por outros elementos idôneos de prova. Tais
elementos indiretos de prova, segundo penso, foram devidamente obtidos pelo
exame conjunto das provas pericial e testemunhal já produzidas, bem como pela
aplicação ao caso das presunções hominis decorrentes dos indícios trazidos por
essas mesmas provas.

Basta checar o raciocínio descrito acima (itens “a”, “b” e “c”).

Nessa linha, trago os seguintes precedentes:

Origem: STF - Supremo Tribunal Federal. Classe: HC - HABEAS


CORPUS. Processo: 78719 UF: SP - SÃO PAULO Órgão Julgador:
Data da decisão: Documento: Relator: SEPÚLVEDA PERTENCE.

EMENTA: I. Denúncia: aptidão: falsidade material e ideológica


adequadamente descritas. II. Exame de corpo de delito: não é
indispensável ao oferecimento da denúncia, podendo realizar-se no
curso do processo; de qualquer sorte, prescinde-se do exame pericial
direto, se é imputável ao acusado a sonegação do documento onde
se materializaria a falsidade material; de resto, há imputação também
de falsidade ideológica, à prova da qual " sendo certa a sua
existência" não é necessário o exame de corpo de delito (grifado).

Origem: STJ - SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. Classe: RESP -


RECURSO ESPECIAL – 195267. Processo: 199800852778 UF: SP
Órgão Julgador: SEXTA TURMA. Data da decisão: 12/09/2000
Documento: STJ000375160. Relator: VICENTE LEAL.

Penal. Processual Penal. Recurso especial. Crime falsificação de


documento. Prova da materialidade. Exame de corpo delito.
Reexame de provas. Súmula nº 07/STJ.

- Em sede de crime de falsidade documental a comprovação da


materialidade pelo exame de corpo de delito não é indispensável à
propositura da ação penal, podendo ser produzida a prova no curso
do sumário e materialidade do crime ser aferida por outros meios
idôneos.

- O Superior Tribunal de Justiça, com os olhos postos na sua


competência constitucional de intérprete maior da lei federal (CF, art.
105, III), consolidou o entendimento de que o recurso especial é
inadmissível quando o tema nele enfocado consubstancia mero
reexame de provas para o deslinde de questão de fato controvertido
(Súmula nº 07).
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- Recursos especiais não conhecidos (grifado).

Origem: TRF - PRIMEIRA REGIÃO. Classe: ACR - APELAÇÃO


CRIMINAL – 8901065584. Processo: 8901065584 UF: MG Órgão
Julgador: QUARTA TURMA. Data da decisão: 4/12/1989 Documento:
TRF100002411. Relator: JUIZ NELSON GOMES DA SILVA.

PROCESSO PENAL. EXAME DE CORPO DE DELITO EM CRIME


DE FALSUM DOCUMENTAL.

- O EXAME DE CORPO DE DELITO E INDISPENSAVEL NOS


CRIMES DE FALSIDADE DOCUMENTAL.

- IMPOSSIBILITADA A REALIZAÇÃO DA PERICIA DIRETA PELO


DESAPARECIMENTO DO DOCUMENTO ORIGINAL, E DE
ADMITIR-SE A PROVA INDIRETA, PARA SUPRIR-LHE A FALTA.

- APELAÇÃO IMPROVIDA (grifado).

Entendo, portanto, devidamente provada a realização da falsificação material


de três documentos públicos: carteira de identidade, cartão de inscrição e folha de
presença (os dois últimos, documentos relativos a um concurso público federal e,
dessa maneira, documentos públicos).

Quanto à autoria das falsificações, analiso em primeiro lugar a posição de


Nelcijone da Costa Monteiro. É inquestionável que dos autos não consta prova
alguma de que Nelcijone tenha – em pessoa – falsificado qualquer um dos três
documentos acima apontados. Ninguém o viu praticando a conduta, nem tampouco
o acusado admitiu.

Contudo, igualmente indiscutível é que o fato globalmente considerado (a


interposição de terceira pessoa em lugar do candidato para a realização das provas
e aprovação no concurso) dependia inexoravelmente da falsificação dos
documentos utilizados e de sua efetiva utilização para o acesso aos exames, sob
pena de se tornar impossível a consumação do delito. A falsidade material de
documento público e o uso de documento falso eram, no caso, meios necessários
para a consumação do propósito delitivo e, portanto, não há como o beneficiário da
fraude negar que tinha conhecimento desses fatos.

A inevitável conclusão a que se chega é que, independentemente de quem


tenha sido seu autor imediato e material, a falsificação e o uso dos documentos
falsos foram praticados a serviço e em benefício de Nelcijone da Costa Monteiro,
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que deles tinha perfeito conhecimento, uma vez que seu objetivo dependia
necessariamente, como antecedente instrumental, desses fatos delituosos. Trata-se,
portanto, de participe dos crimes de falsidade material e uso de documento falso,
devendo por eles responder na medida de sua culpabilidade, a teor do art. 29 do
Código Penal brasileiro.

Quanto a Humberto César Monteiro de Farias, o primeiro dado de relevo é


que, segundo o laudo de exame grafotécnico contido nos autos, ele foi o autor da
assinatura falsificada em nome de Nelcijone, aposta na folha de presença do
concurso para Técnico de Finanças e Controle realizado pela ESAF. Foi, portanto,
autor direto dessa falsidade material.

Quanto aos outros dois documentos, considerando que a assinatura na folha


de presença deveria estar “conforme” às assinaturas contidas na cédula de
identidade e no cartão de inscrição (dada a conferência que faziam os fiscais),
parece-me claro que Humberto César Monteiro de Farias assinou os dois últimos
documentos com o nome de Nelcijone. Trata-se de autor imediato e material da
falsidade, bem como da prática do uso de documento falso.

Mesmo que eu viesse a adotar uma linha bem mais rígida na apreciação da
prova e negasse a constatação da autoria da falsidade do documento de identidade
e do cartão de inscrição por Humberto César Monteiro de Farias, ainda assim teria
de concluir que Humberto César usou efetivamente ambos os documentos falsos
como meio necessário para submeter-se às provas do concurso e lograr a
aprovação de Nelcijone da Costa Monteiro.

Em outras palavras, ainda que não se entenda ser Humberto César o autor
da falsificação dos documentos (CP, art. 297), é indubitável entender-se que foi o
autor, no caso em tela, de um crime de uso dos mesmos documentos falsificados
(CP, art. 304), para cuja prática o Código Penal comina rigorosamente as mesmas
penas do crime de falsificação (crime secundariamente remetido).

De acordo com as provas dos autos e nos termos da fundamentação acima,


contudo, estou plenamente convicto da comprovação da autoria e da materialidade
de três crimes de falsidade material de documento público, fatos descritos no art.
16

297 do Código Penal brasileiro. O uso dos documentos falsos, por aplicação do
princípio da consunção, fica absorvido pela condenação nos crimes de falsidade
material.

Por fim, entendo que, embora hajam sido três os documentos falsificados
por condutas distintas, as falsificações ocorreram numa seqüência interligada
espacial, temporal e teleologicamente, não sendo adequado visualizar um concurso
real de crimes. A distinção entre as condutas através de que se obteve cada uma
das falsificações também impede a configuração de um concurso ideal de crimes.
Por outro lado, a conexão intrínseca entre os fatos afasta o concurso real. Nessa
ordem de idéias, penso que a situação se amolda com perfeição à figura da
continuidade delitiva, nos termos do art. 71 do Código Penal brasileiro.

A questão que agora se coloca é sobre a possibilidade de enquadramento


dos fatos no tipo do art. 171, § 3º, do Código Penal (estelionato), conforme pede o
MPF em sua denúncia e alegações, e contra que se insurgem os acusados em suas
alegações finais.

Penso que o crime de estelionato é crime contra o patrimônio. Desse modo,


a configuração desse crime depende do preenchimento das elementares constantes
do art. 171 do CP, incluindo-se ai o dolo livre e consciente no sentido da obtenção
de uma vantagem patrimonial em prejuízo de terceiro perfeitamente individualizável
e identificável.

O fato narrado na denúncia não é um crime contra o patrimônio. Não se


pode alegar que a intenção de Nelcijone da Costa Monteiro tenha sido obter proveito
patrimonial em detrimento do erário. Nos limites do que nos permitem as provas
constantes dos autos, o lógico é entender que a real intenção de Nelcijone era
trabalhar para o poder público como servidor, recebendo exatamente aquilo que
qualquer servidor em sua posição receberia. Não há, portanto, intenção em obter
vantagem patrimonial em prejuízo (também patrimonial) ao erário.

Por outro lado, não se pode argumentar que o prejuízo teria sido causado ao
candidato preterido pela nomeação de Nelcijone. Primeiro, porque o crime, nesse
caso, não teria sido cometido em prejuízo de entidade de direito público, mas de
17

particular. Em segundo lugar, o referido candidato, antes da nomeação, teria uma


mera expectativa de direito, donde não ser possível enxergar prejuízo patrimonial
efetivo. Finalmente, a vítima do prejuízo no crime de estelionato deve ser
individualizável, o que não ocorre no caso.

A questão já foi por mim examinada em processo crime por fraude em


vestibular praticada através do mesmo modus operandi, ou seja, pela utilização de
pessoa interposta com falsificação de documento e uso de documento falso.
Naquele feito, que tomou o n. 2003.82.00.002880-0, assim me posicionei:

“Quanto à acusação da prática do crime de estelionato contra


entidade de direito público (CP, art. 171, § 3º), entendo que não se
sustenta. Não concordo com a tese de que o estelionato – figura
típica prevista no Título II da Parte Especial do Código Penal e,
portanto, um “crime contra o patrimônio” – prescinde da natureza
econômica da vantagem a ser obtida. O objeto jurídico protegido pela
norma é o patrimônio, de modo que tanto o prejuízo causado quanto
a vantagem objetivada pela conduta devem ter natureza patrimonial,
não se podendo conferir interpretação extensiva ao dispositivo para
proteger objetos jurídicos outros que não o interesse patrimonial do
sujeito lesado.

A consideração que se confere à identificação do objeto jurídico


protegido pela norma penal – o que pode ser feito através do
emprego do método orgânico de interpretação – é tão relevante na
doutrina e jurisprudência brasileiras que não padece de discussão
relevante o entendimento de que a competência para processo e
julgamento do crime de latrocínio não pertence ao tribunal do júri,
mesmo que o resultado morte seja produto de uma conduta dolosa.
Tratando-se de crime contra o patrimônio (também compreendido no
Título II da Parte Especial do CP brasileiro), cabe ao juízo criminal
monocrático seu julgamento.

Além da natureza patrimonial do prejuízo da vítima e da vantagem do


agente, o estelionato exige uma perfeita identificação do sujeito
lesado. Isso afasta a tese de que o estelionato poderia ter sido
praticado contra os candidatos que não teriam logrado classificação
no curso de medicina da UFPB por causa da conduta dos acusados.

Nesse sentido, destaco o seguinte precedente:

Origem: TRF - PRIMEIRA REGIÃO. Classe: HC - HABEAS CORPUS


– 9401012288. Processo: 9401012288 UF: MG Órgão Julgador:
QUARTA TURMA. Data da decisão: 21/3/1994 Documento:
TRF100022881. Relator: JUIZ NELSON GOMES DA SILVA.

CRIMINAL. FALSIFICAÇÃO DE DOCUMENTO PUBLICO E SEU


USO. ARTIGOS 297 E 304, DO CP. ESTELIONATO. VANTAGEM
PATRIMONIAL. FRAUDE EM VESTIBULAR.
18

1. NÃO CONFIGURA CRIME DE ESTELIONATO A FRAUDE DE


VESTIBULAR VISANDO O CANDIDATO APROVAÇÃO NO
CONCURSO, SEM O FITO DE OBTER QUALQUER VANTAGEM
PATRIMONIAL DA UNIVERSIDADE E SEM POSSIBILIDADE DE
CAUSAR PREJUIZO AO PATRIMONIO DO ESTABELECIMENTO
ESCOLAR.

2. TENDO HAVIDO USO DE DOCUMENTO PUBLICO


FALSIFICADO PELO ESTUDANTE (SUA CARTEIRA DE
IDENTIDADE), POR PARTE DE OUTREM, NA FRACASSADA
TENTATIVA DE FRAUDAR VESTIBULAR, É DE SE TIPIFICAR
COMO CRIME DE FALSIFICAÇÃO DO DOCUMENTO PÚBLICO A
CONDUTA DO ESTUDANTE E COMO CRIME DE USO DE
DOCUMENTO FALSO, A DO TERCEIRO.

3. HC DENEGADO.

Apenas para registro, não vejo como se poderia aplicar nesse


momento o art. 383 ou 384 do Código de Processo Penal para
eventual condenação do acusado Francisco Alves Gondim Neto pelo
crime de quadrilha ou bando (CP, art. 288). Embora venha falando
em “grupo” na fundamentação acima, os dois únicos sujeitos cuja
participação foi referenciada como “estável” no esquema foram
Francisco Alves e Paulo (que sequer foi identificado). Daí a
impossibilidade, no presente processo, de cogitar-se de uma
ampliação da causa de pedir para abranger o delito do art. 288 do
CP.

Em conclusão, penso que devam os acusados responder tão


somente pelo crime de falsidade material de documento público, nos
termos do art. 297 do Código Penal brasileiro, em concurso de
agentes, ficando afastada a figura típica do estelionato contra
entidade de direito público (CP, art. 171, § 3º)”.

Pelos motivos expostos, afasto em definitivo o enquadramento dos fatos no


tipo do art. 171, § 3º, do Código Penal brasileiro, visualizando-o como de direito no
art. 297 do Código Penal brasileiro (três vezes), com a aplicação do art. 71 do
mesmo código em razão da continuidade delitiva e do art. 29 em face do concurso
de agentes.

Registro que, não obstante a capitulação legal dada na sentença seja


diversa da contida na denúncia, a situação em questão não comporta aplicação do
artigo 384 do CPP, pois todos os fatos que fundamentam o entendimento aqui
exposto foram adequadamente descritos na denúncia, merecendo alegações em
contrário pelos acusados e a respectiva oportunidade para produção de provas.

Passo à fixação da pena.


19

3. FIXAÇÃO DA PENA

Antes da fixação efetiva das penas, um esclarecimento.

De acordo com a fundamentação acima, demonstrei entender que os


acusados praticaram três crimes de falsidade material de documento público (CP,
art. 297) em continuidade delitiva (CP, art. 71). Não obstante, penso que os três
fatos delitivos são absolutamente similares, apresentando as mesmas
circunstâncias, possuindo estreita relação espacial, temporal e teleológica, de modo
que a aplicação do critério trifásico a cada um deles resultaria em mera repetição de
fundamentos e resultados, representando indesculpável perda de tempo.

Evitando isso, registro aqui que o procedimento a ser adotado consistirá na


aplicação a) do critério trifásico (CP, art. 68) uma única vez, a um dos delitos de
falsidade – devendo-se entender que as mesmas considerações se aplicam
igualmente aos outros dois delitos – e, ao final, b) da norma de exasperação do art.
71 do Código Penal. Na fixação da pena de multa, os mesmos fundamentos (que
são idênticos para os três crimes de falsidade) serão utilizados para a definição da
pena multa, somando-se os resultados (CP, art. 72).

1) Nelcijone da Costa Monteiro

1.1) Pena privativa de liberdade

Examinando as circunstâncias judiciais do art. 59 do CP, vejo que a


culpabilidade do réu, como reprovabilidade pessoal pela conduta, mostrou-se
bastante significativa, tendo em vista o menosprezo demonstrado pelo instrumento
do concurso público e da própria Administração em sua atividade para recrutar
servidores capazes. O réu não apresenta antecedentes criminais1. A conduta social

1
HC 79966 / SP - SÃO PAULO
HABEAS CORPUS
Relator(a): Min. MARCO AURÉLIO
Relator(a) p/ Acórdão: Min. CELSO DE MELLO
Julgamento: 13/06/2000 Órgão Julgador: Segunda Turma
20

e a personalidade do agente não podem ser valoradas contra ele, especialmente, no


último caso, por representar disposição de um autêntico “direito penal do autor”. O
motivo da prática do crime, objetivando fazer a fraude superar o esforço e a
competência na luta por vagas no serviço público, merece maior reprimenda. O
crime não foi praticado em circunstâncias especiais que lhe exasperem o desvalor.
As conseqüências comprovadas da infração justificam aumento de pena, pois o
autor foi nomeado e empossado no cargo de Técnico de Finanças e Controle,
ludibriando a Administração e impedindo que candidatos realmente capazes
viessem a ocupar a posição que obteve de forma flagrantemente ilícita. Por fim, a
vítima não colaborou para a ocorrência do crime.

Atento a essas circunstâncias e aos limites abstratos do art. 297 do CP, fixo
a pena-base em 4 (quatro) anos de reclusão.

Não encontrei circunstâncias agravantes (CP, arts. 61 e 62) ou atenuantes


(CP, arts. 65 e 66), nem tampouco causas especiais de aumento ou diminuição da
reprimenda. Assim, fixo a pena privativa de liberdade em 4 (quatro) anos de
reclusão, para cumprimento em regime inicial aberto (CP, art. 33, § 2º, “c”).

Considerando ainda que foram praticados 3 (três) delitos de falsidade,


absolutamente similares, em continuidade delitiva, aplico ao resultado acima a
correspondente causa de exasperação da pena (CP, art. 71) e, como conseqüência,
aumento a pena em 1/6 (um sexto), fixando-a definitivamente em 4 (quatro) anos e 8

Publicação
DJ 29-08-2003 PP-00034 EMENT VOL-02121-15 PP-03023
PACTE. : INAIÁ MARIA VILELA DE LIMA
PACTE. : WALTER VILLELA PINTO
IMPTE. : ALFREDO DE ALMEIDA
COATOR : SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA

E M E N T A: HABEAS CORPUS - INJUSTIFICADA EXACERBAÇÃO DA PENA COM BASE NA


MERA EXISTÊNCIA DE INQUÉRITOS OU DE PROCESSOS PENAIS AINDA EM CURSO -
AUSÊNCIA DE CONDENAÇÃO PENAL IRRECORRÍVEL - PRINCÍPIO CONSTITUCIONAL DA NÃO-
CULPABILIDADE (CF, ART. 5º, LVII) - PEDIDO DEFERIDO, EM PARTE. - O princípio constitucional
da não-culpabilidade, inscrito no art. 5º, LVII, da Carta Política não permite que se formule, contra o
réu, juízo negativo de maus antecedentes, fundado na mera instauração de inquéritos policiais em
andamento, ou na existência de processos penais em curso, ou, até mesmo, na ocorrência de
condenações criminais ainda sujeitas a recurso, revelando-se arbitrária a exacerbação da pena,
quando apoiada em situações processuais indefinidas, pois somente títulos penais condenatórios,
revestidos da autoridade da coisa julgada, podem legitimar tratamento jurídico desfavorável ao
sentenciado. Doutrina. Precedentes.
21

(oito) meses de reclusão, para cumprimento em regime inicial semi-aberto (CP, art.
33, § 2º, “b”).

1.2) Pena de multa

Considerando o resultado da valoração já realizada sobre as circunstâncias


judiciais do artigo 59 do CP, e atento aos limites previstos nos artigos 49 e 69 do CP,
fixo a pena de multa em 200 (duzentos) dias-multa.

Da mesma forma, considerando as provas contidas nos autos sobre a


situação econômica do réu, fixo o valor do dia-multa em 1/15 (um quinze avos) do
salário mínimo vigente na data do fato.

Finalmente, aplicando a causa de exasperação do art. 71 (crime continuado)


e 72 (pena de multa no concurso de crimes), considerando que foram 3 (três) os
delitos praticados, torno definitiva a pena de multa em 600 (seiscentos dias-multa),
fixado o dia-multa em 1/15 (um quinze avos) do salário mínimo vigente na data do
fato (22/03/1993), devidamente atualizado.

1.3) Substituição e suspensão condicional da pena privativa de liberdade

Resultando da exasperação decorrente da aplicação das regras sobre


continuidade delitiva (CP, art. 71) pena final concreta superior a quatro anos de
privação da liberdade, ficam obstadas a substituição (CP, art. 44, I) e a suspensão
condicional da pena (CP, art. 77) pela ausência de requisito objetivo. Por esse
motivo, nego ao acusado a substituição das penas privativas de liberdade por
restritivas de direito, bem como sua suspensão condicional.

Vale destacar que, respeitados os entendimentos em sentido contrário, o


exame dos requisitos de substituição e suspensão condicional em relação a cada
uma das penas poderia levar o julgador a resultados absurdos, bastando
imaginarmos uma situação em que determinado agente tenha praticado quarenta
crimes de falsidade em continuidade delitiva. A dispensa do acréscimo do art. 71
imporia um exame individual de crime por crime, donde resultaria a necessidade de
aplicação de oitenta penas restritivas de direito (duas para cada crime) ou mesmo
22

quarenta penas restritivas e quarenta penas de multa (uma restritiva e uma de multa
para cada crime).

A inviabilidade do cumprimento dessas oitenta ou quarenta (conforme o


caso) penas restritivas de direito seria inevitável, considerando ser bastante difícil
(impossível, penso eu) imaginar uma situação em que todas essas penas restritivas
pudessem ser cumpridas simultaneamente.

Por esse motivo, penso que a tese no sentido de que o exame deve ser feito
desconsiderando-se a continuidade delitiva leva a situações absurdas, que devem
ser evitadas pelo julgador na interpretação e na aplicação do direito.

2) Humberto César Monteiro de Farias

2.1) Pena privativa de liberdade

Examinando as circunstâncias judiciais do art. 59 do CP, vejo que a


culpabilidade do réu, como reprovabilidade pessoal pela conduta, mostrou-se
bastante significativa, tendo em vista o menosprezo demonstrado pelo instrumento
do concurso público e da própria Administração em sua atividade para recrutar
servidores capazes. O réu não apresenta antecedentes criminais2. A conduta social
e a personalidade do agente não podem ser valoradas contra ele, especialmente, no

2
HC 79966 / SP - SÃO PAULO
HABEAS CORPUS
Relator(a): Min. MARCO AURÉLIO
Relator(a) p/ Acórdão: Min. CELSO DE MELLO
Julgamento: 13/06/2000 Órgão Julgador: Segunda Turma
Publicação
DJ 29-08-2003 PP-00034 EMENT VOL-02121-15 PP-03023
PACTE. : INAIÁ MARIA VILELA DE LIMA
PACTE. : WALTER VILLELA PINTO
IMPTE. : ALFREDO DE ALMEIDA
COATOR : SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA

E M E N T A: HABEAS CORPUS - INJUSTIFICADA EXACERBAÇÃO DA PENA COM BASE NA


MERA EXISTÊNCIA DE INQUÉRITOS OU DE PROCESSOS PENAIS AINDA EM CURSO -
AUSÊNCIA DE CONDENAÇÃO PENAL IRRECORRÍVEL - PRINCÍPIO CONSTITUCIONAL DA NÃO-
CULPABILIDADE (CF, ART. 5º, LVII) - PEDIDO DEFERIDO, EM PARTE. - O princípio constitucional
da não-culpabilidade, inscrito no art. 5º, LVII, da Carta Política não permite que se formule, contra o
réu, juízo negativo de maus antecedentes, fundado na mera instauração de inquéritos policiais em
andamento, ou na existência de processos penais em curso, ou, até mesmo, na ocorrência de
condenações criminais ainda sujeitas a recurso, revelando-se arbitrária a exacerbação da pena,
quando apoiada em situações processuais indefinidas, pois somente títulos penais condenatórios,
revestidos da autoridade da coisa julgada, podem legitimar tratamento jurídico desfavorável ao
sentenciado. Doutrina. Precedentes.
23

último caso, por representar disposição de um autêntico “direito penal do autor”. O


motivo da prática do crime, objetivando fazer a fraude superar o esforço e a
competência na luta por vagas no serviço público, merece maior reprimenda. O
crime não foi praticado em circunstâncias especiais que lhe exasperem o desvalor.
As conseqüências comprovadas da infração justificam aumento de pena, pois o
acusado Nelcijone, em razão da conduta do autor (Humberto César) foi nomeado e
empossado no cargo de Técnico de Finanças e Controle, ludibriando a
Administração e impedindo que candidatos realmente capazes viessem a ocupar a
posição que obteve de forma flagrantemente ilícita. Por fim, a vítima não colaborou
para a ocorrência do crime.

Atento a essas circunstâncias e aos limites abstratos do art. 297 do CP, fixo
a pena-base em 4 (quatro) anos de reclusão.

Não encontrei circunstâncias agravantes (CP, arts. 61 e 62) ou atenuantes


(CP, arts. 65 e 66), nem tampouco causas especiais de aumento ou diminuição da
reprimenda. Assim, fixo a pena privativa de liberdade em 4 (quatro) anos de
reclusão, para cumprimento em regime inicial aberto (CP, art. 33, § 2º, “c”).

Considerando ainda que foram praticados 3 (três) delitos de falsidade,


absolutamente similares, em continuidade delitiva, aplico ao resultado acima a
correspondente causa de exasperação da pena (CP, art. 71) e, como conseqüência,
aumento a pena em 1/6 (um sexto), fixando-a definitivamente em 4 (quatro) anos e 8
(oito) meses de reclusão, para cumprimento em regime inicial semi-aberto (CP, art.
33, § 2º, “b”).

2.2) Pena de multa

Considerando o resultado da valoração já realizada sobre as circunstâncias


judiciais do artigo 59 do CP, e atento aos limites previstos nos artigos 49 e 69 do CP,
fixo a pena de multa em 200 (duzentos) dias-multa.

Da mesma forma, considerando as provas contidas nos autos sobre a


situação econômica do réu, fixo o valor do dia-multa em 1/15 (um quinze avos) do
salário mínimo vigente na data do fato.
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Finalmente, aplicando a causa de exasperação do art. 71 (crime continuado)


e 72 (pena de multa no concurso de crimes), considerando que foram 3 (três) os
delitos praticados, torno definitiva a pena de multa em 600 (seiscentos dias-multa),
fixado o dia-multa em 1/15 (um quinze avos) do salário mínimo vigente na data do
fato (22/03/1993), devidamente atualizado.

2.3) Substituição da pena privativa de liberdade e suspensão condicional da


pena

Resultando da exasperação decorrente da aplicação das regras sobre


continuidade delitiva (CP, art. 71) pena final concreta superior a quatro anos de
privação da liberdade, ficam obstadas a substituição (CP, art. 44, I) e a suspensão
condicional da pena (CP, art. 77) pela ausência de requisito objetivo. Por esse
motivo, nego ao acusado a substituição das penas privativas de liberdade por
restritivas de direito, bem como sua suspensão condicional.

Vale destacar que, respeitados os entendimentos em sentido contrário, o


exame dos requisitos de substituição e suspensão condicional em relação a cada
uma das penas poderia levar o julgador a resultados absurdos, bastando
imaginarmos uma situação em que determinado agente tenha praticado quarenta
crimes de falsidade em continuidade delitiva. A dispensa do acréscimo do art. 71
imporia um exame individual de crime por crime, donde resultaria a necessidade de
aplicação de oitenta penas restritivas de direito (duas para cada crime) ou mesmo
quarenta penas restritivas e quarenta penas de multa (uma restritiva e uma de multa
para cada crime).

A inviabilidade do cumprimento dessas oitenta ou quarenta (conforme o


caso) penas restritivas de direito seria inevitável, considerando ser bastante difícil
(impossível, penso eu) imaginar uma situação em que todas essas penas restritivas
pudessem ser cumpridas simultaneamente.

Por esse motivo, penso que a tese no sentido de que o exame deve ser feito
desconsiderando-se a continuidade delitiva leva a situações absurdas, que devem
ser evitadas pelo julgador na interpretação e na aplicação do direito.
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4. DISPOSITIVO

Diante do exposto, com fundamento no art. 383 c/c os arts. 387 e seguintes
do CPP, julgo PROCEDENTE a denúncia e CONDENO Nelcijone da Costa
Monteiro e Humberto César Monteiro de Farias como incursos no art. 297 (três
vezes) c/c os arts. 29 e 71, todos do Código Penal, aplicando-lhes, a cada um:

a) Uma pena privativa de liberdade de 4 (quatro) anos e 8 (oito) meses de


reclusão, para cumprimento em regime inicial semi-aberto;

b) Uma pena de multa de 600 (seiscentos) dias-multa, fixado o dia-multa em


1/15 (um quinze avos) do salário mínimo vigente na data do fato (22/03/1993),
devidamente atualizado.

Em relação ao acusado Nelcijone da Costa Monteiro, considerando que


lhe foi aplicada uma pena privativa de liberdade consolidada superior a quatro anos,
DECRETO-LHE A PERDA DO CARGO de Técnico de Finanças e Controle junto ao
Ministério da Fazenda (art. 92, I, “b”, do Código Penal).

Ausentes, em razão da pena privativa de liberdade aplicada, os requisitos


objetivos dos artigos 44, I, e 77, caput, do CP, DEIXO DE CONCEDER aos
acusados a substituição das penas privativas de liberdade por restritivas de direito,
bem como a suspensão condicional das penas.

Considerando que os acusado são primários, não possuem antecedentes


criminais e que responderam ao processo em liberdade, CONCEDO-LHES o direito
de apelar em liberdade (CPP, art. 594).

TRANSITADA EM JULGADO A PRESENTE SENTENÇA, expeçam-se e


cumpram-se os respectivos mandados de prisão para cumprimento das penas
privativas de liberdade, expedindo-se as competentes guias de recolhimento;
inscrevam-se os nomes dos réus no rol dos culpados; preencham-se e encaminhem-
se ao IBGE os respectivos boletins individuais; oficie-se ao TRE/PB para os fins do
art. 15, III, da CF; oficie-se à autoridade competente para cumprimento da pena de
26

perda do cargo em relação a Nelcijone da Costa Monteiro; e remetam-se os autos


ao juízo da execução penal para o cumprimento das penas.

Custas ex lege.

Sentença publicada em mãos do escrivão. Registre-se no sistema


informatizado. Intimem-se pessoalmente os acusados e seus defensores.
Cientifique-se o Ministério Público Federal.

João Pessoa,

ROGÉRIO ROBERTO GONÇALVES DE ABREU

Juiz Federal Substituto da 2ª VF – SJPB