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DA AÇÃO PENAL CONCEITO.

Ação penal é o direito de pedir ao Estado-Juiz a aplicação do direito penal objetivo a um caso concreto. CARACTERÍSTICAS: a) É um direito autônomo, que não se confunde com o direito material que se pretende tutelar;

b) É um direito abstrato, que independe do resultado final do processo; c) É um direito subjetivo, porque o titular pode exigir do Estado-Juiz a prestação jurisdicional;

d) É um direito público, porque a atividade jurisdicional que se pretende provocar é de natureza pública. ESPECIES DE AÇÃO PENAL. Ao lado da tradicional classificação quanto ao provimento jurisdicional invocado (de conhecimento, cautelar e de execução), no processo penal é corrente a divisão subjetiva das ações, isto é, em função da qualidade do sujeito que detém a titularidade. Segundo esse critério as ações serão públicas ou privadas, conforme sejam promovidas pelo Ministério Público ou pela vítima ou seu representante legal, respectivamente. É o que diz o art. 100, caput do CP, onde se afirma que “a ação penal é pública, salvo quando a lei, expressamente, a declare privativa do ofendido”. INÍCIO DA AÇÃO PENAL. A ação penal somente tem início efetivo quando o Juiz recebe a denuncia ou a queixa, ou seja, quando o magistrado admite a existência de autoria e materialidade de uma infração penal e, assim, determina a citação do acusado para que este seja interrogado e produza sua defesa. DA AÇÃO PÚBLICA. A ação pública, nos termos do art. 129, I, da CF é de exclusividade do Ministério Público, composto por Promotores e procuradores de justiça. Na ação pública vigora o princípio da obrigatoriedade, ou seja, havendo indícios suficientes, surge para o Ministério Público o dever de propor a ação. A peça processual que dá inicio à ação pública é a denuncia. A ação pública pode ser: INCONDICIONADA. É a regra no direito penal. O oferecimento da denúncia independe de qualquer condição específica. No silencio da lei, o crime será de ação pública incondicionada (art. 100, caput). CONDICIONADA. Quando o oferecimento da denuncia depende de prévia existência de alguma condição. Pode ser: Condicionada à representação da vítima ou de seu representante legal; Requisição do Ministro da Justiça. Normalmente nos crimes contra a honra praticados contra o Presidente da República ou chefe de governo estrangeiro (art. 145, parágrafo único, 1ª parte) ou contra brasileiros fora do Brasil (art. 7º, §3º).

A titularidade da ação continua a ser do Ministério Público, mas este somente poderá oferecer a denúncia se estiver presente a representação ou a requisição que constituem, em verdade, autorização para o início da ação. Em face disso, a representação e a requisição do Ministro da Justiça têm natureza jurídica de condição de procedibilidade.

A existência da representação ou requisição não vinculam o Ministério Público, que goza de independência funcional e, assim, poderá deixar de oferecer a denuncia, promovendo o arquivamento do Inquérito Policial – IPL. Em conformidade com o art. 102 do CP, a representação será irretratável após o oferecimento da denúncia. Assim, antes de ser oferecida a denúncia a vítima pode oferecer a representação e se retratar, bem como pode oferece-la novamente, desde que dentro do prazo decadencial. Já no tocante à requisição do Ministro da Justiça, ante a ausência de disposição legal, entende-se que a requisição é irretratável. Para se saber quando um crime é de ação pública condicionada basta verificar o tipo penal, pois a lei dispõe que “somente se procede mediante representação” ou “somente se procede mediante requisição do Ministro da Justiça”. O OFENDIDO NA AÇÃO PÚBLICA. Tratando-se de ação pública incondicionada, basta ao ofendido oferecer a notitia criminis simples, oralmente ou por escrito. Tratando-se de ação pública condicionada, a notitia criminis postulatória. Neste caso, a comunicação oral deve ser sempre reduzida a termo. A vítima pode intervir como assistente da acusação, enquanto não passar em julgado a sentença e receberá a causa no estado em que se achar. Trata-se de um reforço na ação pública, tendo o direito de propor meios de provas, interrogar as testemunhas, aditar o libelo, participar dos debates, recorrer e arrazoar seus recursos e os do Ministério Público. Apesar de alguma controvérsia, a maior parte da doutrina entende que o interesse do assistente é meramente a condenação para surtir efeitos na esfera cível. Assim, ele não teria interesse em recorrer em caso de condenação para aumentar a pena. O prazo para o assistente recorrer começa a correr imediatamente após o transcurso do prazo para o Ministério Público. DA AÇÃO PENAL PRIVADA. A ação penal privada é de iniciativa do ofendido ou, quando menor ou incapaz, de seu representante legal. Determinados fatos atingem a intimidade das vítimas e o legislador entendeu por bem, nestes casos, deixar a critério dos ofendidos o início da ação penal. Não ação privada, portanto, vigora o principio da oportunidade ou conveniência. Assim, ainda que existam provas cabais de autoria e materialidade, pode a vítima optar por não ingressar com a ação penal, para evitar que aspectos e sua intimidade venham à tona em juízo. A peça inicial da ação privada é a queixa-crime, que não se confunde com a notitia criminis realizada na polícia e vulgarmente conhecida como “queixa”. A ação pública pode ser oferecida até que ocorra a prescrição do crime. A ação privada tem outro tratamento. É que em virtude da decadência, a queixa-crime somente será admitida dentro do prazo de seis meses, contados do dia em que o ofendido veio a saber quem é o autor do crime, ou, no caso de ação subsidiária, do dia em que se esgota o prazo para o oferecimento da denuncia (art. 103). Em regra o prazo de decadência é de 6 meses, mas admite exceções, como por exemplo o adultério, cuja prazo decadencial é de 1 mês. A ação penal privada subdivide-se em: AÇÃO PRIVADA EXCLUSIVA (art. 100, §2º do CP). A iniciativa incumbe à vítima ou a seu representante legal. Nestes casos o legislador dispõe expressamente no tipo penal em apuração que tal infração “somente se procede mediante queixa”.

Em caso de morte do ofendido antes do inicio da ação, esta poderá ser intentada, dentro do prazo decadencial de 6 meses, por seu cônjuge, ascendente, descendente ou irmão (art. 100, §4º). Se a morte ocorre após o início da ação penal, poderá também haver tal substituição, mas dentro do prazo de 60 dias, fixado no art. 60, inciso II, do Código de Processo Penal – CPP. AÇÃO PRIVADA PERSONALÍSSIMA. A ação somente pode ser intentada pela vítima e, em caso de falecimento antes ou depois do início da ação, não poderá haver substituição para a sua propositura ou prosseguimento. É o caso do crime de adultério, em que o art. 240, §2º, estabelece que a ação penal somente pode ser intentada pelo cônjuge ofendido. Dessa forma, a morte do ofendido implica extinção da punibilidade dos autores do crime, uma vez que não será possível a substituição no pólo ativo. AÇÃO PRIVADA SUBSIDIÁRIA DA PÚBLICA. O Ministério Público, ao receber o IPL que apura crime de ação pública (condicionada ou incondicionada) possui prazo de 5 dias para oferecer a denúncia, se o indiciado está preso, e de 15 dias, se está solto. Findo esse prazo, sem que o Ministério Público tenha-se manifestado, surge para o ofendido o direito de oferecer queixa subsidiária em substituição à denúncia não apresentada pelo titular da ação. O direito de apresentar essa queixa subsidiária inicia-se com o término do prazo do Ministério Público e estende-se pelos 6 meses seguintes. Como o prazo do Ministério Público é impróprio, poderá também o promotor oferecer a denúncia dentro desses 6 meses (caso a vítima não tenha ainda apresentado a queixa substitutiva) e até mesmo após tal período, desde que não tenha havido prescrição. Deve-se observar, entretanto, que a ação supletiva só tem lugar diante da inércia do Ministério Público. Ou seja, quando no prazo que lhe é concedido para oferecer a denúncia o Promotor não a apresenta, não requer diligencia, nem pede o arquivamento. Entretanto, se o Promotor faz qualquer destas manifestações, descabe a propositura da ação subsidiária. AÇÃO PENAL NOS CRIMES COMPLEXOS. Crime complexo é aquele cujo tipo é constituído pela fusão de dois ou mais tipos penais ou aquele em que um tipo funciona como qualificadora do outro. O roubo é um crime complexo, pois surge da fusão do furto com a ameaça. O latrocínio é um crime complexo, pois se caracteriza pelo fato de uma morte (homicídio) caracterizar-se como qualificadora do roubo. Assim, pode ocorrer de um dos crimes componentes da unidade complexa ser de ação pública e outro de ação privada. Nesse caso, conforme dispõe o art. 101, o crime complexo será de ação pública. Exemplos. Injúria real (art. 140, §2º): se com a prática da injúria real a vítima sofre lesões, ainda que leves, esse crime será apurado mediante ação pública. O crime de estupro (art. 213) é de ação privada. Se do fato resulta lesão grave ou morte, surge o crime complexo chamado estupro qualificado (art. 223). Como o homicídio é de ação pública, o estupro qualificado pela morte também se apura mediante ação pública. A súmula 608 do STJ estabelece que o estupro cometido mediante violência real (violência física) é crime complexo e, por isso, apura-se mediante ação pública, uma vez que as vias de fato e as lesões, elementos componentes dessa figura delituosa, são infrações penais apuráveis justamente mediante ação pública.

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OBSERVAÇÕES: Normalmente se conhece a titularidade da ação analisando os tipos penais específicos. Entretanto, alguns tipos penais não dispõe no próprio tipo sobre a forma de processamento, dando a impressão de que seria ação penal

pública incondicionada. Entretanto, as regras para o processamento estão no final do capítulo, em dispositivo específico para regulamentar todos os dispositivos constantes naquele capítulo. É o caso dos crimes de calúnia, difamação e injúria (arts. 138, 139 e 140). Os tipos penais nada mencionam sobre a ação penal, mas no art. 145 há várias regras regulamentando o tema (ação privada como regra e, como exceção, ação pública). No crime de estupro a lei nada menciona acerca do tipo de ação, mas no art. 225, constam vários dispositivos sobre o tema, sendo que, em regra, o estupro se apura mediante ação privada. Nos crimes de lesões corporais dolosas leves (art. 129 caput) e lesões corporais culposas (art. 129, §6º) a ação penal passou a ser pública condicionada à representação, em razão do disposto no art. 88 da Lei n. 9.099/95, não havendo, entretanto, qualquer menção no CP. CONCURSO DE CRIMES O concurso formal ou material de crimes conexos de ação penal pública e privada, pode ser resolvido processualmente pelo litisconsórcio entre o Promotor e o ofendido. RENÚNCIA. É a manifestação de desinteresse de exercer o direito de queixa, que só pode ocorrer nos crimes de ação penal de exclusiva iniciativa privada e antes dela ser iniciada. Após o recebimento da queixa pelo Juiz, impossível renunciar, admitindo-se somente o perdão do ofendido (ar. 105), que é um instituto afim. Assim, após iniciada a ação privada não é cabível a renúncia, mas pode ser obstada pelo perdão ou pela perempção, quando o ofendido deixa de tomar uma providencia exigida processualmente.