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Ciência Versus Alternativismo

As Fronteiras entre a Medicina Alternativa e a Tradicional
É cada vez mais difícil entender a especialidade de um médico. Clínico-geral homeopata?
Fisiologista ortomolecular? Psiquiatra antroposófico? s fronteiras entre medicina tradicional e
alternativa parecem cada vez mais o!scuras. "uem procura tratamento deve# em primeiro lugar#
entender que só é considerado médico o su$eito com diploma universit%rio e registro no Conselho
&egional de 'edicina. (s chamados terapeutas holísticos# de Florais de )ach# de íris# t*m# quase
sempre# outro tipo de forma+,o. -.,o fazemos parte da medicina e nem queremos. .,o
su!stituímos outros tratamentos. s pessoas t*m médico e psicoterapeuta# por que n,o ter médico e
terapeuta holístico? /,o complementares-# diz 0uiz nt1nio /ilva de Freitas# e2-presidente do
3epartamento de 4omeopatia da ssocia+,o Paulista de 'edicina. ( segundo passo é entender
quem é quem na grande categoria dos médicos.
Profissionais formados nas mesmas universidades discordam em quest5es !%sicas e muitas vezes#
trocam acusa+5es. alopatia 6medicina tradicional7 a!arca 89 especialidades reconhecidas pelo
Conselho Federal de 'edicina 6CF'7: urologia# neurologia# ginecologia# pediatria# entre outras.
lém dessas# apenas as alternativas homeopatia e acupuntura t*m o aval do CF'. -.,o estamos
estudando pretendentes# e sim reavaliando o que $% e2iste-# e2plica ;dson de (liveira ndrade#
presidente do conselho. -Para aceitar uma nova especialidade# n,o vemos só as pesquisas.
;studamos como vai ser a forma+,o de profissionais# a sua organiza+,o# se ela n,o contempla algo
$% situado em outra especialidade# a %rea de atua+,o-# completa ndrade. 'as n,o !asta se guiar
pelas normas do CF'. pesar de ser reconhecida pelo conselho# a homeopatia# por e2emplo# n,o é
considerada científica por muitos médicos. ; v%rios deles# diplomados# usam técnicas n,o-
reconhecidas 6ortomolecular# antroposófica etc.7 porque acusam a comunidade científica de ser
fechada.
( médico alem,o /amuel 4ahnemann desenvolveu a homeopatia em <=>8. (s homeopatas
afirmam tratar os doentes e n,o as doen+as. medicina antroposóficado# do grego %nthropos
6homem7 ? sophía 6sa!edoria7# foi criada em <>@A pelo filósofo austríaco &udolf /teiner e
considera o homem como constituído de uma parte física# uma parte vital# outra emocional e um
cerne espiritual. acupuntura# do latim acus 6agulha7 ? punctum 6picada7# foi criada pelos chineses
em torno de <AAA a.C. e consiste em estimular pontos específicos do corpo com agulhas# laser ou
ím,s# para aliviar dores# como en2aqueca e artrite. maioria das a!ordagens alternativas est,o
!aseadas no vitalismo# o conceito de que as fun+5es corporais e2istem devido a um princípio vital
ou for+a da vida distinta das for+as físicas e2plic%veis pelas leis da física e da química e detect%veis
pela instrumenta+,o científica. (s praticantes cu$os métodos s,o !aseados na filosofia vitalista
sustentam que as doen+as deveriam ser tratadas pela -estimula+,o da ha!ilidade do corpo para curar
a si mesmo- ao invés de -tratar os sintomas-. (s homeopatas# por e2emplo# e2plicam que as
doen+as acontecem devido a um distBr!io da -for+a vital- do corpo# ao passo que os acupunturistas
dizem que a doen+a é devido ao desequilí!rio no flu2o da -energia vital- 6chi ou "i7. .o entanto# as
energias postuladas pelos vitalistas n,o podem ser mensuradas pelos métodos científicos.
lopatiado grego %llos 6outro7 ? p%thos 6doen+a7: é a medicina tradicional# um sistema terap*utico
que consiste em tratar as doen+as por meios contr%rios a elas# procurando conhecer suas causas e
com!at*-las. (s procedimentos# diagnósticos e medicamentos alop%ticos s,o em geral resultado de
estudos científicos. ( método científico é o con$unto de ferramentas para ponderar e investigar o
mundo natural. (s cientistas fazem hipóteses so!re como o mundo funciona e ent,o conduzem
e2peri*ncias para test%-las. Para serem test%veis# as hipóteses devem ser passíveis de refuta+,o.
comunidade científica procura testar a validade das idéias so!re a natureza e o tratamento das
doen+as. (s $ulgamentos s,o fundamentados no método científico. .os Bltimos <CA anos# a maioria
dos avan+os na medicina# e em todas as outras ci*ncias# tem resultado do seu uso. 3esta forma# para
a maioria dos cientistas# a medicina alternativa e todas as suas pr%ticas# s,o altamente question%veis.
Ou é medicina ou não é
3r. Paulo Far!er# acupunturista e autor do livro - 'edicina do /éculo DDE - Fso con$unto da
'edicina (cidental e da (riental-# diz que n,o e2iste medicina alternativa. -É um a!surdo. (u é
medicina ou n,o é. ( que e2istem s,o técnicas complementares de tratamento# !aseadas em teorias
diferentes da medicina GoficialG# mas que# cientificamente comprovadas# devem ent,o fazer parte da
medicina. acupuntura é uma técnica milenar da medicina tradicional chinesa# atualmente muito
aceita no nosso meio. Prova disso é que é reconhecida ;specialidade 'édica pelo Conselho Federal
de 'edicina e entre outras coisas# é matéria da Hradua+,o da Faculdade de 'edicina da F/P. .o
entanto# é uma técnica que funciona melhor se aplicada em con$unto com a medicina ocidental-.
;m artigo recente# o presidente do .ational Council gainst 4ealth Fraud# órg,o de saBde do
governo americano# Iilliam J. Karvis# Ph.3.# apontou: -lgumas técnicas referidas como
alternativas podem ser apropriadamente usadas como parte da arte da assist*ncia ao paciente.
Jécnicas de rela2amento e massagens s,o e2emplos. 'as procedimentos ligados a sistemas de
cren+as que re$eitam a própria ci*ncia n,o tem lugar na medicina respons%vel. Procedimentos
inBteis n,o adicionam nada ao resultado# apenas Ls despesas.-
Efeito placebo
.a década de <>CA# cientistas desco!riram que apro2imadamente um em cada tr*s pacientes se
sentia melhor mesmo quando rece!ia uma su!stMncia inerte farmacologicamente tal como um
comprimido de a+Bcar. Esto foi chamado de -efeito place!o-. (u se$a# a maneira que perce!emos as
e2peri*ncias de nosso corpo pode ser alterada por nosso estado de espírito e nossas cren+as. (
nBmero de pessoas que respondem aos place!os pode ser ainda maior# especialmente se o paciente
ou o médico que est% dando o tratamento fervorosamente acreditam que ele funcionar%. ;ste é o
motivo pelo qual a comunidade científica utiliza o método chamado duplo-cego# durante o estudo
da efic%cia de um remédio. .este procedimento# um grupo de pacientes rece!e o medicamento#
enquanto o outro ganha place!o 6pílulas feitas de %gua e farinha7. Para garantir a imparcialidade do
procedimento# pacientes e médicos n,o sa!em quem rece!e o remédio. .este sentido# para a
comunidade científica# os testemunhos podem ser um !om ponto de partida para come+ar a procurar
por respostas# mas n,o deveriam ser considerados o fim da $ornada.
Homeopatia em debate
Fica evidente a falta de consenso entre médicos alternativos e tradicionais. Esaias &aN# professor
emérito da Faculdade de 'edicina da F/P e presidente da Funda+,o )utantan# faz quest,o de frisar
que a homeopatia n,o tem comprova+,o científica e que sua a+,o n,o pode ser e2plicada a partir
dos princípios da !ioquímica. Por outro lado# 0uiz nt1nio /ilva de Freitas# e2-presidente do
3epartamento de 4omeopatia da ssocia+,o Paulista de 'edicina# diz que a homeopatia é
comprovada na pr%tica# na cura de pacientes ao longo dos Bltimos @AA anos. !ase da teoria
homeop%tica é o princípio da semelhan+a. Para desenvolver um remédio homeop%tico para gastrite#
por e2emplo# s,o testadas su!stMncias em pessoas sadias até que uma delas provoque a irrita+,o no
est1mago. ;ssa su!stMncia ser% ent,o !astante diluída em %gua e %lcool# até dar origem a um
remédio que acirre os sintomas e fa+a o corpo com!ater o mal.
Para &aN# a solu+,o homeop%tica# é apenas %gua# com mais ou menos poeira. -.,o é possível fazer
pesquisa científica sem uma metodologia cuidadosamente documentada. É preciso fazer teste com
duplo cego# escrever os resultados# su!meter a uma revista internacional# retestar em outro lugar#
por outro pesquisador. Fora disso# é GpalpitometriaG. homeopatia n,o tem nenhuma !ase científica.
;les acreditam que um remédio pode produzir os mesmos efeitos que a doen+a e assim curar o
paciente. (s remédios homeop%ticos s,o t,o diluídos que viram %gua. "ual a lógica de um
medicamento que# quanto menos voc* d%# mais eficaz ele fica? É %gua# com mais ou menos poeira#
mais ou menos me2ida-# completa.
.o entanto# 0uiz Freitas afirma que a homeopatia pode n,o ter su!stMncias químicas# mas funciona.
-;u tam!ém acredito naquilo que é demonstr%vel# comprov%vel# mas tra!alho com resultados# n,o
com teorias. 0amento que a medicina se$a vista apenas como !ioquímica. /e tudo tem que ser feito
a partir do duplo cego# eu acho que a gente corre um risco muito grande de estar pró2imo a uma
ditadura científica# muito mais do que a uma a!ertura. É preciso que a gente tente outras formas-.
Para Freitas# os conhecimentos homeop%ticos vieram para somar# n,o é um conhecimento contra
outro. (u se$a# e2iste uma complementaridade entre alopatia e homeopatia. medicina
antroposófica# que se preocupa com o ser humano como um todo# n,o tem o menor pro!lema em
usar alopatia# homeopatia e tam!ém fitoterapia. -É preciso apresentar essas op+5es ao paciente. 'as
doen+as agudas requerem interven+,o química. /e chegar um su$eito com OC# n,o vou ficar
contemporizando# uso um corticóide. 'as o que n,o se fala é da capacidade da indBstria
farmac*utica em inventar sintomas# doen+as# para vender mais remédio-# ressalta.
;m meio a tanta pol*mica# Pedro Paulo &oque 'onteleone# presidente do Conselho &egional de
'edicina de /,o Paulo# opina: -Concordo que h% um e2cesso de medicamenta+,o. ( indivíduo est%
com fe!re# o médico d% dipirona ou um %cido acetilsalicílico. Provavelmente os que nada tomaram
tam!ém a!ai2aram a temperatura. coisa mais difícil para o médico é sa!er se o indivíduo
melhorou por causa do remédio# se melhoraria mesmo que n,o tivesse o remédio ou até se
melhorou apesar do remédio. ;sse é um fato-.
Liberdade de escola ! Escola respons"vel
.o centro do fogo cruzado# a grande dBvida fica para os pacientes: -( que me a$udar%?- ;ntretanto#
médicos# legisladores e a sociedade tem enfoques um tanto diferentes. quest,o mais difícil é quem
deveria pagar por tratamentos n,o comprovados? "uais s,o os limites daquilo que deveria ser
co!erto por seguros ou interven+,o do governo? ( ser humano é misterioso e a !iologia é
provavelmente uma das ci*ncias mais comple2as. 3ependemos de pessoas com anos de treinamento
e e2peri*ncia para nos aconselhar em %reas nas quais n,o temos o tempo# meios# educa+,o para
tomar uma decis,o verdadeiramente racional e informada. .este sentido# 'onteleone alerta:
-Hostaria de chamar a aten+,o da sociedade para que# antes de procurar terap*uticas muitas vezes
mais simples ou menos agressivas# ela se informe !em em que %rea est% pisando# porque#
infelizmente# ho$e est,o se vendendo inBmeros medicamentos# inBmeras terapias que n,o t*m
qualquer fundamenta+,o científica# melhoram os sintomas como estes melhorariam sem o uso de
qualquer medica+,oP e em outras situa+5es muitas vezes retardam o tratamento eficaz de uma
doen+a mais grave. É preciso revitalizar a medicina de consultório# a anamnese# o e2ame clínico#
em vez de tantos la!oratoriais# e pouca terap*utica. ;sse é o futuro# e n,o a alta tecnologia. 'as
para fazer diagnóstico com o mínimo de e2ames é preciso qualifica+,o profissional-.
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