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O queer e o conceito de gênero

Fernando de Figueiredo Balieiro*
As reflexões sobre gênero nas Ciências Sociais surgiram a partir da década de
70, demarcando a ideia que o masculino ou o feminino não são características
determinadas pela natureza, mas são elaborações culturais que variam
historicamente[i]. Tal conceito possibilitou novas abordagens analíticas que
difundiram pesquisas sobre feminilidades, e posteriormente sobre
masculinidades, contrastando práticas e significados distintos em períodos e
contextos sociais diversificados. Nas décadas seguintes, tornar-se-ia cada vez
mais difundido o pressuposto de que não se pode pensar o que é ser homem ou
ser mulher sem atentar para a cultura. Mais do que isso, compreender-se-ia
que as categorias masculino e feminino são organizadoras do mundo social
como um todo, demarcando distinções entre espaços, atividades, profissões
que seriam separadas por estes dois pólos interdependentes.
Não por acaso, tais inovações teóricas, que criaram um campo de pesquisa
interdisciplinar, acompanharam transformações sociais importantes: trata-se de
um período de efervescência social no qual o movimento feminista
problematizava o lugar da mulher na sociedade, questionando hierarquias nos
âmbitos público e privado. As mulheres já se consolidavam como boa parte do
público presente no ensino superior e se inseriam progressivamente no
mercado de trabalho, embora com expressiva desigualdade em relações aos
homens. Dos movimentos de contracultura, passando pela cultura hippie, pelas
reivindicações feministas e por uma importante inovação da indústria
farmacêutica, a pilula anti-concepcional, surgiram novos padrões de
sexualidade. Enquanto em gerações anteriores a sexualidade era fortemente
associada à procriação e ao casamento, criava-se uma demanda por uma
sexualidade feminina prazerosa, e vinculada a ela, pelo controle das próprias
mulheres do seu prazer. Fazia-se visível algo que começava a ser estudado
aprofundadamente na academia: as mulheres e os homens não eram mais os
mesmos que os das gerações anteriores. O que é ser mulher ou homem, o que
é masculino e feminino tornou-se radicalmente questionado e aberto a
contestação.
No entanto, a radicalidade do questionamento nas esferas acadêmicas e sociais
a partir do conceito de gênero tinha ao menos dois limites claros: (1) apesar da
constatação de que os gêneros são socialmente constituídos, as abordagens
que se seguiram eram centradas no binário masculino/feminino e mesmo
reforçando suas variações histórico-culturais, não deixavam de tecer alguma
correspondência entre determinado gênero com o respectivo sexo biológico e
(2) o pressuposto heterossexista permaneceu intocado ou muito pouco
explorado. Esses dois limites se tornaram explícitos a partir de elaborações
teóricas sofisticadas que iniciaram na década de 80, buscando responder a uma
série de questões sócio-políticas que caracterizaram a década, e que a partir de
1990 foram nomeadas de Teoria Queer[ii].
Enquanto a década de 1970 se notabilizou pela insurgência de movimentos
homossexuais e pela “despsiquiatrização” da homossexualidade, a década
seguinte foi marcadamente conservadora no que se refere à sexualidade entre
iguais. Os anos oitenta foram marcados tragicamente pelo conhecimento da
aids e, em concomitância, por seu tratamento político que se voltou
especialmente contra a população gay. Chamada nos primeiros momentos de
“peste gay”, seu conhecimento se articulou nos Estados Unidos com políticas
moralizantes do Governo Reagan que ao mesmo tempo em que não mobilizou
políticas efetivas de combate, acabou por re-patologizar em outros moldes
aqueles cujo amor estava começando a ousar dizer seu nome.
Todas estas questões passaram a circular nas reflexões acadêmicas e dentro de
uma reelaboração teórica do feminismo e na esteira dos estudos gays e
lésbicos, surgem os estudos queer que em boa parte de suas análises
evidenciam como os estudos de gênero não podem ser desenvolvidos com
profundidade sem interseccioná-los com a dimensão da sexualidade. Não se
trata de um axioma universal, mas de um aprofundamento de reflexões
teóricas com pesquisas orientadas historicamente. O historiador queer David
Halperin (2000) demonstrou como em períodos pré-modernos haviam formas
de hierarquização e estigmatização muito mais vinculadas a questões de gênero.
Centrado nas relações entre homens, analisou como a figura estigmatizada era
persistentemente aquela que não correspondia aos ideais de masculinidade e
não aquela que se envolvia sexualmente com iguais, respeitando certos limites
morais. Há uma mudança paradigmática com a “invenção” psiquiátrica do
homossexual no século XIX, uma personagem que conjugaria inversão de
gênero com práticas sexuais que remetem, como as mulheres, à passividade.
Michel Foucault (1977) foi um dos pioneiros ao observar seu surgimento nos
discursos modernos, em um momento em que se consolidavam complexos
dispositivos de sexualidade nas sociedades urbanas e industriais em busca de
uma gestão do corpo populacional. A psiquiatrização do “prazer perverso” seria
um de seus pilares, buscando evitar suas pretensas potencialidades
degenerativas. Foucault deu um insight fundamental – junto com outras
contribuições, como a de Guy Hocquenghem (2009) – para outros teóricos
analisarem a fixação moderna que configurou aparatos de poder que evitassem
a possibilidade de vínculos afetivo-sexuais com pessoas do mesmo sexo, ou
dada sua impossibilidade, que os configurasse invisibilizando-os, mantendo-os
na esfera privada.
A consolidação de uma ideia de uma essência homossexual, teve
progressivamente vinculado a ela a “invenção” da identidade heterossexual,
concebida como resultado final de um desenvolvimento sexual normal. A partir
de então se consolida um binário hetero/homo como forma de subjetivação
contemporânea a partir de uma demarcação clara entre o que é normal,
desejoso e saudável e aquilo que é desviante, indesejável e de alguma forma
patológico.
A re-patologização da homossexualidade[iii] a partir da década de 80 fomentou
novos olhares nos emergentes estudos queer que se voltaram para populações
estigmatizadas no período como os gays, lésbicas, drag queens, transgêneros e
afins. Passaram a empreender formulações analíticas que permitissem uma
outra abordagem sobre gênero, rompendo seus limites heterossexistas e
remarcando as potencialidades criativas de gênero para além do binário
homem/mulher ou masculino/feminino, ressaltando as possibilidades de
borramento e trânsitos entre essas categorias. Dentre as novas elaborações,
Judith Butler (2003) em Problemas de Gênero propõe que a inteligibilidade de
gênero em sociedades contemporâneas passa pela coerência socialmente
imposta entre sexo – gênero – desejo – práticas. A despeito do mundo social
tão diverso e inventivo que interessava à filósofa queer, esta compreende que
os gêneros inteligíveis se pautam por aquela coerência. Um ser que nasce com
uma anatomia masculina, deve ser masculino, desejar mulheres e manter
relações penetrativas e ativas com elas.
Aqueles que não se enquadram a esta norma social são alocados à abjeção
(BUTLER, 1999) e tem a existência e materialidade de seus corpos ameaçados
socialmente, suas vidas são frágeis e precárias, pois são considerados menos
humanos, aberrações de uma humanidade pretensamente saudável e perfeita.
Os abjetos não apenas existem de forma excluída da normalidade, eles são
parte constitutiva dela, fantasmas que assombram a construção de gênero de
meninos e meninas “saudáveis” e que podem a meio caminho desviar-se. São
assim considerados ameaças à sociedade que desempenha esforços violentos
simbólica ou materialmente em perpetuar o que se considera natural, mas
teima em não se realizar completamente.
A década de 90 foi marcada pela reconfiguração dos movimentos gays e
lésbicos, ansiosos em desvincular-se da imagem de doença e anormalidade.
Observa-se um grande avanço de reconhecimento e aceitação social a partir de
mobilizações políticas, mas segundo muitos críticos, também se percebe um
movimento de assimilação em que as bandeiras não mais se dirigem a uma
crítica de instituições estabelecidas como a família nuclear burguesa ou ao
casamento, mas a um alargamento destas instituições que deveriam ser
ocupadas também por gays e lésbicas. Um novo padrão corporal gay também é
recriado: em oposição à figura do homossexual histórico como invertido de
gênero, corpos são moldados e torneados nas academias de musculação,
empurrando para longe o estima do efeminamento.
Uma cultura gay e lésbica apesar de não ser amplamente aceita socialmente, o
que é visível nos tantos casos de violência explícita que ocupam os principais
noticiários do país, passa a ser em boa parte tolerada ao dialogar com valores
dominantes. Um novo padrão midiático de homossexual passa a ocupar as
telenovelas de grande audiência. Ao lado da permanência de personagens que
atualizam o estereótipo da “bicha”, esses novos personagens são marcados
quase sempre não por um efeminamento exagerado, mas por uma semelhança
cada vez maior com um casal hetero de classe média, diferenciando-se por sua
caracterização assexuada. São figuras assépticas e assimiláveis, posto que não
têm desejos. Dois homens ou duas mulheres que podem ser confundidos com
irmãos ou irmãs ou grandes amigos ou amigas passam a espelhar nas novelas
aquilo que se tornou palatável a seu público: a aceitação daqueles que se
relacionam com iguais, desde que não questionem os valores dominantes ou as
normas de gênero e sejam discretos.
Em contraste com as personagens midiáticas, estão as travestis, drag queens,
transexuais ou transgêneros, gays fora dos padrões corporais valorizados,
muitas vezes efeminados, lésbicas que incorporam o masculino em sua
corporalidade, ou os chamados heteroqueers, aqueles que se por ventura se
engajam afetivo-sexualmente com pessoas do sexo oposto, não correspondem
a normas e expectativas dominantes no que se refere a sua performance de
gênero ou modo de se relacionar amorosamente. Não por acaso, sobre elas se
debruçam os desejosos interesses da literatura queer, atentos aos universos
mais plurais que conformam o mundo social. A heterogeneidade do social dá
margem à leitura de borramentos ou trânsitos entre as fronteiras do masculino
e feminino, questionando a naturalidade de uma norma socialmente imposta
que prevê uma continuidade entre sexo-gênero-desejo-práticas sexuais.
Ocupam-se do fluido mundo dos desejos e identificações que escapam às
fronteiras erguidas pelas rígidas categorias sociais sejam elas embasadas no
binário hetero/homo ou masculino/feminino. O gênero, em uma leitura queer,
afasta-se radicalmente de uma pretensa origem biológica e se configura como
pertencente ao reino da cultura que se concretiza em normas androcêntricas e
heterossexistas que reiteram discursos naturalizantes e essencialistas, por sua
vez, constantemente questionados e ressignificados.
* Fernando de Figueiredo Balieiro é doutorando em Sociologia na UFSCar.
Bibliografia:
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Notas:
[i] O conceito de gênero foi introduzido inicialmente no campo da psiquiatria
em 1968 por Robert Stoller em sua obra Sex and Gender na qual estabelece
distinções entre gênero e sexo biológico. Em 1975, Gayle Rubin analisa em uma
perspectiva feminista o que denomina sistema sexo/gênero em seu ensaioA
Troca de Mulheres, construindo as bases para uma análise social da dominação
masculina articulada com o“tabu da homossexualidade”. Em 1986, Joan Scott
publica o artigo Gênero: uma categoria útil de análise histórica que marcou boa
parte da produção sobre gênero em língua inglesa, tendo forte repercussão no
Brasil.
[ii] Para uma discussão sobre a origem e os desafios da teoria queer, ver
Miskolci, 2009.
[iii] Sobre aids e re-patologização da homossexualidade, consulte Miskolci,
2007 e Miskolci e Pelúcio, 2009.