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Maternidade, paternidade e feminismo

EU, NEGRO, POBRE, FEMINISTA, 32 ANOS E FILHO DE MÃE SOLTEIRA,


DECLARO ILEGITIMO QUALQUER RECONHECIMENTO DE AUTORIDADE
MASCULINA SOBRE MINHA PESSOA E, COMO HUMANO, REVOGO
QUALQUER TENTATIVA DE ESTABELECER A PROPRIEDADE SOBRE O
PRODUTO DO VENTRE DA MULHER QUE ME GEROU.

Escrevo isso já que na segunda-feira 18 de julho de 2009, tornou-se norma


jurídica a seguinte doutrina: “a recusa do homem que foi declarado como
suposto pai de uma criança a submeter-se ao exame de DNA induz presunção
(júris tantum) de sua paternidade”. Em outras palavras, o suposto pai que se
negar insistentemente a fazer o teste de DNA terá declarada a paternidade.
(Fonte: STJ - Superior Tribunal de Justiça)

Para facilitar a compreensão deste ato, vamos a uma comparação rudimentar:


imaginem um homem que descubra ser dono de uma propriedade que
desconhecia ou rejeitava, apesar do ônus de ter que pagar os impostos
atrasados e a garantir sua “manutenção”, ao ser obrigado a registrá-lo, o até
então “homem” não passaria a ter seu poder de proprietário legitimado sobre a
pretensa posse? Mesmo que seja contra a sua vontade?

Paternidade e a repressão sexual - Uma questão moralmente econômica


Em grosso modo, se pode dizer que “a necessidade” do reconhecimento legal
da paternidade é derivada de um longo processo histórico instituído pelo
modelo de relações patriarcais. A sexualidade feminina passou ser
controlada pela monogamia ou poligamia, a fim de garantir a paternidade
biológica dos descendentes gerados pelas mulheres. Foi no controle do
ventre feminino que se instituiu a manutenção social das propriedades
privadas dentro de um grupo consanguíneo específico. Assim, podemos
dizer que, por ideologia religiosa, o controle sexual das mulheres serviu para
garantir a separação das classes sociais e os seus privilégios geraram as
desigualdades de gênero e classe. Sua justificativa pode ser evidenciada no
conceito religioso patriarcal conhecido como “jugo desigual”, pois diante “Deus”
só haveria dois tipos de pessoas: “as que estão do lado de dentro e as que
estão do lado de fora” (da consangüinidade de Abraão). Todavia, a repressão
moral e física da sexualidade feminina não abarcava na prática proibição da
sexualidade masculina. E qualquer descendente gerado fora da relação
reconhecida não resultaria em castigo para os homens ou direito de herança
para seus filhos ilegitimos. Ou seja, é no “ideal de família” que se encontram
as raízes do poder e do controle de nossa sociedade desigual.

A família no direito romano


Inicialmente, as estruturas de parentesco eram o fator primordial que
caracterizavam a propriedade da terra e dos rebanhos, agregando
comunidades inteiras. A herança dos bens garantia o poder de chefia sobre os
demais membros da comunidade. Com o crescimento da população, a
concentração de riquezas gerou guerras de conquista territorial e aquisição de
escravos (povos dominados) para trabalhar nas lavouras e nos ambientes
domésticos. Foi ai que surgiu o primeiro registro do termo família. Na lei
romana, a palavra foi empregada para designar os direitos de vida e morte
investidos a um homem sobre todos os outros membros que compunham a
unidade social. Formada assim para designar “uma cabeça (homem) que
governava uma mulher, as crianças e os escravos” dentro de um espaço
restrito. Ou seja, a palavra família deriva-se do verbete Famulus, que
significava “escravo doméstico”. Em sua origem, família é o número total
de escravos pertencentes a um homem no qual ele possuía o direito
sobre vida e morte das pessoas que habitavam sua residência.

As bênçãos da Igreja é a permissão de posse

Com a dissolução do Império Romano do Ocidente, na Idade Medieval, coube


a Igreja Católica o controle de todos os níveis da vida social européia. O
batismo certificava os índices de natalidade; o funeral garantia o registro dos
óbitos; e o casamento regulava e garantia a passagem da herança das
propriedades. Se nem sempre as pessoas se perguntam o motivo do costume
do casamento é por que já ao pronunciar a promiscua frase: “eu vós declaro
MARIDO e MULHER”, é porque elas já sabem a verdadeira intenção deste
ritual. Para melhor explicar, vamos a etimologia da palavra marido.

Como o mesmo significado que a conhecemos hoje, o termo deriva do latino


Maritus. Mas em inglês (husband) a origem da palavra revela uma ligação com
o termo house (casa). Um aprofundamento sobre sua etimologia conduzirá a
antiga palavra nórdica “husbandry” (agricultura), que é a composição dos
termos escandinavos hús (house - casa) + bóandi (habitante, morador). Ou
seja, morador da casa. Se o estudo se der pela mitologia grega, descobri-se
que o termo foi empregado para denominar o Deus Poseidón e viria do
substantivo grego “pósis” (marido), que deriva de pot-is (quem possui), e
significaria: “Senhor da Terra”, ou em outra versão, seria o “dono [marido] da
[deusa] Terra”. De uma maneira ou outra, o termo marido relaciona-se a
idéia de dono, possuidor ou proprietário. Assim, o ato outorgado pelo padre
nos revela a relação permissiva de poder que se estabelece entre as leis da
Igreja e a moral machista. E neste “acordo de cavalheiros” é concedido ao
macho da espécie humana o reconhecimento de sua propriedade sobre o
ventre feminino, como extensão das posses de “Deus”. Concluindo, as
famílias continuavam constituindo-se em núcleos de conservação das
propriedades feudais e assim a garantir os privilégios sociais. A função
moral do nobre casamento era “legitimar o direito natural e divino da
jovem fêmea humana de reproduzir”, reconhecendo-lhe a castidade e
outorgando-lhe a maturidade sexual, no instante que era repassada para
o pênis de um macho (que seria seu novo dono, depois do pai que a
entrega em sacrifício no altar) e para seio de outra família.

Os valores morais da burguesia

Com a derrocada dos costumes medievais, após as cruzadas, e surgimento da


burguesia, as amplas famílias ao estilo feudal se reduzem a estruturas como
conhecemos hoje: papai, mamãe e filhinhos – a família nuclear patriarcal. Aqui,
o Estado passa a ser o regulador do mundo moderno e do capital. A
preservação dos “valores familiares” pelo Estado é a garantia da
manutenção das desigualdades, ou seja, das propriedades, já que a base de
seu direito vem dos regulações romanas (inclusive nos valores morais da Igreja
Católica).

Como a moral repressiva da burguesia cristã culpabilizava a mulher por


qualquer geração indevida, lhe recai um julgamento moral sobre a “fraqueza de
caráter” quando um filho lhe era gerado fora de um matrimonio monogâmico.

Já a desculpa era que o impulso sexual masculino é de “natural o


incontrolável”, culpar exclusivamente a mulher servia para assegurar toda
a responsabilidade desta geração recaísse na fêmea, impedindo-lhe de
cobrar qualquer direito de herança. O estereótipo de puta estava lançado,
em nome do controle das riquezas produzidas. E como ninguém queria
ser “o filho da puta” tornava-se necessário exaltar “a santa maternidade
da dependência econômica”. Reconhecendo a função do homem – dono
do poder – como o provedor.

As Mudanças do patriarcado

Após mais de um século de luta as estruturas patriarcais entraram em profunda


crise. A crise da masculinidade recolocou os homens em patamares
impensáveis até pouco tempo. A homossexualidade deixou de ser considerada
patologia e o direito de adoção é o debate mais caloroso da questão. Atônito
diante das mudanças impostas pelo movimento feminista os homens passaram
a discutir seus posicionamentos, bloqueios, repressões. As reações foram
diversas. O mercado econômico soube muito bem manipular esta
abertura criando o metrossexualismo, os reacionários criaram o
hipermachismo em seus filmes e novelas, por fim, os donos do poder
burguês reativaram a cortesia (civilidade e boa educação) como símbolo
do novo homem. Contudo, como homem e antigo opressor, esta
recolocação masculina nunca visou a superação dos tradicionais papéis
de homem e mulher, pois continuamos reproduzindo a maioria dos
valores machistas de um modo ou de outro. Não é fazendo as
sobrancelhas, preparando jantares ou mostrando o peito e a barba peludos que
se liberta a humanidade. Aos poucos, os tradicionalismos tem se restabelecido:
os anéis de castidade nos dedos dos jovens, o aumento dos índices de
casamento, a manutenção da proibição do aborto, “a proposta de bolsa
estupro” e as rosas distribuídas nas escolas e no ambientes de trabalho no dia
internacional da mulher (que deveria chamar-se “DIA INTERNACIONAL DE
ENFRENTAMENTO CONTRA O MACHISMO), estão ai para comprovar os
fatos. Pior, o reconhecimento instantâneo da paternidade segue a mesma linha
moral e pode ser uma manobra das mais perigosas. Vejam os dados:
Segundo a socióloga Ana Liése Thurler, que analisou em pesquisa cerca de
180 mil certidões de nascimento, foi constatado que:

1º - 30% dos documentos de registro de nascimento constam apenas o nome


da mãe;
2º - ainda se pratica o costume de escrever nestes documentos a frase: “Pai
Desconhecido”;
3º - nascem cerca de 700 mil crianças livres da propriedade paterna por ano .

Segundo dados do IBGE de 2005, o percentual de 30,6% também


corresponde ao número de famílias sustentadas apenas pelas mulheres.
Ou seja, as mulheres sem o registro da paternidade de seus filhos
constituem-se em mulheres que, ao menos, são financeiramente
independentes dos pais biológicos de seus filhos.

ANÁLISE DA PODRE MAÇÃ

Sabemos que “CONTROLE” é uma palavra de ordem capaz de causar


orgasmos nos professores, nos patrões, nos pastores, padres ou nos políticos
que se masturbam com frases do tipo: “Depois de Deus, vem a família - em
primeiro lugar”. A defesa da instituição familiar é sempre proposta como a
“solução mágica” e mais eficiente para resolver os problemas sociais e, nos
discursos repressores, a “desagregação moral das famílias” é a principal
responsável pelo “descontrole” em que se encontram as relações sociais do
mundo contemporâneo. Mas como devemos lidar com a complexa situação
que introduz nosso texto? Como devemos nos posicionar diante de uma
questão tão controversa, sem legitimar uma dependência frente ao institucional
poder patriarcal? Sem parecermos intolerantes as necessidades sociais de
uma criança? Sem que esta conquista torne-se uma arma em favor da
acomodação feminina num sistema capitalista/machista?

Se o reconhecimento da paternidade for em “resposta” a moral cristã da


sociedade capitalista, estas mesmas mulheres podem estar sendo
induzidas a prestar um desserviço reacionário ao movimento, já que se
desejarem o reconhecimento da paternidade pelos fúteis intuitos da
“divisão dos gastos” e “a confirmação de sua honradez” (evitando para si
o estigma de puta e para o filho a alcunha de bastardo). Estarão
reafirmando o papel do homem como provedor da “santificada lógica”
cristã e do Estado – instituição máxima do poder machista – como
regulador indispensável à humanidade.

Pois imaginar “a necessidade do reconhecimento paterno” é, no mínimo,


desconfiar da capacidade de uma educação feminista, voltada para o fim do
patriarcado. Proposta que nasceu junto a ideia da “produção independente” e
atingiu seu auge na última onda feminista dos anos 60/70, apesar de hoje
parece ser uma ideia descartada pela maioria das mulheres. Também não
podemos negar que esta concepção de “geração e criação independente” é
produto de um feminismo que não respondia as necessidades imediatas das
mulheres negras brasileiras, que formam a maioria da população. Mulheres
que historicamente foram massacradas pela economia sexista branca, que
nem de longe vislumbrava a possibilidade remota de aceitar, em seu seio
familiar, um “bastardinho negro fruto de aventuras passageiras”, quanto mais
permitir a divisão da herança com uma cria ilegítima.

Se o reconhecimento da paternidade fizer com que os homens participem da


criação das crianças, conscientizando-os deste fardo, a norma jurídica tomaria
uma dimensão feminista, pois quebraria com parte da construção social que
impõem as mulheres o papel da maternidade e de únicas cuidadoras das
crianças. Desta maneira, a divisão do ônus educacional permitiria em parte
uma liberdade/autonomia até então inexistente para as mulheres. Mas não
parecem ser estas as perspectivas.

No final, se o reconhecimento da paternidade não se constituir, para os


homens, em encargos na criação, se traduzirá apenas em mais uma
justificativa legal de que o Estado é um órgão fundamental para regular os
relacionamentos humanos. Estado este capaz de reconhecer de imediato
qualquer paternidade, mas que não permite a prática do aborto. Além de
legitimar a tradicional “figura paterna”. Assim, as pessoas que deveriam ser
as verdadeiras “beneficiadas” – as crianças – não encontram nenhum
benefício prático, pois continuarão sendo tuteladas pela suas
sobrecarregadas mães, negligenciadas pelos homens-pais que as
rejeitaram e, pior, servindo de desculpa principal para a manutenção das
relações falidas entre homens e mulheres, que ainda se encontram
acorrentadas as concepções arcaicas. Como comprova, em ilustração, um
trecho de um depoimento extraído do livro “Mulher: da escravidão à libertação”,
organizado por Hugues D’Ans:
“Minha mãe exigia de mim que chamasse o seu companheiro de pai; isso
segundo ela, reforçaria seu relacionamento. Por outro lado, o meu avô me
repreendia, pois não era a favor de mentiras, não era justo chamar outro
homem de pai. Eu ficava aflita quando esse homem vinha em casa, não sabia
como tratá-lo.”

Numa sociedade impregnada por desejos morais de propriedade privada


sobre bens e pessoas, de rígidos papéis de hierarquia, comando e
dependência social, além de fortes valores repressivos, que são
derivados do cristianismo, o controle da sexualidade das mulheres e das
crianças foi a chave para o aprisionamento e distinção das classes
sexuais e socais. A família sempre foi a vice-canditada patriarcal na chapa
eleitoral do “pai eterno”. Ou seja, as mentalidades ultraconservadores da
sociedade (professores de escolas tradicionais, líderes religiosos, e juristas e
legisladores cristãos) sempre se utilizam dos “efetivos laços afetivos” que
constituem “a santa moral e os bons costumes”, para advogarem em favor dos
valores sociais que lhes remetem status e poder. Este também é o argumento
proferido pelas “filantrópicas” ONGs vinculadas a ideologia do “politicamente
correto”, que puxam a rodo verbas públicas para o bolso de homens “acima de
qualquer suspeita”, em nome da miséria alheia.

Contudo, não podemos negligenciar o fato de que é problemático para toda


criança o não “reconhecimento de sua paternidade” na sociedade em que
vivemos. E que não mais é possível admitir a reprodução histórica do ônus da
criação educacional de uma criança recriando sempre, novamente, única e
exclusivamente sobre o ventre e braços das mulheres que o geraram, mesmo
aquelas que são legalmente casadas. E, como este direito reconhecido é fruto
das lutas dos movimentos sociais, que não mediram esforços para que tal ação
acontecesse, cabe-nos refletir sobre o fato em si, se o uso de tal direito pelas
mulheres – e não pelas crianças - seria ou não seria uma arma contrária ao
sistema machista.

Talvez cientes do significado moral e origem histórica da “necessidade” do


reconhecimento pátrio, seja possível vislumbrar uma alternativa menos
tradicional para o problema.

Assim, tentamos trabalhar o debate sobre a questão da maternidade e da


paternidade de uma criança, com um foco que se debruça sobre o
questionamento da legitimação da autoridade paterna e estatal, sem
negar que, qualquer ângulo aqui abordado, não é nada mais que um
direcionamento ideológico que visa instigar uma futura insurreição
feminista contra o sistema econômico de classes sexuais e em favor da
libertação de toda a humanidade.

Pois, suas causas e conseqüências são de fundamental importância para a


atuação do movimento feminista contemporâneo, em especial, o movimento
feminista radical.

Assim, nós maçãs podres, acreditamos que a libertação da mulher se


inicia na luta pela consciência plena de sua real condição, em nome do
controle, propriedade e posse de seu ventre. Só transformando as
relações pessoais /sexuais e destruindo por completo as hierarquias de
poder e desequilíbrio econômico que poderemos chegar a uma
constituição social autorregulável e transcendente de imposições de
gênero/raça/classe, relações capazes de se caracterizarem como livres e
ontologicamente humanas.

Texto: Patrick Monteiro

http://nucleogenerosb.blogspot.com/2009/08/m
aternidade-paternidade-e-feminismo.html