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"Campanha 28 de Setembro pela Despenalização do

Aborto na América Latina e Caribe


Ponto Focal Brasil – IMAIS/Rede Feminista de Saúde
Luzes e sombras em 2008 – 2009

Milhões de mulheres em todo o mundo continuam a sofrer graves


lesões e traumas, e mais de 66.000 morrem a cada ano em abortos
inseguros, outras são criminalizadas ou presas.

A América Latina e Caribe é o cenário de mudanças importantes no


campo dos direitos humanos, com especial atenção aos direitos
sexuais e direitos reprodutivos, que estão sendo promovidos
principalmente por organizações feministas da região.

Compartilhamos os esforços que as mulheres e associações da


sociedade civil em cada país realizam visando tornar definitivos os
avanços em direitos já reconhecidos.

Ao mesmo tempo denunciamos RETROCESSOS em nossa região,


consequência da pressão de grupos religiosos fundamentalistas e
da complacência da maioria dos governos que se curvam à Igreja
Católica e lideranças evangélicas, ignorando os mandatos
constitucionais e sua própria cidadania.

Tomando em conta o Chamado à Ação da Campanha 28 de


Setembro de 2008, observamos que no último ano:

Houve iniciativas de reforma legal para mudar as legislações


nacionais a fim de incorporar novas razões e novos prazos para
permitir abortos não puníves: Argentina. Ao mesmo tempo, estas
iniciativas tem sido obstaculizadas, suspensas ou suprimidas, sob o
argumento da defesa da vida do nascituro, à qual é dada a
supremacia em relação às mulheres.

A mudança nos códigos penais e constituições nacionais tem sido


aproveitada pelos setores mais reacionários para proibir o aborto
não punível, ou ameaçar com mudanças na legislação para mais
restritiva: Nicarágua. Também se pretende estender as proibições à
fertilização in vitro, pílulas anticoncepcionais de emergência e
"consagrar" a proteção do direito à vida desde a concepção até a
morte natural: República Dominicana.
Algumas adolescentes com deficiência, grávidas em razão de
estupros, têm sido autorizadas a interromper da gravidez. No
entanto, na maioria dos casos, a autorização foi recusada ou
adiada, para que se tornasse impraticável.

Juízes e juizas têm aprovado a interrupção da gravidez em casos


de extrema necessidade, argumentando em favor dos direitos
adquiridos pelas mulheres. Em vários casos, outros negaram os
pedidos, mas têm enfrentado processos por prevaricação e violação
de direitos, até por desconhecimento da legislação em vigor:
Argentina.

Médicas e médicos têm demandado o Congresso a legislar


positivamente para não se sentir impotentes ou ameaçados quando
fazem um aborto não punível. Outros foram perseguidos por se
recusar a realizar um aborto terapêutico no caso de extrema
necessidade.

Em alguns lugares os tribunais ratificaram o direito de profissionais


de saúde que atendem mulheres por complicações abortos
inseguros a não notificar obrigatoriamente as autoridades,
protegidos pelo sigilo profissional. Outros/as violaram os direitos
daquelas que foram ao seu consultório, interrogando e acusando as
mulheres como criminosas: Nicarágua.

Protocolos para atendimento ao aborto não punível e padrões de


cuidados de emergência para reduzir as complicações de abortos
inseguros foram aprovados. Ao mesmo tempo, a redução dos
orçamentos de saúde e as muitas deficiências dos sistemas
públicos, permite que amplo abuso e discriminação de mulheres
atendidas por aborto.

Milhares de mulheres da região têm apoiado campanhas nacionais


e continuaram a exigir o direito ao aborto legal, seguro e gratuito, a
ampliação de prazos e motivos para a interrupção da gravidez, a
não judicialização dos serviços médicos, muitos dos quais fazem
interpretações restritivas e põem dificuldades e barreiras não
previstas pela legislação.

A maioria dos países da região assinou a Declaração Ministerial da


Cidade do México "Prevenir através da educação", um
compromisso de implementar políticas e programas de educação
sexual. Enquanto isso, os legisladores em vários países centro-
americanos assinaram o livro "Sim à Vida", que visa criar uma
opinião pública sobre a proteção da vida do nascituro; apesar de ser
uma iniciativa dos chamados grupos pró-vida, legisladores de
esquerda também o assinaram, como em El Salvador.

Por grande maioria, a Suprema Corte de Justiça do México


declarou a constitucionalidade da legislação que permite a
interrupção legal da gravidez na Cidade do México desde abril de
2007. Dessa maneira ficaram sem efeito as demandas dos grupos
pró-vida.

Comitês de Bioética na região elaboraram argumentos para


sustentar a tese da interrupção da gravidez nos serviços públicos.
Enquanto em outros países, esses comitês têm servido para
promover a posição fundamentalista contra os direitos das
mulheres, fazendo com que o setor médico fique paralisado.

A ONU aceitou petições de organizações de mulheres e emitiu


resoluções que responsabiliziam os Estados por negar o acesso ao
aborto não punível como uma violação dos direitos humanos. Em
outros casos, o tempo para responder às alegações expirou sem
chegar a uma resolução de alto nível.

Altas instâncias judiciais têm se pronunciado em favor da


distribuição da pílula anticonceptiva de emergência, como o
Conselho de Estado na Colômbia. No entanto, outras altas
autoridades consideraram que o medicamento é abortivo e,
portanto, o proibiram: Tribunal Constitucional do Chile, Câmara Civil
e Comercial de Córdoba, Argentina.

A Anistia Internacional se manifestou contra a perseguição política


das líderes feministas que denunciaram a eliminação do aborto
terapêutico na Nicarágua e sobre a proibição do uso da pílula
contraceptiva de emergência no Chile, pois afetaria a taxa de
abortos clandestinos o número de mortes causadas por abortos.

A aprovação do aborto não punível por prazos e causalidades como


no México e na Colômbia permitiu que milhares de mulheres
conseguissem ser atendidas no sistema público. Ao mesmo tempo,
foi necessário que as organizações feministas se esforçassem
arduamente para garantir o acesso das mulheres a esses serviços,
devido às múltiplas barreiras que o próprio sistema público coloca.

Audiências Públicas foram palco onde as mulheres feministas da


região tiveram a oportunidade de exercer a defesa do direito do
aborto, ao aborto em situações extremas, da dignidade e o respeito
pelos direitos fundamentais das mulheres, a liberdade de
consciência e o respeito o Estado laico: Brasil e México.

Um projeto de Tratado Jurídico (Concordata) entre o Governo e o


Vaticano enviado pelo Presidente do Brasil foi aprovada pela
Câmara dos Deputados e enviado ao Senado para conceder
privilégios à Igreja Católica. Enquanto isso, mais de mil mulheres de
Mato Grosso do Sul estão sendo vitimados pela criminalização do
aborto, pois a polícia apreendeu os registros médicos, as interrogou
e iniciou processo penal de caráter massivo por terem sido tratadas
em clínica privada, há vários anos. Essas mulheres têm negociado
penas, em troca de serviços gratuitos em creches, para que
“aprendam a ser mães”.

O Senado e a Câmara dos Deputados do Uruguai aprovaram


projeto de lei de Defesa da Saúde Sexual e Reprodutiva, no
entanto, a sessão da Assembléia Geral do Parlamento não levantou
o veto imposto pelo Executivo ao projeto, evidenciando a falta de
respeito com os aos cidadãos, que rejeitaram o veto presidencial
em 63%.

Em países onde o Estado laico é um mandato constitucional,


cardeais, bispos e líderes evangélicos continuam a pressão e
ameaçam excomungar os líderes políticos que legislam em favor
das mulheres: Uruguai e Nicarágua.

Na América Latina, entre 20% e 30% das gestações e de óbitos


maternos continuam ocorrendo em mulheres adolescentes,
resultado das deficiências da educação sexual nas instituições
formais, a sua falta de autonomia para evitar o sexo sem risco e
violência sexual: Nicarágua, Bolívia, Venezuela.

Pela primeira vez na sua história, a Anistia Internacional publica


uma declaração especial e lança uma campanha internacional que
denuncia a proibição total do aborto na Nicarágua, com ênfase
sobre a vida e a saúde das mulheres em situação de risco e
exigindo proteção para profissionais de medicina que estão sendo
criminalizados.

Chamado à Ação
Chega de violações aos nossos direitos
• Para que seja efetiva a separação das decisões de estado de toda
a influência religiosa é essencial um Estado Laico.
• Para a eliminação de todas as formas de discriminação, é urgente
a respeitar a vigência dos direitos sexuais e direitos reprodutivos de
todas as pessoas.

• Devido à irresponsabilidade masculina, causa básica da maioria


das gestações não planejadas, os homens devem assumir o
compromisso cidadãos quanto à sua sexualidade e reprodução.

• Pelo acesso universal aos serviços de saúde sexual e saúde


reprodutiva integral, assim como à mais ampla variedade de
métodos contraceptivos seguros.

• Pelo acesso a serviços de saúde de qualidade e ao aborto legal e


seguro legal, como condição necessária para reduzir a mortalidade
e morbidade materna.

• Pela existência de políticas integrais não assistencialistas para


reduzir a mortalidade e morbidade, orientadas pelos direitos
humanos.

• Pelo reconhecimento de adolescentes e jovens como sujeitos de


direitos, para que tenham oportunidades que lhes permitam tomar
decisões livres, responsáveis e informadas.

• Pela garantia do livre exercício da sexualidade, o acesso à


educação sexual, informação e acesso à contracepção segura para
adolescentes e jovens.

• Pela a erradicação de todas as formas de violência contra as


mulheres, contemplando a relação de violência sexual e HIV/Aids e
acesso ao aborto voluntário nestas situações.

• Pelo fim às ameaças de líderes religiosos contra funcionários e


funcionárias públicas .

• Pela erradicação da obediência religiosa dos legisladores e dos


legisladoras, juízes e políticos.

• Pelo direito à informação e aos meios para evitar a gravidez


indesejada e acesso à atenção adequada ou tratamento para
preveni-los.

• Pela difusão de tecnologias para o aborto seguro para salvar as


vidas das mulheres.

• Pelo compromisso dos governos e doadores para que disponham


de mais recursos para garantir assistência integral à saúde sexual e
reprodutiva, incluindo contracepção e aborto seguro.

• Pela permanente formação médica para o atendimento ao aborto,


incluindo enfermeiros, parteiras e outro pessoal de saúde.

• Pela a manutenção do sigilo profissional em relação às mulheres


tratadas por complicações do aborto inseguro nos serviços públicos
e privados.

• Por uma sociedade que não se cale frente aos abusos contra a
liberdade de escolha das mulheres.

• Pelo direito de decidir, pela democracia, liberdade e justiça social


e pelos direitos humanos de todas as mulheres.

América Latina e Caribe, 28 de Setembro de 2009


http://www.ipas.org.br/revista/set09.html#um