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UNIVERSIDADE FEDERAL DE CAMPINA GRANDE CENTRO DE HUMANIDADES PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS SOCIAIS RAFAEL

UNIVERSIDADE FEDERAL DE CAMPINA GRANDE

CENTRO DE HUMANIDADES

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS SOCIAIS

RAFAEL LEAL MATOS

CONSIDERAÇÕES SOBRE ANTROPOLOGIA E PERFORMANCE SEGUIDAS

DE UM UMA RESENHA SOBRE O TEXTO UM JOGO ABSORVENTE: NOTAS

SOBRE A BRIGA DE GALOS BALINESA, DE CLIFFORD GEERTZ

Artigo escrito para obtenção da nota final da disciplina Antropologia e Performance (PPGCS/UFCG), ministrada pelo professor Dr. Rodrigo Azeredo Grünewald.

CAMPINA GRANDE – PB

Dezembro de 2013

SITUANDO-SE NOS ESTUDOS DE PERFORMANCE

Tomando como norte a perspectiva da Antropologia da Performance, este artigo/resenha consiste numa apresentação do texto Um Jogo Absorvente: notas sobre a briga de galos Balinesa, de Clifford Geertz (1978). O que pretendo é relacionar o citado escrito com alguns outros debatidos na disciplina Antropologia e Performance ministrado no Programa de Pós Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal de Campina Grande (PPGCS/UFCG), no período letivo 2013.2. Os estudos de performance podem ser tomados como uma maneira

antropológica contemporânea de abordagem de eventos ritualizados. Desde os clássicos

a temática ritual tem sido recorrente por ser considerada como uma importante

porta de entrada de aspectos socioculturais de sociedades distantes (temporal e/ou espacialmente). Em As Formas Elementares da Vida Religiosa de Émile Durkheim (2003), A Prece de Marcel Mauss (1981) e A Eficácia Simbólica e Cláude Lévi-Strauss (1975) nota-se a importância dos rituais, que são colocados por estes autores como uma repetição reprodutora da coesão do grupo. Nestes clássicos, apesar da prática ritual ser colocada, o foco das suas investigações estava na crença, no símbolo, no mito. A ação era tida como uma maneira de acessar o universo simbólico, sendo apenas um reflexo deste. Neste caso não havia lugar para a criatividade dos indivíduos e para os processos sociais de mudança. Os estudos de performance em Antropologia se colocam em uma direção oposta, apesar de ter em comum com alguns estudos clássicos a temática da eficácia. A abordagem da antropologia da performance, de maneira geral, está estritamente ligada à ideia de rito e a concepção funcionalista de desempenho de papeis. Na análise da performance há uma ênfase na prática, no ato, na ação. Isso implica a incorporação da

ideia de processo social, de criatividade e de dinâmica social. Neste sentido, o conceito de performance pode ser compreendido como uma elaboração contemporânea para

a análise de eventos rituais expressivos (religiosos e seculares) que tem como foco

a interação entre indivíduos, ou seja, seus desempenhos (leia-se performances) em

determinados contextos sociais. Van Gennep (1978) é um autor de grande importância para o desenvolvimento dos estudos de performance, que (é bom deixar claro) são posteriores a ele. Isto porque,

foi com este autor que o ritual passou a ser analisado fora do escopo religioso. Além

disso, o indivíduo (que não tinha espaço com os teóricos citados mais acima) e seu lugar na constituição social passou a ser, mesmo que de maneira incipiente, problematizado. Outro aspecto importante da obra de Van Gennep é a dimensão temporal, que passa

a ser incorporada na análise dos ritos de passagem – que são, em suma, marcadores

temporais produzidos coletivamente, mas vividos por indivíduos específicos – e que

têm como etapas constitutivas os momentos de “separação”, “margem” e “agregação”. Estas etapas são momentos ritualizados que, juntos, promovem mudanças na dinâmica

social a partir do momento em que deslocam indivíduos de um espaço social para aloca- los em outro, mudando o status social destes.

É importante salientar que apesar da influência de Van Gennep os estudos de

performance são mais abrangentes do que a abordagem deste autor. Isto porque tais estudos não se restringem apenas aos ritos de passagem e, além do mais, apresentam outros aspectos que não foram colocados por ele. De acordo com Langdon (2012),

“Enquanto as teorias clássicas do ritual tendem a buscar os significados dos símbolos no processo ritual, os estudos de performance centram sua atenção na estética, na multidimensionalidade e na interação social, enfocando a contextualização do evento pelos participantes e a construção dos sentidos emergentes” (LANGDON, 2012, p. 11).

A partir desta citação, fica clara que a ênfase dos estudos de performances está

na forma e não no conteúdo, nos sentidos emergentes e não nos preestabelecidos. Além disso, a compreensão da multidimensionalidade do evento, com seus vários significados

é uma questão importante destes estudos que traz consigo implicações metodológicas

diversas – já que os indivíduos experienciam a performance ritual de maneira diferenciada e o observador tem que estar atento a isto. Porém, apesar dessa unidade colocada, os estudos de performance são bem variados. Existem certas vertentes dentro desse campo de análise - o que faz com que o conceito de performance seja algo

bem generalizado, de tal maneira que não se limita a questão do ritual, perpassando a interação cotidiana. Erving Goffman (1985), interacionista simbólico e funcionalista, utiliza-se da metáfora teatral para analisar a vida cotidiana. Para isso ele lança mão do conceito

metodológico de “controle das impressões”, que pode ser tido como uma manipulação performática por parte do pesquisador. Além disso, Goffman se utiliza de expressões dramatúrgicas como: personagem, ator, atuação, representação (performance), fachada, cenário, região de fundo (bastidores), plateia, etc. Com isso fica claro que na compreensão deste autor o nosso cotidiano é performatizado, ou seja, nós tentamos impressionar uma determinada plateia a partir das expressões que transmitimos e emitimos, ou seja, através de uma atuação performática. Outros autores importantes do campo da performance são Victor Turner e Richard Schechner, que se influenciaram mutuamente: o primeiro um antropólogo iniciado por este último no universo teatral e o segundo, por sua vez, um teatrólogo iniciado por aquele nos estudos antropológicos. Ambos tornaram-se duas das principais referências nos estudos de performance ao darem mais enfoque aos eventos ritualizados, extra-cotidianos. Victor Turner (2008) em sua análise sobre eventos rituais toma o “drama” como uma metáfora da vida social. Neste sentido, este autor já faz um ligação entre ritual e performance, entre antropologia e teatro. Antes disso, influenciado por Van Gennep, Turner (1974 e 1982) fala sobre momentos rituais marginalizados, onde os papeis sociais são suspensos. Segundo este autor, estes eventos são situações performatizadas em que a anti-estrutura aparece, ou seja, através da performance a estrutura social e os padrões estabelecidos são questionados. Para análise de eventos rituais como este em sociedades “tribais” e/ou “agrárias” este autor institui o conceito de “liminaridade”. Já para falar desses momentos em sociedades complexas ele institui o conceito de “liminóide”. A liminaridade é um evento ritual coletivo ligado ao processo social total de uma determinada sociedade, neste sentido, ele se apresenta como uma obrigação para os indivíduos. Já os fenômenos liminóides, embora tenha um efeito coletivo de massa, é voltado para o lazer individual e vendido para este como mercadoria, assim, estes momentos rituais se configuram como um momento de participação opcional voltado para o entretenimento. Por fim, Richard Schechner (2012), fala sobre ritual, jogo e performance, demostrando como estes conceitos estão imbricados. O que este autor faz é uma síntese dos autores anteriores, direcionando a abordagem da performance. Para ele comportamentos performáticos consistem numa execução de sons e gestos através de um ritual permeado pelo jogo. Neste sentido, “rituais são memórias em ação,

codificadas em ação” (SCHECHNER, 2012, p. 49). Essa ação consiste na performance exercida por certos indivíduos. Para este autor, os rituais podem ser divididos em seculares e sagrados, mas estas categorias em muitos casos se sobrepõem, ou seja, vários rituais misturam em sua performance elementos sagrados e seculares. Para os estudos de performance, segundo Schechner, existem sete temas básicos oriundos dos estudos de rituais: ritual como ação, como performance; similaridade e diferença entre rituais humanos e animais; rituais como performances liminares; a teoria do processo ritual; dramas sociais; a díade eficácia e entretenimento; e as “origens” da performance em ritual. Dito isso, passarei agora para uma resenha do texto de Clifford Geertz sobre a briga de galos balinesa, com o intuito de apresentá-lo enquanto um texto que trata sobre uma performance ritual. Para isso, tentarei articular o escrito citado com as teorias da performance apresentadas mais acima.

POR QUE UM JOGO ABSORVENTE: NOTAS SOBRE A BRIGA DE GALO BALINESA É UM ESCRITO SOBRE PERFORMANCE RITUAL?

É importante deixar claro que Clifford Geertz não é um autor diretamente ligado aos estudos de performance. Ele não se debruçou sobre este tema como fizeram Evirng Goffman, Victor Turner e Richard Schechener. Porém, pode-se pensar neste autor como

um precursor da antropologia da performance, principalmente devido ao seu texto sobre

a briga de galo balinesa. Neste sentido, apesar de não ter teorizado sobre o tema da

performance nem se colocar com um autor preocupado com tal temática de maneira direta, em seu texto Um jogo absorvente: notas sobre a briga de galos balinesa Geertz pode ser tido como um exemplo clássico na abordagem de evento ritualizado tendo como foco a ação dos indivíduos, suas performances.

O texto enquanto um estudo de performance

Um aspecto importante bastante presente no texto da briga de galos, e que

é um tema chave nos estudos de performance, é a metáfora. Tendo em vista que

os estudos de performance são profundamente influenciados pela arte, a metáfora, recurso profundamente usado na literatura, consiste para os estudos de performance num recurso explicativo de realidades distintas, como coloca Victor Turner (2008) ao falar sobre as metáfora rituais. No caso de Geertz, no subtópico intitulado “de galos e homens” há uma forte associação metafórica entre os homens e os galos, onde o galo é colocado como um representante metafórico da masculinidade e de tudo que é tido que possa ser associado a ideia de animalidade para a sociedade balinesa. Como coloca Geertz:

“ embora seja verdade que os galos são expressões simbólicas ou ampliações da personalidade do seu proprietário, o ego masculino narcisista em termos esopianos, eles também representam expressões – e bem mais imediatas – daquilo que os balineses veêm como a inversão direta, estética, moral e metafísica, da condição humana: a animalidade” (GEERTZ, 1978, p. 286).

A descrição de momentos de ação no texto também é bem presente, ou seja, a

performance dos indivíduos envolvidos no ritual é sempre ressaltada, como demostra

esse fragmento:

Cercando todo esse melodrama – que a multidão compacta em torno da rinha segue quase em silêncio, movendo seus corpos numa simpatia cinestética segundo o movimento dos animais, animando seus campeões com gestos de mão, sem palavras, com movimentos dos ombros, volteando a cabeça, recuando em massa quando o galo com os esporões mortais tomba num dos lados da rinha (diz-se que os espectadores às vezes perdem os olhos e os dedos por ficarem tão atentos), balançando-se em frente novamente enquanto olham de um para o outro – existe um vasto conjunto de regras extraordinariamente elaboradas e detalhadas com precisão. (GEERTZ, 1978, p. 290).

O autor trata o evento enquanto um conjunto de pessoas que compartilham um

conjunto de significados num determinado contexto. Esses significados são expressos na ação dos indivíduos. Devido a esse enfoque na ação como fonte da expressão, ao

meu ver, dá ao texto o status de precursor dos estudos de performance.

A briga de galos enquanto ritual

O que implica dizer a briga de galos balinesa é um evento que consiste numa

performance ritual? Vamos por partes: primeiro o que vem a ser um evento ritual e o

porquê da briga de galos ser considerada enquanto tal? Depois de discutir isso argumentarei e o porquê destas brigas serem eventos performatizados. Sendo assim, o que vem a ser um evento ritual? De acordo Esther Jean Langdon

(2012),

o conceito de ritual hoje em dia “abrange um conjunto heterogêneo

de eventos presentes na vida contemporânea, sejam eles profanos ou

sagrados. Podem ser banais, como as [

iniciam e encerram encontros, mas também especiais, como cultos religiosos, atos políticos e cívicos, cerimônias de todos os tipos, processos jurídicos e os demais eventos que constroem e expressam a

vida tanto individual quanto coletiva. (LANGDON, 2012, p. 17).

saudações cotidianas que

]

Rituais também podem ser definidos como comportamentos formalizados socialmente e que acontecem com certa frequência, como é o caso da briga de galos balinesa. De acordo com Geertz a briga de galos, mesmo proibida, “continuam a ocorrer com extraordinária frequência” (GEERTZ, 1978, 280), sendo altamente formalizada, tendo um tempo e um espaço especifico e um conjunto de regra que norteiam seu acontecimento. Que tipo de rito é a briga de galos balinesa? De acordo com Richard Shechner

(2012), os eventos rituais se dividem em sagrados e seculares. Os do primeiro tipo são aqueles ligados as práticas religiosas, já os de segundo tipo são aqueles associados as “cerimônias de estado, vida diária, esportes e qualquer outra atividade não especificamente de caráter religioso” (SHECHNER, 2012, p. 54). Esta é uma divisão analítica, isso porque existem várias cerimônias que mesclam elementos seculares e sagrados no processo ritual, como é o caso do casamento citado pelo autor.

A princípio a briga de galos pode ser tida como um evento ritual secular

esportivo, já que a primeira vista os indivíduos vão lá para apostar e jogar. Porém, ao ler

o texto pode-se perceber certos aspectos desta briga que estão ligados com a cosmologia

religiosa do povo balinês. Segundo Geertz, os galos e as brigas de galos são comumente associados com “os poderes das trevas”. Ele afirma que “uma briga de galos, qualquer briga de galos, é, em primeiro lugar, um sacrifício de sangue oferecido aos demônios,

com os cânticos e oblações apropriadas, a fim de pacificar sua fome voraz, canibalesca. (GEERTZ, 1978, p. 287). Neste sentido, a rinha pode ser tida como um evento secular esportivo permeado por elementos rituais religiosos. Além disso, posso assinalar, baseando-se em Victor Turner (1982), que a briga

de galos é um ritual liminóide. A rinha é uma prática proibida pela elite colonizadora,

por isso ela pode ser considerada como situada na anti-estrutura da sociedade balinesa, abarcada pelos poderes coloniais. De maneira geral “as rinhas são levadas a efeito nos cantos isolados de uma aldeia, quase em segredo”, como coloca Geertz (1978, p. 280).

A briga de galos não é um evento de participação obrigatória, é um entretenimento

opcional para os membros masculinos dessa sociedade que serve como um momento de questionamento da estrutura social estabelecida pelos colonizadores. O que faz dessas rinhas, assumindo uma leitura turneriana, um evento liminóide.

A briga de galos enquanto performance

Agora me deterei na explicação do porquê a briga de galos consisti num ritual performático. O que é uma performance? Segundo Schechner (2012), performances

– sejam elas artísticas, esportivas ou da vida diária – consistem na ritualizações de

[um]

comportamento ritualizado condicionado/permeado pelo jogo. (SHECHNER, 2012, p. 49), como é o caso da briga de galos descrita por no texto de Geertz. No jogo da briga de galos não está presente apenas dinheiro, mas também status. Isso não quer dizer que o status de um indivíduo dependa diretamente da rinha. Isso porque ele não está em jogo de maneira real, mas de maneira simbólica. Em um jogo o status é alterado de maneira momentânea, não definitiva. Neste sentido, segundo Geertz

sons gestos [

]

que são duplamente exercidos, codificados e transmissíveis [

]

(1978), “o status de ninguém é alterado pelo resultado de uma briga de galos (além de uns poucos casos de jogadores viciados arruinados); ele é apenas afirmado ou insultado,

e assim mesmo momentaneamente. (GEERTZ, 1978, p. 300).

Neste sentido a briga de galos um ritual esportivo permeado por elementos religiosos e pelo jogo. Richard Schechner (2012) fala do jogo enquanto performance, segundo este autor:

quando humanos e animais jogam, eles se excedem e se exibem

como o intuito de impressionar os outros jogadores, assim como

Em algumas formas,

o jogo pode parecer mais com uma forma de ritual e com o teatro.

O jogo é geralmente uma sequencia ordenada de ações realizadas

em lugares específicos por uma duração de tempo conhecida. (SCHECHNER, 2012, p. 127).

os não jogadores que estejam observando [

]

Portanto isso faz destas rinhas um evento ritual performatizado. Os enfrentamentos de entre indivíduos, grupos e facções não são reais de fato. São performatizados a partir de elementos de jogo, inseridos no ritual. Esses enfrentamentos são apresentados para um público na forma de rinha, de maneira virtual, tendo os galos enquanto seus representantes. Desse modo, Geertz aborda as rinhas balinesas enquanto um evento quase que teatral encenado por atores sociais. Para ele a briga de galos balinesa é uma forma de arte, onde são encenados dramas da vida real. Em suas palavras:

Como qualquer forma de arte – e é justamente com isso que estamos

lidando, afinal de contas – a briga de galos torna compreensível a

experiência comum, cotidiana, apresentando-a em termos de atos e

objetos dos quais foram removidas e reduzidas (ou aumentadas, se

preferirem) as consequências práticas ao nível da simples aparência

]. [

ela não mata ninguém, não castra ninguém, não reduz ninguém a

condição de animal, não altera as condiçõeos hierárquicas entre

pessoas ou remodela a hierarquia; ela nem mesmo redistribui a

renda de forma significativa. [

masculinidade, raiva, orgulho, perda, beneficência, oportunidade –

Uma

ela assume esses temas – morte,

A briga de galos só é ‘verdadeiramente real’ para os galos –

]

e, ordenando-os numa estrutura globalizante apresenta-os [

imagem, uma ficção, um modelo, uma metáfora, a briga de galos é um

meio de expressão. (GEERTZ, 1978, p. 311).

].

Fica claro, então, que Geertz analisa a briga de galos enquanto um teatro, um drama social, uma representação metafórica de temas reais, que são encenados por

galistas, para uma plateia envolvida. Conforme Esther Jean Langdon (2012) afirma, Geertz ressalta que:

“a briga de galos balinesa é mais que um jogo de poder, de riqueza ou de status. Ela é também um teatro da vida social, um espetáculo realizado pelos balineses, para os balineses, sobre os balineses.

Um círculo ‘performático’ que, compreendendo momentos de reflexividade de valores e estéticas sociais, demostra como as experiências sociais de coletividade estão ancoradas em aspectos que não estão, necessariamente, expressos nas ‘instituições’ ou em outras estruturas sociais, até então em voga na antropologia. O teatro da vida social em Bali, expressa na briga de galos, aguça experiências e promove um certo senso de coletividade, que transcende meras identificações. Fazendo galos brigarem, os homens se reconhecem, reconhecem sua cultura e realimentam seu ‘ethos’. Enquanto um espetáculo de si para si mesmo, a teia cultural vai tecendo-se e alimentando-se, vai definindo-se, e, ao mesmo tempo, vai colocando

em relevo valores até então não observáveis

(LANGDON, 2012, p.

09).

Por fim, nesse texto clássico da antropologia, o autor analisa a brigas de galos balinesa enquanto um evento ritual performatizado, a partir de uma ótica interpretativa da cultura. O autor considera a briga como uma estrutura coletivamente organizada que expressa grande parte da cultura balinesa. A partir de uma descrição densa de como os eventos são organizados e de como se dão as apostas, Geertz interpreta as rinhas e traça relações entre estas e a estrutura social e de status em Bali traçando associações metafóricas (simbólicas) e concretas entre homens e galos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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MAUSS, M. A Prece. In: MAUSS, M. Ensaios de Sociologia. São Paulo: Perspectiva. 1981 [1909].

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TURNER LIMINÓIDE

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