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UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO

CENTRO DE CIÊNCIAS BIOLÓGICAS

CURSO DE CIÊNCIAS BIOLÓGICAS/MODALIDADE CIÊNCIAS AMBIENTAIS

A CONVIVÊNCIA HARMONIOSA COM O AMBIENTE ATRAVÉS DA

AGRICULTURA ALTERNATIVA DO SÍTIO NOVA CANAÃ - PERNAMBUCO

JOSÉ ANTONIO GOMES ALBUQUERQUE CÉSAR

RECIFE

2008

JOSÉ ANTONIO GOMES ALBUQUERQUE CÉSAR

A CONVIVÊNCIA HARMONIOSA COM O AMBIENTE ATRAVÉS DA AGRICULTURA

ALTERNATIVA DO SÍTIO NOVA CANAÃ - PERNAMBUCO

Trabalho de conclusão de Curso apresentado à Coordenação do Curso de Ciências Ambientais como pré-requisito para obtenção do título de Bacharel em Ciências Biológicas/Modalidade Ciências Ambientais

Orientadora: Dra. Laíse de Holanda Cavalcanti Andrade

RECIFE

2008

JOSÉ ANTONIO GOMES ALBUQUERQUE CÉSAR

A CONVIVÊNCIA HARMONIOSA COM O AMBIENTE ATRAVÉS DA AGRICULTURA

ALTERNATIVA DO SÍTIO NOVA CANAÃ - PERNAMBUCO

Trabalho de conclusão de Curso apresentado à Coordenação do Curso de Ciências Ambientais como pré-requisito para obtenção do título de Bacharel em Ciências Biológicas/Modalidade Ciências Ambientais. Laboratório de Etnobotânica e Botânica Aplicada - LEBA.

Banca Examinadora

Profª Drª Laíse de Holanda Cavalcanti Andrade Universidade Federal de Pernambuco

Prof. Dr. Jorge Luís Schirmer de Mattos Universidade Federal Rural de Pernambuco

MSc José Arturo Costa Escobar Universidade Federal de Pernambuco

Profª. Drª. Cecília Patrícia Alves Costa Universidade Federal de Pernambuco

Recife,

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Nota:

AGRADECIMENTOS

Começo meus agradecimentos lembrando das forças da natureza que me possibilitaram viver tão maravilhosamente cada milissegundo dessa existência. Cada confusão de minha cabeça,

cada sorriso e lágrima que propiciei ou fui presenteado, cada pessoa que passou por minha vida, mesmo aqueles que eu nunca percebi fazem parte dessa natureza, pois me influenciaram com suas vibrações. Agradeço à minha mãe, Eliane de Holanda Gomes, que me concebeu, alimentou-me de carinho, educação, tendo em alguns momentos que encontrar paciência nas estrelas para tomar conta desse sujeito que desde pequeno foi meio escorregadio, mas não “impossível”; pelas críticas, conversas e discussões que engrandeceram minha estadia nesse mundo. A mulher que sempre me dá orgulho, estimulando e me inspirando. Ao homem de minha vida, meu irmão, Vasco Gomes de Albuquerque César, que me acompanhou nessa jornada a partir de meu primeiro ano de vida e, com quem desfrutei e tenho desfrutado momentos que sempre me fazem repensar o que realmente sou, relembrar minhas origens. Com ele e Marcela quero construir muitas hortas iluminadas por suas luzes para adubar nossas vidas.

A Laura Holanda Lacerda, minha irmã mais nova, a quem tive a oportunidade de

contribuir na educação e aprender tantas coisas sobre mim mesmo. Provando que estamos sempre ensinando e aprendendo no jogo da vida. Hoje, uma mocinha que me dá muito orgulho e me surpreende a cada oportunidade de diálogo. É uma luz em minha vida!!!! Aos meus pais, Marcos de Albuquerque César e Luís Carlos Barbosa Lacerda, primeiro por me colocar no mundo e depois por me criar, ensinando-me valores de alegria, aventura e

sendo privilegiado por conhecê-los. Em especial a Luis Carlos, que me deu oportunidade de vivenciar experiências que transformaram minha maneira de ser e minhas concepções de mundo.

À minha orientadora, Laíse de Holanda Cavalcanti Andrade, por acreditar em minha

vontade de trabalhar. Pelo tempo dedicado aos encontros para esclarecimentos acadêmicos e da vida. Muito obrigado por tudo! Agradeço calorosamente à família do Sítio Nova Canaã, Flávio Duarte, Chivi Marincola, Cecília e Francisco, incluindo todos os frequentadores do sítio, pela oportunidade de conviver com a realidade maravilhosa e de trabalho intenso com a natureza.

A todas as pessoas com quem tive o prazer de viver quando “molecote” e auxiliaram em minha educação, algumas vezes com um bom puxão de orelha: minha avó Andaluza de Holanda Cavalcanti, minhas tias e meus tios. Aos meus primos em primeiro e segundo graus: Úria Holanda, seus filhos Netinho e Marília; Luís Henrique de Holanda; Ricardo, sua esposa Carol e filhos Vinícius e Gabriel; Nilton Filho (Tirito); Lucinha, Sandro e seus filhos Luquinhas e Mariana. Agradeço à deusa das tempestades, Indra Elena Costa Escobar, que tem me acompanhado em meus devaneios de tentar fazer um mundo melhor. Ela me faz livre e sempre inquire meus caminhos, ajudando-me nas escolhas que faço, fazendo-me sentir e conhecer o amor verdadeiro pelas pessoas que passam por nossa vida. Obrigado “minha” índia. Meus irmãos, Marcos de Albuquerque César Filho, Patrícia Emerenciano de Albuquerque César, Frederico Emerenciano de Albuquerque César, que sempre apoiaram minha mãe na criação de seus dois filhos, se não estavam presentes, certamente emitiam boas vibrações onde estivéssemos, bem como seus companheiros e filhos. Minha linda irmã Amélia César. Amo todos vocês!!! Aos meus sobrinhos: Camila, Marcelinho, Natália (Tatazinha), Maria Eduarda, Maria Carolina, João Vítor, João Pedro e Hannah Vishnu, por me permitirem a sensação de ser tio. Este tio-anjo-torto ama vocês e nunca os esquece!! Obrigado aos meus colegas que ingressaram no curso de Ciências Ambientais 2003.1, com quem amprendi muitas coisas ao longo do curso. Em nome de Andrezinho, Mateus, Dayanna, Pão, Brunos Aguiar e barraca, Nicole, Felipe, Pollyana, Mércia, Rafael, Nise, Marina Cada um seguiu seu caminho, mas estaremos para sempre conectados por nos conhecermos. Aos meus amigos Vivianne, Flávio, Escobar, Ivana, Marininha, Carol, Drica, Kika, Kalinne, Georg, Juliana, Chico Pi, Eliane, Mago, Vítor, Renata e todos que me engrandeceram com suas presenças e dividiram suas existêcias comigo. Finalmente a todos os professores que participaram de minha graduação. Em especial para Betinho, Paulo Santos, Cecília Costa, Lucivânio Jatobá, Clóvis Cavalcanti, Luciana Ianuzi, Roxana Barreto, Thomas Enlazador, Sérgio Abranches, Jorge Mattos, Inara Leal e Jarcilene Cortez.

RESUMO

O paradigma ambiental se refere à maneira como o homem precisa reconhecer e conviver com a

natureza. Devido à emergência dessa relação, é oportuna a re-inserção de princípios e práticas

responsáveis para ocupação de áreas, que possibilitam minimizar os impactos ambientais. Esses princípios correspondem a metodologias que permeiam a Agroecologia, nova tendência multidisciplinar acadêmica, que possibilita a substituição dos modos convencionais de uso e ocupação do solo, promovendo agriculturas de base ecológica. Entre elas está a Permacultura,

que se baseia em observar os sistemas naturais, a sabedoria dos sistemas produtivos tradicionais e

o conhecimento moderno, científico e tecnológico, destinando harmonizar a interação entre

pessoas e seu entorno, provendo nossas necessidades de forma sustentável. O presente trabalho visou identificar ecotécnicas ou tecnologias alternativas do Sítio Nova Canaã (Olinda-PE), no enfoque da Permacultura, com a finalidade de demonstrar que existem maneiras responsáveis de gerir espaço e recursos locais. A partir de métodos utilizados na Etnobiologia foi possível coletar dados com formulários semi-estruturados, observação participante e a vivência, bem como aplicação de técnicas no local de estudo. O Sítio Nova Canaã apresenta técnicas de construção ecológica, sistemas agroflorestais e hortas orgânicas, além de ser auto-suficiente em água. Ainda ocorrem tecnologias de reciclagem da água utilizada e nutrientes, bem como há um sistema de aquecimento de água para banho através da energia solar. O sítio não é o único do estado de Pernambuco, mas serve como exemplo de sistemas bio-intensivos de produção e uso do espaço, possibilitando o encorajamento das práticas alternativas de relacionamento com a natureza.

Palavras-chave: Paradigma ambiental, Agroecologia, Permacultura, ecotécnicas, sistemas bio- intensivos.

ABSTRACT

The environmental paradigm tells to itself the way as the man needs to recognize and to coexist with nature, due to emergence of this relation, so there is opportune the re-insertion of principles and responsible practices for occupation of areas, which makes possible us to minimize the environmental impacts. For so much, there is the Permaculture, which is based in observing the natural systems, the wisdom of the productive traditional systems and the modern, scientific and technological knowledge, to harmonize the interaction between persons and his environment, providing our necessities of sustainable form. This research intended the identification of eco- techinques or alternative technologies of the Sítio Nova Canaã (Olinda-PE), by using permaculture as focus, to show that exists reponsable ways to administrate the spaces and the local source. From methods used in Ethnobiology was possible colect data by semi-strutured forms, presential observations and the self experience, until application from techniques in the studied place. The Sítio Nova Canaã presents techniques of ecological construction, agroforestry sistems and organic vegetable gardens, besides being water self-sufficient. Still there take place technologies of recycling of the used water and nutritious, as well as to system of heating of water for bath through the solar energy. This farm is example of bio-intensive systems of production and use of the space, but is not the only one, and makes possible the encouragement of the alternative practices of interaction with nature.

Keywords: Permaculture, environmental paradgim, ecothecnics, bio-intensive sistems.

LISTA DE FIGURAS

 

Página

Figura 1

Mapa que destaca o Sítio Nova Canaã na área rural de Olinda, Pernambuco

14

Figura 2

Chalé do Sítio Nova Canaã construído com a técnica de taipa de mão

34

Figura 3

Comunidade habitacional em Taos Pueblo, Novo Mexico

34

Figura 4

Escola Maturi. Construído nas técnicas de Adobe e taipa de mão

35

Figura 5

Tecnologias alternativas implementadas no Sítio Nova Canaã (Olinda, Pernambuco)

37

Figura 6

Horta vertical do Serta que reutiliza pneus

39

Figura 7

Irrigação “porco-espinho” desenvolvida no Serta

39

Figura 8

Caixa d’água construída na Fazenda Marizá

41

SUMÁRIO

Página

1 INTRODUÇÃO

10

2 OBJETIVOS

13

3 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

14

3.1 Paradigma economicista

14

3.2 Sustentabilidade e Des-envolvimento Autêntico Sustentável

15

3.3 Envolvimento Sustentável

16

3.4 ConhecimentoTradicional

17

3.5 Etnobiologia e Etnoecologia

18

3.6 Agroecologia

19

3.7 Agricultura de Base Ecológica

21

 

3.7.1

Permacultura

21

4

MATERIAL E MÉTODOS

23

 

4.1

Local de estudo

23

4.1.1 Área rural de Olinda

23

4.1.2 Sítio Nova Canaã

25

 

4.2

Os centros de tecnologia alternativa visitados

26

4.2.1 Serviço de Tecnologia Alternativa

26

4.2.2 Fazenda Marizá

27

 

4.3

Coleta de dados

28

4.3.1 Formulários semi-estruturados

28

4.3.2 Observação participante e vivência no Sítio Nova Canaã

29

4.4 Coleta e identificação de material botânico

30

4.5 Comparação das tecnologias adotadas no Sítio Nova Canaã e em outros

30

centros de difusão de tecnologias alternativas

5

RESULTADOS E DISCUSSÃO

31

 

5.1

Hábitos de consumo do Sítio Nova Canaã

31

5.1.1 Base energética

31

5.1.2 A água no Sítio Nova Canaã

32

5.1.3 Hábitos alimentares

32

5.2 Técnicas e tecnologias alternativas existentes no Sítio Nova Canaã

33

5.3 Espécies vegetais utilizadas no Sítio Nova Canaã

37

5.4 Sucessão ecológica e manejo dos SAFs no Sítio Nova Canaã

38

5.5 O Serviço de Tecnologias Alternativas, a Fazenda Marizá e a comparação

39

com Sítio Nova Canaã

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS

43

7 PERSPECTIVAS PARA O FUTURO

45

REFERÊNCIAS

46

APÊNDICE

50

10

1 INTRODUÇÃO

Os assentamentos humanos no passado eram pequenos e sustentáveis, alicerçados na dinâmica dos ecossistemas e ciclos biogeoquímicos do planeta, enquanto a sociedade industrial contemporânea se organiza de maneira não sustentável (ERIKSSON, 1997), pois mostra-se alicerçada apenas nos princípios econômicos. Paulatinamente, tornou-se evidente a necessidade de uma nova revolução industrial moldada para fins de sustentabilidade em escala local e global, além de ser disponível para toda a sociedade. Por consequência, ao final do Século XX era grande a preocupação acerca do meio ambiente natural, e por esta razão, a importância em relação aos parâmetros de qualidade ambiental foram se modificando e aumentando. A partir daí, percebeu-se uma gama de problemas globais que causam danos alarmantes à biosfera, incluindo a espécie humana, podendo ser irreversíveis (CAPRA, 1995). É necessário o uso de alternativas que minimizem impactos à natureza causados pelo ser humano, pois além de favorece-lo, contribuirão na re-inserção de um convívio por ações mais intuitivas de envolvimento com o meio natural que o cerca. De acordo com Huxley (1959) o ser humano tem vivido como um parasita que se sustenta do planeta, vivendo em seu hospedeiro e o enfraquecendo, promovendo sua própria destruição. Apesar de encontrar abundância na natureza, em muitos casos, ele devastou completamente o que encontrou e mudou as faces do planeta, algumas vezes para melhor, mas demasiadas vezes para pior.

As intervenções do homem em qualquer local da terra resultam sempre em alteração temporária ou permanente dos ambientes de acordo com a magnitude dos impactos causados a natureza, que sofre com a crescente geração de resíduos provenientes das necessidades supérfluas dos seres humanos. Contudo, alguns povos considerados primitivos permanecem em relação amistosa com a natureza, sendo gratos pelos benefícios auferidos, respeitando a sua complexidade e exuberância, bem como temendo e respeitando as manifestações do poder destruidor, transformador ou criador dos fenômenos naturais. Esses povos desenvolveram conhecimentos sobre o meio natural que permitiram sua sobrevivência por milhares de anos em ambientes generosos ou inóspitos (KRZYZANOWSKI, 2005). Segundo Mollison e Slay (1991), uma das bases da Permacultura é a união da sabedoria que existe em algumas comunidades tradicionais ao novo conhecimento técnico científico, pois

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isto permite que haja interdisciplinaridade partindo da intportância do conhecimento dos povos ditos tradicionais, que detêm e aplicam uma experiente observação dos padrões e princípios da natureza através de uma convivência contínua. Segundo Caporal e Costabeber (2004), há tempos que o homem busca performar modos de agricultura que sejam menos agressivos ao meio ambiente natural, sendo capazes de proteger e conservar os recursos naturais, além de tornar o uso da natureza durável no decorrer do tempo, contrapondo com o modelo de agricultura convencional que é largamente implantado no planteta terra. Para tanto, é necessário utilizar outros estilos de agricultura, que não a convencional, que é hegemônica decorrente dos descobrimentos no campo da química agrícola, da biologia e da mecânica, ocorridos já no início do século XX para se atingir uma grande produção por área cultivada. O termo Permacultura foi cunhado na década de 70 pela parceria estabelecida entre Bill Mollison e David Holmgren, desenvolvendo uma estrutura de trabalho que criasse um sistema agricultural sustentável, baseando-se inicialmente na policultura de árvores, arbustos, ervas, tubérculos e fungos. Não é apenas a junção das palavras permanente e agricultura, mas corresponde às bases para uma cultura permanente, com preceitos na ética de uso da terra. Também consiste no planejamento para a criação de sistemas ecologicamente corretos e economicamente viáveis, adotando princípios básicos, como o cuidado com o planeta Terra, o cuidado com as pessoas e o cuidado com a repartição do excesso de renda, tempo e materiais, a fim de atingir a sustentabilidade ambiental e sócio-econômica (MOLLISON; SLAY, 1991). A Permacultura caracteriza-se, portanto, pela re-introdução do homem no meio natural e constitui- se uma alternativa para o manejo adequado dos recursos respeitando os serviços ambientais. Os princípios permaculturais permitem implementar tecnologias e práticas alternativas às atividades humanas, possibilitando relação menos danosa com o mundo natural por ajudar a estabelecer sistemas sustentáveis, a partir de habitats permanentes no tempo (BERNAL et al. 2003). Com isso, promove garantia dos serviços ambientais, como a manutenção da biodiversidade, o armazenamento de carbono e a ciclagem da água, para as gerações futuras (FEARNSIDE, 1997). Os ciclos materiais e energéticos existentes no planeta Terra precisam ser respeitados pelos processos de produção aos quais a civilização contemporânea está fortemente relacionada. Mollison e Slay (1991) afirmam que os sistemas de suprimento alimentar da sociedade

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contemporânea precisam de uma rede mundial de transporte, armazenamento e publicidade que demandam muito mais energia do que uma diversidade agricultural local. A energia pode ser transferida de uma forma a outra, mas não pode desaparecer, ser criada ou destruída. Então, tem- se escolhas dos tipos de energia que se vai permitir fluir pelos sistemas, podendo definir qual será estocada e qual será deixada passar naturalmente (MOLLISON, 1981). Justifica-se a realização deste estudo, portanto, para atentarmos a novas maneiras de pensamentos e valores que promovam o respeito pelo planeta e pela vida, a partir de técnicas ecologicamente responsáveis de uso e ocupação do espaço, contrariando o mecanicismo linear do modelo de desenvolvimento atual que se encontra distante da realidade planetária. Para tanto, a Permacultura é uma das formas de interação com o entorno, que ocorre a partir do planejamento de assentamentos humanos sustentáveis, baseados em uma agricultura permanente como base para a permanência da cultura humana no mundo, reconhecendo outros seres, animais, plantas, ou o próprio planeta como ser vivo (Gaia) e com os quais estamos diretamente ligados, pois ser humano é natureza.

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2 OBJETIVOS

2.1 Objetivo geral

O objetivo geral desta pequisa é identificar e descrever as técnicas e tecnologias de agricultura alternativa praticadas na Região Metropolitana do Recife para o reconhecimento de novas formas de uso do solo e do espaço.

2.2 Objetivos específicos

Identificar e descrever as técnicas e tecnologias permaculturais praticadas no Sítio Nova Canaã, situado na Área Rural de Olinda – Pernambuco;

Comparar técnicas de agricultura alternativa praticadas no Sítio Nova Canaã e de dois centros de referência existentes no Nordeste do Brasil, a Fazenda Marizá-BA e o Serta (Serviço de Tecnologia Alternativa-PE);

Descrever as formas de manejo em estilo permacultural, categorias de uso e potencial para regeneração das espécies nativas e exóticas presentes no Sítio Nova Canaã.

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3 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

3.1 Paradigma Economicista

O paradigma economicista vigente ao qual a sociedade contemporânea está intimamente relacionada, desde sua criação, até o momento de crise que se apresenta em nosso cotidiano, faz referência a um modelo falho e falido de gerenciamento das atividades da nossa casa, o planeta Terra. Se tomarmos como base a palavra Economia, que provém dos radicais gregos oikos – casa e nomus – estudo, administração, perceberemos uma má aplicação do conceito, que desde o seu início no capitalismo, tem se restringido ao produto econômico nacional, mais especificamente em função dos fatores capital e trabalho. Segundo Binswanger (1997), este tipo de argumento negligencia totalmente a natureza e todos os serviços naturais que são essenciais para toda produção material, lembrando que a atividade econômica de produção e consumo não passa de um processo de transformação de substâncias naturais a partir dos processos industriais. Em contrapartida, um ponto de referência da teoria econômica, a partir de um modelo pré-industrial, que se baseava unicamente no uso de recursos renováveis, possibilita a interação entre produção com pouco ônus para o meio ambiente natural. O recursos renováveis provindos da natureza mantém a produção seguindo fluxos circulares, sem causar danos permanentes aos ecossistemas e, segundo economias ditas tradicionais, com base na agricultura, silvicultura e pesca, por exemplo, poderão ser novamente usados como insumos em outros processos de produção. Portanto, deve haver um novo modo de lidar com o paradigma que nos é proposto diante da problemática ambiental. Embasados em uma cultura de utilidade descartável, considerando que nossa forma de vida depende de produtos gerados a partir de processos que demandam muita energia e têm um baixo nível de retorno aos ecossistemas, a sociedade humana passou a considerar como meta do desenvolvimento a práxis do ter em detrimento do ser. A nossa sociedade adotou à qualidade de vida, um procedimento da geração de posses que nos garantem um ilusório conforto, caracterizado pelo afastamento de uma cultura permanente, no sentido de uma vida contínua através dos tempos.

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A riqueza é o acesso que a sociedade detém de suprimentos sempre crescentes de bens materiais cada vez mais diversos. Entretanto, a riqueza genuína não se configura a partir do consumo de massa, e sim da forma que as posses materiais possuem, de valor instrumental, na consequente obtenção da qualidade de vida, sendo a verdadeira riqueza humana (GOULET,

1996).

Ainda, segundo Goulet (1996), os verdadeiros componentes da riqueza genuína são: a provisão de bens essenciais para todos; modo de produção não-alienador que crie meios de vida justos; o uso de bens materiais como ferramentas para a obtenção de riquezas espirituais, que alimentem a vida e realcem o ser mais do que o ter das pessoas; e finalmente, a preferência pela riqueza da maioria em detrimento da riqueza pessoal, pois se torna mais fácil promover o bem comum. Para tanto, é preciso uma reformulação no modo econômico vigente, que considere a igualdade e equidade no que diz respeito às riquezas 1 inerentes ao homem, como alimentação, moradia, acesso à terra e liberdade, por exemplo. A aceitação de novos preceitos com vistas ao respeito e cuidado com o homem, a responsabilidade no uso da terra e para a divisão de excedentes de produção, de idéias, de conhecimentos ou recursos financeiros é iminente ao contexto da sociedade contemporânea.

3.2 Sustentabilidade e Des-envolvimento 2 Autêntico Sustentável

Uma nova cultura de uso dos recursos naturais precisa ser criada nos moldes da sustentabilidade, referente à sustentação permanente da civilização, não se restringindo ao sustento dos desejos da economia do sistema capitalista, o que gera protecionismo das grandes potências e suas corporações que ditam o ritmo do crescimento econômico. Des-envolvimento este que se preconiza como crescimento de valores que nada têm a dizer de melhoria verdadeira e considerável para os habitantes do planeta, sejam eles humanos ou não, pois a qualidade de vida de todos os seres está bem relacionada ao funcionamento sistêmico da biosfera. O des-envolvimento sustentável é um conceito que está marcado por histórias de fracassos, considerando ações práticas incoerentes com o seu contexto, e deve ser visto como

1 Considerando que estas são necessidades devem ser reconhecidas como riquezas, portanto a expressão “inerentes”. 2 Destacado o prefixo “des”, que vem da negação ao envolvimento, partindo do significado de tirar o envólucro, descobrir o que estava coberto.

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uma alternativa desvinculada do crescimento econômico a qualquer custo (VIANA, 1999). Portanto, deve-se atribuir uma nova retórica para este des-envolvimento, sendo autenticamente sustentável, partindo do ponto de vista de que as sociedades, seja a global ou as tradicionais (a margem) se engagem, logo, estejam envolvidas no processo de criação de uma cidadania global conferida pela sustentabilidade. Retomando Goulet (1996), o des-envolvimento autêntico sustentável gera três conflitos de valor sobre o que constitui o bom viver. O primeiro faz referência ao valor para a colaboração, amizade, saúde e um alto grau de igualdade econômica a partir de uso disciplinado dos recursos, em contrapartida ao modelo que preza pelo luxo material, egoísmo individual e competição econômica. Em qual desses permaneceremos por mais tempo, sabendo que o segundo não reflete as típicas relações dos ecossistemas? O segundo conflito de valor é sustentado na justiça da sociedade e deve se apoiar nos direitos políticos e liberdades individuais ou nos direitos coletivos sociais e econômicos, para assegurar o bem comum da sociedade. O último, mas não menos importante conflito de valor, centraliza-se na relação que é estabelecida entre a sociedade e a natureza. Esta é vista como um estoque de matéria-prima utilizada apenas para exploração, quando deveria ser considerada a fonte principal para a permanência da vida humana e de todas as outras formas viventes.

3.3 Envolvimento Sustentável

Os entraves no processo de formação do conceito de des-envolvimento sustentável ocorrem por conta de uma estratégia sem participação efetiva de classes da sociedade que sentem diretamente os fatores da má gestão. Isto ocorre devido à distância que os tomadores de decisão têm da realidade, no quesito conservação e manejo adequado dos ecossistemas brasileiros, pois são poucos os técnicos e autoridades que conhecem a ecologia dos ecossistemas e comunidades tradicionais brasileiras que vivem em certas áreas (VIANA, 1999). A decisão para estrátégias de planejamento, seja em ambiente urbano ou rural, precisa contemplar participação efetiva e não mascarada dos diversos atores sociais em todas as suas estâncias. Assim, poderia ser minimizado o caráter cosmético ou utilitarista para a construção de uma comunidade local com princípios montados a partir da sustentabilidade. Dessa maneira, a

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sociedade pode efetivamente contribuir para a melhoria de sua realidade, tendo em vista o bem estar local, como início para a construção de uma cidadania global. Continuar na estratégia da invasão, defendida por Paulo Freire (1983), em seu livro Extensão ou Comunicação, é esquecer que existe um sujeito invasor, e que este vem de seu espaço histórico-cultural com noções e conceitos que não condizem com a realidade de outras comunidades, influenciando ou superpondo-se em seus sistemas de valores. É necessário que o tecnificismo e cientificismo respeitem outros tipos de conhecimentos, respeitanto a diversidade dos olhares na contrução de uma melhor realidade de quaisquer partes dentro de suas necessidades. Considerando Sorrentino (2002), precisamos tornar nosso o desafio de cada um para pensar, expor e ouvir o outro sobre a questão da sustentabilidade, para juntos definirmos a história que o rumo do planeta tomará, lembrando que não podemos delegar a um só homem a responsabilidade da sobrevivência de todos nós. Esta crise na qual estamos envolvidos pede um envolvimento de todos, pois somos os originadores dessa situação e devemos tentar revertê-la. Portanto, uma sociedade autenticamente desenvolvida é a que proporciona respostas institivas e institucionais satisfatórias para as questões de valor. Respostas provocadas pela dinâmica de engajamento dos mais diversos setores, desde a sociedade civil organizada, o estado, organizações não-governamentais (ONGs) e comunidades ditas tradicionais (muitas vezes postas à margem) para a instalação de uma cidadania global sustentável, baseada no respeito às diferenças e cunhadas no uso responsável do espaço, assegurando a continuidade dos ritmos naturais. A dialogicidade que viabiliza vários olhares na busca de respostas para a mudança do modelo de civilização é a solução da práxis participativa, com vistas a mudança de desenvolvimento que se quer chegar. Para tanto, deve-se aprender a observar os vários conhecimentos, sejam eles acadêmicos ou populares, que unidos podem sugerir soluções alicerçadas em realidades locais.

3.4 Conhecimento Tradicional

O uso e ocupação dos espaços urbanos ou rurais como vem sendo praticado pela sociedade global está relativamente descompromissado com a diversidade biológica e cultural;

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embora elas sejam reconhecidas num senso amplo, faz-se necessário o retorno para maneiras menos impactantes de interação com a natureza. Nesse contexto, as populações consideradas tradicionais possuem uma carga de saberes indispensáveis e de grande importância, que pode auxiliar na maneira como a sociedade

contemporânea global se relaciona e dirige suas atividades com elevado grau de impacto aos ecossistemas. Segundo Albuquerque e Andrade (2002), o conhecimento acumulado pelas populações locais propicia uma poderosa ferramenta da qual desenvolvimentistas e conservacionistas podem se valer no planejamento e manutenção de áreas.

O conhecimento ecológico local ou tradicional pode ter grandes implicações no que diz

respeito à conservação, manejo e envolvimento de comunidades ditas tradicionais na construção

de conceitos e processos conservacionistas para a biodiversidade. Portanto, pode-se deixar de lado a idéia de que comunidades humanas obrigatoriamente causem apenas danos ao meio ambiente, e desmistificando que as comunidades locais só ocasionem bem ao meio ambiente (HANAZAKI, 2003).

É preciso permitir que haja diálogo entre as várias formas de conhecimento, seja ela

acadêmica ou não, nenhuma dela sobreposta ou excluída do processo criador e modificador das realidades do mundo. Segundo Leff (2002), a reapropriação de saberes tradicionais e sua hibridação com conhecimentos específicos modernos, não deve visar estritamente o lucro, mas sim a reprodução da cultura, interferindo nos agroecossistemas desenvolvidos pelas comunidades e no manejo de seu território. As práticas agroecológicas se baseiam nos saberes culturais, de valores tradicionais alicerçados no momento da produção com as funções simbólicas e o sentido cultural do metabolismo social com a natureza. Estas práticas enfatizam a adoção de princípios ecológicos e valores culturais relativos ao campo (LEFF, 2002).

3.5 Etnobiologia e Etnoecologia

O estudo interdisciplinar da maneira como os diversos grupos humanos apropriam-se

intelectual e materialmente dos recursos naturais está representado pela Etnobiologia e Etnoecologia (MARQUES, 2001). Estes são ramos importantes das etnociências que nos facilitam mescla de saberes, respeitando os vários olhares e modos de gestão dos recursos

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naturais. Todos os tipos de conhecimento precisam ser considerados e somados no momento de decisões, com vistas à uma gestão participativa.

O melhor entendimento dos processos e costumes de determinados grupos sociais pode

ser realizado com o uso de disciplinas que, aliadas às disciplinas da academia, contribua para

debates científicos atuais relativos à manutenção da diversidade biológica e cultural (ALBUQUERQUE et al. 2002). Portanto, as etnociências são disciplinas que visam um diálogo

entre os conhecimentos tradicional e científico, sem que um esteja sobrepujando o outro, de maneira a permitir que os vários caminhos do saber possam se intercruzar em uma construção harmoniosa para a realidade humana.

A Etnobiologia e a Etnoecologia têm sido campos que vêm contribuindo no fornecimento

de dados que muitas vezes corroboram a idéia de que as práticas locais indígenas ou campesinos

são ecologicamente sustentáveis e podem fornecer alternativas para as práticas importadas pelos

cientistas, que não raro olvidam a realidade local (ALBUQUERQUE e ANDRADE, 2002). Felizmente houve um aumento de interesse da academia em eventos e instituições relacionadas à

Etnoecologia (VIANA, 1999), o que parece ser uma tendência que vem se mantendo até os dias atuais.

Os estudos etnocientíficos contribuem para o aprofundamento do saber tradicional que a

sociedade contemporânea precisa resgatar, pois assim poderá reconhecer a simplicidade como

um dos princípios de sua origem. O conhecimento campesino (rural), indígena, quilombola, ou

de qualquer outra comunidade local, que mantém muitas de suas tradições no campo da botânica, ritos, construção e agricultura, constitui-se a verdadeira fonte de riqueza dentro da diversidade.

3.6 Agroecologia

A base da agricultura convencional que vem predominando desde a metade do século

XX está alicerçada no sistema de produção de alimentos em larga escala e no grande aporte de

energia externa que visam à manutenção da agroindústria. A preocupação com os superávits da produção deixa a desejar as condições ambiental, social e cultural da população do planeta terra,

que, de acordo com Altieri (2003), confere a fome causada pela pobreza, desigualdade e a falta

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de acesso aos alimentos e à terra. Em contrapartida a esta situação, existem maneiras menos impactantes de uso do potencial produtivo de áreas rurais que são propostas pela Agroecologia.

A Agroecologia traz um novo enfoque científico que dá suporte à transição de estilos

convencionais de cultivo para agriculturas sustentáveis, contribuindo para o estabelecimento de

processos de desenvolvimento rural sustentável do ponto de vista ambiental e a longo prazo (CAPORAL; COSTABEBER, 2002). Portanto, trata-se da união de ciências de base acadêmica

como ferramentas aliadas ao conhecimento campesino para facilitar a mudança de paradigma da produção e divisão justa de alimentos e, consequentemente, da terra, beneficiando os pequenos agricultores, que simplesmente reconhecem a importância do cuidado com a natureza. Norgaard e Sikor (1999) consideram que os agrônomos convencionais adotam uma concepção desintegrada dos atributos para interação do homem com a natureza, considerando cada parte do sistema como isolada, em uma visão atomística do ecossistema. Desta forma, ocorre uma separação no trato do agricultor com a terra, bem como do solo e as plantas, privilegiando o uso de práticas laboratoriais que não se relacionam com a realidade de comunidades locais campesinas.

A Agroecologia trata de um enfoque transdisciplinar teórico e metodológico que utiliza

ferramentas acadêmicas para estudar a atividade agrária desde a perspectiva ecológica, vinculando a essência que existe entre o solo, a planta, o animal, os microrganismos e o ser humano (GUTERRES, 2006). O que remete a Leff (2002), que afirma a contribuição do saber

agroecológico para a construção de um novo paradigma de uso da natureza, considerando novas maneiras de produzir em harmonia da mesma com a cultura a partir do potencial ecológico- tecnológico.

O enfoque agroecológico nas ciências acadêmicas permite um novo panorama de uso dos

recursos naturais, viabilizando caminhos para que a agricultura convencional se permita aos princípios da agricultura campesina familiar, direcionando a mudança para sistemas agriculturais saudáveis. Estes podem ser chamados de agroecossistemas (GUTERRES, 2006), que estão alicerçados na agricultura de base ecológica ou alternativa.

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3.7 Agricultura de Base Ecológica ou Sustentável

A finalidade da agricultura de base ecológica é diferenciar formas alternativas de manejo

agrícola da maneira convencional de gestão agrária, resultante da Revolução Verde que ocorreu

depois da Segunda Guerra Mundial, a partir da convenção no uso das máquinas e da agroquímica na agricultura para produção em larga ecala. Além disso, esta denominação

desconsidera o oportunismo das corporações que se dizem praticantes da agricultura ecológica, a partir dos “corporgânicos”, e ainda exclui os tipos de agricultura que realizam apenas a troca de agrotóxicos ou fertilizantes industriais pela utilização de fertilização orgânica (CAPORAL; COSTABEBER, 2004).

A agricultura alternativa evidencia o papel do saber do homem em integração com as

variáveis da natureza que o rodeia, considerando a leitura da terra um processo indispensável para aplicação das técnicas e tecnologias adequadas a sua realidade. Em decorrência disso, é possível que o manejo produtivo sustentável de recursos florestais e agrícolas ofereça melhores

condições de subsistência para comunidades marginalizadas do processo de produção, garantindo-lhes segurança e autonomia alimentar, graças às práticas produtivas sobre bases ecológicas e democráticas (LEFF, 2002). O desenvolvimento rural sustentável está embasado em unidades fundamentais, os agroecossistemas, que representam a impressão humana na cultura de uso da terra, partindo do planejamento, estudo, vivência e avaliação que os grupos sociais criam com o sistema que os circunda. Estes agroecossistemas são considerados pela Agroecologia como alternativas responsáveis de uso e ocupação do solo, que iniciaram a se difundir mais intensamente na segunda metade do Século XX com diversas vertentes filosóficas e de planejamento de áreas, como a Agricultura Biodinâmica, criada por Rudolf Steiner, Agricultura Natural de Masanobu Fukuoka, ou ainda a Permacultura, desenvolvida na Austrália por Bill Mollison e David Holmgren.

3.7.1 Permacultura

A Permacultura consiste no planejamento energético de áreas, sejam elas urbanas ou

rurais, de forma que exista grande uso de energia contida neste sistema. É uma agricultura

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alternativa, que pode gerar fundamentos ao enfoque agroecológico, com a finalidade de auto- gestão e desenho de sistemas agriculturais mais saudáveis do ponto de vista ambiental, social e econômico. Para tanto, o planejamento permacultural é possível graças à união dos conhecimentos tradicionais às tendências tecnológicas sustentáveis para priorizar a formação de sistemas que tentam mimetizar os padrões naturais. Segundo Holmgren (2002) a Permacultura reune as mais variadas idéias, habilidades e modos de vida que precisam ser redescobertos e desenvolvidos no intuito de otimizar a energia que provém nossas necessidades, enquanto ainda se aumenta o capital natural para as futuras gerações. Isso significa dizer que se trata tanto de um sistema de planejamento estratégico de ambientes sustentáveis a médio e longo prazo, quanto de um modo de vida que permita o fluxo energético entre os dois sistemas, o natural e o antropizado. A permacultura sintetiza a filosofia de uso da terra, mas num trabalho com a terra e não contra a mesma. Para que isto ocorra, é preciso que se conheça bem como a natureza trabalha, pois a partir dessa observação e aprendizado, podemos intervir com maior eficiência e causando menos danos ao ambiente natural (KRZYZANOWSKI, 2005). O planejamento permacultural utiliza várias áreas da academia como arquitetura, biologia, engenharias florestal e civil e quais estejam envolvidas no processo de criação de áreas com responsabilidade ambiental, social e eficência econômica. Por causa disso, a reação da academia tem sido muito variada, pois estes se sentiram lesados, no quesito conhecimento acadêmico, que ficaria em segunda estância diante da ampla difusão de saberes que a Permacultura possibilita (HOLMGREN, 2002).

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4 MATERIAL E MÉTODOS

4.1 Local de estudo

4.1.1 Área rural de Olinda

O local de estudo de técnicas alternativas foi o Sítio Nova Canaã, pertencente à área rural de Olinda (Figura 1), que é contornada pelas Segunda perimetral (Av. Senador Nilo Coelho) e PE-15 na altura do Terminal de Integração, seguindo adentro na cidade Tabajara até o lixão de Aguazinha. A área rural de Olinda totaliza 650 h, aproximadamente 14% da área do município de Olinda.

650 h, aproximadamente 14% da área do município de Olinda. Figura 1- Mapa que destaca o

Figura 1- Mapa que destaca o Sítio Nova Canaã na área rural de Olinda, Pernambuco. (Fonte: Gloogle Earth, 2008)

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A Área Rural de Olinda pertence à Mesorregião Metropolitana do Recife, que abrange uma área de 2.761 Km² do estado de Pernambuco, onde se distribuem 14 municípios com densidade demográfica de 1.208,9 hab/Km² (ANDRADE, 2003). O fluxo das águas pluviais da área rural de Olinda ocorre pela drenagem do Riacho Ouro Preto, do Canal da Malária e do Rio Fragoso, cujas nascentes estão localizadas no local. A característica rural é marcada ainda por parcela de mata atlântica não totalmente devastada, mas em processo de degradação acelerado, apresentando alguns trechos de vegetação natural, e outros constituídos por muitas árvores que provêm frutos, por exemplo, cajá (Spondias lutea L.), manga (Mangifera indica L.), cajú (Anacardium occidentale L.) e jaca (Artocarpus heterophyllus). Na Área Rural de Olinda existem alguns proprietários de sítios e granjas, além de loteamentos e invasões (aproximadamente 250), que totalizam cerca de 3000 famílias residentes. Os moradores, granjeiros e demais proprietários apresentam predisposição associativa, haja visto que foi criada a Associação do Bosque dos Cajueiros voltada para a defesa de questões ambientais e urbanísticas. Também existe há mais de dez anos a Associação de Pequenos Produtores da Área Rural de Olinda-APARO, com cerca de 100 sócios ativos. Além destas, outras formas organizativas foram identificadas, referindo-se aos pequenos produtores residentes na Área Rural de Olinda. Essas organizações formais e informais estão, de certa forma, unidas na defesa da área e em busca de novos conhecimentos e parcerias que promovam o desenvolvimento do local. Na área coexistem dois tipos de agricultura: uma de base familiar da população mais antiga no local, onde é comum além do pomar da residência, as “roças” de milho (Zea mays L.), feijão (Phaseolus vulgaris L.), macaxeira (Manihot sp.), cujos cultivos são realizados à base de tecnologia rudimentar; e outra agricultura que vem sendo praticada por novos ocupantes, pessoas que adquiriram chácaras e muitas delas se instalaram fixando residência. A mairoria dessas pessoas estão desenvolvendo, com o apoio do PRONAF/BNB, outras atividades produtivas, como apicultura, caprinocultura leiteira estabulada, fruticultura irrigada com produção de polpa, horticultura sem agrotóxico (orgânica), avicultura de integração, bovinocultura, cocoicultura, afora os cultivos tradicionais.

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4.1.2 Sítio Nova Canaã

O Sítio Nova Canaã é uma propriedade particular de aproximadamente 15 h, situada na

área rural de Olinda, que tem como proprietários o agrônomo Flávio Duarte, sua companheira, a

permacultora Chivi Maríncola, além de seus dois filhos em idade escolar. No sítio são desenvolvidos trabalhos com Permacultura, hortas orgânicas e Sistemas Agroflorestais desde 2002 e oferecidos cursos sobre Sistemas Agroflorestais (SAFs), introdução à Permacultura, construções com terra crua e introdução à Agroecologia. As atividades praticadas pelos moradores do sítio nos últimos cinco anos transformaram áreas de capoeira e charcos em matas que margeiam um córrego. Inicialmente, a residência foi instalada na porção sul do sítio, onde foi implementada uma horta orgânica para consumo e abastecimento das mercadorias para venda na feira orgânica semanal de Olinda, que se realiza aos sábados. De acordo com Moura (2007), a partir do processo de sucessão direcionada, os

proprietários puderam assistir às hortas no caminho para estágios cada vez mais complexos, a fim de lograrem sistemas arbóreos que ajudam atualmente a regular a temperatura e umidade locais, influenciando no bem-estar da família e garantindo uma biodiversidade apreciável em sua propriedade. Depois de cinco anos os moradores foram para uma nova residência, mais central da área do sítio, de onde administram as atividades de cultivo orgânico, manejo dos sistemas agroflorestais, além de planejarem mais elementos a serem implementados no sítio visando uma menor demanda de energia para sua função, considerando seus posicionamentos com estratégia energética.

O corpo de trabalhadores do sítio é constituído por sete funcionários que residem nas

imediações, sendo que um antigo funcionário vem de Chã Grande – PE e uma estagiária do curso de Engenharia Florestal da Universidade Federal Rural de Pernambuco que auxiliam nas atividades desenvolvidas no local. Seis funcionários aprenderam e estão envolvidos nas atividades referentes às técnicas alternativas de agricultura, como tipos de poda e plantios, bem como a estagiária e dois funcionários que atuam no setor de produção de massas e biscoitos

confeccionados para venda na feira orgânica de Olinda.

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4.2 Os centros de tecnologia alternativa visitados

4.2.1 Serviço de Tecnologia Alternativa

O Serviço de Tecnologia Alternativa – Serta foi criado por técnicos em agropecuária no

dia 3 de agosto de 1989 para responder a necessidade dos municípios que eram abrangidos pelo

Agreste, no intuito de construir, junto com os pequenos agricultores locais, novos modos de produção e planejamento agrícola.

O Serta fez parte de um movimento pela valorização da agricultura, do meio ambiente,

das tecnologias alternativas e pela participação dos agricultores nas decisões sobre o meio rural.

O contexto para essa iniciativa era o da época da desvalorização da agricultura, que havia chegado ao fundo do poço devido à inflação, pois os agricultores vendiam terra, gado e aplicavam o dinheiro na poupança, pois lhes parecia mais compensador financeiramente. Por conta da crise econômica e de perspectiva, os técnicos e agricultores se perguntavam até quando duraria a agricultura de base familiar no âmbito dos interesses do estado e do neoliberalismo, que gerou muitas perguntas acerca dos rumos que tomariam os pequenos produtores.

O Serta, que até então trabalhava com os pequenos agricultores, iniciou uma investida

para abranger outros setores da sociedade, por compreender as conexões existentes entre

governo e sociedade, no tocante à permanência da agricultura familiar. A partir daí, buscou interferir, principalmente com a educação popular local, na forma como cada região deve ter um processo de instrução e tomada de decisão específicas para sua realidade.

O Serta foi descobridor da escola como atuante em um papel novo com os jovens do

campo. Descobriu que a escola convencional preparava os alunos para abandonar os valores do campo, como se este não fosse um lugar e espaço de felicidade, envolvimento profissional, considerando apenas a cidade ou outras profissões como capazes de fazer as pessoas felizes. Esta escola não construía a identidade do filho do agricultor com auto-estima, pois o camponês era e ainda é visto como um sofredor que não é letrado para a vida cotidiana. Portanto, o Serta investiu na Educação Popular como ferramenta de construção de novos

conceitos, filosofias e programas práticos para o desenvolvimento de uma educação aplicada à realidade local. Priorizando o engajamento dos agricultores, seu conhecimento e sua forma de

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expressão com respeito para que estes pudessem ser atores da mudança com a qual estão caminhando.

4.2.2 Fazenda Marizá

A Fazenda Marizá localiza-se no município de Tucano, no semi-árido da Bahia, e pertence a Marsha Hanzi, suíço-americana, graduada em Antropologia pela Universidade da Flórida que reside no Brasil desde 1976. Em 1991 Marsha Hanzi realizou seu primeiro curso em Permacultura com Max Lindegger e Lea Harrison no Havaí, e em 1993 participou, inclusive na tradução, do curso de Permacultura que Bill Mollison e Scott Pittman ministraram em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Precursora da Permacultura no Brasil, Marsha Hanzi participiou da fundação do Instituto de Permacultura da Bahia - IPB, em 1992, e adquiriu grande experiência com sistemas agroflorestais, agricultura sustentável e intuitiva, incluindo o uso de florais, radiestesia e kineseologia. Junto ao IPB idealizou o Projeto de Policultura no Semi-Árido que ainda hoje trabalha abrangendo mais de mil famílias na região de Irecê-BA e foi agraciado com diversos prêmios. Em março de 2002, na areia nua do semi-árido baiano, Fazenda Marizá, em conjunto com três vizinhos criaram a primeira cultura, que foi de melancia (Citrullus lanatus (Thumb.) Matsum. & Nakai). Na área de 7 hectares existiam apenas dois cajueiros gigantescos e uma capoeira ao longo de um riacho intermitente, o qual só no período das chuvas apresenta água. A região de Caldas de Jorro é rica em águas subterrâneas, mas a água da Fazenda Marizá costuma apresentar elevada salinidade. O ano de 2002 foi marcado pela construção de uma estrada, aplicação de cercas para os 7 hectares e implementação das primeiras construções (cozinha com área, banheiros e sala). Este ano foi marcado pela presença do El Niño, que significa seca extrema para esta região da Bahia e, por conta desse fator, as primeiras tentativas de plantio tiveram pouco sucesso. O segundo ano foi seguido pela estruturação da fazenda, com a implantação dos sistemas de água, a partir das cisternas para captação de água da chuva e um poço de 21 metros de profundidade, a moradia para a coordenadora e definição das áreas de plantio. Uma roça redonda, de 7,9 metros quadrados, teve boa produção de melancia e sorgo (Sorghum bicolor L.) com as

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chuvas de verão, que ocorrem de dezembro a fevereiro, mas os resultados foram insatisfatórios nas chuvas de inverno. Hoje, esta roça é bastante adaptada em termos agroflorestais, contendo muitas plantas nativas que são usadas para criar cobertura e adubo natural (especialmente a Solanaceae conhecida como jurubeba).

O ano de 2004 foi o de aperfeiçoamento dos sistemas já implantados. A roça foi dividida

em três partes para as chuvas de inverno, que começam em maio: uma para milho, mas o terreno arenoso não se mostrou próprio para esta cultura, feijão verde, uma para aipim e uma para produção de matéria orgânica. Foi dedicado mais tempo às árvores e menos às culturas anuais, pois pode-se adquirir facilmente dos vizinhos estes recursos, com quem existe uma relação de troca mútua de conhecimentos, mercadorias e idéias. Após cinco anos as plantas lenhosas estavam em plena produção. Estas incluem: cajú, manga, goiaba (Psidium guayava L.), pinha (Annona squamosa L.), mangaba (Hancornia speciosa Gomez), umbú (Spondias tuberosa Arruda), cajá, murici (Byrsonima sp.), nim (Azadirachta indica A. Juss), acerola (Malpighia glabra L.), jamelão ou azeitona-preta (Syzygium cumini (L.) Skeels), além de espécies utilizadas para o corte de madeira e leguminosas arbóreas que servem para adubo e forragem.

4.3 Coleta de dados

A coleta de dados para o presente trabalho foi realizada a partir da aplicação de

formulários semi-estruturados segundo Albuquerque e Lucena (2004) para entrevistas com os 2 moradores do Sítio Nova Canaã e o reconhecimento das técnicas alternativas relacionadas às categorias bioconstrução, cultivos orgânicos e reciclagem de nutrientes e energia do sítio. Utilizou-se também a técnica da observação participante direta (ALBUQUERQUE; LUCENA 2004), com visitas semanais ao Sítio Nova Canaã.

4.3.1 Formulários semi-estruturados

O formulários semi-estruturados que foi aplicado logo no início do projeto consiste no

preenchimento das informações pelo entrevistador, seguido uma flexibilidade no que se refere às perguntas. Estas são parcialmente formuladas antes de ir a campo e permitem o aprofundamento

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em elementos que surgem e se demonstram importantes informações a serem relatadas (ALBUQUERQUE; LUCENA 2004). Para tanto, foi aplicado um formulário que possibilitou a

adaptação das questões que precisaram ser reformuladas, a fim de obtenção mais efetiva das respostas da realidade do sítio referente às suas ecotécnicas (LENGEN, 2004).

O formulários semi-estruturados ainda possibilitou o reconhecimento dos hábitos de

consumo do Sítio Nova Canaã, além de direcionar algumas questões referentes às espécies

vegetais usadas para compor os SAFs e a categoria de uso de cada espécie.

4.3.2 Observação participante e a vivência no sítio Nova Canaã

A observação participante plena compreende um envolvimento mais intenso do pesquisador nas atividades e costumes de um determinado grupo, comunidade ou população local, considerando seus costumes e práticas cotidianas (ALBUQUERQUE; LUCENA 2004).

A participação do pesquisador foi efetiva desde o mês de agosto de 2007 até julho de

2008, participando inclusive na criação de ambientes como, por exemplo, na formação de barreiros (mini-açudes) que captam água e a armazenam para a irrigação em áreas de inclinação moderada, ligados por canais de divergência. A partir destes canais foi possível o desenho de curvas de nível para plantio de espécies botânicas de ciclo curto, médio, anuais e perenes, para futuro direcionamento da sucessão do agroecossistema no local. Desde o início da pesquisa, a vivência no sítio ocorreu em períodos de constância semanal ou quinzenal, compreendendo a visita de apresentação, a aplicação do formulários semi- estruturados e acompanhamento das atividades triviais do sítio para fins de verificação da rotina local.

A frequência das visitas possibilitou um acompanhamento regular dos processos de

implementação de técnicas do sítio, como por exemplo, a conclusão da escola que está em seus limites, a partir das técnicas de bioconstrução taipa, também conhecida como pau-a-pique, e o adobe. A presença no local permitiu acompanhar a criação de alguns agroecossistemas, sendo

estes implementados por grupos de estudo que são convidados para cursos ministrados pelos seus proprietários em conjunto com os funcionários que ali trabalham.

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4.4 Coleta e identificação de material botânico

O material botânico coletado no Sítio Nova Canaã é constituído por espécies em sua maioria arbórea, pertencentes às categorias de construção e outras tecnologias, como cerca-viva, montagem de ferramentas do sítio (cabos de enxada), forragem e combustível, além de usadas para técnicas de poda, para cobertura do solo, e formatação de caminhos no sítio. As plantas foram coletados no período de janeiro à junho de 2008 em áreas aleatórias do sítio, onde foram encontradas com facilidade; prensadas no local e postas na estufa da sala de preparação do Herbário UFP. A partir daí foram identificadas no Laboratório de Etnobotânica e Botânica Aplicada do departamento de botânica da UFPE, com auxílio de um microscópio estereoscópico. Todos os espécimes foram identíficados pelo menos até o nível de gênero.

4.5 Comparação das tecnologias adotadas no Sítio Nova Canaã com dois centros de difusão

de tecnologias alternativas, o Serta e a Fazenda Marizá

Foi realizada a comparação entre centros de estudo de agricultura alternativa Serviço de Tecnologia Alternativa (Serta), localizado no município de Glória do Goitá, Pernambuco, e a Fazenda Marizá no município de Tucano, Bahia, que utilizam métodos não-convencionais no uso e ocupação do espaço, e o Sítio Nova Canaã. A comparação ocorreu para diagnosticar as semelhanças que ocorriam nas tecnologias adotadas em cada centro, considerando suas necessidades no tocante às condições climáticas e as realidades sociais, pois influencia nos tipos de tecnologias alternativas existentes. Desta forma, pode-se observar as prioridades de tecnologias aplicadas em cada centro visitado. Os parâmetros considerados para a comparação entre os centros se restringem às tecnologias e técnicas de uso e ocupação do solo e do espaço. Portanto, pode-se comparar a presensa de bioconstrução ou a preferência por material local para as habitações, se apresenta técnicas alternativas de plantio, tecnolocias de reciclagem de energia e nutrientes e outras tecnologias.

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5 RESULTADOS E DISCUSSÃO

A partir da aplicação do formulários semi-estruturados e da observação participante plena foi possível a obtenção de dados sobre a dinâmica dos hábitos de consumo de energia, água e alimentação do Sítio Nova Canaã, no que concerne a sua necessidade de abastecimento externo à propriedade. Com o uso destas metodologias também foi possível identificar e descrever as técnicas e tecnologias alternativas aplicadas no Sítio Nova Canaã, bem como desenvolver práticas dentro do sítio, devido à vivência do pesquisador no local.

5.1 Hábitos de consumo do Sítio Nova Canaã

5.1.1 Base energética

O sítio tem como base a energia hidrelétrica para uso geral nas habitações e para as

bombas propulsoras de água, mas apresenta alguns exemplos de energia alternativa implementados. Neste caso, considera-se tanto o uso da energia de fonte solar ou eólica, quanto

a reciclagem de nutrientes como tipos alternativos de uso energético, já que se beneficia energia

limpa disponível. Portanto, o sistema de aquecimento solar de água, as composteiras e os filtros biológicos de água compreendem o setor de consumo de energia do sítio, lembrando que nos

casos de reutilização de nutrientes para o sistema, desta forma, dispondo energia para o aprimoramento do solo, consequentemente das plantas sem a demanda por insumos externos.

Três das habitações do sítio possuem porções do teto com telhas transparentes, além de garrafas de vidro colocadas nas paredes no processo de construção com terra crua, que facilitam

a entrada da luminosidade durante o dia, minimizando o uso de energia de fonte hidrelétrica,

reduzindo a necessidade de luz acesa nas horas que há luz solar disponível. As habitações ainda

apresentam posicionamento estratégico referente as correntes predominantes de vento, que permitem a passagem de ar pelas habitações, conferindo um ambiente ventilado e confortável para os visitantes.

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5.1.2 A água no Sítio Nova Canaã

O sítio não depende da água fornecida pela Companhia de Água e Esgotos de Pernambuco (COMPESA), pois existe grande disponibilidade hídrica dentro da propriedade. Além disso, foi criado um curso d’água por uma técnica de formação de pequenas represas e do manejo direcionado da vegetação para o estrato arbóreo que segue o curso d’água, a partir deste processo transformou-se um charco em um córrego. Atualmente, o córrego apresenta uma vegetação ripária em toda a sua extensão. Mesmo assim, a área é beneficiada no inverno por causa do aparecimento de várzeas e vários olhos d’água que potencializam o uso da água e o ciclo hidrológico dentro da propriedade. No sítio existe reutilização de água de chuveiro, pias de banheiro e cozinha que é tratada e segue para sistemas agroflorestais criados próximos à casa; entretanto, não existem sistemas de captação e armazenamento de água da chuva. O planejamento destas tecnologias está sendo realizado para sua implementação em 2008, com calhas de direcionamento da água captada a sistemas de armazenamento ainda não definidos. Neste caso, a água captada tem como destino o uso doméstico. Ocorre também a formação de barreiros (pequenos açudes) ligados por canais de divergência (MOLLISON; SLAY, 1991), uma área inclinada da propriedade possibilitará armazenar água no período das chuvas, priorizando sistemas de irrigação para plantios em curva de nível.

5.1.3 Hábitos alimentares

A alimentação da família do Sítio Nova Canaã é baseada no consumo interno a partir dos frutos das árvores e pomares existentes na propriedade. Mesmo que exista o complemento pelo uso de produtos de gênero alimentício advindos de fora do Sítio Nova Canaã, ocorre uma preferência pelo consumo de alimentos mais saudáveis como orgânicos, provenientes da feira que participam, bem como arroz integral, gersal, coalhadas, yogurtes naturais e o consumo de produtos in natura, como o cajá e outros frutos que podem ser consumidos diretamente ou beneficiados para consumo próprio ou para vender na feira.

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A horta orgânica abastece contribui para a alimentação da família do sítio e apóia o

orçamento, por conta da comercialização dos produtos excedentes em feira orgânica semanal que ocorre em Olinda. Na feira ocorre tamvém a venda de tortas, bolos e sanduíches integrais produzidos no sítio com o auxílio de dois funcionáriosque moram nas imediações do sítio.

5.2 Técnicas e tecnologias alternativas existentes no Sítio Nova Canaã

A propriedade apresenta ecotécnicas que, segundo Lengen (2004), incluem-se entre

aquelas que não promovem a contaminação do ambiente circundante, nem a extinção de materiais e são de simples aplicação, contando apenas com a criatividade das pessoas envolvidas na implementação. No sítio existem técnicas de construção ecológica do tipo pau-a-pique (taipa de sopapo), taipa de pilão e adobe, reconhecidas como ecotécnicas, pois utilizam recursos locais, desde materiais e mão-de-obra (LENGEN, 2004), pois as ripas e o barro para a construção são extraídos na propriedade.

O pau-a-pique, também denominado em outras regiões de taipa de mão, foi uma das mais

tradicionais técnicas de construção que ocorreu e que ocorre em terras brasileiras, depois das técnicas dos indígenas no Brasil (SECCO et al. 2004). Encontrada nas diversas regiões do Brasil, em construções urbanas e rurais, consiste em criar uma malha de aproximadamente

15x15 cm com bambu ou madeira, neste caso a imbiriba (Eschweilera ovata (Cambess) Miers.), bem amarrados entre si e com os esteios, que servem de pilares de suporte.

A Figura 2 mostra um chalé construído na técnica taipa de mão, que teve como reboco o

barro e um pouco de cimento para dar uma maior resistência ao acabamento. O chalé é utilizado

para abrigar até dois visitantes, que estejam em época de curso, ou estagiários que podem passar noites no sítio.

O adobe é uma técnica tradicional de construção com terra crua ainda utilizada em

comunidades que constroem de maneira artesanal seus assentamentos, como no caso de Taos Pueblo (Figura 3), no México, onde os conjuntos habitacionais são todos construídos com essa técnica de bioconstrução. O processo de fabricação dos tijolos de adobe consiste em amassar a

mistura de terra e argila, deixá-los descansar num intervalo de 25 a 35 dias dependendo da

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umidade local, e, ainda úmido, colocá-los em fôrmas de madeira retangulares, deixando-os secar ao sol ou à sombra (OLIVEIRA, 2005).

deixando-os secar ao sol ou à sombra (OLIVEIRA, 2005). Figura 2: Chalé do Sítio Nova Canaã

Figura 2: Chalé do Sítio Nova Canaã construído com a técnica de taipa de mão. (Foto: O autor, 2008).

com a técnica de taipa de mão. (Foto: O autor, 2008). Figura 3- Comunidade habitacional em

Figura 3- Comunidade habitacional em Taos Pueblo, Novo México. (Foto: Oliveira (2005).

O Sítio Nova Canaã apresenta uma escola entre as árvores construída com ecotécnicas de que contemplam o pau-a-pique, o adobe e foi rebocada com uma mistura de barro e cimento, da mesma maneira que o chalé. A Escola Maturi (Figura 4) funciona durante os dias de semana, no turno da manhã, atendendo a seis crianças, com idades que vão de cinco a nove anos, e baseia-se

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na Pedagogia Waldorf, que foi criada por Rudolf Steiner, fundador da Antroposofia e da Agricultura Biodinâmica.

fundador da Antroposofia e da Agricultura Biodinâmica. Figura 4: Escola Maturi. Construído nas técnicas de Adobe

Figura 4: Escola Maturi. Construído nas técnicas de Adobe e taipa de mão do Sítio Nova Canaã, Olinda-PE. (Foto: O autor, 2008).

Além das técnicas de terra crua, foi observada a utilização de lonas de outdoors, para a cobertura de locais que servem como depósito. Esse exemplo foi considerado uma maneira alternativa de se construir pelo uso de pilares de Chichá (Sterculia foetida L.), que rebrota facilmente pela técnica da estaquia e é uma espécie com muitos exemplares no local. Outra característica que convém considerar uma forma alternativa de construção, é a reutilização de material, devido à lona usada para cobrir o depósito. Os trabalhadores do sítio auxiliam no processo de construção das unidades habitacionais que ali existem, desde a obtenção dos materiais, como ripa e barro, até a construção propriamente dita. Além dos trabalhadores, as pessoas que participam de cursos no sítio têm a oportunidade de contribuir nestes tipos de técnicas aplicadas. O sítio apresenta um sistema de aquecedor solar de água, a partir da união de garrafas PET, reutilizando material facilmente encontrado no lixo, e canos de PVC com 0,5 e 1 polegadas, que permitem o fluxo de água por uma bombona de plástico com capacidade para armazenar 250 litros. As garrafas são furadas no fundo com um ferro aquecido em brasa, que

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possui a mesma medida do orifício superior. Com o fundo ainda aquecido, é necessário unir ao orifício superior das garrafas, a fim de formar uma peça com seis PET’s alinhadas. Neste aquecedor havia onze peças, dispostas paralelamente e por onde passavam os canos de 0,5 polegadas. Neste sistema foram utilizados um total de 88 garrafas para montagem do sistema. Os canos de 0,5 polegadas são cortados em onze partes de 1,80 metros, e assim sobram dezesseis Centímetros para manuseio da montagem, pois são ligados perpendicularmente aos canos de 1 polegada. Estes ligam o sistema à bombona, admitindo água fria proveniente de sua parte inferior e enviando água aquecida para uma entrada em sua parte superior. Foi observada a confecção de um instrumento denominado “pé de galinha”, que auxilia no desenho de curvas de nível para locais com alguma inclinação. A ferramenta consiste em varas finas de madeira, neste caso a imbiriba é a espécie preferencial, mas o lacre ou o marmeleiro também podem ser usados. A reutilização dos resíduos provenientes do sítio também é promovida através dos banheiros secos, que são constituídos de duas construções de madeira dispostas lado-a-lado. Cada um possui 1m 2 de área e contém um vaso sanitário, onde são depositadas as fezes e, logo em seguida, coloca-se cinza contida num balde por meio de uma garrafa PET de dois litros cortada ao meio. A cinza é retirada do forno a lenha do sítio e serve para impedir a proliferação de microrganismos e odores indesejados. Após quatro meses essa mistura de cinzas e matéria orgânica decomposta será utilizada como adubo nas hortas. Um setor com nove composteiras formadas por material seco, material úmido e esterco de cabra, gado e galinha foi montado em janeiro de 2008 e precisou passar por noventa dias de descanso; a partir daí, foi utilizado por mais noventa dias para adubação orgânica das hortaliças que serão encaminhadas para comercialização na feira orgânica de Olinda. O sistema de filtração de água funciona pelo direcionamento da água negra (bacias sanitárias) e água cinza (banho, pia de banheiro e cozinha) para um tanque de concreto de 1 m de raio contendo brita, que promove a retenção de resíduos sólidos, cascalho e areia, que ajudam a reter menores partículas; daí a água segue para um lago ornamental, nas dimensões de 1,5 metro de raio e 1 metro de profundidade, contendo ninféas (Nymphaea sp.). Logo após, um círculo de bananeiras (Musa sp.), que preferem solos ricos em matéria orgânica, tratam de purificar a água, aproveitando os nutrientes disponíveis.

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O diagnóstico das técnicas e tecnologias praticadas no sítio estão representados na Figura

5, que demonstra a divisão em três categorias para as tecnologias alternativas. Elas estão divididas nas categorias bioconstruções, cultivo orgânico e reciclagem de nutrientes e energia, que foram constatadas a partir da catalogação, que ocorreu no formulários semi-estruturados.

que ocorreu no formulários semi-estruturados. Figura 5- Tecnologias alternativas implementadas no Sítio

Figura 5- Tecnologias alternativas implementadas no Sítio Nova Canaã (Olinda, Pernambuco)

5.3 Espécies vegetais utilizadas no Sítio Nova Canaã

As espécies botânicas da categoria construção que foram encontradas são o chichá, utilizada para pilares que sustentam uma lona de outdoor na cobertura de um depósito construído no local. São usadas ainda o lacre (Vismia guianensis(Aubl.) Choisy) e a imbiriba para ripas que

trançadas formam a estrutura da taipa (Tabela 1), sendo que estas duas últimas espécies podem ser usadas na montagem de um instrumento denominado “pé de galinha”, que serve para desenhar curvas de nível em locais inclinados. As espécies que se propagam facilmente por estaquia, logo usadas como cerca-viva e estacas que servem para a orientação no desenho das curvas de nível, são o crote (Polyscias guilfoley (Bull) L.H. Bailey), sabiá (Mimosa caesalpiniaefolia Benth.) e a gliricídia (Gliricidia sepium(Jacq.) Steud).

O uso de lenha como combustível no sítio Nova Canaã ocorre para por os dois fornos em

funcionamento para assar pães, brôas de trigo, biscoitos e massas destinados a venda na feira

38

orgânica de Olinda. Não existe preferência pelas espécies vegetais, pois a realização das podas

para manejo dos agroecossistemas permite o uso das peças maiores de cajueiro, mangueira,

sombreiro (Clitoria fairchildiana R. A. Howard) e jamelão (Syzygium cumini (L.) Skeels), por

exemplo.

Tabela 1- Algumas espécies vegetais utilizadas no Sítio Nova Canaã e suas categorias

Nome vulgar

Nome científico

Categoria de uso

Lacre

Vismia guianensis(Aubl.) Choisy

Construção/outras tecnologias

Chichá

Sterculia foetida L.

Construção

Imbiriba

Eschweilera ovata (Cambess Miers.

Construção/outras tecnologias

Crote

Polyscias guilfoley (Bull) L.H. Bailey

Cerca-viva

Sábia

Mimosa caesalpiniaefolia Benth.

Cerca-viva

Gliricídia

Gliricidia sepium(Jacq.) Steud

Cerca-viva/curvas de nível

Sombreiro

Clitoria fairchildiana R. A. Howard

Lenha/cobertura do solo

Jamelão ou

Syzygium cumini (L.) Skeels

Lenha/alimentação/cobertura do solo

azeitona roxa

Cajú

Anacardium occidentale L.

Lenha/alimentação/cobertura do solo

Cajá

Spondias lutea L.

Lenha/alimentação/cobertura do solo

Manga

Mangifera indica L.

Lenha/alimentação/cobertura do solo

As folhas e galhos finos de todas as espécies até agora citadas são deixadas no solo, para

sua cobertura, pois funcionam como uma serrapilheira, que permite a manutenção da umidade e

da qualidade do solo, impedindo o carreamento de nutrientes pelas chuvas, bem como auxiliando

a formação de um solo rico em nutrientes para posterior uso com outros plantios.

5.4 Sucessão ecológica e manejo dos SAFs no Sítio Nova Canaã

O fato do sistema agroflorestal ser considerado novo, pois apresenta 6 anos de

implementação, impossibilita o diagnóstico eficiente do processo de sucessão ecológica induzida

que Flávio Duarte desenvolveu no sítio. Entretanto, de acordo com Moura (2007), determinadas

áreas que antes eram consideradas hortas foram substituídas gradualmente por espécies vegetais

de maior porte, o que caracterizou um pomar, logo outro estágio de sucessão.

Assim como em Moura (2007), Flávio Duarte novamente faz ao sistema agroflorestal

desenvolvido por Ernst Götsch, que detém grande conhecimento adquirido ao longo do tempo de

acompanhamento e manejo de SAFs em sua propriedade no sul do estado da Bahia. Em estudo

39

realizado por Peneireiro (1999), as áreas selecionadas para comparação entre SAFs e capoeira apresentavam 12 anos de implementação e manejo, portanto apresentava um avançado estágio de sucessão ecológica induzida por Götsch.

5.5 O Serviço de Tecnologia Alternativa (Serta), a Fazenda Marizá e a comparação com Sítio Nova Canaã

A partir das visitas ao Serta foi diagnosticado que este centro tem um trabalho de desenvolvimento de tecnologias alternativas, desde o ponto de vista de cultivo, em policultura e consórcio, hortas verticais (Figuras 6) que têm a função de otimizar a utilização de espaços, até as formas de irrigação que economizam água e reutilizam materiais, como no caso do sistema “porco-espinho” (Figura 7), engenhadas por seus responsáveis.

(Figura 7), engenhadas por seus responsáveis. Figura 6: Horta vertical do Serta (Serviço de Tecnologia

Figura 6: Horta vertical do Serta (Serviço de Tecnologia Alternativa, Glória do Goitá-PE) que reutiliza pneus. (Foto: O autor, 2008).

As hortas verticais desenvolvidas no Serta são exemplo de eficiência no uso de espaços, podendo servir de exemplos de aproveitamento de áreas urbanas, o que permite aos citadinos, a

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oportunidade de produzirem determinados alimentos em um apartamento ou casa de centros urbanos.

alimentos em um apartamento ou casa de centros urbanos. Figura 7: Irrigação “porco-espinho” desenvolvida no

Figura 7: Irrigação “porco-espinho” desenvolvida no Serta (Serviço de Tecnologia Alternativa, Glória do Goitá-PE). (Foto: O autor, 2008)

As hortas do Serta contam com cultivo orgânico, sem necessidade de insumos agrícolas, bem como agrotóxicos e serve para alimentação durante os dias da semana, pois os funcionários alunos de capacitação estão presentes. Os alunos desenvolvem funções na instituição a partir de um processo de capacitação de jovens que implementam e manejam as hortas orgânicas e as áreas de SAFs (sistemas agroflorestais) que circundam o Serta, a partir de mutirões com os monitores do Serta. O projeto de capacitação é proposto para jovens que vivem próximos ou no município de Glória do Goitá – PE, abrangendo principalmente comunidades que vivem no sertão, como é o caso da sede que fica em Ibimirim, sertão de Pernambuco. O Serta tem seus prédios construídos da maneira convencional, de alvenaria, e não desenvolve trabalhos com bioconstruções, ou seja adobe, super adobe, com bambu ou com madeira local disponível. Um dos fatores que o impede é a questão fundiária, pois a instituição não é dona do terreno que ocupa, entretanto existe grande desejo de aplicar técnicas em bioconstrução no local.

41

A estadia na Fazenda Marizá possibilitou a coleta de dados acerca das tecnologias

aplicadas, realçando as diferenças que ocorrem entre os locais onde se desenvolve técnicas e tecnologias permaculturais, a partir de suas necessidades por conta das variáveis ambientais, clima e relevo, por exemplo. A localização da Fazenda Marizá justifica a construção de cisternas de armazenamento de água, com capacidade para 20.000 l de água cada, com a captação realizada pelos tetos das habitações construídas no local, direcionadas às caixas d’água por calhas. São duas caixas no total, uma localizada entre a cozinha e o alojamento da coordenadora, distantes entre si em aproximadamente 15 m, e outro sistema de armazenamento (Figura 8) a 3 m do alojamento utilizado para receber os visitantes.

8) a 3 m do alojamento utilizado para receber os visitantes. Figura 8: Caixa d’água construída

Figura 8: Caixa d’água construída na Fazenda Marizá (aproximadamente 3 m de altura). (Foto: O autor, 2008).

A partir das visitas a estes centros foi possível a comparação entre algumas das

tecnologias e técnicas encontradas no Sítio Nova Canaã, no Serta e na Fazenda Marizá. O quadro comparativo seguinte mostra a realidade das diferentes técnicas nos três locais citados.

Os três centros aplicam as técnicas e tecnologias a partir de mutirão, o qual ocorre com o

trabalho em grupo, que permite um menor tempo de atividades, pois ocasiona a divisão de tarefas

e promove o bom andamento das obras.

42

Tabela 2. Quadro comparativo das tecnologias alternativas observadas nos centros de estudo de Permacultura visitados entre agosto de 2007 e janeiro de 2008.

visitados entre agosto de 2007 e janeiro de 2008. Nos três centros foram encontradas técnicas e

Nos três centros foram encontradas técnicas e tecnologias alternativas de uso do solo e do espaço, bem como soluções baseadas na realidade local, advindas da criatividade que existe em cada centro. As soluções para cada local decorrem dos materiais disponíveis, das necessidades locais e a ênfase no trabalho desenvolvido no local, pois o Sítio Nova Canaã, o Serta e a Fazenda Marizá apresentam realidades sociais diferentes. O sítio é uma propriedade particular, assim como a Fazenda Marizá, mas localizados em biomas que apresentam características morfoclimáticas distintas. O primeiro está imerso em fragmento de mata atlântica, com grande disponibilidade hídrica, já o centro Marizá, localiza-se na caatinga e precisa estocar água, por exemplo. O Serta desenvolve trabalhos baseados na educação popular e visa capacitação dos seus frequentadores, como um centro de estudos.

43

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O estudo das técnicas e tecnologias do Sítio Nova Canaã possibilitou a quantificação das

categorias de bioconstrução, cultivo orgânico e reciclagem de nutrientes e energia. A categoria

bioconstrução apresentou o maior número das técnicas aplicadas ao local (37%), seguida de tecnologias de reciclagem (36%) e cultivos orgânicos correspondem a 27%. Entretanto, esta

relação não diz respeito ao uso das tecnologias, mas apenas a sua presença, pois existem intensos trabalhos de manejo dos sistemas agroflorestais e das hortas do sítio, que precisam de manejo contínuo para andamento dos processos de sucessão nas culturas de curto, médio e longo prazo.

O Sítio Nova Canaã apresenta exemplos de construção ecológica, sistemas agroflorestais

e modos orgânicos de plantio, bem como tecnologias de refluxo de energia, diga-se nutrientes. Por esta razão, serve de caso local para estudos envolvendo práticas de sustentabilidade e qualidade de vida envolvendo os proprietários, pois estes consomem alimentos com qualidade.

A reciclagem de materiais, provenientes ou não do sítio, mostra-se como uma alternativa a

transformação das energias que fluem no sistema. Materiais que estariam no lixo, ou seriam desperdiçados, como no caso das fezes no banheiro seco, passam a ser úteis para a realidade do local. Desta maneira, promove-se o fechamento de ciclos que poderiam ser negligenciados, rompendo a seqüência no fluxo de energia. O sítio Nova Canaã foi considerado um centro de difusão de alternativas para uso e

ocupação do espaço, apresentando SAFs, hortaliças orgânicas e construções ecológicas, portanto, semelhante a Fazenda Marizá, que representa um importante “epicentro” (denominação de Marsha Hanzi-coordenadora) de informações acerca de uso de espaços e recursos naturais moldadas na permacultura e no holismo. Mesmo apresentando diferenças com relação às variáveis ambientais, como clima, solo e topografia, estes dois locais apresentam necessidades específicas para planejamento, que ocorre de maneira não convencional.

O Serta é um importante instituito que promove capacitação em tecnologias alternativas

de irrigação, desenvolvimento de hortas orgânicas, pomares e SAFs, direcionando suas atividades

para as regiões da zona da mata e do sertão pernambucano, contudo, não se baseia nos princípios da permacultura.

A Fazenda Marizá, por se localizar na região do Semi-árido nordestino, diferenciou do

Sítio Nova Canaã apenas no fator captação e armazenamento de água, por conta da escassez deste

44

recurso no local, portanto sugerindo a necessidade de estocagem hídrica, pois no sítio existe água em abundância sempre disponível. Este estudo traz uma nova abordagem na gestão dos recursos locais, sejam estes referentes a centros urbanos ou imersos em áreas rurais, pois conta com o planejamento adequado de espaços em pequena ou larga escala para a eficiência energética, que engloba transporte, alimentação, abastecimento de produtos, dentre outras neessidades das aglomerações humanas.

45

7 PERSPECTIVAS PARA O FUTURO

Pelo fato de este estudo apresentar estratégias de planejamento de espaços uni ou poli- familiares de áreas urbanas, periurbanas ou rurais de Pernambuco, ele se transforma em uma oportunidade para aprofundamento nos fatores que influenciam a gestão local de recursos naturais ou artificiais, para, no mínimo, se obter eficiência energética nos assentamentos humanos. Portanto, este estudo pode auxiliar no desenho de assentamentos rurais, MST (Movimento dos Sem-Terra) e agricultura familiar, por exemplo, em conjunto com o conhecimento que estas comunidades detêm. Assim, pode garantir etratégias de uso em áreas periurbanas e urbanas dos municípios de Pernambuco, possibilitando ocupação eficiente de espaços, além de disponibilizar alternativas de material de contrução que casam menos danos à natureza.

46

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50

APÊNDICE

51

Formulário Semi-estruturado 1 Nome:

Nome da propriedade:

Faixa etária: ( ) 20-30 anos ( ) 30-40 anos ( ) 40-50 anos ( ) 50 anos ou mais

Nível de instrução: ( ) Sem escolaridade ( ) Nível fundamental ( ) Nível médio

( ) Nível superior

Atividade profissional:

Sexo: ( )Feminino

( )Masculino

1. O que seria Agricultura Permanente?

2. O que seria Sustentabilidade?

3. Qual a natureza dos hábitos de consumo da propriedade quanto a dependência de:

- Energia: ( ) Apenas hidroelétrica

Qual(is)?

( ) Hidroelétrica e outras

-

Abastecimento de água: ( ) Externa à propriedade

( ) Propriedade e externa

(

)

Apenas da propriedade

 

Alimentação: ( ) Exclusivamente da propriedade ( ) Propriedade e externa Exclusivamente externa

-

(

)

4.

Quais as técnicas consideradas permaculturais aplicadas na propriedade?

(

) Construção 1

( ) Cultivo em consórcio 2

 

5.

1 Para técnicas de construção, o número de pessoas que participaram na implementação das mesmas foi:

(

) até 5 pessoas ( ) 5-10 pessoas ( ) 10-20 pessoas ( )20 ou mais pessoas

6.

Quais as tecnologias permaculturais implementadas na propriedade?

(

) Captação de água

 

(

) Produção de energia renovável – Quais?

(

) Filtros biológicos de água

(

) Bioconstruções

7.

Você dá preferência a utilização de recursos locais para bioconstrução?

(

) Sim

( )Não

8.

Se sim, quais os recursos mais utilizados para construção na propriedade?

(

) Solo

( ) Madeira

( ) Materiais reaproveitáveis – lonas, telhas, azulejos, etc

9.

2 A quanto tempo você acompanha a área de sucessão natural?

 

(

) 5-10 anos

( ) 10-15 anos

( ) 15-20 anos

( ) 20-25 anos

( ) 25-30 anos

10. Qual a medida da área do sistema em sucessão?

(

11. Existiu algum tipo de intervenção na área inicialmente? ( ) Sim

12. Se sim, em que estágio se encontrava o sistema? ( ) Horta ( ) Pomar ( ) Capoeira

13. Quantas fases estágios você acompanhou para o sistema?

( ) 3 estágios sucessionais

14. Quais as espécies utilizadas? E suas contribuições para o solo e para o próximo estágio do

) 50-150m 2

( ) 150-250m 2

( ) 250-350m 2

( )mais de 350m 2

(

) Não

( ) 4 estágios sucessionais

( ) 5 estágios sucessionais

Agroecossistema? Tabela 1 2

52

Tabela 1 2

Espécie

Hábito

Manejo (época e método de coleta)

Utilização

Tipo de construção