Educomunicação no Parna Descobrimento e Resex Corumbau

Produto 5 Relatório final

Projeto para a Conservação e Manejo dos Ecossistemas Brasileiros (PROECOS) Projeto PNUD BRA/00/009 Edital 02/09 – cód. 327

Débora Menezes Jornalista e educomunicadora (73) 9922-4691 debieco@uol.com.br

Prado, Bahia, 2009

Agradecimentos

Às comunidades de Pontinha, Riacho das Ostras, Primeiro de Abril, Cumuruxatiba, Imbassuaba, Veleiro, Barra Velha, Corumbau, Caraíva, Nova Caraíva, que participaram direta ou indiretamente da construção desse trabalho. Especialmente às lideranças Dureis (Cumuruxatiba), Albino Santana Neves (Imbassuaba), Zeca do Veleiro (Veleiro), Iracema da Conceição (Corumbau), Cacique Romildo (Barra Velha) e Zé Marreco (Caraíva), pelas preciosas informações sobre a região. Aos professores da rede pública das escolas Anísio Teixeira e Homero Pires, em Prado (BA), pelas informações adicionais sobre as escolas municipais locais. À Amabele Aguiar, coordenadora do curso de jornalismo da Faculdade do Sul da Bahia (FASB), pela parceria. Aos comunicadores locais, que publicaram informações sobre o projeto, especialmente sobre o lançamento dos jornais. Às secretarias de Cultura e Turismo, Meio Ambiente e Educação, Ministério Público e Instituto do Meio Ambiente da Bahia (IMA), pelas informações, materiais e oportunidades oferecidas ao grupo de repórteres comunitários dos jornais O OITI e Tanara. À Raquel Galvão, da Secretaria Estadual de Cultura, em Teixeira de Freitas (BA), que levou nossos repórteres a Conferência Territorial de Cultura. A Jaco Galdino, colega do jornal O Timoneiro, pelas dicas e informações sobre a cultura local e a proposta do jornal comunitário. Aos colaboradores do ICMBio, Eurípedes Pontes Junior e Ronaldo Oliveira, em Prado, pelo apoio, e Flávia Rossi e Iara Carneiro, duas das responsáveis pela Estratégia Nacional de Comunicação e Educação (ENCEA) no ICMBioBrasília (DF).
Aos vigilantes do ICMBio em Prado, Carlos Mendes Jesus da Silva e Luziano Mendes da Silva, ao colaborador eventual Afonso Rogério Müller Guimarães e a toda a equipe do Parna Descobrimento, pelo apoio logístico. E à consultora Jandaíra Moscal, pelo apoio na estruturação do projeto e pelo carinho.

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ÍNDICE

Introdução ________________________________________________________4 Educomunicação e Educação Ambiental _________________________________ 5 Apresentação das UCs e das comunidades trabalhadas do entorno_____________9 Resumo das oficinas: a percepção das comunidades sobre o seu pedaço ______ 19 O processo de produção dos jornais____________________________________40 Avaliação coletiva do processo de educomunicação________________________52 Propostas para a continuidade dos processos de educomunicação____________ 62 Comentários sobre a atuação das UCs e a consultoria _____________________ 70 Bibliografia _______________________________________________________71 Anexos __________________________________________________________72

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INTRODUÇÃO

Este relatório apresenta um resumo da consultoria de educomunicação, realizada entre julho e novembro de 2009 junto a 20 participantes de três comunidades do entorno do Parque do Descobrimento (Pontinha, Riacho das Ostras e Primeiro de Abril), e 17 participantes das comunidades do entorno da Reserva Extrativista Marinha do Corumbau (com representantes de Cumuruxatiba, Imbassuaba, Veleiro, Corumbau e Barra Velha). São unidades de conservação vizinhas, que formam um corredor no litoral entre Prado e Porto Seguro, no Extremo Sul da Bahia. Por meio de oficinas de formação em jornalismo comunitário e cidadania, com carga horária de 20 horas, os dois grupos debateram sobre o acesso a informação, cultura, meio ambiente, saúde e muitos outros temas. Após as oficinas, realizadas entre agosto e setembro de 2009, foram produzidos os jornais comunitários O OITI e Tanara, com textos e fotografias feitos pelos próprios alunos. Os grupos mantém, ainda, os blogs (páginas na internet que podem ser mantidas pelos próprios autores) www.jornaltanara.blogspot.com e www.ooiti.blogspot.com, atualizados com conteúdo sobre o que construíram a partir das oficinas, e sobre a região onde vivem. O objetivo deste material é oferecer subsídios para a gestão de processos de educação ambiental em unidades de conservação, onde a comunicação cumpre importante função no entendimento sobre as UCs, as questões socioambientais e o papel de cada morador do entorno na conservação. Propõe, ainda, sugestões para a elaboração de novos processos de educomunicação, adequados a realidade da região dessa consultoria ou ainda em outras localidades.

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EDUCOMUNICAÇÃO E EDUCAÇÃO AMBIENTAL

“A educação ambiental requer a democratização dos meios de comunicação e seu comprometimento com os interesses de todos os setores da sociedade. A comunicação é um direito inalienável e os meios de comunicação de massa devem ser transformados em um canal privilegiado de educação, não somente disseminando informações em bases igualitárias, mas também promovendo intercâmbio de experiências, métodos e valores” (Tratado de Educação Ambiental Para Sociedades Sustentáveis e Responsabilidade Global)

O QUE É EDUCOMUNICAÇÃO

A educação ambiental pode e deve formar “um sujeito capaz de ‘ler’ seu ambiente e interpretar as relações, os conflitos e os problemas aí presentes” 1. Nesse processo de formação, a comunicação tem muito a contribuir, desde que se avance no entendimento sobre o que é comunicação – que vai além da divulgação e propagação de informações por meio de folhetos ou reportagens na imprensa, por exemplo. A educomunicação é um campo de estudos e de práticas metodológicas onde a comunicação exerce um papel diferenciado nos processos educativos. Os educandos que participam de formações e outros trabalhos educomunicativos são convidados a refletir sobre a mídia e a produzir conteúdo socioambiental, favorecendo a troca de saberes e o protagonismo. Ao escrever, filmar, fotografar e gravar áudios na forma de entrevistas, jornais, radionovelas e vídeos, entre outras produções midiáticas, esses participantes podem ter acesso a um conhecimento que não teriam com tanta facilidade, aprendem a pesquisar sobre os temas, despertam a curiosidade e se mobilizam a partir do conteúdo que buscaram. O Programa Nacional de Educação Ambiental (ProNEA), política pública que norteia as ações de educação ambiental do Ministério do Meio Ambiente (MMA) e do Ministério da Educação (MEC), mantém um subprograma de Educomunicação Socioambiental, lançado em 2008. Esse subprograma oferece subsídios para a elaboração e sistematização de experiências que relacionam a educação ambiental e a

comunicação, e ressalta que educomunicação “não é marketing institucional da educação ambiental, porque se constrói no diálogo e na participação democrática;
1

CARVALHO, Isabel. Educação Ambiental: a formação do sujeito ecológico. 2ª edição. São Paulo: Editora Cortez, 2004.

5

portanto, não se trata apenas de divulgar políticas ou projetos de educação ambiental”2. Esse subprograma ainda recomenda alguns princípios que a interface entre educação ambiental e comunicação deve proporcionar: • Compromisso com o diálogo permanente e continuado, onde deve ser

promovida a valorização de novos atores e perspectivas dentro dos processos educativos; • Compromisso com a interatividade e a produção participativa de

conteúdos, que deve “ser aberta e participada sem domínio de tecnologia e de saberes especializados que imponham suas competências por mérito

acadêmico” – entendendo aqui, que a educomunicação não é papel de jornalistas, por exemplo, mas de todo cidadão que tome para si a interface comunicação e educação pela sustentabilidade; • Compromisso com a transversalidade, evitando discursos cientificistas

e/ou especializados em ecologia, mas que associe esse campo do saber a outros envolvidos na questão socioambiental – o social, histórico, pedagógico, econômico, entre outros; • Encontro e diálogo de saberes, fortalecendo a “comunicação

mobilizadora” por meio de redes sociais, entre outros; • Compromisso com a proteção e a valorização do conhecimento tradicional

e popular, respeitando as identidades das comunidades tradicionais e indígenas e defendendo o direito do “acesso auto-gestionado das expressões culturais dos povos indígenas e comunidades tradicionais junto aos meios de comunicação de massa”; • Compromisso com a democratização da comunicação e com a

acessibilidade à informação socioambiental; • Compromisso com o direito à comunicação, reconhecendo-a como um

direito fundamental; • Compromisso com a não-discriminação e o respeito à diversidade

humana, que se reflete na preocupação com uma “linguagem inclusiva” em todos os meios utilizados para se promover a educação ambiental. Esses princípios são o resumo norteador de como é possível ter uma interface entre comunicação e educação ambiental, que contribua para os desafios de uma educação positivamente transformadora.

2

Ministério do Meio Ambiente (MMA). Educomunicação Socioambiental – Comunicação Popular e Educação Ambiental. Brasília, DF: MMA/Departamento de Educação Ambiental, 2008.

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A ENCEA E A EDUCOMUNICAÇÃO NAS UCS

A Estratégia Nacional de Comunicação e Educação Ambiental (ENCEA), no âmbito do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC) é um documento que está sendo construído no Instituto Chico Mendes para a Conservação da Biodiversidade (ICMBio), apontando “princípios, diretrizes, objetivos e propostas de ações

necessárias a execução de políticas públicas, programas e atividades de educação ambiental e comunicação voltadas ao (re) conhecimento, valorização, criação, implementação, gestão e defesa das unidades de conservação, por todos e para todos” 3. Essa estratégia está prevista dentro do Plano Estratégico Nacional de Áreas Protegidas (PNAP), que indica como um de seus objetivos o fortalecimento da comunicação, da educação e da sensibilização pública para a participação e controle social sobre o SNUC, lei que regulamenta a gestão das UCs no Brasil. O ponto de partida para a construção do documento norteador da ENCEA foi um diagnóstico realizado a partir de questionários respondidos por gestores de unidades de conservação sobre ações de educação ambiental e de comunicação desenvolvidas nessas localidades. A ENCEA recomenda que, para garantir a participação e o controle social nos processos de criação, implantação e gestão de UCs, é preciso, entre outros: • Incentivar e fortalecer programas e projetos que incorporem a ambiental e a comunicação nos processos de criação,

educação

implementação e gestão das UCs; • Estimular processos formativos voltados a mobilização e ao

empoderamento de atores sociais que atuam no âmbito do SNUC, para intervenção crítica e transformadora da realidade, para o enfrentamento dos desafios socioambientais e participação qualificada nas tomadas de decisão; • Incentivar e incrementar o diálogo, a cooperação e o trabalho em

rede entre os órgãos gestores do SNUC, as secretarias estaduais e municipais de educação, as comunidades escolares e os demais sujeitos sociais que atuam em comunicação e educação ambiental em UCs;

3

ICMBio/MEC/MMA. Documento Inicial: Estratégia Nacional de Comunicação e Educação Ambiental no Âmbito do Sistema Nacional de Unidades de Conservação. Brasília, DF: maio de 2009.

7

Incentivar a apropriação dos meios de comunicação e produção de

informação pelas comunidades e instituições envolvidas e afetadas pela criação, implementação e gestão de UCs; • Promover a criação de estruturas de produção e gestão popular de

comunicação que possibilitem a reflexão acerca das questões emergentes da criação e implementação de UCs, ampliando o alcance e as possibilidades de diálogo. Dessa forma, o foco dessa consultoria, em optar pela construção de jornais comunitários para promover educação ambiental e mobilização, é uma das

ferramentas da educomunicação, que se utiliza de metodologias participativas e coletivas para a apropriação de um repertório de informações e reflexões que contribuem para que a população seja inserida na gestão social das UCs. Para os gestores das unidades, esses trabalhos educomunicativos são um importante referencial de diálogo com as comunidades do entorno, que nem sempre são incluídas de forma adequada na difusão de informações sobre a importância do lugar onde vivem.

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APRESENTAÇÃO

DAS

UCs

E

DAS

COMUNIDADES

TRABALHADAS DO ENTORNO

CONTEXTO DA REGIÃO Localizados no Extremo Sul da Bahia, o Parna Descobrimento e a Resex Corumbau foram criados entre 1999 e 2000, em uma região cuja ocupação era esparsa há pouco mais de 50 anos – embora seja conhecida desde a chegada de Pedro Álvares Cabral ao Brasil (o rio Cahy, no litoral entre Cumuruxatiba e Ponta do Corumbau, foi o primeiro ponto de fundeio da armada de Cabral antes de seguir para a região de Porto Seguro e Santa Cruz Cabrália, em 1.500). Fazendas de cacau, banana e café, ocupações indígenas pataxós e pequenos núcleos de pescadores tradicionais próximo das praias e dos rios faziam parte da região que, aos poucos, ganharam um novo contorno após a construção da rodovia BR-101, na década de 1970. A costa ficou praticamente “esquecida”, enquanto o interior, próximo a rodovia, expandiu-se com propriedades que exploravam a pecuária, a extração de madeira. As vilas as suas margens tornaram-se municípios, como Eunápolis e Teixeira de Freitas. Surgiram assentamentos de reforma agrária, plantações de eucalipto e culturas diversas, especialmente a de mamão e maracujá. Atualmente, convivem nessa região que forma o Extremo Sul da Bahia, unidades de conservação de uso sustentável e de proteção integral que protegem as últimas áreas de Mata Atlântica desse trecho do Estado, aldeias indígenas que foram formadas a partir de etnias que originaram os chamados pataxós, assentamentos de reforma agrária, na maioria ligados ao Movimento dos Sem Terra - MST, pescadores tradicionais e esparsos empreendimentos de turismo. E entre os problemas socioambientais vividos na região, estão os conflitos da disputa pela terra, o uso intensivo de recursos hídricos e de agrotóxicos em culturas como a do mamão, a falta de conhecimento dos locais sobre as conseqüências da monocultura do eucalipto. A região ainda apresenta um mosaico de unidades de conservação muito próximas. Além do Parna Descobrimento e da Resex Corumbau, A área abriga ainda o Parque Nacional de Monte Pascoal, além dos territórios indígenas de Barra Velha,

Corumbauzinho e Águas Belas.

9

Figura 1: mapa da região do Parna Descobrimento e Resex Corumbau. Fonte: Conservação Internacional

PARQUE NACIONAL DO DESCOBRIMENTO Criado em 1.999 a partir das terras de uma empresa madeireira que existia na região – a Brasil Holanda, o Parque Nacional do Descobrimento tem 21.129 hectares, protege uma das maiores porções de Mata Atlântica que restaram no Extremo Sul da Bahia e nascentes de alguns dos importantes rios do município de Prado, como o Imbassuaba. O plano de manejo ainda está sendo construído e deve ser apresentado em 2.010. A unidade de conservação é cercada por propriedades rurais, plantações de eucalipto, assentamentos de reforma agrária, e passa por conflitos com comunidades indígenas que surgiram no interior do Parque em abril de 2.003.

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Parte das breves informações que seguem abaixo constam do Relatório Técnico da equipe responsável pelo plano de manejo do Parque4. Também há informações obtidas junto aos participantes das oficinas de educomunicação, que fazem parte das comunidades descritas5, e ainda alguns dados sobre as escolas presentes nessas comunidades, informadas pela Secretaria Municipal de Educação – importantes para a compreensão do processo de apropriação e de produção dos jornais comunitários, pois o nível de escolaridade influencia esse processo e interfere nas iniciativas de continuidade de projetos de educomunicação. No próximo capítulo deste relatório, Resumo das Oficinas: a Percepção das Comunidades Sobre o seu Pedaço, haverá uma descrição mais detalhada sobre o que os participantes consideram importante no lugar onde vivem, sua relação com o meio ambiente e as instituições presentes na região. E nos anexos, o jornal O OITI apresenta a história destas comunidades pelos próprios moradores. As comunidades que participaram do trabalho de educomunicação – Riacho das Ostras, Primeiro de Abril e Pontinha – são fundamentalmente rurais, apesar da proximidade de uma delas, a Primeiro de Abril, do município de Prado (22 km). Riacho e Primeiro de Abril surgiram há pouco mais de 20 anos, a partir de acampamentos iniciados pelo Movimento dos Sem Terra (MST), e reúnem pessoas nascidas na região (Itamaraju, Prado) e em outras localidades (Ilhéus, na Bahia, Espírito Santo). Já a comunidade da Pontinha, que se desenvolveu a partir da metade do século 20, o isolamento com relação ao município de Prado é maior. Ainda assim, muitos alunos de Ensino Médio estudam na cidade. Nas três comunidades o trabalho na agricultura familiar é prioritário. Pouquíssimos têm emprego – e esses poucos trabalham para a Prefeitura (duas professoras na Pontinha, por exemplo). Poucos também possuem computador, que só agora está chegando a algumas escolas rurais (já foram instalados, mas os laboratórios só entram em funcionamento a partir do ano que vem). Os jovens estudantes que vêm a cidade aproveitam para acessar ORKUT e MSN em lan-houses.

Riacho das Ostras

A 22 km do município de Prado, em direção ao distrito de Cumuruxatiba, essa
comunidade surgiu a partir de um grupo de acampados do Movimento dos Sem Terra
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Biodiversitas/IESB. Relatório Técnico – Etapa 1 – Reuniões Diagnósticos nas Comunidades do Entorno do Parque Nacional do Descobrimento. Agosto de 2009. Não publicado. 5 Os números oscilam. As comunidades fornecem números variados as equipes que realizam consultorias na região. Para o plano de manejo e para o jornal comunitário, o variação de famílias é bem diferente. Números mais exatos podem ser conseguidos com o Programa Saúde da Família (PSF), da Prefeitura Municipal de Prado.

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(MST) em 1.987. A área do assentamento, legalizado em 1.991 pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), tem 2.010 hectares e vivem na localidade 87 famílias voltadas para a agricultura familiar com plantações de maracujá, mandioca e cana. Um alambique comunitário deve ser reativado até o final de 2.009. Com um histórico de conflitos na disputa pela terra, durante as reuniões do plano de manejo as lideranças que participaram afirmaram que o assentamento não ficou sabendo da criação do Parna Descobrimento, em 1.999, e que já desmataram por “falta de informação”. Atualmente as lideranças se relacionam com a UC por meio da participação de representantes do Riacho das Ostras no conselho do Parna. Há duas escolas na localidade, atualmente dividida pelos locais em Riacho I e II, com classes

multisseriadas (onde o professor trabalha com alunos de vários níveis/séries na mesma sala de aula. Essa modalidade é comum na zona rural). Os alunos mais velhos, que estão no Ensino Médio ou no Ensino de Jovens e Adultos (EJA), a estudam uma das em Prado. no

Computadores

chegaram

escolas

segundo semestre de 2.009, mas o laboratório de informática será implantado em 2.010. Total de participantes da comunidade nas oficinas: seis.
Figura 2: rio Japara corta comunidade Foto: Débora Menezes

Pontinha I e II A 20 km de Prado, a comunidade de Pontinha I e II (se fala também em Pontinha III, cada uma com sua própria associação de moradores) espalham-se pelos dois lados da estrada que liga o município a Itamaraju. De um lado está o vale do rio Jucuruçu; do outro, algumas propriedades fazem divisa com o Parna Descobrimento. Fala-se que a localidade existe desde o início do século XX, mas foi a partir de um morador denominado “Caboco de Ozéas” (Eurípedes de França Oliva) é que a comunidade passou a se desenvolver – parte dos comunitários atuais descende da família Oliva. Vivem aproximadamente 586 pessoas nas duas comunidades.

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Há fazendas no entorno e pequenos proprietários rurais, que vivem praticamente da produção de leite, mandioca, maracujá e outros produtos. Mas a principal atividade econômica apontada pelos locais é a produção de beiju, uma espécie de biscoito produzido a partir da goma da mandioca. Há cerca de 40 farinheiras em atividade, com 250 pessoas participando da fabricação do beiju, vendido para a região e outros Estados. A produção de beiju é uma das atividades que causam impacto ao Parque, segundo os próprios comunitários, Figura 3: Produção do beiju Foto: Débora Menezes pois necessita madeira para o funcionamento dos fornos. O costume da caça é menos impactante atualmente,

garantem. A comunidade também está representada no conselho da UC. Há duas escolas na localidade, em Pontinha I e Pontinha II, de ensino multisseriado. Os alunos mais velhos, que estão no Ensino Médio ou no Ensino de Jovens e Adultos (EJA), estudam em Prado, sendo que há uma turma de EJA em Pontinha II. Computadores chegaram a uma das escolas no segundo semestre de 2.009, mas o laboratório de informática será implantado apenas em 2.010. Total de participantes da comunidade nas oficinas: oito.

Primeiro de Abril A comunidade a 22 km de Prado, com acesso pela estrada para Cumuruxatiba, tem 2.200 hectares de área e está no entorno do Parna Descobrimento. Sua participação nas oficinas de

educomunicação deu-se pela liderança que a Figura 4: Centro Comunitário de Primeiro de Abril Foto: Derni Alves, morador de Riacho das Ostras comunidade exerce entre os

assentamentos em todo o Prado – bem próxima a outra comunidade indicada pelo

Parque, a do Riacho das Ostras, e pelo bom relacionamento com a gestão do Parque e afinidade histórica e política com os comunitários de Riacho das Ostras. Além disso, a comunidade oferece estrutura propícia para a realização de cursos em um centro comunitário próprio, que foi utilizado em duas das oficinas.

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A Primeiro de Abril foi criada a partir de um acampamento de pessoas ligadas ao MST, em 1.988. Hoje vivem 43 famílias basicamente da agricultura familiar. A produção de maracujá é forte na comunidade. Há uma escola na localidade, com classes multisseriadas (várias séries na mesma turma). Os alunos mais velhos, que estão no Ensino Médio ou no Ensino de Jovens e Adultos (EJA), estudam em Prado. Não há computadores nessa escola. O Centro Comunitário de Formação Carlos Mariguella, que servia a uma parceria com a Universidade Estadual da Bahia (UNEB) para cursos de Pedagogia e Letras a estudantes de assentamentos da região, passa por um período de transição e disponibiliza pouco a estrutura para a comunidade de Primeiro de Abril. Total de participantes da comunidade nas oficinas: seis.

RESERVA EXTRATIVISTA MARINHA DE CORUMBAU A Resex Corumbau foi criada em 2.000 e abrange uma área de aproximadamente 89 mil hectares entre a ponta do Espelho, município de Porto Seguro, e a barra do Riacho das Ostras, em Prado. Por se tratar de uma reserva marinha, essa área protegida vai desde a Linha de Preamar Média6, e avança oito milhas náuticas numa extensão de 65 km de costa. Manguezais, bancos de corais e importantes ecossistemas marinhos estão protegidos na reserva, que está no grupo das unidades de conservação de uso sustentável – cuja orientação é o uso adequado dos recursos naturais pela própria comunidade, modelo diferente do que ocorre nas unidades de proteção integral como os parques. A demanda para a criação da Reserva surgiu dos próprios pescadores. Segundo relatos levantados pelo consultor em processos associativistas Ronaldo Lobão
7

,

pescadores da Ponta do Corumbau começaram a se mobilizar para a proteção de sua área de pesca de camarão, em 1.998, pois era grande a presença de barcos “de fora”. Com o apoio de instituições locais, a Reserva foi criada dois anos depois. O litoral da Resex é diversificado e os moradores do entorno são influenciados pelas questões socioambientais do panorama existente no entorno do Parna Descobrimento, como as plantações de eucalipto, assentamentos de reforma agrária, territórios indígemas, uso intenso de agrotóxicos nas monoculturas de mamão e

6

Essa linha delimita a área de Marinha que é de propriedade da União e ainda não foi demarcada na região, sendo uma competência da Secretaria do Patrimônio da União (SPU). A linha marca também o limite Oeste da Resex. 7 LOBÃO, Ronaldo. Relatório Parcial – Projeto: Fortalecimento da Gestão Participativa do Uso dos Recursos Pesqueiros na Resex Marinha de Corumbau. Prado, BA: junho, 2005.

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maracujá influenciam a paisagem. Somados a estas questões, ainda existe forte especulação imobiliária, influenciada pelo turismo cada vez mais freqüente em quase todas as localidades da Resex. A diversidade cultural no entorno da Resex Corumbau é diferente em relação as comunidades rurais trabalhadas no entorno do Parna Descobrimento. Apesar das atividades relacionadas a pesca e coleta de mariscos ainda serem marcantes – a Resex têm atualmente 420 extrativistas cadastrados – nem todos os filhos de pescadores trabalham nessa atividade. E praticamente todas as comunidades do entorno (com exceção da aldeia indígena Bugigão, Nova Caraíva e Curuípe/Espelho) possuem representatividade no Conselho Deliberativo da Resex. Em Cumuruxatiba, Corumbau, Caraíva e Espelho/Curuípe, o turismo é fonte de renda direta, especialmente no verão, quando é grande o fluxo de turistas em pousadas e restaurantes e muitos moradores trabalham nessa atividade. Mesmo quem vive da pesca, no verão tem outras fontes de renda, alugando casas, por exemplo. Além disso, é forte a presença de pessoas “de fora”, principalmente mineiros, capixabas e paulistas, não só como proprietários de empreendimentos, mas com presença em cargos públicos, como professores e diretores da rede pública. Computadores com acesso a internet começam a chegar aos poucos nessas localidades. Cumuruxatiba recebeu um infocentro (com computadores gratuitos para a população acessar a internet) no segundo semestre de 2.009 e Barra Velha possui um laboratório de informática estruturado na escola da aldeia, com um funcionário ensinando os alunos diariamente. Já as escolas municipais de Veleiro, Corumbau e Caraíva receberam computadores, ainda não instalados pelas Prefeituras (a previsão é a de que isso ocorra em 2.010). Lan-houses existem em Cumuruxatiba e Caraíva. Parte das breves informações que seguem abaixo constam do Relatório Parcial do consultor Ronaldo Lobão e também há informações obtidas junto aos participantes das oficinas de educomunicação, que fazem parte das comunidades descritas, e ainda alguns dados sobre as escolas presentes nessas comunidades, conseguidos nas Secretarias de Educação. Assim como para com as comunidades trabalhadas em Prado, esses dados são importantes para a compreensão do processo de apropriação e de produção dos jornais comunitários, pois o nível de escolaridade influencia esse processo e interfere nas iniciativas de continuidade de projetos envolvendo educomunicação.

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No próximo capítulo deste relatório, Resumo das Oficinas: a Percepção das Comunidades Sobre o seu Pedaço, haverá uma descrição mais detalhada sobre o que os participantes consideram importante no lugar onde vivem, sua relação com o meio ambiente e as instituições presentes na região.

Cumuruxatiba 36 km separam Prado do

distrito de Cumuruxatiba, vila de pescadores que no final do século 19 teve suas areias monazíticas exploradas 1.970. marco até a década há da de um praia

Desse na

período

paisagem

próxima a vila, as ruínas de um píer que serviu de apoio para a exportação de areia. Aproximadamente cinco mil Figura 5: pescador na praia de Cumuruxatiba Foto: Carol Neves, moradora de Cumuruxatiba

pessoas espalham-se pela parte baixa (o centrinho), parte alta (Morro da Fumaça e Cantagalo e rural, onde vivem agricultores e índios pataxós – alguns deles dentro da área do Parque do Descobrimento. Ainda há pescadores, mas também pousadas, restaurantes, bares e um pequeno comércio local, e a vila fica bastante movimentada no verão e muitos moradores ocupam-se em trabalhos temporários. Em Cumuruxatiba há três escolas públicas municipais de nível razoável em relação a média das escolas no município – duas delas, a Antonio Climério (1ª a 4ª séries) e a Algeziro Moura (5ª a 8ª e Ensino Médio), estão entre as escolas de Prado que receberam as maiores notas nas provas do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB), criado pelo Governo Federal para avaliar o ensino brasileiro. A vila ainda abriga um cursinho pré-vestibular mantido pela Universidade Estadual da Bahia. Há também uma certa movimentação cultural em relação a outras localidades da Resex, com grupos de capoeira, dança afro-indígena e percussão. A localidade ainda possui uma lan-house e um infocentro (com computadores gratuitos para a população acessar a internet) recém inaugurado. Total de participantes da comunidade nas oficinas: 10.

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Vizinho

a

Cumuruxatiba, com

Imbassuaba

é

um na

pequeno

núcleo dos

próximo

a

Cumuruxatiba,

pescadores

representados

Associação

Pescadores

Artesanais e Amigos da Costa do Descobrimento (APAACD). Parte da comunidade também sobrevive da agricultura familiar. Próximo está a barra do Rio Cahy, lugar onde a esquadra de Cabral. Não há escola no local e seus estudantes dirigem-se a escolas em Cumuruxatiba e no assentamento Dois Irmãos. Total de participantes da comunidade nas oficinas: 1.

Veleiro A 40 km de Cumuruxatiba, a vila está distante da praia a partir de uma caminhada de 10 minutos. Cercada por fazendas, tem aproximadamente 200 pessoas que vivem da pesca, do trabalho nas propriedades locais e da agricultura familiar. Próximo há também uma aldeia indígena pataxó denominada Tauá. No local existe uma escola municipal de 5ª a 8ª séries e EJA, em uma bem estruturada construção que também conta com laboratório de informática. Alunos de Corumbau também vem estudar nessa construção, erguida por um proprietário rural local. Total de participantes da comunidade nas oficinas: 2.

Corumbau A 10 km de Veleiro chega-se a Corumbau e Ponta do Corumbau, que reúne um tradicional vilarejo de

pescadores que dividem as praias com turistas de alto poder aquisitivo, que se hospedam nas poucas, mas

sofisticadas pousadas desse trecho do Figura 6: Barco na Ponta do Corumbau Foto: Débora Menezes litoral. Grande parte de seus

moradores são descendentes de índios

pataxós, que residem na aldeia vizinha de Barra Velha e ajudaram a formar a vila do Corumbau na década de 1950 – quando um massacre na aldeia indígena levou vários pataxós a fugirem e se estabelecerem em outros trechos desse litoral. Corumbau é conhecida por suas lideranças que ajudaram a criar a Reserva Extrativista. A pesca é focada principalmente no camarão. A pequena escola municipal

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local atende alunos de 1ª a 4ª séries e recebeu computadores este ano, mas o laboratório só será instalado em 2.010. Total de participantes da comunidade nas oficinas: 2.

Barra Velha Atravessando o rio Corumbau, a 6 km fica o Território Indígena de Barra Velha, dentro do Parque Nacional de Monte Pascoal e no entorno da Resex. Contando com as aldeias de Barra Velha, Bugigão, Pará, Campo do Boi, Porto do Boi e Meio da Mata, vivem nessa área de 8.627 hectares aproximadamente três mil pessoas. Barra Velha é considerada a “aldeia-mãe” do grupo. Grande parte de seus habitantes vive da produção de artesanato com sementes, vendidos aos turistas de Prado a Porto Seguro e para os turistas que Figura 7: entrada de Barra Velha Foto: Débora Menezes visitam o local a partir de Corumbau ou Caraíva. Quem mora mais distante da vila central, em

pequenos sítios, pesca e mantém pequenas roças de mandioca, além de árvores frutíferas. A escola local atende cerca de 700 alunos do Ensino Infantil ao Ensino Médio, com direito a disciplina de língua patxohã (de origem pataxó). Na escola há um laboratório de informática e um funcionário para ensinar os passos básicos no computador e na internet. Na aldeia ainda está sendo estruturado um ponto de cultura. A cultura indígena, aliás, é valorizada em apresentações de dança e música, dentro e fora da aldeia, em ocasiões especiais como festas. Total de participantes da comunidade nas oficinas: 2.

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RESUMO DAS OFICINAS: A PERCEPÇÃO DAS COMUNIDADES SOBRE O SEU PEDAÇO

A metodologia para a mobilização e desenvolvimento das oficinas já foi descrita em relatório anterior. Entretanto, para compreender e avaliar como o significado do processo de produzir jornal comunitário para os participantes, alguns pontos importantes precisam ser destacados novamente.

MOBILIZAÇÃO E COMUNICAÇÃO

Parna Descobrimento A orientação do gestor da UC foi a de procurar algumas lideranças locais que mantêm instituição contato constante com a do o

Parque para

Nacional iniciar

Descobrimento,

planejamento coletivo das oficinas, e propôr a eles um trabalho de mobilização para trazer participantes. Basicamente, são lideranças das associações rurais de das

moradores/produtores

comunidades de Pontinha I, Pontinha II e Riacho das Ostras. Primeiro de Abril entrou posteriormente, embora não

esteje na divisa com o Parque está relativamente próximo, Figura 8: cartaz com as decisões sobre as oficinas, em reunião realizada no Riacho das Ostras oficinas e sua Foto: Débora Menezes tem estrutura

para a realização de

liderança era próxima ao gestor. O processo de busca de participantes foi por meio de três reuniões realizadas em julho e início de agosto de 2009, para explicar os objetivos das oficinas, pensar formas de mobilizar participantes e formatar como as oficinas seriam realizadas. Uma das lideranças do Riacho das Ostras, Dernivaldo de Sousa Alves, chegou a imprimir convites para distribuir entre os jovens de sua comunidade.

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A partir dessas reuniões o formato da oficina foi definido - cinco encontros de oito horas, às quartas-feiras, com visitas guiadas pelas comunidades onde as oficinas seriam realizadas, para que todos tivessem a oportunidade de conhecer um pouco de cada uma delas. Essa sugestão fez a diferença para o grupo, que pode conhecer realidades diferentes, e ainda influenciou a produção de pauta dos primeiros jornais comunitários. Durante essas reuniões, a falta de apoio financeiro para a alimentação do grupo durante o curso foi questionada. A crítica geral era a de que “o Parque está dando um curso mas nós é que temos que pagar para participar”. Após muita negociação foi entendido que a idéia era que o próprio grupo se organizasse para a alimentação, como exercício de mobilização comunitária, e ficou combinado que as compras de cada dia seriam divididas pelo grupo que estaria recepcionando as oficinas – utilizamos espaço do Primeiro Abril para o primeiro e último dias, de Pontinha na segunda e quarta oficina, e de Riacho das Ostras na quinta oficina. Nessas reuniões também ficou acordada a logística de transporte dos grupos para cada local de realização de oficinas, o qual foi disponibilizado pelo Parque. Vale destacar, também, que muitos comunitários não entenderam os objetivos reais de “participar uma oficina para fazer jornal sem impressão garantida”, mesmo sabendo que o processo de articulação para garantir esse apoio financeiro seria estimulado durante o curso. Ainda assim, o grupo de participantes inicial se manteve praticamente até o final da capacitação. Um total de 25 pessoas participou da primeira oficina, sendo que até o final do curso restaram 19 participantes. Comunicação – O processo de mobilização para as oficinas trouxe a tona uma questão interessante para o grupo de participantes, grande parte deles lideranças em suas comunidades: como trazer pessoas que estão fora dos processos participativos? É importante destacar que praticamente as mesmas pessoas participam das formações oferecidas pela UC, das reuniões do plano de manejo, entre outros, e todo esse universo circula a um número muito reduzido de pessoas. Para refletir sobre isso, os participantes sistematizaram problemas e soluções envolvendo a questão da comunicação:

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Problemas de comunicação O fluxo de informações dentro de cada comunidade é ruim.

Propostas de solução Cada liderança precisa ter mais compromisso com a comunicação do que acontece para sua comunidade. E ter o hábito de reuniões regulares, pelo menos há cada 15 dias – o mesmo vale para o grupo que quiser garantir a continuidade do processo de fazer jornal.

O curso foi mal divulgado.

Produzir folhetos sobre os próximos cursos para distribuir. Usar rádio e cartazes nos ônibus escolares para chamar os jovens.

Os jovens das comunidades estão afastados dos processos de mobilização e de oportunidades como as do curso.

A partir do primeiro número do jornal a expectativa é a de que os jovens entendam a iniciativa de mobilização, produção coletiva e melhora da auto-estima.

Falta de continuidade de atividades.

Melhor organização coletiva e compromisso.

Resex Corumbau Assim como no Parna Descobrimento, o gestor da Resex indicou lideranças locais para iniciar o planejamento das oficinas e o processo de chamar participantes. A princípio, o foco das oficinas seria em Cumuruxatiba, por questões de logística e porque um grupo local já havia participado de uma pequena formação em jornal comunitário8. Foram realizadas duas reuniões entre julho e agosto de 2009, sendo que na primeira, o grupo seria responsável por indicar participantes. Nas comunidades mais distantes não houve reunião, apenas conversas com algumas lideranças em Veleiro e Corumbau. Na segunda reunião, lideranças de Corumbau e Caraíva questionaram porque havia preferência para Cumuruxatiba.

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Em 2006, junto a uma equipe do jornal O Timoneiro, de Caravelas.

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A mobilização para essas oficinas foi problemática por causa de conflitos internos da comunidade e da falta de entendimento sobre os objetivos da produção de um jornal comunitário. Provavelmente porque a Resex sempre foi focada na mobilização de pescadores, a consultoria de educomunicação foi muito questionada sobre o público das oficinas não ser o de pescadores ou de ter “não-nativos” participando das mesmas. Esses conflitos internos entre os comunitários de Cumuruxatiba são comuns nos processos de mobilização para reuniões, formações oferecidas pela Resex e outras instituições. Durante essas reuniões foi definida a formatação do curso, em três finais de semana. O grupo também combinou a hospedagem (por conta da localidade que receberia a oficina), a alimentação (paga por pessoa) e o transporte (apoio da Resex para os participantes de Corumbau e Veleiro até Cumuruxatiba). Não foi possível realizar oficinas em Corumbau, pois o período de oficinas coincidiu com uma época de chuvas fortes e a estrada é bem precária. E assim como aconteceu com o Parna, a instituição Resex foi questionada sobre a falta de apoio para a alimentação durante o curso. Ao todo, participaram das oficinas 16 pessoas. É importante destacar que a primeira oficina teve apoio da Resex Corumbau no fornecimento de itens de alimentação para o grupo, que não conseguiu se mobilizar para isso nesse primeiro momento.

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Figura 9: Primeira oficina do Parna Descobrimento, na comunidade de Primeiro de Abril. Ao lado, a primeira oficina da Resex Corumbau, em Cumuruxatiba. Abaixo, momentos de dinâmicas nas duas oficinas, respectivamente – os participantes Antonio (Riacho das Ostras) e Erinelza (Pontinha), e Sérgio (Veleiro) e Renata (Barra Velha) se apresentam. Foto: Débora Menezes Comunicação – Na primeira oficina o grupo debateu sobre a mobilização para o curso e a comunicação em geral, o que ela representa paras as lideranças e as comunidades. Assim como ocorre com o entorno do Parna Descobrimento, aqui também as mesmas pessoas participam das formações oferecidas pela UC, das reuniões do plano de manejo, entre outros, e todo esse universo circula a um número muito reduzido de pessoas. Para refletir sobre isso, os participantes sistematizaram problemas e soluções envolvendo a questão da comunicação. E apontaram pontos interessantes, como a presença de “filtros” para selecionar pessoas. Outro ponto a destacar é que as comunidades do entorno da Resex receberam rádios transmissores para se

comunicarem, mas esses rádios “ficam na mão” de poucos, que nem sempre compartilham seu uso. A Resex também foi bastante comentada no quesito comunicação. Reclamam que informações e pesquisas feitas na região não circulam de forma apropriada entre as

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comunidades. Comentaram sobre a presença de pesquisadores e consultores, e sobre promessas de instituições que prometeram melhorias, mas nunca retornaram para as comunidades trazendo os resultados de forma concreta. É importante destacar que todos os problemas levantados existiram durante as oficinas e durante o processo de produção do jornal. Colocá-los no papel ajudou o grupo a perceber como é possível trabalhar esses problemas para melhorá-los, embora a maioria deles tenha raízes mais profundas, nas relações sociais que se estabelecem nas comunidades da Resex e que já foram apontadas por consultores anteriores. A seguir, os problemas e soluções apontados pelo grupo:

Problemas de comunicação Faltou compartilhar o rádio.

Propostas de solução Manter o rádio ligado 24 horas em local acessível.

Rádio não é usado como deveria.

Usar várias formas de comunicação para divulgar novos cursos (telefone, impressos, cartazes).

Falta de compromisso dos envolvidos. Falta de articulação. instrumento de seleção. Falta de informação. Filtro como

Maior compromisso dos envolvidos.

Encontrar formas de agregar mais pessoas aos grupos de mobilização. Jornal como forma de conscientização da comunidade.

Não há retorno dos trabalhos de pesquisa realizados na Resex.

Propôr para os pesquisadores formas de envolver a comunidade em seus trabalhos. Exemplo: um grupo da comunidade poderia ser convidado a participar da pesquisa.

BIOMAPA – (RE) CONHECENDO O MEU PEDAÇO Parna Descobrimento Essa etapa foi uma das mais importantes dentro da propostas das oficinas. É por meio do desenho de um mapa da comunidade, feito coletivamente e com referências importantes apontadas pelo grupo (rios, pessoas, igrejas, curiosidades, pontos negativos e pontos positivos), que se inicia o processo de despertar sobre o que é

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importante destacar e melhorar nas comunidades – e que geram temas para a produção dos jornais. Os grupos se dividiram em três mapas, o de Primeiro de Abril, o de Riacho das Ostras e o da Pontinha. As referências limitaram-se ao entorno de onde o grupo presente vivia. O grupo do Riacho, por exemplo, apontou mais o que estava em volta do centro do assentamento, que é grande. A Pontinha mostrou a divisão entre os dois lados da estrada que segue de Prado e Itamaraju e divide a comunidade. Já os presentes de Primeiro de Abril limitaram-se a mostrar mais a região do centro comunitário. Todos apontaram a história e a memória como pontos positivos importantes. Curiosamente, há locais dentro do assentamento que nem parte dos próprios assentados conhece – é o caso de uma represa, a qual conhecemos na última oficina, durante uma saída fotográfica. Os grupos de Riacho das Ostras e de Pontinha apontaram pouquíssimos aspectos negativos de sua comunidade nesse primeiro exercício. Só posteriormente, durante visita guiada realizada no Riacho (quarta oficina) é que o grupo apontou como negativo o desmatamento excessivo da área quando da chegada dos assentados, no final da década de 1980. Durante visita realizada na Pontinha (segunda oficina), o grupo conheceu a produção do beiju e os problemas decorrentes dessa produção – falta de higiene, despejo de resíduos de maneira incorreta, entre outros.

Pontinha Pontos Negativos • Só apontaram a localização da estrada dividindo a comunidade e a falta de segurança na circulação das pessoas em decorrência disso. • • • • • • • • • Pontos positivos Encontro Anual de Pescadores no vale do Jucuruçu. Paisagem do Vale do Jucuruçu. Moradoras antigas como Tia Lica, que são a memória viva. Projeto Balde Cheio, iniciativa da Embrapa Pecuária para geração de renda a produtores de leite. O beiju como patrimônio local. A história de “Caboclo de Oséas”, fundador da comunidade. Farinheira Modelo.

Riacho das Ostras

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Pontos Negativos • • Alambique comunitário desativado e abandonado. Solo enfraquecido. • • •

Pontos positivos Seu Almiro, morador mais antigo. Mudança da cultura da mandioca para a do maracujá. Lote de um dos moradores vizinhos ao Parque , bom para o turismo. Fabricação de iogurte e de queijo por alguns comunitários. Agricultura orgânica de algumas roças locais.

• •

Primeiro de Abril Pontos Negativos • Plantações de eucalipto no entorno afetam a qualidade das águas locais. Plantações de mamão no entorno afetam a qualidade das águas locais. Planejamento da comunidade preocupa – haverá lugar para filhos e netos de assentados no futuro? • • •

Pontos positivos Histórico de resistência dos comunitários. Centro de Formação Comunitária. Agricultores que investiram na agricultura orgânica como Agnaldo, que trabalha com biogel. Jaqueira – ponto histórico.

Figura 10: Horta orgânica na comunidade de Primeiro de Abril e biomapa da Pontinha Fotos: Débora Menezes

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Resex Corumbau A experiência do biomapa foi importante para o grupo presente nas oficinas da Resex. Não foi possível por questões de logística visitar todas as comunidades representadas além de Cumuruxatiba (Veleiro, Corumbau, Barra Velha), mas por meio do levantamento do negativo e positivo em cada comunidade, foi possível identificar pontos em comum – principalmente a identidade pataxó e os problemas

socioambientais. Foram realizados dois mapas, um de Cumuruxatiba e Imbassuaba e outro agregando Veleiro, Corumbau e Barra Velha. O mapa de Cumuruxatiba foi o mais elaborado de ambas as turmas, Parna e Resex, pois apontaram não apenas o núcleo principal de suas comunidades, mas um espaço geográfico que incluiu o entorno e suas relações: as plantações de eucalipto, a cultura do mamão, os rios, as aldeias indígenas, o Parna Descobrimento, a parte alta e a parte baixa da comunidade e o assentamento vizinho a Imbassuaba (Modelo). Cumuruxatiba Pontos Negativos
• • • • • Monocultura de eucalipto e sua relação com os rios e o solo. Ponte do Japara Grande – estrada Cumuru a Prado. Especulação imobiliária na Areia Preta/privatização da praia. Contaminação da represa pela cultura do mamão. Poluição do rio da Barrinha e desmatamento da Mata Ciliar, no centro da vila. Extração de areia e desmatamento provocado pela Comsempe. Desmatamento e especulação imobiliária no Morro da Fumaça. Falta de planejamento territorial para o crescimento da vila. Lixão que vai mudando de lugar. Desmatamento do mangue na Pousada Rio do Peixe. Privatização do acesso às praias – problema da Barra do Cahy. Rio Imbassuaba poluído pela monocultura do eucalipto. • • • • • • •

Pontos positivos
Meninas do bordado na Areia Preta Espaço cultural informal na vila. Seu Odemir no Cantagalo. Dona Zabelê Pataxó, na Aldeia Tibá. Aldeia Pequi. Memória dos trabalhadores da Comsempe. Morro da Fumaça com mata de mussurunga (muita biriba pra fazer berimbau). Cocadas de dona Lucinha e dona Neuza. Nema Cumuru. Seu Cosme, morador antigo. Baleias. Associação de Pescadores em Imbassuaba. Assentamento Modelo. Dona Jovita da Aldeia Cahy.

• • • • • • •

• • • • • • •

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Corumbau Pontos Negativos • • • Especulação imobiliária. Expulsão dos moradores do Bugigão. Defumador de camarão cuja fumaça incomoda moradores em volta (um deles está doente). Esgoto no mangue. • •

Pontos positivos Posto de saúde construído por um empresário local. Casa do Poeta Honorato.

Barra Velha Pontos Negativos • • • Biblioteca queimada e ainda não reconstruída. Viveiro do Sebrae abandonado. Lideranças locais (Pajé, Romildo). • • •

Pontos positivos Uso da biblioteca ainda ativa. Centro Cultural Indígena, que atua como ponto de cultura. Turismo organizado pelos locais.

Veleiro Pontos Negativos • • • • • Igrejas evangélicas muitas vezes desmobilizam a luta comunitária. Falta de fiscalização. Tráfico de animais silvestres. Desmatamento do Parque do Descobrimento próximo dali e das aldeias com problemas atrapalha a identidade indígena. Falta de preparo para receber a energia elétrica que chegará. Privatização das praias – falta de acesso fechado por fazendas. • • • • • • Pontos positivos Presença de igrejas evangélicas. Resex como fator de empoderamento. Pesca artesanal a vela. Aldeia Tauá. Mobilização das comunidades indígenas. Sede da associação e escola.

• •

Figura 11: Ao lado, trecho do biomapa de Cumuruxatiba. Acima, biomapa de Barra Velha, Veleiro e Corumbau.

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CANAIS DE INFORMAÇÃO: A RELAÇÃO COM AS INSTITUIÇÕES LOCAIS Essa ferramenta utilizada em atividades de Diagnóstico Rural Participativo (DRP) foi adaptada para as oficinas de educomunicação, com o objetivo de fazer com que o grupo reconhecesse as relações entre os atores sociais, as comunidades e as instituições que fazem parte de seu meio. Foi proposto aos participantes que inicialmente apontassem as instituições que conheciam e que tinham relações com a comunidade; que indicassem o grau de importância dessas instituições e o desenhassem em bolas de cartolina. O grau de importância seria definido por pequeno, médio e grande. Em seguida, deveriam apontar a distância dessas instituições em relação ao Nós, isto é, no que diz respeito ao acesso a informações dessas instituições e a proximidade delas com as comunidades. O reconhecimento das instituições e da falta de comunicação entre elas e as comunidades apontou caminhos para a pauta dos jornais comunitários das duas UCs – muitos dos assuntos abordados nos biomapas têm a ver com essa rede de relações, que precisa ser construída tanto pelos comunitários – como cidadãos em busca do direito de acesso a informação – quanto pelas instituições – que tem o dever de informar/esclarecer as pessoas sobre o seu papel. Ao longo do processo de produção dos jornais comunitários, parte dos participantes visitou algumas instituições para conhecer melhor o que fazem, como o Ministério Público, o ICMBio – Parna Descobrimento, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e o Instituto de Meio Ambiente da Bahia (IMA). Muitos desses visitantes desconheciam alguns desses órgãos e nem mesmo apontaram alguns deles no diagrama comentado abaixo – caso do IMA. Também desconheciam o Fundo Municipal de Meio Ambiente, mantido pela secretaria municipal de meio ambiente para o fomento de projetos de educação ambiental locais. Embora o papel de cada órgão ainda seja confuso para a maioria dos participantes, a possibilidade de conhecer sua atuação e apontá-la nos jornais mostrou-se uma ferramenta atraente para os comunitários. Sem esse conhecimento/acesso a informação sobre o que fazem esses órgãos, a mobilização – e por conseqüência os processos de educação ambiental – ficam mais difíceis. É importante destacar ainda que na região trabalhada, muitos desses órgãos (caso do próprio IMA e da FUNAI) ficam em cidades vizinhas ao município de Prado. A distância entre as comunidades e esses órgãos é ainda maior por esse fator. Soma-se a isso o fato de que internet ainda não é realidade, especialmente nas comunidades

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rurais – e o esforço de comunicação de determinados órgãos em disponibilizar informações pela rede virtual não é válido como única ferramenta para garantir o acesso a informação.

Diagrama - Parna Descobrimento

A construção do diagrama nas oficinas do Parna foi um trabalho demorado e que gerou muito debate entre os presentes, principalmente por que duas das comunidades tem forte ligação com o MST e outras não. Como o diagrama era para ser elaborado entre as três comunidades, tiveram que chegar em consenso. Os próprios

simpatizantes e participantes do MST também lembraram que o Movimento não está tão próximo assim das comunidades, embora tenha sua importância histórica. A maioria dos participantes apontou como mais próximas as instituições que prestam serviços diretos a suas comunidades, ou que fazem propaganda na televisão. E não apontaram o ICMBio, apenas o Ibama, inicialmente, quando alguém lembrou que os carros agora têm adesivo do ICMBio. Não citaram órgãos públicos importantes para a realidade local, como o Ministério Público, e IMA. Terminado o diagrama, foi comentado pela consultora sobre as instituições que não apareceram e iniciado um pequeno debate sobre como essa proximidade poderia ser melhorada, e qual a relação entre esse diagrama e a questão dos direitos e deveres da oficina anterior. A experiência serviu para que as comunidades ainda

compartilhassem problemas comuns.

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Figura 12: Diagrama de Venn realizado pela Pontinha, Primeiro de Abril e Riacho das Ostras

Diagrama - Resex Corumbau

Como o grupo maior de participantes é de Cumuruxatiba, surgiram como importantes e próximas à comunidade as instituições culturais locais, que não necessariamente estão próximas das outras comunidades presentes na Resex – caso da Acaic, por exemplo. Também apontaram que algumas instituições, como a Aspav, só parece próxima às comunidades porque seu representante, Zeca do Veleiro, é ativo no grupo. A maioria dos órgãos federais e estaduais foram apontados como distantes, mas de grande importância - caso do ICMBio, FUNAI, Funasa e INCRA. Os participantes também não sabiam a função de muitos desses órgãos, como o IMA, e a diferença entre eles. Algumas lideranças lembraram, ainda, que embora existam aldeias indígenas na região e ainda conflitos de terra envolvendo-as, a FUNAI é um órgão distante, de difícil comunicação com as comunidades. E tanto na Resex, quanto no Parna, ainda se confunde os nomes e as funções do ICMBio e IBAMA.

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Também apontaram a ong NEMA (Núcleos de Estudos do Meio Ambiente de Cumuruxatiba) como órgão importante, mas ela está temporariamente desativada.

Figura 13: Diagrama de Venn realizado por Cumuruxatiba, Imbassuaba, Veleiro, Corumbau e Barra Velha.

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PLANEJAMENTO DOS JORNAIS COMUNITÁRIOS

A última etapa das oficinas foi dedicada ao planejamento dos jornais e reflete todas os debates e reflexões propostos ao longo dos cursos. Reflete, também, os anseios pessoais e coletivos de cada comunitário. É importante destacar que o momento de se pensar “porque e para que serve o jornal”, tanto o grupo do Parna quanto o grupo da Resex preocuparam-se em indicar a valorização da cultura local e do acesso a informações. O município de Prado não possui nenhum jornal impresso em circulação. Os poucos jornais que aparecem por aqui são das cidades vizinhas de Teixeira de Freitas e Itamaraju, que dizem abordar “toda a região do Extremo Sul” e acabam abordando muito pouco sobre o litoral, priorizando reportagens sobre política e boletins policiais. Também há sites com noticiário sobre a região na internet, que sofrem da mesma limitação. Os participantes das oficinas de educomunicação fizeram exercícios de análise crítica de alguns desses veículos de comunicação locais e constaram que o espaço que se dá a cultura das comunidades rurais e de pescadores é “pouco ou nulo”. Daí a preocupação em abordar esse universo em seus jornais comunitários, para mostrar a população coisas positivas que não aparecem nos veículos da região.

Figura 14: Fazendo a leitura crítica de jornais da região, nas oficinas da Resex e do Parna. Fotos: Débora Menezes

Planejamento do jornal - Parna Descobrimento

Iniciamos o processo de planejamento convidando os participantes a refletirem: para que serviria um jornal? Quem seria o público? Os alunos demonstraram especial interesse em levar o jornal para além dos limites da comunidade, afirmando que as

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pessoas da cidade não conhecem o que fazem as comunidades rurais e têm preconceito em relação as pessoas que vêm dessas localidades. É curioso como a preocupação do grupo estava mais em mostrar o jornal para o município do Prado do que para as comunidades do entorno. Dernivaldo explicou que “existe muito preconceito e pouco entendimento sobre quem mora no meio rural”, e muitos alunos do interior da cidade estudam nas escolas da zona urbana. Para Dernivaldo, o jornal traria auto-estima a quem pertence a zona rural. Curiosamente, na hora de escolher um nome para o jornal o grupo priorizou títulos mais “urbanos” e termos em inglês – News, Diário. Só depois de muito debate chegaram ao nome O OITI, uma fruta típica da região, encontrada nas três comunidades, que simbolizaria o que elas têm em comum. O aluno Tiago dos Santos se responsabilizou pelo desenho-logotipo do jornal comunitário, e além da fruta, acrescentou formigas levando folhas a um formigueiro – indicando o trabalho coletivo do grupo que estava fazendo o jornal. Já a escolha das pautas iniciais espelha o que importa para cada comunidade participante. O grupo de Primeiro de Abril indicou os temas “história do Primeiro de Abril”, e “biogel – adubo orgânico”. O grupo da Pontinha indicou a “história do beiju” e “memória de Caboclo de Oséas”, fundador da comunidade. Já o grupo de Riacho das Ostras sinalizou interesse em escrever sobre agricultura orgânica e o fato de gerar “saúde para quem consome e dinheiro para quem produz”, e outra matéria sobre a questão da saúde no bairro onde moram – um dos postos de saúde foi fechado e o agente comunitário de saúde não passa com frequência na casa dos moradores. Para esse levantamento de pauta, os grupos foram

orientados a escolher o tema, os objetivos que dessa matéria, ser de da a

pessoas

poderiam fontes

entrevistadas, pesquisa, matéria.

formato/gênero Percebe-se

dificuldade em indicar fontes para Figura 15: Construindo o jornal comunitário no Parna Foto: Débora Menezes além das pois próprias muitos

comunidades,

desconhecem os canais e as

instituições responsáveis que poderiam contribuir com suas matérias.

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PLANEJAMENTO JORNAL O OITI Data de lançamento 17 de outubro. Porque/ para que (objetivos do jornal) Mostrar a realidade local de forma diferente do que a mídia normalmente mostra. Divulgar os produtos locais feitos pelas comunidades rurais. Expôr problemas locais e apontar soluções. Facilitar o acesso da comunidade às instituições locais, chamando a atenção dos leitores para seus direitos e seus deveres.

O que é (descrição do jornal) Jornal no formato A4 (papel jornal), 6 a 8 páginas. Textos, fotos e desenhos (quadrinhos, charges) sobre temas importantes. Número de exemplares: 1.000. Página 1 – Capa. Página 2 – Expediente, editorial, charge. Página 3 – Assuntos da cidade: saúde, educação. Apresentação de uma instituição local para a comunidade. Página 4 – Reportagem Especial. Receitas. Páginas 6 – História das comunidades. Ficha da Planta – Curiosidades e informações sobre plantas que existem nas comunidades. Página 7 – Entretenimento: história em quadrinhos, caça-palavras, memória de personagem local. Página 8 – Reportagens sobre agricultura.

Para quem (público leitor do jornal) As três comunidades locais – Pontinha, Riacho das Ostras, Primeiro de Abril – e outras comunidades rurais. Meio urbano – Prado, Itamaraju, Teixeira de Freitas.

Como o jornal será distribuído Reuniões e assembléias das associações comunitárias. Reunião do conselho de agricultura. Igrejas e escolas (deixando como arquivo). Pontos estratégicos em Teixeira de Freitas e Itamaraju – feiras. Instituições em Prado: prefeitura, ongs, associações, Câmara dos Vereadores. Durante reunião da Conferência Municipal de Cultura (dia 17).

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Recursos que temos para produzir o jornal/como buscar Diagramação do jornal: computador Débora e do Sindicato dos Produtores Rurais (Tiana vai solicitar apoio para 5 a 7 de outubro). Máquina fotográfica: uma emprestada do Parque com Dernivaldo (Riacho), Erinelza/Jackson (Pontinha) Impressão do jornal: Conversa com o proprietário da gráfica em Teixeira, para conseguir desconto; Rifa da Pontinha; Pessoal da Pontinha irá tentar os fazendeiros da região; Riacho das Ostras vai verificar possibilidade de usar resíduos do eucalipto e contato com pousadas em Prado. Sr. Pimentel/Imobiliária ao lado Prefeitura. Para os contatos, grupo vai levar um folheto para conseguir apoio junto a comerciantes e fazendeiros. Em troca do apoio, haverá espaço no jornal para a logomarca do apoiador.

Para o futuro... recursos que precisaremos para viabilizar os próximos jornais Tinta para impressora e papel sulfite. Apoio do telecentro para a produção do jornal. Máquina fotográfica para o grupo. Transporte para a produção de reportagens, idas a gráficas, etc. Na forma de passagem de ônibus ou ajuda com combustível. Alimentação para a ida de produção de matérias. Diagramação e impressão. Idéia de pensar um “valor-caixa” mensal para despesas com transporte, alimentação, materiais (pilha para a máquina, por exemplo), etc.

Planejamento do jornal – Resex Corumbau

O planejamento do jornal foi bem objetivo. O grupo escolheu o nome do impresso (Tanara, que significa natureza em língua patxohã, dos pataxós), e decidiu coletivamente como seria o jornal, quais seus objetivos, como seria distribuído, e para quem, que recursos seriam necessários para sua produção. Durante todo o tempo, os participantes acordaram que o público principal do jornal seriam os próprios comunitários. Mostraram preocupação de que o jornal não fosse voltado para turistas – embora necessitem de apoio financeiro que pode vir por meio das pousadas, acreditam que o impresso é importante não para divulgar atrações turísticas, mas focar na educação ambiental dos freqüentadores da região.

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Após as decisões sobre como o impresso seria feito, os grupos se dividiram para produzir as pautas do jornal. A divisão foi feita pelas pessoas que ficariam responsáveis por cada matéria ou tema sugerido. Esse foi um dos momentos mais importantes das oficinas, embora nem todo o grupo do primeiro dia tenha participado. O debate sobre a aproximação com as instituições e a preocupação em informar as comunidades com qualidade e valorizar o seu espaço já se refletiram nos objetivos propostos pelo grupo para o jornal, e transpareceram ainda mais no detalhamento da pauta abaixo. É interessante destacar que os conflitos relacionados a articulação e mobilização do grupo que apareceram desde as primeiras reuniões também pontuaram as conversas sobre as pautas. Quando um grupo sugeriu falar da situação das estradas de terra que ligam Prado a Cumuruxatiba e essa a Corumbau, denunciando o descaso das instituições públicas, parte do grupo manifestou preocupação em abordar o assunto criticando a Prefeitura, por receio de contrariar interesses e criar problemas pessoais. Esse exercício de reflexão e de debate sobre cada uma das pautas foi um dos pontos positivos das oficinas. Conversando, negociando, o grupo entendeu que o jornal comunitário é um trabalho coletivo, de posicionamento e de fortalecimento de representantes da comunidade preocupados com a qualidade de vida, a cultura e o ambiente locais, e que preocupações como a citada acima podem ser superadas pela união do grupo.

Figura 16: grupo se organiza para planejar o jornal Tanara; à direita, detalhe da pauta produzida pelas participantes de Barra Velha. Fotos: Débora Menezes

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PLANEJAMENTO JORNAL TANARA O que é (descrição do jornal) Jornal no formato A4 (papel comum), dobrado ao meio, com 12 páginas, colorido. Jornal-mural no formato A3, colorido, com o resumo do jornal maior. Textos, fotos e desenhos (quadrinhos, charges) sobre temas importantes para as comunidades da Resex. Número de exemplares: 500 inicialmente

Conteúdo Página 1 – Capa. Página 2 – Expediente, editorial, charge. Página 3 – Meio Ambiente (dicas de educação ambiental, quadrinhos). Página 4 – Denúncias e Reclamações. Páginas 5 e 6 – Reportagem Principal. Página 7 – Complemento da Reportagem Principal/outros. Página 8 – Eventos culturais. Página 9 – Voz da Comunidade – Perfil com a memória de um morador antigo. Página 10 – Cultura Pataxó. Página 11 – A decidir. Página 12 – A decidir.

Para quem (público leitor do jornal) Comunidades da Resex – de Cumuruxatiba a Caraíva. Comunidades do entorno (rurais, indígenas). Turistas que frequentam a região da Resex (em geral, e mergulhadores que não permanecem muito tempo e não interagem com a comunidade). Frequentadores de Teixeira e Itamaraju

Porque/ para que (objetivos do jornal) Fortalecer a comunicação/o fluxo de informações entre as comunidades. Conscientizar para o exercício da cidadania. Esclarecer o papel da Resex.

Como o jornal será distribuído Festa da Resex – 19 e 20 de setembro.

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Lideranças das comunidades se comunicarão por rádio para organizar a distribuição ao longo da costa a partir de Cumuruxatiba (contato em Cumuru: Bete). Escunas de passeio podem levar a Corumbau e distribuir aos turistas e as comunidades. Exemplares em pousadas e restaurantes de Cumuruxatiba e Corumbau. Pontos estratégicos em Teixeira de Freitas e Itamaraju. Instituições (ongs, governo).

Recursos que temos para produzir o jornal/como buscar Máquina fotográfica: ICMBio/Resex (solicitar – está com Débora); Bete (Cumuru), Veleiro (Zeca), Corumbau (Içara). Meninas de Barra Velha solicitarão ao cacique. Computadores para digitação dos textos: em Cumuru, há um no Jandinho, outro no Nema, e ainda na escola (precisa de autorização). Não há computador em Corumbau (precisa combinar com as meninas usar quando vierem a Prado ou a Cumuru na semana da diagramação). Em Barra Velha as meninas precisam de autorização.

Para viabilizar um curso de diagramação Ecrever ofício para solicitar o uso do infocentro para o curso e entregar para a Prefeitura. Verificar local para hospedagem dos dois instrutores do curso e alimentação; Escrever ofício solicitando a presença dos instrutores a uma universidade local (Débora). Impressão do jornal Escrever ofício solicitando apoio para a impressão de 500 a 1000 exemplares do jornal e 50 jornais-murais, seguindo o descritivo acima, avisando que o jornal terá espaço para anúncio da gráfica e de anunciantes que derem o apoio. Escrever ofício contando sobre a produção do jornal, sua importância para a educação ambiental, estimativa de valor necessário para a impressão, etc., para levar a reunião do Conselho Municipal do Meio Ambiente (Condema) esta semana, via representante de Cumuru (Nema). Checar junto ao MP a possibilidade de usar recurso de transação penal para a produção do jornal (terá que ter uma associação comunitária parceira). Para o futuro... recursos necessários para viabilizar os próximos jornais Tinta para impressora e papel sulfite. Apoio do telecentro para a produção do jornal. Máquina fotográfica para o grupo. Transporte para a produção de reportagens, idas a gráficas, etc. Na forma de passagem de ônibus ou ajuda com combustível. Alimentação para a ida de produção de matérias. Diagramação e impressão. Observação: quando escreverem um projeto para o jornal, pensar um “valor-caixa” mensal para despesas com transporte, alimentação, materiais, (pilha para a máquina, por exemplo), etc.

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O PROCESSO DE PRODUÇÃO DOS JORNAIS

Comentários gerais sobre o processo

A produção dos jornais comunitários O OITI e Tanara ocorreu nas semanas que se seguiram após a realização da última oficina em cada grupo de comunidades. O planejamento proposto no capítulo anterior incluiu um cronograma, que não pode ser seguido 100% porque os participantes já estavam ocupados com outras atividades. Além disso, ter que ir atrás de parceiros para financiar o primeiro jornal prejudicou um pouco o andamento da produção de reportagens. Embora tenha tido seus atropelos – falta de participação de todos, de organização do grupo (principalmente de comunicação entre os que se propuseram a fazer o trabalho), de preparo para escrever textos e de falta de equipamentos para a produção (gravador, computador, máquina fotográfica), foi possível realizar os jornais a tempo de serem lançados nos prazos previstos pelos próprios grupos – dia 20 de setembro, quando foi lançado o Tanara, e 17 de outubro, com O OITI. O conhecimento que os grupos adquiriram para produzir as reportagens foi o fator mais importante do processo de educomunicação. Eles tiveram acesso a informações e instituições que não conheciam ou que não compreendiam, fizeram entrevistas com a postura de comunitários, e não de meros repórteres, observando e absorvendo os temas trabalhados para seu cotidiano, perderam a timidez para conversar com os entrevistados, entenderam a necessidade de várias visões sobre o mesmo assunto, despertaram para a importância de se “cobrar corretamente” das instituições a melhoria de sua qualidade de vida, refletiram sobre o papel da mobilização comunitária para essa melhoria. Por terem sido processos com características diferentes para as comunidades ligadas a Resex e ao Parna, serão descritas abaixo e separadamente:

Figura 17: Dois momentos de produção do jornal: entrevistando o promotor Wallace Carvalho de Mesquita de Barros, e fechando as matérias do jornal. Fotos: Débora Menezes.

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TANARA

O jornal das comunidades no entorno da Resex foi produzido e lançado antes do grupo ligado ao Parna. O grupo preferiu concentrar as oficinas em menos tempo, realizando-as aos finais de semana concentrando aos sábados e domingos, para que o jornal fosse lançado no dia 20 de setembro – data da festa de comemoração dos nove anos da Resex. Esse evento é um marco para as comunidades, e o grupo optou por “correr” com o processo para lançar o jornal durante a festa, realizada em Corumbau. O grupo só teve duas semanas para a produção do jornal, e abandonou a idéia inicial de fazer um jornal-mural, por falta de tempo. Foi combinado com os participantes das comunidades distantes que enviassem materiais escritos a mão, caso não pudessem contar com e-mail. O grupo de Cumuruxatiba, com mais participantes, mais recursos (computador, máquina fotográfica) e mais próximo de Prado, se responsabilizou pela maioria das reportagens. Um dos participantes, Marciel, chegou a ir de moto até Barra Velha para buscar informações, fotografias e ajudar as participantes de lá em uma reportagem sobre o artesanato pataxó. A maioria das matérias foram produções coletivas, sendo que a maior parte dos textos foi finalizada pela professora Eliane Brandão, que é coordenadora pedagógica em uma escola local. A maioria dos participantes, no entanto, ajudou a construir os textos, assim como as entrevistas e o levantamento das informações. Para escrever a reportagem sobre a Resex, houve um extenso debate entre os comunitários de Cumuruxatiba para se chegar ao texto final. As reportagens mais trabalhosas levaram dois representantes do grupo a Prado, para a realização de entrevistas. Uma delas foi sobre as péssimas condições das estradas de terra que ligam Prado a Cumuruxatiba, e Cumuruxatiba a Corumbau. Antes de realizar as entrevistas, o grupo teve acesso a uma notícia de um site local9 sobre o mesmo tema, informando que a obra de conserto de uma ponte na estrada, que é responsabilidade da Prefeitura, ficou impossibilitada por que a obra foi embargada pelo Ibama. O grupo observou nessa reportagem que as instituições citadas não foram ouvidas – só a Prefeitura, mas não o Ibama – e entendeu que seria necessário conversar com todos os envolvidos para saber mais sobre o assunto, e entrevistou o representante do ICMBio, o promotor público local, o secretário de Obras, além dos moradores que utilizam as estradas.
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Prado/Cumuruxatiba: por falta de manutenção em ponte, estrada poderá ser interditada. Notícia publicada no site Sul Bahia News em 12/8/2009, disponível em http://www.sulbahianews.com.br/ler.php?doc=3897.

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Zeca do Veleiro conversou com o secretário de Obras do município, Luis Ramos, para saber porque a estrada que liga Prado a Cumuruxatiba ainda não foi arrumada. E em visita ao Ministério Público, Emerson Nascimento Matos Neves e Eliane Brandão, de Cumuruxatiba entrevistam o promotor Wallace Carvalho Mesquita de Barros, que informou a necessidade da população utilizar esse órgão para fazer denúncias e acompanhar o que acontece na cidade – no caso das obras de melhoria das estradas, por exemplo. Interessante destacar que a estrada que liga Cumuruxatiba a Corumbau está em situação muito mais precária, e o promotor orientou o grupo a registrar os problemas dessa estrada e encaminhar ofício de reclamação ao MP, para que sejam tomadas as devidas providências. Todas essas informações entraram na reportagem de forma clara e objetiva. Essa visita ainda teve acompanhamento de dois repórteres comunitários do grupo ligado ao Parna, e um deles não conhecia o MP e sequer sabia a função do órgão. A reportagem de capa do jornal teve a Resex Corumbau como destaque. Por questões de organização, não foi possível abranger outras comunidades que fazem parte da reserva, ficando as entrevistas restritas a Cumuruxatiba. Entretanto, o resultado também foi positivo e reflete os anseios em relação a Resex de uma forma geral – afinal, a reserva criada para proteger o patrimônio dos pescadores é tema comum a todas as comunidades do entorno. A matéria tenta mostrar para que serve uma reserva, como a Resex Corumbau foi criada, como cada cidadão que mora no entorno deve fazer para a Resex se tornar realidade. “Não se pode ter vergonha de falar, de conhecer e brigar pelos seus direitos. Aquele que se cala está fadado a ser explorado e ficar com o que sobra”, lembra um dos textos. Na medida do possível, a matéria também tenta explicar um pouco sobre o que é uma unidade de conservação, o que é um plano de manejo, a função do conselho deliberativo. O primeiro número tem outros destaques. Foram descritas as principais festas tradicionais da aldeia Barra Velha; a forma como o artesanato da aldeia, principal fonte de renda das tribos pataxós, é produzido; um histórico das festas da Resex com espaço para agradecimento aos patrocinadores da nona edição10; e uma matéria com a experiência de um morador de Cumuruxatiba que recolhe óleo para transformar em sabão. Também houve espaço para charges e histórias em quadrinhos, além de um editorial que cita a chegada do jornal como “a voz da Resex”: “Tanara chegou para

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As festas da Resex são geridas pelas comunidades. Este ano, a responsabilidade foi de Corumbau. A idéia de colocar os patrocinadores da festa no jornal foi decidida durante a produção da pauta na última oficina.

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ser voz, informando, dando a oportunidade de pensarmos juntos sobre os anseios e necessidades de uma comunidade dona de uma reserva extrativista”. A impressão de 500 exemplares do jornal seria de R$ 400 – ou R$ 600, caso fossem mil exemplares. Somente às vésperas do envio do arquivo para a gráfica é que dois participantes conseguiram apoio dos comerciantes de Cumuruxatiba para garantir a verba para a impressão de 500 exemplares. Não foi possível conseguir arrecadar mais fundos, não só porque tudo foi feito “em cima da hora”, mas porque muitos comerciantes não estavam confiantes quanto ao lançamento, preferindo investir a partir do segundo ou terceiro números. Para o fechamento do jornal, foram utilizados os computadores pessoais de duas participantes do grupo, além de computadores da ong NEMA-Cumuru, disponibilizado pela participante Juliana Sagakawa. O impresso foi feito na gráfica Benegraf, enviado pela consultora em arquivo fechado (PDF), e os jornais impressos foram levados a Corumbau “de carona” com uma VAN que estava a serviço da Festa da Resex.

Lançamento do TANARA – Apenas uma pessoa entre os participantes das oficinas de Cumuruxatiba, a liderança Elisabete da Cruz, não participou da produção do jornal em nenhuma etapa, alegando falta de tempo e de recursos para ir a Prado realizar entrevistas. Por problemas de comunicação internos do grupo, ela não foi envolvida no planejamento do lançamento do jornal durante a festa, elaborado pelos próprios participantes, e não pela

consultora. Esses participantes escolheram a letra de música Até Quando, de Gabriel o Pensador, para promover o lançamento na festa. A letra tem a ver com o propósito do jornal, de dar voz as

comunidades. No dia 20 de setembro, o grupo,
Figura 18: Jaqueline, de Corumbau, e Zeca do Veleiro, lançam o jornal Tanara no palco da Festa da Resex Foto: Débora Menezes
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incluindo

participantes

de

Corumbau e do Veleiro, fez uma espécie de “jogral” com a música11. Após a

Um trecho da letra lida durante a Festa da Resex : “não adianta olhar pro céu com muita fé e pouca luta/Levanta aí que você tem muito protesto pra fazer e muita greve/Você pode e você deve, pode crer/Não adianta olhar pro chão, virar a cara pra não ver/Se liga aí que te botaram numa cruz e só porque Jesus sofreu/Num quer dizer que você tenha que sofrer/Até quando você vai ficar usando rédea/Rindo da própria tragédia?/Até quando você vai ficar usando rédea/ Pobre, rico ou classe média?/Até quando você vai levar cascudo mudo?/Muda, muda essa postura/Até quando você vai ficando mudo? Muda que o medo é um modo de fazer censura”

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apresentação, Elisabete manifestou sua insatisfação, de forma agressiva, pelo fato de não ter participado da produção do jornal e nem do lançamento, dizendo que “não há filhos de pescadores participando do jornal” e que “só tinha gente da Prefeitura participando do jornal”. Esse lamentável episódio serviu de alerta ao grupo para que consigam incluir mais pessoas no processo de produção que envolve o jornal, respeitando a diversidade de pessoas que compõem as comunidades – pescadores, seus descendentes que não necessariamente também atuam como pescadores, pessoas que vêm de fora e contribuem com o local, preocupando com a qualidade de vida e com o coletivo. E que é preciso avançar nas relações comunitárias melhorando os canais de comunicação – necessidade apontada desde a primeira oficina e durante todo o tempo, por todos os participantes. Muitas comunidades não ficaram satisfeitas com o fato do jornal ser “de” e “para a” Resex, e não ter a participação de pessoas de outras comunidades além de Cumuruxatiba. É o grande desafio do grupo de comunicadores comunitários, que já está planejando o lançamento do segundo número de Tanara em dezembro de 2.009, com a participação de novos repórteres, incluindo mais comunidades e enfim, fazer o papel de voz dos moradores do entorno da reserva.

Figura 19: Jackson entrevista a beijuzeira Tia Lica, na Pontinha. À esquera, Antonio, Mara e Bruno escrevem para o jornal na comunidade do Riacho das Ostras.

O OITI

Os participantes das três comunidades no entorno do Parna Descobrimento tiveram três semanas para produzir o jornal, que seria lançado durante a Conferência Municipal de Cultura de Prado, no dia 17 de novembro. A ocasião foi escolhida por se tratar de um evento que debateria a cultura no município; sendo o jornal uma “voz”

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para a cultura das comunidades rurais, a Secretaria Municipal de Cultura cedeu espaço ao grupo para o lançamento. Diferente do que ocorreu com o grupo da Resex, para facilitar o trabalho do jornal as comunidades dividiram as páginas e as matérias que produziriam. Cada uma das comunidades também se responsabilizou por conseguir o recurso para a impressão – R$ 600, 1.000 exemplares – e manter contato com o restante do grupo para saber o que conseguiriam obter. O planejamento inicial da pauta mudou um pouco, conforme o processo de produção foi avançando. Três comunicadores da Pontinha, após uma pequena palestra do gestor12 do ICMBio na última oficina, decidiram entrevistá-lo para esclarecer melhor o papel do ICMBio. Uma das pautas sobre saúde – para esclarecer sobre a falta de médicos e de agentes de saúde mais atuantes em Riacho das Ostras também não foi finalizada. No entanto, a participante Marailde Abaeté, conseguiu acesso a responsável pelo Programa Saúde da Família (PSF) para obter

esclarecimentos sobre como a comunidade pode “vigiar” o trabalho dos agentes de saúde, repassando a informação posteriormente, em reuniões da associação de moradores de sua comunidade. Todos os textos foram produzidos de forma a “conversar” primeiramente com os moradores da zona rural, para que se reconhecessem, valorizassem a memória local, lessem sobre o que importa para seu cotidiano e refletissem sobre soluções para suas comunidades. A reportagem de capa foi sobre o beiju da Pontinha, elaborada por moradores dessa comunidade, uma iguaria muito apreciada na região, que precisa, segundo os comunitários, ser mais valorizada tanto pelos moradores e pelo poder público local – que precisaria incentivar a produção e a divulgação – quanto pelos próprios produtores. Embora a matéria não tenha envolvido muitas entrevistas e pesquisas, chama atenção por apontar soluções para que o beiju seja valorizado. Riacho das Ostras ficou responsável por um texto sobre agricultura orgânica. Foi entrevistada a família de um agricultor que trabalha nesse ramo de atividade, e a matéria também procurou estimular os agricultores em geral a procurarem formação sobre o tema. Além disso, um comunitário também produziu um texto sobre agrofloresta, após participar de uma formação oferecida por uma consultora a comunidades de Unidos Para Vencer e Modelo13, questionando os leitores sobre o

Na época (outubro/2009), Eurípedes Pontes Junior. A consultoria “Estímulo a Geração de Renda Para Pequenos Agricultores na Zona de Amortecimento do Parque Nacional do Descobrimento” foi realizada pela engenheira florestal Jandaíra Moscal. A formação foi voltada para as comunidades de Unidos Para Vencer e Modelo, mas um dos alunos das oficinas de educomunicação, Antonio Francisco Dias (Riacho das Ostras), participou como ouvinte.
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porque de não se optar pela agrofloresta, “sistema de plantação onde as culturas agrícolas se unem com as matas”, segundo o texto, que estimula: “seria bom se cada agricultor experimentasse esse jeito de plantar, para convencer os outros agricultores a fazer o mesmo. Só que para isso, é preciso ajuda técnica. Procurar os sindicatos rurais para que consigam essa ajuda é uma boa solução, assim como conhecer os agricultores da região que trabalham com isso, como Agnaldo Ribeiro, do Primeiro de Abril”. O jornal ainda abriu espaço para as histórias das comunidades de Primeiro de Abril e de Riacho das Ostras, comunidades formadas a partir de acampamentos de pessoas ligadas ao Movimento dos Sem Terra (MST). É interessante destacar que durante as oficinas, ambos os grupos afirmaram que existe muito preconceito na região em relação aos assentados. Colocar no jornal comunitário a memória de como surgiram essas comunidades, como foi a luta pela terra, é uma forma de se auto-valorizar e de garantir a história relatada a partir do ponto de vista das próprias comunidades. Houve também espaço para a memória de um morador da Pontinha conhecido como Caboco de Ozéas, uma receita culinária, um passatempo elaborado por Lavínia Oliva – de oito anos, filha de um dos participantes das oficinas, Jackson Oliva – e uma charge com uma coincidência curiosa. No período de fechamento do jornal houve uma reunião do Conselho Consultivo do Parna onde foi mostrado um video indicando que o parque sofre com desmatamentos feitos “as escondidas”, em áreas que a princípio parecem ter árvores, mas sobrevoando-as a partir de um helicóptero, percebe-se que estão sendo desmatadas. Pois o participante Tiago dos Santos, da comunidade de Primeiro de Abril, mesmo sem ter visto o video criou o desenho abaixo, por inspiração própria. A percepção de um dos problemas ambientais da região foi expressada por meio da charge:

Figura 20 – Charge de Thiago Santos

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O grupo teve dificuldade em elaborar os textos. As lideranças, acostumadas a escrever atas de reuniões, reescreveram seus materiais sobre agricultura orgânica algumas vezes. Os participantes que são alunos em fase de alfabetização acabaram não participando de nenhuma reportagem. Muitos estavam ocupados com o trabalho da lida na roça, e não puderam comparecer ao fechamento na data combinada. A diagramação ficou sob responsabilidade da consultora, com apoio da participante Sebastiana de Jesus, que tem uma escola de informática e disponibilizou seus equipamentos (computador, scanner e internet) indispensáveis para a produção do jornal. O Sindicato dos Produtores Rurais, representado pelo comunitário Rogério da Silva Santos, colaborou disponibilizando telefone fixo e celular para algumas ligações, e disponibilizando ainda alimentação para alguns integrantes do grupo. Houve dificuldade também na organização e comunicação para o levantamento dos recursos financeiros para a impressão. Tudo o que foi planejado pelo grupo – rifas, conversas com comerciantes – acabou não sendo feito na prática. Houve uma tentativa de convencer alguns comerciantes de Prado, a anunciarem no jornal, mas a maioria disse que preferia “esperar” pelo primeiro número. Alguns comunitários, como Dernivaldo, reclamaram que é grande o preconceito dos moradores locais a respeito de membros do MST, daí a dificuldade em conseguir apoio. Às vésperas da entrega do arquivo em PDF na gráfica – que após uma conversa com um comunitário da Pontinha, cedeu desconto de R$ 100 no orçamento – a solução encontrada para garantir a impressão de 1.000 exemplares do jornal foi a de utilizar uma verba disponibilizada com apoio do Parna para a Associação dos Pequenos Produtores Rurais da Pontinha II14. A verba ainda foi utilizada para pagar as lembranças distribuídas no lançamento do jornal (150 mini beijus) e para pagar almoço de participantes em um curso de diagramação posterior ao jornal.

Figura 21: Sebastiana de Jesus apresenta o jornal na conferência. Ao lado, o beiju distribuído como lembrança. Fotos: Jaco Galdino e Débora Menezes
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Acordo realizado por intermédio do Parna com produtores de eucalipto permitiu que associações de moradores do entorno tivessem acesso a cortes dessa madeira para uso próprio e venda, com renda em benefício das comunidades.

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Lançamento do O OITI – A Conferência Municipal de Cultura de Prado teve o objetivo de iniciar um processo no Poder Público de incentivo e fomento aos grupos culturais locais. Foram realizadas palestras sobre temas ligados a questão cultural, o que e porque precisa ser incentivado, e posteriormente realizadas grupos de discussão para encaminhar sugestões para a Conferência Territorial de Cultura – que seria realizada dali uns dias em Porto Seguro, promovido pela Secretaria Estadual de Cultura. A Secretaria Municipal de Cultura deu espaço na programação para o lançamento do jornal, oficialmente na hora do almoço, e buscou participantes das comunidades de Pontinha e Riacho das Ostras para essa participação. Além disso, a consultora foi convidada a conduzir o eixo temático de discussão sobre Cultura, Cidade e Cidadania, no qual foi falado sobre o papel do jornal comunitário para valorizar a memória e a cultura das comunidades locais. Além da apresentação dos jornais O OITI e Tanara – cujos participantes estavam presentes no evento, apresentando os grupos Ser Movimento, Curumim Batuque e Abada Capoeira – o cineasta e produtor cultural Jacó Galdino, de Caravelas, trouxe a experiência do jornal comunitário O Timoneiro e o video Não Mangue de Mim, produzido com a participação de comunidades rurais e ribeirinhas do município vizinho. A participação dos repórteres comunitários foi muito positiva, principalmente porque eles não teriam acesso a esse evento, pois não têm oficialmente grupos culturais nessas comunidades que garantissem sua inclusão. E os participantes fizeram contribuições muito interessantes durante todos os debates. Dona Natalice Oliva, agricultora e moradora da Pontinha, por exemplo, respondeu no microfone a uma educadora que reclamou da falta de programação cultural nos veículos de massa: "eu acho que a culpa é nossa. Se a programação está ruim é só desligar a televisão". Já uma professora da rede pública, que não se identificou, durante um debate para trazer propostas culturais para o município, lembrou da falta de memória e sugeriu o incentivo de produções coletivas com a história do local contada pelos próprios moradores, conduzido por professores. Cidadania é também dar valor a cultura local, e criar mecanismos para se expressar esse valor, como os meios de comunicação comunitários. Pois cultura não é só

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comprar livros, ir a shows ao cinema. É também difundir o que importa para o seu próprio povo e o jornal O OITI cumpriu essa função.

Figura 22: momentos da aula de diagramação na faculdade FASB, em Teixeira de Freitas

Fotos: Débora Menezes

Diagramação: a parceria com a FASB Embora o objetivo principal da educomunicação seja o processo educativo de se fazer mídia comunitária, o produto final – no caso, jornal – é o resultado concreto do esforço coletivo de pessoas que participam de oficinas de educomunicação. É a forma com que o grupo pode apresentar seus anseios, e apresentar a comunidade em geral o que fizeram. Faz bem a auto-estima ter um jornal impresso bem feito, com “cara de jornal” (os próprios comunitários descartaram a possibilidade de elaborar jornais escritos a mão, por exemplo), mostrar a família, ser valorizado em um evento, ou junto a órgãos públicos. No entanto, produzir jornal depende de algum conhecimento mínimo sobre diagramação, que é o procedimento de se fazer o jornal em um computador. Para enviar o jornal a uma gráfica, é preciso desenhá-lo antes em programas gráficos como o Corel Draw, o InDesign; é possível também utilizar o programa WORD, para jornais mais simples. Tudo isso envolve um conhecimento técnico que em oficinas curtas de educomunicação não é possível trabalhar, ainda mais com um público que nunca teve contato com essas ferramentas e não está totalmente familiarizado com o uso de computadores. A consultora tem experiência em diagramação e preencheu essa lacuna para a produção dos primeiros jornais, e posterior encaminhamento para uma gráfica em Teixeira de Freitas. Não foi possível encontrar parceiros locais para essa função. Como já foi citado anteriormente, o município não tem jornais impressos e nem agências de

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comunicação especializadas em produção gráfica. Gráficas e agências ficam em Teixeira de Freitas e em Itamaraju, respectivamente a 78 km e 52 km de Prado. No entanto, como solução para a produção dos próximos impressos, foi feito contato com a Faculdade do Sul da Bahia (FASB), em Teixeira de Freitas, que resultou em um mini-curso de diagramação em WORD e Corel Draw, para um grupo de 10 participantes das oficinas de Cumuruxatiba, Pontinha, Primeiro de Abril e Riacho das Ostras que já tinham noções básicas de computação. Dois professores da FASB ofereceram noções básicas de diagramação no laboratório de informática da faculdade, de forma voluntária, fornecendo ainda material didático. A realização do curso foi possível com a contratação de motorista e VAN e combustível conseguido pela Resex Corumbau, e a alimentação foi doada, em parte, pelo restaurante Cheiro Verde, de Teixeira de Freitas. A FASB oferece um curso de jornalismo que está na primeira turma e no primeiro ano (2009). Há 21 alunos matriculados, a maioria já atuando profissionalmente em jornais, TV e rádios da região. Dois dos alunos são do município de Prado, mas ainda não trabalham na área de comunicação. Em outubro de 2009, a consultoria fez uma palestra sobre educomunicação e sobre o projeto que estava sendo desenvolvido em Prado, convidando os alunos a participarem como voluntários junto ao grupo de educomunicadores, promovendo oficinas de fotografia, diagramação, divulgando o trabalho. A coordenadora do curso, Amabele Aguiar mostrou-se muito interessada em parcerias mas explicou que o curso de jornalismo é novo e está se estruturando. Os alunos ainda nem passaram pela disciplina de diagramação, por exemplo, que é normalmente oferecida no terceiro ano. Também foi conversado sobre a possibilidade de uma participação mais efetiva do curso de jornalismo, por exemplo, um programa de extensão, mas por enquanto a faculdade está sem verbas para isso. Entretanto, explicou que tem interesse em realizar, no primeiro semestre de 2.010, um novo curso de diagramação, mais extenso, Os alunos de jornalismo se mostraram dispostos a colaborar, divulgaram as ações de educomunicação em seus veículos, mas explicaram que infelizmente não têm tempo para atuar aqui em Prado com grande freqüência. O curso de diagramação foi positivo, estimulou os alunos a entenderem um pouco sobre se desenha um jornal. Não foi suficiente para dar 100% de autonomia na produção, mas incentivou ao grupo a aprender mais sobre o assunto posteriormente.

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Também foi realizado contato com a jornalista Raquel Galvão, que trabalha na Secretaria de Cultura do Estado da Bahia, em Teixeira de Freitas. Ela se disponibilizou a fechar o próximo jornal Tanara (em dezembro de 2.009) como voluntária. Raquel conheceu o grupo de comunitários durante a Conferência Municipal de Cultura, realizada em Prado, quando do lançamento do jornal O OITI. Entretanto, diagramar jornal dá trabalho e contar com a participação voluntária de pessoas nesse tipo de produção é complicado. O ideal é que os grupos se organizem, aprendam a diagramar e busquem contato direto com comunicadores e gráficas para a realização de seus jornais.

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AVALIAÇÃO COLETIVA DO PROCESSO DE EDUCOMUNICAÇÃO

Essa avaliação está dividida em três partes: a participação dos alunos nas reuniões de conselho do Parna e da Resex, e nas conferências de cultura; a mobilização para o processo de avaliação e de evento final, reunindo os grupos ligados às duas Ucs, no dia 7 de novembro; e a avaliação individual ao final de todo o processo. Embora a produção dos jornais também possa ser considerada como parte da avaliação dessa consultoria, optou-se por esses três recortes por mostrarem também o significado desse trabalho junto as comunidades.

Atuando no Conselho da Resex

No dia 29 de agosto, após a realização da última oficina,

alguns participantes do grupo de educomunicação se

apresentaram durante a 28ª reunião Deliberativo do da Conselho Resex

Corumbau. As impressões dos participantes foram positivas e apontaram o que já foi relatado anteriormente: a comunicação Figura 23: Tetah, de Cumuruxatiba, expõe sobre o jornal no Conselho entre as comunidades é um
Foto: Nanda Azevedo, moradora de Cumuruxatiba

desafio que precisa ser superado, para que a mobilização em prol da qualidade de vida dos pescadores na Resex aumente cada vez mais. Zeca do Veleiro apontou que o curso foi bom para “abrir nossas mentes para a comunicação”, enquanto Jaqueline da Conceição, de Corumbau, lembrou que as oficinas “foram um meio de interagir com outras comunidades”. Sua irmã e também participante das oficinas, Issara, ainda pediu aos conselheiros que comuniquem sobre as reuniões, já que nem toda a comunidade pode participar, e explicou sobre a importância do jornal para esse processo de comunicação.

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O jornal comunitário é uma “boa desculpa” para que os comunitários tenham acesso a informação e ainda entendam melhor porque é necessário que ela flua. A reclamação geral de que o curso foi “mal comunicado” é a mesma para a maioria das ações que envolvem mobilização de pessoas para reuniões dentro do território do entorno da Resex. Reuniões, cursos, oficinas, viagens que fazem parte do dia-a-dia da movimentação em torno dessa mobilização não são divulgados as comunidades; essas informações ficam restritas ao grupo mais próximo da gestão da UC. O reconhecimento dessa problemática foi o fator mais positivo reconhecido pelos participantes das oficinas. Mais do que aprender a fazer jornal, entender que é preciso avançar na comunicação. Não se trata apenas, como foi citado na reunião do Conselho, contratar um estagiário responsável por ligações telefônicas aos conselheiros e participantes. Tratase, mais ainda, de pensar a comunicação inclusiva, que não deve se preocpar apenas com a divulgação de informações, mas com a forma e a totalidade que ela deve atingir nas comunidades. Na reunião seguinte do Conselho – realizada no dia 14 de novembro – parte do grupo de atuais repórteres comunitários (sete pessoas ao todo) trouxeram mais duas colaboradoras da comunidade de Cumuruxatiba que vão atuar no próximo jornal Tanara, com previsão de lançamento para dezembro de 2009. Distribuíram alguns exemplares do primeiro número, falaram um pouco sobre as dificuldades de elaboração do impresso. Novamente foi lembrado nessa reunião que algumas ongs que atuam com pesquisa na região da Resex liberam resultados “quando querem e como querem”, tema que foi apontado no diagnóstico sobre problemas de comunicação, realizado na primeira oficina. Esse também é um desafio para os repórteres comunitários pensarem: como interagir melhor com ongs e instituições que trabalham com pesquisas na região, para entender e contribuir com a gestão das UCs.

Presença no Conselho do Parna

No dia 30 de setembro dois representantes do grupo de participantes das oficinas foram convidados a falar sobre o trabalho que estavam desenvolvendo – Dernivaldo Alves, que já faz parte do Conselho, e Marailza Borges. Ambos são da comunidade de Riacho das Ostras. Infelizmente não houve a possibilidade de mais participantes das

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oficinas irem a essa reunião para comentarem sobre sua atuação no jornal, por questões de logística do Parna. Marailza foi quem mais falou. Ela comentou que por meio das oficinas, conseguiu “entender um pouquinho” sobre como algumas instituições funcionam (ela visitou o Instituto de Meio Ambiente da Bahia e a Secretaria Municipal de Meio Ambiente), e que ficou sabendo sobre coisas que não conhecia e que deveriam ser melhor divulgadas para a comunidade – ela deu exemplo do Fundo Municipal de Meio Ambiente, que disponibiliza verbas para projetos de educação ambiental. “Não vou deixar de ser agricultora para virar jornalista”, lembrou Marailza, complementando que ainda assim o trabalho a ajudará muito em seu dia-a-dia. Quando perguntada sobre o que ela entendeu das conversas e debates dessa reunião, ela explicou que é um “universo muito novo” que ela não fazia idéia e nem estava compreendo tão bem, mas que foi importante sua participação para entender melhor a função do Parna, as relações com as comunidades do entorno e os problemas enfrentados pela UC. Assim como aconteceu com os participantes das oficinas da Resex, junto as comunidades trabalhadas no entorno do Parna a comunicação para a mobilização também é um desafio, pois muitas informações, mesmo as do Conselho, não são repassadas as comunidades de maneira adequada. A participação nas dos repórteres de

comunitários

reuniões

conselho podem ser positivas não só para o grupo, mas ainda para os próprios conselheiros e gestor da UC. Essas reuniões são restritas e

precisam ser melhor compreendidas pela comunidade, até para que se cobre das UCs e das instituições
Figura 24: Dernivaldo e Marailza, do Riacho das Ostras, se apresentam na reunião do Conselho junto a consultora Foto: Ernandes Ferreira

envolvidas e interessadas a respeito do que é apresentado. O mesmo vale

para reuniões onde a participação da comunidade é permitida, caso dos conselhos de Meio Ambiente, Educação, Saúde e Cultura.

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Participação nas conferências de cultura

Durante a realização da Conferência Municipal de Cultura de Prado, participaram do lançamento do jornal O OITI 15 alunos das oficinas de educomunicação do Parna Descobrimento. Três deles participaram dos grupos de trabalho que discutiram propostas para o tema “cultura e cidadania” – Marailza Borges, Sebastiana Maria de Jesus, Edinalva de Jesus, Dernivaldo Alves e Bruno Santos, das comunidades Primeiro de Abril e Riacho das Ostras. O grupo da Pontinha não pode participar dos grupos de trabalho porque teriam reunião em sua associação de moradores na parte da tarde. Sebastiana e Ednalva falaram sobre o jornal O OITI durante o Grupo de Trabalho e sobre a importância dessa ferramenta para mostrar às comunidades rurais que também produzem cultura, e que faltam mecanismos para mostrar essa cultura que não é só música ou dança, mas memória, culinária, entre outros. Foi encaminhada pelo grupo, após essa exposição, a recomendação de que “é preciso incentivar a produção coletiva pela própria comunidade para difundir cultura”. Essa participação foi muito positiva. Os comunitários ligados a Resex já estavam presentes na Conferência porque têm grupos culturais interessados no tema. Já as comunidades rurais estavam totalmente excluídas do processo. Na Conferência Municipal foram eleitos delegados representantes do município para a Conferência Territorial de Cultura, realizada nos dias 22 e 23 de outubro em Porto Seguro. Nessa conferência, que reuniu representantes de 22 municípios, seriam discutidas sugestões de propostas do território do Extremo para uma grande conferência estadual final. A partir dessas sugestões, podem ser definidas políticas públicas sobre cultura, programas e projetos sobre o tema. Dois delegados de Cumuruxatiba foram eleitos, ambos também

repórteres comunitários do Tanara – Eliane Brandão e Welton Reis de Souza. Ainda representando Maria o de

município,

Sebastiana

Jesus, da comunidade de Primeiro de Abril, e Marailza Borges, de Riacho das Ostras, seguiram para a conferência (Marailza como Figura 25: Grupo de trabalho discutindo propostas durante a
Conferência Territorial de Cultura, em Porto Seguro. A moradora Foto: Nanda Azevedo, moradora de Cumuruxatiba

suplente de uma delegada que foi de Riacho das Ostras, Marailza Borges, participou como delegada.

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eleita e não pôde participar). Além desse grupo, Fernanda Azevedo, de Cumuruxatiba, também foi a conferência como repórter comunitária. O intercâmbio de experiências foi muito importante para o grupo de comunitários e permitiu também a troca de idéias entre os participantes das oficinas do Parna e da Resex. Para os que vieram de comunidades rurais, como Marailza, foi importante entender um pouco mais sobre políticas públicas, como os cidadãos podem contribuir com a gestão, e principalmente, refletir sobre o quanto é importante participar de processos que despertem para que as pessoas sejam incluídas no universo de informações sobre cultura, meio ambiente, educação – e assim, melhorem sua qualidade de vida. Marailza Borges, do Riacho das Ostras, escreveu sobre sua participação na conferência no blog do grupo. Suas impressões:
“Estou numa conferência cultural, como delegada suplente, onde poderemos lutar para que algum projeto relacionado a cultura seja aprovado. Hoje, na minha opinião, a nossa cidade que é Prado necessita de um patrimônio cultural que beneficie a zona rural, no momento e muito carente. As crianças nem sabem o que é cultura. Apesar de eu ser adulta, gostaria muito de ver o meu filho viver o que meus pais viveram, porque a cultura deles foi educativa, hoje as crianças e jovens vivem no mundo da rebeldia, das drogas, o que não aconteceu com os meus antepassados. Ter a cultura rural valorizada, e ainda pessoas de lá capacitadas a falar da memória do lugar, ajudaria nossos jovens a gostar mais do espaço em que vivemos”
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.

Em tempo: os blogs www.ooiti.blogspot.com e www.jornaltanara.blogspot.com foram abertos pela consultora em outubro, e a participação disponibilizada a qualquer repórter comunitário disposto a publicar suas impressões. Como não foi uma ferramenta com formação prevista para as oficinas, poucas pessoas até o momento estão participando. Mas a experiência foi positiva e espera-se que os próprios participantes atuais ensinem outros comunitários a utilizarem o blog para difundir informações sobre suas comunidades na rede virtual.

15

Publicado por Marailza Borges em www.ooiti.blogspot.com, no dia 22 de outubro de 2009.

56

Avaliação coletiva – Reunindo os grupos

Previsto no Plano de Trabalho elaborado para essa consultoria, o encontro final de avaliação reuniu os grupos de participantes das oficinas do Parna Descobrimento e da Resex Corumbau foi realizado no dia 7 de novembro de 2009. A forma do encontro, as atividades previstas e a data foram decididos em reunião realizada durante a Conferência Municipal de Cultura, um mês antes, aproveitando que grande parte dos participantes das oficinas estava presente. A idéia de realizar o evento em Cumuruxatiba foi de conseguir um local adequado a todos os participantes – na comunidade de Primeiro de Abril, primeiro lugar pensado, a estrutura do centro comunitário estava ocupada. Posteriormente foi avisado, por telefone, aos

participantes que não estiveram na conferência, para organizar a questão do transporte. A programação foi elaborada para prever avaliação e confraternização. Foi combinado que haveriam

apresentações de grupos culturais de Cumuruxatiba, ao ar livre, com a participação do grupo de maculelê Os Morcegos, da comunidade de Primeiro de Abril – um dos integrantes é o repórter
Figura 26: Sebastião (Riacho das Ostras), Alexsandro (Primeiro de Abril, Alecssandra e Welton (Cumuruxatiba) conversam sobre a mobilização para as oficinas. Foto: Débora Menezes

comunitário Os

Thiago

dos de

Santos.

participantes

Cumuruxatiba ainda organizaram um baile de forró, que teria a renda

revertida para a produção do próximo jornal Tanara. Ao todo, participaram desse encontro cerca de 30 pessoas, entre as comunidades de Cumuruxatiba, Veleiro, Riacho das Ostras e Primeiro de Abril, incluindo os integrantes do grupo de maculelê. Para garantir a presença dos comunitários do entorno do Parna Descobrimento em Cumuruxatiba, a consultoria contou com apoio logístico da Resex Corumbau. O gestor providenciou o pagamento das refeições do grupo e do transporte de emergência para os comunitários de Primeiro de Abril e Riacho das Ostras - é que houve um problema com o motorista do ônibus disponibilizado pela Prefeitura pra buscar os comunitários. Infelizmente, não foi possível providenciar transporte a tempo para buscar os participantes da comunidade da Pontinha, pois para a realização desse evento final, a falta de comunicação entre as duas UCs e a transição de gestores do Parna atrapalhou a busca de recursos para a realização do encontro. Participaram sete pessoas do

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entorno do Parna, e oito pessoas de Cumuruxatiba, incluindo o representante de Veleiro. O atraso na chegada dos comunitários do entorno do Parna diminuiu a programação prevista pela metade. Ainda assim, foi possível iniciar uma troca entre os comunitários do entorno das duas UCs, que se dividiram em grupo para fazer uma avaliação coletiva com propostas de melhoria em três eixos: mobilização e participação; organização e planejamento de novas oficinas e jornais; e formação, busca de parcerias e divulgação da proposta de jornais comunitários. Todos os eixos tiveram conclusões parecidas, sistematizadas no quadro abaixo. Os principais problemas apontados foram muito parecidos com o do diagnóstico sobre comunicação realizada na primeira oficina: teria sido muito mais proveitoso o curso se houvesse melhor comunicação sobre seus objetivos, para mais pessoas, que teriam que ter socializado melhor as informações. Após a produção do jornal, os presentes apontaram também que as oficinas teriam sido mais bem aproveitadas se todos os participantes tivessem entendido os objetivos do trabalho – que não era apenas o de produzir um jornal, mas se mobilizar e ter acesso a informações importantes para contribuir a construção da cidadania. Esse é um fator positivo na avaliação das oficinas: os grupos finalmente entenderam a importância do processo de educomunicação.

Figura 27: Integrantes do grupo de dança Sermovimento, de Cumuruxatiba, se apresentam antes do grupo de maculelê Os Morcegos, da comunidade de Primeiro de Abril. Ao lado, participantes das comunidades do entorno do Parna Descobrimento e da Resex Corumbau, na finalização do encontro. Fotos: Débora Menezes e Carolina Portes

Entretanto os grupos estavam motivados a continuidade dos jornais comunitários e sugeriram propostas de trabalhos envolvendo as comunidades ligadas as duas UCs, especialmente no que se refere a busca de parcerias para novas e específicas formações, como a de um curso mais extenso de diagramação. As sugestões levantadas formal e informalmente estão sintetizadas no próximo capítulo deste relatório, denominado Propostas para a continuidade dos processos de

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educomunicação. Essa motivação também foi um dos pontos fortes na avaliação. Já os problemas referentes diretamente a formação foram praticamente os mesmos apontados no relatório anterior sobre as oficinas. A falta de recursos para alimentação durante o curso, o tempo muito curto para mobilizar as comunidades a participarem e a falta de material (computadores, equipamentos fotográficos) foram apontados como os principais problemas.

Avaliação individual

Após o último encontro foi entregue aos participantes uma ficha de avaliação qualitativa com 13 perguntas – quem não foi ao encontro recebeu posteriormente. Dos 20 participantes do entorno do Parna, apenas oito entregaram as fichas. Dos 17 participantes do entorno da Resex, 11 entregaram as respostas. As fichas originais estão no anexo. As avaliações são parecidas. A maioria comenta da falta de material para a realização do jornal, como máquina fotográfica e computador e do ritmo puxado das aulas. A escolha em concentrar o tempo das oficinas em dias inteiros contribuiu para o ritmo um pouco lento, mas apontaram ainda a necessidade de mais dinâmicas, filmes, entre outros. Apesar da concentração de tempo, todos praticamente explanaram que o tempo de oficinas foi curto e que poderia ter sido mais longo, com mais conteúdo. Também citaram interesse em novas oficinas, sobre jornal comunitário e ainda fotografia, video e diagramação. O fator positivo mais citado foi o intercâmbio de comunidades promovido dentro das oficinas. Embora seja trabalhoso agrupar comunidades para os encontros, isso fez a diferença para os participantes.

Visita a comunidades da Resex Corumbau

A consultora visitou as comunidades do entorno da Resex: Imbassuaba, Veleiro, Corumbau, Barra Velha e Caraíva, para conversar com as lideranças locais e algumas escolas sobre a proposta do jornal TANARA e das oficinas de educomunicação. Foi uma opção pessoal, não prevista no plano de trabalho, facilitada pelo acesso a pé para as comunidades, pela praia. A visita a outras comunidades do entorno do Parna não foi possível, pela distância e falta de estrutura logística. Mas esse relato serve

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como complemento para a avaliação proposta nesse relatório, e contém informações importantes para sinalizar soluções de continuidade e de melhoramento da proposta de mídias comunitárias. Uma das principais lideranças em Imbassuaba, Albino Santana Neves é também pai de uma das participantes das oficinas. Fundou a Associação de Pescadores Artesanais da Costa do Descobrimento (APAACD) e está acostumado a utilizar os veículos de comunicação da região para divulgar reuniões e ações de mobilização, principalmente as rádios. É no rádio que Albino acredita como mídia comunitária em potencial. “Na comunidade pesqueira, pelo menos 40% das pessoas não sabem ler”, lembra a liderança. A mais ouvida na região, segundo conversas informais16 é a 99 FM, de Itamaraju, que mantém um programa na hora do almoço com noticiário que inclui a região de Prado. Seu Albino enxerga um potencial educativo na rádio. “Não existe nenhum programa na região que fale de meio ambiente. Pode ajudar a esclarecer assuntos importantes e contribuir para ampliar o conhecimento”, lembra Albino. Para ele, as pessoas precisam de mídias focadas em temas de maneira crítica, para que possam ter visões diferentes sobre assuntos que as próprias autoridades locais não sabem abordar. “Como um prefeito da região que diz que o emperra o turismo são as unidades de conservação”, explica. Na comunidade seguinte, Veleiro, a consultoria visitou a Escola Municipal Santa Rita de Cássia, com 280 alunos vindos também de Corumbau, Agrovila e Palmares (essas duas são comunidades rurais). A escola é uma das mais bem estruturadas do litoral entre Cumuruxatiba e Caraíva, e atende do ensino de educação infantil até 5ª a 8ª séries, incluindo uma turma de EJA. Junto a esses alunos foi feita uma apresentação do jornal Tanara e lida, coletivamente, a matéria sobre o que é a Resex Corumbau. A partir dessa leitura os alunos comentaram sobre o que entenderam, e o que acham dos meios de comunicação locais. Explicaram que nem sempre os programas de rádio – a que mais escutam é a 99 FM são interessantes, pois falam de muitas coisas negativas, principalmente de violência. Citaram outra rádio, a Extremo Sul, porque oferece um horário de recados interativos, onde a comunidade pode participar mais. A consultora finalizou a visita comentando que “ler é difícil”, mas a palavra escrita tem uma força que a rádio não tem, e que o jornal serve de estímulo para a leitura e para guardar a memória das comunidades.

16

Não tive acesso a pesquisas de audiência. Mas há lógica em afirmar que a 99 FM é a mais ouvida: ela é transmitida em todas as comunidades rurais e de pescadores, incluindo alguns trechos de Porto Seguro.

60

Em Corumbau, a visita resumiu-se a levar jornais para a Escola Municipal José Ramos, com ensino de 1ª a 4ª séries e EJA. A participante das oficinas, Jaqueline da Conceição, comprometeu-se a visitar as escola e promover leituras do próximo jornal. Em Barra Velha, a Escola Indígena Pataxó Barra Velha também é estruturada e mantém educação infantil ao Ensino Médio para mais de 700 alunos, que também vêm de aldeias vizinhas. Já há aulas de informática em um laboratório com um monitor exclusivo para a função. A participante das Renata estuda na oficinas de

educomunicação Nascimento, que

Ferreira escola,

apresentou o jornal a três salas de aula de oitava série e Ensino Médio, e fez a leitura do texto sobre a Resex Corumbau em uma delas. A princípio, os alunos acharam o texto com termos complicados – plano de
Figura 28: Renata faz leitura de texto sobre a Resex. Foto: Débora Menezes

manejo,

conselho

e

unidade

de

conservação não fazem parte de seu

universo. Ninguém nas classes sabia o que era a Resex Corumbau. Em Caraíva, a visita foi na Escola Municipal de Caraíva, que atende do ensino infantil até a 8ª série. As participantes das oficinas de educomunicação Issara da Conceição e Maria da Penha Braz Bonfim apresentaram o jornal para a turma de EJA, e falaram da importância da comunicação entre as comunidades, convidando também os alunos a interagirem com o jornal sugerindo matérias e até escrevendo. Elas ainda fizeram a leitura do editorial e do texto sobre as péssimas condições das estradas entre Cumuruxatiba e Corumbau, para a turma de EJA. Apesar da matéria não ser sobre o lugar onde vivem, se identificaram, pois sofrem do mesmo problema – a estrada que liga a região de Caraíva a Porto Seguro também é muito ruim – e descobriram coisas novas. Não sabiam, por exemplo, o que e para que servia o Ministério Público. A diretora da escola, Iveliny Maria Brito Amorim Miranda, comprometeu-se com os alunos de EJA a organizarem-se para escrever um texto sobre a história de Caraíva, para ser publicada no próximo número do jornal Tanara. Será uma das atividades de “formatura” da turma. Todo esse retorno mostra que o jornal cumpre uma função educativa importante, desde que se interaja com as comunidades. E que é possível utilizar formações com outras mídias comunitárias para atingir objetivos positivos.

61

PROPOSTAS PARA A CONTINUIDADE DOS PROCESSOS DE EDUCOMUNICAÇÃO

A partir do que foi debatido na avaliação final com o grupo e da percepção de todo o trabalho desenvolvido em pouco mais de três meses de consultoria, foram elaboradas propostas de solução para as situações-problema apontadas. Para que a continuidade seja garantida, é preciso pensar não somente nos jornais comunitários que foram produzidos, mas ainda incluir novas formações e constante comunicação entre os participantes do grupo de repórteres comunitários, as comunidades e a gestão das UCs. Convergir interesses das duas unidades de conservação que precisam trabalhar em sinergia garante a continuidade do processo de educomunicação, abrindo espaço para o diálogo entre os públicos diversos e colaborando para a resolução de conflitos, a busca de interesses comuns, a ampliação do conhecimento sobre as UCs no município, envolvendo a todos num amplo processo de educação ambiental.

Comunicação e mobilização comunitária PROBLEMA Falta de comunicação prejudica a entre as Realizar SOLUÇÃO formações específicas de

comunidades

mobilização comunicação comunitária voltada para a mobilização. por Incentivar pesquisas para entender o as quanto as comunidades sabem sobre as

para reuniões, cursos, ações. Falta parte de da comunicação gestão das adequada UCs junto

comunidades. Envolvimento se limita a UCs, o papel do ICMBio, para que serve lideranças que às vezes não repassam o plano de manejo, o conselho, etc., informações para suas comunidades. envolvendo as lideranças. Pensar

propostas dentro dos conselhos para melhorar a comunicação Utilizar dentro os das

comunidades.

jornais

comunitários para se comunicar com as comunidades.

62

Falta de comunicação entre os públicos

Organizar palestras, rodas de conversas dos gestores com as comunidades uma da outra UC, com mapa para mostrar a

do entorno das duas UCs e as gestões.

influência de uma UC na outra. Incentivo a teportagens nos jornais comunitários sobre as UCs. Participação efetiva dos repórteres comunitários nas reuniões de conselho, escrevendo atas e relatando os trabalhos no blog (para uso de todos os outros conselheiros).

Acesso

a

informações

necessárias

a Grupo de repórteres comunitários podem na pauta sobre dos o jornais papel mais das

mobilização comunitária e a educação incluir ambiental junto a

instituições informações

locais/Poder Público é difícil.

instituições. Podem também encaminhar ofícios a estes de por e órgãos, solicitando das

mecanismos informações cartilhas

liberação meio de

palestras, de

outras

formas

esclarecimento mais interativas, que a comunidade possa participar. No caso de instituições e que

disponibilizam

informações

serviços

pela internet, poderia haver parcerias entre Prefeitura e essas instituições para a formação de cidadãos nos infocentros que estão sendo inaugurados na região.

Planejamento de novas formações PROBLEMA Tempo muito curto para as oficinas. SOLUÇÃO Ampliar as oficinas básicas de formação em cidadania e comunicação comunitária em no mínimo 60 horas. Falta de verba para imprimir o primeiro Oficinas de formação envolvendo jornal jornal a partir das oficinas. comunitário podem prever uma verba

63

para a produção do primeiro jornal. Oficinas cansativas, de longa duração. Acrescentar mais dinâmicas e diminuir o tempo de cada oficina, que durou o dia inteiro, para meio período – esticando a duração das formações. Faltou oficina de diagramação, A Fasb pode oferecer um curso.

imprescindível para garantir a produção Comunitários podem entrar em contato dos jornais. com a coordenadora do curso de

jornalismo,

Amabele

Aguiar, no

encaminhando ofício de interesse

curso. O ideal é encaminhar esse ofício ainda em 2.009, para que a no

coordenadora

acrescente

planejamento da faculdade e o curso possa ser realizado ainda no primeiro semestre de 2.010. Outra solução é procurar a Cooperativa de Informática, no bairro de São

Sebastião, em Prado, que organiza a participação dos repórteres comunitários nas reuniões de conselho. A produção do jornal ficou truncada A contratação de novos consultores deve dentro das oficinas, teve que ser prever um período de produção do

realizada fora das 40h programadas. jornal, impressão, logística para ir às Também não houve tempo para a comunidades.

articulação de parcerias. Algumas pessoas apontaram que o jornal Contratação de consultorias de

comunitário não seria a mídia mais educomunicação com foco em rádio, que adequada para a região. Grupo mostrou pode se articular com rádios locais para interesse em trabalhos com rádio. a produção e veiculação de programas ou criar soluções localizadas em cada comunidade (rádio-poste, rádio-recreio). Falta conhecimento específico sobre as questões ambientais da região, Há uma formação gratuita, dos em educação pelo em

que ambiental

oferecida Rurais

poderia ajudar não só na produção dos Sindicato

Produtores

64

jornais,

mas

na

geração

de Prado

nas um

próprias número

comunidades, mínimo de

conhecimento.

mediante

pessoas. Os grupos podem se organizar e encaminhar ofícios ao Sindicato

solicitando o curso.

Participação da comunidade nos jornais PROBLEMA As oficinas foram as mal divulgadas, Divulgar em poucos convidando SOLUÇÃO melhor as novas escolas formações, (alunos e

concentrando participantes

vagas

professores) a participarem. Envolver as escolas Anísio Teixeira e Homero Pires, do município de Prado, em formações, pois alunos das comunidades rurais

estudam nessas escolas. Divulgar novas formações em folhetos, cartazes,

programas de rádio. Muita gente não sabe ler ou não viu os Organizar leituras compartilhadas dos jornais. jornais, em reuniões de associações, escolas, entre outros. Apresentar os

próximos jornais durante a Conferência Municipal de Educação, que será

realizada em fevereiro, para estimular as escolas a lerem. Distribuir jornais nas bibliotecas escolares para estimular a leitura. Poucos participantes das comunidades na elaboração dos jornais. Organizar conselhos das escolas, entre do jornal, com

representantes (associações, pescadores,

comunidades comerciantes, fazendo

outros)

reuniões regulares (mínimo uma vez por mês) para conversar sobre o jornal, propostas de pauta, leitura crítica do jornal, discutir recursos, entre outros. Os participantes ainda devem atuar

65

como multiplicadores, buscando trazer novas grupos. As gestões das UCs também poderiam disponibilizar acesso a materiais pessoas para comporem os

documentados na sede do ICMBio que interessam a formação ambiental das comunidades. Para isso, seria importante disponibilizar também uma lista com informações básicas sobre os materiais disponíveis (mapas, cartazes, relatórios, entre outros).

Continuidade dos jornais comunitários Tanara e O OITI PROBLEMA Houve curso de diagramação curto, mas Fazer os participantes ainda não SOLUÇÃO parcerias com profissionais da

têm área, encaminhando ofícios para que

autonomia para produzirem os jornais no atuem como voluntários até os grupos computador sozinhos. conquistarem financeira. para também autonomia ofícios-convite parcerias. e

Encaminhar

formalizar apoio

essas de

Conseguir

hospedagem

alimentação a esses parceiros, se forem de outros municípios. Os grupos podem encaminhar ofícios a Prefeitura solicitando cursos pra

aprender a mexer no computador e utilizar os recursos dos infocentros que foram instalados na região. Ofícios

também ser produzidos para solicitar a liberação de uso dos equipamentos de informática que estão chegando às

escolas da zona rural. Os grupos ainda não têm autonomia Fazer parcerias com escolas. Isso já para elaborar textos e pensar o jornal acontece de maneira informal em

66

como um todo.

Cumuruxatiba,

pois

a

coordenadora

pedagógica de uma das escolas participa do grupo; do para as comunidades uma sugestão do é

entorno

Parna,

convidar professores das escolas Anísio Teixeira e Homero Pires, em Prado, para que incluam em seu planejamento o apoio a produção de dos jornais. as As

diretoras

ambas

escolas

mostraram-se dispostas a conversar; é preciso encaminhar ofícios de solicitação. Grupos não têm computador, acesso a Conseguir doação de equipamentos

internet, máquina fotográfica, gravador – encaminhando ofício para o Ministério equipamentos indispensáveis a produção Público e o Conselho Municipal de Meio dos jornais. Ambiente, explicando o objetivo dos

jornais comunitários e a importância dos equipamentos. Há outras instituições e empresas da região que poderiam

também fazer as doações – a gestão das UCs pode ajudar os grupos a fazer um levantamento instituições das que empresas participam e dos

conselhos, e ajudar na facilitação do contato. Grupos não conheceram a impressão dos Programar jornais. visitas a gráficas para

conhecer o processo.

Faltam recursos para imprimir os jornais Montar mini-projetos para os jornais e manter um caixa para o grupo produzir comunitários, ressaltando o foco de

as reportagens e cobrir despesas com educação comunitária a que estes jornais alimentação, transporte, papel, tinta se propõem, e encaminhar a linhas de

para a impressora, telefone. Só ir atrás financiamento de projetos de educação de “anunciantes” para o jornal não é ambiental. suficiente e nem garante autonomia na colaborar produção. Os grupos A gestão das UCs pode de

indicando

fontes

têm receio de financiamento da região. Para isso, os

solicitar apoio a Prefeitura, a políticos, e grupos precisam se organizar e “eleger” uma instituição ou associação de

67

perder a autonomia.

moradores e pessoas do grupo que irão se responsabilizar pelos projetos. Outras alternativas a curto prazo:

solicitar apoio das ongs que atuam na região, como a CI, em Caravelas, a APPA, em Prado, entre outras.

Encaminhar ofícios a essas instituições, solicitando espaço a apoio essas financeiro, instituições dando para

interagirem com a proposta dos jornais. Outra proposta, a longo prazo, é que os participantes dos conselhos se organizem para financiar a impressão dos jornais. Essa proposta poderia ser feita nas próximas reuniões, oficialmente pelos grupos, por meio de uma apresentação oficial dos jornais, dos valores envolvidos para a sua produção, entre outros. Grupos ainda não têm estrutura para ir Apoio da gestão das UCs por meio de um atrás de recursos, escrever ofícios, estagiário que poderia interagir com os grupos, ajudando nos contatos, no

utilizar telefone, entre outros.

planejamento a medida do possível. Falta de acompanhamento de um A curto prazo, um estagiário pode

educomunicador ou educador para a contribuir, mas seria interessante se produção dos jornais comunitários pode fosse um monitor do próprio grupo de desmotivar o grupo. repórteres comunitários, que já

passaram pela formação e participam da produção do jornal. Uma segunda com solução o seria Núcleo efetuar de

parceria

Educomunicação do Parna Abrolhos, em Caravelas, para trazer novas formações em educomunicação e consultores da área atuando na nas três articulação UCs. de

Principalmente

68

parcerias. A distância a entre as comunidades Propor encontros periódicos do grupo. e o Utilizar (no caso da Resex) o rádio para

atrapalha

comunicação

planejamento para a produção coletiva comunicação. Encaminhar ofício para a dos jornais. Expresso Brasileiro solicitando liberação de passagens para o grupo de repórteres fazerem entrevistas, participarem de

reuniões, entre outros. Encaminhar ofício a Secretaria de Educação para liberar o uso do transporte escolar para a visita as comunidades.

69

COMENTÁRIOS SOBRE A ATUAÇÃO DAS UCS E A CONSULTORIA

As considerações sobre os problemas logísticos para a realização dessas oficinas já foram citadas nos relatórios anteriores sobre a metodologia. Entretanto, é importante fazer novas recomendações, caso as UCs se interessem na contratação de novas consultorias de educomunicação. A falta de comunicação entre as duas UCs envolvidas e a saída do gestor desestabilizaram um pouco o final de trabalho, assim como faltou clareza no Termo de Referência em relação a logística das oficinas. Sabe-se também que um dos objetivos desse trabalho é imprimir autonomia as comunidades, mas foi difícil lidar com a falta de garantia da impressão do primeiro jornal – ainda mais em um município onde não há parceiros para articular a garantia da impressão – desmotivou os grupos no início dos trabalhos. Produzir o jornal comunitário sem recursos deixou o grupo preocupado em tentar dinheiro para a primeira impressão, atrapalhando o foco educativo da atividade. Faltou maior tempo, também, para a consultoria articular parcerias. O ideal é que esse tipo de consultoria seja realizada por no mínimo nove meses, para garantir a continuidade do processo de educomunicação envolvendo outros atores junto aos grupos. É importante também orientar o consultor, quando da contratação, sobre a utilização de estrutura das UCs para a realização da consultoria. O trabalho de educomunicação exige uso constante de computador, internet, impressora, e orientando o consultor com antecedência, este poderá buscar formas de trazer seus próprios recursos. Ao final, o saldo foi positivo, acredito, para as duas UCs, que dentro do possível e apesar de todos os problemas, conseguiram contribuir com o resultado final desse trabalho, acompanhando-o e resolvendo problemas de logística de última. Espero que outras consultorias realizadas “casem interesses” das duas unidades vizinhas e ajudem a ampliar os canais de comunicação entre os gestores. Quem tem a ganhar são as próprias unidades de conservação – e as comunidades do entorno.

70

BIBLIOGRAFIA
BIODIVERSITAS/IESB. Relatório Técnico – Etapa 1 – Reuniões Diagnósticos nas Comunidades do Entorno do Parque Nacional do Descobrimento. Agosto de 2009. Não publicado.

CARVALHO, Isabel. Educação Ambiental: a formação do sujeito ecológico. 2ª edição. São Paulo: Editora Cortez, 2004.

FREITAS, Alexandra Coraça de. Relatório Circunstanciado das atividades de campo - Oficinas Comunitárias e Seminário de Integração. Projeto de Mobilização Social Para Elaboração do Plano de Manejo Participativo da Reserva Extrativista Marinha do Corumbau. Brasília, DF: ICMBio, 2009.

ICMBio/MEC/MMA. Documento Inicial: Estratégia Nacional de Comunicação e Educação Ambiental no Âmbito do Sistema Nacional de Unidades de Conservação. Brasília, DF: maio de 2009.

LOBÃO, Ronaldo. Relatório Parcial do Projeto Fortalecimento da Gestão Participativa do Uso dos Recursos Pesqueiros na Resex Marinha de

Corumbau. Prado, BA: 2005.
1

LOBÃO, Ronaldo. Relatório Parcial – Projeto: Fortalecimento da Gestão Participativa do Uso dos Recursos Pesqueiros na Resex Marinha de Corumbau. Prado, BA: junho, 2005.

Ministério

do

Meio

Ambiente

(MMA).

Educomunicação

Socioambiental

Comunicação Popular e Educação Ambiental. Brasília, DF: MMA/Departamento de Educação Ambiental, 2008.

TRATADO

de

Educação

Ambiental

para

Sociedades

Sustentáveis

e

Reponsabilidade Global – Aprovado na Jornada Internacional de Educação/Fórum Global – Rio 92. Foz do Iguaçu (PR): Itaipu Binacional, 2008.

71

ANEXOS

72

Anexo 1 – Fichas de avaliação individual

73

Anexo 2 – Lista de participantes das oficinas Parna Descobrimento
Primeiro de Abril Nome do participante Tiago do P. Santos Pauliana de Jesus Bonfim Sebastiana Maria de Jesus Ednalva de Jesus Alexsandro da Paixão Rocha Agnaldo dos Santos Ribeiro Telefone (73) 9122-5474 (73) 9121-9579 (73) 9948-5073 (73) 9123-0329 (73) 9198-7543 (73) 9951-0702 anaitsere@gmail.com e-mail tiago_morcegao1990@hotmail.com

Riacho das Ostras Stênio Bruno Oliveira Santos Marailde Abaeté Dernivaldo de Souza Alves Stéfany Oliveira Santos Sebastião Rodrigues de Sousa Antonio Francisco Dias (73) 9961-3240 (73) 9125-3776 (73) 9978-7718 (73) 9961-3240 (73) 9971-1730 (73) 9948-7494 marabaete@hotmail.com

Pontinha II Gilvan Santos da Costa Jaqueline Silva de Jesus Geisa Teles dos Santos Makuele Bezerra de Oliva Natalice B. de Oliva Amaral Jackson Oliva Costa José Alves Rodrigues Erinelza Bezerra de Oliva (73) 9958-7399 (73) 9983-0721 (73) 9987-2581 (73) 9977-0165 (73) 9985-9877 (73) 9964-5752 (73) 9158-5347 (73) 9986-3169

74

Anexo 3 – Lista de participantes das oficinas Resex Corumbau
Nome do participante Barra Velha Maria Braz Bonfim Renata Ferreira Nascimento Corumbau Jaqueline Conceição do Carmo Issara Conceição do Carmo Curumuxatiba Eliane Brandão Marciel Ferreira de Souza Ufredes Nascimento (Teta) Juliana Sakagawa Prataviera Welton Reis de Souza Fernanda Azevedo Elisabete da Cruz Marinho Naruan Liro Saraiva Pinto Pedro Fidel B. Leão Cangussu Ana Carolina C. Neves Alcione Pereira Simão Veleiro Sérgio de Jesus Zeca do Veleiro (73) 9134-4077 zecadoveleiro@hotmail.com (73) 8827-9496 (73) 3573-1075 (73) 8833-1330 (73) 8817-4089 (73) 8858-1658 (73) 8803-7904 (73) 8835-2840 (73) 8858-0767 (73) 8853-3776 (73) 8809-6424 (73) 8827-8986 alcionesima@hotmail.com delpedronet@hotmail.com inhanecbr@hotmail.com condominiodapreguica@hotmail.com surfista_do_abada@hotmail.com jujusoccer11@hotmail.com dalepedeserra@hotmail.com nanda_biomar@hotmail.com (73) 9978-1325 (73) 9991-7464 jaqueline-2011@hotmail.com Telefone e-mail

75

Anexo 5 – Clipping eletrônico

http://www.icmbio.gov.br http://emane-uc.blogspot.com/ www.midiasocial.rejuma.org.br http://www.mma.gov.br/sitio/index.php?ido=ascom.exibe&idLink=6940 http://midiaseducacao.blogspot.com/search?q=Parque+do+Descobrimento http://www.jornalosollo.com.br/noticia.php?id_noticia=2624 http://www.redecep.org.br/noticias_template.php?id=58 http://www.corredoresecologicos.ba.gov.br/index.php?option=com_content&vi ew=article&id=98:oficina-de-planejamento&catid=10:textos&Itemid=137 http://pib.socioambiental.org/pt/noticias?id=70269 http://www.teixeiranoticias.com.br/noticia.php?id=169 http://www.teixeiranoticias.com.br/noticia.php?id=210

76

Anexo 5 – Conteúdo cursos FASB

77

Anexo 6 – Blogs

78

Anexo 6 – Jornais Produzidos

79

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