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JAYRO LUNA

INFERNÁLIA TROPICALIS


56 poemas para o deleite de ratos de bibliotecas,
traças de sebos, quatro-olhos literatos e cus de ferro
em qualquer tipo de poesia.












Y
Épsilon Volantis
1999.







Copyright © 1999 by J airo Nogueira Luna
Capa: Wilson Babaçu
Revisão: Alvin Bates
Ilustração da primeira capa: A Gruta, Manuel de Araújo Porto-Alegre.
Ilustração da última capa: O Lago, Tarsila do Amaral.
Nas “ilustrações poéticas abstratas” o autor, por vezes, utilizou na composição ícones ou
clip-art do Microsoft Clip Gallery, 1997.
No título dos poemas utilizou fonte Futura Md Bt, corpo 12 e no texto dos poemas utilizou
fonte Book Antiqua, corpo 12, 8 ou 10, conforme fossem texto central, epígrafe e nota, ou
citação, respectivamente. Exceção feita ao poema “Contra o demônio que carcome o medo
o arco reteso dos heróis” em que foi utilizada fonte Courier New, corpo 12, no texto central.

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta edição pode ser utilizada ou
reproduzida – em qualquer meio ou forma, seja mecânico ou eletrônico, fotocópia,
gravação, etc. – nem apropriada ou estocada em sistema de banco de dados, sem a
expressa autorização do autor, ou desta editora, enquanto legalmente constituída nestes
direitos pelo autor.

Impressão e acabamento: AD Cópias.

Editora Épsilon Volantis.
Épsilon@bol.com.br

Luna, J ayro, 1960 –
Infernália Tropicalis / J ayro Luna. – São
Paulo: Épsilon Volantis, 1999.

Orelha da capa por Machado Penumbra Filho, prefácio de
Fabio Ulanin.

1.Luna, J ayro, 1960 – Poesia Brasileira – Teoria Literária. I. Título.

CDD – 869.915
801.95


Índices para catálogo sistemático:
1. Poesia : Literatura brasileira : Século XX - 869.915
2. Teoria Literária – 801.95


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INDEX SUMMARIUM
1. Tristes Trópicos Trôpegos, Fabio Ulanin..................................6
2. Primeiro Manifesto da Poesia Poli-sígnica.................................8
3. Stoned........................................................................................12
4. Cultura e Opulência do Brasil...............................................13
5. República de Poetas................................................................14
6. Piazza XIV.................................................................................15
7. O Demônio de Sócrates..........................................................16
8. Em Ritmo de Aventura..........................................................17
9. As Ilusões da Modernidade..................................................18
10. Blade Runner II.........................................................................19
11. The Inferno................................................................................20
12. Terra em Transe......................................................................21
13. I Remenber Jeep...................................…..................................22
14. Poema Látex............................................................................23
15. Iracema Ready Made................................................................24
16. O Exílio da Canção.................................................................25
17. Tropicália – Versão Didática.................................................26
18. Contra o demônio que carcome o medo.............................27
19. Quem não se comunica, si trumbica....................................28
20. Trópicos....................................................................................29
21. Parque Industrial....................................................................30
22. Rock-Poesia..............................................................................31
23. África.........................................................................................32
24. Ulisseida Ébrio.........................................................................33
25. Gauchissement............................................................................34
26. @.................................................................................................35
27. Para Rado..................................................................................36
28. Argonautas Internéticos..........................................................37
29. O Mosquito Herói contra os Vespas do Inferno..................38
30. Cyberespaço..............................................................................39
31. Didática Carpe Diem.................................................................40
32. Clube do Bolinha......................................................................41
33. Vidas Secas................................................................................42
3
34. Cães de Aluguel......................................................................43
35. The Three Stooges......................................................................44
36. A Banda....................................................................................45
37. Frankenstein Metamoderno..................................................46
38. A Dança dos 7 Véus................................................................47
39. O Encouraçado Potemkin......................................................48
39. Bang-bang à Italiana...............................................................49
40. Um Santo da Pérsia nos Trópicos.........................................50
41. Poema no País do Carnaval...................................................51
42. O Carnaval Nasceu no Recife................................................52
43. Mardi Gras.................................................................................53
44. Duburu Pipoca.........................................................................54
45. Porra Louca...............................................................................55
46. Poema Visual............................................................................56
47. Poema dos Macacos Datilógrafos..........................................57
48. Wine Rhymes..............................................................................58
49. O Demônio de Maxwell..........................................................59
50. Movimento Lírico-browniano................................................60
51. Poema do Bagaço.....................................................................61
52. Tele-soneto das 8......................................................................62
53. No Ritmo da Pedra..................................................................63
54. Bioterroristas Fenomenológicos Infectam Metapoemas....64
55. Fórmula para o Sucesso..........................................................65
56. Os Grandes Wallendas............................................................66
57. The End.......................................................................................67
59. Tábua de Correspondências Ocultas...........................................69










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Dedico este livro àquelas pessoas que não conheço e aos
leitores que jamais me lerão um único verso.
*******
“Le grand Empire sera par Angleterre,
Le Pempotam des ans plus de trois cens:
Grandes copies passer par mer & terre,
Les Lusitains n’en seront pas contens.”
Nostradamus, Centúria X, estância C.



“Guerra a todos preconceitos
Dos costumes de hoje em dia
A moda dos cabeludos
Chegou até a Bahia
E assim o mundo inteiro
De um modo verdadeiro
Aceitou esta anarquia.”
Rodolfo Coelho Cavalcante, O Resultado dos Cabeludos de Hoje em
Dia, Jequié,BA, 12/1966.


“Fez também Bezalel a arca de madeira de acácia; de dois côvados e
meio era o seu comprimento, de um côvado e meio a largura, e de um
côvado e meio a altura.
De ouro puro a cobriu; por dentro e por fora a cobriu, e fez uma
bordadura de ouro ao redor.
Fundiu para ela quatro argolas de ouro; e as pôs nos quatro cantos da
arca: duas argolas num lado dela, e duas argolas no outro lado.
Fez também varais de madeira de acácia, e os cobriu de ouro;
Meteu os varais nas argolas aos lados da arca, para se levar por meio
deles a arca.”
Êxodo, 37, 1-5.



5
Tristes Trópicos Trôpegos

Marx que me perdoe, mas apenas citando o seu mais
fiel discípulo, Groucho, para poder definir este Infernália
Tropicalis, de Jayro Luna: não é um livro para ser deixado
indolentemente de lado; pelo contrário, deve-se atirá-lo
longe, com toda a força.
Encontramos neste volume o que há de melhor como
exemplo de não se fazer poesia, a tal ponto que qualquer
mortal incauto que se pretenda poeta, ao tomar contato com
estes 56 “poemas”, mudará de idéia imediatamente e
procurará qualquer carreira mais promissora, como teórico
da pós-modernidade, por exemplo, que pelo menos
garantirá sua sobrevivência através de um non-sense
honesto, possibilitando, inclusive, a publicação de inúmeros
artigos no Mais!, sem contar o reconhecimento quase
imediato pela nossa intelligenzia.
Mas não se pode esperar demais neste contexto
citacionista na qual (sobre)vivemos, embolorado de
academicismo tacanho e engajamento auto-condescendente
sombrio. Os textos que se pretendem poemas, voltados para
um público muito bem definido (“ratos de biblioteca, traças
de sebo, quatro-olhos literatos e cus-de-ferro em qualquer
tipo de poesia”), conseguem atingir seus objetivos
principais: a desratização das bibliotecas, causar indigestão
nas traças, ampliar a miopia dos literatos, e haja ferro para
agüentar tanto cu à guisa de poesia.
Não que este livro seja de todo ruim. Longe disso. O
autor teve o cuidado de selecionar bons textos como
epígrafe dos “poemas” (mais epígrafes que poemas,
diga-se), assim como rechear as páginas de notas de rodapé,
algumas vezes excelentes, quando de autoria de outrem,
6
outras, do próprio serial killer que assina o volume,
deveriam permanecer inéditas.
Mas sempre existe alguma desculpa para o desfrute
de páginas inúteis. E, caso o possível leitor (tem louco para
tudo neste mundo – e eu mesmo fui um, para tecer estes
elogios) procure algo entranhado nas fossas abissais destes
textos, basta que se mantenha na segurança das epígrafes e
de algumas notas. Não tem erro: encontrará – estes sim –
poemas e poderá se divertir muito tentando imaginar o que,
afinal, tem haver o dito com as calças.
Mas nosso amado autor não deve esmorecer. Este
livro tem futuro garantido, ainda que na imanência
intolerante do silêncio. Se a ABL tem como membro um
cirurgião plástico, se elegeu o senhor Campos, se nosso
Citizen Kane toma chá por ali, Jayro Luna pode
candidatar-se assim que um imortal perca a sua categoria
eterna e passe desta para o merecido olvido. Pelo menos
não será esquecido sozinho.

Fabio Ulanin
*













*
Fabio Ulanin é professor universitário, tem surtos repentinos de ira
sôfrega e hidrófoba e só não sofre perseguições pelo policiamento
intelectual porque ninguém faz a menor idéia de quem ele seja.
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Primeiro manifesto da poesia poli-sígnica: mais um
manifesto do tipo bicho de sete cabeças e inútil!!!
“eis a nova canção / ou a nova invenção / que se chama e se diz / polissigno (eis
/ o poema que eu fiz / de um poema ser três)”. “A-poesia-polissigna” em: Sísifo,
Canto V, est.XXI, Marcus Accioly.

1. Introdução obscena:
A poesia que aqui se propõe é a do tipo bicho-grilo!
Poesia é uma coisa quântica... Depois de T.S.Eliot: “Quando o
poema é escrito, algo de novo acontece, algo que não pode ser
explicado por nada do que se passou antes”.
Poesia deixa pistas para a solução do mistério da criação: escrita
em palimpsestos...O poeta a que chamamos de gênio é, em geral,
um doido varrido! Poucos o compreendem!
Poesia tem vários níveis de leitura, do banal esdrúxulo ao
bestialmente estranho e original!
O poeta deve trabalhar em seu texto várias possibilidades
levando em conta não à existência de diversos leitores, mas à
possibilidade do poeta ter vários outros eus: cada um deve ter um
juízo sobre o poema. Vide Álvaro de Campos!
Poesia, enfim, vai da flor à merda transmutando essências e
medulas!
2. Poesia e Informática:
Hoje se fala em poesia digital, infopoesia, poesia do computador,
etc...
Ted Nelson veio falando em hipertexto: o texto que é linkado
noutro texto. Julia Kristeva via Bakhtin já falava em
intertextualidade.
Os maneiristas barrocos transformaram a poesia num game, num
software de jogos. Os árcades e os parnasianos viam a poética
como um editor de textos. Os simbolistas e decadentistas
inventaram através da poesia o primeiro access, que permitia
acessar textos ocultos. Os modernistas fizeram da poesia um
programa operacional, cada novo poema era só um software
compatível. Os românticos brasileiros, dependentes na
independência, fizeram do poema uma web-page: links na
8
dedicatória, links nas epígrafes (veja Álvares de Azevedo e
Gonçalves Dias), links de local e data, e links internos: citações.
A poesia que ora se apresenta tem isso: múltiplas epígrafes,
criando relações sígnicas entre os epigrafados e os poemas. Cada
poema é uma rede de ligações entre textos, cada poema é uma
rede. Dedicatórias variadas, muitas vezes irônicas. O local e a
data do poema são elementos estéticos e devem ser tratados
como tais.
O texto ainda vem com citações explícitas além das inúmeras
ocultas: parodizações, estilizações, paráfrases.
Minha poética é a poética do web sitebuilder! Ícones, imagens
coladas ao lado do texto, acima, abaixo, por detrás do texto.
Ícones são clip-arts! Ilustrações poéticas abstratas... quase
poesia-visual, quase...
3. Poesia e Cinema:
Eisenstein descobriu a montagem via ideograma. O Futurismo
descobriu o cinema como totem do século XX!
O cinema novo reinventou a partir do velho, criando a cena
tropical a partir da desconstrução do cenário romântico.
Maiakóvski e Oswald introduziram a câmera no olhar poético,
algumas vanguardas têm se notabilizado por colocar o olhar
poético na câmera. Cummings vê cada grafema como um
fotograma, Mallarmé via cada poema como um fotograma em
negativo.
A poesia que ora se propõe insere cada palavra como um objeto,
cada epígrafe ou citação como um personagem ao fundo, cada
verso como parte de um personagem em primeiro plano,
desfocado, porém, de maneira que o olhar do leitor só o perceba
por partes, é preciso recompor a efígie dele. Tudo no poema deve
propor movimento, as partes são intercambiáveis e se completam
para formar o todo. A letra e a palavra não devem estar sujeitas
apenas ao efeito da montagem ou ainda ao simultaneísmo, a
palavra poética deve recuperar o poder dos efeitos especiais...Um
poema deve ser tão inusitado quanto um vídeo-clip e tão
ilusionista quanto um curta de Georges Méliès!
9
4. Poesia e Pintura:
A pintura abstrata mostrou-nos as cores como signos,
mostrou-nos o bidimensional como um mundo com leis
específicas. Os cubistas introduziram a multiplicidade do olhar e
abriram espaço para a invasão da tela por objetos estranhos. Os
expressionistas mostraram-nos que as emoções moldam a forma
e os surrealistas colocaram o inconsciente no mundo visível. A
pop-art reinventa a imagem, sem ter nela nada de invisível. A
poesia que aqui se propõe não se pretende pintura, Lessing já
demonstrou a importância dos adjetivos. A poesia deve ser
palavra-cor, a perspectiva na pintura é ilusão de dimensões, a
perspectiva na poesia é a perspectiva das ilusões! O poema pode
ser composto por elementos pictóricos: formas, cores, linhas; nos
que aqui se mostram, apresentam-se acompanhados de
ilustrações poéticas abstratas. São traduções visuais de
palavras-cores dos poemas. A palavra-cor é uma coisa do poema.
As formas, cores e linhas podem compor um poema, mas se ele
não tem palavra-cor, ainda que escondida nas dimensões da
forma, não é poema brincando de se fingir pintura, é só uma
pintura brincando de se fingir poema. A palavra-cor é uma coisa
sintático-estética!
5. Poesia e Música:
Os simbolistas buscaram a música da poesia, vide Verlaine,
Mallarmé, e cá entre nós, Emiliano Perneta, Cruz e Sousa. Mário
de Andrade inventou uma teoria musical para a poesia e a testou
com relativo sucesso e sonoridades. A música que aqui se propõe
é do tipo primitivo-eletrônica... Além de ser contemporânea no
estrato oculto e pop-rock tropicalista no estrato pra-lá de
aparente...
Cada palavra é um acorde, cada verso um compasso, o ritmo se
dá pela expectativa, seja ela cumprida ou frustrada: temos neste
segundo caso, o solo em contraponto. As onomatopéias, as rimas,
as aliterações cumprem outra parte do processo: transformam a
música do estrato oculto em música de fundo, soundtrack!
6. Poesia e Livro:
10
A poesia é como um livro, existem páginas que antecedem e
outras que se seguem... A primeira aponta para a última e a
última rememora o estado da primeira.
O mundo do homem é como uma biblioteca incompleta, sempre
se guarda espaço para a próxima obra, que urge, que se faz
necessária. Borges sonhando com as pernas duma gentil
bibliotecária subindo uma escada em busca da obra rara perdida...
Tudo existe para acabar num livro? Um livro é tudo o que existe,
o livro universal! Algumas vanguardas rejeitam a forma do livro,
mas quanto mais se rejeita mais o mundo vira página dum livro.
A Ave do Wlademir só voa numa página virtual! Os dados de
Mallarmé só se jogam no acaso das páginas! O mais recente
poema visual traz em si a nostalgia sufocada da página que o
perdeu... Poesia boa é poesia morta! Poesia deve viver em
qualquer dimensão, aliás, em quaisquer dimensões!
Se você, caro leitor, não gostou deste manifesto ou não o
entendeu, não me culpe, ou se detenha em maiores questões...
Este manifesto não serve para nada mesmo, isto nem mesmo
serve para falar de meus poemas!
Escrito numa viagem entre
Tlön e Uqbar,
num dia como esse.
















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Stoned
A Ken Kesey, Timothy Leary e Rubiako.
“Guidé par ton odeur vers de charmants climats,
Je vois un port rempli de voiles et de mâts” BAUDELAIRE.
“But it’s all right now, in fact it’s a gas” ROLLING STONES.

Vê, esta coisa que me entorpece,
Que me consome, que é qual um tormento
Como uma chama jovem envelhece
E se extingue nas cinzas de Éos, o vento!

Vê, esta coisa que me corta a alma,
Que me destrói as virtudes sociais,
Até me afoga nos mares de traumas,
Corrói meu espírito, minha paz!

Vê, é um vício! Louca ludicidade
Que me imaginou o corpo ao coração,
Em que creio ver a própria liberdade!

Vê, Morpheu! Disto me acuso e me advogo,
Sendo esta minha sentença e razão,
E pelo que vivo a jogar e jogo!
Farol da Barra, 1984.



12
Cultura e Opulência do Brasil
Por suas Drogas e Minas
In Memorian, para Oswald de Andrade.
“O livro ensinava o segredo do Brasil aos brasileiros, mostrando toda a sua
possança” CAPISTRANO DE ABREU.
“Correm suas lágrimas por tantos rios quantas são as bicas que as
recebem” ANDREONI DE LUCA.

Meu caro Antonil
Devia o Brasil
De fazer uma obra monstra
Coisa que há de se ver muito pouco
Um enorme Santo de Pau Oco
1
Que os gringos nessa parte
Haviam de ficar meio moucos
De nossa indústria nessa arte!


H





J uiz de Fora, 1992.






13
1
“o monumento é de papel crepom e prata / os olhos verdes da mulata / a cabeleira esconde atrás /
da verde mata / o luar do sertão” CAETANO VELOSO.
República de Poetas
Para todos os poetas marginais de após 64.
“Outrora na minha juventude experimentei o que tantos jovens
experimentaram”. PLATÃO.
O maior de nossos bardos
Até traduziu John Lennon,
Outro grande poeta
Era antropófago,
Um poeta de quem gosto muito
Travestiu-se da pele de cobra
E sumiu na selva
Atrás da filha da rainha Luzia;
Tínhamos Bandeira
Que desfraldava versos
E pendia de tuberculose.
Outros poetas
Sob o sol quente
Construíram um estranho monólito
E iniciaram uma nova odisséia,
Uns poetas naufragaram,
Outros se exilaram,
Um vate se vestiu de índio
E desceu ao inferno de Wall Street,
Um outro conversava com pedras,
Morreu na prisão;
Outro era Boca do Inferno.
Nosso príncipe, porém,
Conversava com estrelas.
Por fim, fiquei aqui só,
Tocando violão no circo vazio
Para clowns chorões
E leões sonolentos.
Brasília,1986.

14
Piazza XIV
A Charles Bukowski, Jack Kerouac e Serguei.
“OS QUINZE VELOCÍPEDES NA LADEIRA DO AMOR / como um Mar de
bocas / tóxicas de Sagitário / ondulando nas almas / que dançam despidas”
ROBERTO PIVA.
“..e quindi il vivere é di sua propria natura uno stato violento” LEOPARDI
“Ruppemi l’alto sonno ne la testa
un greve truono, si ch’io mi riscossi
come persona ch’è per forza desta” DANTE ALIGHIERI.
“Tratam minha poesia / como produto de uma visão doentia, / tão só merecedora de um
desdém solene” SAMIR SAVON metamorfoseando-se em CESÁRIO VERDE.

Segui RIMBAUD & VERLAINE
Ouvi um cravo barroco
Tocar Greensleeves e Martin Codax.
Dei alguns níqueis
para Camões, o zarolho,
Que mendigava;
Delatei Pound
aos caçadores de nazistas!

o corpo pútrido de CRUZ & SOUSA!
E agora sou guerrilheiro
da anarquia poética...










Terminal Ferroviário de Santos, 1990.
T
RUTH



15
O Demônio de Sócrates
Para des Esseintes
“Desgraçado! – exclamou Sócrates. –Imaginas o que te sucederia se
beijasses uma pessoa jovem e bela? Ignoras que de livre, num instante te
tornarias escravo? Que pagarias caro prazeres perigosos? Que já não terias
ânimo de investigar o que é belo e o bem? Que haverias de dar cabeçadas como
um louco?” XENOFONTE.
“Este verso ‘Deus Creator omnium’, de oito sílabas, vai-se alternando com sílabas
breves e longas. Quatro breves: a primeira, terceira, quinta e sétima. Estas são
simples, comparadas com as quatro longas: a Segunda, Quarta, Sexta e Oitava.
Cada uma destas tem o dobro de tempo com relação às outras. Assim o noto
pelo testemunho dos sentidos. Segundo o que estes me revelam, meço a sílaba
longa pela breve e vejo que a longa contém duas vezes a breve. Mas quando soa
uma após a outra, se a primeira é breve e a Segunda é longa, como hei de reter a
breve?” SANTO AGOSTINHO.
Madaura,
Cartago,
Alexandria...
Oea (Trípoli),
Cupido flecha o coração de Apuleius.
Sicínios rufinos:
-Golpe do baú!
Pudentila, rica viúva quarentona
E Lucius na idade de Christo!
Vida irregular,
Poesias licenciosas,
Prática da magia,
Apropriação indébita de bens!
Apulei pro se de magia liber
Metamorphoseon
Asinus aureus
Contra o demônio de Sócrates
Santo Agostinho erige a Cidade de Deus;
Lucius, o advogado,
Sacerdote de Ísis,
Pastóforo de Osíris,
Brinca de sagan com os caldeus. Marrakesh,1996.
16
Em Ritmo de Aventura
Em homenagem a Sal Paradise e Dean Moriarty.
“Vinha voando no meu carro quando vi pela frente / Na beira da
calçada um broto displicente / Joguei o pisca-pisca para a esquerda e entrei / A
velocidade que eu vinha não sei / Pisei no freio obedecendo ao coração / E
parei, parei na contramão.” ROBERTO E ERASMO CARLOS.
“ping pong
ping pong ping
pong ping pong
ping pong” EUGEN GOMRINGER.
-Quem é você?
-Eu sou Michkine!
-Eu sou Kirilov...

Já eu, que sou de outro romance,
sou o meio do redemoinho!
Nesta briga de rua entre hipsters e squares,
Refugio-me em minha fazenda, Ponta Porã!
Endless balls! Comendo no Bickford’s ou no Ponto Chic,
Entre o fogo fugaz e a fugazzi’s... Caldo verde em Newark!
Pra lá de Tanger, de Marrakesh, de Teerã,
de Pasárgada, de Bactra, de Babylonely,
dando com os burroughs n’água!
Dakar teu beijo, baby!
John se atira com poema e tudo
na boca de um vulcão asteca...
Poesia vulcanizada para a eternidade!
Plotino, cuidado!
Gordiano não é Alexandre!
Se eu fosse um bob marley judeu
escrevia na minha janela:
“Fuck the Jews!”
Ao êxtase só chegam os músicos,
os amantes e os filósofos!
Poetas não gozam...
Uivam! Crusp, 1994.
17
As Ilusões da Modernidade
Para Murilo Mendes e Cassiano Ricardo
“Paris changel mais rien dans ma mélancolie
N’a bougé! palais neufs, échafaudages, blocs,
Vieux faubourgs, tout pour moi devient allégorie,
Et mes chers souvenirs sont plus lourds que des rocs.” CHARLES BAUDELAIRE.
“Fantôme qu’à ce lieu son pur éclat assigne,
Il s’immobilise au songe froid de mépris
Que vêt parmi l’exil inutile le Cygne.”STÉPHANE MALLARMÉ.
“escrever é uma forma de
ver
alles ist samenkorn
tudo é semente
flamíssono” HAROLDO DE CAMPOS.

Hey John, eis o poeta moderno
Brincando de encantamento,
Descendo ao fogo do inferno
Para brindar por um momento
Com o artífice do enigma
Que vocifera na floresta
De símbolos! Vê, o paradigma
Dos céus da mídia
2
o contesta,
Proscrito o poeta, à margem só;
Hey John, o poeta vem do pó,
C é u
Sem o encanto dos clips, vídeos,
O poeta mergulha em Ovídio...
Hey John, a condição social
Do poeta é a cultura infernal!




Berkeley,1992.


18
2
MOSAICO: Nil humanum alienum est / Qual o tema do poema? / Um enciclopedista no faroeste! /
Remendo cacos num retrato de São Markoff. / Engasgo-me com o café expresso: cóf-cóf-cóf! (J ayro
Luna, inédito avulso).
Blade Runner II
3
Para Sirkis
“Nunca se vence uma guerra / Lutando sozinho / Cê sabe que a
gente precisa / entrar em contato / Com toda essa força contida que vive
guardada / O eco de suas palavras / Não repercutem em nada.” RAUL SEIXAS
“Mas o que são esses ziguezagues no grande retângulo central? Acontece que
são... fósforos. Levando em conta a importância fundamental dos fósforos para
o processo representado (...)” SIERGUÉI EISENSTEIN
“E então surgiu o Sol, o próprio Ludwig van, de litso de trovão e gravata, o
volosse revolto pelo vento, e então eu ouvi a Nona, último movimento, com os
eslovos um tanto ou quanto misturados, como se até eles soubessem que tinham
que estar misturados, já que aquilo era um sonho” ANTHONY BURGESS.

louras andróides dão piruetas no ar
e me prendem com chaves de pernas
anões de boulevard e soldados de jardim
brincam de tiro ao alvo em mim
meu amigo tire suas escamas
em frente ao espelho
lá fora voam carros vermelhos
procuro uma carta secreta
nos labirintos de uma fotografia
uma linda replicante me diz
que a vida é toda magia.
deckard






L.A.,1984.





19
3
BLADE RUNNER I: Em L.A. busquei o sexo dos anjos / Fugi para o Rio / Acessei do meu barraco
na favela / para criar minha web page / o site dum lama replicante / O poeta na galera / -tears of rage
- / escreve uma centúria para Kant. (J ayro Luna, inédito avulso)
The Inferno
Para Fausto e Dorian Gray
“Quali Alessandro in quelle parti calde
d’Indïa vinde sopra’l süo stuolo
fiamme cadere infino a terra salde, (...)

tale scendeva l’etternale ardore;
onde la rena s’accenda, com’esca
sotto focile, a doppiar lo dolore” DANTE ALIGHIERI.
“Há, no Louvre, um Méditations du Philosophie cujo motivo simbólico nada
mais é senão a mente humana com suas abundantes trevas, seus momentos de
fulgor intelectual e visionário, suas misteriosas escadarias em caracol que se
dirigem, subindo ou descendo, para o desconhecido."”ALDOUS HUXLEY.
“Enquanto Freud explica as coisas / O diabo fica dando uns toques.” RAUL
SEIXAS.
A fornalha do inferno é um quasar
Em explosões e consumindo mundos.
Sir Fred tem uma imaginação fértil!
Às portas presa do nefando inferno,
Nesse vazio páramo aeriforme,
O quasar quase humano pulsa fogo.
Há poucos kiloparsecs da terra,
O demo deseja outro universo.
Por estes lugares plenos de horror,
Por este imenso Chaos,
Por este vasto reino do silêncio,
Vociferam feras monstruosas
E gritos ensurdecedores de dor,
Enquanto eleitas almas salvam-se num hiperespaço.

Mir,1995.


20
Terra em Transe
Em homenagem a Jardel Filho
“ra terra ter
rat erra ter
rate rra ter
rater ra ter
raterra terr
araterra ter
raraterra te
rraraterra t
erraraterra
terraraterra “ Décio Pignatari.
“Já afirmei e torno a lembrar aqui: o meu programa ambiental a que chamo de
maneira geral Parangolé não pretende estabelecer uma ‘nova moral’ ou coisa
semelhante, mas ‘derrubar todas as morais’” HÉLIO OITICICA.
“A grosso modo, somos o passado dos países desenvolvidos e eles são o ‘espelho
de nosso futuro’”. FERREIRA GULLAR.
O pecado da inflação
Tem sido a especulação
Agora é preciso sofrer a punição
Do bloqueio de recursos
Para se chegar à graça da estabilidade
Nas XIII estações deste percurso
Econômico está o paraíso fiscal e a dolarizada felicidade.










Porto Seguro, 22-04-2000.

21
I Remenber Jeep
Dedicado aos hippies tupiniquins.
“q publicarei um livro com letras iluminadas / pra se ler no escuro” CHACAL.
“Todo dia um poeta / ao acordar / pula do décimo andar / de um edifício em
construção.” TOUCHÊ.
“O Elevador Lacerda com sua torre gigante, como um H monumental”
CARLOS MARIGHELLA.
“I can’t quit you, babe / But I think I’m gonna put you down for a while” WILLIE
DIXON.

Saindo numa alvorada azul
De Alegrete no Rio Grande das Bandas do Sul,
Mas saindo numa alvorada blue
De Alegrete no Grande Rio dos pampas do Sul,
Viajando 25.000 quilômetros
Pelo sol deste país,
Pernoitando até em Bom Jesus,
Canto do Buriti,
Tijuca da Serra Vermelha no Piauí,
Mas pernoitando até nos braços de Carolina,
Riachão, Fortaleza dos Nogueiras,
São Raimundo das Mangabeiras
E Nova Iorque às margens do Rio Parnaíba
Ou na Serra da Desordem,
Entre babaçuais na civilização do babaçu,
Maranhão...
Manda buscar outro lá no Piauí...
Pra tudo terminar bem blues
Em Cochabamba,
Bolívia,
Ponto Final,
Chegada de Buth Cassidy & Sundance Kid,
Prestes,
“Tchê” Guevara
E até do meu jeep dick. Ciudad del Leste,1999.
22
Poema Látex
Em homenagem a Luís Aranha
“Tem dias que a gente se sente / Como quem partiu ou morreu.” CHICO
BUARQUE DE HOLLANDA.
“Adonde achar uma enxada, meu Divino Padre Eterno!” BERNARDO ÉLIS.
“A água tem a molura macia de perna de moca, compadre!” RAUL BOPP
“Examinaram de novo a floresta. Do lado direito, coisa alguma distinguiram
senão as trevas da noite” RAUL POMPÉIA.
“Quando deveríamos começar um novo ciclo de novenas, fomos descobertos.”
MÁRCIO SOUZA.

um castro
não fidel
4
, mas plácido,
funda a junta revolucionária
abre o lacre
do the bolivian syndicate of new york
e dá ao brasil o acre
90 anos depois
chico cai como castro
sangram as seringueiras
seu alvo látex
num rubro rastro.


A.C.






Basiléia, 1986.




23
4
CUBA LIBRE: Cienfuegos / Que mancada em Moncada / na Sierra Maestra o luar do sertão /
Botou pra fugir Fulgêncio / Meu amigo Chê virou silk-screen / The end of dream / Marighella na tela
/ deseja o luar do sertão. (J ayro Luna, inédito avulso).
Iracema Ready Made
À Iguassu, Lyndóia e Moema.
“A primeira língua do homem, a língua mais universal, a mais enérgica e a
única de que se necessitou antes de precisar-se persuadir homens reunidos, é o
grito da natureza.” J.J.ROUSSEAU.
“Pensam muitos ser cousa detestável ver esse povo nu, e perigoso viver entre as
índias, porquanto a nudez das mulheres e raparigas não pode deixar de
constituir um objeto de atração, capaz de jogar quem as contempla no precipício
do pecado.” CLAUDE D’ABBEVILLE.
“Nossos índios, entretanto, trocaram diversos objetos por aguardente de cana;
começaram a beber e logo o acampamento tornou-se palco da mais ruidosa
orgia.” FERDINAND DENIS.

Os verdes mares bravios
da minha terra natal
onde cantam as jandaias
nas frondes da carnaúba;

Verdes mares que brilhais
como líquida esmeralda
aos raios do sol nascente,
perlongando as alvas praias
ensombradas de coqueiros;

Serenai, oh verdes mares,
bem alisai docemente
Mattise, Odalisca com Pantlona.
as vagas impetuosas
pra que o barco aventureiro
5
só resvale à flor das águas.
Volta da Jurema, 1991.


5
TOSTE: Riem, estes ecúmenos, vis invernos, / Do velho lobo do mar naufragante, / Tão
longe se anovelam uns trapos, / De sirenes amontoa-se os infernos. // Nós navegamos,
aos meses diversos, / Nós vivemos banidos entre as ondas, /Vamos avante no fastio de
copos, / Até ver do mar o seu lado inverso; // Nossos amigos vão todos a bordo, / São
incrédulos momos, e os acordo / Para portar de pé, qual vera hoste // Solitária e entre
recifes tantos, / Que singramos sob sol ao som de cantos, /Nesta nau jalne, as taças de vil
toste. (Jayro Luna, O Escaravelho de Prata).
24
O Exílio da Canção
Para todos os artistas exilados
“O mon pays, sois mes amours / Toujours!” CHATEAUBRIAND.
“Kennst du das Land, wo die Citronen blühn?”GOETHE.
“Minha terra tem palmeiras, / Onde canta o Sabiá” GONÇALVES DIAS.
“Quero a terra das mangueiras /E as palmeiras, / E as palmeiras tão gentis!”
CASIMIRO DE ABREU.
“Ouro terra amor e rosas / Eu quero tudo de lá” OSWALD DE ANDRADE.
“Nossos bosques têm mais vida”OSÓRIO DUQUE ESTRADA.
“Nossas frutas mais gostosas / mas custam cem mil réis a dúzia.” MURILO
MENDES.
“Calor. E as ventarolas das palmeiras, / e os leques das bananeiras / abanam devagar
/ inutilmente, na luz perpendicular.” GUILHERME DE ALMEIDA.
“Toda vez que anoitece, as tanajuras / me rodeiam e cobrem a terra inteira.” LÊDO
IVO.
“sabiá... / papá... / maná... / sofá... / sinhá... ” JOSÉ PAULO PAES.
“O poema é antes de tudo um inutensílio” MANIEL DE BARROS.

Minha terra tem palmeiras,
Mas eu sou tricolor;
As aves daqui, como as de lá,
Já viraram bolor...

Nosso céu está cinzento,
Nossa várzea não tem mais times,
Nossos bosques têm máquinas de coca-cola,
Nossa vida é entre crimes...

Em cismar, sozinho, à noite
Assisto muita novela,
Quando joga São Paulo e Palmeiras
Onde canta o gogó da ema?

Não permita Deus que eu morra
De susto, de bala, ou vício
Sem qu’inda aviste laranjeiras
Que é lá que canta o(a) sabiá
6
.
Coimbra, julho,1993.

25
6
O SABIÁ: “Vem junto à minha janela / sobre a bela / verdejante laranjeira, / Beber o eflúvio das
flores / Teus amores / Nas asas da aura fagueira.”(Fagundes Varela).

Tropicália – Versão Didática
Para Duda Machado
“Assim, o demônio tem /Sua completa unidade /Com a qualidade de Deus/
Confundida à própria face.” JOSÉ CARLOS CAPINAM.
“É brasileiro, mas é muito pop” TORQUATO NETO.
“Hoje um batuque com a pureza de meninos uniformizados de escola
secundária em dia de parada” CAETANO VELOSO & GILBERTO GIL
“We don’t have to wait till tomorrow” JIMI HENDRIX
‘I’m making it clear / To confuse you” TOM ZÉ
“El Justiciero cha, cha, cha / Que otra cosa puedo dar” MUTANTES.
“Tropicália é a redução eidética (de eidos, please) contida numa pílula
ambiental sintética preparada pelo feiticeiro Hélio Oiticica, nosso Kurt
Schwitters.” WALY SALOMÃO.

De um filho de Tupã, vinha mandado,
Algum nome, se o há, da poesia
7
,
Descobriu o recôncavo afamado,
Ter como entenda o idioma da Bahia.

Que era um dragão dos mares vomitado,
Entre as ondas com ânsia furiosa,
Carybé, Orixá
Nihil Do
Que vivia em liberdade conservado,
Avistou dentro da água buliçosa

Já no purpúreo trêmulo horizonte,
Alguma formosíssima donzela,
E o Sol que nasce no oposto monte.

Qual das belas araras traz vistosas
E cobertas de plumas amarelas,
Soberano autor da lira formosa.

Santo Amaro, 1994.

26
7
POÉTICA: Considere o modelo / As estrelas siderais / Conte do paradigma os elos / Os poetas
modernos são canibais / Todo mundo pode ser artista / Mas só uns poucos não param na pista. (J ayro
Luna, inédito avulso).

Contra o Demônio que Carcome o Medo
o Arco Reteso dos Heróis
Dedicado a Glauber Rocha
“o mar / atrás do mar. O ínvio-obscuro / caos pelaginoso / até onde
se esconde a proibida / geografia do éden – Paradiso” HAROLDO DE
CAMPOS

僖蘅鷴
“Cada herói prostra alguém na debandada. / Imola heitor a Arcesilau,
caudilho / De arnesados Beócios” HOMERO – via ODORICO
MENDES.
“Sem bárbaros o que será de nós? / Ah! eles eram uma solução.”
KONSTANTINOS KAVÁFIS.
“Eis que chega o caminho, ó Bakororo! Dá tua pintura de preto, de
enfeite de penas, de cor vermelha, de tua penugem branca, das caudas
de arara e o teu chifre.” Canto Bororo, anotado por COLBACCHINI E
ALBISETTI, ver: EGON SCHADEN.


O d e m o c r a c i a
e mo c r a c i a i
mo c r a c i a i c
o c r a c i a i c a
c r a c i a i c a r
r a c i a i c a r c
a c i a i c a r c o
c i a i c a r c o m
i a i c a r c o me
a i c a r c o m e d o





Vale do Anhangabaú,1992.


27


“Quem não se comunica, si trumbrica”
Para Anastácyo Ayres de Penhafiel
“I love you, I need you” GRETCHEN.
“Esta é a última canção que eu faço pra você” PAULO SÉRGIO.
“Roda, roda e avisa: um minuto pro comercial...” ABELARDO BARBOSA.
“Contre la toux, pour la gorge, Pastilles Valda. Va mal... Valda... Va
bien!”PUBLICIDADE.
“Veja, ilustre passageiro, / O belo tipo faceiro / Que o senhor tem ao seu lado /
E no entanto acredite,/ Quase morreu de bronquite,/ Salvou-o o Rhum
Creosotado” PUBLICIDADE.
“Perturbações Intestinais? Disenfórmio” PUBLICIDADE, ver: DÉCIO
PIGNATARI.

Hoje sou super-herói, viva eureka!
Agora sou um mandarim da China;
Roupas de pierrot, jogador, boneca,
Toda fantasia o palhaço bulina.

Brinco em concursos levados da breca,
O homem mais feio, lindas colombinas,
Troféu abacaxi, jogo de peteca,
Danças: samba, rock, forró. Brilhantina!

O cantor mascarado canta e breca,
Eis, bailarinas entre serpentinas,
Sou tropicalista, oh Terezinha!

Que louco picadeiro a discoteca!
Fon-fon! Klaxon
8
! Soa agora a buzina,
Gira, gira e comunica o Chacrinha...
Auditório do Raul Gil, 1993.

28
8
REVISTA: Poesia instantânea / Poesia solúvel / O nu da poesia / O gol de placa da poesia / O
flagrante poético / Revista de poesia / É como tapioca com queijo / É bom, nacional e gostoso / Mas
o consumidor só quer hamburger com coca em lata / E o poster da loira que era mulata. (J ayro Luna,
inédito avulso).
Trópicos
Dedicado às prostitutas.
“Aqueles beijos, não é possível que os gere duas vezes o mesmo lábio, porque
onde nascem queimam, como certas plantas vorazes que passam deixando a
terra maninha e estéril” JOSÉ DE ALENCAR.
“Ela ficou como uma virgem cortejada pela primeira vez. Sentiu um prazer
rebentar-lhe o coração e passar-lhe o corpo inteiro.” ALMADA NEGREIROS.
“gritou Brites, inda bem, / que tudo sofre, quem tem / rachadura junto ao cu”
GREGÓRIO DE MATOS.
“Todas no mundo dão a sua greta; / Não fiques pois, ó Nise, duvidosa / Que
isso de virgo e honra é tudo peta” BOCAGE.
“na frente do espelho / sem que ninguém a visse / miss / linda feia / lindonéia
/ desaparecida.” CAETANO VELOSO.
“com teus caprichos concordo, / e por vingança te engordo.” LEILA
MÍCCOLIS.
“já estou daquele jeito / que não tem mais conserto / ou você me leva pra cama
/ ou desperto” ALICE RUIZ.
“Líria, como te quero, phd de picas, tu dizes que os brasileiros são incultos
duros desabusados.” HILDA HILST
“Estácio, Rocha, Catete, Rua General Pedra, Olaria, Ramos, Bonsucesso, Vila
Isabel, rua Marquês de Sapucaí” MANUEL BANDEIRA.
Hotel des États-Unis
Sentamo-nos num salão de bilhar
Com cheiro de café fresco nas narinas.
Há cem anos ou mais o mundo,
Nosso velho mundo vem morrendo...
A cama
9
está cheia de sapos
E de botões de fantasia de colete...
Ela não fitava o forro com ar vazio,
Nem contava os percevejos
No papel da parede...E agora sou eu,
Em pé na sombra do viaduto
Que me estendo em direção a ela.

9
LADY MADONNA: Um egresso par de demônios acuados / Vêm gritar nomes aos
ouvidos tristes / E crianças sem lei roubam os estrados / Desta granfina prostituta
altruísta. // Em seu ventre comparecem heróis, / Doidos e tenentes, a meter sabres, / Ela
arde ao choque obscuro de anzóis, / Mas é a clamar a paga que a boca abre.
// ...................... // É seu rol de ruínas, Lady Madonna, / Que você maneja a maquiar
mitos, / Na agenda vários bilhetes cafonas // Em que às noites estocadas de ritos, / Seus
amantes necessitam riscar / Junto às cédulas rotas de comprar. (Jayro Luna, O Escaravelho
de Prata).
29
Parque Industrial
À Mara Lobo
“retocai o céu de anil / bandeirolas no cordão / grande festa em toda a nação.”
TOM ZÉ.
“ “VOLPI.


“Proletários de todos os países, uni-vos” KARL MARX.
“O desenvolvimento sexual da menina caracteriza-se pela inveja do pênis”
SIGMUND FREUD.
“Auto-sublimação da sexualidade: (...) o termo implica que a sexualidade pode,
sob condições específicas, criar relações humanas altamente civilizadas sem
estar sujeita à organização repressiva que a civilização estabelecida impôs ao
instinto.” HERBERT MARCUSE.
“Se a célula ovular pudesse falar, exprimiria angústia.” WILHELM REICH.
“Quanto mais Baudelaire percebeu isto tanto mais a decadência da aura
inscreveu-se na sua poesia” WALTER BENJAMIN.





O último ponta-pé na bola de meia,
Sangue misturado com leite...
Cada canto épico é um jornal
De impropérios!
Um lenço futurista no pescoço,
O carro chic desemboca
Numa multidão esfomeada
Que carregava cartazes:
“Queremos pão e trabalho!
10




Santo André, 1993.

30
10
PARA O DAILY WORKER: Camarada Hemingway / Acaso os sinos dobram o cabo da boa
esperança? / Minha marmita tem um sabor de alumínio taylorista / Como depressa, sobram alguns
minutos / Para jogar na loteria esportiva / E brincar de forca com minha amiga Pagu (J ayro Luna,
inédito avulso).
Rock-poesia
Para Arnaldo Antunes, Sérgio Mota e Bob Dylan.
“Acadian driftwood / Gypsy tail wind / They call my home / the land of snow / Canadian
cold front / movin’ in / What a way to ride / Oh, what a way to go” THE BAND.
“aquela ginga genipapo / cheiro de porrada no ar / street fighting man / jumping
jack flash” CHACAL.
“Das Laub fällt rot vom alten Baum / Und kreist herein durchs offne Fenster. / Ein
Feuerschein glüht auf in Raum / Und malet trübe Angstgespenster.” GEORG TRAKL
A poesia nasceu com a música
Sua musa única calíope em meus braços,
A sociodinâmica ensina que a vida é düreza
Nada é moles,
Mas que lua marshall no céu do sertão!
Refrão: A poesia não é mais de Orfeu,
Agora quem manda é Palamedes!
Ôrra meu, blues suede shoes e besteirol mad...
Os poetas invadem o show
Let’s go! Camões, aqui Homero bashô,
Virgílios que a vida é perigo...
A poesia tem sabor de veneno, Arrigo.
Shakespiro si ti vejo,
Bate o gôngora do desejo. (Refrão)
Gonçalves os dias da rainha,
Oswald por aí hastear o bandeira,
Vico alegre si ti vejo,
Peirce bem nietzsche tudo qui lhe disse,
De agora em dante, serei outro poeta,
Outro pessoa...
Só ezra quem arrisca, vladimir avante,
Sou amante à toa;
Gosto de mallarmé com queijo
De cima drummond ti beijo,
Quem rimbaud meu coração? (Refrão)
PUC-SP,1984.

31
África
Para Gilberto Gil, James Brown e Solano Trindade.
“cacos ao longe não iam ser olhos de bicho / quem diria” ARLINDO
BARBEITOS.
“Poeta! Todo o poema: / geometria de sangue & fonema / Escuto escuta”
CORSINO FORTES.
“Na cabeça de um homem há muitas línguas a falar diferente / Falam com
bocados umas das outras e estão unidas sem saber.” MUTIMATI BARNABÉ
JOÃO.
Afer,
herói criado do nada,
vive numa lenda isolada,
filho de Hércules Líbio!
Afer,
herói que balbucia,
rei da Efríquia,
de pálpebras tingidas com estíbio.
Cogumelo que cresce numa noite
e murcha na madrugada,
situada entre o som do açoite
e a cabeça coroada...
Bárbaros,
os mesmos crânios,
os mesmos ossos curtos e longos,
os mesmos narizes,
são os mesmos o íbero e o bérbere!
uma cabeça de carneiro na estátua de Zeus!
o fígado de Prometeu!
falam como se fossem morcegos...
das ninfas do Carmo às do Mondego...
Bagradas Medjerda, Magradas Pompônio Mela,
Isaris, Isara, Savus, Sava, Auser, Ausere,
Anatis Tingitano, Anas Guadiana...
das colunas de Hércules ao reino de Atlântida
o Sol funde bronzes na pele... Gibraltar, 1992.
32
Ulisseida Ébrio
Para Buck Mulligan, Cissy Caffrey & Gerty.
“Grita Agamenon: ‘Venturoso Ulisses, / Possuis mulher de uma virtude rara!”
HOMERO. – via ODORICO MENDES.
“Olhos fechados, os lábios rasgados / mascavam a brisa, a barba se enrolava
como as pontas viradas das páginas / de sua rejeitada Odisséia; mas Omeros
dava os nomes dos navios” DEREK WALCOTT.
“Por falta de público para o Nelson Gonçalves que venho ensaiando / escrevo
para mim, mais baixo e floreado.” ALCIDES VILLAÇA.
-Para o diabo você
e suas modas parisienses!

Meteu de cambulhada o livro
no bolso de dentro do paletó.
O solo ficava bem graxo
com adubo cadavérico...
A radiância do intelecto.

-Bobos ocos,
a charanga dos manteigas!

Os portais da descoberta abriram-se
para deixar entrar o bibliotecário.

-A gente num tá tão no pileque
11
...

Torceu o pé na festa do coro
no morro do Pão de Açúcar.


Bristol, 1986.



33
11
MODINHA À TOA PARA A CANINHA PELÉ: Pelé só põe seu nome em café / Tem razão, a
rima é solução / Saiba que Pelé não é Mané / E a cachaça vício, se sabe, é / Mas a caninha Pelé,
‘marvada’ / Tem gosto dum gol de placa / No país dos Andradas” (J ayro Luna / avulso inédito).
Gauchissement
A Paulo César Caju e Afonsinho
“A voz dirijo a ti, não como amigo, / Porém sim articulo, ó Sol, teu nome / Para te
assegurar quanto aborreço / Tua luz que à lembrança me recorda / O ledo estado de
que fui banido!” JOHN MILTON.
“-Não fale em ‘profissão’, Lisaveta Ivanovna! A literatura não é profissão alguma, e
sim uma maldição, - que saiba disso.” THOMAS MANN.
“A ingratidão do mundo me obriga ao silêncio. A primeira e mais severa obrigação
do filósofo é não revelar seus segredos, para que não caiam em mãos das pessoas
indignas e ímpias.” RHUMELIUS.
“Não creio que existam grandes escritores que tenham escrito em língua
portuguesa.” MARION ZIMMER BRADLEY.
A noite banha tua roupa,
Escurece,
E não me seduz tua memória,
Pasto da poesia...
Não amei bastante,
Já não sei onde te escondes,
Perguntei ao fantasma.

“De tanto anelar por um mar
Sin

cc×-s
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Ist
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Ro
onde não Há mar
fecho os olhos
e figuro o mar no coração
E assim, sentando imóvel, perco a hora...”


(O Sang-sun, “Coração Errante”, via Yun Jung Im)
Não sou um sujeito ruim.
Nesta curva barroca
12
nos perdemos,
E sabe o demônio?
Ninguém sabe
Onde Deus acaba
E recomeça. Rio de Janeiro, 1986.

34
12
UM ROCK BARROCO: Estrada que do leito começada / Caiu por duas firmes marcas de partida
/ Eu por rebelde corro esta corrida, / Deixo a lei, levo a vida aventurada. // Nem sei quando saí em tal
caminhada, / Que eram linhas que tracei parecidas / Às cordas sobre os trastes sustenidas / Ou trilhos
da ferrovia abandonada // É uma torrente mansa de águas claras / Que de pedras rolando se derrama,
/ Faz mudar tão confusa mas tão rara // Que nas roupas que visto faço a trama, / Fio rústico tecido à
roupa cara, / Não sei se é rota fria ou curva em chamas! (J ayro Luna, Bagg’Ave).
@
Para Décio Pignatari e Linus Torvalds
“Pixel, unidade mínima de percepção visual proporcionada pelos meios
informáticos, mas por isso também a unidade da construção infopoética.” E.M.
DE MELO E CASTRO
“The culture shocked person, like the soldier and disaster victim, is forced to graphe with
unfamiliar and unpredictable events, relationships and objects.” ALVIN TOFFLER.
“Se a Bíblia fala por personagens, objetos, eventos, se cita flores, prodígios da
natureza, pedras, se põe em jogo sutilezas matemáticas, será necessário
procurar no saber tradicional qual é o significado daquela pedra, daquela flor,
daquele monstro, daquele número.” UMBERTO ECO.
“Sin entrar detalladamente en la técnica de la operación – cosa que ningún autor se ha
atrevido a hacer -, diremos, no obstante, que el Espiritu universal, materializado en los
minerales bajo el nombre alquímico de Azufre, constituye el principio u el agente eficaz
de todas las tinturas metálicas.” FULCANELLI.
“O tempo e o espaço estão aqui sob o domínio da imagem. O além e o outrora
são mais fortes que o hic et nunc. O ser-lá é sustentado por um ser do além. O
espaço, o grande espaço, é o amigo do ser. Ah! Como os filósofos aprenderiam
se acedessem a ler os poetas!” GASTON BACHELARD.
“A linguagem poética, conforme por força desta lógica poética consideramos,
flui tanto por tanto tempo pelo tempo histórico, como os grandes e rápidos rios
se esparzem dentro do mar, conservando doces as águas para ali levadas com a
violência do curso.” GIAMBATTISTA VICO.
“Ja, ich weiss, wohler ich stamme! / Ungesättigt gleich der Flamme / Glühe und verzehr
ich mich. / Licht wird alles, was ich fasse; / Kohle alles, was ich lasse: / Flamme bin ich
sicherlich!” FRIEDRICH NIETZSCHE.

amor
13
com
humor
14
com br




USP, 1994.


13
“O mundo que venci deu-me um amor, / Um troféu perigoso, este cavalo / Carregado de infantes
couraçados.” (Mário Faustino, Sete Sonetos de Amor e Morte).
35
14
MONTY PYTHON: O cálice sagrado / do frade ébrio / Cocos para cascos de cavalos /
“Tu-tu-tu-tu-Tu-tu!” / A piada mais engraçada do mundo / Só Aristóteles é que sabia contar. (J ayro
Luna, inédito avulso).
Para Rado
Em homenagem à Tuca, Sérgio Buarque e José Bonifácio, o velho.
“A terra é vermelha / O céu é azul / A vegetação é de um verde-escuro / Esta paisagem é
cruel dura triste apesar da variedade infinita das formas vegetais” BLAISE CENDRARS.
“Os filhos da puta, eles me bateram, os gorilas! Eles queriam conseguir meu livro mas eu
não disse nada” FEBRÔNIO.
“O papagaio era a única voz da oposição / que ainda se ouvia nos corredores: / ‘O queijo
de Minas tá bichado, seu Mé.’” RAUL BOPP.

Sempre enfurnado na biblioteca
Carnaval do Rio,
Peregrinação dos leprosos em Pirapora,
Retrato do Brasil,
A voz de sempre em busca do tempo perdido.

Nós, modernos,
Somos mais sensíveis à geografia humana
Do que aos retratos
Da natureza dos trópicos.

“O sol está mesmo de derreter quarup, pensou Sônia.
Seguindo sempre o passo ligeiro do Anta ela sentiu calor e
muita impaciência com o vestido que ainda vestia, cor-de-rosa
com flores brancas. Passou para Anta a rede, tirou o vestido
que largou ali mesmo sem pena nenhuma na beira do caminho
e foi nua em pêlo na trilha de seu homem, que se embrenhou
mais e mais na mata até avistar umas ocas de caça vazias.”
(ANTÔNIO CALLADO, Quarup).

O tempo exato dos vermes de biblioteca
Devorarem os documentos,
Saudade...
Abrirem clareiras
E nelas se reproduzirem
Abaixo as teorias!

Apresente sua demissão
Se não sabe mais o que fazer
Com todo esse café...
IBC, 1991.
36
Argonautas Internéticos
Em homenagem ao Capitão Blood e Francis Drake.
“Ali, com mil refrescos e manjares, / Com vinhos odoríferos e rosas, / Em
cristalinos paços singulares, / Formosos leitos, e elas mais formosas; / Enfim,
com mil deleites não vulgares, / Os esperem as Ninfas amorosas, / de amor
feridas, para lhe entregarem / Quanto delas os olhos cobiçarem.” CAMÕES.
“Or moi, bateau perdu sous les cheveux des anses, / Jeté par l’ouragan dans l’éther sans
oiseau, / Moi dont les Monitors et les voilliers des Hanses / N’auraient pas repêché la
carcasse ivre d’eau” RIMBAUD.

Eu te mostrarei
O enigma metalingüístico da terra
www
Eu te entregarei
Giordano Bruno,
Derek 7-mares Walcott
O espectro dos gigantes de Cízico
A fina fala de Fineu entre Harpias
A muralha movediça das Simplégades
Eu te mostrarei postais da Cólquida
O antigo e o novo dos areópagos
O batom vermelho de Medéia.
Fugitivos, nós dois, doutra grande guerra,
Os dentes de que nascem gigantes
A imitadora das tragédias
A nubente oculta
A louca de Iolco numa opereta clássica
A dança de Salomé
A namorada do clown tristonho
Além das 300 vítimas da porta salária
Que morreram no dia em que eu nasci.




Vale do Silício, 1995.

37
O Mosquito Herói Contra as Vespas do Inferno
Para Franklin Maxado e Rafael de Carvalho.
“Alguma coisa acontece no meu coração / Que só quando cruza a Ipiranga e a Av. São
João / É que quando eu cheguei por aqui / Eu nada entendi” CAETANO VELOSO.
“Sinto que lá fora /O mundo pulsa definitivo. / A engrenagem tritura / Os negros lúcidos
e também / Os homens solitários.” ELE SEMOG.
“Branca e floral como um jasmim-do-cabo / maravilhosa ressurgiu um dia / a fatal
Criação do fulvo Diabo, / eleita do pecado e da Harmonia.” CRUZ E SOUSA.

Wolkswagen anda sem pneus?
Wagner ainda soa provocante?
Weberianos até sentem polifonias?
Wiclefistas acaso sabem parapsicologia?

Culex, nosso herói virgiliano
Desce aos infernos como Orpheu,
Enfrenta as vespas-wasps do demo insano,
Diz ao poeta o visto de tudo quando lá desceu.

O juízo final e a Babilônia destruída...
Words ancients sounds perfects...
Wagner, Alighieri, Swedenborg e Prufrock
Reunidos numa mesa de bar bebendo vinho.

Windows artistics approaches the paradise lost.
Um baudelaire beija uma jane duval a todo instante e lugar,
No inferno os intolerantes torram-se no fogo;
Culex, voltou do inferno cheio de dengos e dengues...





Manaus, 1993.

38

Cyberespaço
Em homenagem a H.P.Lovecraft e H.G.Wells.
“Às vezes esta deusa, esta princesa / despe a clâmide branca, a toga austera, / E
dos degraus de estrela de onde impera / Baixa à terra – numa hora de fraqueza”
LUÍS DELFINO.
“Aspiro a eternidade neste vento / que entra pela janela, de surpresa.”
ONESTALDO DE PENNAFORT
“onde o eco de Eco em eco ecoa / que teu amor do próprio amor
morreu”MARCUS ACCIOLY

Do mar virtual temos corrido e navegado
Toda a parte do Antártico e Calisto,
Toda a costa africana rodeado,
Diversos céus e terras temos visto.
Mal abonança o mar, segura o tempo,
E Austro brando sussurra e ao largo invita,
Em nado a tela enchendo, as naus velejam;
Talhem-se as línguas, e mesclado o vinho,
Libemos a Neptuno e às mais deidades.
“E pois com a nau no mar,
Assestamos a quilha contra as vagas
E frente ao mar divino içamos vela
No mastro sobre aquela nave escura”
(EZRA POUND, Os Cantos, Canto I)
Apesar dos desejos de Neptuno,
Do naufrágio iminente a nau se salva.
Um vento vira as páginas do porto
15
de volta
À voz que sussurrava no vaso da garganta.




NASA,1994.

Wagner
39
15
“Um barco que veleje nesse infomar / Que aproveite a vazante da infomaré / Que leve meu e-mail
até calcutá / depois de um hot-link / Num site de Helsinque / Para abastecer” (Gilberto Gil, Pela
Internet).

Didática Carpe Diem
Para Pinto Calçudo, Marcela e Macunaíma.
“E onde buscar o maravilhoso senão em nós mesmos, no fundo desta imaginação,
capaz de criar no mais completo sentido da palavra?” ALEJO CARPENTIER.
“Anuncio como próximo o momento em que, por um processo de caráter paranóico e
ativo do pensamento, será possível sistematizar a confusão e contribuir para o
descrédito total do mundo da realidade.” SALVADOR DALI.
“A poesia segue, num plano totalmente diferente, uma direção contrária à das formas
do pensamento.” TRISTAN TZARA.
“O leão está dentro do fósforo, assim como o fósforo está dentro do leão” ANDRÉ
BRETON.

Que asas são que à noite batem nos vitrais?
O poeta não mente, oculta!
A sensibilidade como a dos peixes...
Antes de ser livre, superar limites.
Esqueci canções, poemas, rotas...

“A dream that was not at all a dream...”
(LORD BYRON, Darkness)

Cúmplices da comoção moderna,
Tenho medo da imaginação!
Escrevi aos que mais rápido entendem o símbolo,
Outros vieram trazendo bandeiras!
E novamente é preciso semear o campo de pedra e sol!
Itinerário que dois olhos decidiram,
Eles próprios compreendem que nada mudou...










Pasárgada, 1999.
40

Clube do Bolinha
Para Mário de Andrade e Waldick Soriano
“riverrun, past Eve and Adam’s form swerve of shore to bend of bay, brings us by a
commodius vicus of recirculation back to Howth Castle and Environs.” JAMES JOYCE.
“Os Decadentes possuem um chefe seguido de toda uma plêiade de jovens
escritores” ANATOLE BAJU.
“O que fica de um homem é o que o seu nome e as obras que fazem desse nome
um sinal de admiração, de raiva ou de indiferença podem provocar na
imaginação.” PAUL VALÉRY.
“Salve! Bem mereceis os versos que irradia / O Broadcasting ideal da eterna
Poesia” PÉTHION DE VILAR.
“um deixar-se, um deixar viver / de alma arejada, não fanática.” JOÃO
CABRAL DE MELO NETO.

Vestiu uma camisa estampada
16
E saiu por aí... Em loucas imagens...
Temos de tudo na nossa bagagem:
Suspensório para cobra cansada,
Camisas de seda com mil paisagens,
Remédio pra calvície e sacanagens,
Cart’lagem de tubarão, garrafadas!
Como dançam fogosas as boletes,
Coxas, pernas, seios às luzes do palco,
Desafinados calouros à Glauco,
Colombinas, travestis, pierretes.
Brega é sucesso. Sucesso é difícil,
Eu sou brega e sou sucesso no hospício!
Auditório do programa do Bolinha, 1986.


41
16
(Bridget Riley, Cataract 3, 1967)
Vidas Secas
Para Paulo Honório, Flávio Cavalcanti e Pete Best.
“Possuídos pelo demônio, energúmenos, exorcizados ou, sobretudo, doentes do
útero, pálidos, hipocondríacos, epilépticos, catalépticos, curados pelos
emolientes do Sr. Paumme, grande exorcista.” VOLTAIRE.
“Os puritanos que responderam ‘sim’ à pergunta: estão dispostos a ficarem
danados para a glória de Deus?” WILLIAM JAMES.
“Do sol ao raio esplêndido, / Fecundo, abençoado, / A terra exausta e úmida /
Surge, revive já” MACHADO DE ASSIS.

Sal, farinha, feijão e rapaduras,
além de garrafa de querosene
e um corte de chita vermelha cara
pra Sinhá Vitória orar lausperene.

Pobre de seu Tomás da bolandeira,
homem direito sumir-se cambembe
por este mundo de trouxa nas costas,
mas tinha voto entre seus quimbembes.

Soldado amarelo pegou baralho,
debaixo do jatobá do quadro ta-
ramelou com Sinhá Rita Louceira;

Pois o tinham pelado no trinta-
e-um. Apanhar do governo é desfeita?
Veja que mole e quente é pé de gente
17
.






Granito, PE, 1991.

17
BALEIA: Howl! / Ruf! / -Cães vadios ainda têm no olhar algo de humano? /
-O cão é o melhor amigo do homem! / Na mira da espingarda / Baleia sonha com
outra humanidade... (J ayro Luna, avulso inédito).
42
Cães de Aluguel
Em memória de Herzog e Cláudio Manuel da Costa.
“No one is innocent” RONNIE BIGGS.
“Einmal belsen war wirflich bortrefflich” SEX PISTOLS.
“Quando o segundo movimento tinha tocado pela segunda vez, ribombando e
critchando Alegria [,] Alegria [;] Alegria [,] Alegria, aí as duas ptitsas não
estavam mais fazendo o gênero dama sofisticada.” ALEX.
“Mas um dia lixou-se porque fotografou uma mão que apareceu ao desbarato lá
na morgue e, vai-se a saber, era a mão que pertencia ao segundo corpo de que o
Frankenstein tinha sido feito.” JOSÉ CARDOSO PIRES.

O grande golpe, o assalto do século,
O roubo do diamante cor-de-rosa,
Do guarda-roupa da Barbie,
A máscara, o disfarce, a cara do sósia...

Quem aqui é o traidor da nossa causa?
Onde está o delator, o falsário, o vigarista?
É preciso ter conduta ética e um instande de pausa!
É preciso ter cuidado para não deixar pistas...

A trama, o papel de cada um no plano secreto,
A narrativa de idas e vindas para enganar
O olhar do perseguidor, o silêncio dos réus...

A bolsa com o dinheiro, o porta-malas aberto,
O tiroteio na rua, pernas pra que te quero, vamos lá!
A dívida de jogo - lock, stock & two smoking barrels!







Boteco na Favela, 1994.

43
The Three Stooges
Para Groucho Marx, Mazzaropi e os cidadãos de Kukamonga.
“Nas noites iguais em que Célia expressionava a Prière d’une vierge e o fox trot
Salomé ao piano e servia bananinhas com café com leite, vinha também lento
mazorro silencioso como se cavasse uma mina futuro adentro o Dr. Pepe
Esborracha.” JOÃO MIRAMAR.
“Valei-me Nossa Senhora, / Santo Antônio de Nazaré / A vaca mansa dá leite,
/ A braba dá si quisé!” MACUNAÍMA.
“Aquele maluco...Ahn!...E daí?” GENELÍCIO.

Tapa na cara – ui! – dedos nos olhos – ai!
Puxa cabelo – oh! – soco na cara – êpa!
Chute no saco – uf! – toma rasteira – êi!
Arranca dente – aaa! – puxa orelha – óóó!

“Nunca conheci quem tivesse levado porrada (...)
Eh-eh-eh-eh! Eh-laô-lahô-laHO-O-O-O-ôô-lahá-á- ààà!”
(Álvaro de Campos)

Torce pé – ói! – morde nariz – uá!
Tortas voadoras – pláft! – quebra pratos – crash!
Mete fuça na porta – tabef! – flecha na bunda – óô!
Gira olhos – zóin! – Tropeça e cai – Olé!
“[a dança dos dois pãezinhos com os garfos]”
(Carlitos).

Pega-pega – Ôpa! – esconde-esconde – Ali!
Sobe-desce – úúú! – gira-peão – iiii!
O cabelo do Larry – duas bolas de bom bril!

O cabelo do Moe – franja da tigela!
A careca do Curly – pra fritar ovos!
O nariz do Shemp – corneta do vendedor de bijou!




Poltrona da sala, 1992.


44
A Banda
Para Bob Dylan, Geraldo Azevedo, Belchior, e em especial, para Hugo Ball.
“Estava à toa na vida / O meu amor me chamou / Pra ver a banda passar / Cantando
coisas de amor.” CHICO BUARQUE DE HOLLANDA. “Embrulhei os cacos no jornal
e como não havia um lugar no quintal que ficasse a salvo, pus em cima do
guarda-roupa.” ADÉLIA PRADO. “It’s wonderful to be here / It’s certainly a thrill.” THE
BEATLES. “A platéia ri, perdidamente, / Do bom jarreta... E há um odor no ambiente
/ A cripta e a pó” CAMILO PESSANHA. “Farai un vers de dreyt nien: / Non er de mi ni
d’autra gen, / Non er d’amor ni de joven” GUILHEM DE PEITIEU. “the musiC / yOu make /
isN’t / Like / any Ohter / thaNk you.”JOHN CAGE.
Ao redor da grande divisão,
Trapos, mama, trapos...
À noite eles dirigem-se à velha Dixieland,
É quando você acorda
Sobre o riacho dos aleijados,
Entre pinheiros murmurantes.
-plim-tam-tom-plact-plumct-fin-fan-fon-
Renda-se baby,
Cadeiras giratórias...
Olhando além da terra sagaz,
Queixo caído
Ante a serva infiel,
O rei das colheitas...
(ele certamente saberia...)
-plim-ton-ton-zom-zum-zum-cha-cha-cha-
Vinho de morango,
Sonolência...Tempos mortais,
Só algum assobio interrompido,
Toda a glória duma canção.
“Cantabona! Cantabona! / Dlorom... // Sou um tupi tangendo
um alaúde!” (Mário de Andrade, “O Trovador”).
Do jeito que eu sou,
Os manuais de medicina mostram,
Daniel toca a harpa sagrada... Espantalhos no palco,
Rumores de versos e músicas...
Menphis, 1992.
45
Frankenstein Metamoderno
A Mário de Sá-Carneiro, Fernando Pessoa e Brás Cubas, em homenagem à
Mary Shelley, e com especial apreço a José Mojica Marins.
“E este abandono...Essa incerteza que me aflige... / Ó Georges Rodenbach! Ó meus
Cisnes de Bruges! / Ó Crépuscule de Ephraim Mikhael!” ALCEU WAMOSY.
“Armazenando em sua memória implacável (seu futuro martírio) os fragmentos de
um presente jamais apanhável mas que ele ia sedimentando e ia socando quando eles
caíam mortos e revirados no passado de cada instante.” PEDRO NAVA.
“-Quem sou? Um doudo, uma alma de insensato, / Que Deus maldisse e que Satã
devora; / Um corpo moribundo em que se nutre / Uma centelha de pungente fogo”
ÁLVARES DE AZEVEDO.
“Mosaico de memórias nele nado, / comendo peixes e recordações, / encerrando em
cubículos de espelhos / em que meu rosto não se vê, mas os / dos passados e os do
presentes rostos, que emergiram de baixo, do subsolo” JORGE DE LIMA.

Desventra o ventre donde nasceu,
Se nasce morre nasce morre nasce,
E do aceno o milagre a renascen-
Ça. Não é você, nem sou mais eu.

Vida da minha vida, que eu não vejo,
Tenho medo de mim, de ti, de tudo
[E] resmungando com ar carrancudo,
Em toda... extensão pululam (...) desejos!

Murchem a flor das ilusões da vida!
Me sinto tão longínquo e deslocado,
(...) sem limites, tão despropositado.

Espírito, (...) éter (...), substância fluída.
A terra ao largo, ao longe se lamenta
Sou trezentos, sou trezentos (e) cinquenta
18
.

Londres, 1993.

46
18
Este poema-frankenstein foi criado com partes de corpus dos seguintes vates: Oswald de Andrade,
Haroldo de Campos, Mário Faustino, Torquato Neto, Da Costa e Silva, Casimiro de Abreu,
Bernardo Guimarães, Carvalho J únior, Machado de Assis, Fernando Pessoa, Carlos Drummond de
Andrade, Augusto dos Anjos, Sousândrade e Mário de Andrade.
A Dança dos Sete Véus
À Salambô, Lucíola & Mary Beatriz.
“O primitivo atinge a harmonia Cosmo/Homem, sujeito e grupo, por intermédio da
integridade de seu corpo; o desequilíbrio e desarmonia do mundo contemporâneo
manifestam-se na mutilação, na falta de integridade do corpo.” CARLOS ALBERTO
VECHI.
“-Não me quer para uma noite de prazer? – perguntou ela, fazendo carícia no rosto de
Jó.
-Não vá, meu amor – disse Pui-Li. – É o dragão-demônio Ashuna. Quer roubar você
de mim.” ÁLVARO CARDOSO GOMES.
“E, em torcicolos coleantes / e, na volúpia das bacantes, / tine as crotálias ressoantes.”
MARTINS FONTES.
“Tão leve, que não dobra das alfombras / A mais delgada flor! Por largo tempo /
Assim deleita a vista dos convivas; / Ofegante por fim, extenuada, / Faz um último
esforço, e mansamente / Cai, pétala de rosa, aos pés de Herodes.” FAGUNDES
VARELA.
“Jesus das Comidas (tomando de um alto-falante) / -Caluda, oh vacas! Hoje ninguém
fode / É só no buchê / E no cuzinho” OSWALD DE ANDRADE.
“Mimosos seios, mimosos / Que dizem voluptuosos: / ‘Amai-nos, poetas, amai!”
ÁLVARES DE AZEVEDO.
“Os seios nus são duas tochas / sobre Tebas arruinada.” CARLOS FELIPE MOISÉS.

Envolta em fina musselina amarela,
Braços de angelical nudez, quase-seios,
Quase-nua, no andar da dança os véus dela
Se desatam, brocados caem em volteios;
Lentamente avança nas pontas dos pés,
Segurando a altura do rosto um lótus,
Na lúbrica dança
19
lançam faúlhas anéis,
Turbilhonam colares, olhos remotos...
A infanta avança ao som dos burcelins,
Ao perfume das flores que estão em roda;
Eis, flor solitária sem ter outro fim:
Os olhos de Herodes: câmeras de vídeo!
Astarté
Dança já nua Salomé qual falso ofídeo!


47
19
CABARÉ MINEIRO: “A dançarina espanhola de Montes Claros / dança e redança na sala
mestiça. / Cem olhos morenos estão despindo / seu corpo gordo picado de mosquito. / Tem um sinal
de bala na coxa direita, / o riso postiço de um dente de ouro, / mas é linda, linda, gorda e satisfeita. /
Como rebola as nádegas amarelas! / Cem olhos brasileiros estão seguindo / o balanço doce e mole de
suas têtas...” (CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE, Alguma Poesia).
O Encouraçado Potemkin
Para Humberto Mauro, Nélson Pereira dos Santos e Gláuber Rocha.
“Som off: trânsito, criança chorando. Tenta abrir a porta com chave. Não consegue.
Bate insistentemente.”[Roteiro de Matou a família e foi ao cinema.] JÚLIO BRESSANE.
“é do tipo intelectual, formada pela faculdade de Assis, adorava baile de formatura e
falar do Cinema Novo.” [ roteiro de O Bandido da Luz Vermelha.] ROGÉRIO
SGANZERLA.
“Deus! Rosebud néctar candente / Que ao velho odre Itamarati / (‘Tudo esfacelado’...
Ó Prudente!) / fez rebentar! Rósea frigie, / Não meninos-de-oiro, a juvente / Pátria
moral. – Itamarati.” SOUSÂNDRADE.

Belo sorriso no retrato de Lampi, o velho
Junho de 1905: o motim desafia o czar!
Ressuscitar o Império Bizantino, ó Catarina...
A escadaria de Odessa: intermináveis degraus...
Olha lá o carrinho de bebê, acudam! S.O.S.
[Bronenosec)-(bressane]: 20 anos depois...
Os canhões esperando o ribombar dos tambores...
A revolta da esquadra do Gama...Ó Policarpo)-(potemkin!
O príncipe da Táurida tem um projeto grego,
Nas escadarias de Odessa o ódio
20
tem pressa
E a ode ao burguês proclama: - Ódio e insulto!
Almada observa a cena do ódio: - Hei-d’Átila!
No Museu Rumiantsev o retrato de Grigori
Observa os passos dos camaradas ébrios de vodka.





São Petersburgo, 1992.


20
O TEMOR EM TIMOR (para Xanana Gusmão e o bispo Carlos Belo): Uma ínfima ilha num
arquipélago de 4 mil.../Vá pra puta que o pariu! / Meia ilha, nem uma ilha inteira é.../ O dollar é que
manda, né?! / Minha língua é tua língua: a dos homens / Teus poetas, tuas crianças, tuas mulheres
somem.../ Uma ilha que se assemelha a uma adaga / O leste é a lâmina, o oeste o cabo /
48
A furar o espaço virtual das nossas chagas / Sangram todas nossas religiões num triste fado. (J ayro
Luna, avulso inédito).
Bang-bang à italiana.
Para John Wayne e toda tribo Apache.
“De chapéu, gibão e perneira / na tua terra bonita, / Desde o Sítio dos Moreira / Às
quebradas de Serrita” PATATIVA DO ASSARÉ.
“ – Eu acho que ele queria era ficar sabendo o tudo e o miúdo.” VAQUEIRO PEDRO
FRANCIANO.
“- ...Queria era que se achasse para ele o quem das coisas!” VAQUEIRO TADEU.
“A rosação das roseiras. O ensol do sol nas pedras e folhas. O coqueiro coqueirando.
As sombras do vermelho no branquado azul. A baba de boi da aranha.” VAQUEIRO
JOSÉ UÉUA.
“Wanted – Live or dead – Reward: U$ 10,000 ” [Cartaz colado num tronco de árvore na
estrada para Carson City.]
O chefe shawnee Tecumseh:
-Viva a confederação dos skin-reds!
Eu, poeta latino-americano,
Na cidade do Crato, cine Moderno,
Assistindo “Blá-blá-blá” do Rogério...
No cine Texas, noite de Segunda-feira no Crato,
Uma centena de crianças de calça rancheira ou
Short lavadinho mas puído, disputam o melhor lugar
Para ver: O Dólar Furado!
O Sr. Cody inventou o faroeste americano...
O cow-boy, o cavalo e o cão, sob um céu rosicler,
olhando brasa dormida: Hurry Sun Up, de Cox.
O vaqueiro tangendo o gado sob a tempestade,
um raio riscando o céu e atingindo o meio da manada:
The Stampede, de Remington.
Os índios em seus cavalos observando ao longe:
A última manada de búfalos?
Mais uma caravana de colonos destemidos?
A cavalaria do forte apache?
Wireless, de Russell Redman.
Billy the Kid, Lampião, Corisco, o tiroteiro de Ok Corral, Jesse
James, Wounded Knee, os Cariris...
Deus e o diabo na terra do sol, just for the heck it!
Up on Cripple Creeck! Crato, 1991.
49
Um Santo da Pérsia nos Trópicos
Em memória do Padre Antônio Vieira, do Frei Santa Rita Durão e do Frei
Santa Maria Itaparica, e com especial apreço, à memória do Padre José de Anchieta.
“O céu é o santo Graal eucarístico. Desce, / Cobrindo terra e mar, por sobre a culpa
infame.” ALPHONSUS DE GUIMARAENS.
“Fulgem as velhas almas namoradas... / - Almas tristes, severas, resignadas, / De
guerreiros, de santos, de poetas.” CAMILO PESSANHA.
“Meu Deus, que estais pendente em um madeiro, / Em cuja lei protesto de viver, /
Em cuja santa lei hei de morrer / Animoso, constante, firme, e inteiro.” GREGÓRIO
DE MATOS.
“Deus consente que os homens venham / a esta intimidade de amigos, / somente por
mostrar que se amam, / que estão no mundo, que estão vivos.” CECÍLIA MEIRELES.

Pregaste no exótico reino da Pérsia,
Donde a Grécia soa a Bactra e frechas transversas
Cruzam o céu próximo ao culto de Buda;

Não negaste a ninguém tua ternura e ajuda,
Tua luta elevou-o à categoria de Santo,
28 de outubro de 70, finda o canto.

Tanto tempo após, cá nos trópicos, eu
Lembro teu nome. Cá em teu templo, incríveis
Multidões de devotos em impossíveis
Rogos
21
. Clamam-te aflitos: - São Judas Tadeu!




São Paulo, 1990.



21
ORAÇÃO À SANTA EUDÓXIA : Segue a vida de contradições e paradoxos, / Não
podemos crer só no que vemos, / Nem querer que o tecido urdido / Só com os fios de
nossas certezas // Possa aquecer-nos ante toda nóxia invernia; / Sonhamos construir a
cidade do sol, / Mas temos na alma o brilho de cidades de sóis, / Entre o que é digno e
indigno, // Certo e errado, moral e amoral, / A matéria é posta sempre em discussão, / A
energia do espírito, porém, simboliza-se com o coração. // Vede a vida de Santa Eudóxia
de Heliópolis, / A quem rogo proteção /Para fazer boa obra no púlpito das acrópoles.
(Jayro Luna, inédito avulso).
50
Poema no País do Carnaval
Evoé Jorge Ben Amado Capadócia Maravilha!
“Até planícies superfícies [Down hovey lanes and stoney claves] / Montanhas e outros
malefícios [Down ricketss and sticklys myth] / Lá fui eu espécie extinta [In a fath hebrew
gurth] / Pulando assim brinca ou não brinca [I wandered humply as a sock] / Atrás de
Joãozinho Trinta [To meet bad Bernie Smith]” JOHN LENNON / PAULO LEMINSKI.
“A gente se olha, se beija, se molha / de chuva suor e cerveja.” CAETANO VELOSO.
“E os campos talados, / E os arcos quebrados, / E os piagas coitados / Já sem maracás;
/ E os meigos cantores, / Servindo a senhores, / Que vinham traidores, / Com
mostras de paz.” GONÇALVES DIAS.

Aquela que conhece o mundo
Já teve casa de rendez-vous em Pequim
Já foi amante de poetas na Colômbia
Já ganhou dinheiro em Montecarlo.

Eu canto a mulata cor de canela,
É entre suas coxas sadias
Que repousa o futuro da Pátria.

Na Bahia, todo tolo se faz poeta!
O homem de talento não tem moral!
Quem fica sereno
É porque nada de bom espera da vida!
A felicidade pertence aos burros e aos cretinos,
Di Cavalcanti, Roda
deSamba.
Felizmente nós somos infelizes!

Amendoim torrado e roletes de cana,
Uma alegria grande a bailar nos olhos.
PRECISA-SE DE HOMEM DE GÊNIO
PARA A ARTE BRASILEIRA.
Originalíssimo, mais que isso: imoral!
Feliz Brasil
Que não se preocupa com problemas,
Apenas sonha num futuro...
Cristo, braços abertos,
Abençoa a cidade pagã. Marquês de Sapucaí, 1996.

51
O Carnaval nasceu no Recife
Evoé Baccho, Donga, Kid Morengueira e Tia Ciata.
“Atrás um negro, um cego, um Mamaluco, / Três lotes de rapazes gritadores, / É a
procissão de cinza em Pernambuco.” GREGÓRIO DE MATOS.
“Jogas as cascas pra lá! Jogas as cascas prá lá!” ADONIRAN BARBOSA.
“Parecia um boi mugindo / Aquela triste cuíca / Tocada pelo Laurindo, / O gostoso
da Zizica.” NOEL ROSA.
“Curibocas! / Mamalucas! / Cafuzas... / Caboclas viçosas de bocas pitangas! /
Mulatas dengosas caju e cajá!” ASCENSO FERREIRA.

Pulando assim brinca ou não brinca
Como se fosse Joãozinho Trinta,
O carnavalesco Bento, cristão novo,
Criou enredo mitológico para o povo.
Vem de destaque alegórico no primeiro carro,
O poeta abraçado às musas em tom de sarro!

Vinha Tritão em cola duplicada,
Sentado numa pedra esmaltada,
Toca a trombeta com crescido alento,
E noutro carro triunfal, após Bento,
Vem Netuno cantar o mar profundo,
Traz soberba pompa, alegria maior do mundo.

Vem Glauco, vem Nereu, deuses marinhos,
No asfalto entre focas e golfinhos!
Vem o velho Proteu com dançarinas,
Com mutantes fantasias peregrinas;
Tétis, que em ser madrinha da bateria se recreia;

Climene, Efire, Opis, Panopéia,
Vem Beroe, Tália, Cimodoce,
Drimo, Xanto, Licórias, Deioêa,
Arethusa, Cidipe, Filodoce,
Vem Eristéia, Éspio, Semideas,
E a ala mais sambante, a das Sereias!
Olinda, 1991.

52
Mardi Gras
A Anacreonte, Marquês de Sade e Luz del Fuego
“Some folks are born made to wave the flag, / Some folks are born silver spoon in hand, / Some
folks inherit star spangled eyes” CREEDENCE CLEARWATER REVIVAL
“A vida cá em casa está horrível, / Ando empenhado / Nas mãos de um judeu, / O
meu coração vive angustiado / Porque minha sogra ainda não morreu” NOEL ROSA.
“You can walk on the water, / drown in the sand / You can fly off a mountaintop / if you
anybody can / Run away, run away / it’s the restless age / Look away, look away / you can turn
the page” THE BAND.
“Se bebo, desejo; / Se não bebo, almejo! / Se saio, apeteço! / Se não saio, careço!”
QORPO SANTO.

Rolando passos trôpegos como um cão vadio,
Tentando matematicamente fazer um quatro
Na esquina do quarteirão francês–Bourbon Street, baby!
Meu velho camarada, Zé Deco, o melhor rabequeiro
Dum descambado combo de zydeko–Bourbon Street, baby!
Lá vou eu, fantasiado de Marduk na nova babilônia,
Cantando uma canção que ninguém sabe:
“E no entanto é preciso cantar
Mais do que nunca é preciso cantar
É preciso cantar e alegrar a cidade
A tristeza que a gente tem
Qualquer dia vai acabar”
Rolando a música da blues band, vou no assobio,
Do jeito que a coisa tá, amanhã passarei só a maratro!
Na esquina do quarteirão francês-Bourbon Street, baby!
Zé Deco, fantasiado de Marduqueu, vira um motineiro
E se passa a jogar contas nas putanas-Bourbon Street, baby!
Lá vou eu, pedindo qual um dioniso sua própria cerimônia,
Querendo que esta noite nunca se acabe!





New Orleans, 1999.

53
Duburu Pipoca
Para Iemanjá e Lorelai.
“Obá ilêko ajá Ossi / Koreô Obá adobá” CÂNTICO DE OBÁ.
“Iaiá está na rede de tucum. / A mucama de Iaiá tange os piuns, /
balança a rede, / canta um lundum” JORGE DE LIMA.
“Yayá fez quentinho. / Rei Congo drumiu. / Papagaio pena verde /
aí, me conta que tu viu.” RAUL BOPP.

[VAN GOGH]
Aimoré, esse é caboclo valente,
Valente daqui pras bandas de lá,
Aimoré mora nas matas sem gente,
Nas matas virgens lá do juremá.
“O zazé ê, o zazé á
O zazé ê maiongolé, maiongolá”
(Ponto de Candomblé)
Caboclo comeu sapucaia de tacho,
Caboclo se embebou de boa jurema,
Caboclo de sambambaia e penacho,
Arreia caboclo, arreia essas algemas!

Nos cafundó do Cariri vi Ogum,
Hoje tem alegria, hoje tem sim,
Vem a banda de Xangô... Tum-tum-tum!
Vem a banda oxalá... Pam-pum-pim!
“Xangô de lo ê ê
Xangô de lê ô ô”
(Pedido de Misericórdia)
Adeus, preto velho, adeus minha gente,
Xangô já birimbou na aldeia? Já sim!
Adeus, meu zinfio, deixo meus presentes,
Adeus Umbanda, até um dia. Olhai por mim!



Terreiro, 1992.

54
Porra-louca
Para Raul Seixas, Sousândrade, Pedro de Lara e Qorpo-Santo.
“o relógio de J.H., tão distanciado dos que instigam a curiosadade de Platão ou dos
que assinalam no Egito a marcha vencedora dos persas, situa-se no centro de uma teia
de relações mais complexa e ambígua que a existente em torno de um relógio de Sol”
OSMAN LINS.
“Era uma pá de neve e, de fato, escrevi esta frase [In Advance of the Broken Arm] nela.
Evidentemente, esperava que não tivesse nenhum sentido mas, no fundo, tudo acaba
por ter algum.” MARCEL DUCHAMP entrevistado por PIERRE CABANNE.

Bezúmines barcaças clopam,
Rodzes bolnóis crastam uns clebes
Das rotes tchipucas dos piânitsas.
Pela minha ocne vejo suncas
Privoditando pititsas nazes.
Penso em níjenes, grudes, jinas,
Iamas – Pol! Pol! Pol! – na minha ocne,
Nesta prisesta gredze gronque.
A gúliver: cabo-de-panela!
Ando nagói em britva e sabogues,
Vou ficar dede sem ôdin dengue,
Espato esmotando bog
22
.


Salvador Dali, Persistência da
Memória.





Consultório do
Dr.Brodsky, 1990.

55
22
TEMPLO GÓTHICO: Fulmina-me o desejo do estranho, / De negro vestido à noite eu vago, /
Buscando entre espectros de antanho / O riso louco de um velho e vil mago. // Sobre as frias lajes de
frases perdidas / Rodeado de ninfetas de batom / Declamo versos de vozes sofridas, / De um lirismo
em crise como meu som. // Num gravador moderno toco fitas / - J oy Division, Black Sabbath, U2,
Iron - / Sob a aura do poeta minh’alma imita // A forma de um spleen de Baudelaire, / Tão decadente
quanto Lord Byron, / Danço na tumba dum vate sem fé. (J ayro Luna, Metamorphoses n’Ovídio,
1993).
Poema Visual
Ao grupo Noigandres, Gomringer, Guido Bilharinho, e Maynand Sobral.
“mas a palavra é mais palavra que a palavra/ e assim se descobre no reverso / o que
diz a palavra está a ver-se” E.M. DE MELO E CASTRO.
“A AVE VOA dEnTRO de sua COR” WLADEMIR DIAS-PINO.
“Isto é valsa, não percebeu ainda? Três por q” HUGO MUND JR.
“ácido lisérgico / psicotrópicos / alucinógenos” JOAQUIM BRANCO.
“É possível vislumbrar as possibilidades de uma nova experimentação estética.”
PHILADELPHO MENEZES.
O olho de Deus vê o poeta vendo
Lagos gelados no meio do Sonora,
Sabá de súcubos infernais numa noite de verão,
Aquelas maravilhosas entidades
Que a sagrada escritura denomina querubins!
A eternidade em flor,
O infinito em quatro pés de cadeira,
O absoluto nas pregas duma calça de flanela,
Cérebros selecionando informações,
Ondas do mar derrubando nuvens,
Montanhas se escondendo nas cavernas,
Animais silvestres lendo filosofia,
Maynand Sobral
Cidades surgindo como catapora,
O Sol tecendo fios de luz como uma tarântula,
Elevadores brincando de física quântica,
Lojas americanas flutuantes,
Panoramas tão belos como The Paradise Lost!
Delicadas películas esvoaçantes de cores fortes,
Poetas pintando quadros
23
,
Pintores esculpindo versos
24
.

23
(J ayro Luna, “To Bob Kane”, avulso inédito).
56
24
“Minha cidade está toda cor-de-rosa / Cor da infância longínqua... // Tudo dizendo solidão / Certo
vermelho desperta lembrança” (Aldo Bonadei, manuscrito).

Poema dos Macacos Datilógrafos
Para Borel, Moles e Eco.
“A biblioteca é ilimitada e periódica. Se um eterno viajante a atravessasse em qualquer
direção, comprovaria ao cabo de séculos que os mesmo volumes se repetem na mesma
desordem (...) Minha solidão se alegra com essa elegante esperança.” JORGE LUÍS
BORGES.
“inocente / o triste ramera / Sin embargo la palabra es Verbo, acción, / para-vida, /
meta-lenguaje” CARLOS LATORRE.
“ n
Im = -Σpk. Logpk “ SHANNON.
K=1
“ME = O/C” BIRKHOFF – via MAX BENSE.

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Biblioteca de Babel, 1994.
57
Wine
25
Rhymes
26
Evoé Baccho, Anacreonte e Macunaíma.
“Un soir, l’âme du vin chantait dans les bouteilles:” BAUDELAIRE.
“Bebo da amarela / bebo nos copo / bebo na tigela / bebo temperada / com cravo e
canela / seja quarquer tempo / vai pinga na goela! Ôi lá!” LAUREANO.
“Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos: / Tanta depravação nos usos, nos
costumes!” CESÁRIO VERDE.
mask task hate sedate sentiment violent
delight sight lies eyes blame name
stars bars face grimace sand hand
love prove egoist exist doorfloor
night light past vast come home
shapes drapes omitted fitted
scan man twin sin evildevil
stars jars error mirrors
day away
fact
act
rain
pain
ill
feel
all call hit writ
advancechance lackbacksadgladcupup


25
BEBA GUARANÁ [A Décio Pignatari, para ser publicado nos EUA]:
drink gwa-ra-nah
drivel gumarabi c
guzzle coca
gulp glue gag
gag law
glue
guarani (Jayro Luna, avulso inédito).

26
INTERSEMIOSE [à moda de Gomringer]
58
FARBENFROHGESICHT: ich blau / du weiss / er rot / uns grün / ihr gelb / sie
schwarz // PAINTED FACE: I blue / you white / he purple / we green / you yellow
/ they black // FIGURE PEINT: je bleu / tu blanc / il viole(n)t / nous vert / vous
jaune / ils noir // CARA PINTADA; eu azul / tu branco / ele verde / nós amarelo /
voz do povo / eles neg(r)o (Jayro Luna, avulso inédito).
O Demônio de Maxwell
A David Bohm e Spock
“Assim, por exemplo, os burgueses mudam facilmente de nome por vaidade, os
grãos-senhores por vantagem.” MARCEL PROUST.
“Todo povo sai correndo / procurando se esconder / e os discos vão baixando / de
repente o povo vê / em um disco gigantesco / Satanás ali descer.” PALITO.
“Oh, que caravela esta! / Põe bandeiras, que é festa. / Verga alta! Âncora a pique!”
Diabo – via GIL VICENTE.

Neste sutil espaço em éter
Conformado, eis a criatura,
Como um Mickey Mouse no suéter,
Gargalhando desta estrutura
Do Universo. Oh, que ironia!
Um pequeno e insano demônio
Às portas du’a mitologia
Sobre um alçapão a harmonia
Rege. Separando moléculas
No índice da velocidade:
Causando na matéria-fécula
Do Cosmos a desarmonia
Necessária da energia.
Universo paralelo, s.d.







(Maurits Cornelius,Circle Limit 4)







59
Movimento Lírico-browniano
Ao gato preso na caixa pelo Schrödinger.
“Que está no prato? O tempo, que o homem come” LEDO IVO.
“É para o artista que a sua alma trabalha, é pois, o artista que na sua concepção mais se
divinisa...! É ele o reflexo vibrante do seu sonho” RAUL ENOCH LEAL.
“Se horas a nada levam tudo, / Nada nasceu, tudo é que é, / Haja ou não haja Sartre e
o mudo / Deus Tudo-Nada havido em fé.” VITORINO NEMÉSIO.

Apenas existe o vazio e o átomo,
Os vocábulos se agitam
Ocasionando rasuras,
Rotas caóticas
Na superfície líquida
Da página-poema.
São moléculas ativadas,
Grãos de pólen que giram,
Pelos fótons da luz da ótica
Do protoleitor despertadas.
5.ª Dimensão, s.d.













(Jackson Pollock, Lúcifer).





60
Poema do Bagaço
Em homenagem a Vicente Leporace.
“Mardito fiapo de manga / preso no maxilar inferior // Desgruda dos meus lábios /
minha boca / me deixa em paz” JOELHO DE PORCO.
“No ramo da magueira venturosa / Triste emblema de amor gravei um dia” SILVA
ALVARENGA.
“Nós somos as cantoras do rádio / Levamos a vida a cantar / De noite embalamos
teus sonhos / De manhã nós vamos te acordar” LAMARTINE BABO, JOÃO DE
BARRO E ALBERTO RIBEIRO – via FRENÉTICAS.
“D. Júlia ficava doidinha /Quando o minino resorvia imitá / As falação de fazê
chorá” GRANDE OTELO.

Desapareceu o cabaré da Bianca Perla,
O Armenoville virou nem sei o quê,
O Dancing do Martinelli já é saudade...
Onde que no rio se encontra uma beleza dessas?
Não viemos fazer nada
E já estamos batendo em retirada!
Marieta, cafetina gloriosa,
Acabou-se incendiando como monge budista...
Eu era peru de estação de rádio.
Pezinho pra frente,
Pezinho pra trás,
Como aqueles índios
De um antigo programa do Max Nunes;
Raro é o ator de teatro que não fica inibido...
Peguei uma cana das brabas!
Em todos os terrenos
Nós temos que topar com monstros,
Os mordedores crônicos...
-Um instantinho, maestro,
Que eu vou tomar uma cibalena!
Lugar de muita gente em eterno,
Dependura...
O país está em construção,
O café não tinha porta dos fundos! Praça XI, 1992.
61
Tele-soneto
27
das 8
Às mulheres de areia e às namoradinhas do Brasil.
“A Globo exibia a novela Água Viva, em que uma personagem, empregada de butique,
dizia não gostar da cor roxa. Ora, naquele ano, as lojas cariocas haviam decretado a
moda do roxo, e, em conseqüência, feito os seus estoques com base naquela cor.
Depois da frase ‘fatídica’ na novela, entretanto, os produtos ficaram encalhados nas
prateleiras."”MUNIZ SODRÉ.
“O l’Omega, rayon violet de Ses Yeux!” RIMBAUD.

Capítulo 1: Viva o direito de nascer
Nesta vereda tropical,
Num casarão quero viver
Em vão pecado capital.

Capítulo 2: Brasil, mostra a tua cara!
Chega mais. Eia, irmãos, coragem!
Salvador da pátria, cara a cara,
Semideus? O outro astro? A Viagem...

Capítulo 3: Água viva em roda de fogo,
Dancin’days na selva de pedra,
Deixo mandalas pelo globo
E ossos do barão sobre pedra.

Cenas do próximo capítulo: Corpo santo!Ó Roque Santeiro!
O dono do mundo verdadeiro!

Estúdios da Globo, 1993.




62
27
CULT MOVIE: Linda louca musa única pondere, / Enquanto cinematograficamente /
Vídeo-vemos pulsar um sol ardente, / Na rubra tela a luz branca interfere; // Enquanto faz-se som um
canto, gere / Nessa esfera luzidia o riso quente, / No cabelo-metal-new-wave atente, / na boca
brilham lâminas que ferem; // Curta! Curta da trama da loucura, / Antes que os gelos glaciais das
idades / Corram a deixar nua o que foi chama pura. // Que o epílogo da filmicidade / Sem dar nas
curvas da nave-futura / Será ocaso, day after da cidade! (J ayro Luna, Metamorphoses n’Ovídio).
No Ritmo da Pedra
Em homenagem a Glauceste Satúrnio.
“maldito seja o vício de um poeta, pois priva de encher o seu bandulho, pelo gosto de
fazer quatro versos” CRITILO.
‘Eu vi o Pão d’Açúcar levantar-se, / E no meio das ondas transformar-se / Na figura
do Índio mais gentil” EURESTE FENÍCIO.

Piano, piano:
O ofício é o ofício,
Palavra, palavra,
No mundo, tamanho peso de angústia
Em que moro e desmorono,
Em que nada tem de concreto
Ou de alguma vanguarda visual...

Entre pecado e pecado,
Nu a nu, fome a fome,
Repete, replay, repeat:
Amor, amar...
No ramo da amora em roma oram, mora.
O próximo existe... O pássaro existe...
Eu já não sei se é jogo ou se é poesia!

Montanhas, montanhas, montanhas,
Oceanos, oceanos, oceanos,
Campos, campos, campos,
Roupa, roupa, roupa,
Papel, papel, papel,
Forma, forma, forma....

Soluça que soluça,
Por que amou?
Por quê?
Por que mente o homem?

Mente, mente, mente... Itabira, 1996.
63
Bioterroristas Fenomenológicos Infectam Metapoemas
28
A Machado Penumbra e Bernardo Soares.
“Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro / Bebeu / Cantou / Dançou /
Depois se atirou na Lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.” MANUEL
BANDEIRA.
“Vim telegrafar / Parto último trem / Espere-me na estação” LUIS ARANHA.
“Sobre quem triunfavam os césares?” BERTOLT BRECHT.
“Penso que estamos no beco dos ratos / Onde os mortos seus ossos deixaram.”
T.S.ELIOT.
“Juventude não é o que tem a ver / comigo, delicadez tampouco, / não tenho tempo a
jogar fora em conversa” WALT WHITMAN.

Orates em êxtase: “Vamos fabricar o gás sarin!” Eu, vate ex
teses: “Quero escrever a sagarina canção anti-terror!”
Arnóbius: - Advérbius, adversus nationes. Adulabar,
adfabar et beneficia poscebam nihil sentiente de trunco.
Orates em demência : = Sarin, o magnífico! Eu, vate em
ciência: # Rannis, rã sal-tomba rumorejando águas.
Magnificat: ‘Mostrou-nos o poder de seu braço!’ seja em
Tóquio ou Cafarnaum, aos radicais reproclamo: = Tó pra
vocês, chupins desmemoriados, os meus incomunicáveis
bagaços Bagdá, 1988.

28
METAPOEMA MÍTICO-PARABÓLICO: [A Ezra Pound] Rasalu, o rajá rajado de Pendjab,/
com seus dados de ossos nos dedos, / duro é ser trapaceado por um rato, / seja ele super mouse, jerry,
mickey ou dhol! // Incêndio na floresta, / gritos nas chamas! / O herói resolve salvar, / mas era
apenas um grilo: / -Salvaste-me a vida, Rasalu! / Dou-te uma de minhas antenas! / É tudo que tenho
a ofertar-te! / O herói meteu-a no bolso, / sabe-se lá... / Pode-se um dia precisar... // 69 princesas não
são para qualquer bico! / Misturada uma arroba de painço / com uma arroba de areia, / quem pode
separar? / arroba por @ é melhor tentar! // O herói joga a antena de gafanhoto no fogo / uma nuvem
de grilos surgiu por mágica, / num instante separados a areia do painço! / Creia nesta lenda que pinço
a vós cá diante / pois sou também um grilo falante! / Além do que, sabe-se do Indo ao Nilo / que
poesia é como antena de grilo!
64
Fórmula para o Sucesso
À Marginália.
“Aprendi que o mundo tem uma Alma, e quem entender esta Alma, entenderá a
linguagem das coisas.” PAULO COELHO.
“A leitura foi interrompida. Como se sopradas por uma corrente de ar, as chamas da
tocha oscilaram. Sinuhe, sobressaltado, voltou a cabeça em direção às trevas que
pesavam sobre a câmara.” J.J.BENÍTEZ.
“A casa estava lotada. Da platéia à torrinha, brasileiros de todas as classes queriam ver
aquela vedete francesa que se apresentava em nossas terras.” JÔ SOARES.
“Só entrei nisto por dinheiro!” FRANK ZAPPA.
Junte 8 gramas de terebentina
Dissolvida em gema de ovo de pato selvagem
À moda de Cassiano Ricardo.
Acrescente diascordium de frascator
Rico em mel rosado e bolus orientalis
Com rosas vermelhas pulverizadas,
¼ de leite de cabra logo deve ser juntado
E mãos cheias de hera, alquimila e matricária tropicalis.
4 pitadas de cabeça de hipericão
No athanor do bardo soma-se à porção,
2,5 grs. de raspas de chifre de cervo
Com 12 grs. de raspas de príapo de lobo do acervo,
24 grs. de essência de baleia -E não se assuste de ouvi-la
Leia-se que é espermacete para confecção de boa vela –
Cozinhe tudo em justa proporção de aguardente canforada
E acrescente após tudo, 210 grs. de xarope de coral
E consolda grande de modo igual,
Bálsamo, de 24 grs. calça-mo e o mesmo tanto de amoníaco
Coloque em moringa de argila o preparo demoníaco,
Por fim dissolva em 3 litros de vinho de malvasia,
Coloque em garrafas arrolhadas
E deixar ao sol durante um verão na Bahia,
Cada 13 gotas em um litro de água benta diluídas
E amornadas lava os pés, mãos, barriga e cabeça
E logo vem sucesso de que ninguém se esqueça!
Bienal do Livro, 1992.
Os Grandes Wallendas
Para Torresmo & Pururuca, Mário da Sá-Carneiro e Adolfo Caminha.
“Louco / O bêbado com chapéu coco / Fazia irreverências mil / Prá noite do Brasil”
JOÃO BOSCO / ALDIR BLANC.
“Mandei fazer / de puro aço luminoso punhal / Para matar o meu amor e matei / Às
cinco horas na Avenida Central” CAETANO VELOSO, GILBERTO GIL, MUTANTES.
“Esta advertência, difícil de satisfazer, prova talvez que a preparação do inferno é fácil,
porém não suaviza o admirável espanto de sua invenção.” JORGE LUIS BORGES
“O chapéu do burguês está voando de sua aguda cabeça, / em todos os ares está
ecoando a gritaria. / Os telhadores estão caindo e despedaçando-se” JAKOB VAN
HODDIS.

7...
Pirâmide...
Set your ass here!
A pira mede vários côvados d’altura!
Hoje tem espetáculo?
Tem, sim senhor!
“e o leão Nero que já havia comido dois ventríloquos,
quando ela entrava nua pela jaula adentro,
chorava como um recém-nascido”
(Jorge de Lima, O Grande Circo Místico)
A vida por um triz... Todos levam-na assim!
A vida da atriz... Todos querem-na assim assim!
O perigo, o desafio, o medo da morte, o medo da sorte!
Tá lá o corpo estendido no chão...
“Marie e Helène se apresentam nuas,
dançam no arame e deslocam de tal forma os membros
que parece que os membros não são delas.”
(Jorge de Lima, O Grande Circo Místico)
O corpo de um dos equilibristas malucos!
Pendurado no arame ainda balança meu coração!
7X7... Viva os 7 Wallendas! Hic et nunc as 7
2
lendas!
“Com a verdadeira história do Grande Circo Knieps
muito pouco se tem ocupado a imprensa.”
(Jorge de Lima, O Grande Circo Místico)
Do alto desta pirâmide o mundo gira gira girafando!
Circo do Piolim, s.d.
66
The End
Para Normam Brown e Filippo Marinetti.
“Les artists et les amoureux d’art qui auraient feuilleté ceci dans l’espoir d’y retrouver
quelque-unes des impressions obtenues au Louvre, à Florence ou à Milan, devront me
pardonner la decéption présente.” PAUL VALÉRY.
“Até este momento falei-vos em Poesia e poetas e a alguém pode parecer estranho o
emprego de tais palavras” ALMADA NEGREIROS.
“That pen will drip with moonlight and with fire. I’ll write upon the church-doors and the
walls.” VACHEL LINDSAY.
“outros tempos, resgates / dos textos, naufrágios / das velas, corredeiras / das
formas inconstantes / dos ventos além-mar” FABIO ULANIN.
“A Criança Abandonada / O Doutor Coppelius / Vamos com Ele / Senhorita
Primavera / Código Civil Brasileiro / A arte de ganhar no bicho / O Orador Popular
/ O Pólo em Chamas” OSWALD DE ANDRADE.

Lá está Boscovich, o velho louco,
Embaralhando palavras de Ovídio num saco
E jogando-as ao acaso pela areia.
Dante reconhecendo a fisionomia de Scott nos infernos:
“Fo-Hi quer dar-te de Elias o casaco!”
Um velho relojoeiro cons(c)erta a máquina de Antiquitera,
Sal Paradise um dia descobre que o fim finda no começo...
Minha poesia traça seu raio de Schwarzschild,
Crianças negras chupam balas de chocolate numa

Fico separando tardons de táquions
Como um grilo, como um demônio
E construo poemas para jogá-los em túneis de vermes...
Meus versos são como NGCs vagando no espaço infinito,
Meu sucesso, fama e glória...
Meu rock, meu samba, meu grito...
No bucks, no Buck Rogers...



Às margens do Cocito, 11/08/1999.


67

















(Leonardo da Vinci, A Última Ceia).





















68
TÁBUA DE CORRESPONDÊNCIAS OCULTAS


69
Poema Arcano Arte/Ci ência Tema Técni ca Tom.domi nante
Stoned cav.copas Música ilusão clássica cinza
Cultura
eOpulOpulência
Rei paus História anedota ironia verde
Rep.de
Poetas
rei copas Literatura tempo antologia azul anil
Piazza
XIV
val.copas Biografia vida engajada vermelho
O demô.de
Só t
9 espadasRetórica lit.latin lista branca
Em Ritmo de
Aventura
ás copas Psicologi
a
juventude montage
m
vermelho
As ilusões da
M d
Ás ouro Crítica
lit á
estudo clássica violeta
Blade Runner
II
6 copas Cinem
a
futuro coreograf. cinza
The
I f
8 espadasAstrofísica universo romântica negro
Terra em
Transe
Ás paus Sociologi
a
cinema retórica cinza
I Remenber
J
2 de paus Música política blues amarelo
Poema
Látex
Cav.paus Geografia história colagem branco+vermelh
o
Iracema Ready
Made
Rainha. O.Historiografi
a
romantism
o
ready ma. verde+azul
anil
O Exílio da
Canção
Rei
Ouro
Urbanism
o
cotidiano paródia verde+vermelh
o
Tropicália - Versão
D
6 espadasMitologi
a
épica colagem amarelo+azul
anil
Contra o
d ô i
3 de paus Polític sociologia concreta cinza
Quem não se
comuni
Cav.Ouro Comunicaçã
o
biografia parnasianaverde+vermelh
o
Trópicos rainha c. Psicanális
e
sexo montage
m
vermelho
Parque
Industrial
Rainha
p
Sociologi
a
sindicato engajada marrom
Rock-
i
3 copas Marketin música coreograf. azul claro
África 10 copas Mitologi
a
geografia história vermelho+negr
o
Ulisseida
Éb i
Rei
d
Bibliotecono literatura montage cinza+vermelh
Gauchissemen
t
Val.espad.Antropologi
a
desvio colagem cinza+branco
@ 2 copas Circo internet paródia vermelho
Para
Rado
Valete p. Economi
a
biblioteconresenha marrom+branc
o
Argonautas
I t t
Ás espad. Opereta Internet tesauro vermelho+azu
l
O Mosquito
Herói
9 paus Polític
a
racismo simbolism
o
vermelho+negr
o
Cyberespaço 7 espadasNavegação cibernéticamontage azul
il+i
Didática Carpe
Diem
Cav.espa. Filosofia lingüístic
a
simbolism
o
negro+branc
o
Clube do
Bolinha
10 espad. Comunicaçã
o
biografia barroca azul+verde
Vidas Secas 7 paus Sociologi
a
política colagem cinza
Cães de
Aluguel
5 copas Direito
crimin
cinema expressio. cinza+vermelh
o
The Three
St
3 de ouro Comédi televisão cubista amarelo+lilá
A Banda 5 de ouro Música tradução montage marrom+azu
l



70


Poema Arcano Arte/Ciência Tema Técnica Tom.dominante
Frankenstein Meta. 4 ouro Genética poética colagem cinza+vermelho
A Dança dos 7 Véus 7 copas Dança simbolis. montagem azul+dourado
O Encouraçado Pote. 10 paus Política cinema montagem vermelho+cinza
Bang-bang à italiana 8 paus Antropologia cinema expression. amarelo+rubro
Um santo da pérsia... 4 copas Hagiografia cultura parnasiana azul anil
Poema no país do c. 3 espad. Antropologia cultura colagem vermelho+negro
O carnaval nasceu... 2 espad. Antropologia mitologia paródia vermelho+branco
Mardi Gras 4 espad. Dança música expression. vermelho+verde
Duburu pipoca 8 copas Folclore misticis. paródia+col. negro+vermelho
Porra Louca 6 paus Cinema semiótica tradução violeta
Poema Visual 6 ouro Semiótica poética surrealismo amarelo
Poema dos macacos... 9 ouro Semiótica lingüística tradução verde+amarelo
Wine Rhymes 5 espad. Semiótica simbolis. concreta vinho+branco
O demônio de Max... Val.ouro Astrofísica semiótica simbolismo azul+negro
Mov. Lírico-browniano 2 ouro Astrofísica semiótica simbolismo azul+cinza
Poema do Bagaço 8 ouro Teatro rádio montagem verde+amarelo
Tele-soneto das 8 Rainha e. Televisão teatro paródia+col. azul+vermelho
No Ritmo da Pedra 5 paus Retórica ritmo tesauro amarelo
Bioterroristas fenom... 4 paus Direito Penal sociologia futurista vermelho+cinza
Fórmula para o suces. 9 copas Alquimia marketing paródia verde
Os Grandes Wallendas 7 ouro Circo perigo cubista violeta+rosa
The End 10 ouro Parafísica vida futurista verde+azul+cinza









71