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Cap´ıtulo 4 Recorda¸c˜oes de C´alculo Vetorial em Trˆes Dimens˜oes

Conte´udo

4.1 Alguns Operadores Diferenciais de Interesse

226

4.2 Teoremas Cl´assicos sobre Integrais de Volume e de Superf´ıcie

230

4.3 O Laplaciano em Sistemas de Coordenadas Gerais

232

este cap´ıtulo listamos, em parte na forma de exerc´ıcios, alguns re sultados importantes sobre c´alculo vetorial em trˆes dimens˜oes. As identidades aqui listadas s˜ao uteis´ em diver sas ´areas da F´ısica, como no Eletromagnetismo e na Mecˆanica dos Fluidos. Todos os resultados que aqui apresenta mos podem ser formulados com mais elegˆancia e generalizados a mais dimens˜oes na teoria das formas diferenciais . Vide e.g., [194].

4.1 Alguns Operadores Diferenciais de Interesse

Os s´ımbolos de Kr¨onecker e de Levi-Civita

O chamado s´ımbolo de Kr¨onecker 1 (ou delta de Kr¨onecker ) em trˆes dimens˜oes, denotado por δ ij , com i, j ∈ { 1 , 2 , 3 } ,

´e definido por

δ ij : =

1

0 , se

se

,

, i = j .

i = j

(4.1)

O chamado s´ımbolo de Levi-Civita 2 (ou tensor de Levi-Civita) em trˆes dimens˜oes, denotado por ε ijk , com i, j, k

{ 1 , 2 , 3 } , ´e definido por

ε ijk : =

(1 , 2 , 3), (2 , 3 , 1) ou (3 , 1 , 2) ,

1 , se (i, j, k ) = (1 , 3 , 2), (3 , 2 , 1) ou (2 , 1 , 3) ,

1 , se (i, j, k ) =

0 , de outra forma.

(4.2)

Note as seguintes propriedades: 1. (simetria) o s´ımbolo de Kr¨onecker n˜ao se altera se os ´ındices forem permutados, ou seja, δ ij = δ ji ; 2. ε ijk ´e nulo se e somente se pelo menos dois dos ´ındices s˜ao iguais; 3. (anti-simetria) ε ijk troca de sinal se quaisquer dois dos ´ındices forem permutados; 4. (ciclicidade) ε ijk n˜ao se altera se os ´ındices forem permutados ciclicamente, ou seja, ε ijk = ε jki = ε kij .

No que segue apresentamos algumas identidades uteis´ envolvendo o s´ımbolo de Kr¨onecker e o s´ımbolo de Levi-Civita.

E. 4.1 Exerc´ıcio . Este Exerc´ıcio cont´em uma s´erie de identidades muito empregadas.

a. Mostre que se M ´e uma matriz 3 × 3 , valem

3

j

=1

δ ij M jk = M ik

e

3

j

=1

M ij δ jk = M ik .

Em particular, vale

b. Mostre que, para todos i, j e k , vale

3

j

=1

δ ij δ jk = δ ik .

ε ijk = δ i1 δ j 2 δ k 3 + δ i2 δ j 3 δ k 1 + δ i3 δ j 1 δ k 2 δ i1 δ j 3 δ k 2 δ i3 δ j 2 δ k 1 δ i2 δ j 1 δ k 3 .

1 Leopold Kr¨onecker (1823–1891). 2 Tullio Levi-Civita (1873–1941).

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(4.3)

(4.4)

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Cap´ıtulo 4

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Sugest˜ao para o item b . Siga os seguintes passos: 1. Mostre que o lado direito n˜ao se altera por permuta¸c˜oes c´ıclicas dos ´ındices i, j e k . 2. Mostre que o lado direito anula-se se pelo menos dois dos ´ınd ices s˜ao iguais. 3. Mostre que o lado direito vale 1 quando (i, j, k ) = (1 , 2 , 3) e 1 quando (i, j, k ) = (1 , 3 , 2). 4. Conclua dos passos anteriores que (4.4) ´e verdadeira comparando com a defini¸c˜ao (4.2).

c. Mostre que vale a identidade

ε ijk ε lmn = δ il δ jm δ kn + δ im δ jn δ kl + δ in δ jl δ km δ il δ jn δ km δ in δ jm δ kl δ im δ jl δ kn ,

para todos i, j e k e para todos l, m e n , ou seja,

ε ijk ε lmn =

det

δ il

δ jl

δ kl

δ im

δ jm

δ km

δ in

δ jn

δ kn

.

(4.5)

(4.6)

Sugest˜ao para o item c. Siga os seguintes passos: 1. Constate que o lado direito de (4.5) reduz-se a (4.4) quando (l, m, n ) = (1 , 2 , 3). 2. Constate que o lado direito de (4.5) n˜ao se altera por permuta ¸c˜oes c´ıclicas de (l, m, n ). Constate que o lado direito de (4.5) ´e nulo se e somente se pelo menos dois dos ´ındices (l, m, n ) s˜ao iguais. 3. Constate que o lado direito de (4.5) troca de sinal se quaisquer dois dos ´ındices (l, m, n ) s˜ao permutados. 4. Conclua dos passos anteriores a validade de (4.5).

A identidade (4.5) ´e muito ´util e implica as identidades (4.7 ) e (4.8), abaixo, cuja utilidade poder´a ser constatada nos exerc´ıcios posteriores.

d. Mostre que vale a identidade

Sugest˜ao: use (4.5).

e. Mostre que vale a identidade

Sugest˜ao: use (4.7).

f. Mostre que vale a identidade

Sugest˜ao: use (4.8).

g. Mostre que vale a identidade

Sugest˜ao: use (4.7).

3

k =1

3

k =1

ε ijk ε lmk = δ il δ jm δ im δ jl .

3

3

j =1 k =1

ε ijk ε ljk = 2 δ il .

3

3

3

i=1 j =1 k =1

ε ijk ε ijk = 6 .

ε ijk ε klm + ε imk ε kjl + ε ilk ε kmj = 0 .

A identidade (4.10) ´e denominada identidade de Jacobi 3 para os s´ımbolos de Levi-Civita .

(4.7)

(4.8)

(4.9)

(4.10)

E. 4.2 Exerc´ıcio . Se S ´e uma matriz 3 × 3 sim´etrica, ou seja, satisfaz S ij = S ji para todos i, j ∈ { 1 , 2 , 3 } , mostre que

3

3

j =1 k =1

ε ijk S jk = 0

para todo i ∈ { 1 , 2 , 3 } . Sugest˜ao: conven¸ca-se que

anti-simetria do s´ımbolo de Levi-Civita.

3 Carl Gustav Jacob Jacobi (1804–1851).

3

3

j =1 k =1

ε ijk S jk =

3

3

j =1 k =1

ε ikj S kj e em seguida use a simetria de S e a

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O produto escalar e o produto vetorial

Sejam xˆ , yˆ e zˆ trˆes versores ortogonais dois a dois no espa¸co tridimensional (R 3 ) tais que a tripla (ˆx, y,ˆ zˆ) seja positivamente orientada. Cada vetor v do espa¸co tridimensional pode ser escrito na forma v = v 1 xˆ + v 2 yˆ + v 3 zˆ, os n´umeros v i , i = 1 , 2 , 3, sendo as componentes de v na base { x,ˆ y,ˆ zˆ} .

O

chamado produto escalar de dois vetores quaisquer a e b, denotado por a · b , ´e definido por

a · b : =

3

i=1

a i b i =

3 3

i=1 j =1

a i b j δ ij .

(4.11)

O

chamado produto vetorial de dois vetores quaisquer a e b, denotado por a × b, ´e definido como sendo o vetor cuja

i -´esima componente na base { x,ˆ y,ˆ zˆ} , ( a × b ) i , ´e dada por

a × b i : =

3

3

j =1 k =1

ε ijk a j b k ,

i ∈ { 1 ,

2 , 3 } .

(4.12)

´

E

importante notar as propriedades a · b = b · a e a × b = b × a , v´alidas para quaisquer vetores a e b .

E. 4.3 Exerc´ıcio . Este Exerc´ıcio cont´em algumas identidades ´uteis sobre o produto vetorial.

a. Demonstre as igualdades

a · b × c = b · c × a = c · a × b ,

(4.13)

v´alidas para quaisquer vetores a , b e c . Sugest˜ao: use a ciclicidade do s´ımbolo de Levi-Civita.

b. Demonstre a identidade

a × b × c = a · c b a · b c ,

v´alida para quaisquer vetores a , b e c . Sugest˜ao: use (4.7).

c. Demonstre a identidade de Jacobi 4 para o produto vetorial :

a × b × c + b × c × a + c × a × b = 0 ,

(4.14)

(4.15)

v´alida para quaisquer vetores a , b e c . Sugest˜ao: use (4.14) ou (4.7), ou use diretamente (4.10).

d. Demonstre a identidade

a × b · c × d = a · c

b · d a · d b · c ,

v´alida para quaisquer vetores a , b, c e d. Sugest˜ao: use (4.7).

Mostre que a · b × c = 0 se e somente se a , b e c forem linearmente dependentes.

Gradiente, divergente, rotacional e Laplaciano

(4.16)

Com as conven¸c˜oes de acima denotamos o vetor posi¸c˜ao no espa¸co tridimensional R 3 em coordenadas Cartesianas 5 por x = x 1 xˆ + x 2 yˆ + x 3 zˆ. Para um campo vetorial v = v 1 xˆ + v 2 yˆ + v 3 zˆ, onde as coordenadas v i v i (x 1 , x 2 , x 3 ) s˜ao fun¸c˜oes diferenci´aveis das coordenadas Cartesianas x 1 , x 2 e x 2 , definimos o divergente de v , denotado por ∇ · v , por

∇ · v : =

3

i=1

∂v

i

∂x

i

=

3

3

i=1 j =1

∂v j

∂x

i δ ij .

4 Carl Gustav Jacob Jacobi (1804–1851). 5 Ren´e Descartes (1596–1650).

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Definimos o rotacional de v , denotado por × v , como sendo o campo vetorial cuja i -´esima componente ´e dada por

× v i : =

3

3

j =1 k =1

ε

ijk

∂x j

v k .

Para um campo escalar φ φ(x 1 , x 2 , x 3 ), suposto

definimos o gradiente de φ, denotado por φ, como sendo o campo vetorial dado por

uma fun¸c˜ao diferenci´avel das coordenadas Carte sianas x 1 , x 2 e x 2 ,

φ : =

φ

∂x 1

xˆ +

∂φ

∂x

2 yˆ +

∂φ

∂x 3

zˆ .

Para um campo vetorial v = v 1 xˆ + v 2 yˆ + v 3 zˆ denotamos por v · ∇ o operador diferencial

v · ∇ : =

3

i=1

v

i

∂x i

.

Assim, se φ ´e um campo escalar, v · ∇ φ coincide com o produto escalar de v com o gradiente de φ:

v · ∇φ =

3

i=1

v

i

∂φ

∂x i

=

v · φ ,

enquanto que se u ´e um campo vetorial, v · ∇ u denota o campo vetorial cuja j -´esima componente ´e

ou seja,

v · ∇ u

j : =

v · ∇ u : =

3

i=1

v

i

∂u

1

∂x

i

xˆ +

3

i=1

3

v

i=1

v

i

∂x i u j ,

i

∂u

2

∂x

i

yˆ +

3

i=1

v i ∂u 3 ∂x

i

zˆ .

E. 4.4 Exerc´ıcio . Demonstre as seguintes identidades:

(φψ )

=

φ ψ + ψ φ ,

a · b

=

a × × b + b × × a + a · ∇ b + b · ∇ a

∇ · ( φ a ) =

× ( φ a ) =

∇ · a × b

× a × b

=

=

φ∇ · a + a · ∇φ ,

φ × a

+

φ × a ,

b · × a a · × b ,

b · ∇ a a · ∇ b + ∇ · b a ∇ · a b .

 

(4.17)

,

(4.18)

(4.19)

(4.20)

(4.21)

(4.22)

Acima φ e ψ s˜ao campos escalares e a e b s˜ao campos vetoriais, todos diferenci´aveis.

Sugest˜oes: use a regra de Leibniz. Para (4.18) calcule a × × b + b × × a usando (4.7). Para (4.22), use (4.7).

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E.

4.5 Exerc´ıcio . Mostre que se a ´e um campo vetorial duas vezes diferenci´avel vale

 

∇ · × a = 0 .

(4.23)

Mostre que se φ ´e um campo escalar duas vezes diferenci´avel vale

 
 

× φ = 0 .

(4.24)

 

Se φ ´e um campo escalar duas vezes diferenci´avel, o chamado Laplaciano 6 de φ, denotado por ∆φ, por ∆ 2 φ ou por 2 φ, ´e definido como sendo o campo escalar dado por

φ : = ∇ · φ .

Assim, tem-se em coordenadas Cartesianas

φ =

3

i=1

2 φ ∂x

2

i

.

(4.25)

(4.26)

Se v = v 1 xˆ + v 2 yˆ + v 3 zˆ ´e um campo vetorial duas vezes diferenci´avel, define-se Laplacia no de v , denotado por ∆ v , como sendo o campo vetorial cuja i -´esima componente em coordenadas Cartesianas ´e

Assim,

v =

3

j

=1

v i : = ∆v i =

3

j

=1

2 v i ∂x

2

j

.

2 v 1 ∂x

2

j

xˆ +

3

j

=1

2 v 2 ∂x

2

j

yˆ +

3

j

=1

2 v 3 ∂x

2

j

zˆ .

E. 4.6 Exerc´ıcio . a. Mostre que se φ e ψ s˜ao dois campos escalares duas vezes diferenci´aveis, val e

∆(φψ ) = (∆φ)ψ + 2 φ · ψ + φ(∆ψ ) .

(4.27)

Sugest˜ao: use a defini¸c˜ao (4.25) e as identidades (4.17) e (4.19) ou use (4 .26) e a regra de Leibniz.

b. Mostre que se a ´e um campo vetorial duas vezes diferenci´avel, vale

× × a = (∇ · a ) a .

(4.28)

Sugest˜ao: use (4.7).

4.2 Teoremas Cl´assicos sobre Integrais de Volume e de Su- perf´ıcie

No que segue, listamos alguns teoremas cl´assicos importantes envolvendo integrais de volume e de superf´ıcie de campos em R 3 .

Teorema 4.1 (Teorema de Gauss) 7 Se v ´e um campo vetorial diferenci´avel definido em um volume com pacto e conexo V R 3 , limitado por uma superf´ıcie fechada, retific´avel e orien t´avel ∂V , ent˜ao

V ∇ · v d 3 x = v · d σ ,

∂V

6 Pierre-Simon Laplace (1749–1827).

7 Johann Carl Friedrich Gauss (1777–1855).

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onde d σ ( x ) : = nˆ ( x )( x ), nˆ ( x ) sendo um vetor unit´ario normal a ∂V em x ∂V , direcionado no sentido do exterior de

V e ( x ) sendo a medida de ´area de ∂V .

A demonstra¸c˜ao desse resultado cl´assico pode ser encontrada em qualquer bom livro de C´alculo de fun¸c˜oes de v´arias

vari´aveis.

Teorema 4.2 (Teorema de Stokes) 8 Se v ´e um campo vetorial diferenci´avel definido em uma superf´ıcie compacta, conexa, orientada e retific´avel S R 3 , limitada por uma curva fechada, retific´avel e orient´avel ∂S , ent˜ao

S

× v · d σ

= ∂S

v · d ℓ,

onde d σ ( x ) : = nˆ ( x )( x ), nˆ ( x) sendo um vetor unit´ario normal a S em x S , direcionado no sentido positivo de S e d ( x ) = t ( x )dℓ , t ( x ) sendo um vetor tangente a ∂S em x ∂S orientado no sentido positivo de ∂S e dℓ ´e a medida de

comprimento de ∂S .

ˆ

ˆ

A demonstra¸c˜ao desse resultado cl´assico pode ser encontrada em qualquer bom livro de C´alculo de fun¸c˜oes de v´arias

vari´aveis.

Teorema 4.3 (Identidades de Green) 9 Sejam f e g fun¸c˜oes definidas em um volume compacto e conexo V R 3 , limitado por uma superf´ıcie fechada, retific´avel e orient ´avel ∂V , ambas as fun¸c˜oes sendo duas vezes diferenci´aveis no interior V 0 de V e diferenci´aveis em V . Ent˜ao, valem as seguintes identidades:

Primeira identidade de Green:

Segunda identidade de Green:

Terceira identidade de Green:

V f g + f · g d 3 x =

∂V

f g · d σ .

V (f g g f ) d 3 x =

f g g f · d σ .

∂V

V f d 3 x =

∂V

f · d σ .

(4.29)

(4.30)

(4.31)

Prova. A express˜ao (4.29) segue imediatamente do Teorema de Gauss, Te orema 4.1, p´agina 230, para v = f g , pois

∇ · f g = f g + f · g , como facilmente se constata por (4.19). A express˜ao (4.30) seg ue imediatamente do

Teorema de Gauss para v = f g g f , pois ∇ · f g g f = f g g f , como facilmente se constata por (4.19). A express˜ao (4.31) segue imediatamente do Teorema de Gauss par a v = f .

imediatamente do Teorema de Gauss par a v = ∇ f . As identidades de Green

As identidades de Green s˜ao amplamente empregadas no estudo da s equa¸c˜oes de Poisson e Laplace.

Teorema 4.4 (Teorema do gradiente) Se φ ´e um campo escalar diferenci´avel definido em um volume compacto e conexo V R 3 , limitado por uma superf´ıcie fechada, retific´avel e orien t´avel ∂V , ent˜ao

V

φ( x ) d 3 x = φ( x ) d σ ,

∂V

onde d σ ( x ) : = nˆ ( x )( x ), nˆ ( x ) sendo um vetor unit´ario normal a ∂V em x ∂V , direcionado no sentido do exterior de

V e ( x ) sendo a medida de ´area de ∂V .

8 George Gabriel Stokes (1819–1903).

9 George Green (1793–1841).

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Cap´ıtulo 4

Prova. Basta aplicar o Teorema de Gauss para o campo v ( x) = α φ( x ), α sendo um vetor constante arbitr´ario.

232/2111

x ), α sendo um vetor constante arbitr´ario. 232/2111 Teorema 4.5 (Teorema do rotacional) Se v

Teorema 4.5 (Teorema do rotacional) Se v ´e um campo escalar diferenci´avel definido em um volume compacto e conexo V R 3 , limitado por uma superf´ıcie fechada, retific´avel e orien t´avel ∂V , ent˜ao

V

× v ( x ) d 3 x = v ( x ) × d σ = v ( x) × nˆ ( x ) dσ ,

∂V

∂V

onde d σ ( x ) : = nˆ ( x )( x ), nˆ ( x ) sendo um vetor unit´ario normal a ∂V em x ∂V , direcionado no sentido do exterior de

V e ( x ) sendo a medida de ´area de ∂V .

Prova. A demonstra¸c˜ao pode ser feita componente a componente. Par a a componente 1, definimos o campo vetorial w = 0ˆx + v 3 yˆ v 2 zˆ. Com isso, ´e f´acil constatar que × v 1 = ∇ · w . Assim, usando o Teorema de Gauss, Teorema 4.1, p´agina 230, temos que

V

× v 1 ( x ) d 3 x = V ( ∇ · w ) ( x ) d 3 x

Gauss

=

∂V

w ( x ) · d σ = ( v ( x ) × d σ ) 1 ,

∂V

como facilmente se constata. Para as demais componentes a prova ´e an´aloga.

constata. Para as demais componentes a prova ´e an´aloga. 4.3 O Laplaciano em Sistemas de Coordenadas

4.3 O Laplaciano em Sistemas de Coordenadas Gerais

Nesta se¸c˜ao apresentaremos uma identidade que permite, no es pa¸co R n , expressar o Laplaciano de uma fun¸c˜ao escalar em qualquer sistema de coordenadas 10 , ao menos localmente. Isso ´e particularmente util´ em duas e trˆe s dimens˜oes espaciais, pois h´a muitos problemas em F´ısica (vide Cap´ıtulo 20, p´agina 877) nos quais coordenadas polares, esf´ericas, cil´ındricas ou outras se prestam melhor ao tratamento do que coordenadas C artesianas, permitindo, por exemplo, explorar melhor as simetrias geom´etricas que se apresentam.

No que segue, denotaremos por (x 1 ,

,

x n ) um sistema de coordenadas Cartesianas em R n e por (y 1 ,

, y n ) um

, y n ),

segundo sistema de coordenadas, n˜ao-necessariamente Carte sianas, em R n . Suporemos que as fun¸c˜oes x k (y 1 ,

k = 1 ,

Definimos a matriz Jacobiana 11 , denotada por J J (y 1 , definida em Ω cujos elementos ab s˜ao dados por

, n , sejam definidas em algum aberto conexo Ω R n e sejam ao menos duas vezes diferenci´aveis.

ab (y 1 ,

J

,

b

y n ) : = ∂y x a (y 1 ,

,

y n ), como sendo a matriz como sendo a matriz n × n

, )

y n

,

a, b =

1 ,

.

.

.

,

n .

Definimos o tensor m´etrico, ou matriz m´etrica, g g (y 1 ,

g : = JJ T e, assim, para seus elementos de matriz g ab g ab (y 1 ,

, y n ) como sendo a matriz n × n definida em Ω dada por

, y n ), temos

g ab : =

n

c =1

∂x c ∂x

c

∂y a ∂y

b

,

a,

b = 1 ,

.

.

.

,

n .

Se A : R n R n ´e um campo vetorial, ent˜ao o divergente de A pode ser expresso nas coordenadas (y 1 ,

∇ · A =

1

det(g )

onde A j ´e a j -´esima componente de A no sistema (y 1 ,

n

j =1

y j det(g )A j ,

, y n ).

, y n ) por

(4.32)

10 Naturalmente, o leitor mais avan¸cado sabe que certas condi ¸c˜oes tem de ser supostas sobre o sistema de coordenadas e que tipicamente garantam a n˜ao-singularidade e um grau suficiente de diferenciabilidade. 11 Carl Gustav Jacob Jacobi (1804–1851).

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Cap´ıtulo 4

Se f : R n R ´e um campo escalar, ent˜ao seu Laplaciano pode ser expresso nas coordenadas (y 1 ,

f =

1

det(g )

n

n

j =1 k =1

sendo g 1 a matriz inversa da matriz g .

y j det(g ) g 1 jk

k

∂f

∂y

,

233/2111

, y n ) por

(4.33)

Observe-se que as express˜oes (4.32) e (4.33) s´o s˜ao v´alidas nos pontos em que det(g ) = 0 e observe-se tamb´em

que det(g ) = det(J ) (por que?). Assim, (4.32) e (4.33) n˜ao est˜ao definidas nos pontos em que a transforma¸c˜ao de

coordenadas (x 1 ,

A demonstra¸c˜ao das rela¸c˜oes (4.32) e (4.33) ´e apresentada na Se¸c˜ao 34.2.4, p´agina 1615, e faz uso de no¸c˜oes de

Geometria Riemanniana. H´a tamb´em uma elegante maneira de obter essas express˜oes fazendo uso de formas diferenciais.

Vide para tal [194] ou qualquer outro bom livro sobre Geometria Difer encial.

Vamos agora tratar de exemplos simples de aplica¸c˜ao de (4.33). Alg umas das express˜oes que obteremos ser˜ao usadas neste texto, notadamente no Cap´ıtulo 20, p´agina 877.

,

x n ) (y 1 ,

,

y n ) for singular (ou seja, quando det(J ) se anula).

Coordenadas polares em duas dimens˜oes

Em R 2 , al´em das coordenadas Cartesianas usuais (x 1 , x 2 ) (x, y ), podemos definir tamb´em coordenadas polares (y 1 , y 2 ) (ρ, ϕ), com 0 ρ < e π < ϕ π e tem-se

x

= ρ cos ϕ ,

y = ρ sen ϕ .

´

E

elementar constatar que a matriz Jacobiana ´e dada nesse caso p or

J =

cos ϕ

ρ sen ϕ

sen ϕ

ρ cos ϕ

.

Note-se que det(J ) = ρ e, portanto, Ω = R 2 \ { 0 } ´e a regi˜ao onde a transforma¸c˜ao de coordenadas (x, y ) (ρ, ϕ) ´e n˜ao-singular. A matriz m´etrica g e sua inversa g 1 s˜ao dadas por

g =

1

0

0 ρ 2

e

g 1 =

1

0

0

1

ρ

2

,

(verifique!) sendo que det(g ) = ρ . De posse dessas informa¸c˜oes ´e elementar obter de (4.33) a ex press˜ao

f = 1

ρ ∂ρ ρ ∂f

∂ρ

+

2 f ρ 2 ∂ϕ 2

1

,

(4.34)

que fornece o Laplaciano de f em duas dimens˜oes em coordenadas polares, express˜ao essa v´alida para ρ > 0.

Coordenadas esf´ericas em trˆes dimens˜oes

Em R 3 , al´em

das coordenadas Cartesianas usuais

(x 1 , x 2 , x 3 ) (x, y, z ), podemos definir tamb´em coordenadas

esf´ericas (y 1 , y 2 , y 3 ) (r, θ, ϕ), com 0 r < , 0 θ π e π < ϕ π e tem-se

x

= r sen θ cos ϕ ,

y = r sen θ sen ϕ ,

z = r cos θ .

A matriz Jacobiana J pode ser facilmente calculada e obt´em-se

J =

sen θ cos ϕ

r cos θ cos ϕ

r sen θ sen ϕ

sen θ sen ϕ

r

r

cos θ sen ϕ

sen θ

cos ϕ

cos θ

r sen θ

0

.

JCABarata. Curso de F´ısica-Matem´atica Vers˜ao de 27 de junho de 2014.

Cap´ıtulo 4

234/2111

E ´ f´acil constatar que det J = r 2 sen θ e, portanto, a transforma¸c˜ao de coordenadas (x, y, z ) (r, θ, ϕ) ´e n˜ao-singular na regi˜ao Ω = R 3 \ Z , onde Z ´e o eixo “z”: Z = { (x, y, z ) R 3 , x = y = 0 } . A matriz m´etrica g e sua inversa g 1 s˜ao dadas por

g =

1 0

0

r 2

0 0

0

0

r 2 ( sen θ ) 2

e

g 1 =

1

0

0

0

1

r

2

0

0

0

1

r 2 ( sen θ ) 2

,

(verifique!) e tem-se det(g ) = r 2 sen θ . Com (4.33) obt´em-se para o operador Laplaciano em trˆes dimens ˜oes em coordenadas esf´ericas a express˜ao

f = 1

∂r

r 2 ∂r r 2 ∂f

que tamb´em pode ser escrita como

2

f = 1 r 2 rf +

r

+

1

θ sen θ f +

∂θ

sen θ

1

2 f

( sen θ ) 2 ∂ϕ 2

1

θ sen θ f +

∂θ

r 2 sen θ

1

2 f

r 2 ( sen θ ) 2 ∂ϕ 2

.

,

(4.35)

(4.36)