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Biomateriais e Biossensores

Projeto Hemotrap®

Analisador sanguíneo para doadores de sangue

Rodrigo Berté
Gustavo Machado Álvares de Lima
Resumo
Neste trabalho iremos descrever o design e funcionalização de um biossensor para
detecção de doenças relevantes no contexto de doação de sangue. Primeiramente
descreveremos o processo e sua motivação, após isto passaremos a descrever o biossensor, as
doenças envolvidas e o método de detecção de cada uma delas.

1.Introdução
A importância da doação de sangue reside no fato em que não há substituto sintético
para esse tecido de vital importância, sendo necessário manter um estoque para fornecimento
regular e seguro do mesmo. Há indícios de que as primeiras transfusões tenham ocorrido no
século XIII, procedimento realizado inclusive por via oral, sem grande sucesso. Séculos mais
tarde, por volta de 1660, foram realizadas transfusões heterólogas (entre espécies diferentes),
principalmente de carneiros para seres humanos, o que levou a óbito todos aqueles que
receberam o sangue. Uma das justificativas pueris para tal é a de que o sangue dos animais era
livre de vícios e paixões, diferentemente do sangue humano. Porém a partir do século XIX as
transfusões entre pessoas tornaram-se uma prática médica mais comum, a despeito de reações
adversas, eram muito úteis para salvar vidas em situações de hemorragia, por exemplo.
Somente no último século é que foram identificados os fatores sanguíneos – sistema ABO e
fator Rh – como proteínas de superfícies dos eritrócitos e fatores de compatibilidade entre
indivíduos para uma transfusão segura, ou seja, sem reações adversas.

Não obstante a identificação desses fatores, existem outros ligados a anticorpos


irregulares ou envolvendo doenças autoimunes que devem ser examinados antes que o sangue
doado seja transferido para o banco de armazenamento. As suspeitas dos cientistas do século
XVII, sobre a existência de vícios e paixões que contaminavam o sangue dos indivíduos nunca
foram encontradas, mas o sangue pode carregar uma série de organismos patogênicos de uma
grande diversidade, desde vírus até protozoários. E essa diversidade se reflete também na
maneira de contágio dessas doenças, sejam sexualmente transmissíveis ou adquiridas por uma
picada de inseto. Mas o pior consiste no fato de que muitas apresentam uma fase inicial de
contágio de poucos sintomas, ou por vezes assintomática. Muitas pessoas nessa situação,
convencidas de que nada tem, acabam por ir doar sangue.

Podemos citar as doenças para os quais são realizados testes sorológicos: Hepatite B,
Hepatite C, Doença de Chagas, Sífilis, HIV (AIDS), HTLV I/II. Para prevenir que o sangue
contaminado chegue aos bancos de doação, alguns exames são realizados na amostra coletada.
Mas por amostra dizemos uma bolsa de sangue, ou seja, todo o material que será doado. Isso é
dispendioso e um grande desperdício de recursos caso o sangue seja rejeitado. Como essas
doenças são muito comuns, e muitas pessoas são portadores desses organismos patogênicos
sem mesmo saber (a exemplo do retrovírus HTLV, em que apenas 2% dos contaminados
desenvolvem a doenças, estima-se que 20 milhões de pessoas no mundo estejam
contaminadas), muitas das amostras coletadas são rejeitadas.

Em face disso propomos o desenvolvimento de um biossensor para detectar todas essas


doenças de uma única vez, como uma etapa anterior à doação. Isso será feito apenas com uma
amostra pequena do sangue do doador, e o resultado obtido em alguns minutos. Isso elimina
toda a etapa posterior de gasto de material, gastos com transporte e exames diversos para
detectar o que mais comummente faz os laboratórios descartar todo o sangue coletado. Isso se
torna então, claramente, uma proposta na redução de custo de manutenção de bancos de
sangue, tanto públicos quanto privados. Ao longo do trabalho descreveremos cada uma dessas
doenças no contexto do projeto de nosso biossensor, envolvendo a imobilização de moléculas
específicas e os mecanismos de detecção adequados para cada uma. Naturalmente, em alguns
casos iremos apenas adaptar a idéia de um método existente de diagnóstico ao nosso
biossensor, desde que ele se mostre eficaz, perfeitamente compatível com o contexto e nossos
objetivos.

2.Doenças e sua detecção

2.1 Doença de Chagas

Estima-se que 18 milhões de pessoas em todo o mundo, principalmente na América


latina, estejam contaminadas com o Trypanosoma cruzi. Dessas, 50.000 são levadas a óbito
todos os anos[1]. Naturalmente, essa estimativa reflete um agravante: poucos dos 18 milhões
têm ciência de sua doença. A maior parte da população infectada é carente e não possui
informações básicas de cuidado com a saúde, muitas vezes ignorando os possíveis sintomas que
venham a desenvolver e tratando-os com negligência.

Fora isto, os sintomas contribuem para que a pessoa não desconfie de seu quadro
clínico. A doença se apresenta em duas fases distintas: aguda e crônica, a depender da forma
que o parasita se encontra no organismo. Na fase aguda os sintomas são em geral um inchaço
na região da picada, o que, para uma pessoa ignorante, não passa simplesmente de um
inchaço. Outros tais como febre e hepatoesplenomegalia podem ocorrer, mas passam em no
máximo dois meses, o que faz com que a pessoa pense que está curada. Após isto se
desenvolve a fase crônica, em que os sintomas no coração, intestino e sistema nervoso
aparecem cerca de 10 a 20 anos após a picada. Uma aritmética básica mostra que durante 9
anos (ou 19 anos) e 10 meses a pessoa é um reservatório assintomático do parasita, e
logicamente, um potencial doador de sangue.

Os métodos de detecção tradicional da doença de chagas empregados dependem do


estágio em que a doença se encontra. No fase aguda, um exame via microscopia óptica de uma
amostra de sangue pode ser empregado para detectar o parasita. Porém isso não é eficiente na
fase crônica, em que o parasita se encontra preferencialmente em outros tecidos, sendo
empregado nesse caso um PCR para amplificação de genes específicos do mesmo, o qual é um
método bem mais sensível. Podemos explorar também a presença de anticorpos no paciente,
como reação de seu sistema imunológico à infecção. São esses os quais iremos explorar em
nosso biossensor para diagnóstico da doença.

2.2 HTLV I/II

De forma semelhante ao nosso caso anterior, temos aqui um contingente estimado da


ordem de 20 milhões de pessoas em perfeitas condições para a doação de sangue, porém
portadoras de uma moléstia, na maioria de seus casos, assintomática. O HTLV (Human T
Lymphotropic Vírus) do tipo I se comporta dessa forma, assintomática, em 99% de seus casos,
estando associado a formas raras de Leucemia e doenças no sistema nervoso no restante. O
tipo II não esta diretamente associado a essas doenças, mas dos estudos até então nada se
afirma. Assim seguimos com a filosofia popular: Melhor prevenir do que remediar. O
desencadear da doença ainda é um mistério, mas suspeita-se fortemente de fatores genéticos.

A transmissão desse vírus ocorre de maneira semelhante ao vírus da AIDS, através de


compartilhamento de agulhas por usuários de drogas, relações sexuais sem a devida proteção,
amamentação e, naturalmente, transfusões de sangue. Tudo o que foi mencionado leva essa
doença a encaixar-se perfeitamente em nossos objetivos com o biossensor. O método atual de
diagnóstico dessa é feito por ensaio sorológico, e detecção de anticorpos via ELISA(Enzyme
Linked Immuno Sorbent Assay). Assim, iremos adaptar a idéia desse método ao que queremos
fazer.

A espécie imobilizada para sua detecção será a glicoproteína HTLV gp46, uma
glicoproteína expressa tanto pela forma I quanto pela forma II do HTLV. A vantagem de se
utilizar a gp46 é por esta ter alta especificidade aos tipos HTLV-I e HTLV-II, apesar de não se
poder discernir entre os tipos de vírus. Como a intenção do biossensor é apenas inviabilizar
possíveis doadores de sangue, o teste será eficiente, já que ser portador de qualquer um dos
dois vírus já é suficiente para impedir a doação.

O gp46 é uma proteína de superfície do vírus HTLV-I/II. Como a superfície glicoprotéica


está relacionada com as funções biológicas para a virulência do HTLV e para seu tropismo, a
neutralização dessa proteína é capaz de inutilizar o vírus. Isso faz da gp46 um ótimo radar de
anticorpos para HTLV-I/II. O mecanismo para obtenção e purificação da proteína está
estabelecido e é descrita na referência[2].

2.3 Hepatite B

Causada por um adenovírus que ataca preferencialmente células hepáticas, essa doença
afeta cerca de 5% da população mundial (300 milhões de pessoas), sendo assintomática em
cerca de 75% do casos. Os demais casos desenvolvem-se na maioria para um quadro crônico,
porém com riscos de complicações, principalmente devido à presença de tecido fibroso no
fígado, quadro característico de cirrose hepática. Esse tecido fibroso é gerado pelo corpo em
resposta ao ataque do sistema imunológico aos hepatócitos infectados. Cerca de 1% dos
pacientes contaminados desenvolvem uma forma fulminante de hepatite, que em geral é fatal
se não tratada a tempo. Outro agravante é a possibilidade de desenvolvimento de tumor no
fígado pela regeneração excessiva das células do órgão e eventuais erros de replicação em
oncogenes. O vírus é facilmente transmitido por fluidos corporais, desde saliva até o sêmen,
além de grupos de risco que compartilham seringas ao usar drogas injetáveis.

O vírus é bastante resistente, podendo sobreviver por até uma semana no ambiente.
Mas o quadro que nos interessa é justamente os 75% assintomáticos, que não desconfiam da
presença do vírus e julgam ótima saúde. Esse grande contingente de pessoas faz com que
muitas das amostras em doações sejam rejeitadas pela presença silenciosa do vírus.

Existem vários testes usados para detectar a presença de anticorpos para hepatite B. O
anti-HBs (hepatitis surface antibody) é um bom anticorpo para ser detectado pois sua presença
indica exposição prévia ao vírus HBV, e não necessariamente requer a presença do vírus no
organismo. Para detectar o anti-HBs no sangue, pode-se imobilizar um antígeno HbsAg
(Hepatitis B surface antigen) produzido pelo HBV. Esse antígeno é ideal para a detecção pois
com ele é possível identificar pessoas infectadas que ainda não desenvolveram os sintomas.
Com ele construiremos nosso biossensor.

2.4 Hepatite C

Diferentemente do vírus da Hepatite B, o vírus da Hepatite C (HCV) é um retrovírus. A


doença afeta cerca de 200 milhões de pessoas em todo o mundo, e até o início da década de
90, de 80% - 90% das contaminações ocorriam por transfusão sanguínea, número
significativamente reduzido hoje em dia devido aos controles bem estabelecidos de testes para
detecção do vírus em hemocentros. A doença é hoje em dia responsável por 60% dos
transplantes de fígado em países desenvolvidos, o que a torna de grande importância
econômica.

Infelizmente, muitos dos doentes não manifestam sintomas da Hepatite C, logo não
procuram tratamento adequado. Para detectar pessoas que já tiveram contato com o vírus
HCV, procuraremos no sangue por anticorpos específicos, como feito para as outras patologias
até então tratadas. A espécie a ser imobilizada, o antígeno, será o HCV-NS4 (Hepatitis C virus
nonstructural antigen 4), que pode ser encontrado no tecido do fígado.
2.5 Sífilis

A sífilis é uma doença sexualmente transmissível, causada por uma bactéria do tipo
espiroqueta de nome Treponema pallidum. A doença apresenta diversas fases, com sintomas
diferentes em cada uma. Na primeira, a qual ocorre cerca de dez dias após a relação sexual,
uma ferida, conhecida como cancro duro, aparece nos genitais, boca ou reto. Essa ferida
regride após seis semanas do contato, sem deixar qualquer vestígio de lesão, o que faz,
erroneamente, o paciente pensar que está curado. Evoluindo para a fase secundária, a doença
se torna de difícil diagnóstico, pois os sintomas que aparecem são comuns a uma diversidade
enorme de outras doenças, tais como febre baixa, sudorese excessiva, erupções esporádicas,
problemas nos rins, oftalmológicos e/ou cardiovasculares, sendo que a maioria regride
espontaneamente. Por isso mesmo é chamada de doença de mil - faces neste estágio.
Contaminações via transfusão sanguínea evoluem diretamente para essa fase.

Cerca de um ano após o contato surge por fim a fase terciária, com sintomas mais
característicos como a presença de gomas sifílicas, tumorações amolecidas na pele e mucosas,
progredindo por fim para sintomas neurológicos e cardiovasculares severos. Mesmo a sífilis
sendo tratada nesta fase, seqüelas irreversíveis podem aparecer. Dessa descrição notamos que
muitos dos pacientes, mesmo contaminados com sífilis, são induzidos a pensar que estão
saudáveis, o que, assim como nos outros casos de doenças mencionados anteriormente, os
torna potenciais doadores de sangue. Não obstante o tratamento da sífilis ser relativamente
simples, pela administração de antibióticos, muitas das pessoas permanecem sem tratamento
por falta de informação.

Em nosso biossensor, na detecção da sífilis, o antígeno imobilizado será o Tp0453, uma


proteína recombinante de T. Pallidum, com aproximadamente 760bp, cuja acurácia em sua
detecção aproxima-se de 100% nos pacientes com sífilis. O diagnóstico tradicional ocorre via
exame sorológico. A vantagem de se utilizar o antígeno Tp0453 em relação a outros como Tp92
(Tp0326) e Gdp (Tp0257) é sua especificidade extrema ao anticorpo criado em resposta ao
patógeno da sífilis, enquanto as outras proteínas poderiam interagir com anticorpos da doença
de Lyme ou leptospirose.

2.6 Malária

Malária, ou maleita, é um dos males mais antigos que a humanidade tem conhecimento.
Sabe-se que foi uma das causas preponderantes no declínio do império romano, pela redução
de população e força econômica. Não obstante terem-se passados 2000 anos, a malária ainda é
uma das maiores causas de morte no mundo, cerca de 3 milhões de óbitos por ano, afetando
mais de 500 milhões de pessoas nesse intervalo de tempo. Em contraponto à sífilis, os sintomas
de malária são mais característicos, tal como a febre terçã, causada pela reprodução do
plasmódio no sangue e o rompimento maciço de hemácias. Além é claro, de estarem
associados a regiões endêmicas, principalmente as tropicais, onde a temperatura média é
superior a 20ºC, o que facilita o ciclo reprodutivo de mosquitos do gênero Anopheles, que são
os vetores desse parasita.

Não obstante o número de mortes, poucas contaminações ocorrem devido à transfusão


sanguínea, justamente pelo controle existente nos exames laboratoriais. Além disso, há um
método simples e eficaz de diagnóstico da malária, a técnica da gota espessa, que permite a
visualização do parasita em microscópio óptico após coloração com Giemsa ou Azul de
metileno. Em nosso caso utilizaremos um approach diferenciado. Iremos imobilizar um
antígeno (HRP2 - histidine rich protein 2), de grande interesse para o processo, pois permanece
na corrente sanguínea mesmo após o desaparecimento da fase assexuada(reprodução em
hemácias) do Plasmodiun sp, em que o mesmo não se encontra na corrente sanguínea. Com
isso seremos capazes de detectar anticorpos presentes no sangue do doador.

2.7 HIV

Retrovírus causador da imunodeficiência humana (AIDS), infecta cerca de 32 milhões de


pessoas em todo o mundo atualmente. Sua transmissão ocorre pelo contato com o sangue de
pessoas contaminadas, em geral em relações sexuais sem a devida proteção. A primeira fase de
infecção se dá de uma forma aguda, e seus sintomas, que variam de febre e cansaço à erupções
cutâneas são comumente confundidas com uma virose comum. Essa fase se manifesta de 15 a
60 dias após o contágio, sendo que os sintomas desaparecem sozinhos após o período de
algumas semanas, sem deixar seqüelas. Isso claramente induz o paciente a pensar estar curado.
É característico desse período um surto do número de vírus na corrente sanguínea, e tal
número tende a se estabilizar com o tempo. Os sintomas da fase crônica são desenvolvidos pela
queda do número de linfócitos T no sangue, e aparecem de três a vinte anos após a
contaminação. Em geral estão associados ao aparecimento de infecções de organismos
oportunistas, que se aproveitam da fragilidade do sistema imunológico. Ou seja, por muitos
anos a doença é invisível no portador, a não ser por exame sorológico específico.

3.Biossensor

Biossensor é um dispositivo no qual o material de origem biológica, tais como enzima,


organela, tecido animal ou vegetal, microrganismo, antígeno ou anticorpo, ácidos nucleicos,
lectina, entre outros, é imobilizado junto a um transdutor adequado. De acordo com o
transdutor utilizado, o biossensor pode ser classificado como eletroquímico (potenciométrico,
amperométrico e condutimétrico), óptico (medida de luminescência, fluorescência,
elipsiometria, etc.), detector de massa (relaciona a oscilação da frequência dos cristais
piezelétricos com variação da massa). Conforme o tipo de interação que ocorre entre a
substância a ser determinada e o material biológico, o biossensor é classificado como catalítico
ou de afinidade.

A seletividade do reconhecimento do analito, pelo componente biológico ativo, aliada a


sensibilidade do transdutor, tem gerado grande número de trabalhos na área de biossensor
catalítico. Nesse caso a tecnologia imunológica, que é baseada na habilidade do anticorpo (Ac)
formar complexo com o correspondente antígeno (Ag) é essencial, pois não somente a
sensibilidade deve ser considerada, mas também a especificidade.

O imunossensor é um tipo de biossensor baseado na reação imunológica, sendo que o


antígeno ou anticorpo é imobilizado na superfície do transdutor. Assim, diversos tipos de
imunossensores podem ser construídos, de acordo com o tipo de transdutor empregado.
Como transdutor, utilizaremos um material piezelétrico. Um material piezeéltrico é um
material que, ao sofrer uma deformação mecânica, gera dipólos orientados e com isso uma
diferença de potencial. Esse potencial então altera as frequências de vibração do cristal, que é
dependente da massa do cristal. Ao tentar se igualar a frequência externa aplicada no cristal
com a nova frequência natural de vibração, detecta-se uma mudança de massa. No biossensor
proposto, essa mudança de massa significa uma ligação entre antígeno-anticorpo e,
consequentemente, a presença da doença.

O biossensor proposto é na verdade um conjunto de 7 biossensores, cada um designado


a detector uma das doenças que impossibilitam a doação de sangue. Cada um desses
biossensores então estará ligado à um circuito que aplica um campo elétrico com uma
frequência igual à frenquência natural de oscilação do cristal. A mudança nessa frequência
então indica que a massa do cristal foi alterada, o que implica na presença do anticorpo para a
doença que esse biossensor é capaz de detectar. O processo é semelhante nos 7 biossensores,
mudando apenas o antígeno imobilizado em uma monocamada auto-oraganizada, SAM (self-
assembled monoloayer).

3.1 SAMs (Self-Assembled Monolayers)

Uma SAM é uma camada organizada de moléculas anfifílicas na qual uma das
extremidades da molécula, o “head group”, tem alta afinidade por um certo substrato. A outra
extremindade da molécula, a cauda, tem um grupo funcional.
Um alcanotiol é o tipo mais comum de moléculas em SAMs. Alcanotiois são moléculas
com uma cadeia alquilica, (C-C)ⁿ, e um grupo S-H como head group. São normalmente ligados à
um metal nobre por causa da alta afinidade do enxofre com esses metais. O nosso biossensor
consiste numa camada de ouro e um alcanotiol ligado a ele, sobre um cristal de quartzo. Na
cauda do alcanotiol, o grupo funcional será específico para cada uma das doenças.

O grupo funcional ligado à cauda será sempre um antígeno, no qual o anticorpo


específico se ligará. O head group está ligado à um suporte quartzo piezelétricas sob uma
camada de ouro, na qual o enxofre se liga. Os anticorpos selecionados para estarem
imobilizados serão descritos a seguir.

3.2 Antígenos

3.2.1 HTLV-I/HTLV-II

A espécie imobilizada para a detecção de HTLV é a glicoproteína HTLV gp46, uma


glicoproteína expressa tanto pela forma I quanto pela forma II do HTLV. A vantagem de se
utilizar a gp46 é por esta ter alta especificidade aos tipos HTLV-I e HTLV-II, apesar de não se
poder discernir entre os tipos de vírus. Como a intenção do biossensor é apenas inviabilizar
possíveis doadores de sangue, o teste será eficiente, já que ser portador de qualquer um dos
dois vírus já é suficiente para impedir a doação.

O gp46 eh uma proteína de superfície do virus HTLV-I/II. Como a superfície glicoprotéica


está relacionada com as funções biológicas para a virulência do HTLV e para seu tropismo, a
neutralização dessa proteína é capaz de inutilizar o vírus. Isso faz da gp46 um ótimo radar de
anticorpos para HTLV-I/II. O mecanismo para obtenção e purificação da proteína está
estabelicida e é descrita na referência1.

3.2.2 Hepatite B

Existem vários testes usados para detectar a presença de anticorpos para hepatite B. O
anti-HBs (hepatitis surface antibody) é um bom anticorpo para ser detectado pois sua presença
indica exposição prévia ao vírus HBV, e não necessariamente requer a presença do vírus no
organismo.

Para detectar o anti-HBs no sangue, pode-se imobilizar um antígeno HbsAg (Hepatitis B


surface antigen) produzido pelo HBV. Esse antígeno é ideal para a detecção pois com ele é
possível identificar pessoas infectadas que ainda não desenvolveram os sintomas.

3.2.3 Hepatite C

Para detectar pessoas que já tiveram contato com o vírus HCV, procuraremos no sangue
por anticorpos específicos, como feito para as outras patologias até então tratadas. A espécie a
ser imobilizada, o antígeno, será o HCV-NS4 (Hepatitis C virus nonstructural antigen 4), que
pode ser encontrado no tecido do fígado.

3.2.4 HIV

A síndrome da imunodeficiência humana, AIDS, pode ser detectada em sua fase aguda e
fase assintomática pela presença do antígeno p24, uma protéina do nuclecapsídio do vírus HIV-
1. A detecção desse antígeno é possível com um pequena quantidade de sangue, e por isso é
ideal para o teste no biossensor, o qual despende de uma pequena quantidade de sangue.

3.2.5 Sífilis

Na detecção da sífilis, o antígeno imobilizado será o Tp0453, uma proteína recombinante


de T. Pallidum, com aproximadamente 760bp, com 100% de acurácia em sua detecção de
pacientes com sífilis.

A vantagem de se utilizar o antígeno Tp0453 em relação a outros como Tp92 (Tp0326) e


Gdp (Tp0257) é sua especificidade extrema anticorpo criado em resposta ao patógeno da sífilis,
enquanto as outras proteínas poderiam interagir com anticorpos da doença de Lyme ou
leptospirose.

3.2.6 Malária
Para a malária, o antígeno a ser usado será o HRP2 (histidine rich protein 2), um
antígeno de grande interesse para o processo pois permanece na corrente sanguínea mesmo
após o desaparecimento da fase assexuada do Plasmodiun sp.

3.3 Imobilização dos antígenos

O biossensor baseado em SAM é preparado da seguinte maneira: cristais de quartzo


prétratados são imersos em uma solução de MHDA em etanol para a formação da SAM. Após
retirado da solução e lavado com água, o cristal modificado com MHDA são tratados com uma
solução EDC NHS para converter o terminal carboxílico para um éster ativo de NHS. Depois de
lavado com água novamente, adiciona-se o anticorpo ligado ao antígeno, fazendo o antígeno se
ligar ao alcanotiol. Assim, garanta-se que a imobilização do antígeno não é feita na área onde o
anticorpo se liga, inativando o biossensor.

Após a ligação do antígeno, coloca-se a solução num tampão que torne uma das
espécies neutra, ou deixe as duas com a mesma carga (positiva ou negativa). Feito isso, a ligação
entre antígeno e anticorpo será desfeita, e a ligação entre o alcanotiol e o cristal, mediado pela
camada de ouro, continuará intacta, já que se trata de uma ligação covalente.
3.4 Detecção

Como já dito anteriormente, a detecção da doença será dada pela mudança da


frequência aplicada para se igualar à frequência natural de oscilação.

Devido à força aplicada ser na parte superior do cristal, o transdutor é classificado


quando ao princípio de operação como sendo de efeito transversal.

No nosso biossensor, o circuito elétrico ao detectar essa presença de anticorpo e


consequentemente da doença, envia uma mensagem para a tela do equipamento,
possibilitando o operador a identificar as doenças presentes na amostra de sangue. Vale
lembrar que, pela indiferença da característica quantitativa para a recusa da coleta de sangue
doado, nosso biossensor não afirma a quantidade de anticorpos por unidade de volume de
sangue, apenas indicando a presença ou não acima de um valor que consideramos o mínimo
para se afirmar que o doador possui a doença.

4. Limitações

Como pode-se predizer observando a técnica, a escassez de anticorpos impossibilita a


detecção da doença. Ainda que o sistema seja bastante sensível à mudança de massa, uma
pequena margem de segurança é necessária para evitar falsos positivos ou falsos negativos.

Ainda é possível que algumas doenças passem despercebidas pelos biossensores, já que
ele não é capaz de detectar todos os estágios das doenças (as que possuem mais de um
estágio). No caso do vírus HIV por exemplo, não é possível detectar no biossensor o vírus na
quando é predominante a fase da doença clinicamente aparente, pois essa etapa se caracteriza
pelo desaparecimento do anticorpo anti-P24. Porém essa fase da doença, o teste se faz
praticamente dispensável ao propósito da doação de sangue, pois o doador está plenamente
consciente da doença.

5. Considerações finais

O teste proposto serve como uma primeira avaliação de viabilidade do doador, não
tendo sido desenhado para um equipamento de diagnóstico, mesmo tendo capacidade para tal.

Pelo caráter do teste, após a doação ainda se faz necessário o teste padrão, para que os
estágios não detectados, que são minoria, sejam então eliminados do processo de doação. Isso
porque o teste tem caráter eliminatório apenas, ou seja, ele somente é capaz de eliminar
doador com as doenças previstas, mas não é capaz de afirmar que o doador potencial venha a
ser um doador efetivo.
Referências
[1] D. MOYNET 1, F. BEYLOT 1, E. EDOUARD 1, A. GEORGES 4, J.P. MOREAU 2, S. AINTE-FOIE 3,
C. HAJJAR 3, M.C. GEORGES-COURBOT 4 AND B. GUILLEMAIN 1.VARIABILITY OF HTLV-I
GLYCOPROTEIN (Gp46) FROM VIRUSES ISOLATED IN SOUTH AMERICA, ARTINIQUE,
GUADELOUPE AND AFRICA.. (hINSERM Bordeaux, 2: Institut Pasteur de GUyane, 3: H6pital
Saint-Hyacinthe Guadeloupe, 4: CIRMF Franceville Gabon).
[2]XIAO-LI SU, YANBIN LI, A self-assembled monolayer-based piezoelectric immunosensor for
rapid detection of Escherichia coli O157:H7, Biosensors and Bioelectronics, Volume 19, Issue 6,
15 January 2004, Pages 563-574, ISSN 0956-5663, DOI: 10.1016/S0956-5663(03)00254-9.
Borkowsky W. et al. Early diagnosis of human immunodeficiency virus infecúon in children
[3]Prevalência de infecção chagásica em doadores de sangue do Hemocentro Regional de
Iguatu, CE; Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical 34(2): 193-196, mar - abr,
2001.
[4] Keril Blight,* Robert Rowland,t Pauline de la M. Hall,t Richard R. Lesniewski,§ Rachel
Trowbridge, Justin T. LaBrooy,11 and Eric J. Gowanstl. Immunohistochemical Detection of the
NS4 Antigen of Hepatitis C Virus and Its Relation to Histopathology
[5]http://www.labtestsonline.org