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DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL: ABORDAGEM CONCEITUAL EM ARQUITETURA E URBANISMO Resumo Dr. Rosa Maria Locatelli Kalil 1

DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL:

ABORDAGEM CONCEITUAL EM ARQUITETURA E URBANISMO

Resumo

Dr. Rosa Maria Locatelli Kalil 1 Dr. Adriana Gelpi 2

O artigo aborda a questão do desenvolvimento sustentável do ponto de vista conceitual e sua aplicabilidade na produção da arquitetura e do urbanismo. A abordagem metodológica consistiu em revisão bibliográfica e em reflexões sobre o tema. Contribuíram para esta construção os resultados de pesquisas disponíveis dos trabalhos dos cursos de graduação e pós-graduação da Faculdade de Engenharia e Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Passo Fundo. Conclui-se que há um processo inicial de inclusão dos conceitos nos exercícios acadêmicos, porém requer extensão, aprofundamento e diversidade, tanto em sua base conceitual quanto de suas aplicações práticas.

Palavras-chave: desenvolvimento sustentável, planejamento e projeto sustentável, arquitetura e urbanismo

Abstract

The article approaches the question about the sustainable development by the conceptual point of view and its applicability in the architecture and urbanism production. The methodological approach has consisted in a bibliographical review and in reflections about the subject. The results of available researches of final graduation and post-graduation works of Faculty of Engineering and Architecture and Urbanism of the University of Passo Fundo contributed for this work elaboration. It follows that there is an initial process of concepts inclusion in the academic exercise, however it requests extension, deepening and diversity, even in its conceptual basis as its practical applications.

Keywords: sustainable development, sustainable design and planning, architecture and urbanism.

1 Arquiteta urbanista, economista, especialista em Pedagogia Social, mestre em Engenharia, doutora em Arquitetura e Urbanismo, professora e pesquisadora da UPF.

2 Arquiteta urbanista, especialista em planejamento ambiental, mestre em planejamento urbano, doutora em Arquitetura e Urbanismo, professora e pesquisadora da UPF.

1 INTRODUÇÃO O conceito de desenvolvimento sustentável passou a ser tomado como paradigma em várias

1 INTRODUÇÃO

O conceito de desenvolvimento sustentável passou a ser tomado como paradigma em várias áreas de conhecimento a partir do final do século XX. Estas áreas compreendem

o campo das ciências econômicas, das ciências ambientais, das ciências jurídicas e igualmente das áreas de arquitetura, urbanismo e planejamento urbano e regional.

Na área de arquitetura e urbanismo o conceito de desenvolvimento sustentável é tomado como premissa para a proposição e desenvolvimento de planejamento urbano e regional, projeto urbano e projeto arquitetônico, em todos os seus níveis e escalas (do território ao objeto). Contudo o resultado da aplicação dos conceitos ligados à sustentabilidade deve originar objetivos, diretrizes, estratégias e programas de necessidades ambientais que tenham como resultado a organização do espaço para as atividades humanas. Ou seja, deve passar do plano teórico e conceitual, para a aplicação prática no território, especialmente no espaço urbano.

Para o arquiteto o conceito de sustentabilidade também é complexo. Grande parte do projeto sustentável está relacionada com a poupança energética mediante o uso de técnicas como a análise do ciclo de vida, com o objetivo de manter o equilíbrio entre o capital inicial investido e o valor dos ativos fixos em longo prazo. Contudo, projetar de forma sustentável também significa criar espaços que sejam saudáveis, viáveis economicamente e sensíveis às necessidades sociais. (EDWARDS, 2004,

p.1).

De forma ampla, toma-se como base o conceito decorrente das Conferências Internacionais do Meio Ambiente, ou seja, desenvolvimento sustentável seria o que satisfaz as necessidades do presente sem comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazer suas próprias necessidades. De acordo com a Comissão Brundtland, envolve as dimensões de sustentabilidade ambiental, econômica e social. Entende que os sistemas econômicos e sociais não podem desligar-se da capacidade de carga do meio ambiente. O desejo de crescimento e bem-estar social deve equilibrar-se com a necessidade de preservar

os recursos ambientais para as gerações futuras.

A questão de investigação refere-se a como os conceitos de desenvolvimento sustentável perpassam a área de arquitetura e urbanismo e áreas afins da engenharia, especialmente no âmbito da sua formação profissional. Em vista do caráter exploratório do estudo objetiva-se estabelecer indicativos para a constituição de um aporte científico sistematizado sobre a questão do desenvolvimento sustentável, cuja relevância é incontestável, embora ainda demande referencial aprofundado.

Como metodologia houve a realização de revisão de literatura e posterior confronto com a experiência

Como metodologia houve a realização de revisão de literatura e posterior confronto com a experiência em pesquisa e ensino nos cursos da Faculdade de Engenharia e Arquitetura da Universidade de Passo Fundo, no período de 2000 a 2008.

2 PLANEJAMENTO E DESENVOLVIMENTO: BREVE REVISÃO BIBLIOGRÁFICA CONCEITUAL

Em termos de classificação na área científica brasileira, as áreas de conhecimento em arquitetura e urbanismo e em planejamento urbano e regional embora sejam distintas, possuem a formação profissional incluída no curso de graduação em Arquitetura e Urbanismo. Estão incluídas na grande área de ciências sociais aplicadas, portanto, igualmente se aproximam das áreas de economia, serviço social, ciências jurídicas e sociais.

No caso da arquitetura e do urbanismo, o conceito de desenvolvimento necessariamente incorpora-se ao processo de planejamento, que terá como resultado a elaboração e execução de projetos de organização dos espaços, ou seja, agirão diretamente no meio físico-territorial, com utilização dos recursos naturais para sua constituição. Boutinet refere-se ao projeto de desenvolvimento como sendo

“uma realização cooperativa que reúne diferentes categorias de atores, sendo que todos estarão envolvidos em uma perspectiva de pesquisa-ação na qual os idealizadores do projeto e os atores sociais destinatários, até mesmo usuários, encontram-se reciprocamente implicados. Assim o projeto de desenvolvimento pode ter pontos em comum com o projeto de ordenamento, embora este último é de inspiração tecnocrática, valorizando a racionalização técnica. O projeto de

e reveste uma

desenvolvimento, ao contrário, insiste nos aspectos sociais ( finalidade econômica. (BOUTINET, 2004, p. 100-101)”.

)

2.1 Desenvolvimento e planejamento: uma abordagem sobre o tema

Desde a década de 1960, a questão do desenvolvimento tem sido exaustivamente abordada como alvo dos planos e projetos de urbanismo, tanto no âmbito do local quanto regional. O urbanista Célson Ferrari (1979) editou a obra que serviu como base para toda uma geração de profissionais desenvolverem ações de planejamento nos órgãos governamentais. Defende conceitos de planejamento e de desenvolvimento integrado, envolvendo aspectos físico-territoriais, econômicos e sociais, dado serem entrelaçados,

interdependentes e interligados. Conclui que “o planejamento deve ser integrante, abrangente, envolver os aspectos econômicos, sociais e físico-territoriais da realidade a ser

ou seja, aspectos diferentes de um só e mesmo sistema.” Adota ainda, o

planejada (

),

conceito de desenvolvimento da ONU, no qual as modificações qualitativas é que melhor definem o

conceito de desenvolvimento da ONU, no qual as modificações qualitativas é que melhor definem o desenvolvimento”.

A ONU, em 1954, estabeleceu doze critérios para conceituar o nível de vida de um povo e, de conseqüência, seu grau de desenvolvimento. Esses critérios são, preponderantemente, sociais: saúde, alimentação e nutrição, educação, condições

de trabalho, emprego e desemprego, poupança popular, transportes, moradia,

vestimenta, recreação, segurança social e liberdades humanas. (FERRARI, 1970, P.

12-17)

Mas, as três décadas finais do século XX, demonstraram um desenvolvimento

insustentável do ponto de vista urbano, ambiental e econômico para a maioria dos países e das cidades. Nesse período estabeleceu-se grande debate em nível global, difundido através de Conferências do Meio Ambiente, como a do Brasil, Rio-92, da África do Sul, Rio+10, e

e outras.

Como resultado desses debates foi elaborada a AGENDA 21: Cidades Sustentáveis,

a qual aborda princípios e diretrizes para o planejamento urbano com vistas a atender o

objetivo da sustentabilidade urbana, e por conseqüência do ambiente construído e natural.

É ressaltada a necessidade de um planejamento ambiental, vinculando a redução da pobreza

urbana a um planejamento e uma administração sustentável do solo, além da importância da identificação das áreas frágeis ou sujeitas a catástrofes para medidas especiais de proteção. Indica que os países devem desenvolver uma ‘cultura de segurança’ através da educação pública, de forma que o planejamento ambiental antecipe a ocorrência de desastres e degradação sem qualquer tipo de controle, incluindo para tanto novos estudos e pesquisas sobre os riscos de determinados tipos de atividades e os reflexos econômicos por ela ocasionados. Ou seja, cria um forte vínculo entre as atividades econômicas, as questões ambientais e o desenvolvimento (BARBISAN, 2006, p. 31).

Franco (2001) reforça essas questões ao afirmar que

o planejamento ambiental deve fornecer sistemas de infra-estrutura,

ambientalmente saudáveis, que possam ser traduzidos pela sustentabilidade do desenvolvimento urbano, o qual está atrelado à disponibilidade dos suprimentos de água, qualidade do ar, drenagem, serviços sanitários e rejeito de lixo sólido e perigoso. Portanto, o planejamento ambiental deverá promover tecnologias de obtenção de energia mais eficientes, assim como fontes alternativas e renováveis de energia e sistemas sustentáveis de transporte (FRANCO, 2001, p. 22).

Na esteira dos conceitos mais abrangentes de desenvolvimento, que extrapolam os aspectos econômicos convencionais, a questão do planejamento também sofre revisão, incorporando o entendimento da imensa responsabilidade da gestão na consecução dos objetivos de sustentabilidade. Torna-se, pois, impossível desvincular planejamento de desenvolvimento sustentável, seja no âmbito do local, urbano, regional ou em escalas mais

amplas. Não esquecendo que o “desenvolvimento sustentável apresenta além da questão ambiental, tecnologia e

amplas. Não esquecendo que o “desenvolvimento sustentável apresenta além da questão ambiental, tecnologia e econômica, uma dimensão cultural e política, exigindo a participação democrática de todos na tomada de decisão para as mudanças que serão necessárias para a implementação do mesmo“ (FRANCO, 2001, p. 27).

Souza aborda o planejamento de forma bastante abrangente afirmando que a reflexão teórica sobre o desenvolvimento está vinculada, acima de tudo, a escalas supralocais (internacional, nacional e regional), com extensas conceituações e abordagens em termos da economia, geografia e do urbanismo. Isso origina uma riqueza de conceituações concorrentes tais com desenvolvimento econômico, ecodesenvolvimento e desenvolvimento humano. Ao passo que a expressão desenvolvimento urbano, permanece na condição de uma noção pré-teórica.

Uma das tarefas, por conseguinte, ao se lidar com o planejamento e a gestão urbanos como pesquisa social aplicada, é integrar a reflexão sobre aquilo que, sinteticamente, deve ser a finalidade do planejamento e da gestão urbanos como pesquisa social aplicada, é integrar a reflexão sobre aquilo que, sinteticamente, deve ser a finalidade do planejamento e da gestão – o desenvolvimento urbano, ou a mudança social positiva da e na cidade. (SOUZA, 2000, p. 40)

Souza e Rodrigues (2004, p. 16/17) entendem que o planejamento urbano é uma

atividade que remete sempre para o futuro (

que remete ao presente, ao aqui e agora. Ou seja, são de fato duas atividades diferentes quanto ao horizonte temporal de cada uma. Planejamento trabalha com o médio e longo prazo (poucos ou muitos anos) e a gestão refere-se ao curtíssimo prazo (dias ou semanas) e ao curto prazo (meses ou até um ano). Contudo, gestão e planejamento, longe de serem rivais, são interdependentes.

e, diferentemente, a gestão é uma atividade

)

2.2 Desenvolvimento sustentável

O conceito de desenvolvimento sustentável é, pois, tomado como referência para o planejamento urbano, regional e arquitetônico, desde os diagnósticos regionais até o desenho urbano e das edificações.

Para Franco (2001) o desenvolvimento sustentável tem como finalidade a integração de preocupações ambientais ao bojo das políticas socioeconômicas, fazendo estas políticas responsáveis por seus impactos ambientais. Caracteriza-se não como um estado fixo de harmonia, mas sim como um processo de mudanças, no qual a exploração de recursos, o gerenciamento de investimentos, a orientação do desenvolvimento tecnológico e as mudanças institucionais são compatíveis com o futuro, bem como com as necessidades do

presente. (Comissão Mundial sobre Meio Ambiente de Desenvolvimento apud Franco, 2001) Segundo Borges (2005, p.

presente. (Comissão Mundial sobre Meio Ambiente de Desenvolvimento apud Franco,

2001)

Segundo Borges (2005, p. 357) o termo desenvolvimento sustentável é “fruto do anseio crescente de parte da sociedade por formas alternativas para o desenvolvimento humano, que contemplem critérios para o uso racional do patrimônio natural e não gerem desigualdades sociais. “

Ao abordar desenvolvimento sustentável, Ferrari entende-o como “desenvolvimento econômico com um planejamento integrado que emprega tecnologia ecológica, capaz de manter continuamente a produção dos recursos naturais renováveis (2004, p. 1114)”. Outro termo utilizado pelo autor é ecodesenvolvimento, considerado com “uma forma de desenvolvimento planejado, que, levando em conta a necessidade de manter íntegro o

equilíbrio ecológico da área de estudo e as restrições que impõe seu meio ambiente, permite

a utilização ótima dos recursos disponíveis, ou seja, desenvolvimento sustentável (2004,

p.130)”.

Quanto ao desenvolvimento regional, Ferrari considera-o como sendo o “crescimento econômico de uma região, caracterizado pelo aumento dos indicadores macroeconômicos, com visível melhoria do padrão de vida da população e de sua participação ativa no processo decisório da região e do país. “ (2004, p. 114). Dallabrida (2000) amplia a questão regional, ao afirmar que a sustentabilidade prevê

a manutenção do estoque de recursos naturais e da qualidade ambiental para a satisfação

das necessidades básicas das gerações atuais e futuras, o que requer um mercado regulado e um horizonte de longo prazo para as decisões públicas. Requer, assim, o enfoque de cinco dimensões: físico-natural, social, cultural, científico-tecnológica e econômica.

3 SUSTENTABILIDADE,

PROSPECTANDO RESULTADOS

PLANEJAMENTO

URBANO

E

ARQUITETURA:

3.1 Planejamento e projeto urbano sustentáveis

Ao propor ou executar intervenções de planejamento e projeto urbano, o objetivo geral das propostas fundamenta-se no desenvolvimento urbano, sem descuidar das intervenções regionais. Para tanto, as diretrizes e estratégias são elaboradas visando à “elevação do padrão de vida da população urbana, em geral traduzida em mudanças sócio-

culturais favoráveis à sua maioria e a cada urbanita, em particular, sendo objetivo básico do planejamento urbano integrado (Ferrari, 2004).” Assim, o resultado último do planejamento

e do projeto urbano não é a mera configuração do espaço, mas que o espaço qualificado

contribua para padrão de vida mais digno e elevado para cada um de seus moradores

contribua para padrão de vida mais digno e elevado para cada um de seus moradores ou usuários, respeitando os recursos ambientais.

3.2 Desenvolvimento urbano sustentável

Diversos questionamentos são postos por Souza (2003), quanto ao desenvolvimento sustentável:

Modernização com sustentabilidade ecológica das cidades?

Crescimento econômico como imperativo estratégico para o desafio da pobreza, fator de degradação ambiental em escala global.

Desenvolvimento sustentável: conceito empobrecido do ecodesenvolvimento?

Na legislação brasileira relativa ao planejamento urbano os conceitos de

sustentabilidade foram determinantes para a elaboração do chamado Estatuto da Cidade e suas regulamentações posteriores. A Constituição Federal de 1988 estabelecia o objetivo

da política de desenvolvimento urbano “ordenar o pleno desenvolvimento das funções da

cidade e garantir o bem-estar dos seus habitantes”. Embora tenha levado décadas de discussão envolvendo a questão urbana, a implementação do Estatuto da Cidade está sendo pressionada e coordenada pelo Ministério das Cidades, criado em 2002. Pela obrigatoriedade de muitos municípios brasileiros elaborarem os planos diretores de desenvolvimento municipal, o debate tem sido feito em várias localidades, com significativa participação comunitária. Isto obrigou tanto técnicos, como políticos e administrativos públicos e privados a se aprofundarem em terminologias, conceitos, limites e possibilidades de obter uma urbanização sustentável. Os resultados das propostas estarão disponíveis a partir de outubro de 2006, e nortearão, espera-se, o desenvolvimento urbano brasileiro no século XXI.

A arquiteta urbanista Maricato (2001), bem ilustra a importância dessa questão ao

afirmar que “o espaço urbano não é apenas um mero cenário para as relações sociais, mas

Quando se pretende

desmontar o simulacro para colocar em seu lugar o real, os urbanistas deveriam reivindicar

uma instância ativa para a dominação econômica ou ideológica. (

)

o desenvolvimento de indicadores sociais e urbanísticos que pudessem constituir

parâmetros/antídotos contra a construção ficcional que perpetua a desigualdade

(MARICATO, 2001, p. 166-167).“

3.3 Projeto de arquitetura sustentável

Pelo fato da generalização da vida urbana ter produzido um distanciamento da natureza, perdeu-se o contato com os ciclos estacionais, com o esforço necessário para obter alimento ou calor e adquiriu-se o interesse pela cultura, esportes e meios

de comunicação. A arquitetura também se desprendeu de seus antigos vínculos com os materiais locais,

de comunicação. A arquitetura também se desprendeu de seus antigos vínculos com os materiais locais, as tradições vernáculas, sua unidade como entorno. As cidades e os edifícios estão cada vez mais desvinculados da paisagem em todos os aspectos exceto o visual (EDWARDS, 2004, p. 53).

Essa constatação foi acompanhada de inúmeros estudos visando desenvolver e aplicar tecnologias de construção e manutenção de edificações urbanas que pudesse reduzir os impactos ambientais na utilização dos recursos naturais e na preservação ambiental e energética. Para manter a qualidade de vida podem-se aplicar os quatro erres em relação aos materiais e energias utilizados na construção e uso de edificações: reduzir, reutilizar, reciclar e reabilitar. A busca do ambiente saudável significa optar pelo confortável, livre de contaminação, estimulante e sensível às necessidades humanas de uma forma articulada.

Em relação às edificações, que formam o ambiente construído predominante nas cidades, surge o conceito de arquitetura sustentável. Essa lógica abarca o estudo das possibilidades de “criação de edifícios que sejam eficientes quanto ao consumo de energia, saudáveis, cômodos, flexíveis no uso e projetados para ter uma longa vida útil”, conforme recomenda o arquiteto Norman Foster. Essa síntese é adotada igualmente pela BSRIA (Associação para a Informação e Investigação sobre as Instalações dos Edifícios), ou seja, “criação e gestão de edifícios saudáveis baseados em princípios ecológicos e no uso eficiente dos recursos (EDWARDS, 2004, p. 7).“

Como as edificações e a infra-estrutura são os elementos estruturadores da cidade, a arquitetura sustentável depende da própria tecnologia e sua relação com ambiente. O novo enforque da arquitetura está assentado no manejo da ecologia como um sistema, na ampliação do âmbito do sustentável mais além da mera economia energética, a interação entre os seres humanos, o espaço e a tecnologia como marco de um modelo sustentável. (EDWARDS, 2004, p. 89)

Para tal, no estudo de viabilidade das edificações passa a ser considerada a avaliação da sustentabilidade em arquitetura, em indicadores de energia, materiais, recursos do local, recursos de água, acessibilidade e saúde. Edwards (2004, p. 91-94), considera que um projeto sustentável deveria seguir, ao máximo, regras para otimizar e flexibilizar a nova geração de edifícios, tais como:

Evitar a exclusividade funcional.

Maximizar o acesso da luz e da ventilação natural.

Advogar a simplicidade funcional do projeto.

Perseguir a máxima durabilidade.

Maximizar o acesso à energia renovável.

Prever a possibilidade de substituir partes.

Mas não só novas edificações, mas também as cidades existentes requerem a sua adaptação a

Mas não só novas edificações, mas também as cidades existentes requerem a sua adaptação a parâmetros de maior sustentabilidade, ou seja, transformar-se em cidades sustentáveis. Isto implica mais que arquitetura sustentável e urbanização sustentável. Requer o repensar das densidades, ocupações, tipologias, reabilitações, mobilidade urbana e formas de abastecimento. Sem deixar de considerar os espaços para habitação, trabalho, lazer e educação, e suas relações com o meio ambiente e a ecologia.

A cidade sustentável se distingue pela forma em que o clima e o projeto energético modelos estes componentes da fábrica urbana. Consiste em resgatar as cidades da decadência mediante a criação de um urbanismo atrativo, seguro e inovador sem desdenhar os ingredientes tradicionais das cidades. Isso só se pode conseguir se considerarmos os edifícios existentes como recursos valiosos. A chave de um futuro mais sustentável se encontra em transplantar novos sistemas de baixo consumo energético às estruturas existentes. Nossos edifícios dispõem de inumeráveis paredes, janelas e coberturas. É necessário modificá-los utilizando a

tecnologia verde. Transferir as novas tecnologias ecológicas de nossos escritórios, escolas e casas aos edifícios ineficientes que herdamos do passado: isto é a reabilitação ecológica. Se não prestarmos atenção à eficiência, particularmente a

nunca se

energética, do parque imobiliário existente, o novo urbanismo ( traduzirá em um renascimento urbano. (EDWARDS, 2004, p. 119)

)

Os currículos dos cursos da área de arquitetura, urbanismo e planejamento urbano apenas ensaiam a abordagem do desenvolvimento sustentável. Na Universidade de Passo Fundo, no período de 2000 a 2008, observa-se a inclusão dos conteúdos nas disciplinas de graduação das áreas de Projeto Urbano, Projeto Arquitetônico, Conforto Ambiental, Paisagismo e Planejamento Urbano e Regional. Igualmente nas disciplinas de pós- graduação lato e stricto sensu, Território e Infra-estrutura, Ambiência Urbana, Gestão Urbana, Sustentabilidade e Meio Ambiente. Como resultado houve desenvolvimento de dissertações e trabalhos de conclusão de curso abordando a questão, geralmente do ponto de vista teórico-prático, com pesquisas de campo e trabalhos investigativos sobre situações problema da cidade e região (UNIVERSIDADE DE PASSO FUNDO, 2008).

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Neste contexto, apesar de desenvolvimento sustentável ser um conceito bastante amplo, ele sempre deverá ser entendido como um denominador comum de equilíbrio entre o crescimento econômico, populacional e do espaço construído e a preservação dos recursos ambientais, com especial atenção para as gerações futuras. O planejamento urbano, responsável pela organização territorial em todas as escalas, tem como premissa e responsabilidade, inserir em sua metodologia de trabalho a questão da sustentabilidade e promover a expansão da ocupação do espaço dentro dos

parâmetros da preservação do ambiente natural, minorando e monitorando positivamente, os inerentes impactos da ação

parâmetros da preservação do ambiente natural, minorando e monitorando positivamente, os inerentes impactos da ação humana sobre o ambiente. Os fundamentos do conceito de desenvolvimento urbano sustentável, presentes no planejamento urbano brasileiro, estão na reafirmação do direito á cidade, da sua essencial função social e do direito à propriedade e ao convívio urbano. Busca favorecer a inclusão territorial do conjunto da população urbana, bem como apresentar estratégias de regularização urbanística, ambiental e jurídica da ocupação do solo urbano. As instituições de ensino, atendendo e prospectando as tendências da comunidade científica e local necessitam capacitar-se para enfrentar os desafios do aprofundamento teórico, metodológico e pedagógico e inclusão do desenvolvimento sustentável como alvo das ações educativas e das práticas profissionais de seus egressos.

REFERÊNCIAS

BARBISAN, Ailson Oldair. Aplicação da técnica da valoração econômica de ações de requalificação do meio ambiente em área degradada. Dissertação (mestrado) – Universidade de Passo Fundo, Faculdade de Engenharia e Arquitetura, 2005.

BORGES, Clóvis. Desenvolvimento sustentável. In: INSTITUTO SOCIOAMBIENTAL. Almanaque Brasil Socioambiental. São Paulo: ISA, 2004, p. 357.

BRASIL. Lei nº 10.257 de 2001. Estatuto da cidade. Porto Alegre: Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia do Rio Grande do Sul, 2003.

DALLABRIDA, Valdir Roque. O desenvolvimento regional: a necessidade de novos paradigmas. Santa Cruz do Sul: Edunisc: Unijuí, 2000.

EDWARDS, Brian. Guía básica de la sostenibilidade. Barcelona: Gustavo Gili, 2004.

FERRARI, Célson. Dicionário de urbanismo. São Paulo: Disal, 2004.

Curso de planejamento municipal integrado. 2. ed. São Paulo: Pioneira, 1979.

FRANCO, Maria de Assunção Ribeiro. Planejamento ambiental para a cidade sustentável. São Paulo: Annablume: Fapesp, 2001.

MARICATO, Ermínia. Brasil, cidades: alternativas para a crise urbana. Petrópolis: Vozes,

2001.

ORGANIZAÇÃO PARA AS NAÇÕES UNIDAS. Documentos sobre desenvolvimento.

SOUZA, Marcelo Lopes de. Mudar a cidade: uma introdução crítica ao planejamento e à gestão urbanos. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003.

Planejamento urbano e ativismos sociais. São

; RODRIGUES, Glauco Bruce. Paulo: Unesp, 2004.

UNIVERSIDADE DE PASSO FUNDO. Faculdade de Engenharia e Arquitetura. Projetos pedagógicos de cursos de graduação

UNIVERSIDADE DE PASSO FUNDO. Faculdade de Engenharia e Arquitetura. Projetos pedagógicos de cursos de graduação e pós-graduação. Passo Fundo, 2008.