Você está na página 1de 4

AGÜENTA, CORAÇÃO!

Novembro/2005

BEM-ESTAR

As emoções, todos nós sabemos, provocam um verdadeiro


sobe-e-desce nos batimentos cardíacos. Agora pesquisadores
da Universidade de Brasília monitoram o coração e revelam o
que há por trás do baticum¿- o que nos ajudará também a
entender aqueles problemas físicos que nascem na alma

Por Priscila Boccia,

Há seis anos um check-up flagrou uma disfunção na tireóide da


psicóloga brasiliense Lívia Borges, de 39 anos. “Comecei a fazer
controle a cada 45 dias e a repor hormônios tireoidianos”, recorda-
se. Intrigada, queria saber se havia questões emocionais por trás da
doença. O exame de holter revelou algo surpreendente: ao entrar
na cozinha, o coração de Lívia se acelerou. “Relacionei cozinha
com comida. Percebi que precisava corrigir alguns aspectos da
minha nutrição, não só no plano alimentar. A comida envolve uma
relação de afetividade com as pessoas — preparar, oferecer e
partilhar. Fui em busca do equilíbrio entre dar e receber.” Depois de
oito meses de terapia, a disfunção sumiu. “Parei de tomar hormônio.
Há dois anos minha tireóide funciona bem.”

"Meu coração, não sei por quê, bate feliz quando te vê." O verso da
canção Carinhoso, de Pixinguinha, entrega aquilo que todos nós
sentimos quando a emoção vem forte: o coração dispara de paixão,
de medo, de alegria, de ansiedade... Reflete nossos sentimentos e
há muito já se sabe nossa saúde também. Nada menos do que 154
doenças podem ter origem psicossomática palavra que vem dos
vocábulos gregos psycho (alma) e somato (corpo) e significa algo
que passa da alma para o corpo. E são justamente esses pacientes
o foco da investigação do Laboratório Integrado do Instituto de
Ciências Biológicas da UnB. "Se a pessoa tem sintomas, mas não
há uma causa orgânica, investigamos as razões emocionais que
podem estar por trás", afirma o psicanalista psicossomatista Roque
Magno, pesquisador da UnB e presidente da regional Brasília da
Associação Brasileira de Medicina Psicossomática.
A pesquisa começa com um exame de holter. Durante 24 horas o
paciente fica com um aparelho acoplado ao peito para registrar os
batimentos cardíacos. Paralelamente, faz um diário da sua rotina
um relatório completo de atividades e, claro, de suas emoções a
cada momento. Nada pode escapar, nem mesmo o mais leve
aborrecimento. Por exemplo: "Cheguei ao trabalho e logo bateu um
desânimo; às 13h23 estava no trânsito e, ao parar no semáforo,
desconfiei dos passageiros do carro ao lado; por volta das 6 da
tarde, busquei minha filha na escola e me senti alegre ao vê-la".

Os especialistas, então, cruzam os dados do eletrocardiograma


com o diário. "Desse jeito, identificamos as situações em que os
batimentos ficam desregulados", explica Vanner Boere, doutor em
Neurociências e Comportamento e membro da equipe da UnB. Daí
o paciente é convidado a relembrar detalhadamente, com a ajuda
do diário, todos os seus pensamentos e suas reações naquele
exato instante de descompasso. Quase nunca se termina com uma
associação simplista levando a conclusões do tipo "se eu entrei em
pânico e o meu coração disparou, deve ser o medo que está me
deixando doente". É preciso aprofundar a análise. "Muitas emoções
surgem sem motivo aparente, pois têm uma causa inconsciente",
diz Roque Magno.

É impossível reprimir totalmente as emoções fortes. Só que viver à


beira de um ataque de nervos ou sentir o tempo todo um ciúme
corrosivo pode provocar doenças. O corpo humano está
programado para reagir a ameaças desde sempre. Nossos
antepassados mais remotos, aliás, viviam na selva em estado de
alerta, prontos para lutar ou fugir de animais e inimigos.

"Hoje nossa vida não é selvagem, mas enfrenta desafios


psicológicos que disparam esse mesmo mecanismo", diz Vanner
Boere. O medo, por exemplo, gera uma descarga hormonal de
cortisol e adrenalina capaz de acelerar o funcionamento do coração
e dos pulmões, além de aumentar a pressão arterial. "Uma pessoa
ansiosa ou estressada libera muito cortisol, o que deprime o
sistema imune e abre a porta para infecções e câncer", completa o
neurocientista Renato Sabbatini, professor de Ciências Médicas da
Universidade Estadual de Campinas, no interior de São Paulo.

A pesquisa com o holter dá subsídios para o paciente desarmar o


mecanismo emoção-doença. "Com a ajuda do analista, ele trabalha
os problemas atuais e os traumas inconscientes", conta Roque
Magno. Por conta própria, é possível até criar canais de escape
para controlar as emoções. E aí cada um encontra uma saída
praticar esportes, sair mais com os amigos e cultivar um hobby são
boas estratégias.

MEDO
Sabe aquela expressão "borrou-se de tanto medo"? Diante de uma
ameaça, o corpo libera cortisol e adrenalina para estimular uma
reação. Passado o susto, vem a acetilcolina, cujo papel é relaxar.
Daí os esfíncteres se afrouxam — e as fezes podem escapar
mesmo. Alguém que vive às voltas com essa emoção pode ter
sérios problemas intestinais

VERGONHA
A reação física está na cara: as bochechas coram. Essa emoção faz
o sistema nervoso parassimpático liberar acetilcolina, um hormônio
com função de relaxamento. Se isso acontece sempre, a pessoa
pode viver em estado permanente de fadiga. Em homens, costuma
provocar falhas na ereção

RAIVA
Esse sentimento também ativa o sistema nervoso parassimpático,
que jogará acetilcolina na circulação para trazer de volta a calma.
Quem vive raivoso pode vir a sofrer de prisão de ventre e asma,
para citar apenas dois problemas relacionados a um sentimento
exacerbado

RAIVA
Esse sentimento também ativa o sistema nervoso parassimpático,
que jogará acetilcolina na circulação para trazer de volta a calma.
Quem vive raivoso pode vir a sofrer de prisão de ventre e asma,
para citar apenas dois problemas relacionados a um sentimento
exacerbado

FUGA DE SITUAÇÕES DIFÍCEIS


Se você não consegue encarar seus problemas, o sistema nervoso
simpático fica ativado o tempo todo. O resultado é a descarga de
doses excessivas de cortisol e adrenalina, hormônios que podem
causar hipertensão, enxaqueca e hipertireoidismo

Fonte:
Revista Saúde! É Vital