A Leitura da Cidade

Bem, há alguns dias foi-me solicitada uma leitura silenciosa dos acontecimentos que me
cercam. Sendo assim, abri os olhos em busca de algo que sempre esteve diante de mim,
do meu cotidiano, mas sobre o qual nunca havia refletido.
É difícil pensar nas pessoas em condições de miséria. Estamos sempre correndo. Não
enxergamos mais a dor e as necessidades do próximo. Não nos deixamos mais ser
tocados pela fragilidade alheia. Estamos anestesiados pela ferocidade do tempo, dos
afazeres que não podemos deixar para amanhã.
Era nessa condição que eu me encontrava até olhar e perceber de forma reflexiva o
flagelo humano e a invisibilidade que ele provoca na sociedade.
Assim os dias se passavam até que, em uma manhã de sol, a caminho da universidade e
na indisponibilidade do carro, peguei um ônibus.
O transporte público é um laboratório de sociologia, contemplação, reflexão e beleza.
Ou pelo menos deveria ser. Comecei a observar o entra e sai das pessoas. Os estudantes
adolescentes e suas descompromissadas risadas. O turista pedindo informação sobre o
centro histórico. A mulher com uma criança pequena carregando uma sacola na
tentativa de ajudar a mãe, que levava um bebê nos braços e outro na barriga. Os idosos
que entravam pela porta da frente.
O vendedor de canetas, que arrecadava dinheiro para uma instituição que cuida da
recuperação de drogados, desceu no mesmo ponto em que entrou o baleiro. Nenhuma
venda feita, desceu logo depois.
O trajeto era longo, de Itapoan até Ondina. “Te amei, te mostrei que o meu amor foi o
mais profundo” cantava Pablo no celular de algum passageiro.


Pela janela, olhava os carros que passavam, os prédios e as pessoas. Do outro lado, o
imenso mar azul exibia a sua beleza. Pensei como seria bom dar um mergulho.
Chegamos ao bairro da Pituba. O motorista parou em mais um ponto. Muitas pessoas
descendo, outras tantas subindo, fez com que o ônibus permanecesse ali um pouco mais.
E então, após procurar por diferentes situações urbanas que me chamassem à atenção,
percebi justamente uma senhora idosa. Devia ter em torno de setenta anos. Estava
sentada no passeio do ponto de ônibus, encostada ao muro com as pernas estiradas, de
modo que as pessoas pulavam por cima delas, sem se darem conta de que ali se
encontrava um ser humano carregado de experiências. Talvez com muitos amores
vividos, ou muitas decepções, não sei. Talvez, em algum momento de sua vida, tivesse
experimentado a felicidade, tido um lar, uma família, quem sabe? Eram muitas as
indagações. O que teria acometido a esta pobre senhora? O que a levou àquela
condição? Lembrei-me das imagens fotográficas de Sebastião Salgado, tão objetivas e
que nos conduzem a um mundo subjetivo entre aquilo que vemos e o que sentimos.
Naquele instante, eu me via diante do invisível e, dentro de mim, um turbilhão de
sentimentos me despertava do estado de letargia em que me encontrara até então.
Aquela mulher não existia. As pessoas passavam ao seu lado, mas não a enxergavam.
Um homem jogou-lhe uma moeda. Um gesto mecânico. Nem mesmo um sorriso.
Certamente, estava mais preocupado em exibir a sua caridade do que exercitar uma
generosidade real.
O semáforo fechado fez com que o tempo parasse. Pela janela do ônibus, eu via a
imagem congelada, como uma foto em preto e branco. Sem cores. Sem alegria.
Observei o seu rosto marcado pelo tempo e pela dureza da vida. Os carapinhos brancos
escapulindo por baixo do velho lenço. A pele escurecida pelo sol. Eram traços fortes,
mas bonitos. Sem dúvida, era uma bela mulher. Maltratada, mas ainda assim era bela.
Perdida em meus pensamentos, notei que ela, como se tivesse percebido minhas
indagações ao seu respeito, dirigiu-me o seu olhar. Olhos vazios. Nenhuma alegria,
tampouco qualquer tristeza. Nenhum vestígio de esperança. Apenas se expunha a mim.
Assim como todos os seus tesouros se resumiam aos andrajos que portava, toda a sua
vida estava contida em seus olhos.


Tentei decifrá-los. Era a sua alma que se colocava desnuda para mim. Por um fragmento
de segundo senti-me intimidada. Mas logo em seguida, provocada pela curiosidade,
mergulhei naquele olhar.
E foram tantas histórias, tantas vidas reveladas, que já não cabiam à velha senhora. Ali
estavam todos os conflitos humanos. Ali estavam todos os homens e mulheres. Ali
estava eu.
De repente, pipocavam flashes de uma história que era minha. A retrospectiva da minha
vida se apresentava como em uma tela de LED. Quanto nós tínhamos em comum!
Algumas alegrias, algumas dificuldades ao longo da caminhada, mas consegui dar
largos passos e alcançar coisas que nunca poderia imaginar que ocorreriam em minha
vida.
Casei, descasei. Estudei até o segundo ano do ensino médio, parei. Voltei a estudar,
consegui concluir. Morei no Rio de Janeiro por sete anos. Casei novamente, descasei.
Viajei para a Suíça, conheci a França - que, aliás, é mágica com sua riqueza artística e
cultural. Voltei de lá e casei mais uma vez. Tive uma filha linda. Logo após, passei no
vestibular e cá estou eu, aos 34 anos, aprendendo com os erros. Às vezes os repetindo,
pois acredito que posso melhorar o que não deu certo. Às vezes deixando para trás, por
desacreditar na redenção.
A velha senhora exposta a mim viveu as minhas emoções, amou os meus homens,
sorriu as minhas alegrias e chorou as minhas lágrimas. A velha senhora gargalhou
insana sob as tempestades. Dançou e sofreu com as dores do mundo, tal e qual a Geni
apedrejada.
No entanto, ela continuava ali. Quieta. Percebi um leve sorriso em seus lábios. Acenei-
lhe com a cabeça. Ela sabia que eu estava presente nela, tanto quanto ela em mim. Ela
sempre o soube. Apenas eu o descobrira agora.
Doeu-me ver que na atual fase de sua vida, naquela em que tudo deveria estar
estabilizado, a construção de um lar, uma boa cama para deitar; um bom prato de
comida quente para se alimentar, ela não tinha nada. Estava solitária. Abandonada.
Nenhum gesto de carinho fraterno. Ia se deixando levar pelo tempo, excluída pela


assistência social, esquecida pelo descaso das pessoas e humilhada pela caridade de
fachada. Permanecia invisível.
O semáforo abriu e o ônibus começou a se movimentar. O passageiro ao meu lado falou
alguma coisa acerca do calor que fazia.
“Lê lêlê lêlê lêlê Ousadia para vencer. Lê lêlê lêlê lêlê Alegria para viver”, era a música
que se ouvia agora.
Mais vinte minutos e eu chegava ao meu destino. O ônibus seguiria transportando vidas.
A desesperança daquele olhar ficou registrada como uma tatuagem no meu coração.
Desde então, me pego sorrindo às pessoas, quando as encontro. Pequenas solicitudes,
pequenas gentilezas adquirem uma amplitude que, por vezes, não temos consciência. O
simples gesto de cumprimentar o gari o tira da condição de invisibilidade.
Por outro lado, sinto-me mais forte e corajosa para alcançar os meus objetivos, terminar
o meu curso, me desenvolver profissionalmente e lutar por melhores condições de modo
a ter um suporte na velhice. Pois, por mais que achemos que possamos dar conta de
tudo sempre, na velhice as coisas são mais complicadas e nem sempre acharemos quem
nos ajude no momento que mais precisarmos.
Enxergar ao outro e enxergar a si mesmo. Enxergar-se no outro. Perceber a presença do
outro em si. Enxergar o invisível. Sem dúvida, um ótimo exercício a ser feito.

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