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Que Literatura no novo milénio....

Luísa Lopes

A Literatura foi, ao longo dos séculos, o espelho do homem e de toda a sua


vida em sociedade, sendo pois impossível isolar a Literatura de todo o seu
contexto e de todos os poderes de que sempre dependeu. É também impossível
separar a Literatura da própria história da Humanidade.

Assim a Literatura Medieval reflecte a simplicidade de um povo e uma forma


agradável de vida, que vai desde as saudades do amigo à representação de
tarefas domésticas, mas é uma literatura dominada pela Nobreza sendo mesmo
o Rei D. Dinis um dos mais profícuos poetas de então. Os próprios cronistas
dependiam desse poder nobre. A nível da prosa temos toda uma sucessão de
príncipes prosadores e um imenso domínio da Igreja na transmissão de saberes
pois as obras divulgadas tinham acima de tudo um carácter religioso e não o
sendo, eram obras reproduzidas por copistas - monges que trabalhavam
arduamente na reprodução dos saberes.

No Renascimento, e apesar de haver uma maior divulgação de obras literárias


devido ao aparecimento da Imprensa, a Literatura continua a estar dependente
de um poder político, muitas vezes censório, mas que graças ao
antropocentrismo reinante, deixou chegar até nós as obras de Gil Vicente e
Camões. A crítica social exercida pelos escritores foi vista como acção
pedagógica e posta ao serviço do bem público devido ao “engenho e arte” dos
grandes escritores.

O século XVII produziu grandes oradores e retóricos, entre os quais


destacamos o brilhante e virtuoso Padre António Vieira (*) e só a partir dos
séculos XVIII e XIX há uma profunda alteração na Literatura a nível nacional
e mundial. É o verdadeiro momento em que a Literatura adquire
marcadamente as duas funções ainda hoje existentes: a função lúdica e a
função social. Se por um lado a Literatura surge como um entretenimento, por
outro é utilizada para defesa de ideais políticos, históricos e / ou sociais. É o
que acontece com as obras de Garrett ou Eça e a nível mundial com Walter
Scott, Balzac, Victor Hugo e tantos outros. A consciência de um
individualismo e as razões do homem em sociedade são debatidas, tratadas e
usadas como tema, podendo de alguma forma servir, como aliás noutros
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Luísa Lopes

séculos, para ajudar os historiadores a reconstruírem vidas, ambientes, e


modos de pensar. Porque se a Literatura o é justamente por possuir a
componente ficcional, não esqueçamos porém, que apesar de tudo quem a
escreve são homens que, inventando personagens, recriando ambientes,
acabam por falar de si próprios e dos outros homens. Por essa razão Antero de
Quental e outros realistas usaram a Literatura como arma de combate e é
Cesário Verde o primeiro a falar das grandes humilhações sociais.

Toda a Literatura, de acordo com as diferentes épocas serviu as grandes


revoluções, mas só nos finais do século XIX e princípios do século XX a
Literatura surge como verdadeiramente comprometida com os princípios
políticos e dependendo mais ou menos dos regimes instituídos adaptando-se e
contrariando-os. A Literatura neo-realista surge exactamente desses princípios
e circunstâncias.

Mas qual é afinal o papel da Literatura no mundo?


Considerando a Literatura como tudo o que põe o mundo em causa,
submetendo-o à prova da linguagem através de uma verosimilhança que chega
a ser incómoda, a Literatura pode também ser algo de incómodo porque a
verdade é sempre revolucionária. A Literatura pode assim revolucionar
sistemas, ideias ou emoções interiores e cumpre funções pessoais e sociais.

Qual é então o papel do escritor? O que é escrever afinal?


Pode ser simplesmente afirmar que o homem deve existir, isto é, não deve por
exemplo morrer de fome. Pelo simples facto de existir a Literatura faz com
que a fome dos homens seja um escândalo. E enquanto arte a Literatura pode
tudo, pode tudo o que o homem pode. Na sua essência, o poder da Literatura
está fora das palavras embora se sirva exactamente delas para cumprir a sua
função. Mas o poder da Literatura é na realidade imenso, mas ambíguo. Nesse
sentido pode ser mitificador ou desmistificador, despindo ou cobrindo o
mundo de conceitos. No entanto não está na posse directa dos acontecimentos,
está sempre em atraso ou em avanço no que respeita às exigências políticas.
Esse sim, é o seu verdadeiro poder e não haverá nenhum decreto que possa
alterar a sua natureza.

Nesse sentido poderemos perguntar: Haverá ainda uma Literatura daqui a


algumas dezenas de anos, nas sociedades neo-capitalistas e industrializadas,
em que as novas tecnologias e os novos meios de comunicação parecem
tendencialmente anular umas quantas páginas de papel escritas?
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Luísa Lopes

Há tendências sociológicas que parecem querer demonstrar haver agora uma


tendência para a substituição do livro pelos novos meios comunicacionais de
consumo ideológico, no entanto bens de consumo ideológico opõem-se
justamente a patrimónios artísticos e culturais. A Literatura no sentido de
cultura é uma actividade, não um consumo mas a tendência actual aponta para
um aumento de obras que exigem um mínimo de esforço e de participação
activa do leitor. São estes factores que tornam por exemplo difíceis de ler as
obras de Saramago. Ora, não pode existir Literatura sem leitores reais, em
potência.

E recaímos de novo na perspectiva política uma vez que a constituição duma


civilização de leitores, ao actual nível do desenvolvimento histórico, exige
uma transformação radical das nossas sociedades. Mas o mundo actual
também já compreendeu que lhe era necessário neutralizar o principal papel
da literatura, que é o poder de contestação da verdade. Daí o apoio absoluto
dos meios que são aparelhos do Estado a essa cultura das massas que é em
último caso, a negação da própria cultura. Daí também a sua nova atitude para
com os escritores, o seu desejo de os integrar e assimilar. Todos os meios são
possíveis, inclusive a atribuição de Prémios Nobel. O poder político nunca
aceitará que a Literatura e a Cultura lhes roubem o poder e o protagonismo.

No entanto, temos todos nós o privilégio de pertencermos à geração da grande


mudança, do avanço vertiginoso de técnicas e modelos de vida e isso pode
trazer-nos necessariamente esperanças diferentes e a certeza de termos que
readaptar todos os nossos conceitos de vida e inclusive reaprender a cultura de
modos diferentes.

Como dizia Simone de Beauvoir “quando leio um livro, um livro que me toca,
sinto que alguém me está a falar; o autor faz parte do livro; a literatura começa
nesse momento preciso, nesse momento em que oiço uma voz singular”. A
ideia é e será sempre esta porque de facto cada homem é feito de todos os
outros homens e só se compreende o mundo através deles, só se compreende
através do que eles deixam transparecer de si próprios e através de si próprios.
Portanto, passem os milénios, surjam novas tecnologias e a Literatura existirá
sempre.

O que pode então mudar?


Apenas a forma como chega até nós o que os outros escrevem, o que os outros
sonham, inventam, criam.
Tivemos uma literatura transmitida oralmente, passada a escrito por laboriosos
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Luísa Lopes

copistas e impressa finalmente com a revolução de Guttenberg. Anunciou-se a


crise da leitura com o aparecimento da rádio e posteriormente da televisão.

Surgiram computadores que anunciaram a morte do livro e finalmente foram


um objecto indispensável para quem escreve. Anunciou-se nova decadência
quando foi possível ter um livro em Cdrom ou os vídeo-livros e todos
imaginaram a substituição de imensas prateleiras de livros por uma única
prateleira de disquetes e cdroms. O livro sobreviveu e sobrevive. Percebeu-se
então que afinal as novas tecnologias poderiam promover incentivos à leitura
mas ouvem-se os velhos do Restelo permanentemente contestar que é
impossível ler assim um bom livro na cama, na praia, em viagem.

E agora?
As novas tecnologias avançam finalmente com um modelo revolucionário... o
livro electrónico... uma espécie de computador portátil, de dimensões práticas
onde poderemos ter toda a obra de um, vários ou uma infinidade de escritores,
com a vantagem de simultaneamente servir de bloco de notas, onde
escrevemos manualmente como em qualquer outro papel e tudo num objecto
que pode ter afinal a dimensão de um livro, uma máquina com a qual qualquer
leitor poderá manter a mesma relação que mantém com o livro, saboreando o
seu conteúdo, virando páginas, anotando à margem, fazendo comentários.
Será isto finalmente a morte do livro e da Literatura?

Não certamente. È uma das grandes revoluções do novo milénio e uma


solução que pode ser brilhante do ponto de vista ecológico. Os milhões de
árvores que se abatem sistematicamente para sustentar por exemplo a
produção de manuais escolares, poderão sobreviver. A escola do futuro poderá
ter como solução este livro electrónico, que por si substituirá os 20 quilos que
as crianças transportam às costas, e a humanidade terá outras hipóteses de
sobrevivência. O papel das editoras será exactamente o mesmo, o que muda
são os conceitos de vida.
Levará isto à falência das bibliotecas?
Penso que não, o livro tradicional deverá permanecer e adquirir o estatuto
renascentista de objecto de arte. Se a Literatura é e será sempre uma forma de
arte, o seu suporte deverá sê-lo também. Porque é possível desenhar num
computador não dizemos que a pintura vai acabar. Porque razão acabará então
o livro?
E como dizia Zumthor, todos mantemos com o livro rituais. É diferente lermos
uma grande obra numa edição de bolso comprada num hipermercado, de
lermos a mesma obra num livro encadernado e belo. Gostaremos eternamente
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Luísa Lopes

de ler um livro novo, de sentir o seu cheiro a papel virgem e intocado.


Gostaremos eternamente de folhear livros antigos, amarelecidos pelo uso...
teremos eternamente curiosidade de experimentar novas tecnologias, de ler de
novas maneiras, de criar novas relações com os objectos... mas teremos
sempre e sobretudo necessidade de ler para que o mundo tenha sempre,
através do livro, um sabor único, o sabor que, em certo sentido ninguém mais
pode conhecer. Conteúdo e forma são inseparáveis e o que sobreviverá
eternamente é o conteúdo, porque se a Literatura é o lugar do mito, do sonho,
do homem nunca poderemos viver sem ela.

E se como dizia Almada Negreiros no seu Ultimatum Futurista “ É preciso


destruir sistematicamente todo o espírito pessimista proveniente das
inevitáveis desilusões das velhas civilizações do sentimentalismo”, encaremos
as novas tecnologias, indispensáveis à evolução humana, com um espírito
inovador e adaptemo-nos ao novo mundo com a certeza de que a Arte tem
movimentos, revoluções, perspectivas, mas é eterna. Se na pintura existem
agora telas sintéticas, acrílicos e outros materiais, admitamos que a Literatura
tem ao seu dispor uma panóplia de novas tecnologias úteis ao homem e
propícias a uma visão mais ecológica do mundo, mas que isso não será nunca
a sua morte. Os suportes e modos de ler mudarão e o homem adaptar-se-á
como sempre fez às novas tecnologias. A arte, no entanto, é e será sempre
eterna. A Literatura foi, é e será sempre um imenso suporte emocional e social
de toda a humanidade.