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PODER JUDICIÁRIO

JUSTIÇA FEDERAL DE PRIMEIRA INSTÂNCIA

SEÇÃO JUDICIÁRIA DA PARAÍBA


SEGUNDA VARA FEDERAL

Processo: 2004.82.00.009786-2
Natureza: Ação penal pública
Autor: MPF
Réus: Doriedson Rodrigues de Oliveira, João Augusto de Oliveira e
Fernando André de Paula Canuto

S E N T E N Ç A1

DIREITO PENAL. APROPRIAÇÃO INDÉBITA


PREVIDENCIÁRIA EM CONTINUIDADE DELITIVA (CP,
ART. 168-A C/C ART. 71).
1. A autoria do crime depende da efetiva utilização de
poderes de administração do agente, não bastando a
mera condição de sócio.
2. Demonstrada a ocorrência dos fatos que compõem o
tipo penal, cabe ao réu provar os fatos que constituem a
tese de defesa.
3. Praticado o fato, mês a mês, durante certo período de
tempo, aplica-se a regra da continuidade delitiva.
4. Procedência parcial da pretensão punitiva.

RELATÓRIO

Tratam os presentes autos de AÇÃO PENAL PÚBLICA proposta


pelo MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL contra DORIEDSON RODRIGUES DE
OLIVEIRA e JOÃO AUGUSTO DE OLIVEIRA, já devidamente qualificados,
dando-os a peça denunciativa como incursos nos artigos 168-A c/c 71, ambos
do Código Penal brasileiro.

Narra o MPF na denúncia (f. 02-3) que os acusados, na condição de


sócios-gerentes da pessoa jurídica intitulada KELVIN EMPREENDIMENTOS
EDUCACIONAIS LTDA., teriam deixado de recolher aos cofres do INSS as
contribuições previdenciárias descontadas dos salários dos respectivos
empregados no período de junho/2001 a dezembro/2001. Os débitos teriam
dado azo à expedição da NFLD n. 35.443.913-8, datada de 05/05/2003, no

1 Sentença tipo D, cf. Res. CJF n. 535/2006.


ROGÉRIO ROBERTO GONÇALVES DE ABREU
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valor (atualizado a julho de 2004) de R$ 47.784,72. Na denúncia, foi indicada


uma testemunha para oitiva em juízo.

Denúncia recebida em 08/09/2004 (f. 83).

Interrogatório dos acusados DORIEDSON RODRIGUES DE


OLIVEIRA (f. 113-6) e JOÃO AUGUSTO DE OLIVEIRA (f. 117-20).

Defesa prévia de DORIEDSON RODRIGUES DE OLIVEIRA e JOÃO


AUGUSTO DE OLIVEIRA (f. 122-4), alegando, além da inépcia da inicial, a
ausência da condição de sócio e de participação na direção financeira da
empresa. Juntam documentos (inclusive sobre ação de dissolução de
sociedade) e apresentam rol de testemunhas para inquirição em juízo.

Inquirição da testemunha Elias Alves dos Santos (f. 171-3).

Inquirição das testemunhas Maurícia Batista de Sousa (f. 202-3),


Juvenal Ventura da Silva (f. 204) e Eduardo Jorge Azevedo de Oliveira (f. 205).

O MPF aditou a denúncia para incluir FERNANDO ANDRÉ DE


PAULA CANUTO (f. 208-10) no pólo passivo, alegando que, conforme apurado
no curso da instrução, também se tratava de sócio-gerente da empresa e
pessoa responsável pelo setor financeiro da sociedade, destacando que “à f.
30, foi acostado o cartão de identificação da pessoa jurídica perante a Receita
Federal, e o número do Cadastro de pessoa física apontado como do
responsável pela empresa é justamente do Sr. Fernando André de Paula
Canuto”.

Aditamento à denúncia recebido em 10/07/2006 (f. 215-24).

Defesa prévia de FERNANDO ANDRÉ DE PAULA CANUTO (f. 242-


3), negando a imputação e indicando oito testemunhas para oitiva em juízo.

Interrogatório de FERNANDO ANDRÉ DE PAULA CANUTO (f. 276-


8).

Intimado para dizer se tinha interesse na reinquirição de


testemunhas indicadas pelo MPF ou pela defesa dos demais réus (f. 316),
manteve-se silente o acusado FERNANDO ANDRÉ DE PAULA CANUTO (f.
317).

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Dispensada a oitiva das testemunhas Sílvio Orleans Cruz e Reinaldo


Simões (f. 334) uma vez que a defesa de FERNANDO ANDRÉ DE PAULA
CANUTO não apresentou seus endereços e, intimado para tanto, manteve-se
silente.

Inquirição de Miguel Arcanjo de Morais Filho (f. 371), Aritelmo


Franco Silva (f. 416-7) e Francisco Soares Torquato (f. 425-7).

A defesa prescindiu da tomada dos depoimentos de Maria dos


Remédios Abrantes da Silva Caetano, Maurícia Batista de Sousa e Sheina
Cavalcante de Medeiros (f. 423-4).

A f. 430-1, o MPF registrou não ter diligências complementares a


requerer. Manifestou-se ainda sobre pedido de pagamento parcial do débito
tributário feito pelo réu FERNANDO ANDRÉ DE PAULA CANUTO,
posicionando-se negativamente em relação ao pleito de extinção da
punibilidade nesse caso.

Decisão indeferindo o pedido de pagamento parcial com extinção da


punibilidade feito por FERNANDO ANDRÉ DE PAULA CANUTO (f. 433).

Intimados para requerimento de diligências complementares (f. 445),


os réus se mantiveram silentes (f. 446).

Em alegações finais:

1) O MPF requereu a condenação de todos os réus como incursos


no art. 168-A, §1º, I, c/c o art. 71, ambos do CP (f. 450-2).

2) FERNANDO ANDRÉ DE PAULA CANUTO apresentou alegações


finais (f. 457-60) alegando: a) que não cometeu o fato narrado na denúncia; b)
que não havia recursos financeiros que pudessem ser retidos e repassados ao
INSS, uma vez que a empresa dispunha tão somente os valores líquidos pagos
aos empregados; c) que, em função disso tudo, a empresa encerrou suas
atividades; d) que em momento algum agiu com dolo. Pediu, ao final, a
improcedência do pedido.

3) DORIEDSON RODRIGUES DE OLIVEIRA e JOÃO AUGUSTO


DE OLIVEIRA apresentaram alegações finais em conjunto (f. 462-6) alegando:
a) a existência do processo administrativo e da NFLD não prova apropriação
indébita, mas apenas a existência de um dívida; b) para a condenação, é
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preciso que o MPF demonstre que houve efetiva retenção de parte do salário
bruto a título de contribuição devida ao INSS; c) tramita perante a 7ª vara cível
da justiça estadual uma ação de dissolução parcial de sociedade, proposta
ainda no ano de 2001 e versando o período a que se refere a denúncia; d) as
contribuições não foram repassadas ao INSS em razão de dificuldades
financeiras por que passava a empresa, tendo sido priorizado o pagamento dos
funcionários. Pedem, ao final, julgamento de improcedência do pedido.

Autos conclusos para sentença.

Brevemente relatados.

DECIDO.

FUNDAMENTAÇÃO

Não havendo questões preliminares ou prejudiciais a decidir, passo


imediatamente ao mérito da causa.

O MPF denunciou DORIEDSON RODRIGUES DE OLIVEIRA e


JOÃO AUGUSTO DE OLIVEIRA e, posteriormente, em aditamento,
FERNANDO ANDRÉ DE PAULA CANUTO, dando-os como incursos no CP,
art. 168-A c/c art. 71, atribuindo-lhes a conduta de, como sócios-gerentes da
empresa KELVIN EMPREENDIMENTOS EDUCACIONAIS LTDA., efetuar a
retenção dos valores descontados dos salários dos empregados a título de
contribuição previdenciária sem o devido repasse aos cofres do INSS, no
período de junho a dezembro de 2001.

Para a prova do fato típico narrado na denúncia, o MPF apresentou


cópia do processo administrativo fiscal e requereu a produção de prova
testemunhal. Os acusados alegaram que a empresa não tinha como efetuar o
repasse de quaisquer valores ao INSS uma vez que a empresa conseguia
obter apenas os valores suficientes para pagamento de empregados, de modo
que nada era realmente retido para posterior repasse aos cofres públicos.

O procedimento administrativo fiscal comprova a realização de


auditoria na empresa e a existência do débito tributário em razão do não
pagamento dos valores devidos. No caso dos autos, trata-se de quantias
repassadas pela empresa ao INSS, descontadas dos salários dos empregados
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a título de contribuição previdenciária por esses últimos devida. Os nomes dos


três acusados constam dos contratos sociais da empresa, bem como das
relações de vínculos e de co-responsáveis elaboradas pela auditoria.

Em seu interrogatório, DORIEDSON RODRIGUES DE OLIVEIRA


negou a acusação e afirmou que ele e JOÃO AUGUSTO DE OLIVEIRA seriam
apenas professores, sem ingerência na parte financeira da empresa, bem
como que quem cuidava totalmente dessa parte era o sócio FERNANDO
ANDRÉ DE PAULA CANUTO. Destacou ter conhecimento de que, na época,
havia grande inadimplência dos alunos quanto às mensalidades. Disse que
jamais foi comunicado pelos sócios-gerentes sobre o envio de notificações do
INSS para pagamento de contribuições que teriam deixado de ser repassadas
ao INSS.

Também interrogado, JOÃO AUGUSTO DE OLIVEIRA negou a


acusação e afirmou que foi convidado, juntamente com DORIEDSON
RODRIGUES DE OLIVEIRA, pelos sócios-gerentes de Natal/RN, a integrar o
grupo societário que fundaria o colégio HIPÓCRATES em João Pessoa/PB, o
que veio a acontecer. Afirmou que, dado seu histórico no Banco do Brasil S/A,
de onde fora demitido por gestão temerária, os sócios não atribuíram
responsabilidades financeiras ao interrogado e, ao contrário, a administração
financeira da empresa foi centralizada nas mãos de FERNANDO ANDRÉ DE
PAULA CANUTO, utilizando-se, inclusive, do contador que o grupo já possuía
em Natal/RN. Disse também que jamais exerceu a direção administrativa de
quaisquer unidades do colégio, recordando-se apenas que a Sra. MARY teria
exercido a gerência da unidade localizada no Bessa. Disse ter conhecimento
de que FERNANDO ANDRÉ sempre priorizava o pagamento dos funcionários
em detrimento de obrigações tributárias. Disse ainda que não tinha
conhecimento de a unidade Bessa haver deixado de fazer o repasse de
contribuições ao INSS. Desligou-se da empresa em 2001.

Os acusados DORIEDSON RODRIGUES DE OLIVEIRA e JOÃO


AUGUSTO DE OLIVEIRA comprovaram nos autos a propositura de uma ação
de dissolução parcial de sociedade em face dos demais sócios, em que
alegaram estar havendo óbice a seu acesso a informações básicas sobre as
finanças da empresa. Diziam eles na petição inicial (f. 126-41), datada de
novembro de 2001, o seguinte:

“A animosidade passou a reinar entre os sócios, posto


que de acordo com a cláusula 8º do contrato, faz menção
exclusiva ao Balanço Patrimonial (Lucros e Prejuízos), da
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sociedade todo dia 31 de dezembro de cada ano, todavia


não vem acontecendo, posto que os promovidos de forma
inconsequente se negam terminantemente a atender as
solicitações dos autores para conhecerem a realidade da
sociedade, tornando dessa forma impossível para os
mesmos conhecerem, o Balanço Contábil acerca de como
se encontra a sociedade ante os órgãos (Federal,
Estadual e Municipal), por genérica intransigência dos
Promovidos, desrespeitando o Contrato Social de
Constituição da Sociedade.

Os autores desconhecem a situação patrimonial e


financeira da sociedade, existindo entre ela e os demais
sócios um clima de animosidade que a impede de
qualquer providência para a salvaguarda do seu
patrimônio, que corresponde um percentual significativo
do patrimônio total da sociedade.” (grifado).

A única testemunha indicada pelo MPF, o auditor fiscal Elias Alves


dos Santos, afirmou que atuou na fiscalização realizada na empresa KELVIN
EMPREENDIMENTOS EDUCACIONAIS LTDA. Disse que, embora fossem
vários os sócios da empresa, o sistema do INSS só aceita a inclusão de dois
nomes para a posição de sócios administradores, não sabendo como é feita a
escolha desses nomes. Procedeu a um exame documental para a fiscalização
na empresa. Ressaltou que não teve contato com qualquer dos sócios, não
chegando nem mesmo a procurá-los, tendo tratado sempre com a funcionária
de nome Eliane.

Na inquirição das testemunhas indicadas pela defesa de


DORIEDSON RODRIGUES DE OLIVEIRA e JOÃO AUGUSTO DE OLIVEIRA,
apurou-se o seguinte:

A testemunha Maurícia Batista de Sousa afirmou que os acusados


acima apontados eram professores e que os pagamentos (inclusive água e
energia elétrica) somente eram feitos com o conhecimento de FERNANDO
ANDRÉ DE PAULA CANUTO, afirmando a testemunha, de forma categórica,
que quem atuava na parte financeira da empresa era FERNANDO ANDRÉ. Ao
final, registrou que a empresa passava por dificuldades, mas não ao ponto de
deixar de efetuar o pagamento de contribuições, ficando as decisões sempre
nas mãos de FERNANDO ANDRÉ.

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A testemunha Juvenal Ventura da Silva afirmou que não tinha


conhecimento próprio dos fatos, mas registrou saber que a empresa sempre
teve problemas financeiros, bem como que os acusados DORIEDSON
RODRIGUES DE OLIVEIRA e JOÃO AUGUSTO DE OLIVEIRA saíram no final
do ano de 2001 e que a empresa continua funcionando.

A testemunha Eduardo Jorge Azevedo de Oliveira também ressaltou


não ter conhecimento próprio dos fatos, mas registrou, de relevância para a
causa, ter conhecimento de que os acusados DORIEDSON RODRIGUES DE
OLIVEIRA e JOÃO AUGUSTO DE OLIVEIRA eram da parte pedagógica e que
a administração financeira era feita por Natal/RN.

Após o aditamento à denúncia, FERNANDO ANDRÉ DE PAULA


CANUTO foi interrogado, negando a acusação, dizendo que os descontos das
contribuições previdenciárias dos salários dos empregados não existia
realmente, pois não havia disponibilidade desses valores pela empresa.
Admitiu que era sócio-gerente da empresa, juntamente com os acusados
DORIEDSON RODRIGUES DE OLIVEIRA e JOÃO AUGUSTO DE OLIVEIRA,
além de outras quatro pessoas. Disse que, na época dos fatos, as questões
financeiras eram resolvidas pelo interrogado e por JOÃO AUGUSTO DE
OLIVEIRA em reuniões de que participavam todos os sócios, salientando que,
quanto ao não recolhimento das contribuições previdenciárias, a questão foi
posta em votação, sendo decidido que os pagamentos ao INSS deveriam ser
sobrestados. Destacou que o acusado DORIEDSON participava das reuniões e
era responsável pela contratação e dispensa de professores e funcionários.
Nada se registrava em ata, dada a confiança mútua dos sócios. Disse ainda
que a primeira vez que deixou de recolher os tributos foi em junho de 2001,
isso em razão da baixa quantidade de alunos e do alto índice de inadimplência.
O interrogando deixou a empresa em novembro de 2003, tendo a mesma
deixado de funcionar em 2007. A empresa não possuía bens imóveis e possuía
apenas os móveis utilizados em sua atividade-fim.

O réu FERNANDO ANDRÉ DE PAULA CANUTO foi intimado, por


sua defesa, para se manifestar sobre eventual interesse em reinquirir as
testemunhas indicadas pelo MPF ou pela defesa de DORIEDSON
RODRIGUES DE OLIVEIRA e JOÃO AUGUSTO DE OLIVEIRA, tendo
permanecido silente, motivo pelo qual determinei apenas a oitiva das
testemunhas por ele indicadas na defesa prévia apresentada. As testemunhas
Sívio Orleans Cruz e Reinaldo Simões foram dispensadas, uma vez que a
defesa não lhes forneceu o endereço quando intimada para tanto.

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A testemunha Miguel Arcanjo de Morais Filho afirmou ter


conhecimento de que o acusado FERNANDO ANDRÉ DE PAULA CANUTO
era sócio administrador da empresa e mexia com a parte de pagamentos.
Tinha conhecimento de que DORIEDSON RODRIGUES DE OLIVEIRA e JOÃO
AUGUSTO DE OLIVEIRA também eram sócios administradores, mas não
sabia se lidavam com a parte de pagamentos.

A testemunha Aritelmo Franco Silva, instado a falar sobre o quadro


financeiro da empresa, conjecturou no sentido de que os sócios teriam
ampliado a rede de escolas HIPÓCRATES sem lastro para tanto, decorrendo
disso a má situação financeira da empresa. A escola tinha um número razoável
de alunos, não vendo que na época específica houvesse crise financeira, não
se recordando do índice de inadimplência dos alunos. Tem conhecimento de
que as escolas de Natal enfrentaram crise com inadimplência tributária e
regularizaram a situação posteriormente. Quanto às questões de ordem
financeira, tratava muito com o acusado JOÃO AUGUSTO DE OLIVEIRA, que
seria o tesoureiro da empresa na época dos fatos. Corroborou a informação do
acusado FERNANDO ANDRÉ DE PAULA CANUTO no sentido de que as
grandes decisões da empresa para empreendimentos eram tomadas
conjuntamente, em reunião, mas registrou não ter conhecimento de que tenha
havido uma reunião em que se tenha decidido deixar de pagar tributos.

A testemunha Francisco Soares Torquato afirmou ter trabalhado


como auxiliar financeiro e, posteriormente, como gerente financeiro da
empresa. Disse que havia reuniões em que os balanços eram elaborados pelo
acusado FERNANDO ANDRÉ DE PAULA CANUTO e que depois se dava
conhecimento da situação aos demais sócios. Afirmou que não sabia se havia
o desconto de contribuições previdenciárias dos salários dos empregados para
posterior repasse aos INSS. Quanto aos pagamentos feitos pela empresa,
todos eles eram decididos em conjunto e, ao final, quem assinava era o
acusado FERNANDO ANDRÉ DE PAULA CANUTO. Embora ressalvasse que
não participava das reuniões, mencionou que eram feitas votações e falou da
existência de uma ata que era por vezes usada para registro das ocorrências.

Após um minucioso exame dos elementos de prova contidos nos


autos, observo que não ficou demonstrada – com a segurança necessária a
uma condenação judicial em processo penal – a autoria dos fatos por parte de
DORIEDSON RODRIGUES DE OLIVEIRA e JOÃO AUGUSTO DE OLIVEIRA.
Em outras palavras, não logrou o MPF demonstrar a contento uma decisiva
colaboração causal por parte dos réus acima nominados para a prática do fato
descrito na denúncia (domínio do fato).
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Tenho afirmado que a autoria de crimes do jaez do previsto no art.


168-A do Código Penal depende do efetivo exercício de poderes decisórios no
âmbito da empresa. Não basta que o agente tenha poderes de administração,
mas que faça efetivo uso desses poderes ou que tenha decisivamente
colaborado com sua omissão, quando devia e podia agir para evitar a
consumação. Trata-se de infração penal que pode ser praticada pelo efetivo
administrador da sociedade empresária.

No caso dos autos, embora haja testemunho apontando JOÃO


AUGUSTO DE OLIVEIRA como um dos responsáveis pela administração
financeira da empresa, observo que a maioria avassaladora dos depoimentos
são em sentindo contrário, afastando de DORIEDSON RODRIGUES DE
OLIVEIRA e JOÃO AUGUSTO DE OLIVEIRA qualquer ingerência mais efetiva
nas decisões acerca das finanças da sociedade. Os testemunhos colhidos
apontaram FERNANDO ANDRÉ DE PAULA CANUTO como sendo o único
titular do poder de decisão dos negócios da sociedade no que pertine às
questões de caráter financeiro.

Essa conclusão é reforçada pela demonstração, operada por


DORIEDSON RODRIGUES DE OLIVEIRA e JOÃO AUGUSTO DE OLIVEIRA,
de haverem ingressado em juízo, na época dos fatos narrados na denúncia,
com ação judicial para dissolução parcial da sociedade, alegando justamente a
falta de acesso a informações sobre as questões financeiras da empresa. Sem
acesso a informações e sem influência nas decisões, como poderiam os réus
acima nominados ter contribuído causalmente para a prática do fato delitivo
descrito na denúncia? Faltaria, em meu sentir, domínio do fato.

Precisamente com esses fundamentos, entendo ser improcedente a


denúncia no que diz respeito à imputação dirigida a DORIEDSON
RODRIGUES DE OLIVEIRA e JOÃO AUGUSTO DE OLIVEIRA, devendo
ambos ser absolvidos da acusação.

Conforme dito, as testemunhas ouvidas em juízo, além dos próprios


acusados DORIEDSON RODRIGUES DE OLIVEIRA e JOÃO AUGUSTO DE
OLIVEIRA, atribuíram ao réu FERNANDO ANDRÉ DE PAULA CANUTO a
titularidade dos poderes de administração financeira da sociedade empresária
e, portanto, a pessoa com domínio do fato para a prática da infração penal
descrita na denúncia.

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FERNANDO ANDRÉ DE PAULA CANUTO alegou, em sua defesa,


que não havia verdadeiramente retenção de valores dos salários dos
empregados uma vez que tais valores não existiam. Isso inviabilizaria a
ocorrência do próprio tipo penal do art. 168-A do Código Penal brasileiro.

Embora já tenha decidido nessa linha, observo do caso presente


alguns aspectos que impedem a aplicação do mesmo entendimento.

Em primeiro lugar, de acordo com o testemunho de Aritelmo Franco


Silva, os sócios teriam ampliado a rede de escolas HIPÓCRATES sem lastro
para tanto, decorrendo disso a má situação financeira da empresa. Aritelmo
disse também que a escola tinha um número razoável de alunos, não vendo
que na época específica dos fatos houvesse crise financeira, não se
recordando do índice de inadimplência dos alunos. A testemunha disse ainda
que as grandes decisões da empresa para empreendimentos eram tomadas
conjuntamente pelos sócios, em reunião, mas registrou não ter conhecimento
de que tenha havido uma reunião em que se tenha decidido deixar de pagar
tributos.

Nessa última parte, a expressão utilizada pela testemunha que me


chamou a atenção foi “empreendimentos”. Como seria possível definir objetivos
envolvendo empreendimentos pela sociedade se havia uma crise financeira
que impediria a sociedade de repassar contribuições previdenciárias ao INSS,
priorizando salários?

Em segundo lugar, observo que a testemunha Maurícia Batista de


Sousa afirmou que, na época dos fatos, a empresa passava por dificuldades,
mas não ao ponto de deixar de efetuar o pagamento de contribuições.

Em terceiro lugar, observo que o próprio réu FERNANDO ANDRÉ


DE PAULA CANUTO declarou ter deixado a sociedade apenas em 2005, vindo
esta a encerrar suas atividades em 2007. Os fatos narrados na denúncia teriam
ocorrido em 2001 e, portanto, não se poderia afirmar com segurança que a
escola estivesse em vias de encerrar suas atividades naquele momento: entre
a época dos fatos e a saída do réu da sociedade decorreu prazo de quatro
anos e mais dois anos para que a sociedade viesse a fechar suas portas.

Deixando o básico para o final, destaco que, de acordo com o


processo administrativo fiscal, a empresa realmente pagou salários a
empregados no período assinalado na denúncia e, registrando a retenção das
contribuições previdenciárias, não realizou o repasse desses valores aos cofres
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do INSS. O conjunto da obra perfaz com plenitude a descrição típica do art.


168-A do Código Penal brasileiro.

A alegação da crise financeira, no caso, não me convenceu. Para a


demonstração dessa situação impeditiva do cumprimento de suas obrigações
perante o INSS, poderia o réu ter trazido aos autos declarações de
rendimentos da empresa ao longo do tempo, demonstrando eventual
decréscimo na receita da sociedade. Poderia ter trazido folhas de pagamentos
de salários para mostrar que a empresa foi sucessivamente reduzindo seu
quadro. Poderia ter trazido certidões de distribuição para demonstrar a
existência de ações trabalhistas e de execuções fiscais contra a empresa.

Nada disso foi feito, o que me autoriza a entender que a parte não
se desvencilhou do ônus probatório sobre suas alegações de fato.

Devidamente provadas autoria e materialidade delitiva e não


demonstrados os fatos que comporiam a tese de defesa, chego à conclusão de
que a pretensão punitiva deve ser julgada procedente em face de FERNANDO
ANDRÉ DE PAULA CANUTO, estando incurso no art. 168-A do Código Penal
brasileiro, combinado com o respectivo art. 71 em razão da continuidade
delitiva, uma vez que a prática se deu de junho a dezembro de 2001.

Passo à fixação da pena.

FIXAÇÃO DA PENA

Analisando as circunstâncias judiciais do art. 59 do Código Penal


brasileiro, observo o seguinte: a culpabilidade do réu se mostrou compatível
com delitos da espécie; não apresenta antecedentes criminais; a conduta social
e a personalidade se apresentam como dados inerentes ao acusado que nada
dizem sobre o fato, de modo que não podem ser valorados contra ele sob pena
da adoção de um autêntico direito penal do autor; o crime não foi praticado por
motivos ou em circunstâncias especiais que autorizem majoração da pena; não
há prova nos autos de conseqüências excepcionais do crime; não se pode
dizer que o comportamento da vítima tenha colaborado para o crime.

Considerando a fundamentação acima e os limites abstratos do


preceito secundário do art. 168-A do Código Penal, fixo a pena-base em 2
(dois) anos de reclusão.
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Não constatei a existência de agravantes ou atenuantes, nem


tampouco de causas gerais ou especiais de redução ou aumento de pena que
fossem aplicáveis ao caso. Sendo assim, fixo a pena definitiva em 2 (dois) anos
de reclusão.

Uma vez que o crime foi praticado em continuidade delitiva no


período de junho a dezembro de 2001 (sete meses), aplico a causa de
exasperação pelo concurso de crimes prevista no art. 71 do Código Penal
(crime continuado) para aumentar a reprimenda em 1/4 (um quarto),
consolidando a pena privativa de liberdade em 2 (dois) anos e 6 (seis) meses
de reclusão, para cumprimento inicial em regime aberto (CP, art. 33, §2º, “c”).

Adotando a mesma fundamentação acima, fixo a pena de multa em


100 (cem) dias-multa que aumento para 125 (cento e vinte e cinco) dias-multa
em razão da continuidade delitiva. Levando em conta as provas constantes nos
autos sobre a condição financeira do condenado, fixo o valor do dia-multa em
1/10 (um décimo) do salário mínimo vigente na data do fato (dezembro/2001),
devidamente reajustado até o pagamento (CP, art. 49, caput e §§ 1º e 2º).

Deixo de fixar o limite mínimo para a indenização por danos


causados à vítima em razão do fato (CPP, art. 387, IV) dada a possibilidade de
cobrança do crédito tributário através de execução fiscal proposta no juízo
federal competente.

Considerando preenchidos os requisitos subjetivos e objetivos


previstos nos artigos 44 e seguintes do Código Penal brasileiro, inclusive a
necessidade e suficiência da medida, substituo a pena privativa de liberdade
(PPL) aplicada por uma pena restritiva de direitos (PRD) e uma pena de multa.
A PRD consistirá em prestação de serviços à comunidade ou a órgãos ou
entidades públicas, na razão de uma hora de trabalho por dia de PPL
substituída, competindo ao juízo das execuções penais definir as condições e o
lugar de sua execução. Fixo a pena de multa substitutiva nos mesmos valores
da pena de multa cumulativa, sem prejuízo do cumprimento dessa última.

DISPOSITIVO

Diante do exposto, nos termos do art. 387 do Código de Processo


Penal, julgo parcialmente procedente a pretensão punitiva para absolver
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da acusação, bem como para condenar FERNANDO ANDRÉ DE PAULA
CANUTO como incurso no art. 168-A c/c o art. 71, ambos do Código Penal
brasileiro.

Com relação a FERNANDO ANDRÉ DE PAULA CANUTO, nos


termos da fundamentação acima, fixo-lhe uma pena privativa de liberdade de 2
(dois) anos e 6 (seis) meses de reclusão para cumprimento inicial em regime
aberto, bem como uma pena de multa de 125 (cento e vinte e cinco) dias-
multa, fixado o valor do dia-multa em 1/10 (um décimo) do salário mínimo
vigente na data do fato (dezembro/2001), corrigido até o pagamento.

Considerando preenchidos os requisitos subjetivos e objetivos


previstos nos artigos 44 e seguintes do Código Penal brasileiro, inclusive a
necessidade e suficiência da medida, substituo a pena privativa de liberdade
(PPL) aplicada por uma pena restritiva de direitos (PRD) e uma pena de multa.
A PRD consistirá em prestação de serviços à comunidade ou a órgãos ou
entidades públicas, na razão de uma hora de trabalho por dia de PPL
substituída, competindo ao juízo das execuções penais definir as condições e o
lugar de sua execução. Fixo a pena de multa substitutiva nos mesmos valores
da pena de multa cumulativa, sem prejuízo do cumprimento dessa última.

Custas ex lege.

Com o trânsito em julgado da presente sentença, após a devida


certificação, deverá a secretaria da vara: a) preencher e encaminhar ao IBGE
os boletins individuais dos réus; b) lançar no rol dos culpados o nome do réu
condenado; c) oficiar ao TRE/PB, quanto ao réu condenado, para os fins do art.
15, III, da CF/88; d) remeter os autos ao juízo das execuções penais.

Sentença publicada em mãos do diretor de secretaria da vara.


Registre-se no sistema informatizado. Intimem-se os réus e seus defensores.
Cientifique-se o MPF.

João Pessoa, 1º de julho de 2009.

Juiz federal ROGÉRIO ROBERTO GONÇALVES DE ABREU


Substituto da segunda vara federal

ROGÉRIO ROBERTO GONÇALVES DE ABREU


Juiz Federal