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Administração Eclesiástica

Olá Seminarista!

Pretendo fazer alguns apontamentos que possam ajudá-los. Ao término vocês encontrarão sugestões bibliográficas e sites/blogs para pesquisa.

Tratar de administração eclesiástica não significa transformar a igreja em uma empresa, muito pelo contrário. Administrar a igreja é administrar em primeiro lugar um organismo vivo, isto é, significa gerir pessoas, cuidar de vidas. Lembre-se que a Igreja de Jesus é simbolizada pelo corpo humano. Foi o apóstolo Paulo quem mais se apoderou deste símbolo para tratar da Igreja. Paulo não deve ser considerado só o maior missionário da história da Igreja, foi também um grande administrador da mesma. Foi sob os cuidados de Paulo que a Igreja experimentou o maior crescimento de todos os tempos. Ele expandiu

a Igreja por todo o império romano e a Igreja cresceu com muita saúde e vigor. Foi ele

um dos maiores implantadores de igrejas-locais. Paulo foi um grande discipulador também, foi ele quem preparou a maioria dos pastores das igrejas-locais de seu tempo.

No livro de Atos dos Apóstolos percebe-se que Paulo submete-se ao Espírito Santo o

tempo todo. O apóstolo sempre busca fazer a vontade de Deus. Por isto cultiva uma vida de oração e devoção ao Senhor. Paulo sempre coloca-se como figura secundária, pois nada poderia fazer, não fosse o poder de Deus em sua vida. Administrar uma igreja não é uma tarefa para o homem sozinho. É preciso depender de Deus, para que as coisas funcionem. A Igreja pertence a Deus. Novamente vê-se que Paulo entendeu bem essa questão. Ele diz que sendo a Igreja o corpo, a cabeça necessariamente é Jesus, ou seja, o Senhor é o líder supremo, ele é o bom pastor. E cada indivíduo é simbolicamente representado pelos membros do corpo, cada membro com uma função diferente, cada um

é diferente do outro, porém todos são importantes para o bom desenvolvimento do corpo; todos estão sob a dependência de Deus.

Quando o administrador entende que ele não é cabeça, mas sim um membro como outro qualquer, já tem-se um grande avanço. No entanto, não é o que se vê na prática. Muitos tomam para si o lugar que somente Deus pode ocupar. Para administrar na Igreja, não é necessário cursar a faculdade de Administração, embora seja esta uma ferramenta muito útil. O requisito maior é submeter-se a Deus e a sua vontade, e necessariamente ser “membro do corpo”.

Administrar uma empresa é muito mais simples que administrar a Igreja, pois esta é um organismo vivo e seus objetivos não são compatíveis com àquela. É claro que um bom administrador de empresas pode ter mais facilidade em administrar uma igreja, contudo ele precisa ser vocacionado pelo próprio Deus e submeter-se em tudo à Ele, caso contrário sua experiência sozinha não proporcionará bons resultados. A Igreja não é facilmente traduzida em números, gráficos e estatísticas, apesar de uma parte dela até ser visível e passível de cálculos. Medir o crescimento da Igreja apenas pelo número de membros é um grande erro.

Para ser um bom administrador eclesiástico é preciso entender bem o conceito de Igreja. Superlotar a agenda da igreja-local com eventos, contratar cantores e preletores profissionais, preparar sermões de acordo com o gosto dos ouvintes e adotar novidades e/ou movimentos não promoverão um crescimento qualitativo e por sua vez,

verdadeiramente quantitativo. No Brasil, muitos templos estão lotados, mas a rotatividade

é tão grande, que ninguém conhece ninguém, bem como nada se conhece. Não há

transmissão de valores bíblicos. Não há uma proposta “instrucional”, simplesmente diz-

se ao povo o que ele quer ouvir, e não o que precisa ouvir. Alguns até abrem a Bíblia, mas logo deixam transparecer a arrogância, hipocrisia e interesses escusos.

A Igreja Primitiva experimentou o crescimento numérico e também em qualidade, pois

investia naturalmente nas famílias, nos pequenos grupos de indivíduos, em locais onde se reuniam pessoas com pelo menos um ideal em comum. Atualmente, as igrejas-locais tem cultos três vezes por semana, em média; possuem uma agenda de eventos superlotada:

retiro de carnaval, evangelismo em massa, festas típicas, etc. Quase todos os sábados são preenchidos por eventos “sociais”. Boa parte dos brasileiros, possui uma jornada de trabalho apertada, são oito horas dedicadas ao que se chama vida secular. Mas pensando bem, percebemos que é possível servir a Deus em meu trabalho, posso testemunhar as

maravilhas de Deus em minha vida em qualquer lugar que estiver. Não somos cristãos apenas quando estamos reunidos no templo. Eu e você também somo templos.

Administrar uma igreja não requer de nós apenas conhecimentos de aspectos jurídico e legislativo. A igreja como instituição local e temporal pode organizar-se por meio de atas, estatuto, diretoria, regimento interno, conta bancária, etc. Ainda mais quando é preciso construir um templo para as reuniões, quando é preciso guardar valores ofertados, quando

se contrata alguém para a limpeza ou zeladoria do templo. O mais complexo é fazer tudo sem perder a essência de ser Corpo de Cristo.

Usar a palavra de Deus para alcançar interesses particulares é um dos grandes erros cometidos por administradores eclesiásticos. Tomar posse dos bens, móveis ou imóveis,

da igreja local é outro erro. A transparência é o ingrediente que não pode faltar na gestão

eclesiástica.

A finalidade da administração eclesiástica é representar, gerir e organizar, além de

promover manutenção e compras de bens para um grupo de cristãos que se reúnem em um local em comum. Vivemos em um país democrático, portanto nada melhor do que a democracia para administrar uma igreja local. Os membros de uma comunidade eclesiástica local devem eleger seus representantes de forma democrática, isto é por meio de voto. As regras do estatuto e do regimento devem ser aprovadas pelos membros. A Bíblia deve ser a fonte e a base, de maneira que as regras criadas não a contradigam. O correto é que os projetos sejam aprovados pelos membros, já que são eles que contribuem para o sustento financeiro da igreja institucional.

Existem três tipos básicos de governo eclesiástico:

Episcopal governo centralizado na pessoa de um dirigente. Ex.: Igreja Católica Romana, Assembleia de Deus, Igreja Metodista e Igreja do Evangelho Quadrangular.

Presbiteriano ou Representativo governo organizado por uma assembleia de presbíteros, eleitos pelos membros comuns. Ex.: Igreja Presbiteriana.

Congregacional governo organizado por uma assembleia de membros comungantes. Ex.: Igreja Batista e Igreja Evangélica Congregacional.

Quando uma igreja local cresce numericamente, ela precisará de mais líderes, e a escolha dos líderes não pode ser feita sem base bíblica. Paulo diz a Timóteo que um obreiro deve manejar bem a palavra da verdade (2Tm 2.15) e cita outras características básicas que deve possuir um obreiro.

É muito bom que você busque conhecer a Constituição Brasileira, além das leis

específicas às instituições religiosas. No Brasil, temos uma divisão entre pessoas física e jurídica, sendo que a primeira precisa possuir um número de CPF (Cadastro de Pessoa Física) e a segunda precisa possuir o número de seu CNPJ (Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica). O processo de legalização de uma igreja local no Brasil, não é muito complicado. Basta que os membros fundadores reúnam-se para eleger a Diretoria estatutária, geralmente composta por 6 (seis) membros: 1º e 2º presidente, 1º e 2º tesoureiro, 1º e 2º secretário. Todos precisarão abrir firma no Cartório de Registros responsável pela região aonde está localizada a sede (provisória ou permanente). Será necessário que todos os membros da Diretoria apresentem certidões negativas. Nenhum dos membros da Diretoria pode estar com o nome inscrito em instituições como SPC e SERASA. Tudo deve ser registrado no livro de Atas e o mesmo terá que receber do cartório o Registro de Títulos e Documentos. O estatuto deve ser elaborado conforme as regras básicas estipuladas pela legislação brasileira; deve ser aprovado pelos membros fundadores, assinado pelos membros-diretores e ter as páginas revisadas e rubricadas por um advogado. Depois deve ser registrado em Cartório. Feito isto, dar-se-á entrada com o pedido de cadastro de pessoa jurídica, para obter o número de CNPJ. A Diretoria deverá verificar as leis municipais e fazer o pedido do alvará de licença para localização, é recomendável que se observe as regras municipais antes da confecção da Ata de Abertura e do Estatuto.

Assim como uma casa, a igreja local também precisa de organização. É por isto que o administrador eclesiástico precisa administrar bem seu próprio lar, caso contrário será um péssimo gestor eclesiástico. Não é possível conceber uma instituição sem diretores (líderes), secretaria ou tesouraria. Em uma igreja local a organização é indispensável.

A divisão e organização de tarefas, vai depender do governo e dos líderes. Algumas

dividem as tarefas por departamento, outras em ministérios ou sociedades. Não importando qual nome será dado, no organograma de toda igreja local devem constar minimamente as seguintes áreas:

Administração

Pastoral

Educação

Assistência social

Música

Evangelização e Missões

Comunicação

Lembrando que cada um deste pontos podem subdividir-se em outros mais. De acordo com o crescimento mais detalhes podem ser previstos nos planejamentos. A igreja local precisa sempre ter em mente que sua função é a glorificação de Deus, edificação dos santos e evangelização do mundo.

Concluindo, a administração eclesiástica deve prever o cuidado com as pessoas envolvidas em todas as áreas. O administrador não pode esquecer que está lidando com pessoas e que deve fazer isto de forma cristã. Seus modelos e exemplos encontram-se essencialmente nas Escrituras Sagradas. Também não dá para pensarmos em crescimento apenas numérico. Não transforme sua igreja local em uma empresa nos moldes capitalistas. O dinheiro é importante, mas não deve ser prioridade. Trabalhar com transparência é o segredo para não ser surpreendido por acusações.

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