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CONCLUSÕES

O Encontro Internacional sobre Políticas de Intercâmbio, organizado pela Cena Lusófona, reuniu em
Coimbra mais de trinta estruturas de criação e programação e instituições oficiais dos vários países de
língua portuguesa e da região autónoma da Galiza, de Espanha.

Estiveram oficialmente representados os Ministérios da Cultura de Portugal, do Brasil e da Guiné-Bissau,


a Secretaria de Estado da Cultura e a Embaixada em Portugal de Timor-Leste e a Câmara Municipal de
Coimbra.

Do lado das estruturas de criação e de programação, marcaram presença A Escola da Noite – Grupo de
Teatro de Coimbra, a Cena Lusófona, o Centro Dramático de Évora, a Companhia de Teatro de Braga, a
Filipe Crawford Produções, o Teatro Meridional e o Teatro O Bando (Portugal); o Harém Teatro, a Talu
Produções, o Dragão 7 e a Cooperativa Cultural Brasileira (Brasil); o Elinga Teatro (Angola); a Associação
Burbur (Cabo Verde); o Centro de Intercâmbio Teatral de Bissau (Guiné-Bissau); a Revista Galega de
Teatro e o Sarabela Teatro (Galiza).

Associadas a algumas destas estruturas ou em nome próprio, destaca-se a presença de uma dezena de
festivais dos vários países de língua portuguesa: a Bienal de Marionetas de Évora, o Encontro de Teatro
Ibérico de Évora, os Encontros da Lusofonia de Torres Novas, o FITEI – Festival Internacional de
Expressão Ibérica e o Festival Internacional de Máscaras e Comediantes (Portugal); o FESTLIP – Festival
de Teatro de Língua Portuguesa do Rio de Janeiro, o Circuito de Teatro Português de São Paulo e o
Festluso – Festival de Teatro Lusófono de Teresina, Piauí (Brasil); o Festival Internacional de Teatro e
Artes de Luanda (Angola); o FITO – Festival Internacional de Teatro de Ourense (Galiza).

A título individual, participaram ainda no Encontro o dramaturgo Abel Neves (Portugal), o actor Rogério
Boane (Moçambique), o actor, dramaturgo e encenador Cándido Pazó e o encenador Manuel Guede Oliva
(Galiza).

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Os debates

Os debates foram divididos em quatro painés temáticos, de acordo com aqueles que são os principais
eixos de intervenção do programa Cena Lusófona: “Palcos para o intercâmbio: os espaços cénicos nos
países da CPLP”, “Circuito teatral lusófono: festivais, intercâmbios e circulação regular entre os países de
língua portuguesa”, “Criação e difusão da dramaturgia de língua portuguesa: centros de documentação e
edição teatral” e “Dar e receber: co-produções e formação artística entre agentes culturais no espaço da
CPLP”.

No capítulo dos espaços cénicos, constata-se a especificidade de cada um dos países presentes. É
unanimente reconhecida, no entanto, a necessidade de aprofundar o conhecimento sobre os espaços
teatrais na CPLP como potenciador da circulação de espectáculos entre os diversos países. O inventário
que está a ser desenvolvido pela Cena Lusófona reveste-se de particular importância para a definição e
concretização de políticas que permitam a existência de mais espaços qualificados, nomeadamente nos
países africanos e em Timor-Leste.

Quanto à circulação teatral entre os países de língua portuguesa, todos os festivais e estruturas de
programação manifestaram a sua disponibilidade para cooperarem entre si, no sentido de aumentar a
presença de artistas e espectáculos lusófonos nos seus próprios programas. Algumas possibilidades
concretas foram mesmo acertadas no próprio Encontro. Vários dos festivais presentes, como o Festluso, o
Circuito de Teatro Português de São Paulo e o Festival de Teatro e Artes de Luanda, destacaram a matriz
e o impulso da Cena Lusófona como influência decisiva para a criação dos respectivos projectos.

No domínio da criação e da difusão da dramaturgia, defende-se o papel fundamental do Teatro como


instrumento de divulgação, e até do ensino, da língua portuguesa, em particular em países onde ela
convive com outras línguas nacionais (em todos os países africanos e em Timor-Leste) e/ou sofre a
pressão de línguas estrangeiras, em face da sua localização geográfica (de uma forma muito clara em
Timor-Leste, mas também em Moçambique e na Guiné-Bissau). Neste contexto, marcado ainda por um
significativo desconhecimento das dramaturgias dos outros países lusófonos, é urgente a definição e a
concretização de um plano de divulgação da dramaturgia de língua portuguesa, bem como de acções de
incentivo à criação de uma nova dramaturgia nos contextos particulares dos vários países da
Comunidade.

À semelhança do que aconteceu no painel dedicado aos festivais, também no capítulo da formação e
das co-produções se destaca a disponibilidade manifestada pelas diversas estruturas de criação
presentes para a cooperação internacional no espaço lusófono. A generalidade dos participantes tem aliás
uma vasta experiência neste domínio, em parte adquirida no âmbito do programa Cena Lusófona, que
iniciou um ciclo de co-produções e de Estágios Internacionais de Actores (EIA) que depois foi continuado
em múltiplas iniciativas autónomas. O interesse em articular as diversas relações bi-laterais entretanto
aprofundadas e em desenvolvimento tomando a Cena Lusófona como interface (organizativa ou
meramente informativa) foi unanimemente reconhecido.

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Conclusões

Este Encontro foi realizado num contexto de enorme descoincidência entre a profusão de acordos de
cooperação assinados ao nível oficial pelos governos dos vários países e a aplicação concreta dos
princípios e das medidas neles inscitos. A ausência injustificada do Instituto Camões e da CPLP, apesar
dos reiterados convites feitos pela organização, não contribuiu para que esta situação fosse ultrapassada.

Regista-se, pela sua relevância, a partilha deste diagnóstico entre os agentes culturais e três das
instituições oficiais representadas: o Director Regional da Cultura do Centro falou da “lentidão
estratégica” e da “hesitação metodológica” que têm marcado a actuação dos governos nacionais neste
domínio; o Director-Geral das Artes criticou a lentidão dos processos de decisão no seio da CPLP e o
desperdício de energias, salientando a necessidade de ultrapassar a perspectiva do “se não for eu a fazer,
não interessa que se faça”; o representante do Ministério da Cultura do Brasil reconheceu a “dificuldade
muito grande da CPLP na área da cultura” e em assumir-se como espaço privilegiado para a articulação
das diversas iniciativas de intercâmbio e cooperação.

Salienta-se, ainda, a disponibilidade e o interesse demonstrados pelos Governos da Guiné-Bissau e de


Timor-Leste pelo reforço dos laços de intercâmbio teatral entre os países de língua portuguesa e o apelo
directo feito por ambos ao apoio da Cena Lusófona, das várias organizações teatrais presentes e dos
restantes países neste sentido.

A Cena Lusófona extrai do Encontro Internacional sobre Políticas de Intercâmbio as seguintes conclusões:

1. A Cena Lusófona encontra nos diversos agentes culturais e nas instituições oficiais o
reconhecimento da actividade desenvolvida e do interesse dos projectos que tem em curso.
Algumas organizações sugeriram mesmo a possibilidade de acrescentar aos seus projectos a
“chancela” comum da Cena Lusófona;

2. Vendo reforçados os meios financeiros de que actualmente dispõe, a Cena Lusófona poderá voltar
a assumir o papel de interface e de estrutura activa de intensificação de projectos de intercâmbio
e cooperação desenvolvidos pelos parceiros dos vários países lusófonos, de acordo com o
interesse unanimemente manifestado;

3. O envolvimento dos agentes culturais na definição e na concretização das políticas públicas de


cooperação é fundamental para o sucesso destas iniciativas. Exige-se, a este respeito, a
divulgação pública e o cumprimento dos acordos de cooperação assinados entre os diferentes
países de língua portuguesa e, em particular, entre Portugal e o Brasil;

4. Reconhece-se a insuficiência da acção cultural da CPLP enquanto organização multi-nacional e a


necessidade de dar cumprimento às decisões que têm sido tomadas ao nível das sucessivas
reuniões do Conselho de Ministros da Cultura;

5. A este respeito, é fundamental que não deixem de ser dados os “pequenos passos” que tardam
em ser concretizados, como a instituição do “selo cultural” que facilitará a circulação de cenários
e equipamentos entre os países da CPLP e de uma política comum e de reciprocidade na
atribuição de vistos para a circulação de artistas dentro do espaço da Comunidade;

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6. Saúda-se a aposta do Brasil no reforço da CPLP, definida pelo representante do seu Governo
como prioridade para 2010, e exorta-se os restantes países a acompanhar este investimento;

7. A articulação de esforços e vontades entre Angola, Brasil e Portugal no que diz respeito à acção
cultural a desenvolver no âmbito da CPLP é determinante para o sucesso desta intervenção, que
deve ser democrática, participada e solidária;

8. É unanimente reconhecida a importância da realização regular deste tipo de encontros entre


instituições governamentais e estruturas de criação e programação artística, registando-se com
particular satisfação a disponibilidade manifestada pela Fundação Palmares, do Brasil, e pela
Direcção Regional da Cultura do Centro para apoiar a realização de próximas edições no Brasil
(Piauí e São Paulo, em 2010) e em Coimbra (2011).

9. Foi sublinhado o papel das artes e em particular do Teatro numa política integrada de valorização
da língua portuguesa em todos os países e foi chamada a atenção para a necessidade de uma
convivência diferente e mais produtiva entre a língua portuguesa, os crioulos e as restantes
línguas nacionais, algumas em risco de extinção no continente africano.

Cena Lusófona

Coimbra, 7 de Dezembro de 2009.

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LISTA DE PARTICIPANTES

Angola
Anacleta Pereira Elinga Teatro
Festival Internacional de Teatro e Artes de Luanda

Brasil
Creusa Borges Dragão 7
Circuito de Teatro Português de São Paulo
Francisco Pellé Harém Teatro
Festluso – Festival de Teatro Lusófono (Teresina, Piauí)
Marília de Lima Cooperativa Cultural Brasileira
Tânia Pires Talu Produções
FESTLIP – Festival de Teatro de Língua Portuguesa (Rio de Janeiro)
Zulu Araújo Presidente da Fundação Cultural Palmares
em representação do Ministério da Cultura

Cabo Verde
Odete Mosso Associação Burbur
Rui Duarte

Galiza (Espanha)
Ánxeles Cuña Bóveda Sarabela Teatro
FITO- Festival Internacional de Teatro de Ourense
Cándido Pazó (dramaturgo, actor e encenador)
Manuel Guede Oliva (encenador)
Vanesa Sotelo Revista Galega de Teatro

Guiné-Bissau
Fernando Saldanha Secretário de Estado da Juventude, Cultura e Desporto
Jorge Quintino Biague Centro de Intercâmbio Teatral de Bissau
Grupo de Teatro “Os Fidalgos”

Moçambique
Rogério Boane (actor)

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Portugal
Abel Neves (dramaturgo)
António Augusto Barros Cena Lusófona
António Pedro Pita Director Regional da Cultura do Centro
em representação do Ministério da Cultura
Filipe Crawford Filipe Crawford Produções
Festival Internacional de Máscaras e Comediantes
João Aidos Encontros de Lusofonia (Torres Novas)
Jorge Barreto Xavier Direcção-Geral das Artes (Ministério da Cultura)
José António Bandeirinha Cena Lusófona
José Russo Centro Dramático de Évora
Bienal de Marionetas de Évora
Encontro de Teatro Ibérico
Maria José Azevedo Santos Vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Coimbra
Mário Moutinho FITEI – Festival Internacional de Expressão Ibérica (Porto)
Miguel Seabra Teatro Meridional
Natália Luiza
Nuno Porto Cena Lusófona
Pedro Rodrigues A Escola da Noite – Grupo de Teatro de Coimbra
Raul Atalaia Teatro O Bando
Rui Madeira Companhia de Teatro de Braga
Sílvia Brito Cena Lusófona

Timor-Leste
José Amaral responsável cultural da Embaixada de Timor-Leste em Portugal
em representação do Secretário de Estado da Cultura
e da Embaixada de Timor-Leste em Portugal