Você está na página 1de 3

Ler e entender: a compreensão escrita no ensino das línguas

estrangeiras
(Hans-Werner Huneke)
- Uma parte significativa do contacto entre quem aprende uma LE e língua processa-se
através de textos escritos (nas aulas, através dos manuais; fora das aulas, através de
jornais, revistas e livros; na universidade a compreensão é fulcral). 
- Os novos programas para o ensino de LE nas escolas prevêem o alargamento do espaço
reservado à leitura.

• O que estamos a fazer quando lemos?


- A leitura de um texto numa LE levanta dificuldades, pois os conhecimentos de gramática
e vocabulário de que o aprendente dispõe são incompletos.  O professor deve fornecer o
apoio linguístico e seleccionar textos adequados ao nível dos alunos.
- Temos a capacidade de interpretar correctamente os fragmentos de caracteres, mesmo
que eles sejam pouco claros.
- No entanto, a leitura não é um processo exclusivamente de descodificação (muitas
coisas são induzidas pelo leitor). Por outro lado a velocidade da leitura (que é muito
elevada) prova que a leitura não pode ser apenas um processo de percepção e de
descodificação de todas as letras em sequência.
- Capacidade de antecipação (adivinhar com fundamento) consiste na formulação,
rejeição e modificação de hipóteses.  A incerteza vai-se reduzindo até se chegar a uma
solução que se considere correcta.

• Processamento ascendente e processamento descendente


(processamento ascendente = análise do Input, descodificação dos caracteres \\
processamento descendente = análise selectiva, interpreta através do conhecimento do
mundo+contexto para testar hipóteses)
- O fluxo de informação recebida através dos sentidos só pode ser processado,
compreendido, se forem activados e utilizados conjuntos de dados (esquemas cognitivos)
já existentes na memória.
- O processamento ascendente só por si não é satisfatório.  É necessário que um
complemente o outro e, uma vez reconhecido o ascendente, utiliza-se todos os dados do
processamento descendente para completar e enriquecer a compreensão.

• Leitura como antecipação


- Os bons leitores não lêem palavra por palavra, mas, pelo contrário, utilizam da forma
mais eficaz uma grande quantidade de conhecimentos prévios.  Treinar a capacidade de
antecipação para aumentar a velocidade de leitura.
- Dois tipos de efeito de antecipação:
(1) Activação por expansão: os segmentos registados na memória estão ligados a
outros por associação, e são mais fáceis de localizar se essa ligação já tiver sido
activada (apresentação prévia do tema); inconsciente, imediato e sem atenção, e
impossível de impedir.
(2) Expectativa criada forçadamente, influenciada por estratégias conscientes;
requer tempo, atenção = maior esforço. Além disso se a expectativa for errada,
criam-se obstáculos à compreensão.
- Westhoff: No início do processo de leitura põem-se hipóteses sobre o conteúdo do texto,
e à medida que este vai sendo trabalhado essas hipóteses são modificadas e
concretizadas através da exclusão sucessiva de alternativas, e portanto da redução das
incertezas.
- Um leitor experiente deve treinar o processamento ascendente, enquanto um leitor
iniciante deve usar o processamento descendente como apoio para compensar o pouco
conhecimento linguístico que possui da LE.

1
• Consequências para a leitura no ensino de LE: como tirar partido dos
conhecimentos prévios dos alunos? Duas possibilidades metodológicas:
- Os conhecimentos prévios de tipo factual podem ser utilizados para compensar
deficiências dos conhecimentos linguísticos: textos inseridos no contexto temático de uma
unidade didáctica; textos com uma relação ao universo referencial do aluno; os
conhecimentos prévios do aluno devem ser activados e estruturados numa fase da aula
dedicada a esse fim e anterior à leitura em si.
- Pode optar-se por tornar conscientes estratégias linguísticas de descodificação do texto
e por exercitar os alunos no uso dessas estratégias (por ex: conhecimento da formação
das palavras). Neste sentido uma perspectiva receptiva da gramática pode fornecer
indicações valiosas ao aluno e ao professor.

• O que significa compreender um texto?


- Zimmer: compreensão = representação mental da estrutura profunda, do “conteúdo” da
mensagem; pode orientar-se pela forma linguística ou incluir um modelo mental de um
estado de coisas (imagem não verbal, visualizada); abrange componente interactiva 
respeitar convenções + seguir certos esquemas específicos de cada cultura.
- Cummins + Butzkamm:
- “Ballance Effect Theory” = consciência dupla;
- “Think Tank Model” = capacidade cognitiva total não dividida (ambas as línguas têm
canais de acesso a essa capacidade).
- Perigo de uma compreensão inadequada do texto por falta de conhecimentos sobre a
cultura da L2 tirou do Think Tank os conhecimentos prévios “errados”(L1).
- Assimilação e acomodação (Piaget) = integração de conhecimentos e alteração e
alargamento de esquemas.  Estão a aprender. 
- Leitura é pedagogicamente relevante = argumento central para a legitimização do
ensino formal de línguas estrangeiras nas escolas.  Possibilidade de libertação de laços
apertados que nos prendem à nossa própria cultura.

• Definição de objectivos
- Westhoff: O objectivo centra-se no aluno e nas suas necessidades e não no texto e no
alargamento da competência linguística.  Os alunos devem aprender a responder às
suas próprias perguntas sobre o texto e não às perguntas do professor.
- Westhoff: São os alunos que decidem qual dos três tipos de leitura querem aplicar. As
aulas de LE devem-nos habilitar a tomar essa decisão, instruindo-os no domínio desses
três tipos de leitura, que não são automaticamente transferidos de uma língua para a
outra.
- Westhoff limita-se à extracção de informações do texto, não inclui a acomodação
(alargamento da perspectiva de formulação das perguntas por parte dos alunos). 
- Huneke: os alunos devem aprender a satisfazer e a alargar a sua necessidade de obter
informações contidas em textos; devem ser capazes de decidir quais dessas informações
são relevantes ou não para eles; devem aprender a ser cada vez mais autónomos neste
processo de aprendizagem.

• Selecção de textos
- Critérios para a selecção de textos apropriados para a leitura no ensino de LE:
- Textos autênticos.
- Tema relacionado com o universo da vida e das experiências dos alunos (equilíbrio
entre aspectos familiares e estranhos).
- Texto deve fornecer apoios à compreensão, através da integração temática,
títulos, fotografias, gráficos, sinais tipográficos, etc.
- Nível de exigência temático adequado (principio da correspondência ideal entre as
tarefas e os materiais apresentados na aula e o estádio de desenvolvimento e os
conhecimentos do aluno).

2
- Grau de dificuldade a nível linguístico que o torne acessível, ou seja, material
linguístico novo e desconhecido, de forma a fomentar uma leitura autónoma.

• Anexos
- O objectivo do ensino das línguas (também leitura) = ensinar a ultrapassar dificuldades
linguísticas, portanto não faz sentido eliminar todas as dificuldades. Mas pode ser preciso
apresentar conceitos-chave antes da leitura.