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Teoria da Arqueologia

2010-2011

Resumo das aulas.2

ARQUEOLOGIA HISTÓRICO-CULTURALISTA

"A Arqueologia histórico-culturalista parte, como, aliás, qualquer forma de Arqueologia, dos vestígios materiais do passado: objectos e estruturas (de habitat, funerárias, rituais e outras). Pretende, antes de mais, determinar-lhes as funções; depois, classificá-los em tipologias, isto é, reduzir a diversidade dos objectos (ou das estruturas) à unidade de determinados modelos ou normas que os homens tinham em mente ao fabricarem os objectos ou ao construírem as estruturas. A classificação tipológica é, pois, um dos objectivos principais da Arqueologia histórico-culturalista, que logo se orienta para a procura de paralelos, isto é, de vestígios semelhantes. As semelhanças permitem, por um lado, definir culturas e, por outro lado, rastrear contactos e influências." (Alarcão, 1996, 9).

O conceito de "cultura arqueológica" vai-se construindo a partir dos finais do séc.

XIX, associado ao interesse que então se registava pelo estudo dos povos — etnicidade. Por vezes não se distingue do conceito de "civilização". E. B. Tylor publica em 1871 o livro Primitive Culture, definindo cultura de forma muito abrangente como "um todo complexo

que inclui os conhecimentos, as crenças, a arte, a moral, as leis, os costumes e outras capacidades e hábitos adquiridos pelo homem como membro da sociedade".

Gustaf Kossinna (1858-1931), arqueólogo alemão imbuído de um fanatismo patriótico e nacionalista, interessando-se pela origem dos povos que falavam indoeuropeu e, por extensão, dos próprios alemães, utilizou sistematicamente o de conceito de cultura nos seus estudos. As culturas eram entendidas como "um reflexo inevitável da etnicidade, argumentando que as semelhanças e as diferenças na cultura material podiam correlacionar-se com as semelhanças e as diferenças na etnicidade" (Trigger, 1992, 159).

Kossinna, tal como Gustav Oscar Montelius (1843-1921), acreditava que "a continuidade cultural indicava continuidade étnica". A distribuição geográfica dos artefactos permitia determinar as áreas de ocupação de grupos populacionais na pré-história. Por outro lado, Kossinna também passou a relacionar variações culturais e étnicas com variações raciais. Aceitava igualmente que os povos antigos que falavam indoeuropeu, ou seja, os ancestrais directos dos alemães, pertenciam ao grupo racial ariano e que as características raciais eram factores determinantes fundamentais do comportamento humano. Aceitava igualmente a ideia de que havia povos culturalmente criativos e povos culturalmente passivos. Desenvolve-se assim a ideia da existência de culturas superiores, que se relacionam com a superioridade racial. O conceito de cultura associa-se ao conceito de difusão migração de populações. Há também um objectivo político: a arqueologia era utilizada para reivindicar, invocando-se o "direito histórico", os antigos territórios pretensamente ocupados pelos ancestrais dos alemães.

Vere Gordon Childe (1893-1957) aproveita o conceito de "cultura arqueológica" de G. Kossinna, recusando no entanto as conotações racistas, ainda que a superioridade étnica fosse igualmente considerada entre os investigadores ingleses, mas de maneira diferente. Admitiam afinidades raciais nórdicas ou arianas, mas consideravam igualmente que eram herdeiros das melhores qualidades biológicas e culturais dos povos que sucessivamente invadiram o seu território (romanos, saxões, escandinavos, normandos, etc.), dando origem a um povo e cultura híbridos.

Childe define cultura arqueológica como "certos tipos de vestígios — recipientes, utensílios, decorações, ritos funerários, tipos arquitectónicos — que aparecem associados de forma recorrente" (1929). As culturas definiam-se a partir dos artefactos que as constituíam.

A ideia de cultura assim apresentada é normativa, em função de dois presupostos:

1) os objectos são expressões de normas culturais, ou seja, de ideias que existem nas mentes dos indivíduos;

2) que tais normas definem o que é a "cultura".

Considera assim que a pré-história europeia correspondia a um mosaico de culturas. A distribuição geográfica dos vestígios — "fósseis-directores" — e a sua representação cartográfica era importante. Associou este conceito à cronologia de Oscar Montelius e à crença de que na pré-história as inovações tecnológicas se tinham difundido a partir do Próximo Oriente até à Europa — difusionismo.

Gordon Childe tem uma perspectiva funcionalista da cultura material. A cerâmica doméstica, os motivos decorativos, os ritos funerarios, etc., reflectiriam a identidade cultural de cada grupo e permitiria a identificação de grupos étnicos específicos. O conceito é politético, isto é, o que define a cultura é a ocorrência de um conjunto de características em simultâneo.

A difusão de certos artefactos permitiria a identificação de outras culturas vizinhas e a

definição das suas cronologias. A abordagem dos aspectos relativos à organização política, social e económica, assim como as crenças religiosas, não estão completamente ausentes, mas são mais limitadas.

A "mudança cultural", tal como em em O. Montelius, era explicada através da difusão e da migração. A continuidade cultural atribuía-se à ausência daqueles factores externos. Não se considerava neste processo a própria dinâmica das sociedades.

Estas ideias têm larga repercussão na Europa, constituindo a maneira de abordar o passado pré-histórico até aos finais dos anos 60. O objectivo principal dos arqueólogos era sobretudo identificar povos pré-históricos sem nome por meio das culturas arqueológicas

e definir a sua origem, movimentos e interacção.

A perspectiva é histórico-culturalista (dimensão histórica da arqueologia) potenciando o estudo dos povos individuais. As sínteses produzidas tendem a ser descritivas, isto é, descrevem-se as fases e áreas em que se produzem mudanças culturais. A pré-história tradicional via-se como uma crónica de acontecimentos, não muito diferente da história tradicional.

O modelo difusionista de Montelius-Childe será posto em causa por Colin Renfrew,

cujos trabalhos valorizaram a superioridade tecnológica da Europa nos tempos pré-históricios:

defende o desenvolvimento da metalurgia em pólos independentes, nomeadamente na Europa, e a anterioridade das construções megalíticas de Malta e da Europa relativamente aos monumentos do Próximo Oriente. Preconiza o indigenismo (origem local). A perspectiva

é neoevolucionista, identificando-se com a Arqueologia processual.

O modelo histórico-culturalista, favorável às histórias nacionais, teve repercussões na

investigação mundial: China, Japão, Índia, México, Próximo Oriente e Estados Unidos da América.

Bibliografia:

Bruce G. Trigger, A History of Archaeological Thought, Cambridge University Press, 1989. Versão em castelhano: Historia del Pensamiento Arqueológico, Barcelona, Editorial Crítica, 1992, pp. 144-196 (cap. 5. La Arqueología Histórico-Cultural). Jorge de Alarcão, Para uma Conciliação das Arqueologias, Porto, Edições Afrontamento, 1996, pp. 9-10. Jorge de Alarcão, A Escrita do Tempo e a sua Verdade, Lisboa, Quarteto, 2000, pp. 47-85 (cap. 3. Para uma Epistemologia da Arqueologia). Nuno Ferreira Bicho, Manual de Arqueologia Pré-histórica, Lisboa, Edições 70, 2006, pp. 49-81 (cap. 2. Desenvolvimento e consolidação da metodologia e teorias arqueológicas).

NOVA ARQUEOLOGIA/ ARQUEOLOGIA PROCESSUAL

Escola de pensamento — "Nova Arqueologia"/ "Arqueologia Processual" (esta última expressão foi adoptada na Inglaterra) — que dominou, no aro anglo-americano, a investigação arqueológica durante os anos 60 e 70.

Destacam-se neste movimento: Sally e Lewis Binford ("Archaeology as Anthropology", 1962; "A consideration of archaeological research design", 1964; New Perspectives in Archaeology, 1968); David Clarke (Analytical Archaeology, 1968); Colin Renfrew (Before Civilisation. The Radiocarbon Revolution and Prehistoric Europe, 1973).

O movimento revela múltiplas influências:

- da Antropologia Cultural, destacando-se Leslie White, autor de The Science

of Culture, onde se defendia uma perspectiva científica da Arqueologia e a ideia de cultura como sistema; Julian Steward, outro antropólogo, com os conceitos de ecologia cultural e de

adaptação;

- da Teoria Geral dos Sistemas, com destaque para Walter W. Taylor, que

nos seus trabalhos propunha a ideia de "uma abordagem conjuntiva", nomeadamente em A

Study of Archaeology, datado de 1948.

A "Nova Arqueologia" reuniu um certo número de investigadores insatisfeitos com a

situação da Arqueologia. Há de facto um conjunto de ideias comuns, mas também perspectivas diversas. Essa insatisfação resumia-se fundamentalmente na expressão: "mais

ciência e mais antropologia".

A história cultural que então se fazia era vista por estes investigadores como algo de

"acientífico". Na sua opinião a investigação arqueológica até aos inícios dos anos 60 resumia- se a cada vez mais dados, que, por outro lado, não se traduziam em melhores ideias sobre o passado.

Os dados, na perspectiva dos "novos arqueólogos", deveriam servir para testar hipóteses e obter generalizações (explicações universais); na sua opinião, a perspectiva histórico-culturalista parecia esquecer as pessoas que produziam os objectos. Contestava-se também que o conceito de "cultura arqueológica" tivesse uma correspondência com "povos do passado".

Aspectos fundamentais da Nova Arqueologia:

1. Evolução cultural

As sociedades podiam classificar-se segundo diferentes níveis de integração, que iam do simples ao complexo. Nesta perspectiva admite-se a evolução das sociedades de um nível para outro: sociedades de bando, sociedades tribais, chefados e estados (Elman Service, 1962); sociedades igualitárias, sociedades hierarquizadas ou escalonadas, sociedades estratificadas, sociedades estatais (Morton Fried, 1967).

Os "novos arqueólogos" pretendiam conhecer as dinâmicas internas das sociedades; a expressão mais utilizada é a de "trajectória cultural". A noção de evolução permitia as tão desejadas "generalizações" (explicaçõs gerais; pretensão nomotética), em vez de se centrarem nos aspectos particulares das culturas, como acontecia antes (arqueologia histórico-culturalista). Duas sociedades com culturas materiais diversas (técnicas construtivas, tipos de habitação, cerâmica, jóias, túmulos, etc.) podiam ser comparáveis, por se encontrarem no mesmo nível evolutivo em termos organizativos.

Neste sentido, era possível fazer generalizações sobre a evolução, por exemplo, das sociedades de chefatura no sentido das sociedades estatais. É aqui evidente a influência da Antropologia neoevoluconista, destacando-se os modelos de organização das sociedades de Elman Service (1962) e Morton Fried (1967), bem como, na Europa, a contribuição de Colin Renfrew (1991), que procurou sintetizar e aplicar os diferentes níveis de integração social da Antropologia Cultural às situações observadas pelos arqueólogos (a partir da cultura

material): grupos móveis de caçadores-recolectores, sociedades segmentárias, chefados, estados.

2. Teoria sistémica. A cultura é vista como um sistema

Lewis Binford (1964) definiu "cultura" como "a forma extrasomática de as pessoas se adaptarem ao meio ambiente". Queria com isto dizer que, enquanto que os animais se adaptam ao meio através dos seus corpos — ex.: ursos polares com peles grossas e pelo espesso —, os seres humanos adaptam-se ao meio através da cultura; as soluções culturais são exteriores ao corpo, por isso as designa de "extrasomáticas". Assim, as mudanças nos sistemas culturais interpretavam-se como respostas adaptativas a alterações ocorridas no meio ambiente ou nos sistemas culturais adjacentes e competidores (perspectiva ecossistémica).

Neste sentido, as culturas eram não um conjunto de características que se identificam com as ideias de um grupo, mas sim um sistema, comparável a outros sistemas do mundo físico e animal, em que as diferentes partes (subsistemas) estavam em interacção (que se relacionam uns com os outros). O sistema cultural estava por outro lado em interacção com o sistema ambiental.

Esta perspectiva permitia chegar igualmente às generalizações. Culturas diferentes podiam ser semelhantes ao nível dos sistemas sociais básicos. Por outro lado, considera-se que o estudo dos diferentes aspectos do sistema cultural permitiria chegar à vida religiosa e social dos povos do passado, coisa que a arqueologia tradicional (histórico-culturalista) julgava não conseguir através da cultura material.

3. Meio envolvente

A cultura era adaptativa em relação ao meio envolvente. Era necessário conhecer o

que existia em torno dos povos (das sociedades) e dos próprios objectos. Esta perspectiva conduz a um interesse pelo materialismo cultural (os aspectos materiais prevalecem sobre as

ideias), a ecologia cultural e as formas de economia de subsistência. Compreende-se assim

o interese pelo estudo das faunas e floras antigas (arqueozoologia e paleobotânica),

climatologia, datação pelo carbono 14, dendrocronologia, análise de materiais, estudos pedológicos (solos), petrográficos, etc.

4. Arqueologia científica

Considera-se que a perspectiva tradicional era muito limitada, porque condicionada pelas técnicas da história tradicional, em que as culturas ocupavam o lugar dos grandes actores da história, com o objectivo de conhecerem acontecimentos particulares no tempo. A verificação das hipóteses, como nas outras ciências, daria uma dimensão mais científica à Arqueologia.

5.

Noção de processo cultural

O

conceito de "processo" é fundamental na "Nova Arqueologia". As expressões de

"arqueologia processual" e "processualismo", difundidas sobretudo em Inglaterra, explicam a importância deste conceito para os "novos arqueólogos".

Ao invés da descrição, considerada própria da arqueologia tradicional (como também

da História), pretende-se agora a explicação. Explicar a substituição de uma cultura por outra,

ou a expansão, mais rápida ou mais lenta, de uma inovação (metalurgia, por ex.). Este conceito relaciona-se com o evolucionismo cultural a que já se fez referência.

Procurava-se igualmente compreender os processos fundamentais. Não interessava tanto a decoração de um vaso cerâmico, mas muito mais ver o vaso cerâmico como objecto de trocas (comércio), indicador de especialização artesanal, capacidade teconológica (técnicas de fabrico), etc. Fala-se agora em "redes de comércio", que têm a ver com a especialização funcional, organização social, economia, etc. Deseja-se a identificação da mudança cultural

na longa duração, aproximando-se neste sentido, dos "ciclos longos" da História trazida pelo movimento dos Annales (François Braudel, etc.).

6. Terminologia rigorosa

O arqueólogo deverá ser explícito (claro) relativamente àquilo que pretendia atingir (objectivos bem definidos) e preciso no uso da terminologia.

Recusa-se a intuição, como também os pressupostos implícitos. Como exemplo: a classificação dos objectos (Tipologia), bem como outros conceitos da arqueologia tradicional, como conjunto, cultura, etc., deviam ser claramente definidos. O mesmo deveria acontecer relativamente aos trabalhos de escavação arqueológica (ou outros trabalhos). Preconiza-se a definição prévia dos problemas a resolver com a investigação, valorizando-se os procedimentos científicos próprios de qualquer ciência. Escavar por escavar não faria qualquer sentido. O cientista verifica hipóteses específicas, elaboradas previamente à escavação. Novamente a ideia da arqueologia como ciência.

7. Variabilidade

Compreensão da ideia da variação, que passava pelo estudo do material arqueológico em termos estatísticos (importância da quantificação e dos métodos matemáticos, como a Estatística). Em vez do estudo das maiores e mais espectaculares estações arqueológicas (ou dos objectos mais belos), como pretensamente acontecia no passado, defende-se o estudo sistemático de todas as estações de uma região para se compreender o sistema de ocupação do território. Neste sentido seria necessário aperfeiçoar as teorias e técnicas de amostragem, aplicando-se, na impossibilidade evidente do estudo da totalidade das estações de um território, métodos aleatórios de amostragem.

A "Nova Arqueologia"

e a"Teoria de Alcance Médio" (Middle-Range Theory) ou "Teoria da Ligação"

Contrariamente a outras ciências sociais, como a Sociologia, a Antropologia, a Geografia Humana, a Economia, etc., a Arqueologia não pode observar directamente o comportamento das pessoas que estuda. Em vez disso, os arqueólogos devem inferir esses comportamentos e as ideias a partir dos restos materiais deixados pelas pessoas, bem como do impacto ambiental resultante das suas actvidades.

É neste contexto que tem particular importância para a "Nova Arqueologia" a "Teoria

de Alcance Médio" ou "Teoria da Ligação" de Lewis Binford.

As teorias de nível médio são definidas como generalizações que procuram identificar as regularidades que existem em múltiplos casos entre dois ou mais conjuntos de variáveis, enquanto que as teorias de nível alto, ou teorias gerais — que Marvin Harris designou de "estratégias de investigação" e David Clarke chamou de "modelos de controlo" —, são definidas como "regras abstractas que explicam as relações entre as proposições teóricas que são relevantes para o conhecimento dos principais tipos de fenómenos" (ex.: o evolucionismo biológico/ darwinismo/ teoria sintética da evolução; o materialismo histórico; o materialismo cultural e a ecologia cultural; etc). Por outro lado, as teorias de nível baixo são descritas com investigações empíricas com generalizações, que se baseiam em regularidades que se observaram repetidamente e que podem ser refutadas por novas observações (classificação tipológica de artefactos, identificação de culturas arqueológicas específicas, demonstrações baseadas na evidência estratigrafia, e a obsevação, por exemplo, de que a abertura dos dólmenes clássicos está orientada genericamente para Nascente) (Trigger, 1989).

Lewis Binford utilizou a expressão "Teoria de Alcance Médio" à investigação dos processos de formação do registo arqueológico, visando conhecer os elementos dos sistemas do passado que formaram os padrões que se observam arqueologicamente.

A aplicação destes resultados permitiria ultrapassar o abismo existente entre o

Passado e o Presente, ou seja, um conjunto de conhecimentos teóricos e práticos (metodologias) que permitissem fazer a ligação entre o passado dinâmico e o registo arqueológico do presente, que se apresenta de forma estática, ou seja, "compreender e estudar os sistemas que transformaram os dados culturais em registo arqueológico".

Isto seria possível através do que Binford designa como "estudos actualistas" em contextos etnográficos e históricos (feitos por arqueólogos), permitindo-nos observar directamente a ligação entre a dualidade do momento dinâmico (inicial) e o momento estático (de chegada).

Neste contexto é evidente a importância da Etnoarqueologia e da Analogia, como também da Arqueologia Experimental, assim se explicando os trabalhos de campo realizados entre os Nunamiut (Lewis Binford), !Kung (John Yellen), Yiwara (Richard Gould), etc.

O estudo dos processos de formação organiza-se em três tipos principais:

- processos culturais, responsáveis pela formação do registo arqueológico

(modo de procura e exploração dos recursos e consequente produção, utilização, manutenção e abandono dos artefactos, criação de determinados padrões no espaço (intra e inter-sítio);

- processos culturais, que alteram o registo original, devido a actividades,

quer de pessoas contemporâneas da deposição, quer dos arqueólogos na altura da recolha dos dados;

- processos naturais, que alteram, confundem ou preservam o registo original

(acções geológicas, climáticas, etc. ), que corresponderão aos também designados processos pós-processuais.

A "Nova Arqueologia" e a Teoria Geral dos Sistemas:

— a cultura como sistema

A definição de cultura para a Nova Aqueologia era muito diferente do conceito

desenvolvido pela Arqueologia histórico-culturalista.

Para a Nova Arqueologia a cultura era um sistema.

É aqui clara a influência de conceitos que se desenvolveram nos anos 40 no âmbito da

Biologia (Ludwig von Bertalanffy), e que procuravam definir as regras subjacentes ao funcionamento de entidades tão diversas como termostatos, computadores, glaciares, organismos vivos e sistemas sociais. Admitia-se que, em princípio, todos eles se podiam conceptualizar como sistemas formados por partes interactivas e que seria possível, sem se ter em conta a sua natureza específica, encontrar as regras de funcionamento dos elementos mais importantes de cada sistema (Bertalanffy, 1969).

Um sistema foi definido por David Clarke (Analytical Archaeology) como "uma rede intercomunicante de atributos que formam um conjunto complexo" (Clarke, 1978, 495). Kent Flannery e Joyce Marcus têm uma perspectiva um pouco diferente: os sistemas caracterizam-se pelo circulação de matéria, energia e informação entre os seus componentes.

Agora, em vez de se procurarem normas partilhadas (perspectiva histórico- culturalista), os defensores da teoria dos sistemas procuram identificar os diferentes elementos ou subsistemas e estudam as relações que se produzem entre eles. Em vez de olharem para "dentro" do que as pessoas pensam, preferem olhar para "fora", para o meio exterior, para investigarem como se adaptou o seu sistema cultural.

A teoria dos sistemas permitia aos arqueólogos ultrapassar as limitações das análises

tradicionais da Antropologia social e das estruturas estáticas, estudando não só a manutenção da estrutura como também os processos que lhe deram origem.

Na perspectiva sistémica da cultura destacam-se os seguintes aspectos:

1. O sistemas estão adaptados ao meio envolvente, seja o meio natural, seja o meio

social. Relembramos a concepção de cultura de L. Binford: a cultura era vista como uma forma de adaptação extra-somática ao meio pelos seres humanos. É aqui importante o conceito de adaptação.

2. Os sistemas, na perspectiva da Nova Arqueologia, são "observáveis", ou seja,

podem ser detectados no registo arqueológico, porque dependem da circulação de materiais e do fluxo de informação. Será possível, assim, avaliar o "subsistema comercial" de um grupo cultural (ex.: vasos cerâmicos, em diferentes contextos arqueológicos, que foram objecto de comércio), ou o "subsistema de subsistência", avaliando a dimensão e as potencialidades do território de uma sociedade, ou a quantidade de carne consumida, com base nos ossos que se conservaram.

3. Os subsistemas culturais são interdependentes: a subsistência, o comércio, os

rituais, os subsistemas sociais, relacionam-se uns com os outros. Como consequência disto, a ocorrência de uma alteração numa parte do sistema afecta o conjunto dos subsistemas, originando uma resposta positiva ou negativa. Uma resposta negativa resultará no restabelecimento do equilíbrio (homeostasis); uma resposta positiva (que se caracteriza pela ampliação do efeito da mudança, afectando outros subsistemas), resultará na ruptura do sistema. Ex.: uma alteração climática (do sistema ambiental) poderá ter efeitos no sistema cultural, provocando uma ruptura e uma nova situação de equilíbrio; as técnicas desenvolvidas pelo homem, intervindo mais profundamente na Natureza, poderão igualmente ocasionar uma ruptura no sistema ambiental.

4. Os subsistemas estão em relação uns com os outros. Cada subsistema tem uma

função específica. Ex.: a religião presta legitimidade à estratificação social (o status social derivará do acesso aos deuses); a intensificação da produção agrícola poderá relacionar-se com a necessidade de produzir excedentes com o objectivo de se obterem bens de prestígio.

Neste sentido, será possível identificar as formas de organização social, de poder, etc., sem ser necessário conhecer profundamente os significados simbólicos, mais difíceis de verificar arqueologicamente. Basta observar o tamanho e as formas dos templos, os objectos de carácter ritual, etc. Admite-se que o conhecimento de um ou mais subsistemas permitirá identificar indirectamente alguns aspectos dos outros subsistemas, eventualmente mais difíceis de estudar (as religiões, rituais, normas sociais, etc.) através da cultura material.

ARQUEOLOGIA COGNITIVA

(ou Arqueologia do Conhecimento/ Processualismo Cognitivo)

A Arqueologia Cognitiva deriva da Arqueologia processual.

Alguns arqueólogos, reconhecendo as limitações da Nova Arqueologia e que esta não valorizava suficientemente a maneira de pensar das pessoas do passado, procuram explorar novos caminhos que conduzissem àquele conhecimento.

Trata-se de introduzir perspectivas mais idealistas (os pensamentos e as ideias são mais importantes que o mundo material) num paradigma processual.

A Arqueologia Cognitiva será assim uma extensão da Arqueologia processual.

Esta nova linha tem por principais mentores Colin Renfrew e E. Zubrow (The Ancient Mind: Elements of Cognitive Archaeology, Cambridge University Press). Estes investigadores admitem que é possível, por exemplo, identificar comportamentos religiosos

a partir do registo arqueológico. Consideram por outro lado que não existe contradição entre defender uma perspectiva científica para a teoria arqueológica e a necessidade de conhecer

a mentalidade dos povos antigos.

Nos Estados Unidos da América este ponto de vista é desenvolvido igualmente por Kent Flannery e Joyce Marcus. Estes investigadores procuraram estabelecer as relações funcionais entre o "subsistema ideológico" e as outras áreas dos subsistemas culturais; insistiram, por outro lado, na compatibilidade entre o estudo dos aspectos económicos e do povoamento e aquela perspectiva.

"O nosso primeiro esforço [em Arqueologia cognitiva: Flannery e Marcus, 1976] teve como objectivo melhorar a

compreensão dos antigos índios zapotecas, combinando a suas crenças cosmológicas com uma análise mais tradicional

das suas formas de subsistência e povoamento

comportamentos dos antigos zapotecas relativamente à subsistência se, em vez de nos limitarmos ao estudo da agricultura e do sistema de irrigação, tivéssemos em conta o que se sabia sobre as noções dos zapotecas sobre os raios, a chuva, os sacrifícios com sangue e a "ética da expiação". Podemos de facto avaliar estes aspectos graças à riqueza das crónicas que relatam testemunhos presenciais espanhóis do século XVI" (Flannery e Marcus, 1993: 260).

Procurámos simplesmente mostrar que se pode explicar melhor os

Flannery e Marcus admitem que o estudo das cosmologias, religião, ideologia e iconografia são áreas legítimas da análise cognitiva, podendo ser suportadas por dados empíricos.

O argumento central destes autores é de que será possível "ler os pensamentos" sem se afastarem excessivamente da perspectiva processual, ou seja, a procura de uma Arqueologia mais científica baseada nos modelos sistémicos.

Outros autores consideram no entanto que esta abordagem põe em causa a própria arqueologia processual.

Bibliografia:

Bruce G. Trigger, A History of Archaeological Thought, Cambridge University Press, 1989. Versão em castelhano: Historia del Pensamiento Arqueológico, Barcelona, Editorial Crítica, 1992, pp. 271-306 (cap. 8. El neoevolucionismo y la Nueva Arqueología). Jorge de Alarcão, Para uma Conciliação das Arqueologias, Porto, Edições Afrontamento, 1996, pp. 9-11 e segs. Jorge de Alarcão, A Escrita do Tempo e a sua Verdade, Lisboa, Quarteto, 2000, pp. 27-45 (cap. 2. Sobre o discurso arqueológico). Nuno Ferreira Bicho, Manual de Arqueologia Pré-histórica, Lisboa, Edições 70, 2006, pp. 49-81 (cap. 2. Desenvolvimento e consolidação da metodologia e teorias arqueológicas).

A REACÇÃO PÓS-PROCESSUAL

Nos finais dos anos 70 e inícios dos anos 80 um número crescente de arqueólogos mostrava-se insatisfeito com a Arqueologia que então se fazia.

Esta insatisfação derivava:

1) da percepção da importância dos factores cognitivos (ideias) para a compreensão do passado;

2) das dificuldades inerentes à epistemologia positivista;

3) do desencanto e dificuldades de aplicação da "Teoria de Alcance Médio" desenvolvida pela Nova Arqueologia.

Desenvolvem-se

destacando-se:

O Estruturalismo

assim

novas

abordagens

cujas

origens

teóricas

são

múltiplas,

O estruturalismo constitui uma das vias pelas quais o idealismo (supremacia das

ideias sobre as materialidades) exerceu uma forte influência no pensamento arqueológico.

Esta corrente teórica contribuiu para o desenvolvimento de uma mais viva consciência

crítica.

Para os funcionalistas a cultura é como um "organismo", em que as diferentes partes do corpo/ sociedade desempenham diferentes funções, adaptando-se o conjunto ao meio envolvente; a cultura é uma questão de adaptação ao meio (físico, social). Para os estruturalistas, a cultura é como a linguagem, uma forma de expressão, um sistema (oculto, cognitivo) de significados.

O estruturalismo começou por ser um conjunto de ideias proposto por Fernando de

Saussure (1857-1913) aplicado à linguística.

Entre outros aspectos, destaca-se: para Saussure, uma linguagem compõe-se de regras ocultas, que utilizamos mas que não expressamos. Escrevemos textos utilizando regras gramaticais, que são de todos conhecidas (ou suficientemente conhecidas) permitindo-nos a descodificação de um texto, ou seja, lê-lo. Todos entendemos estas regras a um nível profundo e implícito e não a um nível superfícial e explícito. Utilizamo-las correctamente para descodificarmos um texto.

Em resumo: as regras que regem a linguagem permanecem ocultas nas profundezas do nosso cérebro. Se quisermos explicar as diferentes formas da linguagem é necessário referirmo-nos às regras (cognitivas) ocultas responsáveis pela formação das frases.

Os arqueólogos influenciados pelo estruturalismo sugerem que algo de parecido ocorre com os objectos materiais que descobrimos através das escavações arqueológicas; os objectos serão, nesta perspectiva, outra forma de expressão cultural.

Explicar uma cultura implica desvendar as regras ocultas que deram origem às formas culturais. Os modelos estruturalistas têm sido aplicados sobretudo à arte rupestre (paleolítica e mais recente) e à decoração cerâmica.

Para além desta possibilidade metodológica (classificação dos materiais) a postura do estruturalista é também diferente da do funcionlista.

Um funcionalista (sistémico) perguntará: "como funciona este subsistema no conjunto (sistema) da cultura?" e "como é que este subsistema ajuda a que o sistema no seu conjunto funcione ou se adapte melhor ao meio envolvente?".

esta

estrutura?" e "o que é que nos dizem estas regras sobre a forma desta cultura ver o mundo?".

O

arqueólogo

estruturalista

perguntará:

"que

regras

subjacentes

regulam

O marxismo

pensamento

arqueológico.

Na sua forma original o marxismo é uma filosofia materialista: as coisas materiais

são mais importantes que as ideias. Nesta perspectiva, a história da humanidade tem a ver sobretudo com o desenvolvimento da capacidade produtiva da espécie humana, com a crescente habilidade humana para produzir objectos materiais. O próprio K. Marx dizia que os seres humanos são o que fazem, não o que pensam.

Os marxistas consideram que as pessoas de qualquer época produzem as coisas de que

precisam de uma forma diferenciada que Marx denominou "modo de produção". Falam, assim, de um modo de produção tribal, asiático, antigo (baseia-se no trabalho escravo), feudal (dependente do trabalho camponês não livre) ou capitalista. Cada modo de produção gera um

tipo diferente de antagonismos de classe: nas sociedades antigas, entre senhores e escravos; no feudalismo, entre servos e senhores proprietários de terras; no capitalismo, entre

O

marxismo

exerceu

igualmente

uma

profunda

influência

no

proletários e burgueses. Estes antagonismos compreender-se-ão melhor se distinguirmos as forças de produção (matérias-primas, ferramentas ou máquinas, etc.) das relações sociais de produção (administração de uma fábrica, por exemplo). Para Marx haverá sempre antagonismo e conflito nas sociedades humanas. No entanto, com o tempo, estes antagonismos serão capazes de destruir a estrutura estabelecida, surgindo sobre as suas ruínas uma nova formação social.

Destaca-se na filosofia marxista, com especial incidência no desenvolvimento do pensamento arqueológico:

1. O marxismo clássico partilha muitos paralelos com a perspectiva positivista da

ciência, mas contrariraimente ao positivismo, Marx pensa que os intelectuais não devem separar o pensamento da acção política. Nesta perspectiva, os arqueólogos marxistas admitem uma relação entre a Arqueologia e a Política. A prática arqueológica e os modelos interpretativos da sua disciplina são vistos como uma forma de se expressarem politicamente.

2. O processo que conduz à mudança social é um processo dialéctico (contradições

ou conflitos de ideias, ou de grupos). Um modelo dialéctico depende do desenvolvimento de contradições e conflitos no interior de uma determinada formação social.

3. Relevam a importância da ideologia; esta serve para:

1) legitimar a ordem social;

2) tornar universais interesses sectoriais;

3) esconder a realidade, negando, por exemplo, as desigualdades económicas e

sociais.

Na Arqueologia, o interese pelo estudo da ideologia no passado é visível, por exemplo, na identificação de sistemas de crenças que serviam para legitimar a posição das elites nas sociedades antigas, ou a emergência da estratificação social e de poderes centralizados.

Em resumo:

- para os processualistas, os objectos arqueológicos constituem verdadeiros

testemunhos dos diferentes componentes do sistema cultural que existiu no passado. Os objectos constituem um registo fóssil do comportamento humano. Muitos processualistas pensam que não há maneira de abordar de modo científico os pensamentos, pelo que não é possível relacionar a cultura material com as ideias dos seus produtores, ainda que C. Refrew, K. Flannery, etc., considerem a análise de "variáveis cognitivas" num paradigma processual;

- para os estruturalistas, os objectos constituem testemunhos de um sistema

de crenças, num sentido amplo. Do mesmo modo que a linguagem se estrutura com regras que permanecem ocultas, o mesmo acontece com a cultura material. Os estruturalistas interessam-se pelas contradições entre a forma dos objectos, a sua disposição nas sepulturas, a oposição masculino/ feminino, ou natureza/ cultura. Não sendo possível identificar as regras ocultas, esta tradição intelectual pensa que não é possível verificar nenhum tipo de interpretação sobre o passado. Ao invés da "padronização" da arqueologia processual os estruturalistas tendem a desenvolver interpretações múltiplas e muito complexas;

- os arqueólogos marxistas interessam-se pelas contradições e desigualdades

existentes no seio das sociedades e a importância da ideologia; a sua atenção centra-se na identificação de práticas funerárias que tenham servido para legitimar ou mascarar o que realmente aconteceu em vida.

Outras influências:

A Fenomenologia

— aspectos fundamentais da fenomenologia

"A
fenomenologia
 — 
no
sentido
específico
em
 que
esta
palavra
é
empregue
para
 designar
uma
corrente
da
filosofia
contemporânea
 — 
 concebe
e
exerce
a
filosofia
como
 análise
 da
 consciência
 na
 sua
 intencionalidade .
 Dado
 que
 a
 consciência
 é
 intencionalidade ,
pela
simples
razão
de
ser
sempre
consciência
de
alguma
coisa,
a
sua
 análise
é
 a
análise
de
todos
os
modos
possíveis
como
uma
coisa
poder
ser
um
 dado
 para
a
consciência 
(no
sentido
de
percebido,
pensado,
recordado,
simbolizado,
amado,
 desejado,
etc.)
e,
 portanto,
 de
 todos
 os
 tipos
 de
 sentido
 ou
 de
 validade
 que
 podem
 ser
 reconhecidos
aos
objectos
de
consciência.
A
análise
fenomenológica
da
consciência
só
se
 poderá
 então
 efectuar
 se,
 em
 primeiro
 lugar,
 a
 própria
 consciência
 não
 for
 assumida
 como
uma
"realidade",
ao
mesmo
título
das
outra s
realidades

 do
mundo,
mas
sim
como
 fonte
ou
princípio
delas,
já
que
 a
realidade
é
apenas
um
dos
modos
como
o
objecto
 pode
 ser
 dado
 à
 consciência ;
 e,
 em
 segundo
 lugar,
 e
 consequentemente,
 se
 a
 consciência
assume
em
relação
ao
mundo
a
atitude
de
um
espectador
desinteressado,
ao
 qual
 os
 objectos
 se
 apresentam
 como
fenómenos ,
 isto
 é,
 nos
 modos
 esprecíficos
 como
 eles
são
dados,
mas
que
não
se
envolve
nas
vicissitudes
sofridas
pelos
próprios
objectos.
 Qualquer
investigação
autenticamente
racional
será,
deste
ponto
de
vista,
 uma
via
que
 permite
 aos
 objectos
 da
 consciência
 revelarem‐ se
 no
 seu
 "vedadeiro
 eu"
 ou
 na
 sua
 essência:
o
conceito
apofântico
da
razão,
isto
é,
da
razão
como
manifestação
ou
revelação
 do
ser,
toma
assim
uma
importância
essencial
na
fenomenologia. 


Na
obra
de 
Husserl,
a
filosofia
enquanto
indagação
fenomenológica
apresenta
as
 seguintes
características:


1)
É
uma
 ciência
 teorética
(contemplativa)
e
 rigorosa ,
isto
é,
"fundamentada",
no
 sentido
de
"dotada
de
fundamentos
absolutos". 


2)
É
uma
 ciência
 intuitiva 
porque
tenta
apreender
 essências
que
se
apresentam
 à
 razão
 de
 uma
 forma
 análoga
 àquela
 em
 que
 as
 coisas
 se
 apresentam
 à
 percepção
 sensível.
Este
aspecto
da
filosofia
reflecte
o
carácter
apofântico
da
razão.


3)
É
uma
 ciência
 não ­ objectiva
e,
por
isso,
completamente
diferente
das
outras
 ciências
particulares,
que
são
ciências
dos
factos
ou
das
realidades
(físicas
ou
psíquicas),
 enquanto
que
ela
prescinde
de
qualquer
facto
ou
realidade
e
se
preocupa
apenas
com
as
 essências.


4)
 É
 uma
 ciência
 das
 origens
 e
 dos
 primei ros
 princípios ,
 dado
 que
 a
 consciência
 contém
 o
 sentido
 de
 todos
 os
 possíveis
modos
 como
 as
 coisas
 podem
 ser
 dadas
ou
constituídas.


5)
 É
 uma
 ciência
 da
 subjectividade 
 porque
 a
 análise
 da
 consciência
 se
 dirige
 para
o
eu
como
sujeito
ou
pólo
unificador
de
to das
as
intencionalidades
constitutivas. 


6)
É
uma
 ciência
impesoal 
porque
"os
seus
colaboradores
não
têm
necessidade
 da
prudência,
mas
de
dotes
teoréticos".


Estes
aspectos
definem
a
 filosofia
na
 forma
como
ela
 foi
entendida
por
Hurssel,
 mas
não
o
conjunto
do
movimento
fenomenológico,
dentro
do
qual
cada
uma
das
várias
 manifestações
assume
habitualmente
um
ou
mais
destes
aspectos.
A
característica
mais
 comummente
 aceite
 é
 a
 segunda,
 que
 exprime
 o
 conceito
 que
 em
 geral
 os
 fenomenologistas
 têm
 da
 razão
 como
 aut o ­revelação
 evidente
 do
 ser 
 e,
 por
isso,
 da
 filosofia
(que
é
actividade
racional
por
excelência)
como
explicação
de
todos
os
modos
 possíveis
das
manifestações
do
ser.
Este
conceito
é
sobretudo
utilizado
por
Meinong
e
 Hartamnn,
que
constituem
a
ala
realista 
do
movimento
 fenomenológico,
e
pelo
próprio


Scheler,
 que
 o
 utilizou
 na
 ética,
 entendida
 como
 campo
 da
 automanifestação
 evidente
 dos
 valores
 objectivos.
 O
 próprio
 existencialismo
 compartilha,
 como
 veremos,
 este
 conceito
de
razão
(se
bem
que
isto
se
limite
 às
suas
correntes
fenomenológicas);
mas
o
 existencialismo
 distingue‐ se
 da
 filosofia
 fenomenológica
 de
 Hursserl
 por
 considerar
 o
 modo
de
 ser
do
homem
como
 tal,
determinando
este
modo
de
ser
não
como
"alma"
ou
 "subjectividade"
 transcendental,
 mas
 como
 estar
 no
 mundo.
 Substitui
 deste
 modo
 a
 análise
das
estruturas
subjectivas,
que
constituem
o
tema
próprio
da
fenomenologia
de
 Husserl,
pela
análise
das
estruturas
que
ligam
o
homem
ao
mundo
e
que
fazem
um
todo
 com
o
mundo
que
se
manifesta
ao
homem."
 — 
Nicola
Abba gnano,
 História
da
Filosofia,
 vol.
12,
4ª
ed.,
Lisboa,
Editorial
Presença,
2001,
pp.
7‐ 8.


A Hermenêutica

É o estudo da forma de atribuir significado aos produtos culturais, ou sobre a maneira de interpretar as acções humanas e o seus resultados (por exemplo, os textos escritos, as actividades sociais, a arte ou a produção de objectos).

Nos anos 80 estas diferentes influências convergem em diferentes "arqueologias", geralmente integradas na denominada arqueologia pós-processual.

ARQUEOLOGIA PÓS-PROCESSUAL/ ARQUEOLOGIA INTERPRETATIVA

Ian Hodder dá origem ao que hoje se conhece como Arqueologia Contextual, inicialmente designada mesmo como "Arqueologia Simbólica".

Os primeiros trabalhos de Ian Hodder são realizados dentro do modelo processual. Hodder estava muito influenciado pela "Nova Geografia" e pelo trabalho de David Clarke sobre os modelos espaciais em Arqueologia. Utilizou a estatística e a simulação informática para desenvolver uma série de modelos espaciais relacionados com o comércio, os mercados e a urbanização das ilhas britânicas durante a Idade do Ferro e a romanização. Em meados dos anos 70 estava já desencantado com os resultados desta metodologia (I. Hodder e C. Orton, Spatial Analysis in Archaeology, 1976). Hodder convenceu-se então de que a única maneira de entender o que realmente mostravam os níveis arqueológicos passava por conhecer as atitudes e as crenças das pessoas.

Neste contexto:

1) duvida das potencialidades da "Teoria de Alcance Médio" da Nova

Arqueologia;

2) reafirma a ideia da importância das crenças das pessoas e do seu poder de simbolização; as culturas não poderiam interpretar-se unicamente em termos e adaptação ao meio e que a sua visão do mundo era também importante;

3) compreende que a cultura material era activamente manipulada pelas pessoas, ou seja, que as pessoas usavam os objectos de maneiras muito diferentes em função das estratégias sociais, negando assim que a cultura fosse apenas um reflexo passivo de um conjunto de normas.

Nos anos 80 a frase: "a cultura material deve observar-se como algo que contém significados" era muito comum. Os objectos não se resumem aos aspectos técnicos e formais numa perspectiva adaptativa ao meio. A compreensão da decoração cerâmica, das formas das casas, etc., implicava investigar os significados culturais que se "escondiam" por detrás dos aspectos técnicos e funcionais.

A designada Arqueologia Pós-processual integra um conjunto vasto de diferentes ideias e tradições. Alguns arqueólogos preferem a expressão "arqueologias interpretativas", valorizando-se exactamente a ideia de diversidade.

Caracterização geral do pensamento pós-processual:

1. Recusam a perspectiva positivista da ciência bem como a separação entre teoria

e dados. Por um lado, consideram que a Ciência não é a única forma de conhecimento, por outro, defendem que os dados já têm uma carga teórica. Nesta perspectiva, aproximam-se por vezes de concepções não positivistas de fazer ciência, nomeadadmente do Constructivismo Social (o conhecimento científico não constitui um corpus neutro de dados independente das práticas culturais e valores, mas que tem orgiem no seio das sociedades) nas suas variantes "dura" e "moderada". Consideram que os arqueólogos não devem demonstrar o que dizem e que a arqueologia positiva nunca conseguiu demonstrar cabalmente nada sobre o passado.

2. A interpretação é sempre hermenêutica (estudo dos significados). Quando os

arqueólogos interpretam objectos fazem-no atribuindo-lhes significados supondo que são os mesmos dos dos povos antigos que os fizeram e utilizaram. Os arqueólogos assumem significados e valores dos povos antigos.

3. Recusam a oposição entre materialismo (o mundo físico, material, tem mais

importância que as ideias; alguns marxistas usam os termos "marxismo" e "materialismo" de forma indistinta) e idealismo (os pensamentos antecedem as acções; o mundo da consciência é mais importante que o mundo material). Como exemplo: a ideia de paisagem. Numa perspectiva materialista a paisagem é avaliada em termos de recursos (caça, recolecção, agricultura) e outras potencialidades económicas; os pós-processualistas argumentam que as paisagens são observadas de forma diferente por pessoas diferentes. Recusam a perspectiva racional, economicista, que consideram carregada de conceitos modernos. Os povos antigos teriam perspectivas diferentes sobre o "real" numa paisagem. No passado, a percepção da paisagem estaria relacionada com a maneira de a percorrer e utilizar. A paisagem para os povos antigos dependeria das vivências quotidianas resultantes das actividades aí desenvolvidas, alterando-se com o tempo. Não será nada de fixo

4. Há que investigar os pensamentos e os valores do passado. Os arqueólogos,

segundo Hodder, praticam a empatia, põe-se na "pele" dos actores do passado, imaginam o

que os nossos antepassados poderão ter pensado. Neste sentido, Hodder põe em causa o "idealismo histórico" de R. G. Collingwood.

5. O indivíduo é activo. Considera-se que em muitas abordagens do passado os

indivíduos ficam reduzidos a meros elementos de um sistema adaptativo (são simples vítimas da envolvência) ou a um complexo de estruturas profundas. São absorvidos pelo conjunto social. Os pós-processualistas pretendem investigar as estratégias activas dos indivíduos. Consideram que é necessário conhecer as regras sociais, que não são seguidas passivamente mas que são criativamente alteradas pelos actores sociais. Por outro lado, defendem que é necessário estudar as sociedades de baixo para cima, e não de cima para baixo.

6. A cultura material é parecida com um texto. E um texto dirá coisas diferentes às

pessoas diferentes que o lêem. Um texto comportará diferentes significados, tal como a cultura material. Da mesma forma que não pensamos nas regras gramaticais quando lemos um texto, não pensamos nas regras subjacentes à produção ou uso de um objecto quando o observamos ou utilizamos. Neste sentido não há uma interpretação definitiva da cultura material, nem também uma leitura correcta ou incorrecta. Um texto pode ser "desconstruído" (expressão de Jacques Derrida) para mostrar que tem significados ocultos, tal como a cultura material. Advogam-se as interpretações múltiplas e negam a necessidade de alcançar uma conclusão definitiva.

7.

A importância do contexto. Para Hodder o contexto é o elemento central e

definidor da Arqueologia. As perspectivas pós-processuais são por isso muitas vezes apelidadas de "arqueologia contextual". Os significados dependem do contexto. O significado de um objecto dependerá do local em que se encontra (funerário, habitacional, lixeira, etc.) e das associações com outros objectos. Objectos semelhantes podem ser utilizados com significados diferentes de acordo com o contexto.

8. As interpretações que produzimos são feitas a partir do presente e contêm

significados políticos. A interpretação do passado é sempre política. A neutralidade científica

é para os pós-processualistas um mito. O que se diz sobre o passado são afirmações ou

presunções que se fazem sempre a partir do presente, comportando por isso juízos políticos e morais, por muito bem intencionados que sejam os investigadores. Não é possível o

distaciamento do que somos no presente.

ARQUEOLOGIA DO GÉNERO

Na arqueologia pós-processual está também presente a problemática do género, que é comum a outras disciplinas, particularmente a Sociologia, a Literatura, a Antropologia Cultural e a História, e que é paralela ao movimento feminista e à teoria feminista em geral.

O

impulso à discussão destas questões data dos anos 80 do século XX.

A

Arqueologia do Género abarca diversas questões que incluem:

1.

Correcção da perspectiva androcêntrica na Arqueologia

O

androcentrismo corresponde à crença de que os homens são o centro do mundo,

seja porque se considere que são os responsáveis exclusivos pela construção da sociedade, ou porque se atribua às mulheres um papel meramente marginal nesse desiderato. Como exemplo, o uso sexista na linguagem da palavra "homem" para designar a humanidade.

2. Crítica às estruturas políticas (governo) da Arqueologia

As arqueólogas feministas questionam a posição das mulheres no seio da profissão, que consideram discriminatórias: dificuldades de acesso ao emprego e promoção, bem como ao financiamento das universidades e centros de investigação. Alguns estudos apontam para o maior sucesso dos homens nos concursos de financiamento, etc.

3. Revisão da história da Arqueologia

Considera-se que o papel da mulheres arqueólogas é muitas vezes relegado para segundo plano. Destacam-se os grandes descobertas protagonizadas pelos homens, mas esquecem-se algumas contribuições também importantes de mulheres que se dedicaram à

investigação arqueológica, como Jacquetta Hawkes. De facto, alguns manuais recentes, como

o de Colin Renfrew e Paul Bahn foram revistos nestes aspectos.

4. A investigação do género em Arqueologia

Preconiza-se a investigação do papel da mulher no passado a partir da informação

arqueológica. O papel de homens e mulheres varia de cultura para cultura, e também no tempo. Considera-se que o género é uma construção social. O importante será questionar-se

e não considerar como adquirido certo tipo de divisões. Argumenta-se que na prática toda a Arqueologia está trespassada pela questão do género; as actividades desenvolvidas pelas

mulheres terão menos relevo nas narrativas históricas. A Arqueologia do género conduziu nestes últimos anos à revisão de certos temas arqueológicos, como a "arqueologia doméstica",

a "arqueologia das crianças" e a "arqueologia da sexualidade", assim como à reinterpretação do "doméstico" como elemento importante da vida social e política das sociedades do passado.

5. Crítica à natureza androcêntrica do conhecimento académico em geral

A "natureza falocêntrica do conhecimento". O sistema académico estabelecido

considera a "forma masculina" de pensar e actuar como legítima, em detrimento da forma de pensar feminina.

Bibliografia:

Bruce G. Trigger, A History of Archaeological Thought, Cambridge University Press, 1989. Versão em castelhano: Historia del Pensamiento Arqueológico, Barcelona, Editorial Crítica, 1992, pp. 309-342 (cap. 9. La explicación de la diversidad). Jorge de Alarcão, Para uma Conciliação das Arqueologias, Porto, Edições Afrontamento, 1996, pp. 9-10, e segs. Jorge de Alarcão, A Escrita do Tempo e a sua Verdade, Lisboa, Quarteto, 2000. Nuno Ferreira Bicho, Manual de Arqueologia Pré-histórica, Lisboa, Edições 70, 2006, pp. 49-81 (cap. 2. Desenvolvimento e consolidação da metodologia e teorias arqueológicas). V. M. Fernández Martínez, Una Arqueología Crítica. Ciencia, Ética y Política en la Construcción del pasado, Barcelona, Editorial Crítica, 2006, pp. 135-161 (cap. 5: Arqueología y feminismo). Nicola Abbagnano, História da Filosofia, vol. 12, 4ª ed., Lisboa, Editorial Presença, 2001. André Tomás Santos, Uma Abordagem Hermenêutica-Fenomenológica à Arte Rupestre da Beira Alta: o caso do Fial (Todela, Viseu), Viseu, Centro de Estudos Pré-históricos da Beira Alta, 2008 [Estudos Pré- históricos, vol. 13].

O POST-MODERNISMO E A ARQUEOLOGIA

O pensamento moderno refere-se à confiança na Ciência, na Verdade e no

Progresso, cujas origens mais distantes remontarão ao Renascimento.

Nos princípios do século XVII, o filósofo Francis Bacon (1561-1626) — muitas vezes considerado o fundador da Epistemologia científica —, afirmava que a finalidade da ciência era a melhoria da condição do ser humano na Terra e que a melhor forma de o fazer era observar a realidade e construir teorias que pudessem explicar os factos do presente e prever os do futuro.

Desde o início que os esforços da ciência não eram apenas compreender o mundo, mas também serem úteis à sociedade.

No mesmo sentido, Descartes pensava que o bem comum seria o resultado lógico do

trabalho científico.

Ao longo do século XVIII foi-se construindo o pensamento da "Ilustração", que colocava o ser humano como o centro do interesse científico no paradigma moderno. A ética passa gradualmente a tratar das relações com Deus, a regular as relaçõs pessoais e o resto da sociedade. A nova ciência racionalista procura gradualmente substituir a religião tradicional como a única fonte real de conhecimento. Neste contexto será de recordar a importância da Enciclopédia, dirigida por d'Alambert e Diderot.

Auguste Comte (1798-1857), o fundador da sociologia e do positivismo científico, afirmava a primazia dos factos "positivos" (os que existiam realmente), como característica da sua época (a fase "científica", substituindo as anteriores, "teológica" e "metafísica" na evolução da humanidade), identificando-a mesmo como uma autêntica religião (a religião "humanista" ou da "humanidade") que substituiria a antiga. Comte define o progresso na seguinte frase: "Saber para prever, prever para poder".

Com a chegada do século XX desenvolveu-se nas sociedades industriais uma fé quase religiosa na ciência, que alguns denominaram "cientificismo". A verdade em ciência é absoluta, todas as outras explicações são falsas. A verdade será adquirida, mais tarde ou mais cedo, é uma questão de tempo

A esta corrente mais cientificista opuseram-se então alguns pensadores defensores da impossibilidade do conhecimento absoluto, sobretudo nas ciências humanas, como Jean- Jacques Rousseau ("podemos ser homens sem ser sábios"), Mostequieu ou Tocqueville.

O pensamento post-moderno tem por base dois filósofos: Nietszche e Wittgenstein.

O primeiro pôs em causa as ideias do Iluminismo ("Ilustração"), nomeadamente a primazia da Razão. O segundo, depois de um período como filósofo lógico-positivista, em que procurou

uma linguagem filosófica completamente neutra, uma linguagem que descrevesse o mundo exterior de forma totalmente objectiva, passou o resto da vida a demonstrar que a comunicação era um simples "jogo linguístico", com regras arbitrárias.

Entre os filósofos contemporâneos destaca-se Michel Foucault (1926-1984): critica nomeadamente a ideia de "progresso" (na sua perspectiva, muitas instituições, imbuídas desta ideia, limitaram-se a desenvolver novas formas de opressão) e a ideia de essencialismo, ou seja, o pensamento moderno acreditava que os humanos acediam a um conjunto de faculdades "normais" ou "naturais" (inerentes ao próprio indivíduo). Foucault demonstrou que cada época histórica tem as suas próprias ideias acerca do que é "normal" e "natural". Neste sentido, não é possível atribuir nenhum fundamento científico aos comportamentos.

A "condição post-moderna" foi definida pelo filósofo François Lyotard como de

"incredulidade face às metanarrativas". Lyotard sugere que a condição post-moderna é o

que caracteriza o conhecimento nas sociedades capitalistas ocidentais.

Uma metanarrativa é um discurso que se apresenta como a reivindicação da posse de uma verdade absoluta.

Alguns exemplos de metanarrativas:

1. A aceitação da ideia de progresso científico e de que este avança graças à

utilização do método racional.

2. Qualquer sistema total sobre a evolução social que permite observar as sociedades

evoluindo de uma fase para outra. Exemplos: 1) o marxismo científico, que sustenta que mediante uma ciência objectiva das sociedades se pode observar a evolução de estádios sucessivos na história humana, conduzindo inevitavelmente a uma fase final chamada comunismo; 2) o neoevolucionsmo cultural, com origem na Antropologia Cultural, que classifica as sociedades em bandos, tribos, chefaturas e Estados (Elman Service)/ sociedades igualitárias, sociedades hierárquicas ou escalonadas, sociedades estratificadas e sociedades

estatais (Morton Fried).

3. A crença num sistema moral absoluto, que deriva da religião, da nação ou da

etnia, verdadeiro em qualquer parte e em qualquer época.

4. A ideia de progresso na história humana, seja de natureza estética, artística ou

tecnológica. Aceita-se que há um avanço, no sentido da maior complexidade e perfeição, seja nas artes ou na tecnologia.

Os post-modernos sustentam que este tipo de presunções (juízos formados sobre indícios ou princípios de prova) acerca do progresso têm implicitamente muitas vezes tipologias aparentemente ateóricas (como, por exemplo, quando se admite que os avanços técnicos numa cultura correspondem a avanços generalizados). Para os post-modernos todas estas ideias remontam às presunções básicas do Iluminismo do século XVIII.

Os filósofos do Iluminismo pensavam que com o uso da Razão se poderia aceder a qualquer problema humano de forma racional e objectiva.

Esta filosofia implicava:

1. A crença na utopia. Se a Razão se pode aplicar ao estudo das questões humanas,

também poderá aplicar-se às suas formas de organização. Neste sentido podemos imaginar uma forma de estado perfeitamente organizada e caminhar nesse sentido, ainda que tal não

seja verosímel que aconteça no nosso tempo, mas admitimos que ocorra no tempo dos nossos descendentes. É um ideal a ser perseguido. Para Karl Marx, a meta final seria o comunismo; para Fukuyama, o capitalismo burguês; para os positivistas, uma teoria definitiva do universo físico.

2. A noção de teleologia das questões humanas. A Teleologia supõe a existência de

um processo subjacente que tem um ponto de partida e um fim perfeitamente definidos (pré- definido). Por exemplo: no marxismo, a tendência para a desigualdade e a alienação culminarão na última revolução, que dará lugar ao comunismo; para o Iluminismo, a gradual

aquisição da Razão paralelamente ao progresso da história humana.

3. A crença na existência de propriedades essenciais do "mundo real" fora do mesmo, pelo que se podem estudar independentemente do texto, independentemente do que dizemos sobre ele. Se o mundo real existe os significados podem definir-se.

Para os críticos da modernidade isto não é possível já que consideram que este mundo

é pura aparência. Para Jacques Derrida, "não há nada fora do texto", só outros textos, ou

outras palavras; o texto refere-se aparentemente ao mundo real, mas quando olhamos o mundo real vemos que também consiste num conjunto de sigificados que se referem a coisas distintas. A palavra "vasilha" refere-se a algo concreto feita de barro com asas, mas o mesmo objecto de barro com asas refere-se a outras coisas. Cada manifestação sobre um dado, por si própria evidente, pode separar-se da sua própria lógica interna, já que não se pode referir ao mundo externo estável: os significados adquirem vida própria. Derrida demonstra, mediante a técnica da desconstrução, que por mais evidente que nos pareça um texto, os seus significados podem tornar-se contra o que próprio texto pretende dizer. Como resultado de tudo isto, a condição post-moderna diz respeito a um mundo que flui cheio de significados instáveis sem nenhum ponto de referência final. Não há a possibilidde de fixar os elementos essenciais dos fenómenos; há apenas um ir e vir sem fim que flutua por cima da superfície das coisas.

4. Põe-se em causa a divisão disciplinar do conhecimento. No século XVIII o estudo

do mundo real compartimentou-se em diferentes disciplinas para abarcar diferentes fenómenos. A Física e a Química ocuparam-se dos processos físicos, enquanto que a Biologia se dedicou aos organismos. Mas, se os significados fluem e não se fixam, a linguagem não nos permite a certeza, não nos pode proporcionar nenhum ponto de referência definitivo. Por

isso não é possível haver disciplinas distintas que atendam a campos de estudo distintos.

A divisão disciplinar é arbitrária dependendo de um acidente histórico: de como a história dos

sistemas de pensamento surgiu durante o modernismo (Iluminismo).

Outro exemplo utilizado pelos post-modernos: as diferenças entre a História e a Literatura não existem. Se os documentos históricos são igualmente textos literários e todos os historiadores escrevem narrativas, e se toda a literatura se escreve dentro por um certo contexto histórico, pode não existir à partida nenhuma distinção entre história e ficção. Argumentam os post-modernos que não se pode confiar em absoluto nos textos. Na prática, disciplinas como a história ou a literatura constroem-se sem estabelecerem entre elas diferenças substanciais sobre o tema que tratam. As diferenças que se apontam deverão a sua identidade a um mundo externo que não tem fronteiras fixas ou estáveis (a designada "falácia logocêntrica", ou seja, para os pós-estruturalistas, a ilusão, estimulada pelo positivismo, de que existe um mundo real para além dos textos a que estes podem referir-se, e que os significados podem consequentemente fixar-se sobre uma "realidade" definitiva).

Os post-modernos pensam que nos finais do século XX o pensamento ocidental entrou na chamada "condição post-moderna".

Historicamente, todas as metanarrativas, assim como as fronteiras disciplinares, caíram. Já não há histórias verdadeiras nem certezas em que confiar. É o caso do marxismo.

Nos inícios do século XX os marxistas podiam acreditar que a história do mundo caminharia para a revolução e o comunismo. Tinham um modelo para explicar o mundo, que parecia funcionar e que lhes dava indicações sobre a maneira de pensar e agir. Hoje em dia, consideram que isto não é assim tão claro.

Os post-modernos estendem as suas críticas a outros sistemas: apontam à erosão da confiança num único "método científico", assim como o declínio das ideias sobre o progresso evolutivo. Alegam os pós-modernos que a falta de confiança nestes, e noutros postulados, reflecte a quebra de confiança nas filosofias modernas.

A Arqueologia

pós-processualista,

desenvolvendo-se

paralelamente

ao

post-

modernismo, reflecte as influências deste no conjunto das ciências humanas.

A Arqueologia pós-processualista partilha com o post-modernismo algumas ideias

comuns:

1)

a falta de confiança na Ciência;

2)

a crítica ao essencialismo (existem atitudes e emoções naturais ou pré-

definidas biologicamente, seja no género humano em geral, ou num dos sexos: "instinto

maternal", por exemplo);

3)

a valorização da diversidade de leituras (relativismo);

4)

a dificuldade em determinar os significados.

Por outro lado, o post-modernismo defende o fim das fronteiras disciplinares e a

fragmentação do método. Se, como consideram, não há uma única Verdade para ser descoberta, é difícil entender como pode haver uma forma correcta e outra incorrecta de fazer arqueologia.

As implicações para a Arqueologia resumem-se nos seguintes aspectos:

a) podemos realmente falar de um "método arqueólogico" específico, distinto

dos métodos de outras disciplinas?

b) existe realmente na Arqueologia algo parecido a um método unificado?

O post-modernismo sugere que devemos considerar como válidas outras formas de

conhecimento fora do que tradicionalmente se conhece por "arqueologia" ou "ciência". Consideram igualmente válidas outras formas de olhar o passado, fora dos procedimentos definidos pelo método arqueológico. Neste contexto, as explicações tradicionais, os mitos, etc., devem ser consideradas e respeitadas.

Não devemos escrever sobre o passado como "pensamos que aconteceu", independentemente do presente. Enfim, devemos atender ao contexto social, político e cultural da Arqueologia. A interpretação arqueológica não se faz no vazio, isolada do resto do mundo. Há influências/ relações culturais, sociais e políticas a ter em conta. A Arqueologia, ainda que proclame a sua neutralidade, está profundamente influenciada pela envolvência.

"A Arqueologia como actividade cultural é sempre uma forma de fazer política e uma maneira de comunicar valores morais" (Shanks e Tilley, 1987: 212).

Política é aqui entendida num sentido bastante abrangente. Tudo o que fazemos e dizemos é em certo sentido político. Os dados arqueológicos são mudos mas pômo-los a falar a partir do presente.

Quanto ao relativismo.

Preconiza-se que a realidade é múltipla, apresenta várias faces, embora se considere que estas não são arbitrárias. As várias interpretações deverão estar em relação com a ideologia do observador, com um quadro teórico.

A Arqueologia como ciência

O que é a ciência?

Há diferentes formas de ciência?

Que formas de ciência deve assumir a Arqueologia?

Quando a "Nova Arqueologia" surgiu teve de fazer frente a este último problema.

De facto, um dos lemas da "Nova Arqueologia" era "ser mais científico". A arqueologia utilizou as técnicas como uma das vias para melhorar o seu carácter científico:

computação, estudos paleoambientais (palinologia, antracologia, paleocarpologia), técnicas de datação (Carbono 14, Dendrocronologia), estudos de geomorfologia, pedologia, sedimentologia, paleopatologia, etc.

O desenvolvimento destas técnicas proporcionaram mais e mais dados potencialmente

úteis para o conhecimento do passado. Mas, de facto, mais dados não é suficiente. É necessário um método. A Nova Arqueologia optou pelo método científico como solução do

problema da inferência.

Formas de fazer ciência

Positivismo

Podemos destacar no positivismo, relativamente à investigação científica, os seguintes aspectos:

a) Teoria e método. Preconiza-se a separação da teoria do método. Perante

várias teorias possíveis é necessário a utilização de um método neutro que permita avaliar qual das teorias é a melhor. A utilização de método que uma das teorias já afirma como válido não é possível em ciência.

b) O contexto da descoberta (a origem de uma ideia) deve ser separado do

contexto da avaliação. O importante é que as ideias sejam verificadas, nomeadamente, no

caso da Arqueologia, através do registo arquelógico.

c) As explicações devem ser generalizantes. Os resultados devem ser previsíveis e verificáveis. A validade científica deriva da possibilidade da sua repetição.

d) As afirmações que não possam ser verificadas ficam de fora do domínio da

ciência. As questões colocadas pela ética e pela metafísica não deixam de ser importantes, mas a ciência não tem nada a dizer sobre isso.

e) O pensamento científico deve ser independente dos juízos de valor e da

política. Os cientistas devem separar o seu trabalho e o juízo de valor moral que dele fazem.

f) Relativamente às ciências sociais — seguindo Auguste Compte, o fundador

da Sociologia —, deve seguir-se o mesmo caminho que as ciências da natureza.

O positivismo, assim definido, preconiza o método hipotético-deductivo-nomológico

(formulação de leis). Hipótese / Verificação / Dedução / Explicação geral (lei).

A Nova Arqueologia pode ser identificada com o positivismo. De dacto, a "Nova

Arqueologia" pretendeu chegar às generalizações e adoptou um modelo hipotético- deductivo-nomológico.

Positivismo lógico

Versão "extremista" do positivismo. Perspectiva cientificista, ou seja, o pensamento científico é considerado superior a qualquer outra forma de pensamento (juízos morais, religiosos, políticos, etc.).

As

explicações devem ser gerais (leis), aplicáveis em qualquer momento e em qualquer circunstância.

A "Nova Arqueologia", numa fase inicial, seguiu este caminho. Destaca-se neste sentido, o trabalho de Patty Jo Watson, Steven A. LeBlanc, Charles L. Redman, Explanation in Archaeology. An Explicitly Sientific Approach, Columbia University Press, 1971 (versão em castelhano: El Método Cientifico en Arqueologia, Madrid, Alianza Editorial, 1974). A segunda edição deste livro (1984) revela no entanto um abrandamento considerável desta perspectiva. Em vez das "leis" concebidas em termos positivistas, considera-se agora uma tendência para a generalização, e esta deriva da discussão.

Para

os

positivistas

lógicos

qualquer

afirmação

deve

ser

demonstrada.

Abordagens não positivistas

Idealismo

O idealismo acredita que os pensamentos antecedem as acções, ou seja, que o mundo

da consciência é mais importante que o mundo material. Segundo o idealismo histórico de R. L. Collingwood o método básico para a interpretação histórica e arqueológica é procurar voltar a pensar como os povos do passado.

Paul Feyerabend

Para Feyerabend, a história das ideias científicas diz-nos que para se obterem os melhores resultados é necessário utilizar a maior diversidade possível de métodos e grupos trabalhando em projectos científicos, advogando inclusivamente a utilização de estratégias "acientíficas", como o apelo às emoções.

Paul Feyerabend destaca igualmente a importância das forças políticas e sociais que existem por detrás da investigação científica, como também o enorme poder que concentram as instituições científicas e a maneira como escondem a sua parcialidade por detrás de uma fachada "objectiva".

O positivismo, sob a forma de método particular, esconde, segundo Paul Feyerabend,

a "intimidação institucional".

"Uma comunidade utilizará a ciência e os cientistas de um modo que essencialmente concorde com os seus valores e os seus fins e corrigirá as instituições científicas que alberga a fim de as adaptar melhor aos seus próprios propósitos. A objecção segundo a qual a ciência é autocorrectora e por isso não precisa de interferências exteriores, esquece, em primeiro lugar, que qualquer empreendimento é autocorrector (exemplo: a autocorrecção do dogma católico ao longo dos tempos) e, em segundo lugar, que numa democracia a autocorrecção do todo prima sobre a autocorrecção das partes, a menos que às partes tenha sido atribuída independência temporária." — Paul Feyerabend, Contra o Método, Lisboa, Relógio de Água, 1993, p. 326.

Thomas Kuhn

Thomas Kuhn (1922-1996), filósofo da ciência, considera que a história da ciência não

é a simples história do êxito progressivo de um método que nos leva ao conhecimento em expansão contínua, mas a história de paradigmas científicos.

Um paradigma é mais que uma teoria concreta, é um conjunto de convicções sobre o modo de funcionamento do mundo, que delimita diariamente a actuação científica de maneira muito profunda, tão profunda que raramente se transcreve em palavras. Seguindo Kuhn, durante um período de "ciência normal", um paradigma impõe o modo de fazer ciência, não

sendo necessária a formulação explícita de preposições, e muito menos a sua questionação e discussão. Cada um faz o seu trabalho seguindo as preposições do paradigma.

Os paradigmas podem terminar com o tempo. Surge então um novo paradigma ("mudança de paradigma"), que resulta da acumulação de evidências que contradizem o antigo paradigma. Considera, por outro lado, que o novo paradigma será melhor. A ciência progride pela sucessão de novos paradigmas melhores que os anteriores.

A história da ciência será, nesta perspectiva, a história dos sucessivos paradigmas

que se sucedem uns aos outros mediante movimentos revolucionários e não a acumulação gradual de um conhecimento cada vez melhor sobre o mundo que nos rodeia.

Colin Renfrew pensou que a "Nova Arqueologia" representava uma "mudança de paradigma", admitindo que a arqueologia processual corresponderia a um novo período de "ciência normal".

Kuhn e Feyerabend centram-se na descrição do que fazem os cientistas no seu trabalho e não tanto na definição do que deviam fazer.

Constructivismo social

Considera-se que o conhecimento científico não é objectivo, mas sim, total (constructivismo duro) ou parcialmente (constructivismo moderado), uma construção social. Ex.: o conceito de raça; as partículas subatómicas designadas quarks.

Os resultados científicos são uma construção da sociedade resultante da interacção entre cientistas, políticos, organismos patrocinadores, universidades e público em geral. Neste contexto, nega qualquer diferença entre ciência e não-ciência.

Nesta perspectiva não faz qualquer sentido que se discuta a Arqueologia como ciência ou como disciplina humanística.

E a Arqueologia?

A diversidade

Há arqueólogos que preferem uma filosofia científica.

Para outros, como Mike Shanks e Chris Tilley, o positivismo em Arqueologia está completamente morto. Consideram, aliás, que não é possível separar método de teoria (será uma fraude!). Os relatos sobre o passado estarão muito ligados às regras do comportamento político. Consideram que é preciso desmascarar a natureza política destas regras.

Esta discussão é comum a outras disciplinas sociais: sociologia, psicologia, história, linguística, economia, política, etc.

Não estamos sós!

O dilema epistemológico é, pelo menos, partilhado por outras ciências sociais!

Bibliografia:

V. M. Fernández Martínez, Una Arqueología Crítica. Ciencia, Ética y Política en la Construcción del pasado, Barcelona, Editorial Crítica, 2006. Bruce G. Trigger, A History of Archaeological Thought, Cambridge University Press, 1989. Versão em castelhano: Historia del Pensamiento Arqueológico, Barcelona, Editorial Crítica, 1992. Matthew Johnson, Teoría Arquelógica. Una Introducción, Madrid, Eitorial Ariel, 2000. Jorge de Alarcão, A Escrita do Tempo e a sua Verdade, Lisboa, Quarteto, 2000, pp. 155-199 (cap. 8. Post- modernismo e Arqueologia). Jorge de Alarcão, Para uma Conciliação das Arqueologias, Porto, Edições Afrontamento, 1996.

Nuno Ferreira Bicho, Manual de Arqueologia Pré-histórica, Lisboa, Edições 70, 2006, pp. 49-81 (cap. 2. Desenvolvimento e consolidação da metodologia e teorias arqueológicas). Ian Hodder; S. Houston (eds.), Reading the Past. Current Approaches to Interprettion in Archaeology, 3.ª ed., Cambridge, Cambridge University Press, 2003.

D.

S. Whitley (ed.), Reader in Archaeological Theory: Post-processual and Cognitive Approaches, London, Routledge, 1998.

M.

Shanks; C. Tilley, Social Theory and Archaeology, Oxford, Polity Press, 1987.

C. Tilley, A Phenomenolgy of Landscape, London, Routledge, 1994. J. Thomas, Time, Culture and Identity: An Interpretative Archaeology, London, Routledge, 1999.

Consultar igualmente as sínteses (trabalhos escolares) depositadas no dossiê da disciplina.

Orientação para o exame:

5 grupos de perguntas. Os alunos optarão por 4 grupos. Um dos grupos versará sobre as relações entre o Post- modernismo e a Arqueologia. O cap. 8 do livro: Jorge de Alarcão, A Escrita do Tempo e a sua Verdade, Lisboa, Quarteto, 2000, pp. 155-199 (cap. 8. Post-modernismo e Arqueologia), é de leitura obrigatória.

Temas gerais:

História da Arqueologia: desde os primórdios ao século XIX.

A Arqueologia como ciência: as principais contribuições do século XIX.

Arqueologia histórico-culturalista.

A Nova Arqueologia.

A Arqueologia do Conhecimento/ Cognitivismo processual.

A Arqueologia Contextual

As arqueologias pós-processuais e/ ou interpretativas e o post-modernismo