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EM BUSCA DA MEMÓRIA DE JACAREZINHO/PR: ENTRE REPRESENTAÇÕES E LINGUAGENS DO IMAGINÁRIO COLETIVO Juliana Carolina

EM BUSCA DA MEMÓRIA DE JACAREZINHO/PR: ENTRE REPRESENTAÇÕES E LINGUAGENS DO IMAGINÁRIO COLETIVO

Juliana Carolina da Silva 1 Luciana Brito 2

Resumo: O presente estudo observa a construção da religiosidade católica como símbolo da cidade Jacarezinho, e posteriormente, seus diálogos com a arte local e o imaginário coletivo. Dentre os temas abordados pelas obras elencadas também destaca- se a lenda da cobra gigante, resultante da relação patrimônio urbano e cultura ameríndia, que tornou-se elemento da símbolo da religiosidade católica para profetizar o destino da cidade de Jacarezinho/PR. Assim, buscamos entender o contato do imaginário coletivo com a construção do patrimônio histórico e, a partir das obras da exposição A cidade de Jacarezinho entre as linguagens do imaginário, a ser realizada no Museu Diocesano e Centro de Documentação e Pesquisa Histórica da UENP durante o mês de agosto/2014, tendo como intuito cooperar para a produção artística local e valorização dos vários âmbitos da memória.

Palavras-chaves: Memória; Representação; Jacarezinho/PR.

1 Graduanda em História, bolsista PIBIC/FA, CCHE/UENP/CJ, ooliin.ju@gmail.com. 2 Doutora em Letras, diretora CLCA/UENP/CJ, lbrito@uenp.edu.br.

Introdução

A arte, de fato, é o mundo outra vez, tão igual a ele, quanto dele desigual. Theodor Adorno

Sendo a arte uma ligação entre a percepção de diferentes realidades, deixando- nos entrever o passado, ao mesmo tempo em que este nos faz reconstruir a sensação do presente, nos conduz pelo labirinto que forma a Memória, de modo que ambos estão sempre em constante relação, pois na produção da arte, o ato de criar no qual se envolvem os artistas, está inerentemente ligado à sociedade, ao contexto concreto, às Memórias do local que agem como símbolos identitários de uma cidade e às construções simbólicas edificação institucionalmente. Dessa forma, o presente trabalho tratará da representação local em obras de arte de Edmilson Donizetti, buscando pistas da construção da memória coletiva da cidade e observando seus elementos constitutivos, como por exemplo, o imaginário coletivo presente na lenda da cobra gigante. Pretende-se, ainda, demonstrar as relações culturais silenciadas pela instituição da religiosidade católica como símbolo local. Tal silêncio, suposto esquecimento, é muitas vezes induzido pela história oficial a serviço do poder, que conduz a omissão fatos e feitos que se encontram à margem dos círculos do poder instituído ou, quando presentes, buscam reforçar estes poderes por meio de mitos. Embora o que é esquecimento no interior dessa memória hegemônica, torna-se referência importante nas experiências vividas pelas pessoas comuns que tanto participaram da construção da cidade nos seus inícios, fazendo parte das constantes reelaborações pelas quais a memória passa. Dessa forma, se entendermos a memória como um processo de produção e manifestação de significados, esse entendimento colocará no campo de nossa investigação as contradições, ambiguidades e as diferenças, como elementos constitutivos da realidade vivida pelos sujeitos. Assim, lembrando que a memória e a lembrança se constituem como direitos de toda e qualquer pessoa, visto democraticamente, possuem um passado cuja consciência é o que as insere em determinado local e tempo. A memória traz arraigada a si a identidade e o sentimento de pertencer a este espaço, seja ele uma cidade, família, comunidade ou mesmo, na sociedade que se integram.

A fim de entendermos os elementos que formam a edificação simbólica da cidade de Jacarezinho/PR que se relaciona a religiosidade católica, observaremos o surgimento e a constituição de tal símbolo e suas manifestações no patrimônio urbano, para em seguida nos tratarmos das representações da cidade em obras de arte e em uma lenda, de autoria do imaginário local. Nas duas últimas partes desse trabalho será feita a delineação da temática do imaginário popular no estudo do símbolo e da lenda, que juntos estimulam uma proposta de exposição encaminhada ao Centro de Documentação e Pesquisa Histórica da UENP como forma de revitalização desta memória local. Sobre os métodos de estudo, visando tais objetivos, observamos fotografias das décadas de 1950 a 1960, que documentam o ambiente urbano da cidade de Jacarezinho, pertencentes ao acervo do senhor Celso Rossi. Dentre as imagens vistas, capturamos duas, dentre as quais separamos uma para cada década observada de forma a estudá-las durante o desenvolver dessa comunicação, a fim de encontrarmos conexões simbólicas que permaneceram na composição material da urbe e, a partir delas, analisar a religiosidade como manifestação identitária na cidade. As obras de arte selecionadas para esta pesquisa passaram pelo processo de análise e comparação obedecendo os seguintes critérios:

São obras que retratam a cidade de Jacarezinho;

Representam o espaço urbano ou as mudanças desta;

Abordam aspectos sociais e culturais;

Demonstram o meio social da população da década de 1980 a 2000.

Atentamos para as dificuldades de interpretação das obras, visto que a representação pictória da realidade será restrita a inspirações e interpretações pessoais do mundo em que o autor habita, sendo estas obras permeadas por subjetividades, das quais decantamos o mundo que as liga ao simbolismo da cidade. Terminada esta introdução, principiemos pela edificação da religiosidade católica como símbolo e as suas maneiras de perpetuar as relações de poder institucional através do patrimônio urbano.

Religiosidade católica: a criação simbólica e sua edificação no patrimônio urbano

A Igreja Católica, recriando com a construção de prédios e artefatos na cidade, símbolos que aludiam à sua identidade, forjam a si as associações da cidade, fazendo

com que o espaço visível de Jacarezinho fosse cada vez mais confundido com os

espaços de fé Católica. Esta influência concreta foi auxiliada pela doutrinação educacional, visto que a Igreja possuía dois colégios na década de 1950 em Jacarezinho,

o Colégio Imaculada Conceição e o Colégio Cristo Rei, ambos de grande porte.

Demarcando a cultura de uma instituição claramente no cenário cultural da cidade:

“Durante o ano realizam-se importantes festejos, quase todos acompanhados de procissões, cumprindo destacar as seguintes festas: da Imaculada Conceição, em 8 de dezembro; de São Sebastião, em 20 de janeiro; de São Benedito no mês de maio, além das grandes procissões da Semana Santa” (ESTATÍSTICA, 1959; p. 271).

Além disso, como citado, para a edificação da religião católica como símbolo, um dos elementos que contribuíram, foi à fundação da Sede Apostólica na cidade, cujo primeiro bispo, D. Fernando Taddey, ordenou a construção da “Capela do Colégio Imaculada Conceição em 1938 e em nove de janeiro de 1940 foi sepultado na referida

(AIMONE, 1992; p. 86 87). Com o falecimento de D. Taddey, o cargo é

assumido por D. Ernesto de Paula, nomeado em 1941, que empreendeu a construção do

Capela [

]”

atual Palácio Episcopal, “uma das maiores construções nesta cidade e iniciou a construção da Catedral, orgulho do NORTE PIONEIRO” (AIMONE, 1992; p. 87). O terceiro bispo, D. Geraldo de Proença Sigaud, tomou posse do cargo em 1947, e comprou a construção do Seminário Diocesano da Assunção e o fundou em 1953.

Sendo depois, nomeado diretor e professor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras

de Jacarezinho, e afastado do cargo religioso no ano de 1961.

Postas tais considerações, para ficar mais clara a questão de construção social da experiência visual de uma cidade e da intenção de quem projetou sua obra, trazemos duas fotografias aéreas da cidade:

sua obra, trazemos duas fotografias aéreas da cidade: FIGURA 1 – Jacarezinho, Vista Aérea, de 1946.

FIGURA 1 Jacarezinho, Vista Aérea, de 1946. Fonte: Acervo Celso Rossi.

FIGURA 2 – Jacarezinho, Vista Aérea, Anos de 1960. Fonte: Acervo Celso Rossi. Antes de

FIGURA 2 Jacarezinho, Vista Aérea, Anos de 1960. Fonte: Acervo Celso Rossi.

Antes de trabalharmos essas fotografias, é necessário nos nortearmos pelas considerações de Burke (2004; p. 43), quando diz que “imagens não foram criadas, pelo menos em sua grande maioria, tendo em vista futuros historiadores e que elas dão acesso não ao mundo social diretamente, mas sim visões contemporâneas daquele mundo” (BURKE, 2004; p. 236). Logo, não concebemos que a fotografia tenha um olhar inofensivo, pois na verdade, partimos de que lidamos com imagens feitas por um profissional no intuito de promover a visão do crescimento urbano da cidade, pois os fotógrafos partiam de perspectivas aéreas, prática nada popular para o contexto histórico da confecção dessas evidências sociais. Na figura 1, tirada em 1946, devido à tecnologia do período e pela deterioração causada pelo tempo no documento, não temos uma imagem muito nítida, mas apesar disso é possível ver o edifício da catedral truncado, suas torres não estavam erguidas, o Colégio Cristo Rei está à esquerda e na Rua Paraná, colateral à Avenida Getúlio. Na primeira esquina, da esquerda para a direita, o prédio do Banestado (atual Itaú) e na segunda esquina o antigo Banco do Brasil (hoje Bradesco), ambos em construção e com suas fachadas voltadas para o observador da imagem. Contudo, nessa imagem, os prédios mais destacáveis são a catedral e o colégio. Observamos da mesma maneira, como o arvoredo espalhado pela cidade, que na figura 1 mostrava menor tamanho, na figura 2 já ganhara a notoriedade que possui atualmente, pelas sombras que proporcionam. Existem algumas árvores dividindo espaço com edifícios em boa parte dos quarteirões. A figura 2, demonstra a intenção do fotógrafo em emoldurar, na parte abaixo do retrato, o Colégio Imaculada Conceição à direita, a Capela de São Benedito à esquerda, estando o Colégio Cristo Rei e a catedral à

direita superior. Juntam-se, à paisagem, casas, edifícios comerciais e públicos que recortam o espaço, em maior ou menor grau, com algumas árvores. Logo, em ambas as fotografias, vemos a preocupação em capturar os edifícios religiosos. Talvez por tal motivo, a figura 2 oferece, sobremaneira, indícios, quando olhamos as partes superiores da imagem, que denunciam a vivência de espaços desabitados, mas que aparecem apenas em parte, por conta dos enquadramentos que visavam a captar a imagem da Igreja e do Colégio Cristo Rei, na figura 2, ou, na figura 3, da catedral, do Colégio Cristo Rei e do Colégio Imaculada, por exemplo. Assim chegamos ao pensamento de Kevin Lynch (1999), que desenvolve ideias sobre a imaginabilidade, que seria a qualidade física própria de cada objeto, que garantiria grandes chances de conjurar uma imagem importante que depende da aptidão perceptiva dos agentes sociais de decodificar os valores culturais inerentes à realidade apresentada. Os fatores do tamanho arquitetônico e posição fazem com que a catedral se configure como um símbolo na cidade, um tipo de referência, para Lynch, e que elementos de evocações como estes “tipicamente vistos de muitos ângulos e distâncias, acima do ponto mais alto de elementos menores e usados como referências radiais. Podem estar dentro da cidade ou a uma distância tal que, para todos os fins práticos, simbolizam uma direção constante” (LYNCH, 1999; p. 53). Seriam, portanto, símbolos identitários na construção psíquica do formato urbano, que definiriam a orientação e a interpretação da organização espacial que, por fim, estão também relacionados a uma “didática” religiosa de exaltar o templo como referência da grandiosidade. Nesse meio entre intencional e casualidade, a paisagem urbana se fixa como o resultado das ações da sociedade e de grupos institucionais, colocando significados que caracterizam a cultura e, consequentemente, a sociedade que a produz como reflexo. Além de que, é possível perceber a necessidade do início do século XX de unificar as diversas identidades locais, dentre elas as de origem africanas e indígenas.

A arte e a ressignificação simbólica

A partir destas considerações, observemos como estes campos de lutas se fazem na memória coletiva, através da narrativa oral do gênero lenda, e como apareceram nas concepções individuais, através das representações artísticas da cidade, e a maneira como as pessoas dela participam. A arte, longe de ser somente um lazer ou

entretenimento, é uma forma de história, memória, e de tomada de consciência de ambas, mas também uma forma de organização do conhecimento. Para Beatriz Sarlo, a literatura, e de forma geral as artes, têm esse poder de “infiltração” e de tocar em coisas que, talvez em outro discurso, não fossem tocados:

Para além de nosso desejo ou de uma vontade consciente, de um modo diferente em cada um de nós, a literatura nos toma de assalto, infiltra-se nas relações, organiza. A literatura resiste a essa inclusão na vida, mas, contraditoriamente, ela a provoca e dela necessita. Essa tensão define o lugar da arte, sempre disputado, funcionalmente desnecessário e ao mesmo tempo indispensável. Leva as coisas ao extremo, pode tocar esse núcleo denso que está fora do alcance nas explicações dos outros discursos. Empenha-se em morder esse centro deslocado, reprimido ou ignorado. (SARLO, 1997; p. 27).

Dessa maneira, do encontro dos símbolos e da elucidação dos caminhos de suas vidas, abordaremos determinadas obras de arte e seus autores, que na história oficial estariam no estamento dos “anônimos”. Mas ao se fundirem nas suas obras, cumprem o papel de se recolocarem como sujeitos ativos, relembrando Thompson (2001; p. 234), “os figurantes forçam sua entrada em cena” como atores, e assumem o palco da história, conferindo à obra de arte uma função específica na sociedade: ela é ao mesmo tempo criação e recepção. O artista é caracterizado e influenciado pelos símbolos, condicionados pelos interesses da economia ou da cultura, que adentram a memória coletiva, a significação do espaço urbano e a vida cotidiana. E também é caracterizador desse espaço, através das imagens, paisagens, cores e impressões recolhidas e ressignificadas na obra de arte, formando novas concepções e criações, além de ter o poder de promover o encontro de culturas na argila, nas tintas ou nas palavras. Em 1990, esta cidade viu o surgimento das galerias de arte no espaço urbano e o agrupamento de artistas visando à produtividade, visibilidade e melhores condições para a venda das obras, visto que o mercado de arte ainda não havia se consolidado. E nessa busca de bases para a profissionalização, alguns artistas sobrevivem da arte que produzem e da criação de grupos de artes plásticas, como a Fábrica de Mágicas e o Grupo Prisma, sendo que em ambos Edmilson Donizetti Nascimento atuou como um dos idealizadores. Donizetti é jacarezinhense, filho da pintora Dirce Nascimento, viveu parte da infância na zona rural, sendo sua obra marcada por ambos os espaços, urbano e rural. Outro traço característico de sua obra é a presença de personagens imaginários. Ao longo de sua carreira forjou sua própria marca de identificação, representada por tubos

de tintas, uma assinatura autoral e cenas marcadas pelas cores fortes e cenários enigmáticos. O autor, formado em Letras pela antiga FAFIJA, atuou como professor de pintura, cenografista, escultor e realizou exposições e oficinas ligadas a Prefeitura Municipal de Jacarezinho. Abaixo encontraremos algumas obras de arte do referido autor que se deitam sobre representações da cidade, a fim de mostrarmos como se dá a recepção da simbologia e a reconstrução destes através da atividade artística nessas obras. Vemos nas figuras 3 e 4 diferentes cenas que aludem à cidade de Jacarezinho, podendo ser identificada, a um primeiro olhar, a imagem da torre da Catedral, agindo como o ponto de identificação com a cidade. Ou seja, a assimilação do símbolo se mostra assimilado e reapresentado pelo artista através da tela, mas em novo contexto.

pelo artista através da tela, mas em novo contexto. FIGURAS 3 - 4 – Donizetti. Sem

FIGURAS 3 - 4 Donizetti. Sem título, 1990. Pintura, 105x 65 cm. Fonte: Acervo pessoal do artista.

Comecemos enumerando os detalhes que compõem as cenas da figura 3: os alienígenas e suas naves, a serpente, os três montes e a catedral. Observando-os separadamente, à serpente nos remete a uma lenda da cidade, segundo a qual, a figura em questão teria aprisionada no subsolo de Jacarezinho. A cabeça estaria presa sob os três montes, a sua parte mediana abaixo da Catedral, com calda estando em um morro no fim da cidade, sentido Ourinhos/SP, do qual o vento levaria as terras embora, extinguindo-o e soltando a parte da serpente que varreria a cidade para fora dos mapas.

Os três montes são conhecidos do cotidiano de Donizetti, vistos sempre ao

longe, afastados das elevações e depressões da cidade. Mais uma vez, um marco do catolicismo aparece sobre eles, como se da água e da terra de Jacarezinho, brotasse a religiosidade católica. Mas essa mesma água, submerge a base da Catedral, que vê boiar a sua estátua central e entortar um de seus crucifixos. Os alienígenas seguram algo parecido com um quadro, que pode ser interpretado como uma alusão à obra construída na realidade. A pintura de Donizetti passa a ser vista como a representação de uma profetização que por um lado se deita na ordem hegemônica, de se apoiar no catolicismo, e por outro viés, o subverte, na medida

em que se utiliza de uma cultura alternativa, como crença por extraterrestres.

Na figura quatro, a cidade é tomada por rede quase invisível que emana do

OVNI Objeto Voador Não Identificado, e porta junto de si uma pirâmide, que serviria como um portal para outros mundos. Mundos estes, sem o catolicismo, visto que seus

símbolos se encontram abaixo da cidade, afundados nas águas dos rios. Em outro planeta que a cidade estaria, embora noite, a claridade irrompe no céu, em azul claro e a escuridão é deixada para a Matriz afogada, que contrapõe a claridade vinda do ponto em que nós estamos como observamos distantes da cena.

O autor para tratar da cidade, a cerca de símbolos religiosos, criados

institucionalmente, a identificação do local parte destas construções simbólicas. De maneira que as instituições não exercem poder apenas sobre a cidade em suas formas e políticas, mas também no inconsciente coletivo e individual. Mas quando estes símbolos deixam a esfera coletiva e passam a serem próximos da consciência, entrando em contato com as significações individuais, eles podem articular e serem recodificáveis. O artista parte da sua realidade, sendo a obra fruto do seu contexto, seja da vida do autor ou do momento histórico perpassado pelo meio no qual ele se insere. De acordo com Umberto Eco, “a operação realizada pelo artista só adquire sentido se comensurada aos códigos iniciais, transgredidos e reevocados, contestados e reafirmados” (ECO, 1971; p. 154). É este o processo realizado nas telas vistas, pois, ao mesmo tempo no qual Donizetti contesta a ordem, o signo cultural imposto na realidade da cidade, este a reafirma, a reevoca, a legitima, para em seguida, a transgredir. A obra de Donizetti reafirma a ordem constituída institucionalmente, no ponto em que utiliza dos símbolos para identificar a cidade de que fala a sua pintura, mas a reevoca, tirando-a da forma como as vemos imponente no centro da cidade, para transgredi-la afundo-a sobre águas, dando-lhe novo sentido, como o cair de uma

tradição frente às culturas alternativas ou como uma busca por mudança da ordem vigente. Claro que, assim, a obra se constitui como uma faca de dois gumes, onde se insere na rede de poder construída historicamente, a legitima pela aceitação, para só então, a reverter, a transgredir. O poder econômico, paralelamente ao político e cultural, criam e concedem margem às representações locais, que serão forjados como arquétipos sociais, morando ao lado das memórias que se formam nos indivíduos, de forma coletiva ou mesmo individual. Mas esse esfera na qual o poder atua nos homens, também poderá ser reformulado, tocado pelo indivíduo, seja através da observação de uma obra de arte, da música ou da observação arquitetônica imposta na cidade de forma crítica, ou por meio da criação artística. As obras expostas retratam a lenda da Cobra Gigante e a destruição da cidade de Jacarezinho, estando permeadas pelo imaginário coletivo e pela simbologia construída institucionalmente, mas recriam as histórias e ressignificam as narrativas. Assim, as obras produzidas pelos artistas são, por sua vez, criações do poder também:

nascem do micro-campo da necessidade de criar, retratar, contar e reformular, da vida cotidiana, dos pensamentos e ideias individuais, para fazerem parte da ressignificação da memória coletiva, do inconsciente coletivo. Que com o tocar do tempo, também serão peças para se encaixarem na formação do imaginário coletivo, que nas mediações dos olhares individuais, estará entre as pessoas, às instituições e a cidade.

Lenda: a linguagem das gerações entre poder e imaginário coletivo

Neste ponto, visando à preservação da memória coletiva como um bem imaterial da cidade de Jacarezinho, será feita a exposição da lenda da Cobra Gigantee também apresentados alguns relato das bases que formularão a exposição A cidade de Jacarezinho entre as linguagens do imaginárioa ser realizada no Museu Diocesano e no Centro de Documentação e Pesquisa Histórica da UENP, a qual que contará com a presença das obras aqui observadas e com oficinas de incentivo ao contato da comunidade com a produção artística local. Buscamos através do estudo da lenda e de sua exposição, o sentido de lembranças, trabalhado por Henri Bergson e Ecléa Bosi, na etimologia do signo, no qual, “’Lembrar-se’, em francês se souvenir, significaria um movimento de ‘vir’ ‘de baixo’: sous-venir, vir à tona o que estava submerso” (BOSI, 2007; p. 46). Assim, o

“lembrar-se” evocado pelo objeto ao tocar a memória, faz com que “o passado não só vem à tona das águas presentes, misturando-se com as percepções imediatas, como também empurra, ‘desloca’ estas últimas, ocupando o espaço todo da consciência”, aparecendo a memória, como uma “força subjetiva ao mesmo tempo profunda e ativa, latente e penetrante, oculta e invasora” (BOSI, 2007; p. 47), que pode se manifestar pela significação da obra de arte. Atentando as quatro características do gênero lenda, uma vez que a lenda em questão se faz antiga, oral, anônima e presente no imaginário coletivo, buscaremos citar as lendas semelhantes a da Cobra Gigante. A maior incidência de lendas envolvendo cobras gigantesestá na região amazônica, partindo muitas vezes de lendas indígenas, nas quais a cobra gigante se encontra com o nome Boiúna, associada aos grandes rios amazonenses. Por esta via, a confluência de culturas contidas na lenda e o uso da simbologia local, denota diversas relações em meio a esta narrativa. Seu conteúdo temático abrange vários assuntos, tais como religião, acontecimentos históricos, aspectos geográficos e os une aos aspectos do cotidiano local. Dessa maneira, a lenda a ser trabalhada insere-se no contexto sócio-histórico de Jacarezinho e faz parte da identidade de sua população, e é bastante significativa devido à forte presença indígena no processo de formação da lenda, visto que o personagem principal, a Cobra Giganteestá sempre presente nas narrativas ameríndias. Durante a exposição, ao entorno da lenda orbitarão as obras de arte, com seus devidos estudos e intencionalidades artísticas sistematizados em breves resumos. Considerando a evocação de simbologia urbana dentro da lenda e das obras, buscaremos remontar a história desses edifícios por elas utilizadas. Junto a essas histórias, procuraremos imagens que contribuam para a ligação entre o passado e o presente desses locais de memória e de poder. Portanto, o projeto de exposição busca revitalizar, colocando em contato e buscando a criação de significado da população local à narrativa oral, a arte e a própria formação da memória e da história. A observação dos eixos temáticos e constitutivos da lenda da Cobra Gigante, e a maneira como estes foram reformulados através da arte envolvem o entrelaçamento de culturas e tempos diversos, e o entendimento destes busca trazer ao observador da exposição o respeito à diferença, à diversidade cultural, a fim de que todos os povos e seus tempos sejam respeitados em suas alteridades.

Através do processo de contar, ler e ouvir as narrativas, as gerações mais jovens adquirem maior compreensão do tempo, e trazem algumas dessas histórias como realidades para o seu cotidiano, de modo a viver, na imaginação os acontecimentos que lhes foram narrados. Dentro deste contexto as narrativas das lendas têm um papel muito importante, pois a lenda sistematiza e ordena realidades, no ato de sua transmissão oral, envolvendo de tal modo o narrador e seus ouvintes que os mesmos passam a viver num único espaço a reintegração dos acontecimentos da historia. Vejamos agora o que nos diz Oliveira e Lima (2003) sobre a origem das

lendas:

as lendas estão na voz dos habitantes da região vivas e presentes, porque

se trata da voz da terra, das comunidades que, reunidas em círculos familiares, buscam preservar as histórias. O manancial da cultura oral encontra-se ameaçado pelas mudanças constantes da forma de organização da sociedade atual que interfere nos aspectos culturais, dificultando que tais populações se reúnam e exercitem sua memória em torno dessa tradição (OLIVEIRA; LIMA, 2006; p. 05).

] [

Como temática cultural, a lenda atua na mediação indivíduo e cultura de uma determinada região, nela estando combinados a fantasia, o sonho e elementos do real, além de recuperar os modelos arquétipos, tornam-se também um ato criativo que sistematiza poeticamente uma narrativa de nascimento, ou seja, uma narrativa de natureza mítica, de caráter exemplar e original e, portanto, sagrado. Assim ao explorar os caminhos das narrativas sociais encontramo-nos com o inconsciente coletivo da cidade de Jacarezinho. O inconsciente individual é formado essencialmente de conteúdos que algum dia foram conscientes, mas desapareceram na consciência das pessoas, por terem sido esquecidos ou reprimidos. Já os conteúdos que formam o inconsciente coletivo nunca estiveram na consciência das pessoas, não sendo adquiridos individualmente, mas foram herdados da construção social, sendo forjado a partir dos arquétipos. A esse respeito Jung (2002; p.53) nos diz “O conceito de arquétipo, que constitui um correlato da ideia de inconsciente coletivo, indica a existência de determinadas formas de psique, que estão em todo tempo e em todo lugar”.

Considerações Finais

Usando de tais pensamentos, a proposta de exposição encaminhada a coordenadoria do Centro de Documentação e Pesquisa Histórica da UENP parte da

reconstrução de um fragmento do imaginário coletivo local, através do estudo de suas formulações, que entre as relações sociais, sociabilidades coletivas, remonta à simbologia formulada através das relações institucionais, de seus interesses econômicos e políticos. Tais relações institucionais forjam símbolos de identificação delas próprias com as cidades, formando assim, representações do espaço urbano e rural, como observado em Jacarezinho/PR. Visto que, nos apoiando no pensamento de Lefebvre (2008; p. 82), cujo qual, independente do tempo histórico, a cidade se mostra também como uma obra na perspectiva de uma obra de arte, onde o espaço é moldado e instituído por exigências éticas, estéticas e ideológicas do período histórico em que surgem.

Assim, estabeleceremos a cidade pela sua construção ideológica e as suas reformulações estéticas em diferentes linguagens (na oralidade, na literatura e na pintura), tratando do acervo cultural da cidade de Jacarezinho, trazendo através das narrativas sociais o acesso ao conhecimento das gerações passadas que, recebeu influência de vários povos e ao longo do tempo, os deram novos significados e misturaram-se a história local, ao cotidiano das pessoas e ao inconsciente da sociedade atual.

Dessa forma vemos a lenda não somente como uma ferramenta a favor da edificação do símbolo cultural, mas também atentamos para o fato de que os símbolos são frutos da necessidade econômica e cultural, embora ambos os eixos se toquem, atravessam as instituições públicas e/ou privadas, forjando identificações e marcas que confundem a cidade com a própria instituição de poder, de tal maneira que a história oficial passa a ser produzida e influenciada pelas edificações desses poderes institucionais construídos com argamassa, tijolos e propagandas no seio do espaço urbano e rural. Por esta via, ao longo do tempo, as influências, história oficial e simbologias, as quais podem também serem chamadas de “signos de poder, vão sendo assimiladas e recodificadas pela memória coletiva, e esta toca a memória individual nas histórias, contos e como visto, nas lendas. Das individualidades e histórias que constroem a memória de cada indivíduo, podemos citar as influências dos poderes institucionais que, de certa forma são também partes das representações que povoam nossas relações com o mundo. Tal representação, apropriada e readequada pela obra de arte não se porta apenas como uma reprodução simbólica, pois também é uma reordenação do poder, uma vez que o artista transforma

tudo o que por ele passa, combinando e criando ao devolver a realidade. Antônio Candido (2006; p. 27) comenta que: “Algumas tendências mais vivas da estética moderna estão empenhadas em estudar como a obra de arte plasma o meio, cria o seu público e as suas vias de penetração, agindo em sentido inverso ao das influências externas”. Por este olhar entendemos a agrupação das ideias de cultura alternativa que Donizetti emitiu em suas obras observadas neste estudo, e reordenou a cidade no plano tridimensional. Então, Jacarezinho se mostra não somente uma obra de poder e hierarquia, mas também de construção social e individual, que por sua vez pode ser denominada artística, histórica e memorialística. Pois

“Como terreno de fantasias, projeções inconscientes e lembranças, a cidade abriga monumentos, que são visíveis ou invisíveis e que se situam além do dado empírico. Podem articular o mundo interior ao exterior, as memórias individuais à memória coletiva, sonho à vigília” (FREIRE, 1997; p. 58).

Em outras palavras, os agentes sociais e as instituições político-econômicas podem ter elaborado as ruas centrais da cidade, mas a criação de leituras dessa construção se deu através das subjetividades dos transeuntes. Existem como objetivos, ou seja, como finalidade de mostrar o poder através da materialidade, mas, não essencialmente todos compartilham dessa experiência de forma semelhante. Portanto, tem a arte, um específico poder, triplo em sua medida, pois representa, transcende e age sobre os imaginários e porta a sociedade de patrimônios culturais, desde suas convenções às subversões.

Referências

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