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O Juridiquês

A linguagem usada nos tribunais brasileiros, embora seja a norma culta da língua
portuguesa, não é de fácil entendimento para a maioria dos cidadãos. A linguagem
jurídica deve ser objetiva e clara, tanto por parte dos juízes quanto dos advogados.
Publicada a decisão, qualquer pessoa deveria entendê-la sem precisar de explicações de
profissionais da área. No dia-a-dia dos tribunais, a extinção do seu uso ainda soa distante.
Ao contrário, flui entre os doutores. Um dialeto que, aprendido nas salas de aula do curso
de Direito, ganhas novos falantes, em nome da vaidade e da tradição. Os truques advêm
de citações em latim, mesóclises e outras pirotecnias verbais. Mais do que jargão, o
juridiquês tornou-se inimigo da Justiça e aparece como uma das principais queixas da
população sobre a Justiça.
O juridiquês é um entrave, que adia as soluções e camufla os conflitos. Má pode dizer que
só há espaço para o linguajar arcaico no mundo contemporâneo, marcado pela
internacionalização do Direito? Mesmo assim, seria lícito perguntar: será que, sem
incorrer em gírias e coloquialismos excessivos, a língua da Justiça não deveria buscar a
compreensão dos mortais comuns?
Essa mobilização por uma linguagem mais acessível, de certo modo, acaba por exigir
maior objetivade e propicia maior contato com o universo jurídico. Até porque, é no
terreno do juridiquês que surgem os sentidos dúbios, as interpretações errôneas, o não
cumprimento das leis e a esperteza.
A linguagem sempre foi um instrumento de dominação ao longo da história e o juridiquês
precisa ser combatido, por impedir o entendimento do cidadão comum sobre o que
acontece no curso do seu processo. Por meio da linguagem, as elites se perpetuam no
poder e, quanto mais inacessível melhor para elas. A linguagem jurídica não foge à regra
e, durante décadas, ela vem sendo utilizada de maneira a restringir acesso da maioria da
população ao Poder Judiciário.
Mas, com a redemocratização do país e a função constitucional de guardião dos direitos
individuais e coletivos, o judiciário precisa adequar sua linguagem, se quiser de fato, ser
parceiro da cidadania.
Não se devem banir os termos técnicos. Más sim reduzir o empolamento, o uso excessivo
de adjetivos, termos latinos desnecessários e o texto longo e confuso. É claro que não
temos a pretensão de resolver todas as mazelas do nosso sistema judicial, mas é um bom
começo, Sem contar que ninguém entende esse juridiquês, exceto seus próprios
praticantes, que vão ficando cada vez mais isolados do resto das pessoas normais, que
falam e escrevem em linguagem de gente e não essas palavras tão incompreensíveis,
ninguém valoriza o que não entende.
A alma da Língua é a sua variedade e suas mudanças se dão espontaneamente. Não é
possível impor nada de fora para dentro, de um jeito artificial. A linguagem é uma
experiência que, para acontecer, precisa ser compartilhada socialmente.
Ela tanto pode funcionar como instrumento de reprodução como de emancipação de
valores.