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Universidade Estadual de Campinas

Instituto de Artes
Especialização em Artes Visuais

Processo em formação: pesquisa e


desenvolvimento de uma poética

Maithe Colombo Bertolini

Turma ART 120/2


2009
Resumo

Pretendo neste ensaio dissertar sobre a trajetória artística que percorri no período
referente à realização do curso de especialização em Artes Visuais na Universidade
Estadual de Campinas entre agosto de 2008 e dezembro de 2009, tendo como parâmetro
de avaliação o fazer artístico neste período. Encerrarei este ensaio com uma reflexão
mais aprofundada sobre o último trabalho realizado (em andamento) – o Medidor de
Águas.
Citarei os trabalhos Recombinando Idade da Terra (2008), Glob@s (2009), Um
novo tempo (2008-2009), Sampa in a Box (2009) e o Medidor de Águas (2009). No
contexto da minha produção, selecionei-os por acreditar que sejam os mais
representativos para a construção da argumentação do desenvolvimento da minha
poética.

Palavras-chave: arte, poética, processo, intervenção, instalação


Introdução

Minha formação em Artes teve início em 2002, quando ingressei no curso de


Imagem e Som na Universidade Federal de São Carlos. Durante a graduação realizei
diversos curtas-metragens exercendo principalmente as funções de produção e direção
de arte, áreas nas quais me especializei. Minha base de pesquisa e referências neste
período era majoritariamente cinematográfica, mas pouco embasada em História da
Arte que, apesar de essencial para a construção do processo de criação em Arte e para
formação crítica em audiovisual, é pouco valorizada e enfatizada no curso.
Após a graduação iniciei um processo de pesquisa em hipermídia e divulgação
científica, desenvolvendo o projeto do Laboratório Aberto de Interatividade para
Disseminação Conhecimento Científico e Tecnológico (LAbI) na Universidade Federal
de São Carlos (UFSCar) . O LAbI promove, desde 2006, iniciativas de divulgação
científica – e produção de conhecimento sobre a temática – fundadas nos seguintes
conceitos: interdisciplinaridade, interatividade, construção colaborativa do
conhecimento e relações entre Arte e Ciência. A partir dessa experiência, já foram
elaboradas pelo Laboratório as instalações interativas de divulgação científica Escalas –
que aborda fenômenos naturais e realizações humanas em diferentes escalas, desde a
nanométrica até a astronômica – e Um Novo Tempo - com abordagens do conceito de
“tempo” em diferentes áreas do conhecimento, bem como uma grande diversidade de
materiais complementares a essas instalações – vídeos, publicações impressas e
eletrônicas, eventos e outras atividades.
No âmbito da interatividade, as atividades do LAbI justapõem áreas da produção
em Ciência e em Arte tendo os meios digitais como referência comum. Nessa
justaposição, investigamos a dialética da contaminação e retro-alimentação entre esses
campos: conceitos científicos que influenciam novos paradigmas artísticos,
manifestados na incorporação de meios digitais à confecção de obras. Por outro lado, a
Ciência se apropria de novas formas de produção e visualização de dados e interação
com estes, via meios digitais.
No LAbI exerço a função de coordenação de criação, realizando o planejamento
das instalações interativas, das atividades técnicas do projeto, programação e
codificação dos módulos de vídeo e áudio das instalações, bem como a articulação entre
essas demandas de programação e a concepção cenográfica das exposições.
Neste processo de formação crítica em Artes, iniciado formalmente há 7 anos,
dediquei-me paralelamente nos últimos 18 meses ao curso de especialização em Artes
Visuais na Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP, em busca de
aprofundamento na pesquisa em História da Arte e no processo de desenvolvimento
consciente da minha poética pessoal, influenciando diretamente na concepção e
execução dos trabalhos elaborados a partir de então.
Ao longo deste ensaio pretendo apresentar as obras mais representativas
desenvolvidas neste último período, numa reflexão sobre o fazer artístico e a construção
da minha poética.

Recombinando Idade da Terra – primeira teorização de um trabalho


“Esse filme estaria para o cinema talvez como um quadro de Picasso. Os críticos estão querendo
uma pintura acadêmica, quando já estou dando uma pintura do futuro.” Glauber Rocha

O Festival Contato é uma realização da Universidade Federal de São Carlos,


produzido pela Rádio UFSCar, CineUFSCar, LAbI e a Coordenadoria de Comunicação
Social – CCS. O Festival surge num contexto de fomento das atividades artísticas e
culturais locais e de integração entre as mesmas, buscando através da articulação o
estabelecimento de parcerias para a pesquisa e desenvolvimento de processos de
produções artísticas e comunicacionais dentro das constantes atualizações tecnológicas
e da relação com a sociedade.
Em 2008, segunda edição do festival, o tema proposto foi “Recombinação”. O
que se buscou com a escolha desse conceito como tema do Festival não era a recusa à
busca de padronizações. Entendíamos que o acordo, o padrão estabelecido e as
convenções eram importantes na comunicação e na criação artística. No entanto, tenta-
se evidenciar que devemos ser agentes nesse processo, e não apenas operadores.
Ressalta-se, assim, que devemos buscar continuamente novas rupturas e
reordenamentos, quebrando padrões e construindo outros. Todo processo criativo passa
por momentos de ruptura e reorganização. Nesse processo, novas camadas de
convenções são estabelecidas.
É neste contexto que surge a proposta de realização de uma sessão do filme A
Idade da Terra (1980), de Glauber Rocha. Logo percebemos que esta sessão
aproximava-se de um formato de instalação audiovisual, com múltiplos pontos de
vistas, desfragmentando o filme e distribuindo-o no espaço para ser reorganizado pelos
visitantes. Esta instalação – Recombinando Idade da Terra – foi desenvolvida por um
grupo de 5 pessoas, que trabalhou junto durante 5 meses num processo criativo
orgânico à estudantes e/ou profissionais do audiovisual, dedicando-se principalmente à
pesquisa cinematográfica e ao que seria o Maracanã Eletrônico proposto por Glauber
Rocha.
“A sala de cinema vai parecer um circo, cinema
laser, holografia, cinema espacial, teatro das imagens,
coordenação de cinema com balé. Acabou a coisa do
filme projetado. Tela é para a televisão. Cinema será o
chamado circo tecnológico. Isso muda tudo! (...)”
Glauber Rocha

Plano geral da instalação Recombinando Idade da Terra, no Teatro


de Bolso da UFSCar.
foto: César Augusto Spadela

A primeira tentativa de teorizar sobre o processo de criação caiu facilmente


num paralelo com o Cubismo, primeiro movimento de vanguarda da Arte Moderna. A
subversão do Cubismo era expressa numa nova forma de concepção do espaço, na
fragmentação do objeto e reorganização da multiplicidade de pontos de vistas num
plano bidimensional, sob um novo olhar.
Recortamos o filme em 16 fragmentos que foram reorganizados e distribuídos
no espaço em televisores, destruindo a unidade fílmica para a reorganização do mesmo.
Todos os trechos tocavam simultaneamente no mesmo espaço, que era precedido por
um corredor coberto com terra e no seu final encontravam-se bacias de alumínio com
água limpa para lavar os pés. Buscávamos uma categoria de espectadores para a
instalação, que fosse participativa e que entendesse a obra como processo, ativos na sua
construção.

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Instalação Recombinando Idade da Terra.1- visitantes atravessando


corredor de terra, passando pelas bacias com água. 2 – vista do
palco, separado da platéia do teatro por um véu onde era projetado
um dos trechos do filme. 3- vista da platéia com os televisores
distribuídos entre as cadeiras. 4- contraplano da foto 3.
fotos: César Augusto Spadela

Glob@s in the air


Em dezembro do mesmo ano entrei em contato com o MediaLab Prado, em
Madri (Espanha), através da seleção de colaboradores para o Interactivos?09, um
workshop internacional para desenvolvimento colaborativo de projetos que relacionam
arte, ciência e tecnologia. O Interactivos? é um dos projetos do MediaLab Prado, um
programa da Secretaria de Cultura de Madri, que tem como objetivo a produção,
pesquisa e disseminação da cultura digital. Nesta edição do workshop, mediado pelo
Critical Art Esemble, o tema era Ciência de Garagem:
At it’s most grandiose, garage science is associated
with visionary eccentrics and next-level hackers that
have changed the world. The light bulb, radioactivity,
antibiotics, the synthesizer, the personal computer, etc.
all began to some degree as home projects. Such
revolutionary outcomes may not be probable, but they
certainly are possible. Garage Science, by Critical Art
Ensemble
Cerca de 40 pessoas de diferentes formações de todas as partes do mundo reuniram-se
durante 20 dias para tentar colocar em prática projetos que fossem baseados na ideologia do
DIY (faça você mesmo), inovadores na utilização das novas tecnologias e de baixo custo.
Glob@s, proposto por Susanna Tesconi, tinha como objetivo construir um balão que
carregasse sensores de qualidade de ar e um GPS, que recolhesse dados sobre
contaminadores do ar e disponibilizá-los para crianças através do OLPC (One Laptop
Per Children), um laptop de baixo custo com interface desenvolvida especialmente para
o aprendizado infantil.
A questão que mais chamou minha atenção e fez com que escolhesse este
projeto para me dedicar neste período foi a relação com o meio ambiente e a proposta
de criar uma interface para os dados compreensível para as crianças e que fosse
educativa, promovendo outra forma de se relacionar com mundo a partir dessa vivência.
A experiência deste workshop foi fundamental para o entendimento da ideologia
do Do it yourself como um processo colaborativo da construção do conhecimento. Só é
possível que você faça sozinho se alguém te der as instruções (toda a tecnologia
desenvolvida e empregada no desenvolvimento do Glob@s está disponível em
http://wiki.medialab-prado.es/index.php/Glob%40s). A forma de organização das
equipes de trabalho vai nesta mesma direção sinérgica – num workshop que se propõe a
desenvolver projetos que relacionem arte, ciência e tecnologia a formação diversificada
é fundamental para que cada uma das áreas seja contemplada na sua plenitude. O faça
você mesmo transforma-se num vamos fazer juntos.
exposição do protótipo do Glob@s, no Interactivos? em Madri, com a
interface projetada no balão
foto: Maithe C. Bertolini

Um novo tempo
Um novo tempo é uma instalação interativa desenvolvida pelo LAbI no
ano de 2009, com a proposta de trabalhar o tema “tempo” de maneira transdisciplinar.
O LAbI é um espaço voltado à experimentação e ao compartilhamento de metodologias
de disseminação do conhecimento voltadas à consolidação de uma cultura científica no
Brasil que ultrapasse uma visão utilitarista da Ciência, construindo pontes entre o
conhecimento científico e o cotidiano e, principalmente, entre Universidade, Ciência,
Cidadania e Desenvolvimento Sustentável. As ações desenvolvidas pelo LAbI buscam
aprofundar o diálogo entre Ciência e Arte como formas distintas e complementares de
compreensão do mundo e produção de conhecimento, bem como entender como
Ciência e Arte podem ser articuladas para o enriquecimento das atividades de
divulgação científica e de processos de ensino e aprendizagem.
Nesta instalação, o ponto de partida para sua realização é o fenômeno ótico que
ocorre quando dois espelhos são posicionados paralelamente: a imagem refletida em um
espelho se torna objeto para o outro e vice-versa, refletindo infinitamente.
No lugar dos espelhos, são usadas telas de projeção. Uma câmera fixada em uma
das telas capta a imagem do interator e a projeta de duas formas: em tempo real de um
lado e num tempo não linear e não contínuo do outro. Assim, é possível, ao mesmo
tempo, observar imagens em dois tempos diferentes. A imagem projetada na face
oposta à câmera - um objeto virtual - torna-se um objeto real para a mesma, passando a
fazer parte deste sistema que se retroalimenta produzindo infinitas imagens em
diferentes tempos.
Uma terceira tela explora a irreversibilidade do tempo. Fenômenos como um
ovo quebrando e um cabelo sendo cortado podem ser revertidos voltando-se o ponteiro
de um relógio adaptado com sensores. Projetamos uma estrutura em aço num formato
cúbico, com as paredes opostas paralelas e fixamos uma câmera em um dos lados,
ligada a um computador onde um as imagens captadas em tempo real são tratadas
através de um software e projetadas com o efeito e se retroalimentando.
Neste trabalho a interatividade é aplicada como uma interface de contato entre
Arte, Ciência e Tecnologia, explorando seu potencial de articulação para propor uma
nova experiência em que passado, presente e futuro são relativos.

Primeira exposição da instalação Um Novo Tempo, com performance


da Urze Companhia de Dança. Aqui é possível identificar a estrutura
desenvolvida para este projeto específico.
Foto: Branca Arruda
Visitantes interagindo com a instalação.
fotos: Maithe C. Bertolini

Sampa in a Box iluminada com LEDs


Uma caixa preta com um dos lados abertos, coberto com um difusor de papel
manteiga, dentro dela 4 LEDs vermelhos e 1 amarelo. Um vermelho piscante. Derivada
de uma fotografia de Flávio Sganzerla, esta obra parte da abstração imagética, num
exercício de eliminar tudo aquilo que não chamasse minha atenção, de concentrar o
olhar naquilo que realmente seria essencial na imagem.
O único objeto em foco nesta imagem é também o único elemento humano
identificável, num apuro que revela uma grande habilidade do fotógrafo em lidar com a
construção estética a partir da profundidade de campo, dominando o aparato técnico.
Fora de foco temos a imagem da Avenida Paulista, durante o crepúsculo, ainda
iluminada pelo fim da luz do dia, no instante em que todos os faróis da mais famosa
avenida de São Paulo estavam fechados.

Thereza – Avenida Paulista,


de Flávio Sganzerla
Num exercício de identificação do punctum, conceito sobre o qual Roland
Barthes discorre em A Câmera Clara, como o ponto da foto que chama o olhar, com o
qual é estabelecida a relação de cumplicidade, como o ponto que afeta filtrado pela
visão, percebi que este elemento, o ser humano, não era o que mais me chamava a
atenção na imagem, não era quem tinha algo para me contar. Meu fascínio foi pelas
luzes dos semáforos, que fora de foco transformaram-se em pontos luminosos que dão
uma ilusão de movimento, seja pela sua composição sinuosa no plano formando picos e
vales, seja pela sensação de tempo contido, à espera que todas as luzes fiquem amarelas
e depois verdes.
Da identificação do interesse na imagem surge a proposta de criar este objeto –
Sampa in a Box, enclausurando e contendo numa caixa preta as luzes da cidade.

Bicão EmCONTATO

Como já citado no começo deste ensaio, o Festival CONTATO permeia minha


produção e em 2009 mais uma vez surge um projeto de criação artística com a proposta
de articular uma intervenção artístico-ambiental no Parque do Bicão, na cidade de São
Carlos. Na terceira edição do evento a vontade e necessidade de integração com a
cidade parecia vital para que o mesmo evoluísse, queríamos discutir a identidade de nós
mesmos e para isso propusemos o processo de produção do espaço do 3° CONTATO
como um organismo vivo, vibrante e em constante transformação, modificado por
aqueles que o ocupam, por suas redes e fluxos. Ao nos expormos para o contato mútuo,
permitimos encontros em que as diversidades coletivas e individuais fossem
impulsionadas a se reconfigurar, criando formas de existência favorecedoras do
processo vital.
O Centro de Lazer Joaquim da Rocha Medeiros, mais conhecido como Parque
do Bicão, está localizado na região da sub bacia do córrego Medeiros e foi construído
em 1982 em uma área de APP (Área de Proteção Permanente) com uma área de
41800m² onde abriga 3 nascentes, vegetação exótica, ornamental e paisagismo
integrado a área de lazer e esportiva. Ao longo dos anos, o Parque sofreu uma ampla
degradação ambiental, com problemas de erosão, drenagem, acúmulo de água parada,
problemas de segurança, falta de manutenção das construções, entradas clandestinas de
esgoto na tubulação pluvial, acúmulo de lixo, falta de lixeiras, problemas de
iluminação, entre outros identificados no projeto Percepção Sócio-Ambiental do Parque
do Bicão, desenvolvido na ACIEPE Educação Ambiental e Ação Sócio-Educativa no
ano de 2009.
O diagnóstico ambiental e a sistematização da análise de percepção dos
frequentadores do Parque realizado neste projeto foi fundamental para adquirirmos uma
base para desenvolvermos a ideia e conceito do que seria a intervenção naquele espaço.
Como exemplo das discussões abordadas e das mais estimulantes para este trabalho
posso citar a identificação da vontade da comunidade local e do entorno em assumir
responsabilidade pela manutenção do parque em parceria com o poder público, mas foi
detectada também a dificuldade em colocar a ideia em prática devido à falta de uma
interface ou de um canal de comunicação entre as partes.
Dentro do parque podemos identificar vários problemas causados pela falta de
integração do projeto urbanístico da cidade com a questão dos recursos hídricos e as
características locais de clima e relevo. As primeiras impressões sobre a condição
ambiental do parque seguem em forma de tabela.

Problemas Ambientais Causas principais

Picos de enchente, • Intensa impermeabilização da Bacia


alagamento das Hidrográfica do Córrego do Medeiros;
construções do parque e
erosão. • Canalização do córrego dentro do parque;

• Concentração de grande quantidade de água


da chuva em um local que não está preparado
para suportar toda a vazão que chega.

Deteriorização das • Chegada de grande quantidade de sedimentos


nascentes trazidos pela água da chuva;

• Falta da área de preservação permanente da


nascente.
Assoreamento e • Falta de cobertura vegetal superficial no
Eutrofização do lago parque para conter a energia da água da chuva
que produz o carreamento de sedimentos para o
lago;

• Falta de manutenção e proliferação da


vegetação do lago.

Contaminação do córrego • Ligações clandestinas de esgoto na rede de


com esgoto coleta de água pluvial.

Com isso, o coletivo formado a partir do CONTATO por produtores


audiovisuais, engenheiros ambientais, físicos e arquitetos vem propor intervenções
contínuas, fomentando atividades de reflexão e criação conjunta com a população, a fim
de valorizar o Parque do Bicão como espaço público, buscando assim aumentar sua
inserção na cidade, além de possibilitar à população o acesso a conhecimentos
produzidos pelas universidades que estarão inseridos nas atividades.

Formas de Ação de Relacionamento


Nas atividades propostas pretendemos promover ações dentro da realidade
existente, aprendendo a habitar melhor o espaço através dos contatos estabelecidos
entre a própria comunidade e a comunidade e o espaço a partir de encontros motivados
pela arte.
Estes encontros, proporcionados pelas intervenções no parque, explorarão o
potencial de transformação do mesmo, estimulando a apropriação e resignificação do
espaço. Esta problematização das relações será fundamentada em experimentações
sociais que lidarão com as questões sociais, históricas e culturais que permeiam as
subjetividades locais. As relações estabelecidas a partir daí, ou as intersubjetividades,
serão então as relações inventadas ou novos modos de contato que buscamos.
Esta relação da comunidade com o local, participativa e crítica, será construída
através de ações coletivas desenvolvidas em um espaço público privilegiado, em que a
consciência social dos direitos e deveres ultrapassará a tomada de iniciativa individual
de conhecimento e superação da realidade em que a comunidade se encontra, até atingir
a compreensão de teias de complexas relações sociais e ambientais que compõem este
local que estamos lidando. Esperamos que o empoderamento proporcione então a
emancipação individual e a consciência coletiva de responsabilidade na manutenção e
criação de espaços que permitam encontros fortuitos e novas formas de contato.
O potencial da arte como promotor de transformações das relações humanas e
do espaço foi a base para Nicolas Bourriaud desenvolver o conceito de estética
relacional, a partir da convivência com um grupo de artistas na década de 90 que
tinham em comum a forma de organização colaborativa de trabalho, a preocupação com
a interatividade e com as relações entre o artista, o espectador e o local onde estava
inserido ou atuando. É sob este ponto de vista que propomos este projeto.

O Pombal
Ao chegarmos no Parque do Bicão notamos uma escultura de cerca de 17 metros
de altura que não conseguíamos identificar, não sabíamos se era uma obra de arte, se
estava inacabada ou não. Ela não estava sinalizada e nenhuma das pessoas com as quais
conversamos sabia dizer do que se tratava. Nas pesquisas realizadas junto à Prefeitura
Municipal de São Carlos e as Secretarias de Meio Ambiente e Habitação, parceiras no
desenvolvimento desta intervenção, tivemos acesso as plantas do parque e então
identificamos no projeto o que seria aquela escultura – a estrutura em concreto de 17
metros havia sido projetada como um pombal.
Havia naquele pombal todo um potencial artístico identificado não aproveitado.
O pombal era um elemento de destaque geográfico naquele espaço, que podia ser
visualizado de qualquer ponto do parque ou do entorno, parecia inorgânico pela
estrutura de concreto em meio ao verde e não significava nada para os frequentadores
do parque. Ele estava descontextualizado da sua função original e não havia sido
resignificado, estava no limbo.

Vista do Pombal antes da intervenção


foto: Filipe Garcia Peçanha
Tanto o projeto arquitetônico do parque quanto do pombal é de autoria de Benno
Perelmutter, arquiteto responsável pela planta executada em 1982. A tentativa de entrar
em contato com Perelmutter aconteceu somente depois do processo de intervenção já
ter sido iniciado, mas não conseguimos contatá-lo.

Medidor de Águas
A partir do diagnóstico ambiental traçado e das visitas e conversas com os
frequentadores do parque e moradores do entorno, identificamos que a água marca a
forma como as pessoas se relacionam com o parque, seja pelos alagamentos, pela
deterioração em período de chuvas, erosão, pelo mau cheiro do esgoto clandestino ou
pela falta de bebedouros. Uma vez que a proposta de intervenção surge da temática
ambiental, elegemos a água como índice para a primeira ação do coletivo. Não
queríamos levar nenhum outro elemento para o parque para externar este problema, ele
deveria ser expresso a partir dele mesmo, a forma deveria emergir do conteúdo. Como
promover a transformação a partir dos seus próprios recursos? Como reorganizar
aqueles elementos para criar algo novo? Assim, nos apropriamos do pombal num
processo interventório, transformando-o no Medidor de Águas do Parque do Bicão.
Concebemos uma instalação em que através de sensores de nível coletaríamos
dados a respeito do volume de água no parque para transformá-los em tempo real em
informação luminosa através de LEDs que seriam instalados nos orifícios do pombal.
Este processo de resignificação, de intervenção na paisagem seria então propulsor de
novos encontros, para colocar em conflito as formas de relacionamento, criando novos
signos a partir da reprogramação dos objetos.
Para a execução desta proposta, inicialmente foi pensado numa bóia colocada no
reservatório ligada a uma corda com outra bóia de mesmo peso tensionada até a outra
extremidade da corda. A bóia teria uma armação de metal acoplada a ela e quando o
nível de água subisse a bóia no reservatório subiria, por conseqüência, na sua outra
extremidade desceria a armação de metal ligada a ela iria fazendo contato com a
instalação elétrica que fecha um circuito instalado por fora do reservatório acendendo
as armações com LEDs indicando a altura do nível de água. Existia porém problemas
na construção de um reservatório em pequena escala que fosse proporcional a mudança
do nível de água, além da montagem do sistema elétrico de forma com que ele não
entrasse em contato com a água do reservatório ou do meio externo.
Rascunho para ilustração do
esquema técnico de funcionamento das bóias.

Para tentar solucionar o problema das dimensões do reservatório foi pensado em


mudar sua geometria de um recipiente cilíndrico para uma forma cônica, com seu bico
virado para baixo, de forma que a medição não fosse linear, ou seja, inicialmente
medisse rapidamente pequenas alterações no nível de água e quando fosse chegando
perto da cheia ele fosse referente a uma alteração de volume maior do que a alteração
inicial. Com esta mudança na forma do reservatório, sua instalação seria um problema,
pois mesmo em uma pequena escala exigiria uma grande mudança no parque para o
transporte de água do parque até o medidor, uma vez que a ideia era deixá-lo perto da
escultura. Pensando nisso, mudou-se o local de onde ele seria instalado e novamente a
sua forma, finalmente o reservatório agora se localizaria no próprio córrego, e mediria a
variação de volume do parque em relação à altura da água, e sua forma voltaria a ser
cilíndrica, porém com um maior comprimento e um raio menor já que para detectar a
variação do volume não seria necessário medi-lo diretamente.
A instalação elétrica não poderia continuar dependendo do sistema de bóias,
pois se isso acontecesse ela ficaria exposta a possíveis infiltrações advindas do
reservatório, pensando nisso todo o aparelho com as bóias foi substituído por sete
sensores capacitivos, no caso o modelo BERO - 3RG1, que funcionariam baseados na
geração de um campo elétrico, sendo aplicados na detecção de fluidos, distribuídos ao
longo de toda a superfície interna do reservatório, formando sete níveis de medida,
presumindo que conforme o nível do córrego se elevasse até a altura de um dos
sensores a armação com LEDs referente aqueles níveis ascendessem, este processo
seria o mesmo ate o ultimo nível indicando a cheia do córrego. Entretanto esta solução
exigia muitos recursos financeiros já que cada sensor custava R$600,00 o que
totalizaria um gasto de R$4200,00. Como este gasto estava acima dos recursos
disponibilizados, foi então desenvolvido um sensor analógico de pressão, feito de um
polímero flexível com um circuito impresso fixado em seu centro, em sete pontos ao
longo de um reservatório de água feito de um cano de PVC, que foi utilizado como
medidor. Cada sensor é ativado pela pressão da água sobre a face do mesmo que foi
acoplado na parede interna do reservatório. Quando o sensor é pressionado pela massa
de água, a placa de circuito impresso liga-se com outro circuito instalado na superfície
externa do reservatório, fazendo com que a armação de LEDs instalada na escultura
ascenda. Este procedimento se repete ao longo de todo o medidor, onde cada sensor do
reservatório está ligado um dos círculos da escultura. Assim, tendo um modelo viável e
factível, de um medidor de nível de água, foi desenvolvido um protótipo em laboratório
que funcionou bem, por fim permitindo a sua aplicação no Parque do Bicão.
Percebi depois que o processo percorrido para a elaboração da versão final da
tecnologia aplicada no Medidor de Águas ia na mesma direção da ideologia proposta
pelo MediaLab Prado no workshop Interactivos? com o tema Ciência de Garagem –
todo o sistema foi desenvolvido no LAbI pelo coletivo, orientado por 3 estudantes de
Física e de Engenharia Ambiental, que acreditaram que seria possível construir algo
usando baixa tecnologia, de baixo custo, produzindo conhecimento e aplicável num
projeto de transformação artístico-ambiental. O projeto mais rústico em termos de
tecnologia aplicada e mais barato era o mais aplicável e funcional para a ocasião pela
eficiência da sua exequibilidade.

Nesta fotografia podemos ver em primeiro plano o tubo de PVC no qual estão
instalados os circuitos eletrônicos de contato, fixado a beira do córrego, cujo volume de
água é formado pela somatória das águas das nascentes, da coleta de águas das chuvas
da região e pelo esgoto clandestino. É possível identificar na foto a estrutura elétrica
que liga os sensores à escultura, que pode ser vista no segundo plano da imagem.
Em cada um dos orifícios da escultura foram instaladas chapas expandidas em
aço carbono com pintura a pó na cor branca que funcionam como difusores de luz,
criando uma superfície de reflexão, aumentando a superfície de contato e
potencializando a luminância dos LEDs, acionados pelo sistema de medição de água.
No total foram utilizados 42 LEDs de 3watts cada, distribuídos 6 a 6 em cada um dos
orifícios.

Detalhe do LED de 3w e da chapa expandida em aço


carbono, utilizada para difundir a luz.
foto: Maithe C. Bertolini

O Medidor de Águas foi inaugurado no dia 12 de outubro de 2009 durante o


Contatinho, programação especial para as crianças dentro do Festival CONTATO que
aconteceu no Parque.
Fotos noturnas do Medidor de Águas.
fotos: Maithe C. Bertolini

Processo em formação
A partir da descrição dos trabalhos selecionados neste ensaio, parto para uma
análise reflexiva do processo em formação de uma poética pessoal, usando-os como
referência. Considero que no período descrito de 18 meses, esta produção seja
significativa e representativa para a avaliação de algumas características de
colaboratividade, transdisciplinaridade, transformação social, arte e tecnologia, e
recombinação dos meios.
Acredito que minha produção encontra-se no campo das estéticas tecnólogicas,
em que a tecnologia tem papel significativo no processo criativo e na obra propriamente
dita. Este é um traço comum entre os artistas contemporâneos que trabalham com arte
digital, como colocado por Giselle Beiguelman durante o Fórum Internacional de A&T
– Perspectivas Críticas em Arte e Tecnologia.
Neste processo a tecnologia não é encarada apenas como uma ferramenta, um
meio para alcançar os resultados esperados, mas sim a tensão com o campo estético que
potencializa a criação, proporcionando novas formas de criação. Segundo Beiguelman
“trata-se de criações que são somente possíveis no âmbito da pesquisa científica, e das
tecnologias de informação e comunicação atuais; e que operam leituras
transdisciplinares da contemporaneidade, jogando com a hibridização entre saberes e
conceitos.”1
Considero-me num ambiente privilegiado para o desenvolvimento e
aprimoramento deste fazer artístico, coordenando a criação de instalações interativas
colaborativas para a divulgação científica no Laboratório Aberto de Interatividade da
UFSCar, com estímulo à pesquisa científica.
Com a instalação Recombinando Idade da Terra percebi que para todos os
processos de criação quanto mais embasamento houver, quanto maior a fundamentação
teórica, maior a coerência entre discurso e obra. A criação coletiva entre pares segue
uma linearidade agradável pela fácil assimilação dos discursos e nivelação da
discussão, com a possibilidade de aprofundamento estético e formal.
Em Glob@s a experiência de coletividade foi levada ao extremo pela
convivência durante 20 dias com um grupo tão diverso culturalmente quanto de
formação no ambiente de trabalho e pesquisa e no ambiente privado. A vontade de
trabalhar junto e a necessidade de colaboração das habilidades e conhecimentos
individuais transpunham qualquer barreira linguística, onde arte, tecnologia e ciência
eram a língua em comum. Neste grupo, além da vontade de criar e investigar havia
também a preocupação com a documentação e compartilhamento da informação, ou
seja, do conhecimento produzido. Na filosofia da colaboratividade o retorno é parte do
processo, para que a rede de informações continue a crescer.
No LAbI estes valores são intrínsecos à nossa produção, como no caso da
instalação Um Novo Tempo. Para elaborá-la desenvolvemos 8 encontros com 15
professores universitários de diferentes áreas do ensino e conhecimento, como Física,
Química, Letras, Pedagogia, Psicologia, Jornalismo, Cinema, entre outras, que
aceitaram participar desta experiência colaborativa de abstração do tema “tempo” em
cada uma das suas áreas de pesquisa e atuação. Este processo foi muito engrandecedor e
esclarecedor, tanto na preparação e condução destes encontros como na concepção de
uma instalação a partir deste material produzido. Esta instalação já foi exposta em
algumas ocasiões, tendo acumulado até o momento cerca de 5000 visitantes.
Em Sampa in a box acredito que tenha me aproximado mais de uma linguagem
pessoal, apesar de referências como Abraham Palatnik vir facilmente à tona. Porém não

1
Rumo à tecnofagia (Tendências da criação em arte digital no Brasil) in Prêmio Sergio Motta de arte
e tecnologia. Fórum Internacional A&T: Perspectivas críticas em arte e tecnologia – São Paulo: Instituto
Sergio Motta, 2009.
encaro como um problema, e sim como um processo em formação. O uso de LEDs e de
outras tecnologias como low tech e circuit bending surgem como uma nova prática
estética de remodelagem de equipamentos e integração de mídias de idades e graus de
obsolência diferentes.
A remodelagem, recombinação e apropriação somadas a colaboratividade,
interatividade e transformação social encontram-se no projeto Bicão EmCONTATO,
que não seria possível existir sem a combinação destes elementos. Vejo o Medidor de
Águas como uma obra com o potencial de síntese da experiência acumulada, mas com
potencial maior ainda de ação e transformação através da arte. Da arte como promotora
de encontros onde os conflitos sejam expostos, como um vínculo entre os indivíduos e o
local, criando sentido a partir da interação entre o coletivo proponente e a comunidade.
Da experiência de aproximação das pessoas, da reunião e da injeção de estímulo para a
transformação e apropriação, surge outro sentido para a obra, ainda em construção,
assim como este processo de formação e pesquisa de uma poética pessoal.
Referências Bibliográficas

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