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Instituto de Psiquiatria e Psicoterapia


da Infância e da Adolescência

Disciplina de Psicopatologia
Professora Dra. Marluce Muniz de Souza
Pedro

Virgínia Woolf: Transtorno Bipolar

Trabalho de conclusão de Disciplina

Regiane de Quadros Glashan


2

2009
Sumário
Conteúdo página

Resumo da Biografia de Adeline Virginia Woolf


1

Introdução 4
Uma volta na infância de Virgínia Woolf
5
O grupo de Bloomsbury 7
O feminismo 8
Sexualidade 9
Transtorno Bipolar ou outra perturbação esquizoafetiva –
11
Produção e Obra de Virgínia Woolf ..............................
14

Sinópse do Filme “As Horas”


26

DMS.IV – Manual de Diagnóstico e Estatística das


28
Perturbações Mentais

Consonância entre a psicopatologia do transtorno bipolar e as


42
manifestações mentais apresentadas por Virgínia Woolf,
baseadas
no estudo de sua biografia, em fragmentos do filme
“As Horas” e nas características definidoras do DMS IV.

Referência bibliográfica 48

Anexo
49
Depoimentos e Publicação em
imprensa
escrita (veículo nacional) e figuras
3

Resumo da Biografia de Adeline Virginia Woolf

A escritora Adeline Virginia Woolf evoca desde logo a essência


da tragédia. Sentindo-se incapaz de controlar a vida, preferiu a morte,
afogando-se num rio com os bolsos repletos de pedras. No entanto,
aparentemente, ela desfrutava das condições que considerava
essenciais para uma mulher se afirmar como escritora, advogadas no
seu ensaio “Um Quarto que seja Seu” – dispor de espaço, físico e
psicológico e de dinheiro suficiente para se bastar a si própria.
Inserindo-se na impressionante cadeia de mulheres inglesas, nascidas
a partir de 1800, que produziram literatura, a obra desta escritora é
sempre classificada como sendo das mais inovadoras e estimulantes,
quer entre as mulheres autoras, quer entre o conjunto dos criadores
de ambos os sexos. Reconhecida em vida, apoiada pelo seu marido,
igualmente escritor, Leonard Woolf, Virginia produziu nove romances,
duas biografias, sete volumes de ensaios, vinte e seis cadernos de
diários e um sem número de cartas. Nasceu numa família que
estimulou os seus talentos mas teria sido objeto, na infância, de
abuso sexual por parte dos seus meio-irmãos mais velhos. Estas
circunstâncias, aliadas a lutos familiares (a mãe morreu quando ela
tinha 13 anos) e aos horrores de duas guerras mundiais, têm servido
aos seus numerosos biógrafos e estudiosos para explicar as muitas
depressões de que sofreu e as tentativas de suicídio que realizou até
ao encontro definitivo com a morte. Os violentos tratamentos
médicos a que foi submetida num hospício para “mulheres loucas”,
que passavam por absoluto isolamento, proibição de qualquer
atividade, incluindo a leitura e a escrita, com o conluio bem
intencionado de seu marido e irmã, também teriam tido efeitos
nefastos. Seu marido decidiu no início do casamento, aparentemente
harmonioso, que ela não tinha resistência para ser mãe, o que
Virginia Woolf sentiu como uma fragilização da sua identidade. Neste
quadro se situam as suas reflexões sobre a condição feminina
publicadas em 1929, onde nos conduz eruditamente de idéia em
idéia, com lógica, com aparente leveza, com ironia. Inventa uma irmã
para Shakespeare, a qual nunca poderia ter sido escritora pelo mero
fato de ser mulher. Verbaliza com 50 anos de antecedência muitas
4

das questões retomadas no final do século XX e até ao presente.


Algumas destas angustias foram retratadas no filme “As Horas”, onde
a atriz Nicole Kidman vivencia por algumas horas as inquietudes por
qual passou Virgínia em seus últimos meses de vida. O filme retrata a
melancolia , os períodos de anorexia e as intensas cefaléias da
escritora por não superar e não suportar sua doença mental e os
sintomas psíquicos que tanto a afligiram, principalmente as
alucinações. Neste contexto, procuramos com este trabalho sobrepor
os sintomas mentais de Virgínia referidos em sua biografia
(indicativos de transtorno bipolar ) e em alguns fragmentos do filme
citado a cima com a classificação do DMS IV.

Introdução

Virgínia Woolf (Adriele Virgínia Woolf), como era mais


conhecida, nasceu em Londres em 1882. Perdeu sua mãe quando
tinha 13 anos de idade. Seu pai, o editor Leslie Stephen, erudito,
filósofo e uma das figuras mais originais da Inglaterra vitoriana, foi o
responsável pela educação de Virgínia Woolf. Foi com ele que a
escritora conheceu os argumentos filosóficos de Platão, Espinoza,
Montagne e Hume.

Após a morte de seu pai em 1904, Virgínia e seus irmãos se


mudaram para Bloomsbury (bairro londrino decadente) e então
formaram um grupo de intelectuais, debatendo assuntos literários,
filosóficos, políticos e sociais. O grupo era formado por economistas,
críticos, historiadores, escritores entre outros.

Com a chegada da primeira guerra mundial e após o


casamento de Virgínia (1912), o grupo se dissociou, voltando a se
encontrarem anos mais tarde com o lema: busca da verdade,
liberdade de expressão, amor pela arte e respeito a individualidade.
Cinco anos após seu matrimônio, Virgínia fundou sua própria editora –
Leonard Woolf Hogarth Press.
5

Virginia Woolf foi considerada uma das maiores escritoras da


época do modernismo e foi marcada por desajustes familiares que a
influenciaram preponderantemente em sua saúde mental.

Neste contexto, resolvemos fazer um paralelo entre sua


história de vida, sua produção literária e partes do filme “AS Horas” e
traçar um paralelo aos aspectos psicopatológicos que fundamentaram
sua doença mental, ou seja, o transtorno bipolar.

Uma volta na infância de Virgínia Woolf

Virgínia Woolf nasceu em 1882 no aristocrático bairro londrino de


Kensington, rodeada por uma família de classe alta, residente em
uma casa muito confortável de 5 andares. As paredes eram pintadas
predominantemente de preto e de outr5as cores escuras. O mobiliário
em sua maioria era escuro e inútil, as cortinas eram grossas e escuras
– empobreciam a entrada de luz natural nos ambientes. A fachada da
casa era recoberta por espessa camada de “Hera” ,deixando o
ambiente familiar com aspecto fúnebre.

O pai de Virgínia era um conhecido intelectual vitoriano,


catedrático de Cambridge, erudito, filósofo, agnóstico e jornalista.
Segundo as bibliografias da família, o senhor Leslie permanecia dias
fechado em sua biblioteca, dedicado ao seu trabalho. Pensava, como
seus contemporâneos, que o papel da mulher estava relacionado aos
cuidados com a família, da casa, e servir incondicionalmente ao
homem. Qualquer tentativa de sair deste esquema era considerado
extemporâneo e condenado ao fracasso social e pessoal.
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A Senhora Júlia, mãe de Virgínia, era dedicada ao cumprimento


social dos cuidados da família e nas horas vagas cumpria ações de
caridades.

Ambos os cônjuges eram casados em segundas núpcias. Leslie


tinha uma filha – Laura – que era deficiente mental e passou quase
que toda sua vida hospitalizada em hospital para doentes de
patologias da mente. Júlia tinha três filhos, George, Gerald e Stela. Da
segunda união matrimonial, nasceram Vanessa, Virgínia, Thoby e
Adriam. Costumavam brincar juntos nos jardins de Kensington e Hyde
Park. No entanto, nem tudo era tão mágico assim, os rapazes foram
encaminhados para seguir seus estudos em universidades e as
meninas foram delineadas para serem boas donas de casa e tiveram
apenas uma educação formal rudimentar, baseadas no fundamento
da manutenção do casamento e algumas noções de dança e música.

Virgínia sempre admirou o pai e procurou desenvolver seu lado


didata, embora não perdoasse o pai por sua visão machista e sua
forma isolada de viver. Mesmo assim, Vanessa foi para a escola de
belas artes (Royal Academy para estudar pintura) e Virgínia foi
estudar grego clássico de maneira não formal.

Na fase da adolescência, aos 13 anos, Virgínia perde sua mãe


em decorrência de uma pneumonia. Em seu diário assim escreveu:

“Com as suas patas e antenas pegajosas e


trementes, esperando um momento, junto ao casulo partido,
‘as asas úmidas e ainda coladas, os olhos deslumbrados,
incapaz de voar” 1.

Ambas as irmãs sempre manifestaram a emoção de não terem


sido suficientemente amadas pela mãe e o abandono precoce
proporcionado pela morte materna, forçaram Virgínia e Vanessa a
viverem como uma simbiose emocional.

A morte tornou-se presença contínua na vida das irmãs,


surgindo precocemente com o falecimento da meia irmã – Stela, a
qual Virgínia sentia muita proximidade afetiva e amorosa e depois do
7

pai, em decorrência de doença sexualmente transmissível, na época


sem medicamentos disponíveis para o tratamento.

Após as sucessivas mortes, as irmãs acabaram ficando sob a


tutela do meio irmão mais velho – George. George por sua vez tentou
o mais rápido que pode procurar pretendentes para Vanessa e
Virgínia foi molestada e abusada muitas vezes por esse meio irmão,
causando severos traumas em sua vida.

O grupo de Bloomsbury

Cerca de 4 anos após a tutoria de Geroge, os quatro irmãos


decidem se libertar da guarda do irmão e decidem se mudar para o
bairro de Gordon Square – um bairro boêmio. Vanessa passou a se
dedicar a decoração da nova casa, propondo ambientes claros, limpos
e com poucos móveis. Enquanto isso Virgínia se dedicava a escrever
seu diário. Thoby se sentia mais avontade nesse novo lar e passou a
convidar seus colegas da universidade ‘a nova casa, formando um
novo grupo de intelectuais – Grupo de Bloomsbury. Este grupo era
liberal e assumiram uma atitude permissiva e desinibida em termos
8

sexuais – existiam entre eles relacionamentos homossexuais e


relacionamentos triangulares. Estas relações perduraram até o
casamento de Vanessa.

O feminismo

Virgínia nunca aceitou o regime vitoriano de empobrecimento


da cultura e dos ideais das mulheres. A sua luta pessoal para abrir
espaço no mundo masculino a impingiram a escrever livros e utilizá-
los para analisar a situação da mulher na Inglaterra de sua época –
foram os primórdios do feminismo no mundo.
9

Sexualidade

A sexualidade complexa e ambígua da escritora tem sido


objeto de estudos até na data atual. O abuso sexual de que foi vítima
por parte de seu meio irmão – George e Gerald durante sua infância
(tema que abordou em seu diário) deixaram feridas que não se
fecharam e que interferiram de maneira definitiva nas suas relações
com os homens a deixando frígida, conforme dados de sua biografia.
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Segundo os dados biográficos, frequentemente ela referia


estremecimento do corpo e profunda vergonha ao se lembrar das
investidas libidinosas dos irmãos durante sua adolescência. Comenta
em seu diário, que seu casamento com Leonard era baseado em
afeto mútuo, amizade e assexuado, pelo menos com mais evidência
no final de seus dias.

Alguns biografistas revelam seu homoerotismo sempre ávido


de figuras maternais, baseado na fascinação que sentia pela
sensibilidade feminina e muito menos pela atração sexual. Adorava
escandalizar a sociedade vigente, tanto é que em 1927, escandalizou
os britânicos, quando assumiu seu relacionamento afetivo e
homossexual com uma poetisa e escritora. Este relacionamento foi
importante, pois originou o livro “Orlando”- livro sobre a mudança de
sexo de um homem que finaliza sua vida ao lado de uma mulher.

Para muitos autores, Virginia oscilava entre altos e baixos.


Vivia intensamente, dias sem dormir, insônia, sobressaltos e
rompantes que lhe tiravam o apetite e a faziam contemplar
intensamente os dias, sem ter tempo para comer, repousar, olhar
para o outro, apenas escrever de forma maníaca – sem parar para
tomar banho, conversar com outras pessoas. Quando se dava conta
que o outro existia, era para destratá-lo, aniquilá-lo ou reduzi-lo a
algo menor. Seus empregados ao mesmo tempo que tinham medo de
Virgínia, a desprezavam e tinham pena de seu estado mental. Por
outro lado, passava por períodos letárgicos, morimbundos, em que
não tinha volição para nada – a cama era sua melhor amiga.

Foi hospitalizada em hospitais para doentes mentais uma série


de vezes e durante sua internação era mantida em um quarto escuro,
proibida de receber visita, escrever ou ler qualquer material. Sua
alimentação era baseada em alimentos altamente gordurosos e muito
leite. Quanto a medicação, era inundada com tranqüilizantes.

Frente este quadro, que na época não tinha nome específico –


era comumente nomeado de psicose, seu médico recomendou que
11

ela não tivesse filhos para evitar a piora da doença ou mesmo


transmiti-la geneticamente. Ela adorava crianças e isso se tornou um
outro grande trauma em sua vida.

De seu encontro íntimo com a psiquiatria, escreveu seu livro


famoso, a respeito de um psicótico pós- guerra e sua relação com a
esposa deprimida: Mrs. Dalloway. Por outro lado, mostrava-se
interessada pelas obras de Freud e chegou a conhecê-lo durante seu
exílio na Inglaterra – em Hampstead. Seu irmão Adrian estudou
medicina e junto com sua esposa se tornaram psicanalistas por
influência de Freud.

Virgínia se recusava em deitar no divã, pois afirmava que sua


verdadeira terapeuta era a maquina de escrever.
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Transtorno Bipolar ou outra perturbação esquizoafetiva –


Resultado de pesquisa biográfica

Desde a adolescência, os irmãos de Virgínia contumavam


chamá-la de “cabra-louca”, caracterizada por alterações de humor, na
forma de episódios depressivos e/ou disfóricos, associados
ocasionalmente a sintomas psicóticos, não congruentes com o humor
(alucinação auditiva: vozes que comandavam coisas desatinadas,
ouvia o rei Eduardo VII, morto há mais de oito anos na época).
Durante as fases depressivas ficava acamada, mantinha-se
anoréxica, com insônia, com crises de palpitação, idéias delirantes de
culpabilidade e autoreferenciais e intensa somatização, como
cefaléia,

Quentin Bell (seu sobrinho), na sua biografia, descreve com grande


riqueza de detalhes os sintomas destas crises depressivas:
“Acreditava que as pessoas se riam dela, que era a causa
dos problemas de todas as pessoas; sentia-se invadida por
um sentimento de culpa pelo qual devia ser castigada.
Chegou a estar convencida de que o seu corpo, de alguma
maneira, era monstruoso, com uma sórdida boca e um sórdido
intestino que pediam comida (…) a única solução era
recusar-se a comer. As coisas materiais adoptaram aspectos
sinistros e imprevisíveis, bestiais e horríveis.”

Dados biográficos apontam crises como essas em número


aproximado de 6 episódios depressivos, dois deles após a morte da
mãe e do pai. Em 1915, relatam uma crise onde Virgínia ficou
verborreica , turbulenta e incoercível, mudava de um assunto para
outro em segundos, ria e chorava simultâneamente até cair na
letargia total. Nessa época era hospitalizada e medicada com vinho
quente para relaxar, veronal, paraldeido e hidrato de cloral para as
crises e para a cefaléia. Leonard e Vanessa a assistiam de longe.

Biógrafos revelam que fora dos momentos de crise, Virgínia


não alterava sua atividade criativa. De acordo com a própria Virgínia,
em seus quase 60 anos, somente 5 anos foram atropelados pelas
“crises”. Sua vida foi caracterizada por um trabalho intenso e
claridade literária.
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Na carta que deixou antes de se suicidar, revela que voltara a


ter alucinações auditivas. Previamente a este fato, havia tentado se
matar por duas vezes: a primeira tentou pular da janela e na segunda
ingeriu uma grande quantidade de veronal.

Nos estudos publicados em área médica e especificamente em


psiquiatria, os estudiosos foram unanimes em apontar a doença
psiquiátrica de Virgínia Woolf como psicose Maníaca-Depressiva
(episódios recorrentes com sintomas psicóticos não congruentes com
o humor).

Por outro lado, uma minoria aponta para uma perturbação


esquizoafetiva. Os que advogam para a desordem bipolar reforçam a
não deterioração cognitiva.

Existe ainda uma forte carga genética do tipo afetiva, que


poderia explicar os quadros depressivos que também sofreram os
irmãos de Virgínia e que não foram muito vistos em biografias da
família Woolf. Vanessa e Adrian sofreram repetidas e graves
depressões, sendo que Adrian acabou se dedicando a psicanálise.

Neste ponto vale ‘a pena destacar que apesar da questão


genética do transtorno bipolar, os eventos estressantes da vida são
os desencadeadores das crises que acometem as pessoas que sofrem
com este transtorno.

Seguindo o modelo biopsicosocial da etiologia de toda


doença, seria inútil procurar a causa de um transtorno
exclusivamente dentro do sujeito, deve-se explorar o contexto social
e familiar dentro dos quais ela surge.
Virgínia Woolf nasceu em Londres em 1882, filha do biógrafo, filósofo
e historiador, Leslie Stephen e de Julia Jackson Stephen.
Segundo os seus biógrafos, a casa onde Virginia residia era grande,
espaçosa o suficiente para abrigar todos os seus irmãos, porém era
austera e escura, com um ambiente e decoração um tanto quanto
sombria.
Seu pai, Leslie Stephen, era portador de um humor bastante
14

oscilante, Julia (mãe de Virgínia) era quem o confortava durante suas


crises depressivas, além de tentar controlar os seus ataques de fúria
do esposo para com os filhos e empregados. Leslie afirmava que o
papel de mulher deveria e restringir ao papel de mãe e dona de casa.
A mãe de Virginia cumpria muito bem esse papel, já que se dedicava
aos afazeres domésticos e aos trabalhos como dona de casa. Todavia
não era uma mulher com muito tempo para despender afeto.

Virgínia viveu entre a euforia e a depressão e mesmo diante


de um mundo interno tão caótico e conturbado, ela foi capaz de criar
obras literárias complexas e maravilhosas.
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Produção e Obra de Virgínia Woolf

A obra ficcional da escritora modernista: romances e contos

Os dois primeiros romances de Virginia Woolf, contudo, não


chegaram a ser publicados pela Hogarth Press. O primeiro saiu em
1915 e se intitula The Voyage Out. Apesar da inspiração auto-
biográfica, ainda está muito preso às convenções realistas, assim
como o romance seguinte, Night and Day, publicado em 1919. Ou
seja, em ambos um narrador descreve os personagens em suas
aparências externas e ações, assim como em sentimentos e
pensamentos. Além disso, a voz narradora conta uma história que se
passa no tempo cronológico, com começo, meio e fim, e seguindo as
estruturas de um enredo que apresenta os elementos clássicos da
narrativa, isto é, complicação, clímax e desfecho.
The Voyage Out, em termos temáticos, trata do desabrochar de
Rachel Vinrace, uma jovem vitoriana que até os 24 anos vivia nos
subúrbios londrinos com três tias solteironas e super-protetoras. A
moça então viaja de navio para um balneário imaginário na América
do Sul, onde encontra uma comunidade de ingleses, com a qual
interage, e também descobre o amor. Entretanto, Rachel havia
ficado tempo demais isolada do mundo social: não dispõe de
recursos que a permitam se inserir dentro dele e acaba morrendo. O
texto é volumoso, denso e um tanto truncado, deixando, contudo,
entrever inúmeras questões que Virginia tratará nos romances
futuros.
O romance seguinte, Night and Day lida também com o tema da
jovem vitoriana super-protegida, Katherine Hilbery, e sua descoberta
16

do amor e do intelecto em meio às restrições infligidas às moças de


sua classe. Foi a partir de 1922 que os romances de Virginia Woolf
passaram a ser publicados pela Hogarth Press. Através da auto-
publicação, Virginia garantiu um meio de preservar sua
independência e liberdade de criação na ficção, sem se restringir às
demandas e oscilações do mercado editorial. Até o fim da vida e
mesmo quando já renomada, ela faria questão de manter essa
autonomia.
A estréia se deu com a publicação de Jacob's Room que Virginia
começa a experimentar e a aplicar aquilo que reivindica em teoria
nos ensaios da época e que seria mais tarde conhecido como fluxo da
consciência. Sua intenção é enfatizar o fluxo contínuo da experiência,
a indefinição do personagem e a impressão das circunstâncias
externas sobre a consciência, tal como elas se dão na vida cotidiana.
Sua preocupação era dar voz à mente comum, num dia comum.
Apesar de ainda empregar muito pouco "o fluxo da consciência"
em Jacob's Room, seu terceiro romance representa uma grande
mudança em relação aos dois anteriores. Há ainda uma estória, mas
não há mais enredo e a ação perde sua importância.
Em termos temáticos, Jacob's Room consiste numa biografia
ficcionalizada, onde o biógrafo se propõe a seguir os passos de um
jovem, Jacob, desde sua infância catando conchas numa praia da
Cornuália, até sua morte repentina aos 26 anos, durante a guerra.
Passa por seu ingresso em Cambridge, seu primeiro cigarro, as
discussões com os amigos, os livros e paixão pelos clássicos, os
amores pela jovem Florinda e depois por Sandra, uma mulher casada,
os passeios de barco e a viagem a Grécia.
As forças que influenciaram e produziram Virginia Woolf, a
modernista, serão abordadas ao longo do presente estudo. Ainda
assim, à título de contextualização, gostaria de lembrar apenas
algumas das idéias circulantes nos anos 20 na Europa e na Inglaterra,
que marcaram um "espírito da época" na literatura e nas artes e
exerceram influência sobre Virginia. Refiro-me à pintura pós-
17

impressionista de Cézanne e Van Gogh, ao pensamento de Henri


Bergson e às traduções e montagens das obras de Checkov. Além
disso, a técnica do fluxo da consciência, já em circulação no
continente desde o início da publicação da Recherche de Proust em
1913, aparecia na Inglaterra, principalmente através das obras de
James Joyce e Dorothy Richardson.
Virginia alcança finalmente a maestria nesta inovação formal e
estilística em seu quarto romance, Mrs Dalloway (publicado em 1925)
e a aprimora no romance seguinte, To the Lighthouse (1927) e no
sétimo, The Waves (1931).
Mrs Dalloway se passa durante doze horas em Londres e
entrelaça o percurso de dois personagens que circulam entre
Westminster e Regent Park e quase se encontram, Clarissa Dalloway
e Septimus Warren Smith. O romance se inicia com Clarissa, a
esposa de um político, saindo de casa, a fim de providenciar os
preparativos para uma festa à noite, na qual receberá velhos amigos.
Ao longo do dia, somos apresentados a ela, Peter Walsh e Sally
Setton, através de seus pensamentos, lembranças, juízos que se
estendem por sobre o passado e até o presente, de modo que no fim
tem-se a impressão de conhecê-las intimamente.
Em contraste com a mundanismo de Clarissa, se encontra
Septimus Warren Smith, jovem herói de guerra, acompanhado pela
mulher em seu passeio pelo parque. Acometido por um distúrbio
mental, em decorrência da guerra, tem alucinações e delírios, perdeu
a capacidade de organizar sua memória e de sentir. Para não ser
obrigado a voltar para o sanatório, Septimus se suicida, quando
escuta a chegada do médico que vem recolhê-lo em casa. Clarissa e
Septimus nunca se encontram, mas Clarissa recebe a notícia deste
suicídio por intermédio deste próprio médico, que se desculpa pelo
atraso de sua chegada na festa, por conta deste "desafortunado
incidente".
Em Orlando1[14] (1928), o sexto romance de Virginia Woolf, ela
"descansa" da mobilização que foi escrever To the Lighthouse, e se
18

diverte redigindo uma fantasia histórica. Trata-se da biografia de um


poeta fictício que vive durante 400 anos e muda de sexo algumas
vezes.
Em The Waves (1931), Virginia Woolf volta mais uma vez às
experiências com o tempo e o fluxo da consciência, para tecer seu
romance mais complexo. Nele o narrador desaparece por completo e
as vidas de seis amigos são conhecidas através de seus solilóquios,
isto é, de seus monólogos interiores, quando se encontram em nove
momentos ao longo dos anos, entre o berçário e a velhice, e quando
se referem a Percival, um sétimo componente, que converge os
afetos do grupo, mas morre ainda jovem.
Em The Years (1937) na pretensão de escrever um romance
histórico, Virginia Woolf acaba retomando a convenção realista e
produzindo um livro comparativamente fraco, mas que se tornou um
best seller. Nele, ela descreve a saga da família Pargiter entre 1880 e
os anos 30 e as implicações da mudança dos costumes na passagem
da era vitoriana para o século XX.
Finalmente, em Between the Acts (publicado postumamente em
1941), Virginia Woolf dá seu canto do cisne num romance que,
apesar de não revisado, é considerado por alguns críticos como sua
obra mais possante. Num cenário rural, diante de uma apresentação
teatral, os personagens evocam a antiguidade da terra inglesa,
enquanto que o temor de uma guerra paira no ar.

Abaixo a listagem das obras ficcionais de V Woolf e sua datas de


publicação.
1915 The Voyage Out romance
1919 Night and Day romance
1919 Kew Gardens conto
1921 Monday or coleção de
Tuesday contos
1922 Jacob's Room romance
1925 Mrs Dalloway romance
1927 To the Lighthouse romance
19

1929 Orlando romance


1931 The Waves romance
1937 The Years romance
1941 Between the Acts romance

A prosa não-ficcional publicada em vida da autora

Ensaios e resenhas:
Virginia Woolf começou sua carreira literária escrevendo ensaios
e resenhas para jornais e revistas literárias e manteve essa atividade
durante toda a vida. Sua associação com o suplemento literário do
jornal The Times, a mais duradoura de todas, iniciou-se em 1905 e
durou até 1938. Entretanto, como nenhum material publicado no The
Times Literary Suplement aparecia assinado, depois da morte de
Virginia, seus compiladores tiveram muita dificuldade para identificar
seus artigos nos arquivos do jornal.
Além da contribuição regular para o "Lit.Sup." – como ela se
referia à sua coluna no renomado jornal – "Virginia escreveu para
muitas outras publicações, semanais e mensais, inglesas e
americanas, e cada vez mais, a medida que sua fama aumentava. A
maior parte das encomendas versava sobre literatura inglesa e
americana, mas com freqüência também encontrava brecha para
escrever sobre seus escritores russos e franceses preferidos, como
Checkov, Turgueniev e Montaigne.
Seus ensaios podem ser expostos em quatro grandes grupos. No
primeiro deles – e o maior – inclui os retratos de escritores e a
avaliação de suas obras. Isso poderia abranger todos os períodos da
literatura inglesa, como demonstram seus artigos sobre Chaucer, Jane
Austen e James Joyce. Em segundo lugar, identifica o grupo dos
"retratos de figuras não-literárias, mas bem conhecidas
historicamente", como ocorria quando tinha que resenhar algum livro
sobre personalidades como Jack Mytton, "um excêntrico desportista
que se envolveu em chamas para curar um acesso de soluços". No
terceiro grupo, inclui os retratos que a própria Virginia chamava de
"as vidas dos obscuros", nos quais ela resgatava e dava vida a
20

pessoas mortas e esquecidas havia mais de cem anos. E finalmente,


o quarto grupo, "artigos sobre assuntos mais gerais",, dada a grande
importância desses trabalhos, em que ela expressa seu pensamento
com mais liberdade. Encontram-se neste grupo alguns de seus
ensaios mais conhecidos, como Mr Bennet and Mrs Brown (1924) e
Modern Fiction (1925), também considerados como manifestos do
modernismo inglês.
Ainda em vida, Virginia e Leonard Woolf reuniram parte desse
material e, acrescentando-lhe alguns ensaios originais, publicaram-
nos em dois volumes intitulados The Common Reader. O primeiro
saiu em 1925, mesmo ano de Mrs Dalloway, e o segundo apareceu
em 1932. Apesar dessas duas coleções reunirem ensaios importantes
e representativos, elas abarcam um total aproximado de apenas 50
textos, quantidade já considerada pequena na época, em relação à
produção total da autora.
Logo após a morte de Virginia, Leonard Woolf conseguiu reunir
mais material jornalístico e, acrescentando-lhes alguns contos, os
publicou em 4 coleções póstumas: The Death of the Moth (1942),
The Moment, Captain's Death Bed (1950) e Granite and Rainbow.
Mais tarde, separaria os ensaios dos contos inéditos e, graças a novas
descobertas, reuniu somente os ensaios numa coleção de 4 volumes,
intitulada Collected Essays, publicada entre 1966 e 1967.
Hoje sabe-se que Virginia Woolf escreveu, ao todo, desde o
tempo de solteira, mais de 500 textos , dentre resenhas e ensaios,
para jornais e revistas. Este material, que levou décadas para ser
coligido, veio a ser editado por Andrew McNeille e publicado em 6
volumes entre 1986 e 1992.
Em sua prosa não-ficcional, ao contrário do que faz nos
romances, Virginia Woolf não se preocupa muito em inovar. Segue
as convenções do meio jornalístico e se adapta sem grandes
problemas às exigências de concisão e leveza. Contudo, o humor e a
injeção de elementos ficcionais, com que tornava atraentes e vivos
para o leitor esses textos, não escondem o rigor argumentativo com
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que compunha estas pequenas jóias da crítica literária das primeiras


décadas do século XX. Esses ensaios e resenhas viriam assim
constituir o corpus principal de sua obra teórica e é através deles que
se pode ter contato com a vertente mais racionalizada e crítica de seu
pensamento. Esta, por sua vez, chegou a experimentar espaços mais
amplos que o da coluna dos jornais em dois volumes de artigos mais
longos, A Room of One's Own (1929), Three Guineas (1938) e em sua
Letter to a Young Poet (1932).
O primeiro, considerado um "clássico" para movimento feminista,
resulta de duas conferências que Virginia deu em Cambridge. Em A
Room of One's Own, Virginia Woolf faz uma análise séria, mas
mantendo o mesmo tom leve e bem-humorado das resenhas, sobre
as condições de impossibilidade da produção literária feminina em
épocas passadas. No terceiro de seus seis capítulos, esboça seu
famoso retrato hipotético de uma possível irmã de Shakespeare e de
seu trágico destino, caso tivesse tentado expressar, em sua época, o
gênio literário que compartilhava com o irmão.
Quanto a Three Guineas, que pretendia ser uma continuação de
A Room of One's Own, o resultado não foi tão bem sucedido. Num
tom um tanto estridente, Virginia Woolf se lança numa cruzada anti-
machismo e anti-fascismo, que se revela hoje um tanto ingênua.

Outros textos não-ficcionais publicados: biografias


Além de todo esse material, deve-se acrescentar duas biografias
à obra não-ficcional de Virginia Woolf publicada em vida. A bem
dizer, a primeira, Flush (1933), consiste numa fantasia biográfica, que
conta de maneira divertida a vida do cãozinho da poetiza vitoriana
Elizabeth Barrett Browning que viveu no início do século XIX.
Contudo, não se enquadra na obra romanesca, como acontece com
Orlando, por ter pretensões históricas.
A segunda biografia foi a de seu grande amigo e influência, o
crítico de arte Roger Fry, publicada em 1940.
22

Segue abaixo a listagem das obras ficcionais acrescida agora das


obras não-ficcionais de V Woolf.
1915 The Voyage Out romance
1919 Kew Gardens conto
1919 Night and Day romance
1921 Monday or Tuesday contos
1922 Jacob's Room romance
1925 The Common Reader coleção de ensaios
1925 Mrs Dalloway romance
1927 To the Lighthouse romance
1929 A Room of One's Own ensaio
1929 Orlando romance
1931 The Waves romance
1932 Letter to a Young Poet
1932 The Common Reader- coleção de ensaios
nd
2 series
1933 Flush biografia
1937 The Years romance
1938 Three Guineas ensaio
1940 Roger Fry, a biography biografia
1941 Between the Acts romance
1942 The Death of the Moth ensaios editados por
Leonard Woolf
1943 A Haunted House contos editados por Leonard
Woolf
1950 The Captain's Death ensaios editados por
Bed Leonard Woolf
1958 Granite and Rainbow ensaios editados por
Leonard Woolf
1966- Collected Essays (4 ensaios editados por
67 volumes) Leonard Woolf
1986- The Essays of Virginia ensaios editados por
92 Woolf Andrew McNeille
(1904-1940), 6 vols

Material de publicação póstuma

Além do grande acervo de obras ficcionais e críticas que a


23

própria Virginia publicou em vida, a autora legou para a posteridade


uma também gigantesca obra-paralela privada e de grande interesse.
O conjunto completo comporta seus escritos autobiográficos – cartas,
diários e memórias inacabadas – e material "abandonado", que inclui
contos incompletos, novelas rejeitadas por editores, estudos e
anotações de leituras.

Cartas, diários e memorias


O material autobiográfico de publicação póstuma de Virginia
Woolf consiste, primordialmente, em cartas, diários e memorias.
A influência dos princípios humanistas da Renascença,
associada à ênfase sobre o indivíduo, preconizada pela Reforma, e
aos conflitos político-sociais da época, contribuíram para a
conscientização de que a experiência pessoal poderia interessar a um
público mais amplo.
Apesar do surgimento e do predomínio das duas outras
modalidades derivadas, o interesse pela biografia e o diário se
manteve vivo na Inglaterra nos séculos seguintes. Convém, portanto,
ter em vista que a prática do diário pessoal tem pelo menos um ponto
em comum com a História, que é o do interesse documental.
Virginia Woolf cresceu na era vitoriana numa família que já
cultivava a prática da escrita e do diário pessoal, havia algumas
gerações. Seu pai, seu avô e bisavô paternos foram homens de
Letras que legaram diários para os descendentes e sua mãe escrevia
quantidades de cartas diariamente. Este material autobiográfico não
só era respeitado na era vitoriana, como considerado relíquia de
família por constituir um repositório de memória de uma época
passada. Virginia Stephen se interessou por esta prática a partir dos
quinze anos, isto é, desde 1897, e manteve diários intermitentes
desde então até 1909, isto é, até seus e vinte e sete anos de idade.
Esses doze anos de diários irregulares foram interrompidos e ela só
retomou o hábito depois de casada, como Virginia Woolf , já em 1915
e aos trinta e três anos. Depois de outra interrupção mais breve,
voltou a escrever seus diários em 1918 e se manteve fiel a esta
24

prática até o fim de seus dias em 1941, perfazendo desta vez um


total de quase trinta e cinco anos de registros.
No total, foram, portanto, quase cinqüenta anos de registros
de uma vida que ficaram preservados em forma "bruta", quando ela
morreu, isto é, em pilhas de cadernos manuscritos por uma caligrafia
minúscula e quase ilegível. Esse material ficou sob a custódia de seu
esposo, Leonard Woolf (1880-1969), que também herdou os outros
escritos sobreviventes não-publicados e deixados em manuscrito ou
datilografados com correções à lápis nas laterais.
Da mesma maneira como já vinha fazendo com os ensaios,
Leonard dá início ao projeto – que levaria décadas – de transcrição
deste imenso material e da compilação das cartas dispersas, com fins
de publicação integral.
Em 1953, ele publica em um volume sua primeira seleção dos
escritos autobiográficos de Virginia Woolf, A Writer's Diary. Trata-se
de uma seleção de extratos dos diários, cujas passagens ele havia
escolhido por revelarem os pensamentos de Virginia sobre seus
próprios escritos, o planejamento das obras, a ansiedade em relação
aos lançamentos e às crítica, enfim, por apresentarem tópicos de
interesse para estudos literários.
Nos anos 60 e já bastante idoso, Leonard incentiva seu sobrinho,
Quentin Bell (1910-1996), filho Vanessa Bell (1879-1961), irmã de
Virginia, a escrever a biografia da tia, temendo que a memória dos
detalhes que circundavam sua vida se perdesse, de vez, com a morte
de seus últimos parentes vivos. Depois da morte de Leonard em
1969, os diários vão para a Coleção Berg da Biblioteca Pública de
Nova York, conforme um acordo estabelecido previamente, e o
restante do material passa para as mãos de Quentin, que ainda
redigia a biografia, e depois se torna patrimônio da Biblioteca da
Universidade de Sussex, sob o nome de Monk's House Papers.
Em 1972, Quentin Bell finalmente publica a primeira biografia
autorizada de Virginia Woolf. Sem quaisquer pretensões crítico-
literárias, Quentin redige, contudo, uma comovente obra de
25

homenagem, de caráter quase arqueológico, em que relata com


detalhes minuciosos os principais acontecimentos e personagens que
fizeram parte da vida de Virginia Woolf, ano por ano. Suas fontes
contavam, não só com o material original legado pelo tio, mas
também com outros documentos de família, e com sua memória viva,
já que havia convivido com Virginia, desde seu nascimento.
O resultado deste trabalho, no início dos anos 70, surpreendeu e
suscitou grande interesse nos meios acadêmicos. O momento era
propício, pois por primeira vez, desde os anos 20 e depois da
Segunda Guerra Mundial, o mundo ocidental voltava a vivenciar uma
época em que uma contra-cultura jovem atacava o establishment
burguês, de maneira ampla, incisiva e irreverente. Dentro desse
clima de contestação generalizada às regras do poder da sociedade
de Estado, as relações entre o público e o privado voltavam a ser
colocadas em xeque. O movimento feminista ganhava uma
organização e ampliação até então desconhecida, a arte ia às ruas, as
instituições acadêmicas tiveram seus estatutos centenares revisados,
os homossexuais clamavam pelo direito de existir – enfim, a
diferença, depois de décadas adormecida, voltava a se afirmar.
E Virginia Woolf voltou a circular entre os "common readers". As
coleções de seus manuscritos nas Bibliotecas de Nova York e na
Universidade de Sussex se tornaram um ponto de convergência para
estudiosos. Novas leituras e novas biografias surgiam, à medida que
o material ia sendo consultado por outras mãos, e novos escritos
originais iam sendo descobertos.
O interesse permitiu com que o projeto de Leonard pudesse ser
continuado, através da inclusão de novos colaboradores da segunda
geração de Bloomsbury .
Entre 1977 e 1984, Anne Olivier Bell, esposa de Quentin Bell,
tomou para si o encargo de transcrever a escrita criptográfica dos 35
anos de diários de Virginia Woolf.
E, finalmente, em 1990, o Professor Mitchel Leaska publica os
diários intermitentes de adolescência e juventude de Virginia
26

Stephen, aqueles que vão dos seus quinze a seus vinte e sete anos de
idade. A publicação destes últimos suscitou grande surpresa, pois
confirmam o que alguns biógrafos já haviam afirmado sobre três
tópicos relevantes para o entendimento do pensamento e da
escritura woolfiana. O primeiro consiste na precocidade das idéias de
Virginia e o segundo na constatação do papel tardio e secundário das
influências não-inglesas sobre sua obra ficcional e crítica. O terceiro
diz respeito à revelação de que estes primeiros diários de juventude
consistiam fontes de referências e de memórias, que ela consultava e
utilizava para deflagrar seus romances e alguns de seus ensaios.

Outros escritos não publicados em vida


Dentre os escritos não-autobiográficos e não publicados em vida,
destacam-se duas novelas históricas de juventude – O Diário de Joan
Martyn, escrito em 1906 – e Memoirs of a Novelist, rejeitado pela
revista Cornhill em 1909, e o romance-ensaio de nome The Pargiters,
escrito provavelmente em 1935, do qual se originaria seu penúltimo
romance, The Years. Nesses três textos, Virginia Woolf já pesquisa
aquilo que Roland Barthes definiria nos anos 60 como terceira forma.
É possível que a fonte do material não publicado de Virginia
Woolf ainda não tenha secado, pois, apesar de ser cada vez mais
raro, ainda se descobrem cartas ou ensaios inéditos. Também é
possível que ainda restem nas principais coleções repositórias de
seus manuscritos – Berg Collection da Biblioteca Pública de Nova
York, Monks House Papers da Universidade de Sussex e Charleston
Papers no King's College da Universidade de Cambridge – alguns
textos considerados de pouca relevância para a pesquisa acadêmica.
Seja como for, já se pode falar nos escritos completos de Virginia
Woolf, para abarcar toda a obra ficcional e ensaística publicada em
vida e o material autobiográfico e não-autobiográfico de publicação
póstuma.
27

Principais obras de publicação póstuma de Virgínia Woolf


1942 The Death of the Moth ensaios editados por
Leonard Woolf
1943 A Haunted House contos editados por
Leonard Woolf
1945? The Moment ensaios editados por
Leonard Woolf
1950 The Captain's Death Bed ensaios editados por
Leonard Woolf
1953 A Writer's Diary seleção de diários editada
por Leonard Woolf
1958 Granite and Rainbow ensaios editados por
Leonard Woolf
1966- Collected Essays (4 volumes) editados por Leonard
67 Woolf
1975- The Letters of Virginia Woolf (6 editor Nigel Nicolson e
80 volumes) Jeanne Trautmann
1976 Fresh Water: a comedy comédia teatral
1976 Moment s of Being coleção de memórias
editada por Jeanne
Schulkind
1977- The Diary of Virginia Woolf (5 editados por Anne Olivier
28

1984 volumes) Bell


1978 The Pargiters o romance-ensaio de The
Years
1983 Virginia Woolf's Reading editado por Brenda R.
Notebooks Silver
1985 The Complete Shorter Fiction of editado por Susan Dick
Virginia Woolf
1986- The Essays of Virginia Woolf editado Andrew McNeille
1992 (1904-1940), 6 vols
1990 A Passionate Apprentice: os editor Mitchel Leaska
diários de1897-1909
1972 Virginia Woolf: a biography Quentin Bell
1983 Virginia Woolf's Literary Source Elizabeth Steele
and Allusion: A Guide of the
Essays

Sinópse do Filme “As Horas”

O filme, “As Horas”, baseia-se no livro de Michael Cunningham,


que, por sua vez, se inspirou no romance “Mrs. Dalloway” de Virginia
Woolf.
O enredo, trata da história de três mulheres que carregam em
suas vidas muitos sentimentos em comum, como a insatisfação no
mais amplo aspect da palavra e o fracasso.
São retratos de vidas em épocas diferentes, que se entrelaçam
através de um livro, “Mrs. Dalloway”. É um filme de alma feminina,
onde, nos artifícios da trama, as mulheres se reconhecem no drama
existencial de cada uma das personagens, humanizando assim o lado
da ficção. Uma mulher que gostaria de ser uma personagem de um
romance, uma que o escreve (a própria Virgínia Woolf) e outra que o
vive.
Acompanhamos, dessa forma, um dia (somente um dia) na vida
dessas três mulheres. São três histórias em espaços temporais
distintos, mas intercaladas na narrativa (1941, 1951 e meados dos
anos 80), permeadas com profundo ar bucolico e depressivo.
29

Virginia Woolf é a escritora do livro, que afastada da vida


agitada de Londres por seu marido e a conselho médico, percebe-se
a cada dia, mais infeliz e amargurada. Sabe-se da biografia de Woolf
que a mesma sofria de transtorno bipolar e que em seus últimos
períodos de vida, atravessava uma profunda crise depressiva, regada
por momentos de alucinações auditivas. A mesma, é retratada na
altura em que escreve o livro em questão (“Mrs. Dalloway”), onde
seus conflitos internos são repassados para a obra, inclusive todo o
preparo para seu suicídio.
A segunda mulher é Laura, dona de casa, esposa e mãe. Laura
encontra-se desesperada dentro de um casamento onde os
sentimentos são artificiais, pois embora viva num ambiente de
tranqüilidade e aparente felicidade, se sente vazia. Cogita a própria
morte para escapar da realidade da sua vida “mediocre”, com
nuancias de artificialidade – um agir não real e infeliz. Ela está lendo
o livro de Virgínia Woolf, o qual reforça sua idéia de evasão e suicídio.
A terceira é Clarissa, uma bem sucedida editora, mulher
cosmopolita do século XXI. Ela vive um relacionamento lésbico de
longa data e se identifica paradoxalmente com Mrs. Dalloway. Tudo o
que Clarissa deseja no momento é que sua festa em comemoraçaõ a
atribuição de um importante prémio à obra poética de Richard, seu
melhor amigo e ex-amante, dê certo. Richard encontra-se debilitado
pela AIDS e vive fechado em um apartamento frio, escuroe sujo –
numa região decadente. No meio dos preparativos, Clarissa
pressente o vazio daquela arrumação fútil e o peso das horas.
Uma das cenas iniciais do filme mostra as três mulheres se
levantando da cama ao amanhecer. Tudo acontece nesse início de
filme, enquanto Virgínia escreve. Laura lê e Clarissa fala a mesma
frase: “acho que eu mesma vou comprar as flores”, e uma outra cena
se abre onde vemos o suicídio de Virgínia, retratado de forma
simbólica, mas muito forte. Com isso, percebemos que “cria-se” logo
no início da narrativa de Wollf, um paralelismo entre Celebração e
desencanto, festa e morte.
30

O desespero das três mulheres vai crescendo com o passar das


horas, horas sempre iguais, horas sem nenhuma esperança de
mudança, sem nenhuma esperança, só a ansiedade provocada pelo
nada. Solidão, infelicidade, crise de identidade e desejo de realização
sexual (nas três tramas as personagens beijam outra mulher na
boca), e principalmente a morte permeiam as histórias das três
mulheres do filme.
As lutas e sofrimentos vivenciados pelas três mulheres são
universais. As horas... os momentos... as decisões que tomamos.
Talvez nos encontremos nas situações extremas de cada uma das
personagens; cada uma delas lutando para dar um sentido à suas
existências e serem simplesmente felizes.
Três mulheres presas no tempo e no espaço, nos seus próprios
espaços, restritas ‘as suas próprias vidas.
Ao ser levantado os temas: morte, escolhas, sexualidade,
decisões; vemos que as personagens descobrem que nem sempre a
vida é aquela que se deseja e que se vive e nem sempre as horas são
sentidas ou realmente experienciadas de maneira diferente.
No contexto final do filme, as personagens refletem sobre as
horas - O que são essas horas até perceberem que as perderam para
sempre.

DMS.IV – Manual de Diagnóstico e Estatística das


Perturbações Mentais
Características definidoras da perturbação mental em questão –
transtorno bipolar tipo I e transtorno bipolar tipo II

Transtorno bipolar (tipo I)


Características Diagnósticas
A característica essencial do Transtorno Bipolar I é um curso clínico
31

caracterizado pela ocorrência de um ou mais Episódios Maníacos ou


Episódios Mistos. Com freqüência, os indivíduos também tiveram um
ou mais Episódios Depressivos Maior.

Os Episódios de Transtorno do Humor Induzido por Substância (devido


aos efeitos diretos de um medicamento, outros tratamentos
somáticos para a depressão, uma droga de abuso ou exposição a
uma toxina) ou de Transtorno do Humor Devido a uma Condição
Médica Geral não devem ser contabilizados para um diagnóstico de
Transtorno Bipolar I.

Além disso, os episódios não são melhores explicados por Transtorno


Esquizoafetivo nem estão sobrepostos a Esquizofrenia, Transtorno
Esquizofreniforme, Transtorno Delirante ou Transtorno Psicótico Sem
Outra Especificação.

O Transtorno Bipolar I é subclassificado no quarto dígito de acordo


com o fato de o indivíduo estar experimentando um primeiro episódio
(isto é, Episódio Maníaco Único) ou de o transtorno ser recorrente.

A recorrência é indicada por uma mudança na polaridade do episódio


ou por um intervalo entre os episódios de pelo menos 2 meses sem
sintomas maníacos. Uma mudança na polaridade é definida como um
curso clínico no qual um Episódio Depressivo Maior evolui para um
Episódio Maníaco ou um Episódio Misto ou no qual um Episódio
Maníaco ou um Episódio Misto evoluem para um Episódio Depressivo
Maior.

Em contrapartida, um Episódio Hipomaníaco que evolui para um


Episódio Maníaco ou Episódio Misto, ou um Episódio Maníaco que
evolui para um Episódio Misto (e vice-versa), é considerado apenas
como um episódio único.

Para os Transtornos Bipolares recorrentes, pode-se especificar a


natureza do episódio atual ou mais recente (Episódio Mais Recente
Hipomaníaco, Episódio Mais Recente Maníaco, Episódio Mais Recente
Misto, Episódio Mais Recente Depressivo, Episódio Mais Recente
Inespecificado).

Especificadores
Os seguintes especificadores para Transtorno Bipolar I podem ser
usados para descrever o atual Episódio Maníaco, Episódio Misto ou
Episódio Depressivo Maior (ou, se no momento não são satisfeitos os
32

critérios para um Episódio Maníaco, Episódio Misto ou Episódio


Depressivo Maior, ou Episódio Maníaco, Episódio Misto ou Episódio
Depressivo Maior mais recente): Leve, Moderado, Severo Sem
Aspectos Psicóticos, Severo Com Aspectos Psicóticos, Em Remissão
Parcial, Em Remissão Completa.
Com Características Catatônicas.
Com Início no Pós-Parto.

Os especificadores a seguir aplicam-se unicamente ao Episódio


Depressivo Maior atual (ou mais recente), apenas se ele for o tipo
mais recente de episódio de humor:
Crônico.
Com Características Melancólicas.
Com Características Atípicas.

Os especificadores a seguir podem ser usados para indicar o padrão


de episódios:
Especificadores de Curso Longitudinal (Com ou Sem Recuperação
Completa Entre Episódios).
Com Padrão Sazonal (aplica-se apenas ao padrão de Episódios
Depressivos Maiores).
Com Ciclagem Rápida.

Procedimentos de Registro
Os códigos diagnósticos para o Transtorno Bipolar I são selecionados
conforme é indicado a seguir:
1. Os três primeiros dígitos são 296.
2. O quarto dígito é 0 se existe um Episódio Maníaco Único. No caso
de episódios recorrentes, o quarto dígito é 4 se o episódio atual ou
mais recente é um Episódio Hipomaníaco ou um Episódio Maníaco, 6
se é um Episódio Misto, 5 se é um Episódio Depressivo Maior e 7 se o
episódio atual ou mais recente é Inespecificado.
3. O quinto dígito (exceto para o Transtorno Bipolar I, Episódio Mais
Recente Hipomaníaco e Transtorno Bipolar I, Episódio Mais Recente
Inespecificado) indica o seguinte:
1 para Leve,
2 para Moderado,
3 para Severo Sem Aspectos Psicóticos,
4 para Severo Com Aspectos Psicóticos,
5 para Em Remissão Parcial,
6 para Em Remissão Completa, e
0 para Inespecificado.
33

Outros especificadores para Transtorno Bipolar I não podem ser


codificados. Para Transtorno Bipolar I, Episódio Mais Recente
Hipomaníaco, o quinto dígito é sempre 0. Para Transtorno Bipolar I,
Episódio Mais Recente Inespecificado, não existe um quinto dígito.

Ao registrar o nome de um diagnóstico, os termos devem ser


relacionados na seguinte ordem: Transtorno Bipolar I, especificadores
codificados no quarto dígito (por ex. Episódio Mais Recente Maníaco),
especificadores codificados no quinto dígito (por ex., Leve, Severo
Com Aspectos Psicóticos, Em Remissão Parcial), tantos
especificadores (sem códigos) quantos se aplicarem ao episódio mais
recente (por ex., Com Características Melancólicas, Com Início Pós-
Parto) e tantos especificadores (sem códigos) quantos se aplicarem
ao curso dos episódios (por ex., Com Características Melancólicas,
Com Início Pós-Parto) e tantos especificadores (sem códigos) quantos
se aplicarem ao curso dos episódios (por ex., Com Ciclagem Rápida);
por exemplo, 296.54 Transtorno Bipolar I, Episódio Mais Recente
Depressivo, Severo Com Aspectos Psicóticos, Com Características
Melancólicas, Com Ciclagem Rápida.

Cabe observar que, se o episódio único do Transtorno Bipolar I foi um


Episódio Misto, o diagnóstico é indicado como 296.0x Transtorno
Bipolar I, Episódio Maníaco Único, Misto.

Características e Transtornos Associados


Características descritivas e transtornos mentais associados. O
suicídio completado ocorre em 10 a 15% dos indivíduos com
Transtorno Bipolar I. Abuso da criança, abuso do cônjuge ou outro
comportamento violento pode ocorrer durante Episódios Maníacos
severos ou com aspectos psicóticos.

Outros problemas associados incluem gazeta à escola, repetência,


fracasso profissional, divórcio ou comportamento anti-social
episódico. Outros transtornos mentais associados incluem Anorexia
Nervosa, Bulimia Nervosa, Transtorno de Déficit de
Atenção/Hiperatividade, Transtorno de Pânico, Fobia Social e
Transtornos Relacionados a Substâncias.

Achados laboratoriais associados


Aparentemente não existem características laboratoriais que possam
diferenciar os Episódios Depressivos Maiores encontrados no
Transtorno Depressivo Maior daqueles existentes no Transtorno
34

Bipolar I.

Achados ao exame físico e condições médicas gerais


associadas
Uma idade de início para o primeiro Episódio Maníaco após os 40 anos
deve alertar o clínico para a possibilidade de que os sintomas sejam
devido a uma condição médica geral ou uso de substância. Existem
algumas evidências de que uma doença da tireóide não tratada piora
o prognóstico de Transtorno Bipolar I.

Características Específicas à Cultura, à Idade e ao Gênero


Não existem relatos de uma incidência diferencial de Transtorno
Bipolar I com base em raça ou etnia. Existem algumas evidências de
que os clínicos podem tender a superdiagnosticar Esquizofrenia (ao
invés de Transtorno Bipolar) em alguns grupos étnicos e em
indivíduos mais jovens.

Aproximadamente 10 a 15% dos adolescentes com Episódios


Depressivos Maiores recorrentes evoluem para um Transtorno Bipolar
I. Episódios Mistos parecem ser mais prováveis em adolescentes e
adultos jovens do que em adultos mais velhos.

Estudos epidemiológicos recentes nos Estados Unidos indicam que o


Transtorno Bipolar I é quase tão comum em homens quanto em
mulheres (diferentemente do Transtorno Depressivo Maior, que é
mais comum em mulheres). O gênero parece estar relacionado à
ordem de aparecimento dos Episódios Maníaco e Depressivo Maior.

O primeiro episódio em homens tende mais a ser um Episódio


Maníaco. O primeiro episódio em mulheres tende mais a ser um
Episódio Depressivo Maior. As mulheres com Transtorno Bipolar I têm
um risco aumentado para o desenvolvimento de episódios
subseqüentes (em geral psicóticos) no período pós-parto imediato.
Algumas mulheres têm seu primeiro episódio durante este período.

O especificador Com Início no Pós-Parto pode ser usado para indicar


que o início do episódio ocorre dentro de 4 semanas após o parto. O
período pré-menstrual pode estar associado com a piora de um
Episódio Depressivo Maior, Maníaco, Misto ou Hipomaníaco em
andamento.

Prevalência
A prevalência do Transtorno Bipolar I durante a vida em amostras
35

comunitárias tem variado de 0,4 a 1,6%.

Curso
O Transtorno Bipolar I é um transtorno recorrente — mais de 90% dos
indivíduos que têm um Episódio Maníaco Único terão futuros
episódios.

Aproximadamente 60 a 70% dos Episódios Maníacos freqüentemente


precedem ou se seguem a Episódios Depressivos Maiores em um
padrão característico para a pessoa em questão.

O número de episódios durante a vida (tanto Depressivos quanto


Maníacos) tende a ser superior para Transtorno Bipolar I, em
comparação com Transtorno Depressivo Maior, Recorrente. Estudos
do curso do Transtorno Bipolar I antes do tratamento de manutenção
com lítio sugerem que, em média, quatro episódios ocorrem em 10
anos.

O intervalo entre os episódios tende a diminuir com a idade. Existem


algumas evidências de que alterações no ciclo de sono/vigília tais
como as que ocorrem durante as mudanças de fuso horário ou
privação do sono, podem precipitar ou exacerbar um Episódio
Maníaco, Misto ou Hipomaníaco.

Aproximadamente 5 a 15% dos indivíduos com Transtorno Bipolar I


têm múltiplos (quatro ou mais) episódios de humor (Episódio
Depressivo Maior, Maníaco, Misto ou Hipomaníaco), que ocorrem
dentro de um determinado ano. Se este padrão está presente, ele é
anotado pelo especificador Com Ciclagem Rápida. Um padrão de
ciclagem rápida está associado com um pior prognóstico.

Embora a maioria dos indivíduos com Transtorno Bipolar I retorne a


um nível plenamente funcional entre os episódios, alguns (20 a 30%)
continuam apresentando instabilidade do humor e dificuldades
interpessoais ou ocupacionais. Sintomas psicóticos podem
desenvolver-se dentro de dias ou semanas em um Episódio Maníaco
ou Episódio Misto anteriormente não-psicótico.

Quando um indivíduo tem Episódios Maníacos com aspectos


psicóticos, os Episódios Maníacos subseqüentes tendem mais a ter
aspectos psicóticos. A recuperação incompleta entre os episódios é
mais comum quando o episódio atual é acompanhado por aspectos
psicóticos incongruentes com o humor.
36

Padrão Familiar
Os parentes biológicos em primeiro grau de indivíduos com
Transtorno Bipolar I têm índices elevados de Transtorno Bipolar I (4 a
24%), Transtorno Bipolar II (1 a 5%) e Transtorno Depressivo Maior (3
a 24%). Estudos de gêmeos e de adoções oferecem fortes evidências
de uma influência genética para o Transtorno Bipolar I.

Diagnóstico Diferencial
Os episódios Depressivos Maiores, Maníacos, Mistos e Hipomaníacos
no Transtorno Bipolar I devem ser diferenciados dos episódios de
Transtorno do Humor Devido a uma Condição Médica Geral.

O diagnóstico é de Transtorno do Humor Devido a uma Condição


Médica Geral para episódios considerados a conseqüência fisiológica
direta de uma condição médica geral específica (por ex., esclerose
múltipla, acidente vascular encefálico, hipotiroidismo). Esta distinção
fundamenta-se na história, achados laboratoriais ou exame físico.

Um Transtorno do Humor Induzido por Substância é diferenciado de


Episódios Depressivos Maiores, Maníacos ou Mistos que ocorrem no
Transtorno Bipolar I pelo fato de que uma substância (por ex., droga
de abuso, medicamento ou exposição a uma toxina) está
etiologicamente relacionada à perturbação do humor.

Sintomas como os que são vistos em um Episódio Maníaco, Misto ou


Hipomaníaco podem fazer parte de uma intoxicação ou abstinência
de uma droga de abuso e devem ser diagnosticados como Transtorno
do Humor Induzido por Substância (por ex., um humor eufórico que
ocorre apenas no contexto da intoxicação com cocaína é
diagnosticado como Transtorno do Humor Induzido por Cocaína, Com
Características Maníacas, Com Início Durante Intoxicação).

Sintomas como os que são vistos em um Episódio Maníaco ou


Episódio Misto também podem ser precipitados por um tratamento
antidepressivo com medicamentos, terapia eletroconvulsiva ou
fototerapia. Estes episódios podem ser diagnosticados como
Transtorno do Humor Induzido por Substância (por ex., Transtorno do
Humor Induzido por Amitriptilina, Com Características Maníacas;
Transtorno do Humor Induzido por Terapia Eletroconvulsiva, Com
Características Maníacas) e não contam para um diagnóstico de
Transtorno Bipolar I.
37

Entretanto, quando o uso de uma substância ou medicamento não


explica totalmente o episódio (por ex., o episódio continua de forma
autônoma por um período considerável após a substância ser
descontinuada), o episódio conta para um diagnóstico de Transtorno
Bipolar I.

O Transtorno Bipolar I é diferenciado do Transtorno Depressivo Maior


e Transtorno Distímico pela história de pelo menos um Episódio
Maníaco ou Episódio Misto durante a vida. O Transtorno Bipolar I é
diferenciado do Transtorno Bipolar II pela presença de um ou mais
Episódios Maníacos ou Episódios Mistos.

Quando um indivíduo anteriormente diagnosticado com Transtorno


Bipolar II desenvolve um Episódio Maníaco ou Episódio Misto, o
diagnóstico é mudado para Transtorno Bipolar I.

No Transtorno Ciclotímico, existem numerosos períodos de sintomas


hipomaníacos que não satisfazem os critérios para um Episódio
Maníaco e períodos de sintomas depressivos que não satisfazem os
critérios sintomáticos ou de duração para Episódio Depressivo Maior.

O Transtorno Bipolar I é diferenciado do Transtorno Ciclotímico pela


presença de um ou mais Episódios Maníacos ou Mistos. Se um
Episódio Maníaco ou Episódio Misto ocorre após os 2 primeiros anos
de Transtorno Ciclotímico, então Transtorno Ciclotímico e Transtorno
Bipolar I podem ser diagnosticados em conjunto.

O diagnóstico diferencial entre Transtornos Psicóticos (por ex.,


Transtorno Esquizoafetivo, Esquizofrenia e Transtorno Delirante) e
Transtorno Bipolar I pode ser difícil (especialmente em adolescentes),
porque esses transtornos podem compartilhar diversos sintomas (por
ex., delírios grandiosos e persecutórios, irritabilidade, agitação e
sintomas catatônicos), em especial transeccionalmente e no início de
seu curso.

Em comparação com o Transtorno Bipolar, a Esquizofrenia, o


Transtorno Esquizoafetivo e o Transtorno Delirante caracterizam-se
por períodos de sintomas psicóticos que ocorrem na ausência de
sintomas proeminentes de humor.

Outras considerações úteis incluem os sintomas concomitantes, curso


prévio e história familiar. Sintomas maníacos e depressivos podem
estar presentes durante Esquizofrenia, Transtorno Delirante e
38

Transtorno Psicótico Sem Outra Especificação, mas raramente com


número, duração e abrangência suficientes para satisfazerem os
critérios para Episódio Maníaco ou Episódio Depressivo Maior.

Entretanto, quando todos os critérios são satisfeitos (ou se os


sintomas têm importância clínica particular), um diagnóstico de
Transtorno Bipolar Sem Outra Especificação pode ser feito em
acréscimo ao diagnóstico de Esquizofrenia, Transtorno Delirante ou
Transtorno Psicótico Sem Outra Especificação.

Se existe uma alternância muito rápida (em questão de dias) entre


sintomas maníacos e sintomas depressivos (por ex., alguns dias de
sintomas puramente maníacos seguidos por alguns dias de sintomas
puramente depressivos) que não satisfazem o critério de duração
mínima para Episódio Maníaco ou Episódio Depressivo Maior, o
diagnóstico é de Transtorno Bipolar Sem Outra Especificação.

Critérios Diagnósticos para F30.x - 296.0x para Transtorno


Bipolar I, Episódio Maníaco Único
A. Presença de apenas um Episódio Maníaco e ausência de qualquer
Episódio Depressivo Maior no passado.
Nota: A recorrência é definida como uma mudança na polaridade a
partir da depressão ou um intervalo de pelo menos 2 meses sem
sintomas maníacos.
B. O Episódio Maníaco não é melhor explicado por Transtorno
Esquizoafetivo nem está sobreposto a Esquizofrenia, Transtorno
Esquizofreniforme, Transtorno Delirante ou Transtorno Psicótico Sem
Outra Especificação.
Especificar se:
Misto: se os sintomas satisfazem os critérios para um Episódio Misto
Especificar (para episódio atual ou mais recente):
Especificadores de Gravidade/Psicótico/de Remissão.
Com Características Catatônicas.
Com Início no Pós-Parto

Critérios Diagnósticos para F31.0 - 296.40 Transtorno Bipolar


I, Episódio Mais Recente Hipomaníaco
A. Atualmente (ou mais recentemente) em um Episódio Hipomaníaco
B. Houve, anteriormente, pelo menos um Episódio Maníaco ou
Episódio Misto
C. Os sintomas de humor causam sofrimento clinicamente
significativo ou prejuízo no funcionamento social ou ocupacional ou
em outras áreas importantes da vida do indivíduo.
39

D. Os episódios de humor nos Critérios A e B não são melhor


explicados por Transtorno Esquizoafetivo nem estão sobrepostos a
Esquizofrenia, Transtorno Esquizofreniforme, Transtorno Delirante ou
Transtorno Psicótico Sem Outra Especificação.
Especificar:
Especificadores de Curso Longitudinal (Com ou Sem Recuperação
Entre Episódios).
Com Padrão Sazonal (aplica-se apenas ao padrão de Episódios
Depressivos Maiores).
Com Ciclagem Rápida

Critérios Diagnósticos para F31.x - 296.4x Transtorno Bipolar


I, Episódio Mais Recente Maníaco
A. Atualmente (ou mais recentemente) em Episódio Maníaco
B. Houve, anteriormente, pelo menos um Episódio Depressivo Maior,
Episódio Maníaco ou Episódio Misto
C. Os episódios de humor nos Critérios A e B não são melhor
explicados por Transtorno Esquizoafetivo nem estão sobrepostos a
Esquizofrenia, Transtorno Esquizofreniforme, Transtorno Delirante ou
Transtorno Psicótico Sem Outra Especificação.
Especificar (para episódio atual ou mais recente):
Especificadores de Gravidade/Psicótico/de Remissão.
Com Características Catatônicas.
Com Início no Pós-Parto
Especificar:
Especificadores de Curso Longitudinal (Com ou Sem Recuperação
Entre Episódios).
Com Padrão Sazonal (aplica-se apenas ao padrão de Episódios
Depressivos Maiores).
Com Ciclagem Rápida

Critérios Diagnósticos para F31.6 - 296.6x Transtorno Bipolar


I, Episódio Mais Recente Misto
A. Atualmente (ou mais recentemente) em um Episódio Misto
B. Houve, anteriormente, pelo menos um Episódio Depressivo Maior,
Episódio Maníaco ou Episódio Misto
C. Os episódios de humor nos Critérios A e B não são melhor
explicados por Transtorno Esquizoafetivo nem estão sobrepostos a
Esquizofrenia, Transtorno Esquizofreniforme, Transtorno Delirante ou
Transtorno Psicótico Sem Outra Especificação.
Especificar (para episódio atual ou mais recente):
Especificadores de Gravidade/Psicótico/de Remissão.
40

Com Características Catatônicas.


Com Início no Pós-Parto
Especificar:
Especificadores de Curso Longitudinal (Com ou Sem Recuperação
Entre Episódios).
Com Padrão Sazonal (aplica-se apenas ao padrão de Episódios
Depressivos Maiores).
Com Ciclagem Rápida

Critérios Diagnósticos para F31.x - 296.5x Transtorno Bipolar


I, Episódio Mais Recente Depressivo
A. Atualmente (ou mais recentemente) em um Episódio Depressivo
Maior
B. Houve, anteriormente, pelo menos um Episódio Maníaco ou
Episódio Misto
C. Os episódios de humor nos Critérios A e B não são melhor
explicados por Transtorno Esquizoafetivo nem estão sobrepostos a
Esquizofrenia, Transtorno Esquizofreniforme, Transtorno Delirante ou
Transtorno Psicótico Sem Outra Especificação.
Especificar (para episódio atual ou mais recente):
Especificadores de Gravidade/Psicótico/de Remissão.
Crônico.
Com Características Catatônicas.
Com Características Melancólicas.
Com Características Atípicas.
Com Início no Pós-Parto.
Especificar:
Especificadores de Curso Longitudinal (Com ou Sem Recuperação
Entre Episódios).
Com Padrão Sazonal (aplica-se apenas ao padrão de Episódios
Depressivos Maiores).
Com Ciclagem Rápida.

Critérios Diagnósticos para F31.9 - 296.7 Transtorno Bipolar I,


Episódio Inespecificado
A. Os critérios, exceto pela duração, são atualmente (ou foram mais
recentemente) satisfeitos para um Episódio Maníaco, Episódio
Hipomaníaco, Episódio Misto ou Episódio Depressivo Maior.
B. Houve, anteriormente, pelo menos um Episódio Maníaco ou
Episódio Misto.
C. Os sintomas de humor causam sofrimento clinicamente
significativo ou prejuízo no funcionamento social ou ocupacional ou
outras áreas importantes da vida do indivíduo.
41

D. Os sintomas de humor nos Critérios A e B não são melhor


explicados por um Transtorno Esquizoafetivo nem estão sobrepostos
a Esquizofrenia, Transtorno Esquizofreniforme, Transtorno Delirante
ou Transtorno Psicótico Sem Outra Especificação.
E. Os sintomas de humor nos Critérios A e B não se devem aos efeitos
fisiológicos diretos de uma substância (por ex., droga de abuso,
medicamento ou outro tratamento), ou de uma condição médica
geral (por ex., hipertiroidismo).
Especificar:
Especificadores de Curso Longitudinal (Com ou Sem Recuperação
Entre Episódios).
Com Padrão Sazonal (aplica-se apenas ao padrão de Episódios
Depressivos Maiores).
Com Ciclagem Rápida.
Os Transtornos do Humor do DSM.IV são:
Episódios de Humor
Episódio Depressivo Maior
Episódio Maníaco
Episódio Misto
Episódio Hipomaníaco
Transtornos Depressivos
F32.x - 296.xx Transtorno Depressivo Maior
F34.1 - 300.4 Transtorno Distímico
F32.9 - 311 Transtorno Depressivo Sem Outra Especificação
Transtornos Bipolares
F32.9 - 311 Transtorno Depressivo Sem Outra Especificação
F30.x/F31.x - 296.xx Transtorno Bipolar I
F31.8 - 296.89 Transtorno Bipolar II
F34.0 - 301.13 Transtorno Ciclotímico
F06.xx - 296.80 Transtorno Bipolar Sem Outra Especificação
Outros Transtornos do Humor
F06.xx - 293.83 Transtorno do Humor Devido a... [Indicar a Condição
Médica Geral]
Transtorno do Humor Induzido por Substância
F39 - 296.90 Transtorno do Humor Sem Outra Especificação

Bipolar II ocorrem imediatamente antes ou após um Episódio


Depressivo Maior. Os Episódios Hipomaníacos freqüentemente
precedem ou se seguem aos Episódios Depressivos Maiores em um
padrão característico para cada pessoa determinada.

O número de episódios durante a vida (tanto Hipomaníacos quanto


Depressivos Maiores) tende a ser superior para Transtorno Bipolar II,
42

em comparação com o Transtorno Depressivo Maior, Recorrente. O


intervalo entre os episódios tende a diminuir com a idade.

Aproximadamente 5 a 15% dos indivíduos com Transtorno Bipolar II


têm múltiplos (quatro ou mais) episódios de humor (Hipomaníacos ou
Depressivos Maiores) que ocorrem dentro de um mesmo ano. Se este
padrão está presente, ele é anotado pelo especificador Com Ciclagem
Rápida. Um padrão de ciclagem rápida está associado com um pior
prognóstico.

Embora a maioria dos indivíduos com Transtorno Bipolar II retorne a


um nível plenamente funcional entre os episódios, aproximadamente
15% continuam apresentando humor instável e dificuldades
interpessoais ou ocupacionais. Não ocorrem sintomas psicóticos nos
Episódios Hipomaníacos, e estes parecem ser menos freqüentes nos
Episódios Depressivos Maiores do Transtorno Bipolar II do que nos do
Transtorno Bipolar I.

Algumas evidências são consistentes com a noção de que alterações


acentuadas no ciclo de sono/vigília, tais como as que ocorrem
durante mudanças de fuso horário ou privação do sono, podem
precipitar ou exacerbar Episódios Hipomaníacos ou Episódios
Depressivos Maiores. Caso um Episódio Maníaco ou um Episódio Misto
se desenvolva no curso de um Transtorno Bipolar II, o diagnóstico é
mudado para Transtorno Bipolar I. Em 5 anos, cerca de 5 a 15% dos
indivíduos com Transtorno Bipolar II desenvolvem um Episódio
Maníaco.

Padrão Familial
Alguns estudos indicam que os parentes biológicos em primeiro grau
de indivíduos com Transtorno Bipolar II têm índices elevados de
Transtorno Bipolar II, Transtorno Bipolar I e Transtorno Depressivo
Maior, em comparação com a população geral.

Diagnóstico Diferencial
Os episódios Hipomaníacos e Depressivos Maiores no Transtorno
Bipolar II devem ser diferenciados de episódios de um Transtorno do
Humor Devido a uma Condição Médica Geral.

O diagnóstico é de Transtorno do Humor Devido a uma Condição


Médica Geral para episódios considerados a conseqüência fisiológica
direta de uma condição médica geral específica (por ex., esclerose
múltipla, acidente vascular encefálico, hipotireoidismo). Esta distinção
43

fundamenta-se na história, achados laboratoriais ou exame físico.

Um Transtorno do Humor Induzido por Substância é diferenciado de


Episódios Hipomaníacos ou Episódios Depressivos Maiores que
ocorrem no Transtorno Bipolar II pelo fato de que uma substância (por
ex., droga de abuso, medicamento ou exposição a uma toxina) está
etiologicamente relacionada com a perturbação do humor.

Sintomas como os que são vistos em um Episódio Hipomaníaco


podem fazer parte da intoxicação ou abstinência de uma droga de
abuso e devem ser diagnosticados como Transtorno do Humor
Induzido por Substância (por ex., um episódio tipo depressivo maior
ocorrendo apenas no contexto da abstinência de cocaína é
diagnosticado como Transtorno do Humor Induzido por Cocaína, Com
Características Depressivas, Com Início Durante Intoxicação).

Sintomas como os que são vistos em um Episódio Hipomaníaco


podem também ser precipitados pelo tratamento antidepressivo com
medicamentos, terapia eletroconvulsiva ou fototerapia. Estes
episódios devem ser diagnosticados como Transtorno do Humor
Induzido por Substância (por ex., Transtorno do Humor Induzido por
Amitriptilina, Com Características Maníacas; Transtorno do Humor
Induzido por Terapia Eletroconvulsiva, Com Características Maníacas)
e não contam para um diagnóstico de Transtorno Bipolar II.

Entretanto, quando o uso de uma substância ou medicamentos não


explica completamente o episódio (por ex., o episódio continua de
forma autônoma por um período considerável após a substância ser
descontinuada), o episódio conta para um diagnóstico de Transtorno
Bipolar II.

O Transtorno Bipolar II deve ser diferenciado de um Transtorno


Depressivo Maior e Transtorno Distímico pela história de pelo menos
um Episódio Hipomaníaco durante a vida. O Transtorno Bipolar II é
distinguido do Transtorno Bipolar I pela presença de um ou mais
Episódios Maníacos ou Mistos neste último.

Quando um indivíduo com diagnóstico anterior de Transtorno Bipolar


II desenvolve um Episódio Maníaco ou Episódio Misto, o diagnóstico é
alterado para Transtorno Bipolar I.

No Transtorno Ciclotímico, existem numerosos períodos de sintomas


hipomaníacos e numerosos períodos de sintomas depressivos que
44

não satisfazem os critérios de sintomas e duração para um Episódio


Depressivo Maior. O Transtorno Bipolar II é diferenciado do Transtorno
Ciclotímico pela presença de um ou mais Episódios Depressivos
Maiores.

Se um Episódio Depressivo Maior ocorre após os 2 primeiros anos de


Transtorno Ciclotímico, aplica-se o diagnóstico adicional de
Transtorno Bipolar II.

O Transtorno Bipolar II deve ser diferenciado de Transtornos


Psicóticos (por ex., Transtorno Esquizoafetivo, Esquizofrenia e
Transtorno Delirante). A Esquizofrenia, o Transtorno Esquizoafetivo e
o Transtorno Delirante caracterizam-se por períodos de sintomas
psicóticos que ocorrem na ausência de sintomas de humor
proeminentes. Outras considerações úteis incluem os sintomas que
acompanham os transtornos, curso prévio e história familiar.
Critérios Diagnósticos para F31.8 - 296.89 Transtorno Bipolar
II
A. Presença (ou história) de um ou mais Episódios Depressivos
Maiores
B. Presença (ou história) de pelo menos um Episódio Hipomaníaco
C. Jamais houve um Episódio Maníaco ou um Episódio Misto
D. Os sintomas de humor nos Critérios A e B não são melhor
explicados por Transtorno Esquizoafetivo nem estão sobrepostos a
Esquizofrenia, Transtorno Esquizofreniforme, Transtorno Delirante ou
Transtorno Psicótico Sem Outra Especificação.
E. Os sintomas causam sofrimento clinicamente significativo ou
prejuízo no funcionamento social ou ocupacional ou em outras áreas
importantes da vida do indivíduo.
Especificar episódio atual ou mais recente:
Hipomaníaco: se atualmente (ou mais recentemente) em um Episódio
Hipomaníaco.
Depressivo: se atualmente (ou mais recentemente) em um Episódio
Depressivo Maior
Especificar (para Episódio Depressivo Maior atual ou mais recente
apenas se este for o tipo mais recente de episódio de humor):
Especificadores de Gravidade/Psicótico/de Remissão
Nota: Os códigos do quinto dígito especificados em Critérios para
Especificadores de Gravidade / Psicótico / de Remissão para Episódio
Depressivo Maior atual não podem ser usados aqui, pois o código
para o Transtorno Bipolar II já usa o quinto dígito.
Crônico.
Com Características Catatônicas.
45

Com Características Melancólicas.


Com Características Atípicas.
Com Início no Pós-Parto
Especificar:
Especificadores de Curso Longitudinal (Com ou Sem Recuperação
Entre Episódios).
Com Padrão Sazonal (aplica-se apenas ao padrão de Episódios
Depressivos Maiores).
Com Ciclagem Rápida
46

Consonância entre a psicopatologia do transtorno bipolar e as


manifestações mentais apresentadas por Virgínia Woolf,
baseadas no estudo de sua biografia, em fragmentos do filme
“As Horas” e nas características definidoras do DMS IV.
O transtorno bipolar é uma doença crônica, recorrente e se
não for tratada, pode se tornar incapacitante. Caracteriza-se pela
alternância nos estados de humor, entre fases de depressão e euforia
(mania), intercaladas por períodos de normalidade.
A fase eufórica consiste em uma exaltação do humor que ocorre sem
nenhuma relação com o momento que a pessoa está vivendo. Em
geral, a mudança é súbita, mas o indivíduo não percebe, porque o seu
senso crítico também se encontra alterado.
Nesta fase, os sintomas variam desde exaltação do humor, euforia,
aceleração do pensamento e da fala, diminuição da necessidade de
sono, exacerbação da sexualidade, comprometimento da crítica até a
irritabilidade, agressividade e dificuldade de controlar
adequadamente os impulsos.
Em casos de maior gravidade, o paciente apresenta delírios de
conteúdo de grandeza, poder ou ainda de perseguição, podendo
inclusive apresentar alucinações. A fase de mania pode expor o
paciente a vários riscos, como dirigir em alta velocidade, abusar de
álcool ou drogas e gastar excessivamente, tornando por vezes, difícil
o convívio social.
Na fase de depressão, é notável a diminuição do interesse ou prazer,
podem ocorrer mudanças no apetite e no peso, insônia ou em alguns
casos hipersonia, perda de energia, sentimentos de inutilidade ou
culpa excessiva, diminuição da capacidade de concentração,
pensamentos recorrentes de morte, podendo levar até o suicídio.
A descrição da doença bipolar guarda íntima relação com o
caso “Virgínia Woolf”, conforme relatado até o momento nos próprios
sinais e sintomas mentais e físicos exibidos na biografia da escritora e
parece ter sido assegurado não só por possível origem genética, mas
47

também por alterações na dinâmica ambiental e agravada pelo fator


estressante atribuído ao período de guerras.
O contexto social da época parece ter não só influenciado a
obra de Virgínia Woolf, como também ajudou a desencadear algumas
de suas crises. As duas guerras mundiais, juntamente com a perda da
mãe quando ainda púbere, levaram-na a vários episódios de
depressão e tentativas de suicídio. Foi logo após a morte da mãe de
Virgínia que ocorreu a primeira crise nervosa e consta que nessa fase
a intensa depressão melancólica e as alucinações auditivas
começaram a permear a vida da escritora.
Segundo seu sobrinho e biógrafo, Quentim Bell, relatou em
seus manuscritos que a escritora oscilava entre episódios depressivos
profundos e euforia descontrolada. No período de euforia, a
verborragia parecia um “frenesi descontrolado”, sua fala era rápida,
mudava de um assunto para outro em minutos, tinha insônia
insuportável e cefaléia intensa. A incoerência mental era de tal
grandeza que chegava a afundar em plena letargia, semelhante a um
coma.
A morte da mãe e da meia irmã de Virgínia a forçou a entrar
no mundo adulto rapidamente, juntamente com sua irmã Vanessa,
obrigando-as a cuidar da casa e dos irmãos mais novos. As perdas
amorosas, obrigaram as irmãs a conviverem com o desequilíbrio
emocional do pai, denominando esse período como “fase sombria de
suas vidas”. Embora não seja mencionado na biografia da escritora
que o pai tivesse algum distúrbio mental, seu comportamento e
temperamento recluso, agressivo, hostil, introvertido e disfórico,
falam a favor de alteração psíquica. Sua mãe por sua vez era uma
esmera dona de casa, porém pouco afetiva, preocupara com os
afazeres do lar e da caridade social.
O padrão familiar, segundo DMS IV, falam a favor da herança
biológica, onde parentes de primeiro grau de indivíduos bipolar I, tem
índices elevados para o transtorno (4 a 24%) ou para outras doenças
mentais.
48

Nesse ínterim, ainda enquanto adolescente, a escritora sofreu


diversos episódios de abuso sexual por parte de seu meio irmão
George e em algumas biografias o abuso foi ampliado para ambos os
meio-irmãos, George e Gerald, deixando marcas indeléveis em sua
sexualidade e em sua vida emocional.
A literatura científica bem como o DMS IV relatam que o abuso
infantil durante os períodos de expressão do transtorno bipolar não
são infreqüentes e que a expressão do comportamento anti-social,
como resultado do abuso permeia a doença. Estas duas situações
foram bem representadas na biografia de Virgínia e em alguns
fragmentos do filme “As Horas”, onde Virgínia demonstra sua
dificuldade em se relacionar sexualmente com o marido e deixa a
entender que sente algo libidinoso por mulheres. Em adição, tem
dificuldade em se relacionar com os empregados da casa,
maltratando-os, mantendo-se reclusa e em outros momentos,
conforme dados de sua biografia, destratava as pessoas, comportava-
se de maneira arrogante e hostil, causando medo e pavor nas
pessoas que a rodeavam. Não é a toa que o comportamento anti-
social de Woolf deu origem a peça teatral de caráter caricatural
“Quem tem medo do Virgínia Woolf”.
Em 1904, após completar 22 anos, Virgínia sofre a perda do
pai e em seguida tem sua segunda crise nervosa e tenta pela
primeira vez o suicídio e é internada em uma instituição.
Neste ponto vale a pena destacar que apesar da questão
genética do transtorno bipolar, os eventos estressantes da vida são
desencadeadores das crises que acometem as pessoas que sofrem
deste distúrbio mental. Em se tratando de Virgínia, as perdas, o
sentimento de abandono, a opressão do pai e as guerras parecem ter
influenciado fortemente a manifestação do transtorno.
Segundo o DMS IV não existem relatos de uma incidência
diferencial em relação a raça, etnia, e sexo. Entretanto, o primeiro
episódio depressivo em mulheres tende mais a ser um episódio
depressivo maior seguido por risco aumentado para o
49

desenvolvimento de episódios subseqüentes e em geral psicótico,


conforme pode ser observado logo no início da história clínica de
Virgínia (depressão e alucinação auditiva).
A obra de Woolf em seu percurso, expressa sua própria
personalidade e seus conflitos. Sua obra foi inovadora para a época
vitoriana. Em “Um quarto só para si” – obra de referência ao
feminismo, buscou abrir espaço para as mulheres de sua época.
Importante também lembrar que neste período que rondou o
ano de 1904, o Grupo de Bloomsbury foi constituído, constando com
filósofos, pensadores, intelectuais, escritores, artistas, entre outros.
Durante esse período, o grupo mantinha relacionamentos
homossexuais e triangulares, confundindo muito a afetividade de
Virgínia.
Esta fase produtiva foi ameaçada por sua terceira crise, sendo
novamente institucionalizada, mantendo altos e baixos.
A própria literatura médica e o DMS IV relatam que a maioria
dos indivíduos com transtorno bipolar I, embora retomem a um nível
funcional entre os episódios críticos (crises), cerca de 30 a 40%,
continuam a apresentar instabilidade de humor e dificuldades inter-
pessoais. É certo que a família tentou preservar Virgínia durante seu
percurso de doença. Todavia, nem o esposo nem a irmã, conseguiram
poupá-la de relacionamentos no circulo social e familiar de
desavenças e hostilidades e seus dados biográficos confirmam esta
colocação e o filme “As Horas” mostra de forma bem clara a
dificuldade de Virgínia em lidar com as pessoas.
Em 1915, Virgínia tem sua quarta crise e segundo sua
biografia, esta foi a mais severa. Apresenta crises de alucinações e
delírios. Embora, estivesse novamente institucionalizada, pode
escrever mais uma obra, “The voiage out”, tendo sido elogiada pela
crítica literária. Neste aspecto, parece que os períodos de insanidade
da escritora, foram preponderantes na influência de sua criatividade –
nesses momentos ela escrevia dia e noite, não comia, não dormia e
50

pouco se alimentava. Quando alguém a interrompia, seu ódio


paralisava seu pensamento e crises explosivas não eram raras.
Ao redor dos anos vinte, o casal Woolf funda sua própria
editora e no final da década de 20, Virgínia publica um de seus
romances mais famosos “Mrs. Dalloway”, “To the lighthouse,
“Orlando”, “The waves”. Embora seu esposo lhe tivesse muito afeto e
desejo amoroso, Virgínia no final de 1927, assumiu seu romance com
a senhora Vita, a semelhança de sua irmã, que também mantinha
uma vida dupla, com o marido era uma boa esposa e mãe zelosa de
filhos aparentemente saudáveis e também mantinha um
relacionamento amoroso com outra mulher.
O que se sabe, é que sua obra foi baseada em personagens
que existiram na vida da autora (mulheres, familiares, amigos).
Embora, Woolf tivesse tido uma existência muito conturbada e
infeliz, a escritora obteve reconhecimento e sucesso em seu trabalho,
tornando-se um exemplo para as mulheres da época que almejavam
ser escritoras. As crises depressivas melancólicas a acometiam,
principalmente quando ela estava terminando um livro ou próximo a
lançá-los.
Além dos sintomas de crise mental, Virgínia manifestava
sintomas físicos (hoje mais conhecidos como psicossomáticos), com,
intensa cefaléia, insônia e dificuldade para se alimentar.
Infelizmente, a psiquiatria da época não dispunha de
condições adequadas de tratamento para o transtorno bipolar. Nos
dias atuais, sabe-se que a prevalência do distúrbio pode variar em
amostra comunitária entre 0,4 a 1,6 %. O curso do transtorno é
recorrente, e oscilando entre 60 a 70 % dos episódios depressivos
maior. Os estudos mostram que o transtorno sem utilização do
tratamento com lítio sugere em média quatro episódios em 10 anos.
O intervalo entre os episódios tende a diminuir com a idade.
Sua biografia revela que em 1941, Woolf começou a ter crises
de desespero, retorno dos sintomas psicóticos, oscilações mais
freqüentes do humor e acabou se suicidando. Morreu afogada,
51

embora fosse uma boa nadadora, com os bolsos do casaco cheios de


pedras. Neste aspecto, o DMS IV mostra que a chance de um
indivíduo bipolar I praticar o suicídio pode chegar a 10 a 15 %.

As últimas cenas do filme “As Horas”, mostram uma mulher


sem esperança de vida, magra, mal cuidada e sem objetivo de viver.
A escritora mostra (em sua carta de despedida) que com sua morte
poupará as pessoas e garantirá a paz mental do esposo em relação a
ela, o qual sempre se demonstrou muito companheiro e afetivo. Diz
ainda que sua mente está muito inquieta e que havia voltado a ouvir
vozes e que não suportaria uma nova crise, conforme pode ser
observado no texto abaixo:

Seu bilhete final continha o seguinte texto : "Eu estou certa de


que vou ficar louca novamente; eu sinto que não posso sobreviver a
outro destes terríveis episódios. E eu não vou me recuperar desta
vez… Eu começo a ouvir vozes e não posso me concentrar....Por isto
estou fazendo o que acho o melhor a fazer... Vocês me deram os
melhores momentos possíveis de felicidade... mas eu não posso mais
lutar e eu sei que estou prejudicando a vida de vocês e que sem mim
vocês podem continuar a trabalhar e a viver

“A vida é um sonho, acordar é o que nos mata”

O transtorno bipolar é uma doença crônica, recorrente e se


não for tratada, pode se tornar incapacitante. O mais interessante de
tudo isso, que foi discutido até agora, é que atualmente existem
diversas modalidades de tratamento (medicamentos, processos
terapêuticos) que melhoram a qualidade de vida dos indivíduos com
transtorno bipolar, possibilitando aos mesmos uma vida o mais
próximo possível do normal, mantendo-os produtivos e inseridos na
sociedade e sem estigmatização.
52

Referencias Bibliográficas
Consultadas
Virtuais
www.psicologia.com.pt/instrumentos/d
ms.4
http://pt.wikipedia.org/wiki/
53

www.virginiawoolfsociety.co.uk/vw_res.biograph
y.htm
www.bbc.co.uk/bbcfour/voices/profilepage
s/woolfv1.shtml

www.unifesp.br/dpsiq/polbr/ppm/atu3_07.
htm

Publicação informal
Revista IstoÉ, maio 2006

Publicação Formal
Kutcher S, Marton P. Affective disorders in first-degree relatives
of adolescent onset bipolars, unipolars, and normal controls. J Am
Acad Child Adolesc Psychiatry 1991;30:75-8.

Stine OC, Xu J, Koskela R, McMahon FJ, Gschwend M, Friddle C et


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a parent-of-origin effect. Am J Hum Genet 1995;57:1384-94.

Rice J, Reich T, Andreasen NC, Endicott J, Van Eerdewegh M,


Fishman R et al. The familial transmission of bipolar illness. Arch
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bipolar. Rev. Bras. Psiquiatr 2006; 29:11-27.

Abreu, Lena et al. Suicidal ideation and suicide attempts in bipolar


disorder type I: an update for the clinician. Rev. Bras. Psiquiatr., 2009,
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Machado-Vieira, Jair C Transtornos de humor refratários a


tratamento. Rev. Bras. Psiquiatr. 2007;29, suppl.2, p.S48-S54.

Abreu, N C et al. Síndromes psiquiátricas: Diagnóstico e entrevista


para profissionais da saúde mental. Artmed, 2006.

Anexo
Depoimentos - Publicação em
imprensa escrita (veículo nacional
– Revista de circulação semanal)
54

Numa noite abafada de verão, a escritora Cássia Janeiro, de 43


anos, decidiu ter uma conversa séria com a filha adolescente. Entrou
no MSN, a ferramenta de bate-papo virtual preferida da moçada, para
estar mais próxima de Fernanda, de 17. Digitava na sala e a filha
respondia do quarto, a poucos passos de distância. Cássia estava
preocupada com o comportamento, ora irritado, ora depressivo da
garota.

Apesar de inteligente, ela tinha problemas na escola. Achava


tudo muito chato, e isso a deixava nervosa. Em outros momentos, a
jovem tinha ataques de alegria descontrolados, sem nenhum motivo
aparente. Ria à toa e torrava todo o dinheiro em compras. Chocou a
mãe quando disse: “A gente não precisa viver muito, precisa viver
intensamente. Não quero viver muito”.

Cássia percebeu que aquilo era mais que a típica


inconseqüência adolescente. Desconfiou de transtorno bipolar, uma
doença psiquiátrica caracterizada por oscilações radicais do humor.
Durante as crises, os portadores desse distúrbio caem em depressão
ou mergulham numa euforia sem limites. Nas duas situações, a vida
deles corre perigo. Um paciente deprimido pode tentar suicídio. Um
paciente eufórico se sente tão invencível que pode se atirar da janela
achando que é capaz de voar. Cássia conhece bem esses sintomas.
Ela mesma é bipolar e já tentou suicídio.

Com a intermediação do computador, lançou uma isca para


conquistar a atenção da filha. Digitou pensamentos dos escritores
prediletos de Fernanda: Edgar Allan Poe, Nietzsche e, por fim, uma
frase de Virginia Woolf: “A beleza do mundo tem duas margens, uma
do riso e outra da angústia, que cortam o coração em duas metades”.

Fernanda se identificou. Cássia revelou o que as frases tinham


em comum. Todas foram escritas por autores que sofriam de severas
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oscilações de humor e que hoje provavelmente receberiam o


diagnóstico de transtorno bipolar. Só assim Fernanda aceitou buscar
tratamento. Ela é parte de um fenômeno recente: o aumento de
crianças e jovens que são considerados bipolares.

A universitária carioca Paula Sant’Anna Mahet, de 26 anos,


descontava a angústia ao volante. Nos momentos de crise, saía no
meio das aulas da faculdade de Engenharia e dirigia em alta
velocidade. Está em tratamento há um ano, com medicamentos e
terapia. “Quando eu era pequena, meus pais achavam que eu fosse
hiperativa”, diz. “Hoje sei administrar minhas irritações.” Paula se deu
conta de que suas oscilações de humor eram parecidas com as do
pai.

A dona de casa Ana sempre oscilou entre períodos de intensa


depressão e estados de euforia. Conta que após a separação do
marido, entrou em depressão, perdendo o desejo de viver e de
realizar atividades simples do dia a dia, como, tomar banho, escovar
os dentes e pentear os cabelos. A família achou que os sintomas
eram normais em virtude da perda ocorrida com Ana (matrimônio).
Cerca de 25 dias após a separação, Ana passou a comprar roupas, a
perder o controle sobre suas finanças e a frequentar os bingos de sua
cidade. Passava dias sem dormir e comer e alegava que nenhuma
máquina de bingo poderia vencê-la sempre e que ela era uma
cientista das probabilidades. Apresentava-se como uma consultora de
uma universidade interessada em máquinas de bingo e que sua
função era treinar pessoas com “dom especial” para se tornarem
vencedoras em bingos e cassinos.

Nos Estados Unidos, o diagnóstico do distúrbio em crianças e


adolescentes foi multiplicado por 40 entre 1994 e 2003, segundo um
estudo da Universidade Colúmbia, publicado no periódico Archives of
General Psychiatry.
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Há duas hipóteses para justificar os achados, segundo um dos


autores, o psiquiatra Mark Olfson: historicamente o transtorno não
era identificado nessa faixa etária ou hoje há um exagero nos
diagnósticos. “Sem um sistema de avaliação preciso, não podemos
arriscar uma resposta.” A hipótese de exagero nos diagnósticos não
parece absurda. Crianças difíceis ou excessivamente agitadas
costumam ser consideradas hiperativas por educadores ou médicos
com pouca experiência no assunto. É possível que o mesmo esteja
acontecendo em relação ao transtorno bipolar. “O distúrbio foi
banalizado”, diz o psiquiatra brasileiro Jair Soares, professor da
Universidade da Carolina do Norte. “Mas não diagnosticá-lo nos
verdadeiros portadores é um sério problema.”

A doença, que no passado era chamada de psicose maníaco-


depressiva, atinge cerca de 3% da população mundial. É um dos
distúrbios psíquicos mais difíceis de descobrir e tratar corretamente.
Até acertar o diagnóstico, o médico pode receitar inúmeros
medicamentos. Os efeitos colaterais desses remédios podem agravar
o problema.

Um terço dos portadores é tratado de forma errada porque os


sintomas (leia no quadro) se confundem com os de outros distúrbios,
como depressão, hiperatividade ou transtorno de déficit de atenção.
“Há uma enorme carência de pesquisa em psiquiatria infantil”, diz o
psiquiatra Leonardo Gama Filho, do Hospital Municipal Lourenço
Jorge, no Rio de Janeiro. “Cada vez mais crianças usam
antidepressivos, mas faltam pesquisas sobre a eficácia e a segurança
desses tratamentos.” Por falta de opções específicas, os pequenos
recebem doses mais baixas dos mesmos medicamentos aprovados
para uso em adultos, embora se saiba que crianças não são adultos
em miniatura.

Um novo remédio foi aprovado no Brasil, em novembro, para


tratar ambas as fases da bipolaridade – a euforia e a depressão. O
Seroquel (quetiapina) está longe de representar uma revolução no
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tratamento e também não está aprovado para uso em crianças. Mas é


um avanço. “Para 60% dos pacientes, a melhora é considerada
ótima”, diz o psiquiatra Teng Chei Tung, autor do livro Enigma
Bipolar. O tratamento-padrão ainda é o lítio, um estabilizador de
humor. “É o único que diminui em dez vezes o risco de suicídio entre
os bipolares.”

A probabilidade desse desfecho entre os bipolares é 60 vezes


maior que na população em geral. Mesmo quando não pensam em
morte, eles vivem perigosamente – o que pode ser fatal.

Fatores genéticos estão por trás de grande parte dos casos. O


distúrbio ocorre em 20% dos filhos de pais bipolares. Por meio de
exames de ressonância magnética, a psiquiatra Sheila Caetano, do
Hospital das Clínicas, em São Paulo, está mapeando o cérebro de 16
crianças cujas mães são bipolares. Ela quer saber se o
comportamento das crianças é determinado pela genética ou
influenciado pelas freqüentes alterações de humor sofridas pelas
mães.

Estudos recentes apontam diferenças no cérebro dos


bipolares. A amígdala, responsável pelo reconhecimento de faces, é
menor nas crianças e nos adolescentes que sofrem do distúrbio. Isso
pode fazer com que a criança tenha dificuldades de perceber quando
as outras pessoas estão ficando irritadas. “A criança bipolar não
percebe que os colegas não querem mais brincar. Força a barra e
acaba brigando”, diz Sheila.

Crianças assim precisam de tratamento. Muitos pais têm medo


de que os remédios interfiram na personalidade dos filhos ou limitem
sua criatividade. “O que prejudica não é o tratamento, e sim o
diagnóstico errado ou o excesso de medicamentos”, diz o psiquiatra
Olavo de Campos Pinto, especialista em transtorno bipolar formado
pela Universidade da Califórnia. “Os remédios certos ajudam a
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estabilizar a pessoa. Sem estabilidade, ela não termina nada daquilo


que começou e perde a capacidade de planejar.”

Muitos dos bipolares são extremamente inteligentes e


inventivos. Por causa disso, é comum encontrar jovens que dizem aos
amigos que têm “um certo grau de bipolaridade”, como se isso fosse
uma vantagem. “Quem acredita nessa imagem não sabe que um
bipolar em crise chega ao fundo do poço.

Figuras
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