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Ping Pong sobre a ISO 26000

FONTE: www.ethos.org.br

A futura norma internacional de responsabilidade social, a ISO 26000, chegará em 2008 para oferecer diretrizes
e orientar organizações de diferentes portes, naturezas e localidades a adotá-las como parte da gestão.
Considerada um marco histórico para o movimento, a futura norma será uma plataforma de convergência entre
as iniciativas de responsabilidade social de diversas partes do planeta. Seu processo de construção pioneiro -
que conta com a participação de diversos segmentos da sociedade - tem esquentado o debate sobre o tema e
transformou as Reuniões Internacionais da ISO no principal fórum de responsabilidade social (RS) da
atualidade. O engenheiro Jorge Cajazeira, gerente corporativo de Competitividade da Suzano Papel e Celulose e
líder do Grupo de Trabalho e Responsabilidade Social da ISO (International Organization for Standardization)
fala a seguir sobre a necessidade de se criar uma norma internacional de RS e por que a ISO 26000 vem
ganhando força e legitimidade dentro das empresas.

Instituto Ethos: Qual foi a justificativa para a criação da ISO 26000?

Jorge Cajazeira: A idéia de criar uma ISO para a área de responsabilidade social surgiu em 2001, durante
uma reunião do Comitê de Política de Consumidores da ISO (Copolco). Os temas da responsabilidade social
empresarial se espalharam pelo mundo todo. Mas havia uma confusão muito grande entre os conceitos de RS
e, por isso, a necessidade de se criar uma norma. É como se as pessoas estivessem falando diferentes línguas.
Essa falta de padrão acaba gerando custo para os países que exportam.

Instituto Ethos: O que isso significa para o movimento de responsabilidade social das empresas?

Jorge Cajazeira: As reuniões internacionais da ISO 26000 se tornaram o maior fórum de discussões em RS
atualmente. A estrutura formada para a elaboração da ISO 26000 favorece a todos os segmentos da sociedade:
consumidores, empresas, governo, ONGs, trabalhadores, suporte, serviço, pesquisa e outros. Ou seja, todos
esses setores participam da construção da norma. Além disso, existem as organizações especialistas, chamadas
organizações D-liaison, como, por exemplo: a AccountAbility, a Consumers International, a Global Reporting
Initiative (GRI), a OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), a OIT (Organização
Internacional do Trabalho), o Pacto Global da ONU (Organização das Nações Unidas). É um fórum sem igual,
com discussões muito ricas. Só para ter uma idéia, na última reunião em Portugal, havia cerca de 320
membros de 50 países. E para o movimento de responsabilidade social isso significa uma conciliação das visões
desses diferentes grupos. Para quem trabalha na área, é fácil identificar essas questões, mas para quem está
de fora, há que se perguntar: Quais são as metas da RS? Quais são os conceitos? O que deve ser adotado? A
ISO 26000 vai gerar uma linguagem única. E ela tem uma capilaridade muito grande, por ser reconhecida e
aceita pela Organização Mundial do Comércio (OMC).

Instituto Ethos: Por isso é tão importante a participação de grupos de diferentes setores?

Jorge Cajazeira: Justamente. Todos esses setores, de consumidores, empresas, governo, ONGs,
trabalhadores, suporte, serviço, pesquisa e outros trazem as diferentes visões da sociedade. Assim, a ISO
26000 vai ser um resultado de todas essas visões.

Instituto Ethos: De que forma ela vai se relacionar com outras normas ISO?
Jorge Cajazeira: Existe um conselho que vem se reunindo para que exista um alinhamento entre as normas
internacionais já existentes. Em relação às normas locais, haverá uma revisão para que não haja conflitos. Mas
faltava uma norma para tratar das questões de responsabilidade social empresarial. Por exemplo, a SA 8000
trata das questões trabalhistas, a ISO 14001 trata da questão ambiental. Essas normas serão respeitadas, mas
faltava ainda uma norma que tratasse de outras questões da RSE. A ISO 26000 vai englobar essas questões de
uma maneira mais geral, mais ampla.

Instituto Ethos: Por que a ISO 26000 é uma norma de diretrizes e não certificadora?

Jorge Cajazeira: Mas quem disse que uma norma ISO precisa ser certificadora? A questão da certificação é
complicada porque nós não temos nenhum tipo de verificação. Quando você vai ao supermercado e compra
alguma coisa, você tem que acreditar nas informações escritas no rótulo daquele produto, porque não existe
um órgão que vai lá e verifica se aquilo é verdade. E aí, vai depender da idoneidade do fabricante. A
certificação é suscetível de ser manipulável. É uma relação entre clientes e fornecedores. Essa é uma discussão
complexa, pois como você pode certificar a responsabilidade social de uma empresa, sendo que nenhuma
empresa é totalmente responsável?

Instituto Ethos: Quanto às diferenças culturais, às peculiaridades de cada país, como elas serão
tratadas pela ISO?

Jorge Cajazeiras: São 50 países trabalhando juntos na construção dessa norma, então acredito que os
aspectos culturais serão respeitados sim. Mas tem que separar o que é aspecto cultural e o que é
responsabilidade social. Se no Japão a mulher está acostumada a fazer suas refeições após o homem, tudo
bem. Não queremos mudar isso. Mas dentro de uma empresa, vamos batalhar para que essa mulher ganhe o
mesmo salário que o homem. Se ela quiser almoçar depois, ou antes do marido, porque a cultura é essa, será
respeitada. Agora, não venha dizer que trabalho infantil é cultural. Trabalho escravo, por exemplo, esse tipo de
coisa não é permitido dentro da responsabilidade social. Na visão norte-americana, por exemplo, caridade de
empresa não é aceitável. Eles acreditam que doações devem ser feitas em nome do proprietário e não da
empresa. Já no Brasil, pensamos no inverso. Essas questões serão discutidas.

Instituto Ethos: Quanto à elaboração da norma, é a primeira vez que países em desenvolvimento participam?
Como é esse processo?

Jorge Cajazeira: Na verdade, os países em desenvolvimento sempre participaram. Mas é a primeira vez que
estamos na liderança. E essa liderança é muito importante porque a conta da ISO é de 27 milhões de francos
suíços, o que corresponde a 24 milhões de dólares, anualmente. Os países em desenvolvimento pagam dois
terços desta conta, mas tinham apenas 5% de liderança. Ou seja, nós pagávamos a conta e eles mandavam.
Hoje é diferente. Houve uma eleição dentro do conselho técnico da ISO e o Brasil foi escolhido para presidir o
comitê mundial da elaboração da norma de responsabilidade social empresarial.

Instituto Ethos: Como ela será implementada aqui no Brasil?

Jorge Cajazeira: No Brasil existe muito interesse. As empresas estão muito empenhadas nesse processo. Elas
se articulam para trocar informações, participam do grupo de trabalho da ISO 26000 do próprio Instituto Ethos,
que hoje tem cerca de 70 organizações participando. Apesar da publicação da norma estar prevista para 2008,
as empresas estão se adequando desde já.