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Fazendo um resgate histórico vemos que o neoconstitucionalismo com o surgimento

a partir da Segunda Guerra Mundial na Europa dando a formação do Estado Constitucional


Social, baseado no pós-positivismo juntamente com a hermenêutica dogmática constitucional,
ou seja, a força normativa da Carta Política. O direito infraconstitucional começou a ser
analisado sob o ponto de vista de Constituição, isto é, o texto fundamental como centro
de alinhamento e ordenamento, retirando-o dos códigos lá prescritos a posição central da
relações jurídicas, a fator desta natureza então passou-se a nominar de constitucionalização
do direito infraconstitucional.

Se tratando de Brasil, com o advento da Carta Magna no ano de 1988 e com ela o seu
conteudo expressado no constitucionalismo do direito, interpretando assim a tutela
jurisdicional dos direitos materiais e processuais sob a ótica do postulado da dignidade da
pessoa humana, nesse contexto da força normativa, da supremacia da Constituição, surge
o neoprocessualismo, com a constituição assumindo um caráter fundamental, ponto de
partida, para a construção do processo.

A partir da visão do neoprocessualismo¹ como direito fundamental à ordem


jurídica justa, ao processo justo, célere, razoável, eficiente surgem as várias fases de
reformas processuais no Código de Processo Civil (tutela antecipada; sentenças
executivas lato sensu; sentenças mandamentais; tutelas coletivas e específicas; fase do
cumprimento da sentença; súmula impeditiva de recurso, sentenças de improcedência
sem citação art. 285-A, etc.) e reformas no processo constitucional civil, com institutos
avançados e não apenas técnicas processuais como: a) repercussão geral no recurso
extraordinário; b) recurso especial repetitivo; c) súmula vinculante.

A referida lei trata dos procedimentos afetos à admissibilidade e julgamento de


recursos especiais repetitivos, aqueles fundados em idêntica questão de direito (art. 543-C,
CPC); já a repercussão geral, instituto com assento constitucional (art. 102, § 3º, CF), trata-se,
em essência, de delimitador de competência, além, de configurar pressuposto de
admissibilidade recursal (art. 543-A, § 2º, CPC). Os procedimentos de que trata a Lei
11.672/2008, tem por objeto evitar múltiplos julgamentos pelo STJ envolvendo uma mesma
questão de direito; já a repercussão geral tem por objeto firmar o STF como Corte
Constitucional e não instância recursal, tanto assim que incide, indistintamente, na hipótese de
recurso extraordinário solitário e nos casos de recursos múltiplos.

¹ CAMBI, Eduardo. Leituras Complementares de processo civil: Neoconstitucionalismo e Neoprocessualismo. 6ª Ed. Bahia:
JusPodvim, 2008, pág. 154-164.
De outra parte, observa-se duas semelhanças onde:
a) Tanto o procedimento ditado pela Lei 11.672/2008, quanto o instituto da repercussão geral,
convergem para o desafogamento das altas Cortes. Há semelhança pois aproximam a
prestação jurisdicional emanada das instâncias especial e extraordinária, da garantia
fundamental de duração razoável do processo e do princípio da eficiência da administração
pública, insculpidos na Constituição Federal. b) O procedimento a ser adotado quanto aos
recursos especiais repetitivos, ditados pelo art. 543-C, CPC (§ 1º - Caberá ao presidente do
tribunal de origem admitir um ou mais recursos representativos da controvérsia, os quais
serão encaminhados ao Superior Tribunal de Justiça, ficando suspensos os demais recursos
especiais até o pronunciamento definitivo do Superior Tribunal de Justiça), é muito
semelhante ao procedimento relacionado aos recursos extraordinários repetitivos, como se vê
do art. 543-B, CPC (§ 1º -“Caberá ao Tribunal de origem selecionar um ou mais recursos
representativos da controvérsia e encaminhá-los ao Supremo Tribunal Federal, sobrestando os
demais até o pronunciamento definitivo da Corte.”), a diferença é que no caso do recurso
extraordinário, haverá prévio julgamento quanto à repercussão geral, que negada, implicará na
automática não-admissão dos recursos sobrestados (§º 2º).

Assim, o Recurso Especial repetitivo é baseado em decisão prolatada pelo STJ, acerca de
determinado assunto, que acaba por impedir a subida dos recursos fundados em teses
análogas. Já a repercussão geral altera, em si, a aceitação de recursos extraordinários pela
relevância do assunto a ser definida pelo Supremo, por isso, este apresenta requisito de
admissibilidade com disciplina constitucional; quanto ao procedimento no julgamento dos
recursos extraordinários (repercussão geral por amostragem, são as repercussões gerais
repetitivas) e recursos especiais que houver multiplicidade com fundamento em idêntica
controvérsia é que apresentam algumas semelhanças percebíveis na conjuntura do art.
543-B e o art. 543-C. São elas: a) grande número de recursos (extraordinário e
especial) com fundamento em idêntica controvérsia/teses jurídica; b) os tribunais
inferiores selecionam alguns recursos enviam para o STF/STJ sobrestando os demais
até o julgamento definitivo pelos Tribunais superiores; c) ambos admitem a presença
de terceiros, o amicus curiae; d) os tribunais inferiores cujo acórdão recorrido divergir
da decisão dos tribunais superiores podem se retratar, hipótese que se não ocorrer subirão os
Recursos Extraordinários/Especiais, salvo no caso do STF editar súmula vinculante (da
decisão de mérito da questão que tem repercussão geral) no qual o tribunal é obrigado
a retratar-se sob pena de Reclamação ao STF.
Vale observar, quanto aos recursos extraordinários, que se há múltiplos recursos é
porque há controvérsia jurídica importante, em tal hipótese é presumível a existência de
repercussão geral, então configurada pela presença de questão relevante do ponto de vista
jurídico (art. 543-A, § 1º, CPC), o que dispensaria o prévio julgamento desta questão, a
exemplo do que é previsto para hipótese da decisão recorrida ser contrária à súmula ou
jurisprudência dominante do STF (§ 3º, do art. 543-A).

Se o questionamento partir de se a referida lei altera as hipóteses de cabimento dos


recursos especiais podemos então concluir que ela não altera nem as hipóteses de cabimento,
nem os pressupostos de admissibilidade são parecidos, porém distintos.

A repercussão geral destina-se a analisar matérias constitucionais aquela vistas pelo


Supremo Tribunal Federal já; os repetitivos, às infraconstitucionias o Supremo Tribunal
Judiciário já que de certa forma, os repetitvos têm maior semelhança - modus in rebus - com
as súmulas vinculantes.

Em resumo, temos que tanto o recurso especial repetitivo no STJ quanto à


repercussão geral do recurso extraordinário no STF são instrumentos na busca de
salvaguardar a garantia fundamental ao processo justo e de razoável duração, como
direito fundamental dos jurisdicionados.

Bibliografia:

1. CAMBI, Eduardo. Leituras Complementares de processo civil:


Neoconstitucionalismo e Neoprocessualismo. 6ª Ed. Bahia: JusPodvim, 2008, pág. 154-164.

2. JR DIDIER, Fredie. Sítio: www.frediedidier.com.br. Editorial 43 e 39.

3. MENDES, Gilmar Ferreira. COELHO, Inocêncio Mártires. Branco,


PauloGustado Gonet. Curso de Direito Constitucional. 2ª Ed. São Paulo: Saraiva, 2008.

4. WAMBIER, Luiz Rodrigues; WAMBIER, Teresa Arruda Alvim; MEDINA,


JoséMiguel Garcia. Repercussão geral. Breves comentários à nova sistemática processual
civil: leis 11.382/2006, 11.417/2006,11.418/2006, 11.341/2006, 11.441/2007 e
11.448/2007. São Paulo: RT, 2007. Material da 3ª aula da disciplina Direito Constitucional
Aplicado,ministrada no curso de pós-graduação lato sensu televirtual em Direito Público –
Anhanguera-UNIDERP|REDE LFG.