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ADVOCACIA: GRANDEZAS E MISÉRIAS(*)

Meus amigos, boa noite!

I. Como estou a falar perante Advogados, peço


licença para fazê-lo em pé. É um tributo que rendo àqueles
que, na expressão de um engenho feliz, pertencem à “mais
bela de todas as profissões: a Advocacia”(1).

Quero, primeiramente, significar meu profundo


reconhecimento à Ordem dos Advogados do Brasil, Seção
de São Paulo, na pessoa de seu valoroso Presidente, o DR.
LUIZ FLÁVIO BORGES D’URSO, e do Coordenador do
Departamento de Cultura, DR. MARCOS PAULO, pela honra do
convite para privar de vossa companhia nesta noite, para
mim, a mais de um respeito, memorável.

As faixas e cartazes de divulgação do evento


Semana Jurídica anunciam que o conferencista de hoje é
um desembargador do Tribunal de Justiça. É-o deveras,
ainda que dos mais obscuros. No entanto, primeiro que
exercesse lugar na Magistratura — declara-o com orgulho e
muita saudade — foi Advogado.

Permiti-lhe, portanto, a consolação de, estando


entre vós, ser contado também no número dos Advogados!

(*)
Conferência na OAB (Seção de São Paulo), em 8.8.2005.
( 1)
“J’aurais volu être avocat: c’est le plus bel état du
monde” (VOLTAIRE; apud ALBERTO SOUZA LAMY, Advogados,
Elogio e Crítica, 1984, p. 102).
E, para que saibais, meus colegas, que não falo por
metáfora, nem me sirvo de encarecimento retórico, alegarei
com a autoridade do conspícuo EVANDRO LINS E SILVA. Antes
de ser Ministro do Supremo Tribunal Federal, esse grande
vulto foi advogado, sobretudo advogado criminalista.

Indagado, certa feita, durante uma palestra para


jovens, cultos e talentosos como os que estão hoje aqui — a
verdade manda Deus se diga sempre! —, indagado se,
ministro do Pretório Excelso, já se esquecera da Advocacia,
respondeu sentida e elegantemente: “Amo minha segunda
mulher, mas choro todas as noites a perda da primeira”(2).

Estar convosco, por isso, é lenitivo, é bálsamo para


o coração dilacerado deste vosso velho colega, que, embora
desembargador, nunca deixou de ser advogado. A razão é
que, na alma daqueles que a exercem, a Advocacia costuma
imprimir um timbre indelével, um caráter verdadeiramente
imortal!

Desçamos, afinal, ao tema de nosso encontro.

II. Coube ao célebre CATÃO, o Antigo, a glória de ter


definido o Advogado como o “vir bonus dicendi peritus”.
Em linguagem: homem de bem, perito na arte de dizer.

Donde a inferência lógica imediata: deve o


advogado cultivar em grau assinalado a virtude da
honestidade (“vir bonus”, isto é, homem íntegro) e as boas
letras (“dicendi peritus”, ou seja, deve ter a ciência da
linguagem).

(2)
Arca de Guardados, 1995, p. 41.
ULPIANO, ao resumir numa trilogia os preceitos a
que os cultores do Direito deviam atender, aguçou o estilete
e escreveu, para toda a eternidade, em primeiro lugar:
“Honeste vivere ” (viver honestamente). E somente depois:
“Neminem laedere” (não lesar a ninguém) e “suum cuique
tribuere” (dar a cada um o que é seu).

A probidade, portanto, é o apanágio do Advogado!

Dados à lição da História, conheceis decerto aquele


episódio da vida do preclaro vice-rei da Índia, D. JOÃO DE
CASTRO.

Abatida sua fortaleza pelos mouros, e sem recursos


para reedificá-la, escreveu aos vereadores de Goa, em 1546,
pedindo-lhes um empréstimo. De penhor, como nada tivesse
de seu, mandou-lhes um punhado de sua barba. Os edis
devolveram as barbas ao nobre e incorruptível herói
português e emprestaram-lhe a quantia de que necessitava(3).

Esta é a inteireza que deve exornar também a


figura imensa do Advogado!

Mas, perguntará alguém, com acentos de dúvida ou


ceticismo: que me aproveitará a prática extremada da
virtude, se, na concepção do vulgo, é precisamente a
sagacidade (ou esperteza) a pedra-de-toque do advogado?!

A objeção, “data venia”, é especiosa (ou


verdadeira só na aparência)! Que o advogado seja
perspicaz, de agudo entendimento e revele bom tirocínio no
obrar, bem está; o que se não admite nem aplaude é tenha o
talento solerte dos velhacos e o olho vesgo da má-fé,

( 3)
ANDRÉ CRABBÉ ROCHA, Epistolografia em Portugal, 1965,
p. 90; Lello Universal; v. CASTRO (JOÃO DE ).
porque estes predicados, decididamente, não são próprios
dos que abraçaram a “ínclita profissão”.

Era certamente ao advogado honesto que o


notável Min. LAUDO DE CAMARGO, do Supremo Tribunal
Federal, tinha diante de si, quando compôs aquele formoso
elogio: “O nome de certos advogados debaixo de uma
petição é meia prova feita do que está pedindo”(4).

Advogado desse quilate (e ainda trabalhador e


estudioso), por força que triunfará sempre!

Mas porque, segundo o velho adágio, “do


Capitólio de glória à Rocha Tarpéia não vai senão um
passo”, olhe o advogado não venha a precipitar-se no
abismo, pela execrável sede do ouro!

Só de brisa ninguém vive! O vil metal é necessário


ao homem! Tem direito, pois, o advogado ao galardão
pecuniário, à sua verba honorária! Deus o livre, porém, da
tentação de deitar a mão ao dinheiro do cliente, uma das
mais dolorosas e freqüentes tragédias em que tem perecido,
irremediavelmente, grande número de advogados.

Além de desmarcada quebra de caráter, esse


proceder constitui crime (apropriação indébita); tratando-se
de advogado, o tipo é qualificado, com exacerbação da
pena (art. 168, § 1º, do Cód. Penal).

Certas condutas do advogado no exercício da


profissão, ainda que reprováveis, muita vez se relevam e
sofrem de boa mente. O advogado que se agasta com o Juiz
ou com o Promotor de Justiça infringe, pelo comum,
apenas as regras do código de urbanidade. Aliás, veneranda
(4)
ELIÉZER ROSA, A Voz da Toga, 1a. ed., p. 24.
máxima da experiência dos Tribunais franceses dispunha
que “todo advogado tinha o prazo de 24 horas para falar
mal do juiz depois que perdia a causa”(5). Parecia natural e
humano, com efeito, que se cobrisse de vitupérios aquele
que matara o sonho de uma vitória!

Em suma: o advogado que incorreu em falta grave,


por não ter sabido refrear a língua, esse poderá ser
absolvido e mandado em paz; jamais, no entanto, aquele
que lesou o cliente, fraudou a lei e, com dolo e malícia,
induziu em erro o juiz.

III. Sobre ser homem de virtudes, é o Advogado homem


de letras: “dicendi peritus”, hábil no falar e no escrever.

A palavra é sua arma.

“A palavra, dom de Deus, é o mais nobre dos


atributos do homem”(6).

CÉSAR SALGADO, glória do Ministério Público e


exímio cultor das boas letras, teceu engenhoso discurso —
a que denominou A Excelência da Palavra —, no qual
afirma que Deus, antes mesmo de formar os céus e a terra,
criou a palavra, porque “a manifestação inicial da vontade
divina se traduziu naquela expressão de sublime
eloqüência: Fiat lux”(7)! Faça-se a luz! Ordenou, portanto,
pela palavra!

Certamente já vos persuadistes, caros colegas, de


que a palavra, como expressão do pensamento, há de

(5)
ELIÉZER ROSA, op. cit., 1a. ed., p. 17.
(6)
JÚLIO DE CASTILHO, Os Dois Plínios, p. 195.
(7)
CÉSAR SALGADO, A Excelência da Palavra, 1962, p. 5.
merecer a todos nós, pela vida em fora, o mais diligente e
fervoroso culto.

Que coisa, afinal, é cultivar a palavra?

É falar e escrever cada um corretamente sua língua.


É expungi-la dos vícios ou defeitos graves que a ferem de
morte, e que os tratadistas da matéria consideram
solecismo. São os erros inescusáveis de gramática, para os
quais não há perdão judicial.

Será grande desdouro, com efeito, dizer alguém:


“houveram” testemunhas presenciais dos fatos; “fazem”
81 dias que o réu está preso; o policial “interviu” na
discussão, etc.

São despautérios ou disparates sintáticos que


arruínam implacavelmente a mais promissora reputação
literária.

Deve-se dizer:

1) houve testemunhas (e não houveram


testemunhas). O verbo haver, na acepção de existir, é
unipessoal, isto é, somente se conjuga na 3a. pessoa do
singular;

2) faz 81 dias (e não fazem). O verbo fazer, no


sentido de tempo decorrido, não se flexiona; só tem singular;

3) interveio na discussão (e não interviu).


Composto de vir, por ele se conjuga: vim, vieste, veio
(intervim, intervieste, interveio).
Há também os solecismos de prosódia ou
pronúncia. São palavrões contra a gramática ou heresia da
língua:

Não é interim, mas ínterim que se deve dizer.

Ainda:

— Gratuito (não “gratuíto”), circuito, fortuito,


intuito.
— Avaro, rubrica, ruim, recorde, tóxico (cs), etc.

Como evitar esses erros e cincas horríveis, se errar


é próprio do homem?!

Nada mais verdadeiro: todos conjugamos o verbo


errar!

Repetia MÁRIO BARRETO, filólogo de alta estofa, que


“nisto do falar e do escrever, como nas outras coisas, o
bom peca sete vezes ao dia, e setenta vezes sete o mau”(8).

O erro, portanto, é contingência humana: erra o


Juiz, erra o Promotor de Justiça, erra o Advogado.

Até o Supremo Tribunal Federal erra. “Como dizia


NÉLSON HUNGRIA, ele tem apenas o privilégio de errar por
último”(9).

IV. Os vícios combatem-se com as virtudes opostas.

(8)
MÁRIO BARRETO, Através do Dicionário e da Gramática, 1927, p. 185.
(9)
HELENO CLÁUDIO FRAGOSO, Advocacia da Liberdade, 1984, p. 199.
As deficiências de expressão verbal suprem-se com
o estudo aturado da língua e a leitura assídua dos clássicos.

Além de ter sempre à mão uma gramática e um


bom dicionário, devemos conversar amiúde os autores que
se reputam padrão de vernaculidade.

Do séc. XVII, período áureo da literatura


portuguesa, leiamos: MANUEL BERNARDES, LUÍS DE SOUSA e
ANTÔNIO VIEIRA, “O Imperador da Língua Portuguesa”
(FERNANDO PESSOA); nele “morava o gênio”, conforme a
opinião abalizada de ANTÔNIO FELICIANO DE CASTILHO.

Do século XIX não nos esqueçam, principalmente,


esses três vultos notáveis: ALMEIDA GARRETT (1799-1854),
CAMILO CASTELO BRANCO (1826-1890) e ALEXANDRE HERCULANO
(1810-1877), todos escritores exímios. Do último disse o
historiador inglês MACAULAY: “A Espanha devia esforçar-se
por conquistar Portugal só para possuir HERCULANO” (ALVES
MENDES, Discursos, 1897, p. 143).

Dos nossos merecem indicados dois claríssimos


autores, que, acima de todos, como águias voam: MACHADO
(10)
DE ASSIS, o principal romancista brasileiro , e RUI BARBOSA,
de quem fez LAUDELINO FREIRE este singular elogio: “É,
dentre todos os mestres, o maior: é o próprio gênio da
língua. Da mesma estirpe dos SOUSAS, dos BERNARDES, dos
VIEIRAS e dos CASTILHOS, foi de seu povo e de sua época a
mais alta expressão da potência intelectual”(11).

( 10)
“MACHADO DE ASSIS, verdadeiro modelo de boa
linguagem, assim na correção como no gosto” (RUI,
Réplica, nº 74).
(11)
Selecta Classica Brasileira, 1924, p. 132.
O maior de nossos jurisconsultos, RUI foi, entre
nós, quem mais se distinguiu na perfeição da forma
literária, propriedade e riqueza vocabular e valentia da
argumentação. De sua copiosa produção literária são assaz
conhecidas: Oração aos Moços, Parecer sobre a Redação
do Código Civil, Réplica, O Dever do Advogado, Esfola da
Calúnia, etc.

Já vai adiantada a hora; por isso, é tempo de fechar


a abóbada de minha palestra e agradecer-vos, de todo o
coração, meus queridos colegas, a fidalguia com que me
ouvistes.

Muito obrigado! Sede felizes!