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A História mítica enquanto literatura: Platão e a crítica a Homero

G.B.

Resumo: Ao longo da História da Filosofia, vemos, desde os primórdios, a necessidade da legitimação de uma consciência filosófica que admita e explique as perguntas principais e primordiais que afligem o ser humano. Refletir e entender a realidade e aquilo que vai para além dela são, assim, os parâmetros iniciais dessa busca. Partindo disso, a consciência filosófica se reflete em práticas pedagógicas que orientam o homem, desde as questões mais sensíveis até as menos palpáveis. Platão, cuja vida e produção abarcam o período clássico desta civilização, é tido como um dos maiores pensadores filosóficos a tratar de tais questões. Em suas obras, desenvolvidas a partir de diálogos socráticos, discutiu inúmeras questões. Dentre essas questões discutiremos aqui o mito e sua origem e ainda a funcionalidade deste para o saber filosófico.

A história para os antigos: A fonte enquanto vulgata

A História desenvolvida pelos antigos, no que diz respeito ao período denominado Homérico, aborda principalmente narrativas de cunho literário mitológico. Assim, tal período é analisado, na maioria dos casos, a partir de duas obras (Ilíada e Odisséia) atribuídas àquele que nomeia o período, Homero. Essa narrativa histórica embasada em um discurso literário apresenta características divergentes daquelas procuradas e observadas em fontes históricas da atualidade. Segundo Paul Veyne, essa História não teria o “rigor científico” presente na prática histórica atual, caracterizando-se como vulgata 1 e não sendo admitida como produção científica metodológica. Seu reconhecimento está na tradição e no cânone gerado em torno de seu autor.

1 Edição, tradução ou leitura de divulgação popular.

Paul Veyne nos diz:

Segundo esta concepção, a verdade histórica era uma vulgata consagrada pela concordância dos espíritos ao longo dos séculos; esta concordância sanciona a verdade tal como sanciona a reputação dos escritores clássicos. 2

O historiador da antiguidade é a própria fonte e seu discurso é discutido partindo da premissa da verdade factual. Este historiador é uma autoridade enquanto autor e enquanto fonte, pois possui integridade em sua fala. Essa análise reconhecia no próprio autor o fragmento histórico necessário para alicerçar a narrativa:

Um historiador antigo não utiliza as fontes e documentos: é ele próprio fonte e documento; ou antes, a História não se elabora a partir das fontes: elas consistem em reproduzir o que delas disseram os historiadores, corrigindo e completando, eventualmente o que nos dão a saber. 3

Utilizando o argumento veyneano para analisar os documentos que narram o período homérico, encontramos, além da ausência de citações, o elemento mítico durante a descrição dos fatos ocorridos no dito período. Homero utiliza em suas obras a linguagem estética literária, nos apresentando os fatos através de uma pesada carga de mitos. A relação entre deuses e humanos, a presença de monstros mitológicos e diversas outras informações enquadram as fontes homéricas no campo da literatura poética. Homero não narra friamente a guerra de Tróia, por exemplo; ele encanta o leitor através de versos e elementos míticos. Assim, Paul Veyne constata que as obras produzidas a partir dessa estética devem ser tratadas com cuidado, pois possuem uma gama intensa de elementos possivelmente não reais, entre os quais está submersa a realidade dos fatos.

2 ’VEYNE, PAUL. Acreditavam os gregos em seus mitos? Editora brasiliense, São Paulo:

1983. P.17.

3 ‘’VEYNE, PAUL. Acreditavam os gregos em seus mitos? Editora brasiliense, São Paulo:

1983. P.20.

A tradição mítica transmite um núcleo autêntico que, ao longo dos séculos, se foi rodeando de lendas, só estas lendas é que põem

problemas, mas não o núcleo. 4

E ainda:

O paradoxo é por demais conhecido para que seja preciso insistir: se

professarmos que as lendas transmitem, muitas vezes, recordações

coletivas, acreditaremos na historicidade da guerra de Tróia; se as

tivermos por ficções, não acreditaremos nelas e interpretaremos

diferentemente

os

dados

mitos

equívocos

das

escavações

arqueológicas. As questões de método e de positividade pressupõem

uma questão fundamental: O que é mito? É a história alterada?

História engrandecida? Uma mitomania coletiva? Uma alegoria? 5

Assim, a História clássica nos apresenta um problema metodológico de análise. Até que ponto a ausência de fontes e a presença de estruturas mitológicas devem ser consideradas ou negadas? O que foi postulado por Homero constitui uma narrativa histórica? É algo que reflete fatos, a moral ou qualquer outra estrutura que se deveria ser transmitida? Todas essas constatações apontam apenas para um horizonte de análise:

Homero e sua narrativa real ou irreal pertencem ao campo do romance, da literatura mitológica: “A mitologia grega, no fundo, não foi mais que um gênero literário muito popular, um vasto bloco de literatura, sobretudo oral.” 6

A credibilidade do Mito

Para além das possíveis estruturas sociais reais presentes em Homero, existe todo um arcabouço verossímil em suas obras.

4 ‘’VEYNE, PAUL. Acreditavam os gregos em seus mitos? Editora brasiliense, São Paulo:

1983. P.27.

5 ‘’VEYNE, PAUL. Acreditavam os gregos em seus mitos? Editora brasiliense, São Paulo:

1983. P.28.

6 ‘’VEYNE, PAUL. Acreditavam os gregos em seus mitos? Editora brasiliense, São Paulo:

1983. P 29.

O mito homérico, enquanto literatura, apresenta um mundo esplendoroso, no

qual homens interagem com os deuses, compartilham de suas angústias e acabam, assim, por estabelecer um vínculo entre o que é mortal e o que não é.

A “verdade”, tratada por esses relatos, compõe uma narrativa sedutora, que

eleva homens a heróis, como nos diz Paul Veyne:

Esse mundo mítico não era empírico, era nobre. Não parece que as

gerações heróicas tenham cultivado mais as virtudes do que os

homens de hoje; mas tinham mais <<valor>> do que estes, um herói

é mais do que um homem. 7

O crédito dado a tais narrativas, que se postulou como o relato histórico de

uma Época, se deve à capacidade reprodutiva de tais acontecimentos. A tradição oral era a principal mantenedora da narrativa homérica, a qual era

reproduzida como método pedagógico e utilizada para instruir uma população que se mantinha atrelada a mitos de conquista e glória. O conteúdo da Ilíada e Odisséia, quer fosse verdade quer não, encontrava destaque na base de formação do homem grego: o universo intelectual partia da narrativa acalorada

e

não factual, os indivíduos “escutavam do mesmo modo os mitos verdadeiros

e

as invenções”. 8

Esta credibilidade dada ao mito, ao qual não era realizado nenhum julgamento quanto a seu teor para além da credulidade, se dá também pela imagem formada acerca do autor. Homero, Hesíodo e outros, são figuras que foram enriquecidas pela tradição e suas histórias, perpetuadas. Platão, cujo a obra abordaremos com maior profundidade adiante, faz uma crítica a essa consolidação da narrativa homérica a partir da figura do próprio Homero já no início do livro X de A República:

E preciso dizê-lo, embora uma certa ternura e um certo respeito que

desde a infância tenho por Homero me impeçam de falar. Na verdade

parece ter sido ele o mestre e o chefe de todos esses belos poetas

trágicos. Mas não se deve honrar mais a um homem do que à

verdade, mas ao contrário (

9

7 ’VEYNE, PAUL. Acreditavam os gregos em seus mitos? Editora brasiliense, São Paulo: 1983. P .?

8 ??

9 A República - Livro X - 595c

Platão e o lugar da literatura na República

Homero, enquanto cânone de um período, foi contestado e citado em grande parte da produção filosófica da Grécia devido à importância e destaque que suas obras alcançaram. Assim, Platão, filósofo grego que viveu durante o período clássico e que desenvolveu extensa produção filosófica, também é um dos intelectuais que

constroem uma crítica a Homero e a seu mito. Em sua obra "A República", o filósofo constrói através de seus diálogos o que viria a ser a kallipolis 10 , e é nesse contexto que aborda Homero.

A República de Platão comporta uma série de medidas e diretrizes para a

formação de uma cidade moralmente perfeita e de indivíduos esclarecidos e, a partir dessas divagações, aborda a questão pedagógica.

É aqui que Homero se torna visível.

Para Platão, a literatura de Homero possui características que a tornam

corruptível para a sociedade a qual se busca construir do ponto de vista educacional: sua poesia não transmite aquilo que o filósofo julga como correto

e

verdadeiro. Vejamos tal premissa nas palavras de Sócrates:

Tomemos como princípio que todos os poetas, a começar por

Homero, são simples imitadores das aparências da virtude e dos

outros assuntos de que tratam, mas que não atingem verdade. 11

O

filósofo adverte que o exagero e a conduta moral narrada na poesia

homérica ao tratar dos assuntos pertinentes aos deuses e aos homens devem ser banidos da Cidade Bela, pois tais temas não constroem a moral proposta. É

o que exemplifica bem o fragmento abaixo, no qual Sócrates dialoga com Adimanto, defende e se desculpa pela exclusão de Homero do sistema

educacional:

10 Do grego: “Cidade Bela” 11 A República - Livro X - 601a

Quanto a esses versos e todos os semelhantes, pediremos licença a

Homero e aos demais poetas para que não se ofendam se as

eliminarmos. Não que a maioria não as considere poéticas e suaves,

porém, quanto mais poéticas, menos devem chegar aos ouvidos de

crianças e de homens que devem ser livres e recear a escravidão

bem mais que a morte.

Adimanto — Estás com razão. 12

Assim como visto no trecho acima, a postura de Platão acerca de Homero não constitui uma crítica enraivecida, mas um receio de que o modelo para qual o mesmo trabalha seja posto em xeque ao ser exposto aos episódios contados na Ilíada e Odisséia. Platão não considera Homero irrelevante ou mesmo desprovido de estética, mas preocupa-se com a influência de suas obras sobre aqueles que devem constituir uma sociedade exemplar e justa. Um afastamento em relação a Homero é necessário:

"[ ]
"[
]

tendo

reconhecido que o seu amor não era proveitoso, se desligam,

contrariados, é cedo, mas se desligam. Também nós, por um efeito

do amor que a educação das nossas belas repúblicas fez nascer em

nós por essa poesia, estaremos dispostos a ver manifestar-se a sua

excelência e altíssima verdade. No entanto, enquanto não for capaz

de justificar-se, escutá-la-emos repetindo, como um encantamento

que nos previna contra ela, as razões que acabamos de enumerar,

com receio de cair nesse amor de infância que é ainda o da maioria

dos homens. Repetiremos, então, que não se deve tomar a sério uma

tal poesia, como se, sendo ela própria séria, chegasse à verdade,

mas que, ao contrário, é preciso, ao escutá-la, tomar cautela,

receando pelo governo da alma. 13

Faremos

como

aqueles

que

se

amaram,

mas

que,

Essa preocupação com a corruptividade se dá principalmente ao fato de Platão encarar a literatura homérica como uma forma de mimesis 14 , a qual não representa a verdade. O poeta é um imitador e, para Platão, se encontra em terceiro lugar no que diz respeito à realidade. Sua interpretação é distorcida e pouco esclarecida, sendo

12 A República - Livro III - 387b

13 A República - Livro X - 608a 14 Mimesis (µίµησις de µιµεîσθαι) ou mimese significa imitação ou representação em grego.

encarada como "um reflexo do reflexo" 15 . Essa temática é discutida principalmente no livro X da República, no diálogo com Glauco. Vejamos:

Sócrates — Desse modo, o autor de tragédias, se é um imitador,

estará por natureza afastado três graus do rei e da verdade, assim

como todos os outros imitadores.

E ainda:

Glauco — É provável. 16

Sócrates — Aí estão, segundo parece, dois pontos sobre os quais

estamos de acordo: em primeiro lugar, o imitador não tem nenhum

conhecimento válido do que imita, e a imitação é apenas uma espécie

de jogo infantil. Em segundo, os que se consagram à poesia trágica,

quer componham em versos jâmbicos, quer em versos épicos, são

imitadores em grau supremo.

Glauco — Com toda a certeza. 17

Por fim, Platão aponta que o poeta em questão não o é pelo exercício do raciocínio, mas sim por um processo ligado as faculdades sensíveis da alma. Seus versos sedutores se devem à inspiração das musas e não há compromisso com a moral em sua produção. A mimesis aqui presente se prende somente à parte volúvel da alma, aquela que destina-se aos prazeres, ao encantamento :

É evidente que o poeta imitador não tem pendor natural para um tal

caráter da alma, e o seu talento não se importa em agradar-lhe, visto

que pretende salientar-se no meio da multidão. Ao contrário, inclina-

se para o caráter irritável e instável, porque este é fácil de imitar.

Glauco — É óbvio. 18

O historiador Geovane Reali (46446) reforça essa idéia: ( Falta desenvolver a

parte final, na qual reali diz que o mito encanta a parte menos "filosófica" da

15 A cosmologia de Platão define que existe um paradoxo eterno das idéias, no qual todo ser sensível é uma "cópia" daquilo que existe neste paradoxo, onde existe a Idéia perfeita. A literatura seria um "reflexo do reflexo" devido ao seu distanciamento das Idéias, sendo localizada em terceiro lugar no que diz respeito à perfeição da forma.

16

Livro X

17 Livro X 18 Livro X 396

alma e que a filosofia deve ocupar o destaque pedagógico antes dado ao mito

homérico.

O destaque aos poetas: A aceitação do mito na Kallipolis

- Rever título

- Um modelo oposto a esse é o que devemos usar quando falamos e

quando compomos poemas?

- Evidentemente. 19

Platão ao criticar a poesia de Homero em seu conteúdo, abre espaço para que a utilidade da estrutura poética seja pensada. Para Jovelina Maria Ramos de Souza, o descontentamento do filósofo com os mitos compõe uma proposta de remanejamento educacional, na qual a literatura deve estar a serviço de preceitos mais "divinos" do que aqueles abordados em Homero.

"

platônico de restabelecer uma paideía autêntica e politicamente

justa, recuperando valores preconizados pela poesia homérica e, principalmente, revitalizando o papel da própria poesia, enquanto prática e discurso pedagógicos; poesia que, agora com bases filosóficas, se tornaria dianoética, investigadora, filósofa. 20

a condenação de Platão a Homero integra o projeto

[

]

Assim, Platão admite que a poesia possui sua utilidade quando destaca o caráter sedutor dos versos, e propõe que a partir do momento em que a estrutura poética possuísse um saber moralmente interessante, ela seria bem vinda á kallipolis:

Mesmo assim, fique dito que, se a poesia imitativa que vida ao

prazer pudesse apresentar um argumento que prove que é

necessário que ela tenha um lugar numa cidade bem administrada,

19 A República - Livro III - 387d 20 SOUZA, J. M.R. A crítica mimética á mimesis. in : Caderno UFS - Filosofia. Pag. 50

prazerosos, nós a acolheríamos porque temos consciência de que ela

exerce um encanto sobre nós. 21

Quanto a imitação em si, Platão também não a descarta por inteiro mas, argumenta que a educação não deve buscar uma prática mimética e sim, auspícios de liberdade e justiça os quais não fazem ou imitam outra coisa. Ele nos adverte que a mimesis não tem compromisso com a verdade mas que se esta ocorrer não deve abordar tragédias e exagero e sim, valores necessários a construção de um indivíduo sapiente:

Mas, se imitam, que imitem já desde a infância aqueles a quem lhes

convêm imitar, isto é, os corajosos, os moderados, os piedosos, os

que têm nobreza do homem livre e tudo que tem essas

qualidades.Não pratiquem nem sejam hábeis no imitar atos

impróprios de um homem livre. 22

Essa, segundo

qual a poesia é atravessada por princípios dialéticos reproduzindo e aproximando-se do real". 23 É nesse contexto que o mito apresenta sua utilidade em Platão.

SOUZA ( ver ano) - constituiria um tipo de "boa mimesis", na

ano) - constituiria um tipo de "boa mimesis ", na Contruir aqui a parte final, na

Contruir aqui a parte final, na qual Reale indossa essa afirmativa de que o mito

pode ser usada se, contiver conteúdos não corruptiveis.

21 livro X pag 399

22 A República - Livro III -395c 23 pag.